Disclaimer: Twilight é da Stephenie Meyer! Eu apenas faço seus personagens beberem muito e falar bobagem.
Obrigada a Dandara pelas risadas e pelas correções.
Sim, todos os títulos são de reality shows absurdos.
Capítulo 2: De Férias Com o Ex
Bella acordou desnorteada, o sol entrando pela cortina direto em seus olhos. Demorou um minuto inteiro para lembrar que não estava em casa, e sim em uma cidadezinha perto de Atenas que ela já tinha até esquecido o nome.
Pegou o celular e enviou mensagens a Alice e aos pais, com quem tinha falado ontem no ônibus, avisando que já estava alojada em Nea Makri (quando finalmente lembrou como chamava).
Tomou um banho, vestindo-se para fazer sua yoga matinal. O sol era artigo de luxo onde morava, então decidiu aproveitá-lo para estender seu tapete na sacada do quarto. Mas ela não estava preparada para o que encontrou ao abrir a cortina e sair pela porta de correr.
Uma paisagem que a noite havia escondido ontem se revelou, deixando-a estarrecida: o oceano azul, que lá de cima parecia um manto, tão calmo; a enseada com as cadeias de montanhas salpicadas por casinhas brancas; o céu claro arrastando-se no horizonte infinito. Sentia-se no topo do mundo.
Respirando fundo, deixou os olhos se ajustarem a toda a magnitude. A manhã de inverno na Grécia não era congelante como em Londres, e ela sentou-se feliz no tapete para começar. Nunca fez uma saudação ao sol com tanta verdade e empenho. Zafrina, sua mestra de yoga, ficaria orgulhosa.
No entanto, sua paz durou pouco.
— Bom dia, vizinha! — Ouviu quando estava no meio da pose do gato, e quase pulou, eriçada como um.
Virou-se para ver Edward na outra sacada, que ficava a uns dois metros de distância, e irritantemente não possuía divisória de privacidade. Ela bufou, um pouco constrangida por ter sido pega, literalmente, de quatro com a bunda para o ar.
Não que a visão fosse novidade para ele, mas geralmente ela lhe dava consentimento antes.
— Credo, parece assombração — reclamou, lembrando que ontem no avião ele também lhe assustou ao chegar de mansinho.
— Desculpa, eu até fiz barulho, mas você estava concentrada.
— Pois é, estava.
Ela já planejava voltar para dentro, pois precisava de paz e silêncio para o exercício, porém parou tudo ao ver Edward numa calça de moletom e camiseta, estendendo um tapete que ela tinha dado de presente.
— O que vai fazer?
— Ué, não tá vendo? — Ele sentou-se. — Vou ordenhar vaca.
— Grosso.
Ele riu, olhando para ela entre as ripas horizontais do parapeito.
— Desculpa. Mas parece que esqueceu como era nossa rotina de manhã?
— Bom, essa era a minha rotina. Achei que detestasse yoga.
— Detestava, sim, nos primeiros meses, quando você me arrastava pras aulas. — Ele respirou fundo, falando para o sol. — Mas depois que você se mudou e eu parei, meu corpo virou uma bagunça. Não tive escolha, precisei voltar.
— Ah. Tá... — Surpresa, e um pouco orgulhosa, ela assentiu. — Então agora você admite que eu estava certa sobre yoga, e que não era só uma fase hippie?
— Admito que estava certa, eu nunca me senti tão bem. Mas eu disse isso mesmo? Que era uma fase hippie?
— Disse.
— Foi antes das nove da manhã e antes de tomar café? Se sim, é perdoável. Se não... Nossa, que imbecil eu fui. Peço perdão.
— Tudo bem.
— Ei. — Ele apontou a cabeça para a paisagem em frente. — Uma vista e tanto, hein?
— É... Nem acreditei quando vi.
— Quão sortudos nós somos? Eu sabia. Férias na Grécia podem ser maravilhosas, mesmo no inverno.
— Parece que sim...
— Conseguiu descansar bem? Aquele voo te deixou meio abalada.
— Dormi bem, apaguei. Você?
— Demorei a pegar no sono.
— Por quê?
— Muita coisa na cabeça...
Com a resposta, Bella logo lembrou do abraço-quase-beijo de ontem. Esperava que ele dissesse algo a respeito, mas ao que indicava, não diria, e ela não queria ser a pessoa a iniciar essa conversa.
Ficaram quietos, e ela se empenhou em terminar sua sessão de yoga. Tentou por mais alguns minutos, porém não mais conseguia se concentrar.
Não quando seu ex estava lá botando a perna na cabeça em poses avançadas, sendo que há dez meses mal conseguia alcançar os pés. Parecia tão sereno de olhos fechados sob o sol, e impossivelmente lindo com o cabelo mais curto que nunca e a barba por fazer.
Como ele tinha virado isso, e o que mais ela havia perdido?
Tantas perguntas, tantas.
Finalmente, ela desistiu e se levantou, sentindo o estômago roncar. Pigarreou para chamar atenção.
— Acho que vou tomar café da manhã.
— Olha, eu acho que o buffet da pousada já fechou.
— Ah. Então vou procurar um lugar que venda café às dez...
— Você quer companhia?
— Não, tudo bem — respondeu quase sem pensar, e emendou. — Pode terminar a yoga, não vou te atrapalhar.
O rapaz não escondeu o desapontamento. Afinal, se ela não queria companhia, por que então tinha dado satisfação que iria sair? Ela estava agindo estranho, o que era até compreensível, ele concluiu. Restou dar de ombros.
— Bom, até mais tarde, então.
— Até.
Bella se trocou e arrumou a mochila rapidamente, colocando um livro e um casaco, sempre precavida. Enquanto descia as escadas, se perguntou por quê tinha negado a oferta de companhia de Edward tão rápido. Talvez fosse o hábito de evitá-lo por tantos meses. Até quando isso iria durar?
Tinha medo de estar sendo antipática sem motivo, já que ele não tinha sido nada além de cordial com ela nas últimas doze horas. Merda, precisava tanto de um bom conselho, mas duvidava que alguma amiga já tenha passado por situação parecida.
De repente, decidiu dar meia volta, e subiu três degraus para bater na porta dele. Mas logo parou.
E se ele aceitar o convite e quiser ter A Conversa aqui e agora?
Sua barriga roncou novamente, um claro sinal de que não resolveria nada nesse estado. Desistindo, voltou a descer, xingando sua indecisão constante. Angela, a amiga astróloga, diria que era sua bendita lua em gêmeos.
Acabou arranjando carona com a simpática dona da pousada para descer o morro, e foi deixada em uma confeitaria que ficava no centro da cidade.
A fofoca sobre o avião e os passageiros hospedados em Nea Makri se espalhara rápido, e ela virou a própria atração turística enquanto tomava seu café da manhã. A garçonete puxou assunto sobre o ocorrido, e quando viu, havia uma rodinha de curiosos ao seu redor.
Conversar entre os gregos foi um desafio divertido, muitos mal falavam inglês, mas não importava. Ela sabia que a gramática não precisava ser perfeita se a intenção de comunicar-se fosse genuína.
Bella saiu satisfeita da confeitaria com dicas de onde comer e o que fazer no pequeno povoado praiano, além de um pacote de biscoitos tradicionais que ganhou do dono.
Estava perambulando pela orla, olhando os barcos atracados e saboreando os doces, quando avistou Edward tirando fotos de uma igrejinha toda branca na beira da praia.
Seu coração deu um pulo. Havia esquecido dele na hora que ficou passeando, e encontrá-lo ao acaso era algo que Londres não proporcionava.
Não conseguiu deixar de reparar novamente como ele estava tão diferente, e tão mais bonito que sua memória desenhava. Tinha levado um tempo para se acostumar à beleza daquele homem quando se conheceram, e certamente levaria mais dessa vez.
— Essa é a câmera que eu ajudei a escolher? — falou chegando perto dele, que virou-se e sorriu.
— Sim. — Ele mirou a lente para Bella, clicando seus grandes olhos surpresos. Checou a foto no visor, murmurando: — Perfeita.
— Tem que ser perfeita mesmo, foi o olho da cara.
— A câmera? Claro.
— Posso ver as fotos?
— Só se me disser o que está comendo aí, que parece delicioso?
— Uns biscoitos que eu ganhei. Leva mel e nozes, falaram que é tradicional do inverno. Quer provar?
— Uhum. — Ele pegou um, dizendo enquanto mordia. — Espera, eu sei o que é... Makaro...
— Melomakarono. Já conhecia?
— Uma colega do trabalho é de família grega, ela levou pra gente outro dia.
— Colega de trabalho? — Bella estranhou, pois ele não tinha trabalho fixo há anos. — Virou pianista residente em alguma boate?
— Ah, não... Estou dando aula numa ONG. Aquela onde Jasper trabalhou ano passado, que acolhe refugiados.
Ela o olhou, surpresa.
— Sério? Aula de quê?
— Música e coral pra crianças e adolescentes.
Edward parecia tímido falando sobre isso, e o coração de Bella ficou um pouco menos gelado imaginando-o lidando com os pequenos.
— Isso é... tão legal. Professor Edward. Quem diria.
— Para. — Ele riu acanhado, doido para mudar de assunto, e meteu o visor da câmera na sua frente. — Olha. Quero escolher uma pra fazer um pôster...
— Nossa, parece que você fotografou a cidade toda. — Ela notou, passando as fotos. — Estão lindas. Veio andando desde lá de cima?
— Vim de moto. — Ele meneou a cabeça para uma motocicleta estacionada atrás de um banco. — O Alexis, recepcionista da pousada, me alugou a dele até amanhã. Consegui pechinchar, saiu bem barato.
— Suas habilidades de convencimento nunca falham, né. — Bella achou graça.
— Eu me viro.
Ela devolveu a câmera, liquidando o papo dos dois. A contradição de como se portavam na presença do outro, e como suas cabeças funcionavam naquele momento era gritante.
Ambos queriam dizer tanta coisa, porém o máximo que conseguiram foi ficar em silêncio, olhando o horizonte ensolarado. A ansiedade quieta e borbulhante era palpável.
Bella deu um passo para quebrar a tensão.
— Já visitou essa igreja?
— Ainda não... Vamos? Está aberta.
Ela foi na frente. Edward aproveitou para clicar algumas fotos dela, a igrejinha e a imensidão azul como pano de fundo. Perfeita sim, pensou sorrindo para si.
Eles acenaram ao padre que varria o chão, e ficaram por alguns minutos mais em silêncio contemplando a arquitetura do lugar, nada parecido com as igrejas do Reino Unido. Quando saíram, Edward os levou até a moto, guardando a câmera na mochila.
— Então... Estou pensando em explorar algumas praias ao sul fora da cidade — começou, pronto para ser rejeitado novamente, embora já não se importasse muito. Conhecia bem Isabella Swan e sabia que às vezes era necessário persistir. — Quer vir comigo?
— Ah... Sair da cidade? Não acho uma boa ideia. Estou só esperando a ligação da companhia aérea dizendo que já tenho voo pra casa. Não lembra que pediram que ficássemos atentos a isso?
— Claro, mas não acho que eles vão ligar hoje. De qualquer forma, não vou demorar e não pretendo ir longe.
— Não é essa a questão. Eles realmente podem chamar a qualquer momento, teremos que correr pro aeroporto.
Bella o viu suspirando e pegando o celular no jeans para mostrar fotos da nevasca no jornal de hoje.
— Viu? Esse tempo não vai melhorar tão cedo. Aeroportos fechados ainda... Vamos lá, não estou te pedindo em casamento, é só um passeio.
Bella pausou, pois a frase incomodou um pouco, mas relevou.
— Não sei, não, Edward... Você sabe que eu não gosto de sair sem planejamento, a gente não veio aqui pra fazer turismo.
— Nada impede que comecemos a fazer. E quem precisa de planejamento quando temos Google e boca pra pedir informações? Confia em mim, a gente se vira. — Ele subiu na moto. — Vamos?
Sendo honesta, ela estava mesmo doida para visitar a Grécia. Apesar de toda sua preocupação com o voo de volta, e apesar da constante sensação de estranheza quando ficava perto de seu ex.
Não sabia se isso era normal, porém ele era alguém com quem tinha perdido contato há quase um ano, e esse limbo de relacionamentos em que estavam a deixava nervosa.
No entanto, bastou ver a expressão entusiasmada no rosto dele para que se deixasse levar. Edward realmente sabia convencer pessoas como ninguém, especialmente a ela.
Foi ele que a convenceu a se mudarem juntos para um minúsculo e mofado flat, três anos atrás. Ele que influenciou a compra da caminhonete vermelha de décima mão, pois seria um ótimo negócio, mas também ele que a convenceu a aceitar o emprego na faculdade.
Era difícil demais lhe dizer não — nas coisas boas ou nas furadas.
— Tá bom, eu vou. — Suspirou ela, rolando os olhos para sua própria fraqueza. — Mas vai ter que me arranjar outro capacete. E eu não fiz seguro-viagem, então se você correr nessa moto...
— Eu ando devagar, prometo. Sobe aí. Vamos pegar outro capacete com o Alexis.
Bella só se deu conta de que ficaria, literalmente, agarrada a Edward durante horas quando já era tarde demais.
Estavam no meio da estrada, e segurá-lo pelos ombros ou na lateral da moto começou a ficar complicado, então precisou abraçá-lo pela cintura. Nunca pensou que passaria por isso nessa idade, mas ficou bem consciente e afetada com o abdômen mais firme do que ela lembrava sob suas mãos.
— Você tá empenhado na yoga, né? — sua pergunta saiu abafada pelo capacete. Estava morrendo de curiosidade. Ainda assim, sentia-se ridícula.
— É, acho que sim. Por quê?
— Nada não.
Foram as únicas palavras que trocaram no curto percurso até a próxima cidade, Rafina, onde pararam para observar e tirar mais fotos num mirante.
Bella cismou com ele que viu golfinhos — ou talvez fossem tubarões, não tinha certeza mesmo –, e capturou um vídeo para seu padrasto Phil, um oficial da guarda costeira de Washington, que iria amar.
— Tudo é tão lindo — suspirou após uma selfie. — Queria que meu avião tivesse quase caído por aqui no verão, pra eu poder cair nessa água sem congelar minha bunda.
— A gente pode planejar para o próximo verão — ele deixou escapar o que pensava. Bella estranhou.
— A gente?
— Você. Eu. Todo mundo do avião que ficou preso na Grécia. — Ele tentou salvar a gafe. Era difícil não pensar em dupla estando na presença dela.
— Certo...
Ansioso pela troca de palavras atrapalhada, Edward tateou o bolso da jaqueta até achar o item que tinha virado seu companheiro há seis meses.
— Cigarro eletrônico? — Bella se espantou.
— Pois é, parei de fumar. Não reparou que eu não botei nenhum cigarro na boca até agora?
— Sério? Desde quando? — Estava surpresa, só então notando a ausência do cheiro da nicotina nas roupas dele. Quando moravam juntos, todos os seus pertences tinham o mesmo cheiro, ela detestava.
— Desde julho. Foi resolução de aniversário.
— Poxa, parabéns. Como tem se sentido?
— Muito bem... Bom, às vezes um lixo, mas acho que faz parte. A yoga tem me ajudado.
— Viu? Eu falei que ia te ajudar. Se tivesse me ouvido antes...
Continuaram a jornada, passando por mais dois lugares com igrejinhas brancas de frente para o mar, e constataram ser algo comum na região. Numa lojinha de souvenir em Artemida, Edward escolheu uma miniatura de ânfora grega para a mãe, e depois compraram o almoço num quiosque.
E que seus amigos londrinos não ouvissem isso, mas foi o melhor peixe com fritas que já comeram, ambos concordaram.
Chegando ao município de Brauro, foram instruídos a visitar o Museu e Sítio Arqueológico com o santuário de Artemísia, deusa da caça. Bella insistiu que fossem. A mulher não era apenas professora e amante de Literatura, como também uma perfeita nerd de História e Mitologia.
Já estavam quase no final da exposição, quando avistou um vaso com a imagem de outra figura mitológica, Dánae, e Bella ficou petrificada.
Parada em frente ao pedestal iluminado, ela quase chorou.
Era a figura que tinha escolhido para ser sua primeira tatuagem, que fizera esse ano, e tinha tanto significado para ela. Quando imaginaria que fosse encontrar isso pelo caminho, tão aleatoriamente?
Se perguntou se era um sinal do Universo. Tentou entender qual.
— Tá tudo bem? — Edward reparou que ela tinha ficado tempo demais olhando um vaso.
— Tá...
— "Ânfora com pintura da princesa Dánae, a virgem engravidada por Zeus através de uma chuva de ouro. 350 – 360 a.C.", — ele leu a inscrição. — Ei. Essa não é aquela que Klimt pintou? Mãe de Perseu?
— É sim. Minha tatuagem.
— Sua o quê?
Sem uma palavra, ela levantou a manga comprida para mostrar o desenho na parte de trás do braço direito, acima do cotovelo.
Edward ficou boquiaberto. Sabia que ela odiava agulhas e que o mero pensamento de uma lhe dava arrepios. Bella nunca o acompanhou quando fez as dele, isso já tinha sido até motivo de briga.
— Não acredito! Como isso aconteceu? Estava chapada?
— Não. — Ela franziu o cenho. — Só estava entediada e querendo testar coisas novas... Bom, talvez eu tenha tomado uma tacinha de vinho antes, mas fiz tudo consciente...
Edward analisou a tatuagem. Uma jovem de cabelos longos e ondulados deitada de lado em sua cama, nua e com as pernas levemente levantadas enquanto uma torrente de ouro caía entre elas. O seio e a coxa farta chamavam atenção, além de seu rosto suave, de olhos fechados, a imagem do prazer.
Era a pintura de Gustav Klimt, um de seus artistas favoritos — o qual ele mesmo apresentou à Bella quando se conheceram.
— É A Fecundação de Dánae, certo?
— Isso.
De repente, o rapaz começou a sacudir a cabeça, rindo, incrédulo no que acontecia. Bella o olhou, confusa e um tanto ofendida.
— Tá rindo de quê?
— Parece até que a gente combinou... — Ele levantou a sua própria manga para mostrar o antebraço esquerdo adornado por uma tatuagem longa em preto e branco.
Era um outro desenho de Klimt: uma frase em alemão acima da mulher nua de cabelos negros segurando um espelho. Abaixo dela, uma inscrição em latim, Nuda Veritas. A verdade nua.
Se Bella já estava mexida com a coincidência de encontrar no Museu a deusa que levava na pele, agora ficou muito mais. Não apenas por terem escolhido tatuar um artista favorito de ambos, mas por ser aquele um laço que atava tantas memórias na história do casal.
Os livros de arte presenteados, as conversas sobre teorias e interpretações, os museus visitados.
O primeiro beijo.
Acabou sendo transportada para cinco anos atrás, dentro de uma exposição do artista austríaco em Londres. No olho da sua mente, via os dois jovens animados e assustados com toda a novidade acontecendo em suas vidas.
— Eu já tinha visto alguma coisa dele em uma matéria na faculdade, mas nunca me aprofundei. Gostei muito, viu — ela dissera, no meio do corredor com as obras de Klimt. — Essas obras do início do século 20 são meio nostálgicas pra mim... Tem um glamour, uma sensualidade discreta, até nas figuras nuas. Faz sentido?
— Total. A sensualidade tava bem presente nesse período. Bom, sempre esteve em todos os períodos, o mundo gira em torno do sexo, né. — Ele riu sem graça. — Mas eu entendo essa nostalgia, também sinto. Eles eram românticos, porém menos ingênuos que a geração anterior. Olha só.
Ele mostrou o desenho de uma moça toda vestida, com exceção de uma fenda entre as pernas abertas, por onde ela se tocava.
— Uuhh, polêmico. Imagino que tenha sido um escândalo em 1913?
— Com certeza. Mas olha como o rosto dela é sereno?
— Aham. Parece tão à vontade.
— Sim. É pornografia desenhada, mas não parece agressiva ou vulgar. Ele naturaliza a sexualidade... Gosto disso nesses artistas.
Por um momento, Edward temeu ter dito demais, achando que ela se ofenderia por ele estar falando de sexo em obras de arte, como um nerd tarado.
— Também gosto — Bella concordou, e ele relaxou um pouco. — Sabe, fico meio incomodada quando as pessoas fazem um grande circo da sexualidade... É algo fascinante, claro, mas é natural, não deveria chocar tanto.
Edward adorou poder falar do assunto de forma tão madura e confortável. Ela parecia estar mesmo gostando do passeio. Primeiros encontros sempre o arrancavam de sua zona de conforto, então tinha escolhido levá-la a um local que o acalmava.
Ela era especial, essa garota. Edward estava tentando fazer de tudo para não dar uma bola fora. Por enquanto, funcionava.
Caminharam mais, e ele contou um pouco sobre as influências do artista e teorias que aprendeu na faculdade de Artes. Bella gostava de ouvi-lo falar. Tinha uma voz agradável que não dizia coisas da boca para fora, sem arrogância para mostrar que sabia tudo o tempo todo — isso já lhe garantia mil pontos.
Mas ainda assim, a moça acompanhava com cautela aquele homem, que devia ser o mais atraente que já vira.
Trazê-la num museu era manobra batida. Aos 25 anos, ela já não caía mais na tentativa dos pseudo-artistas de impressioná-la com conhecimento e habilidades. Ainda estava descrente que um indivíduo tão lindo pudesse ser tão interessante assim. Ou mesmo, que pudesse estar realmente interessado nela.
Ficou por um tempo buscando algum defeito, e não achou nenhum aparente. Seu colega de trabalho, Carlisle, a pentelhou por meses sobre o amigo americano que queria apresentá-la, e era só elogios. Mas alguma coisa ele devia ter.
Será que era doido? Ou tinha um terceiro mamilo? Deus, será que ele não cortava as unhas do pé?
— Te dou um doce pelos seus pensamentos — Edward notou a moça calada.
— Com que frequência você corta as unhas do pé?
— Oi? — Ele riu alto da pergunta aleatória.
— Não questione, por favor, só responda — pediu meio envergonhada.
— Toda semana, eu acho. Está bom?
— Perfeito.
— Nunca me perguntaram isso no primeiro encontro... Ou na vida. Obrigado pela curiosidade.
— Disponha. — Ela desviou os olhos, um pouco arrependida de sua impulsividade.
Edward sorriu vendo que ela estava tão nervosa quanto ele. Sentiu vontade de tocá-la, e, sem cerimônias, segurou a mão dela para guiar pelo resto da exposição.
Bella não só aceitou, como adorou saber que a mão do rapaz estava tão gelada e suada quanto a dela. Gostava de se afirmar como uma mulher independente e muito confiante, mas a verdade era que na área do romance ainda se parecia muito com a menina tímida do interior que só deu o primeiro beijo aos 18 anos.
— Essa aqui parece comigo — comentou ao ver um desenho de uma moça de pé nua, de cabelos pretos longos e rosto angular, imponente e frágil ao mesmo tempo.
— Ah, ela é linda, mas você não vai querer se comparar a ela.
— Por quê?
— Esse foi um estudo dele sobre Górgonas que representavam o sofrimento humano.
— Górgonas? Como a Medusa?
— Isso.
— Oh. Dramático. Quem eu poderia ser, então?
— Ahm... Não sei, talvez alguma outra figura mitológica ou bíblica que ele pintou. Ou talvez...
Eles pararam em frente a única obra que Bella já conhecia antes, o quadro mais famoso da exposição e, consequentemente, lotado de curiosos em frente.
— "O Beijo"? Esse eu conheço.
— Eu sei, eu sei, é clichê. Mas essa não é a obra de arte mais delicada, honesta e carinhosa que você já viu? E é a mulher que transmite todo o simbolismo da obra no corpo e na expressão dela. Tão linda e poderosa, sem ela o quadro não faria sentido.
— É lindo mesmo... Mas acho que só posso ser ela se eu tiver um parceiro do lado, e aí já fica complicado...
— Bom, talvez você já tenha um.
Seu coração acelerou, tal como o dele. Bella sorriu para disfarçar, virando o rosto para encará-lo, pensando, Porra, ele é bonito de verdade. Qual loteria eu ganhei?
Lentamente, seu sorriso se alargou.
— Isso tudo foi um complô pra conseguir me beijar?
— Não. — Ele riu da espontaneidade dela. — Tudo que eu disse foi cem por cento sincero. Mas se funcionar pra isso...
Sentindo-se corajosa, Bella subiu as mãos para os ombros dele, e chamou.
— Vem cá pra eu testar uma coisa?
Seus lábios se tocaram e todo o nervosismo, aos poucos, foi dissipado. Era mesmo o mais clichê que eles poderiam agir nesse museu movimentado, mas nenhum dos dois se importava.
Foi delicado, honesto e carinhoso. O melhor primeiro beijo que já tiveram, daqueles de arrepiar dos pés à cabeça, e tudo o que Bella queria agora era levá-lo para sua casa e continuar beijando-o sem roupas até amanhecer.
— Fala alguma coisa — Edward pediu, fazendo Bella voltar ao presente, olhando a tatuagem dele.
— E-essa é nova.
— Sim, fiz mês passado.
— Ficou muito boa.
— Obrigado. A sua também. Ainda não acredito, você realmente foi lá e se tatuou.
— Pois é...
Ela ficou um pouco aérea pelo resto do passeio no Museu. Calada no seu mundinho, encantada com tudo ao redor, ela buscava decifrar logicamente o que havia se passado e sentido ali. Edward notou que estava pensativa, mas deixou que ela tivesse seu momento. Tinha certeza que ela falaria alguma hora, era sempre assim.
Caminharam um pouco mais até decidirem que já ficava tarde e deveriam partir de volta a Nea Makri, antes que ficasse frio demais na estrada.
Dessa vez, Edward colocou a mochila na sua frente, de propósito, e nada inocentemente, para que Bella o abraçasse de verdade. Sabia que ela tinha ficado tão afetada com a proximidade quanto ele, e queria aproveitar seu calor o máximo possível.
Chegaram antes do pôr do sol.
Quase não tinham falado durante a viagem, ambos com a mente cheia de reminiscências sobre o passado recente e tatuagens coincidentes. Já se aproximavam da entrada para o morro da pousada, porém Edward não estava pronto para deixá-la voltar à reclusão do quarto e da noite.
Ele parou a moto, tirando o capacete.
— Algum problema? — perguntou ela, tirando o seu.
— Nenhum. Mas se você quiser ir jantar e beber alguma coisa, a gente pode ir direto...
Ela abriu a boca para rejeitá-lo mais uma vez, e fechou, mudando de ideia. Já haviam ficado o dia todo juntos, e mesmo assim, ela evitara ao máximo aprofundar o papo para além de elogios às experiências que compartilharam na curta viagem.
Não tinha mais como fugir.
— Pode ser. Mas queria me trocar antes, estou meio nojenta.
— Está não, prometo. Vamos agora, acho que a gente merece ver esse pôr do sol.
Ela tentou esconder o sorriso, porque seu ex continuava charmoso como o diabo. Ele podia falar muita besteira, mas quando queria, sabia dizer a coisa certa, na hora certa.
— Ok... — concordou. — Me falaram de um restaurante perto da praia, vamos perguntando o caminho.
O restaurante ficava, literalmente, na borda do mar, e eles sentaram na mesa colada a imensa parede de vidro, fugindo do vento frio da varanda. Não deixava de ser uma visão espetacular, e o murmúrio suave das ondas criava a ambientação perfeita.
— Por algum motivo, eu sabia que você algum dia tatuaria Nuda Veritas. — Bella falou, entregando ao garçom o cardápio após fazerem os pedidos. Edward franziu o rosto para o comentário.
— Eu sou tão previsível assim?
— Um pouco. Mas eu gosto dessa imagem, e tem tudo a ver com você... Como é mesmo? — ela perguntou, tentando lembrar do que dizia a frase em alemão.
— "Se não conseguir agradar a todos com seus atos e sua arte, se contente em agradar só algumas pessoas. Agradar a todos é ruim" — ele recitou. — Achei que precisava ser lembrado disso constantemente. Nem sempre eu estarei certo e nem sempre vou agradar, principalmente com a minha arte, e isso é normal. Depois da nossa discussão… Aprendi a lição.
— Que bom. — Bella sorriu, contente por ver que ele havia tirado algo da pior briga que tiveram em suas vidas.
— E você? Escolheu logo Dánae por quê?
Ela deu de ombros, acanhada. Até agora, só seu terapeuta sabia o motivo de gravar na pele aquela imagem. Era algo tão íntimo.
— Eu sei que é meio cafona, mas só conseguiria fazer uma tatuagem se tivesse um sentido real pra mim... — Suspirou, tentando esconder a timidez ao brincar com os dedos no suor da taça de vinho. — Acho que ela representa as transformações que passei esse ano.
— Quais?
— Você vai achar bobo.
— Eu nunca acharia bobo alguma coisa tão importante pra você. Pode falar.
A sensibilidade de Edward fez seu coração aquecer. Por uns momentos, buscou uma forma de sintetizar meses de crescimento pessoal em poucas palavras. Tinha sido uma jornada dura, necessária, porém sem dúvidas, feliz. Respirou fundo.
— Ah... Essa imagem me diz muito sobre renascimento, mas de uma forma íntima e feminina. Foi mais ou menos como meu processo de autodescobrimento.
— Como assim? Tem a ver com o mito da Dánae?
— Um pouco. Eu só fui pesquisar a história dela depois de ter me apaixonado pela pintura.
— É muito linda mesmo.
Bella ergueu seu suéter para admirar a tatuagem.
— Sou apaixonada pela feição, pela pose dela, o corpo cheio de curvas, parece tão real… Você conhece essa história da Dánae?
— Só sei que é mãe de Perseu.
— Então. Ela vivia escondida, enclausurada numa masmorra pelo próprio pai, mas mesmo assim Zeus se apaixonou por ela, e conseguiu fecundar Dánae através de uma chuva de ouro sobre seu sexo. Dánae era virgem e continuou.
— Uma coisa meio Maria e Jesus, só que com um pai abusivo e um pouco mais érotica.
— Tipo isso. — Ela riu, olhando o fundo da sua taça. — Mas no fim, foi exatamente o que libertou Dánae. Quando o pai soube, jogou ela e o bebê ao mar. Eles foram resgatados, se libertaram… O bebê, Perseu, veio a ser um grande herói. Enfim, é um mito que ensina que sem a chuva, nenhuma semente floresce. Foi assim comigo.
— Eu fui a sua chuva? — ele perguntou bem sério, quase irreconhecível.
— Um pouco. E outras questões que vieram a tona nesse meio tempo.
— Alguma coisa a ver com seu pai também? — ele chutou. Na mosca.
— Também. Começar a entender como a ausência dele mexeu comigo tem me libertado — respondeu, e suspirou. — Acho que a tatuagem retrata um momento muito íntimo dessa mulher, e foi assim que me senti. Ficar sozinha me permitiu mergulhar em mim. Às vezes, achando lodo, às vezes achando ouro. E mesmo no meio desse sofrimento, consegui encontrar prazer, como Dánae nessa pintura…
— Isso é lindo, Bella.
A professora ficou encabulada, de repente. Edward sempre a olhava fundo demais, enxergando muito além do que ela queria mostrar. Desviou-se dele para terminar seu discurso.
— É… Parece que dei à luz a uma nova Bella. Marcar esse tempo na pele foi o que eu precisava pra fechar um ciclo, sabe?
Sim, ele sabia.
Também havia passado por uma evolução parecida, porém Bella conseguia expressar os sentimentos em palavras muito mais bonitas, como ele jamais conseguiria.
Talvez pela milésima vez em todos esses anos, ele se viu maravilhado pelo que ela tinha a dizer. Bella sempre foi absolutamente linda a seus olhos, mas sua mente era o que o fazia cair em seus encantos.
Desejou que este exato momento durasse por muito mais tempo — que o pôr do sol se estendesse e ele pudesse ouvir as ondas mescladas com as palavras de Bella, até que ela contasse os detalhes do tempo que estiveram separados.
— Agora entendi porque ficou tão mexida quando encontramos aquele vaso no Museu de Brauro.
— Sim. Acho que foi bem simbólico. Um acaso feliz.
— E o que mais mudou desde fevereiro? Além da tatuagem e da franja que sumiu?
— É, cansei dela. — Bella passou a mão em seu corte de cabelo mais longo em anos. — Bom... Eu peguei mais turmas na faculdade, e estou em um projeto de extensão sobre literatura feminina com algumas professoras, está tendo boa repercussão... Comecei a ser chamada para trabalhos fora da cidade por conta disso, tenho viajado.
— E assim, veio parar em Alexandria.
— Exato.
— E fora o trabalho?
— Estou fazendo terapia.
— Por quê?
— Por que não? Tem me ajudado a me conhecer melhor. A parte do autodescobrimento e tal...
— Entendi.
Ele se calou, fitando-a por uns instantes. Bella reconheceu aquele olhar inquieto.
— Que foi? Fala.
— Nada.
— Fala, eu sei que você quer dizer alguma coisa.
— Ah. Sei lá, fiquei curioso pra saber o que você descobriu nessa terapia.
Bella riu suavemente, sacudindo a cabeça.
— Sempre fofoqueiro, né?
— Até parece que você não gosta de uma boa fofoca também.
— Eu apuro fatos, é diferente.
— Sei.
— Mas de qualquer forma, a terapia é secreta.
— Eu sei. Estou só te enchendo o saco, não precisa contar... Mas se quiser, pode.
E ela queria. Essa era a verdade.
Não lembrava de ter compartilhado essas coisas nem mesmo com suas amigas. No entanto, sentia que Edward tinha uma pequena parte nesse processo, merecia saber.
Suspirou.
— Eu descobri que sou muito mais complexa do que achava.
— Ah, mas isso eu já sabia. — Ele sorriu. — Não somos todos?
— É, mas eu não sabia como e o quanto.
Ela bebeu mais um pouco, criando coragem. Terminou a taça, e Edward serviu mais enquanto comiam a salada de entrada.
— Como assim?
— Meu ciúme, por exemplo. É um alívio ter conseguido entender de onde vem. Estou tentando melhorar.
Edward encarou, surpreso. O ciúme dela tinha sido uma das coisas que ele havia jogado em sua cara. Um dos poucos defeitos que realmente o incomodavam. Ficou contente em saber que ela finalmente tinha admitido.
— Que bom. Você é boa demais pra isso.
— Eu sei. Agora eu sei. Pode não parecer, mas sempre fui meio insegura, e descobri que muito do meu ciúme vem daí.
— Mas você é uma das pessoas mais confiantes que eu conheço. Não tem motivo pra ser insegura.
— Não é tão fácil assim. Eu posso ser confiante no trabalho e pra me virar na rua, mas na vida pessoal é diferente. Com meu pai saindo de casa cedo, minha mãe obcecada por trabalho, você sabe, eu praticamente me criei sozinha... Sempre fica aquele medo de ser abandonada, esquecida, e isso reflete nos meus relacionamentos.
— Entendo perfeitamente. Mas você acha que ainda reflete, mesmo depois da terapia?
— É um processo lento. Fora que ainda não tive oportunidade de testar de fato o quão ciumenta eu continuo ou não.
— Então... — Edward aproveitou o gancho. — Isso significa que não teve ninguém desde que a gente...?
— Ah. Éh...
— Desculpa, estou me metendo onde não devo, eu sei. Não devia ter perguntado.
— Não, tudo bem. Eu também estou curiosa sobre isso, pra ser sincera — ela admitiu, o que o tranquilizou. — Tive alguns encontros com caras do Tinder, mas a verdade é que minha vida social esse ano foi tomada pelo trabalho. Não tive nada sério. Ser uma mulher hetero solteira e trabalhadora é bem difícil. E você?
— Bom, eu só saí com uma pessoa a sério. Mas já tem dois meses que não nos vemos. Acho que ela não gostou muito quando eu cortei o cabelo, era superficial desse jeito.
— Ah, sobre isso. Posso saber por que cortou? Parece que participou da transformação do Queer Eye, eu quase não te reconheci.
Edward riu de verdade dessa vez. Aquele mesmo riso abandonado que ela tinha escutado no voo e sentido falta na sua memória.
— Cortei depois de começar a trabalhar na ONG. — Ele mexeu no cabelo. Bella refreou a vontade de esticar o braço e fazer igual. — Eu mesmo demorei um tempo pra acostumar, imagina o resto do mundo.
— Mas não tinha nada de errado com seu cabelo antes. A ONG que pediu?
— Não, mas eu estava sentindo que ninguém me levava a sério como um cara de trinta anos com visual de jovem poeta emo. Achei que precisava de um visual que impusesse mais respeito entre as crianças.
— Entendi... Ficou muito bom. É legal ver o seu rosto à mostra.
— É legal ver seu rosto também.
Dividiram um olhar de contentamento por uns segundos, que acabou ficando intenso demais para Bella, e ela arrumou logo outro assunto.
— Nossa, eu nunca pensaria que você tinha vocação pra professor.
— Não sei se tenho. Mas por eles eu faço um esforço...
— Está gostando?
— Muito. Está sendo uma experiência que eu não esperava, trabalhar com refugiados. Todo dia aprendo uma coisa nova. Ouço cada história... É de fazer as prioridades internas mudarem mesmo, sabe?
— Imagino. Há quanto tempo está lá?
— Desde junho.
— Não fazia ideia que você estava trabalhando lá. Saí com Alice e Jasper outro dia e ele não comentou nada. Quer dizer, não que eu estivesse esperando que comentasse, mas...
— É, não é algo que eu saia anunciando por aí, Jazz sabe disso. Acho que pouca gente sabe que estou na ONG. Sei lá, não quero parecer que sou o herói da nação em cima do sofrimento alheio. Sabe aquele tipo de pessoa insuportável que faz um trabalho de caridade e fica contando vantagem pra massagear o ego?
— Falsos altruístas. Claro, faz sentido. — Ela assentiu. — E o que mais você tem feito?
— Continuo tocando nos clubes. Apesar de que, o salário da ONG está sendo muito bom, tenho tocado mais por hobbie... E escrevi duas peças, uma está sendo produzida por eles, inclusive. Os adolescentes vão fazer um musical.
Os olhos de Bella brilharam. Nunca imaginaria ouvir tudo aquilo do mesmo homem de dez meses atrás.
— Sério? Eu quero assistir!
— Você vai receber um convite.
— Vou aguardar.
— Por falar em convite... Queria ter estado nos seus trinta anos em setembro — ele disse, e resolveu acrescentar com a voz insegura. — Espero que tenha gostado das flores.
Bella lembrou-se da surpresa que teve e de como aquele gesto lhe deixou balançada. Foi o único contato real que eles tiveram nesse tempo.
Sorriu discretamente.
— Eu adorei. Só não liguei pra agradecer porque estava viajando. — ela mentiu, pois não teve mesmo coragem de ligar. — Desculpa por perder os seus trinta anos também. Falaram que foi um festão.
— Memorável. — Ele concordou com a cabeça. — Principalmente pela ressaca infernal no dia seguinte que me deu um gostinho de como é a vida depois dos trinta.
— E como é?
— Ladeira abaixo.
— Seu pessimismo é encantador.
— Realismo, é diferente.
A comida chegou, e eles se calaram para forrar a barriga. Era tudo delicioso e cheiroso demais para ser verdade.
Continuaram conversando e bebendo até a noite ficar gelada. Dividiram mais uma garrafa de vinho, e o papo lentamente foi tomando a forma dos cérebros inebriados dos dois.
Riram muito vendo algumas fotos desse ano, recontando histórias que haviam perdido da vida do outro durante a separação. Bella tinha o péssimo hábito de beber rápido demais quando a conversa fluía bem, e acabou tomando metade da segunda garrafa sozinha.
O dono do restaurante, vendo a dupla entusiasmada na mesa, ofereceu uma pequena garrafa de Uzo, uma bebida à base de anis que era tão doce quanto forte.
— Para o casal. — O senhor sorriu. — Por favor, aceitem como presente de Lua de mel?
— Lua de mel? — Bella quase engasgou, já alterada. — Por que todo mundo acha que a gente—
— Obrigado, Sr. Nikos. — Edward cortou antes que ela fizesse a besteira de dispensar uma cortesia. — Quanta gentileza. Nós aceitamos. Parece deliciosa, é tradicional daqui?
O senhor de cabelos brancos começou a contar sobre a fabricação, servindo-os a dose em dois copos pequenos com gelo e água. Bella se aproximou de Edward para sussurrar.
— Não sei se é uma boa ideia misturar… Já bebi tanto vinho.
— É só uma prova. Não vamos fazer desfeita, vai. — Ele ergueu o copo, perguntando como brindar em grego.
— Evíva! — o Sr. Nikos respondeu.
— Evíva! — eles replicaram, mandando o drinque para dentro.
Edward quase cuspiu de tanto tossir. Bella achou delicioso e agradeceu, rindo da reação do rapaz junto com o Sr. Nikos, que explicou que era normal na primeira prova da bebida. Eles conversaram um pouco sobre o passeio que tinham feito na região enquanto bebericavam o Uzo.
— Nossa, isso é bom de verdade. — Bella terminou seu copo primeiro, mais rápido que o recomendado. Pegando a garrafa, ela analisou o rótulo, como se fosse entender a língua. Sorriu para o Sr. Nikos. — Obrigada, o senhor é mesmo muito gentil. Gostei muito.
Quando o anfitrião finalmente foi embora, Edward pôde soltar a careta que prendia e reclamar.
— Argh. Forte demais. Posso limpar meu carro com isso.
— Você tem carro desde quando?!
— Desde o mês passado.
— É um carro de verdade ou é igual aquela caminhonete horrorosa que você me mandou comprar?
— Um Volvo de 2008.
— Uhh. Muito adulto. Parabéns! Vamos, mais uma dose pra comemorar.
— Não, estou de boa.
— Que está de boa, o quê? Passa esse copinho pra cá, anda.
— Nem pensar.
— Por quê? Ah, deixa de ser estraga-prazeres.
— Porque já tomei demais, e você também. — Ele olhou o rótulo. — Meu Deus, trinta e oito por cento de teor alcóolico? Isso é legal?
— Sabe o que você é, Edward Cullen? — Ela deixou escapar um pequeno arroto. — Um adulto velho e chato que só aguenta cerveja.
Ele riu.
— Isso devia ser um insulto?
— Para de rir de mim, foi você que aceitou o presente de lua de mel. Coisa mais besta — falou, roubando o copo e preparando mais duas pequenas doses com a água e o gelo que haviam deixado na mesa. — Vamos, me ajude a terminá-la.
— Ok, vamos terminá-la sim. Mas em Londres. — Ele pegou a garrafa da mão dela para fechar, colocando na mochila. — Acho que já bebemos o bastante por hoje. Esqueceu do que eu disse? Ressacas aos trinta anos são infernais e eu não pretendo visitar o capeta amanhã.
— Desde quando você é tão responsável assim? Eu que sou a responsável aqui.
— Só quero evitar o pior. Você não fez seguro-viagem, lembra?
— Você é muito chato quando está sóbrio.
— Não, não estou sóbrio. Só um pouco mais que você.
Ela enfiou o copo na cara dele, que teve que pegar.
— Evíva! — berrou antes de praticamente forçá-lo a tomar a dose derradeira.
Edward nunca andou tão devagar e concentrado numa moto.
Nem tinha lembrado desse detalhe quando pediu vinho, e agora achava que era melhor ter pedido um táxi. Felizmente, o caminho não era longo e Nea Makri era quase uma cidade fantasma à meia noite, o tráfego todo livre. O problema maior era a passageira que não se comportava.
— Não dá pra ir mais rápido nessa joça? — perguntou desnecessariamente alto no capacete. — Estou morrendo de sono.
Estava mais agarrada do que nunca a Edward, com a cabeça encostada em suas costas. Tudo rodava. Mas era divertido. Fazia anos que não se sentia tão livre e jovem assim. Sabia que devia estar pensando responsavelmente em algo, mas nada parecia tão importante agora.
— Vai demorar? — indagou.
— Só faltam três quadras.
— Ok.
— Bella?
— Hm.
— Será que pode parar de beliscar minha barriga?
— Ops. Desculpa — ela riu, então percebendo o que fazia. — É porque estou meio preocupada.
— Com o quê?
— Onde foi parar a barriguinha de chopp? Poxa, eu gostava.
— Oi? — ele riu.
— Esquece.
Eles fizeram uma curva. Depois outra.
E não demorou muito para que todo o vinho e o Uzo começassem uma revolução no estômago de Bella.
— Ah não. Para. — Ela bateu no ombro dele. — Para agora, Edward!
Pararam. Foi só o tempo de tirar e jogar o capacete nas mãos dele, para dar um passo e se debruçar sobre o canteiro verde, vomitando todo seu jantar.
— Merda — o rapaz xingou, cambaleando ao tentar deixar a moto em pé.
Ficou ao lado dela olhando para longe, esperando que terminasse, e torcendo para ele mesmo não sentir enjoo. Não era a primeira vez que se viam nessa situação, mas nunca era agradável.
— Não! — ela choramingou, se erguendo. — Adeus, meu moussaka.
— Nojento, Bella.
— Mas foi tão gostoso. E tão caro.
— A gente come outro amanhã. — Ele pegou uma garrafa d'água na mochila. — Toma, vai se sentir melhor agora.
— Não acredito que é a segunda vez que eu vomito com você por perto em dois dias.
— É um adorável efeito que eu tenho sobre você, olha que romântico.
— Pelo menos meu cabelo tava amarrado por causa desse capacete xexelento.
— Anda, já consegue subir na moto?
— Espera. — Estrategicamente, pousou uma mão sobre o abdome dele, que somente revirou os olhos. Ela respirou fundo, não mais sentindo enjoo. — Tudo bem.
Subir o morro da pousada foi um desafio, mas eles conseguiram. Subiram as escadas para o quarto devagar, Bella segurando o corrimão como se fosse sua boia salva-vidas. Edward só queria tirar a roupa e dormir, estava realmente exausto, porém não tinha coragem de deixá-la sozinha para se virar nesse estado, pior que o dele.
Ao abrir a porta para ela, foi surpreendido por um abraço desastrado.
— Obrigada — ela tentou sussurrar. — Por tudo essa noite. E hoje. Foi muito legal. Apesar de que você podia ter me impedido de beber tanto.
— Eu tentei... — respondeu, se afastando quando ela segurou seu pescoço com mais força que o necessário. — Precisa de ajuda pra alguma coisa agora?
— Não, tudo bem.
— Ok. Se precisar, pode chamar.
— Tá bom.
Ele se virou, mas logo foi chamado de volta.
— Espera. Lembrei que preciso tomar banho.
O cérebro lento dele demorou a processar a informação.
— Ahm... Não sei se seria uma boa ideia eu te dar um banho...
— Me dar banho? Não, eu vou tomar sozinha. Só fica lá no banheiro pra certificar que eu não caí e estou viva.
— Ah... Ok. Vamos.
Edward abriu duas garrafas d'água para ele e Bella beberem mais, pois amenizaria a ressaca de amanhã. Ficou o tempo todo sentado no vaso, de costas, enquanto ela banhava escorada na parede do chuveiro com todo o cuidado do mundo.
O rapaz quase dormiu ali mesmo, até que ela o chamou para passar a toalha e depois as roupas. Aguardou que terminasse de escovar os dentes, e a cobriu quando ela finalmente deitou na cama.
— Obrigada — a moça disse com a voz já enrolada de sono. — Sabe, você vai ser um ótimo pai um dia.
Ele sorriu, porque apesar de bêbada, Bella era a coisa mais preciosa que ele já encontrou, e não resistiu em deixar um beijo na sua testa.
— Boa noite.
— Boa noite. — Ela caiu no sono segundos depois da resposta.
Suspirando, o rapaz pegou sua mochila, indo catar a chave de seu quarto antes de sair. Tinha esquecido de deixar na portaria quando saiu de manhã, e também ninguém havia pedido.
O problema era que depois de dois minutos procurando, não conseguiu achá-la em lugar nenhum.
— Mas que merda. — Ele apalpou todos os bolsos em seu corpo, olhou pelo chão de todo o quarto. Revirou a mochila de novo, olhou até nos capacetes que tinha carregado. A chave parecia ter simplesmente desaparecido.
Decidiu ligar para a recepção. Com certeza teriam uma chave-mestra. Porém o telefone tocou por minutos, sem resposta.
Edward xingou até a terceira geração de quem fosse responsável pela pousada enquanto descia as escadas. Ele só queria dormir, seria pedir muito?
A recepção estava completamente apagada e vazia. Sobre o balcão, havia um recado em papel.
Boa noite! Volto às quatro.
Em caso de urgência, ligue para 7783-0998
Demetri Pelagia
— Puta que pariu. — Ele pegou o celular, discando o número. Já imaginava que ninguém atenderia, e não deu outra.
Não poderia esperar até as quatro. Do jeito que estava, dormiria no sofá imundo do hall de entrada. Pensou na cama quentinha de Bella lá em cima e quis chorar.
Será que ela se importaria se eu...?
Não, ele não queria incomodar para acordá-la, e muito menos se enfiaria na cama sem ela saber. No entanto, lembrou-se de ver um sofá no quarto em frente a varanda, e concluiu que não haveria problema se ficasse por lá. Ao menos, foi isso que seu cérebro exausto e alterado formulou como desculpa.
Subiu rapidamente, retornando ao quarto dela, onde entrou sem fazer barulho, trancando a porta de vez.
— Bella — ele tentou chamar a moça que já até ressonava. Ela nem se mexeu, e ele precisou sacudi-la um pouco. — Isabella.
— Hmm — resmungou.
— Eu vou dormir no sofá, tá? Perdi minha chave — avisou, porém sem resposta. Sacudiu novamente. — Ouviu?
— Tá...
Edward tirou as botas, abriu o zíper da calça e deitou no pequeno sofá quase confortável, se cobrindo com o cobertor extra. Mal podia acreditar que o dia tinha finalmente acabado.
N/A: Como será a manhã seguinte nesse quarto? hahahah
Obras de Klimt referenciadas: A Fecundação de Dánae (ou apenas Danaë); Nuda Veritas; O Beijo; Friso de Beethoven; Masturbação Feminina (polêmicaaaa).
Moussaka é uma espécie de lasanha grega, parece deliciosa.
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