Disclaimer: Twilight é da Stephenie Meyer! Eu apenas faço seus personagens serem paranoicos e fora da casinha (ah não pera, isso aí é canon rs)
Bella estava meio complicada nesse capítulo. Mas calma, vai dar tudo certo. Leiam até o fim haha
Obrigada a Dandara pela leitura, correção e dicas valiosas.
Capítulo 3: Alienígenas do Passado
Praticamente todo seu corpo doía. Seus pés. Suas coxas e panturrilhas. Até a lombar.
Por um momento, pensou que estava acordando de uma noite de sexo selvagem, mas isso não explicaria a cabeça latejante e a boca extremamente seca.
Lentamente, Bella abriu os olhos, arrependida por ter deixado a cortina aberta ontem, e xingando até o sol por existir. Pegou o celular na cabeceira, vendo que eram sete da manhã. Não havia nem chances de levantar da cama para fazer yoga hoje. Botou o travesseiro na cara para voltar a dormir.
Assim que fechou os olhos, porém, ouviu uma espécie de ronco que estava perto demais e fez sua espinha gelar. Parecia vir de dentro do quarto. O som parou, e ela abstraiu, tentando adormecer.
E de novo, o barulho soou.
Dessa vez, seu coração acelerou de verdade. Algo estava errado.
Não fazia ideia do que estava acontecendo, porém no impulso, pegou um vaso decorativo da mesinha, virando-se lentamente na cama em direção ao barulho.
Esperava agir discreta e friamente, mas não conseguiu segurar o berro que acordou até os deuses do Olimpo ao avistar a figura dormindo toda coberta no sofá.
O rapaz se ergueu tão rapidamente que acabou caindo, desnorteado.
– Que foi? Que foi?
– Edward! Que porra é essa?!
Ela não sabia se o matava com o vaso na cabeça ou se o jogava pela sacada. Quem sabe os dois.
– Eu... Eu peguei no sono aqui.
– Como assim pegou no sono?
– Desculpa! Desculpa! Eu tive que dormir aqui, na verdade, perdi minha chave e não tinha ninguém pra me ajudar na recepção e—
– E aí você se achou no direito de dormir no meu quarto sem minha autorização?!
– Não, eu te avisei, você concordou.
– Avisou quando, cacete?
– Quando eu te botei na cama. Você estava dormindo, mas eu te acordei e falei.
– Eu obviamente não estava consciente! – ela soltou o vaso só para tacar uma pantufa, acertando-o no ombro. – Seu idiota, quase tenho um infarto aqui. Nessa idade é fulminante, sabia?
– Desculpa, Bella. Eu juro que não quis incomodar. Fui idiota mesmo. Eu tava bêbado e cansado, não pensei direito. Me desculpa.
Ela só começou a ficar mais compreensiva pois sabia que ambos tinham bebido além da conta, aos poucos lembrava-se da noite anterior. Apenas os fatos desde que saíram do restaurante ainda eram uma incógnita, e isso a deixava extremamente nervosa.
– Ok, tudo bem. – suspirou, tentando acalmar o coração e a dor que martelava. – Mas agora vai arrumar uma chave pro seu quarto. Preciso dormir, minha cabeça tá explodindo.
Edward começou a se organizar prontamente, botando os sapatos e fechando o zíper da calça que deixara à mostra metade de sua cueca. Bella rolou os olhos.
O telefone do quarto tocou naquele momento, irritando os ouvidos de ambos. Ela pulou para atender.
– Alô?
– Bom dia, desculpe incomodar, mas parece que ouvimos um grito no segundo andar. Está tudo bem com a senhorita?
Ela olhou para Edward, ainda grogue de sono e ressaca, todo enrolado catando suas tralhas no chão.
– Está sim, eu... Pisei num brinco e furei meu pé. Sinto muito pelo barulho. Obrigada pela preocupação.
– Disponha. Tenha um bom dia.
– Espere. Você sabe me dizer se a recepção ontem de madrugada estava vazia?
– Ah sim, o funcionário do turno precisou ir ao hospital ficar com a esposa, e não conseguimos ninguém para substituí-lo. Foi uma emergência.
– Entendi...
– A senhorita precisou de algum serviço na madrugada e não foi atendida?
– Na verdade, foi o meu amigo. – Edward ergueu a cabeça ao ouvir e eles se encararam. Bella desviou os olhos. – Nós chegamos do jantar, e ele havia perdido a chave do quarto dele. Não conseguiu outra, e precisou dormir no sofá do meu quarto.
– Ah sim. Qual o quarto e o nome do seu amigo?
– É o Sr. Cullen do quarto 11.
– Ok, providenciarei uma chave extra, o rapaz já vai levar até aí. Sentimos muitíssimo pelo inconveniente. Gostaria de abrir uma reclamação oficial? Ficaremos felizes de reparar o erro.
– Não, tudo bem. Obrigada pela ajuda. Bom dia.
Ela desligou.
– Devo ir buscar a chave, ou...? – perguntou Edward, com a mochila no ombro e as mãos com dois capacetes.
– Pode esperar, ele já vai subir com a extra. – ela cruzou os braços. De repente, muito consciente de que estava de pijama e sem sutiã. Que merda aconteceu nesse quarto?
– O que aconteceu ontem? – perguntou com a voz falsamente tranquila. Edward franziu a testa.
– Você não lembra de nada?
– Só até a gente saindo do restaurante... E depois que eu vomitei no caminho. – suas orelhas queimaram de vergonha. – Não lembro como vim parar na cama.
Ele sorriu malicioso. A ideia de torturá-la um pouco com aquilo era tentadora.
– Sério que não lembra?
– Para de graça. Fala logo.
– Eu te trouxe até aqui, você me abraçou agradecendo. Depois tirou as roupas e entrou no chuveiro...
– Deus do céu. – ela tapou o rosto com as mãos. – Me diz que pelo menos a gente usou camisinha?
Edward soltou uma gargalhada. Bella quis se esconder na terra.
– Querida, a gente não transou.
– Ahm?
– Você entrou no chuveiro sozinha, eu fiquei sentado no vaso pra te acudir, caso você caísse. Foi você que pediu que eu fosse. Mas não se preocupe, fiquei de costas o tempo todo, não vi nem um peitinho.
Ela ergueu os olhos para ver que Edward tinha um sorrisinho e estava só zombando da sua memória falha de bêbada. Achou outra pantufa para tacar, dessa vez sobrevoando a cabeça dele.
– Não debocha de mim, estou falando sério!
– Desculpa, não resisti. Mas foi exatamente como eu disse, eu cuidei de você, e foi isso. Nada aconteceu, mesmo.
Em um flash, ela lembrou-se de vê-lo sentado no banheiro, confirmando a veracidade das palavras. A conclusão de que tinha precisado tanto da ajuda dele, porém, fez pesar seu constrangimento.
– Tá... Obrigada por cuidar de mim.
Um silêncio se estendeu por quase um minuto, e foi tão desconfortável, que nem parecia que eles estavam rindo e se divertindo horas atrás.
Era um grande problema, pois a cabeça de Edward não podia ficar muito tempo parada, que logo começava a maquinar besteiras. E não deu outra.
– Que é? – Bella reparou que ele tinha algo na ponta da língua. Com a voz mais estável possível, ele soltou sua pergunta.
– Nada aconteceu, mas e se... Tivesse acontecido?
Os olhos da morena arregalaram ligeiramente com a ousadia inesperada, mas ela tentou parecer calma. Esforçou-se, inutilmente, para lembrar se havia dito ou feito algo que desse brecha para ele dizer essas coisas. Maldita amnésia alcoólica.
– Bom... Seria um erro. Alguma vez na vida eu fiz sexo seriamente bêbada com você?
– Não que eu lembre. Mas... E se estivéssemos, por exemplo, bem menos bêbados?
Queria dizer sóbrios, porém preferiu deixar subentendido. Ele não sabia de onde vinha essa coragem toda, e certamente estava falando bobagem. Só sabia que ver Bella reagindo a sua indagação direta lhe trazia muita satisfação.
A moça voltou a cruzar os braços, em um ato de defesa. A mente e o coração a mil, querendo fugir dali.
Claro que havia rolado um sentimento especial entre eles ontem, ela não podia negar. Ainda não sabia dizer se era atração real, nostalgia ou empolgação de estarem juntos nessa aventura surpresa.
Porém, o que quer que fosse, sentia que não era o lugar, nem o momento certo para resolverem essa grande questão dos dois.
Principalmente enquanto ela enfrentava uma ressaca, vestindo o pijama mais largado que sua mente bêbada conseguiu escolher.
– Você realmente acha apropriado levantar essa dúvida logo agora? – inquiriu.
– Por que não?
– Eu acabei de dizer que não me lembro de muita coisa. Você só está aumentando minha insegurança sobre como eu agi sem estar totalmente consciente. Tenha um pouco de bom senso.
O rapaz imediatamente se arrependeu e deixou a brincadeira de lado.
– Desculpa, não foi minha intenção te deixar insegura... Olha, eu entendo, acordar com um cara depois de uma noite de bebedeira desmemoriada é bem esquisito. Mas eu nunca faria nada sem seu consentimento... Eu cuidei de você, só fiz o que me pediu.
Bella sequer pensou por esse lado, mas foi bom ouvir. No fim das contas, ele era um dos poucos homens que ela já confiou na vida, e que nunca a decepcionou nesse sentido.
– Tudo bem, eu não estava duvidando disso. Só fiquei desconfortável com essas perguntas.
Para seu alívio, alguém bateu na porta salvando-a de todo aquele diálogo. Alexis, o rapaz da moto, tinha ido entregar a nova chave. Edward agradeceu, se dirigindo para sair do quarto.
– Desculpa, mais uma vez.
– Está desculpado. Mas agora vai, eu preciso deitar. – ela quase o enxotou fechando a porta, doida para se livrar dele e suas perguntas complicadas. Ele a impediu.
– Tem um Advil aí? Esqueci de trazer.
Bufando, ela foi abrir sua bolsinha com tanta afobação, que um pacote de absorvente interno virou todinho no chão. Claro.
Entregou o remédio antes de fechar a porta rapidamente. Aproveitou para tomar um comprimido também, e uma garrafa inteira de água. Quando enfim pôde deitar em paz na cama – e sozinha no quarto –, o sono já havia escapado completamente.
Estava inquieta. Resolveu botar a cabeça sob o chuveiro gelado. Queria aliviar a dor e, principalmente, refrescar a mente que cismou em não parar de pensar. Com a toalha no cabelo molhado, sentou-se na cama para observar o nada. Acabou se transportando para o dia anterior.
A tarde explorando o litoral e o jantar tinham sido tão agradáveis. Gostou de tudo, desde os lugares que viu, até a conversa com Edward. A palavra perfeito destacou-se em sua mente, mas ela sempre achou seu uso exagerado.
Quase perfeito. Isso.
Quase, pois ela realmente preferia apagar a parte que começou quando seu ex aceitou o bendito Uzo de presente, a parte que estava lhe incomodando bastante agora.
Só conseguia lembrar em fragmentos. Aquilo que não recordava, a memória da sensação do momento lhe contava. Não ficava alterada assim desde as festas na faculdade, dez anos atrás.
A ressaca moral tinha chegado.
Estava convicta que só tinha sido levada a esse estado pela emoção, euforia e animação que sentiu naquele dia todo.
E pela presença de Edward.
Sua impulsividade ficava aflorada ao lado dele nesse paraíso grego. Sentia-se quase uma menina irresponsável com o juízo atrapalhado e escolhas duvidosas. Tudo estava tão confuso por aqui, e a presença dele só bagunçava ainda mais.
E se eles tivessem se envolvido de verdade ontem? A pergunta ainda pairava na sua mente.
Seria um erro, claro. Ainda tinham muito para conversar e sexo não resolveria nada. Não que ela não tivesse pensado algumas vezes nisso desde que se encontraram... Era uma das coisas que mais sentia falta do relacionamento, a sintonia deles era de outro mundo.
Não.
Para com isso agora, Bella. Chega de pensar, ela se repreendeu, caindo em si.
Naquele momento, a ansiedade já tinha inundado seu corpo, e ela nunca quis tanto estar na paz de sua casa.
Cheirando o pescocinho do Mr. Darcy e penteando o Heathcliff. Comendo um tailandês assistindo Downton Abbey. Deitada na banheira cercada por velas aromáticas, quem sabe até com o vibrador à prova d'água que ainda nem teve tempo de testar.
Seria pedir muito, Deus?
Pegou o laptop para se distrair, e respondeu e-mails até o estômago roncar, duas horas depois. Vestiu uma roupa quente, pegou um livro e desceu para tomar café da manhã.
Em sua bandeja tinham frutas, iogurte e cereal. Um café forte e um copo d'água. A comida parecia apetitosa, o problema eram seus arredores.
Parecia que toda a pousada tinha sentido fome na mesma hora que ela.
O único lugar livre na pequena sala de refeições era uma mesa em frente a janela. Ao lado esquerdo, o rapaz de boina inglesa e moletom preto de yoga escrevia num moleskine.
Ela quase recuou, com um súbito medo de que ele a colocasse em outra saia justa. Entretanto, decidiu se portar como a adulta de trinta anos que era, e arrastou a cadeira para sentar.
O barulho horrível fez Edward olhar para cima. Ele sorriu. Não foi correspondido.
Apontou o queixo para a cadeira vazia na sua mesa; um convite. Bella sentou-se na dela, negando com a cabeça, o rosto franzido. Ele insistiu com mais ênfase, e a moça suspirou, negando igualmente.
Que porra está acontecendo? Edward tentava entender.
Ele sussurrou algo, porém estando longe, a moça não compreendeu. O que ele está dizendo? Apura o amigo?
– Quê?
Ele repetiu, mas infelizmente ela ainda não sabia ler lábios. Enfim, Edward se cansou da brincadeira e falou alto demais para o recinto.
– Tá puta comigo, porra?!
Um velhinho italiano olhou feio, obrigando-o a se desculpar. Resolveu ele mesmo levantar e ir até Bella, antes que ela desse um jeito de largar a bandeja e fugir.
– O que houve?
– Não houve nada, eu só queria tomar café sozinha.
– Ainda está brava por eu ter dormido no seu quarto?
– Não. – ela meteu a cara no iogurte com cereal.
– É pelo susto?
– Claro que não.
– Então, posso me sentar?
Ela deu de ombros, tentando parecer indiferente. Edward estranhou a atitude, mas sentou-se, de qualquer forma.
– Bom... Se não está puta pelo susto, então o que foi? É pelo que eu perguntei? Sobre como se sentiria se a gente tivesse—
– Já falei que não estou puta com você, que saco. – Era uma meia verdade. Quanto mais ele falava daquilo, mais ela se irritava.
– Não está?
– Não.
– Difícil acreditar com esse bico e essa voz de robô. Já falei que detesto joguinho passivo-agressivo.
Ela suspirou. Sabia bem que ele não desistiria, então decidiu abrir o jogo.
– Eu bebi horrores ontem, a ponto de não lembrar direito das coisas e ter que ser ajudada depois de vomitar na rua. Eu não costumo fazer isso na minha vida normal. Como você acha que estou me sentindo agora?
– Ahm... De ressaca? – arriscou, sendo recebido por um olhar feio. – Sério, Bella, qual o problema? Se você está com vergonha... Saiba que não me importo de ter ajudado, muito menos de ter te visto daquele jeito. Até parece que a gente nunca bebeu horrores juntos antes.
– Sim, mas nunca desse jeito, num lugar desconhecido como aqui. Foi irresponsabilidade minha fazer isso, podia ter acabado muito mal.
– Estamos vivos. Para de drama. Tá tudo certo.
– Claro que você diria isso.
– Tem certeza que não está puta comigo mesmo?
– Edward...
– Sim?
Largando a comida, ela o encarou. Internamente, maldizia seu ex por conhecê-la tão bem. Deixou sua máscara cair um pouco para tentar explicar o que lhe afligia mais profundamente.
– O problema não é você. O problema é que eu não sei mais se posso confiar em mim mesma quando estou com você aqui.
Ouvindo a confissão fragilizada e vendo o rosto assustado dela, o rapaz pausou, até se afastou um pouco para compreender. Agora sim, sentia ter chegado no cerne da questão.
– O que isso quer dizer, Isabella?
– Quer dizer que essa situação toda que estamos vivendo... A experiência de pânico no avião, ficar presa longe de casa, depois cair nesse cenário incrível e, pra completar, ter encontrado você no meio desse caos... Isso tudo me tirou do eixo, não sei como me sentir.
Ele segurou a mão dela. Rígida e fria. Soltou pouco depois.
– Você acha que pra mim está sendo diferente? Porra, eu também estou me sentindo fora do eixo com tudo. Mas isso é a vida. Merdas acontecem, a gente fica tonto, depois acha o eixo de volta. Não é o fim do mundo.
– Sei lá, Edward. Desde anteontem, as coisas quase não parecem reais. Estou meio deslumbrada com tudo... Não sinto que estou agindo normalmente e isso me assusta.
Ele reparou que Bella estava deixando as paranoias tomarem conta, e tentou aplacar seu mau humor e inseguranças. Começou a virar o rosto com uma cara concentrada, avaliando a figura dela, antes de dar o veredito.
– Bom, olhando daqui, você parece a mesma Bella de sempre. Uma versão melhorada, eu diria. Mais audaciosa. E eu já disse que gosto muito desse cabelo mais comprido sem franjinha?
– A audácia é só porque estou impulsiva e eufórica com as novidades. – ela ignorou sua tentativa.
– Estamos só curtindo umas férias surpresa da melhor forma possível... Ficar eufórica, perder um pouco o controle de si é tão ruim assim pra você?
– Sim.
– Do que você tem tanto medo, Bella?
As palavras atingiram o meio de sua consciência, ecoando para que pensasse bem em uma resposta.
O medo de um vídeo seu dançando Macarena pelada ir parar na internet era mil vezes menor que o medo de se envolver com Edward nesse momento. Essa era a verdade.
Isabella, além de pensadora profissional, era também uma medrosa de carteirinha sobre os assuntos do coração.
Tinha medo de como ele estava mexendo com seus sentimentos. Tinha medo de pisar na bola com ele de novo. Tinha medo de se envolver demais e tudo dar errado novamente.
Mas nada disso ela tinha coragem de dizer, pelo menos por enquanto.
– Não sei ainda... – foi o que respondeu, a voz cheia de incertezas. – Só sei que tenho medo de fazer uma escolha precipitada na empolgação, e a gente acabar se arrependendo depois.
– "A gente" não... – ele fez um adendo. – Eu tenho poucos arrependimentos, você sabe. Tudo é válido como experiência, boa ou ruim.
– Tudo bem. Mas você é assim, eu não. Há dores de cabeça que eu prefiro evitar.
Nas entrelinhas, ele entendeu. Bella já não falava mais sobre a bebida, e sim sobre o relacionamento deles, talvez uma possível reconciliação.
Não lhe parecia uma questão tão difícil assim, mas talvez estivesse sendo simplista. Era uma das grandes diferenças entre eles, afinal.
Tentou entender os argumentos.
Ela havia escolhido a maneira mais estranha de admitir que estava mexida por ele. Mas quem era ele para julgar? Vinha se sentindo afetado por sua ex a porra do tempo todo, desde que se abraçaram na primeira noite. Nunca esteve com a cabeça tão fodida.
Bella estava deslumbrada e confusa, isso ele também podia entender, sentia-se igual. As coisas aconteceram rápido. Mesmo assim, não sabia como responder à toda aquela rejeição, então falou o que veio à mente.
– Gostei tanto do nosso dia ontem. – Foi um dos melhores dias da minha vida, acrescentou sem verbalizar, para não assustá-la ainda mais.
O coração de Bella derreteu um pouco com a declaração, vendo um misto de decepção e esperança no rosto do rapaz.
E por mais que o futuro fosse ainda um ponto de interrogação, por mais que não quisesse pensar nisso agora, não parecia certo matar sua esperança de vez.
– Eu também. De verdade. – afirmou, sustentando seu olhar para que visse a sinceridade. – Nunca vou me esquecer, foi especial.
– Foi perfeito.
Ela sorriu suavemente, prevendo que ele escolheria essa palavra.
– Quase perfeito.
– Podemos tentar repetir a dose hoje, já vi alguns eventos do Festival de Inverno em Atenas, se chegarmos no almoço podemos ver bastante coisa. O que acha?
Ela quase podia enxergar: eles iriam visitar lugares incríveis, se aproximando cada vez mais, até estarem frente a frente de novo numa mesa de jantar, e sabe-se lá o que ela faria com ele dessa vez depois de beber além da conta, porque o vinho era irresistível.
Se ela fizesse merda aqui e o encanto se perdesse quando voltassem para a realidade da vida em Londres... Temia que seu coração não aguentasse a nova decepção.
Sentiu o pânico subindo pela garganta. Não fazia sentido algum negar uma experiência maravilhosa como essa, ela sabia. O problema eram as consequências. Mas como diria isso a ele?
Queria deitar na cama e esperar isso tudo passar.
– Bella?
– Oi.
– Eu fiz uma pergunta.
– Bom, é que... Não sei é uma boa ideia sairmos juntos hoje.
– Por que não?
– Você não ouviu tudo que eu acabei de dizer?
– Sobre você ter medo de tomar uma decisão impulsiva estando comigo? Querida, você não é uma ninfomaníaca que vai me agarrar à força no meio da rua. Eu sou tão irresistível assim?
– Estou tendo uma leve crise de ansiedade aqui e você não está ajudando.
Ele suspirou.
– O que vai fazer hoje, então? Ficar o dia todo em Nea Makri?
– Talvez. Vou ficar esperando que a companhia aérea ligue mais tarde, o tempo está melhorando, eu vi no jornal. Ou talvez eu vá a Atenas sozinha. – ela blefou, pois era uma péssima turista solo. Podia tentar arrumar companhia, mas fazer amigos do nada ainda era uma habilidade a ser conquistada.
– Sozinha, sozinha mesmo? Posso apostar que vai acabar entediada...
– Não é um problema. Eu sei me entreter, fiz bastante isso nos últimos meses.
– Desde quando ficar revisando textos no laptop e corrigindo provas é se entreter? – Edward cruzou os braços, desafiando-a. – Porque eu sei que você vai ficar no seu quarto trabalhando ao invés de sair pra curtir, mesmo sem mim. Estou mentindo?
A moça bufou. Não estava planejando fazer nada daquilo.
Bom, não o dia todo, talvez só por algumas horas.
– E se eu quiser ficar trabalhando, qual o problema?
– O problema é que eu acho que você devia ir viver um pouco. Pensa bem, quando vamos ter essa oportunidade de novo? Uma viagem com praticamente tudo pago, nesse lugar foda e—
– Edward, eu só queria ficar um pouco sozinha pra reorganizar meus pensamentos. Vamos dar um tempo até a gente se ver de novo...
– Mais tempo? Dez meses não foram suficientes?
A mágoa que ouviu na voz dele doeu em seu peito, fazendo-a voltar a si.
Sabia que não era justo negá-lo dessa forma, eles estavam se dando tão bem. Mas precisava de espaço e não queria abrir mão disso. Decidiu o que provavelmente era melhor para ambos.
– Me dê até a tarde pra responder? – pediu.
– Uma hora em ponto.
– Certo.
– Nem um minuto a mais.
– Tá...
Edward levantou-se, em aparente contentamento pelo combinado deles. Se ela precisava de tempo e espaço, ele daria, embora fosse difícil. Quem sabe, essa seria uma primeira forma de derrubar os muros que ambos construíram esse ano? Ele já estava decidido a tentar rompê-los.
Inclinando-se, ele beijou a cabeça de Bella, embaralhando ainda mais as emoções.
– Vai descansar um pouco dessa ressaca. Se cuida.
– Você também.
A morena olhou enquanto ele pegava as coisas na outra mesa, até dar as costas e sair para o jardim da pousada. A garganta embolou de choro. Ele estava sendo tão fofo e compreensível, mas ela continuava tão confusa, e era tudo demais.
Focou em terminar seu café da manhã e ler seu livro. Transferir as emoções para a vida amorosa de personagens fictícios era sua melhor rota de fuga agora.
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Ela terminou a yoga na varanda às dez, correndo para fugir do vento gelado. Ao contrário de ontem, o céu estava nublado e o clima mais frio. Perfeito para seu humor flutuante desse fim de semana longuíssimo.
Ligou a TV, pela primeira vez desde que chegou, buscando encontrar algo que pudesse entender. Foi difícil. Achou o canal da MTV, e deixou os clipes musicais tocando no fundo, enquanto pegava o celular para checar com Alice se estava tudo bem em casa.
Não teve coragem de contar à amiga o que realmente acontecera entre Edward e ela, apesar da curiosidade e da pressão recebidas.
As mentiras escorriam de sua boca como água.
Inventou que se encontraram no aeroporto e ele fora para um hotel em outra cidade. Depois, contou sobre o passeio ontem – disse que havia ido numa excursão da pousada – e, por fim, falou que ficaria descansando hoje ao invés de turistar, por conta da ressaca e pelo medo de perder o possível voo. Não era totalmente mentira, mas nem chegava perto do real motivo de querer hibernar hoje.
– Como você é chata, Bella. – sua amiga concluiu o óbvio.
– Grata pela sinceridade.
– Não, é sério. Se eu estivesse no seu lugar, já teria rodado todas as ilhas daí e voltado. Provavelmente de iate, com champanhe, gogoboys e modelos russas. Com tudo pago? Amor, eu faria a festa!
– Não é tudo pago. Eles deram alguns vouchers de refeição, pagaram a hospedagem e o transporte ida e volta do aeroporto. O resto está saindo do meu bolso.
– E daí? Até parece que passa fome aqui em Londres. Aproveita, boba. Vai à Atenas, visita todos aqueles museus maravilhosos. Quem sabe você até não acha um intelectual grego muito gostoso e já arranja uma casa de férias pra gente ficar?
Bella riu.
– Ok, Alice. Pode parar de projetar seus sonhos eróticos em mim. Aliás, deixa só Jasper saber que você está atrás de um grego muito gostoso...
– Ele está aqui ouvindo no viva-voz e rindo da sua cara.
Ela resfolegou, ultrajada.
– Maldita! E se eu conto algum segredo?!
– Que segredo, doida? Você não tem nem vida social.
– Tá, agora feriu meus sentimentos de verdade. Tchau, Ali. Tchau, Jasper. Até amanhã, se Deus quiser. Rezem pra essa neve derreter.
– Tchauzinho! – o casal falou em uníssono no sotaque britânico que a fez sentir saudades, deixando Bella apenas com o barulho da televisão. Um programa de reality show tinha começado depois dos clipes, e ela desligou rapidamente. Quem voluntariamente ficaria preso num lugar com um ex? Só tem maluco.
Pegou um livro novo que comprara na Bienal e começou a ler, sentada no sofá. Ainda não tinha se decidido se aceitaria o convite de Edward. Faltavam duas horas, afinal.
Mal conseguia se concentrar, mas persistiu. Leu cinco páginas. Sem perceber, tinha parado para ouvir o barulho do vento e ver, pela sacada, as gaivotas tranquilas sobrevoando o mar. Lembrou-se do mirante lindo em Artemida. Ou será que era Rafina?
De repente, ouviu uma batida na porta.
Quando abriu, deu de cara com papeis deixados na soleira e o corredor vazio. Era um folheto e um bilhete. Tinha a letra de Edward. Sentou-se no sofá para ler, se perguntando se ele era um ninja ou um vampiro para ter sumido tão rápido.
"Você quer ficar sozinha, eu sei, vou respeitar, serei breve. (Eu enviaria isso pela internet, mas o wi-fi caiu e ainda não renovaram meu pacote de dados. Pilantras!)
Só gostaria que desse uma olhada nesse folheto e visse o que vai perder hoje. Leitura dramatizada de Édipo Rei em Atenas, nos escombros de um teatro milenar. É teatro grego em seu bendito berço. Sério. Entre outras coisas do Festival...
Enfim. Já estou prevendo que vai me dar um bolo e ficará trancada no quarto o dia todo. Não acho justo com você mesma. Espero que repense e vá construir umas memórias pra contar aos seus filhos (ou seus alunos na volta às aulas, tanto faz).
Edward"
Portava um sorriso besta o tempo todo enquanto lia, e só reparou no final. Seu coração se apertou.
É claro que Edward só queria que ela se divertisse, saísse de sua zona de conforto. Era isso que ele fazia desde o primeiro dia que a conheceu. Era assim que ele levava sua vida, embora Bella sempre tenha tido dificuldade de aceitar, pois encarava como um sintoma de imaturidade.
Ela abriu o folheto, uma pontada de angústia ao ver o que estaria perdendo. Era tentador demais.
Olhou no relógio. Onze horas.
Resolveu tomar um banho quente, torcendo para que a coragem viesse junto à limpeza.
Enquanto se ensaboava, ficou pensando no bilhete de Edward, até lembrar-se de outras palavras dele de dez meses atrás, mais duras e brutalmente sinceras.
"Nada nunca está bom o bastante pra você! Quer controlar tudo sempre. Tudo tem que ser do seu jeito e perfeito, senão não presta. Mas aí vai um conselho: não meça o mundo com a sua régua!"
Aquilo a atingiu, fortemente.
Desde então, Bella vinha prestando atenção nessa característica, até falava sobre isso na terapia. Edward tinha dito aquilo ao reclamar das cobranças exageradas que ela fazia para atitudes dos outros – fosse o método dele de lavar louça ou uma amiga que cancelava planos –, mas caberia perfeitamente para as atuais circunstâncias.
Era algo que ela realmente gostaria de mudar sobre sua personalidade. Era difícil para quem convivia com ela, mas principalmente para ela própria, pois parecia estar num constante estado de insatisfação.
Sabia bem que estava sendo chata por tudo que saiu de seu controle nesses dias – culminando nos sentimentos confusos sobre seu ex. Até Alice, a quilômetros de distância havia percebido e puxado sua orelha.
Aos poucos, sua voz interior começava a martelar na cabeça: evolução pessoal, evolução pessoal. Sofrera horas para tatuar esse conceito na pele, não podia esquecer nem ignorar quando ouvia o chamado.
Terminou o banho, resolvendo andar um pouco pela cidade, espairecer a cabeça. Se arrumou e, por via das dúvidas, saiu com a mochila pronta para o dia todo.
Nea Makri não era grande, e ela acabou vendo quase tudo que já tinha visto ontem, andando por uma hora no centro.
Passou pela mesma confeitaria, comprou um doce ao invés de almoço e pegou informações das rotas de ônibus para Atenas.
Saíam a cada meia hora. O mais próximo sairia por volta de uma da tarde, exatamente o fim de seu prazo com Edward. Seu coração martelava de ansiedade sempre que pensava nisso, e ela considerou seriamente a ideia de ir sozinha mesmo.
Caminhou por mais uns minutos pela praia, tirando o tênis para sentir a areia gelada entre os dedos. Esperou que o barulho do mar limpasse a mente.
No entanto, buscar distração na praia logo se mostrou inútil.
Tinha começado a assistir um único surfista teimoso nas águas frias. Ele subia e caía, falhando mil vezes, arrancando umas risadas dela.
Mas foi com tristeza que acabou concluindo: rir sozinha não tinha a mesma graça hoje.
Só conseguia pensar em Edward.
Provavelmente, ele estaria narrando a cena. Então comentaria algo bem idiota e riria alto, dando um show ao jogar a cabeça para trás, até Bella começar a se constranger por estarem em público, antes de não aguentar e soltar sua própria gargalhada.
Não era exagero, ele realmente sabia fazer a diversão acontecer, em quase todas as circunstâncias.
Após tanto tempo, ela tinha sido lembrada de como era a vida ao lado de seu ex, e agora, sem ele, a abstinência batia.
Com um pesado suspiro, ela sentou-se num monte de areia. Ficou olhando a tela do celular até marcar uma da tarde.
De repente, sentiu-se muito tola por estar aqui ainda, arriscando perder a incrível oportunidade de mais uma tarde quase perfeita.
Só porque nada disso era seu plano inicial? Ou porque tinha medo de não estar no controle dos acontecimentos, de suas ações e sentimentos?
E se por acaso essas coisas fugissem do seu controle, ela devia satisfação do quê? Para quem?
Engolindo o medo e a sensação de derrota, ligou para o número que ainda era o mesmo. Ele atendeu no quarto toque.
– Bella?
– Estou entediada. Quero ir com você à Atenas.
– Desculpa, pode repetir? Está o quê?
– Você ouviu muito bem.
– Só pra me certificar que eu estava certo pelo menos uma vez na vida. – ele riu, sarcástico. – Eu disse que ficaria entediada!
– Engraçadíssimo.
– É sim.
Ela revirou os olhos.
– Você vem ou não?
– Claro que vou... Mas eu tive que devolver a moto agora há pouco, tem problema?
– Tudo bem, eu já vi a rota e o horário do ônibus. Tem um que está chegando agora, mas o próximo sai em meia hora da orla. Estou aqui, vem me encontrar.
– Ora, ora, se não é a senhorita super planejada fazendo planos para uma aventura espontânea? Quem te ensinou isso?
– Para com as piadinhas, senão eu vou desistir.
Ele engoliu o riso na hora.
– Olha pra trás.
Virando-se, viu Edward caminhando pela praia ao seu encontro. Ergueu-se rapidamente tentando limpar a areia da bunda e até deixou o celular cair. O coração batia rápido no peito, mas ela ignorou.
– Oi...
– Oi.
Ela notou a mochila nas costas dele.
– Ué, você ia embora sem saber minha resposta?
– Ia. Eu bati no seu quarto quinze minutos atrás. Ninguém atendeu, depois o recepcionista falou que você tinha saído... Então concluí que você realmente não queria me ver hoje.
O olhar de cachorro abandonado que fez chegou a dar pena.
– Desculpa por ter achado que eu te rejeitei. – falou ela timidamente. – Tive que resolver uns problemas comigo mesma antes de dar uma resposta. Saí pra espairecer.
– Tudo bem, Bella, você não me deve explicações.
– Devia, você estava esperando por mim.
– Tem razão. Mas está desculpada. Agora, vamos? O ônibus deve estar chegando.
– Calma. Antes...
– Ih, lá vem.
– Antes, eu queria que tivéssemos algumas regras.
– Regras?
– Quero curtir o dia sem ficar me preocupando, e acho que só assim vou conseguir.
– Entendi. Fala...
– Primeiro, eu não vou beber nenhuma gota de álcool hoje. Nada. Não me importo se você beber, mas não me ofereça. Mesmo se for o vinho mais gostoso do Mediterrâneo.
Ele franziu o rosto, já achando complicado.
– Ok?
– Segundo... Vamos manter uma distância respeitável... Entre a gente. Hoje seremos apenas dois amigos viajando juntos, e amigos respeitam o espaço físico do outro.
Ele riu.
– Mas quem ficou me abraçando e agarrando minha barriga ontem foi você.
– Eu estava bêbada!
– Ah, disso você lembra.
– Vou pegar o próximo ônibus sozinha e te largar aí, hein. – ela ameaçou.
– Ok. Mais alguma regra, Dua Lipa?
– Quem?
– Meu Deus, onde você esteve o ano todo? É uma cantora estouradíssima na Inglaterra, até eu conheço.
Bella bufou, impaciente.
– Edward, foco.
– Tá bom, tá. Continua.
– Bom... Vamos nos divertir. Só isso mesmo. Já sei que tô sendo ridícula com esse papo.
– Ainda bem que você sabe. – murmurou bem baixo para ela não ouvir.
– Ahm?
– Nada não.
– Então... – seus olhos se desviaram, a incerteza tomando conta. – Estamos combinados?
Ele assentiu. Se era esse o preço para aproveitar sua companhia enquanto ela ainda lutava contra as benditas tormentas mentais do medo, ele não tinha saída, a não ser aceitar.
Esticou uma mão, a qual ela apertou, e selou o acordo.
– Tudo bem. Apenas dois amigos de férias em Atenas, então.
xxxx
O ônibus de uma da tarde atrasou dez minutos, e eles foram os primeiros a entrar. Bella sentou-se na janela.
– Posso sentar ao seu lado? – Edward indagou.
– Claro, por que não poderia?
– Bom, com a regra de não-me-toques...
– Para de besteira. Senta logo.
– Está melhor da ressaca? – perguntou, se acomodando no assento com a mochila no colo.
– Ainda toda dolorida, mas me entupi de remédios. Estou um pouco enjoada só. Deve ser o doce que comi. E você?
– Estou ok... Posso perguntar uma coisa?
– Se não for uma de suas perguntinhas complicadas...
– O que te fez decidir vir comigo?
Bella pensou por um instante o que poderia lhe dizer.
– Foi uma epifania, eu acho.
– Hm. Gosto dessa palavra. Continua.
– Ah... Fiquei lembrando do que você me disse. – ela respirou fundo para admitir. – Que eu tenho necessidade de estar no controle sempre. Que tudo tem que estar do jeito que eu quero, senão não presta...
– Eu disse isso?
– Não hoje. Quando... A gente brigou.
– Ah. – ele se recordava vagamente.
– Não gosto de ser assim, sabe? Isso vem me incomodando ultimamente... Assim como a questão dos ciúmes e da minha insegurança, acho que está na hora de mudar isso em mim. E aí eu pensei que talvez essa viagem seja um empurrãozinho do destino para me ajudar na tarefa, devo aproveitar.
– Aquele papo de evolução pessoal e tal. – ele assentiu, adivinhando.
– É. – sorriu – Devo aprender a não surtar se algo sair dos meus planos e da ordem, aceitar que não existe só um jeito de viver... E o que estiver totalmente fora do meu controle, bem, só me resta encarar e lidar com isso.
– Aprender a fazer limonada com os limões jogados na sua cara.
– Exato. – ela riu.
Eles se calaram por um tempo.
Pela primeira vez em horas, nenhum dos dois queria fugir ou falar qualquer coisa só para preencher o silêncio. Mas aquilo não impediu Edward de refletir sobre o que ela havia dito.
Começou a contar que já havia passado por essa lição na vida adulta em situações que o marcaram muito, e Bella, curiosa e grata por ele também estar compartilhando algo pessoal, pediu que elaborasse.
– Ah, acho que até dá pra traçar e seguir uma trilha, mas em algum momento seremos obrigados a improvisar. E aí, o bicho pega, temos que estar preparados... Por exemplo, quando mudei dos Estados Unidos, quase nada foi como eu esperava. Não que eu tivesse feito muitos planos quando embarquei nessa loucura, mas em alguns aspectos foi pior do que eu imaginava.
– Eu ainda nem acredito que você ficou morando num trailer por seis meses. – ela lembrou das histórias doidas que ele contava no início do namoro.
– Nem eu! Minha mãe não sabe disso até hoje. – riu – Bom... Mas é claro que outras surpresas que encontrei em Londres acabaram sendo bem melhores do que eu jamais sonhei...
Virou-se para ela sorrindo acanhado, pontuando a afirmação com um levantar de sobrancelhas. Bella entendeu o recado não tão sutil.
– Eu sei como é... Também tive surpresas maravilhosas que nunca esperei em Londres.
– Eu sou muito grato por elas.
– Eu também sou. – ela confessou. O olhar do rapaz demorou-se um pouco mais que o normal sobre ela. De repente, desconfortável com a atenção, ela lhe devolveu o foco.
– E quais foram as outras vezes que precisou lidar com os limões na sua cara?
– Várias. Mas acho que a mais impactante foi quando a gente se separou... – disse, a sobriedade assumindo o tom da voz. – Eu tive que mudar minha vida toda, tão de repente. Nessas duas ocasiões, quase tudo saiu do meu controle, e eu só tinha duas opções: surtar ou improvisar com o que a vida estava me dando. Tive que me adaptar.
– E você conseguiu se virar bem, parece. – ela concluiu que também tinha conseguido se sair bem nessa odisseia inesperada. Com alguns pequenos surtos no meio, obviamente.
– Consegui... Essa viagem, por exemplo, só veio porque um amigo que conheci na ONG gostou dos meus trabalhos como autor independente. E eu não teria o conhecido se não tivesse sido obrigado a arrumar um emprego fixo pra pagar as contas de casa sozinho... Tive que aprender a ser mais organizado nessa situação, e eu nem me manteria na ONG como professor se não fosse por isso. Eu não fazia ideia de como era dar uma aula, aprendi a me planejar e—
– Ahh! Ora, se não é o senhor Viva o Momento tendo que fazer planos pra vida dar certo? Com quem aprendeu isso mesmo?
– Ok, essa eu mereci. – ele riu dela e de si mesmo. – Foi com você. E com a vida. Mas, em minha defesa, "viva o momento" ainda é meu lema. Às vezes saio da trilha por conta própria, se eu puder... É mais emocionante. Só relaxo e aproveito onde o acaso me levar.
Bella olhou pela janela, vendo que tinham entrado na estrada.
– É, talvez seja uma boa ideia. Às vezes.
– Sim. Viva o momento... Quando for possível.
– Quando for possível. Certo. Desse jeito, eu concordo. Acho que nem me dei conta, mas é o que tenho feito bastante nos últimos meses. Tenho trabalhado tanto, que faço questão de incluir na minha agenda as poucas oportunidades de diversão que aparecem.
– Que bom. Mas por favor, não me diga que você escreve "Hora da diversão" no seu planner? – ele implicou, tirando uma risada dela.
– Não, mas é uma ótima ideia, viu.
– Por que você é tão nerd? – ele riu. – Tudo bem, não julgo. Contanto que você se divirta e sua mente esteja presente de verdade no momento...
– Sempre... Como estou agora. – eles dividiram um sorriso. – Ah, deixa eu te mostrar umas fotos dos passeios que fiz em Alexandria essa semana.
Ela tentou passar rapidamente no celular as fotos da última noite, porém Edward reparou e não se conteve em comentar.
– Parece que alguém ficou bem alegre na boate... Achei que não gostava de beber em local desconhecido?
– Era uma taberna típica. E eu não fiquei doida, lembro de tudo.
– Claro. Esqueci que a regra só vale quando estou presente.
– Me deixa em paz com as minhas regras. – ela choramingou.
– A culpa é sua por ter me dito que eu te deixo excitada demais com a minha presença.
– Empolgada. Eu falei empolgada.
– Que seja. Empolgada demais. E o que esperava que eu fizesse com essa informação preciosa?
– Como se a informação fosse novidade. – resmungou tão rápido que ele sequer entendeu.
– Ahm?
– Nada não. – ela disparou. – Só olha essas esculturas lindas aqui e não me enche o saco, vai.
Quarenta minutos depois, entre fotos e Edward implicando com Bella para tentar animá-la, eles chegaram a Atenas.
A lotada e barulhenta Atenas. Porém linda. Pelo menos onde estavam, próximo ao centro.
Nas ruas enfeitadas para o Natal, havia música e falatório de várias línguas. Bella vibrava de ansiedade para explorar o local, e não parava de levantar a cabeça enquanto andavam para sair do ponto de ônibus.
– O que deu em você? – Edward perguntou, já tendo sido esbarrado por ela algumas vezes.
– Estou vendo se daqui dá pra ver a Acrópole. Fica no ponto mais alto, dizem que a partir de uma praça no centro a gente consegue ver sempre.
– É essa praça aqui? – ele apontou o celular, com o Google Maps aberto.
– Essa.
Era onde estava acontecendo uma parte dos eventos do Festival de Inverno. Chegaram lá em dez minutos, encontrando barracas e atividades, inclusive um teatro de bonecos cercado por crianças.
Edward comentou que uma menina parecia uma de suas alunas, a mais afinada da classe, e Bella não conseguiu conter o sorriso ao imaginar como devia ser fofo o rapaz sendo professor de um bando de pirralhos.
De repente, viu algumas pessoas tirando fotos do horizonte, e finalmente pôde enxergar a famosa Acrópole de Atenas.
– Olha! – ela apontou, chamando atenção do rapaz. Eles observaram por uns instantes.
Edward não ficou muito impressionado.
– Eh... É ok.
– Ok?
– É uma paisagem bonita, claro, a arquitetura é magnífica, eu adoro. Mas, honestamente? Se parece um pouco com o que a gente já viu no sítio arqueológico de Brauro... São só ruínas.
Bella arquejou com tamanha audácia, a mão segurando o peito.
– Mais respeito, por favor? Isso aqui é praticamente a História viva da civilização ocidental moderna.
– Uhum, e veja só o buraco onde fomos parar com ela...
A moça somente o olhou, reprovando o cinismo dele, que precisou se justificar.
– Tudo bem, são ruínas importantes. Mas acho que o teatro que a gente vai ver lá em cima e os museus são experiências mais interessantes... Desculpa, depois das paisagens naturais de ontem, fica difícil se impressionar com outra coisa na Grécia.
– Por que você não consegue apenas amar e apreciar a História?
– Eu amo, só não a romantizo como você faz.
– Estou sendo tão atacada hoje. Por que aceitei vir com você mesmo?
– Porque estava entediada. – ele a puxou pela manga do suéter. – Vem, vamos arranjar comida, você está irritada de fome.
Ela protestaria, mas seu estômago roncou naquele momento, e teve que ir atrás dele, resmungando que a Acrópole era mais interessante com a iluminação noturna, ela iria provar.
Comeram em uma barraquinha, visitaram dois museus, e assistiram a uma apresentação de dança na rua. Às cinco e meia, a noite já começava a cair, e eles haviam rodado bastante pela cidade.
Pegaram um ônibus, e agora subiam o morro da Acrópole enquanto tomavam o sorvete de café mais famoso de Atenas.
Bella reclamou que a língua estava dormente devido ao frio do ar e do sorvete, e logo se arrependeu, pois Edward passou o tempo todo rindo de como ela falava com a boca mole.
– Não é engaçado, paia de rir!
– Desculpa, vou parar.
Mas ele não conseguia controlar seu riso frouxo, para desespero de Bella, e os turistas ao redor começaram a olhar.
– Você paiece uma quiança às vezes...
– Não sou quiança, já sou bem gandinho. – ele fez um beiço ridículo.
Bella revirou os olhos. O impulso de dar-lhe um tapa ou um beijo foram de igual intensidade. Mas ela se refreou, não fez nenhum dos dois.
Acabou lembrando-se de outra ocasião que ficou irritada com sua risada. Dessa vez foi esperta, esperou alguns minutos até a sensação de dormência passar para perguntar.
– Vem cá, do que tanto você ria no voo, hein?
– Eu? – ele franziu os olhos, tentando se lembrar.
– Sim, dava pra ouvir lá de trás onde eu estava, tive que pedir à comissária que chamasse sua atenção.
– Então foi você que me fez passar aquela vergonha?
– A vergonha que você mesmo se fez passar. Eu nem sabia que era você quando pedi. Mas também, se soubesse teria feito o mesmo. Você é muito sem noção.
– Eu nem ri tão alto assim, tentei me segurar...
– Imagina se não tivesse tentado.
– O que eu podia fazer? Estava assistindo Brooklyn 99, você sabe como é.
– Hm. Tá.
Edward a encarou, incomodado com a falta de entusiasmo.
– Você ainda não assistiu, né?
Ela sacudiu a cabeça.
– Porra, você nunca assiste nada que eu indico!
– Eu vou assistir. Mas tenho ainda umas dez séries na lista antes. Calma.
– Estou falando pra você assistir já tem uns dois anos... Aposto que se fosse indicado por aquele professorzinho lá, você assistiria na hora.
– Que professorzinho?
– James Hay do departamento de Cinema.
– Edward, foi um filme que ele me indicou e eu aceitei ver. Um!
– E era uma bosta pretensiosa do cacete. Duas horas jogadas no lixo.
– Você não precisava ter ido junto.
Ele cruzou os braços.
– Ah, claro, eu iria deixar minha namorada sozinha no cinema com um cara que só faltava te comer com os olhos.
Bella ficou boquiaberta.
– Não acredito que ouvi isso.
– Não me importo. Eu disse o que eu disse.
– Primeiro, ele sempre foi só um colega. Segundo... Argh! Até parece que você tem que me deixar sair com alguém. Aliás, até parece que tinha. No passado. Ainda bem.
– Eu nunca me importei que você saísse com qualquer amigo homem, você sabe disso. Mas aquele James... Não confio nele. Você também não devia confiar.
– Por quê? – ela bufou.
– Ah, por favor, vai dizer que nunca ouviu os rumores sobre ele?
– Que rumores, Edward?
– Que ele assedia as alunas pra aumentar a nota delas. E chama as garotas pra fazerem umas filmagens bem esquisitas no studio dele. Nuas. Em nome da "arte". – ele fez aspas com as mãos.
Bella o encarou, avaliando se ele estava falando a verdade ou apenas bancando o ex-namorado ciumento.
– Isso é muito sério. De onde você tirou isso?
– No aniversário de Carlisle que você não foi, mês passado... Eu estava sentado ao lado de três professoras da Universidade, elas comentaram sobre mais uma aluna que o tal cara tinha começado a namorar, e que era a nova musa dele. Depois falaram sobre os assédios, e disseram que algumas mulheres estavam querendo levar uma denúncia para a diretoria.
– Parece que você ouviu uma fofoca de sala dos professores. Como sabe que era ele?
– Eu não consegui ouvir o nome, mas logo depois vi James entrando na festa com uma garota ruiva que mal devia ter vinte anos. As professoras ficaram quietas na hora.
– Garota ruiva? – Bella pausou, estranhando a informação, até que sua ficha caiu. – Meu Deus, então ele realmente está saindo com a Victoria.
– Ela é uma aluna?
– É... Fez minha disciplina semestre passado.
– Viu! Eu disse! Como nunca soube dessas histórias antes?
– Eu não tenho paciência pra fofoca em ambiente de trabalho, fujo delas... Tinha ouvido sobre a Victoria, mas achei que era mentira.
– Pois deve ser verdade o resto da história também. Onde há fumaça, há fogo.
– Vou ligar para Carlisle depois e ver se ele sabe de algo. Se ele souber e tiver acobertado James, eu nem sei o que faço...
Carlisle era o amigo mais antigo de ambos na Inglaterra. Bella e ele fizeram juntos os cursos de pós e mestrado, enquanto ele tocava num clube com Edward antes de se tornar professor na faculdade. Além de ter apresentado os dois, foi ele que indicou o nome dela ao cargo de professora.
– Ele não sabia, eu comentei e pareceu surpreso. Ficou aliviado quando eles foram embora da festa.
– Ah. Menos mal...
– Tá vendo? Quando eu digo que não vou com a cara de alguém, estou sempre certo. Você podia me ouvir mais.
– Claro. – ela ironizou, sabendo que teria que aguentar por muito tempo a irritante aura de convencimento do rapaz por mais uma vez estar certo sobre alguma coisa hoje.
Fofocaram mais um pouco sobre pessoas em comum que conheciam na Universidade, até enfim se aproximarem da Acrópole.
De fato, a visão no solo não impressionava tanto, porém Edward calou a boca quando viu tudo aquilo de perto. O outro lado do morro escondia várias outras construções em um complexo arquitetônico imenso, todo iluminado. Ele tirou várias fotos pelo caminho.
Ao chegarem, tiveram uma ligeira discussão sobre como isso tudo havia sido construído; se pelas mãos de pobres escravos ou cidadãos voluntários. Até que se calaram, pois a peça de teatro iria começar nos escombros de um dos mais antigos teatros da Humanidade.
Os atores falaram grego o tempo todo, porém não importava. A interpretação, os gestuais e o cenário já valia a pena, e eles já tinham assistido algumas montagens de Édipo Rei em Londres, sabiam o enredo de cor.
Pausaram para tirar fotos do local quando a peça terminou, e foi no meio de uma delas que alguém bateu no ombro da morena. Para sua total surpresa, ela ouviu a voz grave de sotaque russo fortíssimo lhe chamando.
– Bella? Isabella Marie Swan?
N/A: Suspenseee! Algum palpite de quem seja?
Ah, Feliz Ano Novo, meu povo lindo! Espero que tenham tido boas festas. O próximo capítulo não deve demorar tanto, agora estou de férias de verdade.
Faça uma autora feliz, comente e divulgue :)
Beijos
