Disclaimer: Twilight é da Stephenie Meyer! Eu só faço seus personagens entrarem em altas aventuras com uma turminha do barulho.

Obrigada a Dandara por betar e pelos comentários que me fazem gargalhar de madrugada!

"The Simple Life" foi um reality show sobre a vida das socialites Paris Hilton e Nicole Richie em lugares inusitados. Alguém assistia? Eu amava!


Capítulo 4: The Simple Life

– Bella? Isabella Marie Swan?

A dita-cuja virou-se para dar de cara com uma moça loira, linda e alta, do tamanho de Edward, quase. Parecia saída direto de uma capa da Vogue e, por uns segundos, Bella ficou hipnotizada com toda aquela beleza. Precisou rebobinar treze anos na memória para enfim reconhecê-la, embora a voz rouca e profunda e o sotaque fossem inesquecíveis.

– Nina?

– Sim!

– Meu Deus, não acredito! – as duas se abraçaram, sorrindo. – Está tão diferente! Como você está?

Irina Pavlova, a Nina, foi sua primeira amiga quando entrou na faculdade em Washington. Uma intercambista russa, tímida, que vivia enfurnada na biblioteca. Foram colegas de quarto por dois intensos anos, até Irina voltar para casa. Haviam dividido um período de descobertas da liberdade que jamais se esqueceriam.

Embora Bella tenha tentado, foi difícil manter contato com a amiga, que desistiu da faculdade de letras para ser modelo na Rússia. Estavam há pelo menos sete anos sem se falar, e a última vez tinha sido por e-mail; Irina não confiava no Facebook.

– Estou ótima. Trabalhando muito, na correria, aquela loucura, sabe como é. Vim descansar um pouco com o marido. E você?

– Ah, trabalhando muito também... Agora estou dando aula na Universidade de Londres.

– Sério? Professora de quê?

– Literatura Contemporânea.

– Que maravilhosa!

– Obrigada. Pois é, estou viajando a trabalho, aliás. Quer dizer, estava. Em Alexandria. Nosso voo fez um pouso de emergência anteontem.

Gospodi! – exclamou "Meu Deus" em russo, uma das palavras que Bella tinha aprendido com ela. Essa e Ura!, que Nina dizia antes dos shots de vodka. A cabeça doía só de lembrar. – Meu motorista falou sobre isso hoje, você estava lá? Como foi?

– Horrível, quase tive um ataque de pânico. Mas graças a Deus no fim deu tudo certo. Quer dizer... Mais ou menos. Acabamos ficando presos na Grécia, está tendo uma nevasca em Londres.

– Hmm, ficar presa em Atenas até que não é nada mal, hein?

– Na verdade, estamos em Nea Makri, a uns quarenta minutos daqui. Conhece?

– Ah, claro. Fica perto da nossa casa em Chamolia.

– Você mora aqui agora?

– Não, na Alemanha, mas a gente vem pra cá quando há uma folguinha. Stefan tem uns negócios por aqui...

De repente, Bella teve a sensação de estar falando com alguém com muito dinheiro. E a julgar pelas roupas e aparência, Irina devia ser mesmo muito rica hoje em dia. Ter dois – ou mais – endereços na Europa não era para qualquer mortal.

– Então você está morando em Londres? – a russa continuou puxando assunto. – Conseguiu se livrar de vez dos americanos como sonhava, huh?

– Bom, acho que sim... Quase. – ela deu uma olhada em Edward, o único americano do qual ela não tinha se livrado. Isso sim era uma baita ironia.

Conversaram por mais um tempo como comadres, botando em dia as novidades básicas, até Bella descobrir que, além de modelo, Irina agora era uma celebridade no Instagram, com dez milhões de seguidores. Claro que foi praticamente obrigada a seguir o perfil, mesmo quase não usando a rede.

Edward, tendo sido esquecido pelas duas, já começava a ficar impaciente e com vontade de fazer xixi. Irina enfim percebeu o rapaz bufando e virou-se para ele.

– E o bonitão parado aí que nem estátua de Adonis, você não vai me apresentar não, Isabella?

Bella sorriu, ficando sem graça. Ele, mais ainda.

– Desculpa. Esse é o meu Edwar— digo, meu amigo, Edward Cullen...

Ele estendeu a mão, olhando a morena de soslaio. Então é isso? Virei apenas um amigo mesmo?

– Sim, sou o... amigo. Prazer.

– Prazer. – Irina sorriu, fazendo contato visual mais tempo que o necessário. – Americano também? De Seattle?

– Sou de Chicago. Nos conhecemos em Londres, na verdade.

– Olha só, que coincidência. – comentou para Bella.

– Nem me fale...

– Deixe-me adivinhar, você é ator... – voltou-se para Edward. – De teatro?

– Eu? Não, por quê?

– Ah, porque tem todo o look. – ela o olhou de cima a baixo. – Eu diria que você desistiu de Hollywood pra se dedicar ao teatro inglês... Desculpa, besteira minha, eu tenho essa mania de ficar imaginando a história de vida das pessoas. Bella lembra como é, né?

– Claro. – sorriu para a moça que, apesar dos vícios antigos e a mesma voz, parecia tão diferente e desinibida, que ela quase não conseguia acompanhar. Teve que engolir a pontinha de ciúmes que sentiu com o flerte descarado dela com Edward. Não tinha motivos, afinal. Irina era casada, e ele tinha sido apresentado como amigo.

Pois é isso que ele é hoje pra mim. Um amigo. Certo.

– Então, o que o Adonis faz, em vez de atuar?

– Eu sou professor de música, e toco piano em um clube. Na verdade, até tenho ligação com o teatro porque sou escritor e às vezes também escrevo peças, mas é só isso.

– Como só isso? Parece um pacote completo. Interessante. – ela ergueu as sobrancelhas na direção de Bella com uma ligeira malícia, como faziam quando encontravam um gatinho numa festa da faculdade.

A morena não sabia como agir com o rumo dessa conversa, e pensou em uma distração logo.

– Bom, queria dar uma volta pelo Parthenon. Quem me acompanha? – chamou, e eles foram.

Exploraram durante meia hora ao redor do prédio mais famoso da Acrópole e o resto da área que ainda não tinham visto.

Bella, maravilhada, fotografava a paisagem e as ruínas, enquanto Irina parava para tirar fotos dela mesma na sua máquina profissional com timer e tripé. Vez ou outra, algum jovem acenava para eles, e a russa acenava de volta. Seus seguidores estavam por toda parte.

Edward, vendo o esforço dela, se ofereceu para ser seu fotógrafo e ela só faltou pular em seu colo por gratidão. Bella parou para assistir a sessão de fotos, achando tudo estranhamente divertido.

O longo vestido branco de manga comprida quase tornava Irina uma deusa real na frente daquelas colunas iluminadas na noite. Bella ficou encantada com sua beleza e a facilidade com que fluía pelas poses. Queria perguntar como ela não estava morrendo de frio com a fenda na perna, porém concluiu que dez graus para uma russa devia ser alto verão.

– Nossa, muito obrigada. – disse a loira, depois de olhar as fotos no visor. – Meus seguidores vão pirar. Você é ótimo! Bella, vamos tirar umas juntas.

– Eu? Ah, melhor não, estou sem maquiagem.

– Ah, para! Ninguém vai ligar pra sua cara tendo a sua bunda nesse jeans pra olhar.

– Nina! – ela riu, morrendo de vergonha.

– Estou mentindo, Adonis?

O rapaz, zonzo, sem saber direito o que acontecia desde que ela chegou, só entendeu que falavam com ele segundos depois. Apenas sacudiu a cabeça.

– Você tá malhando, né? Vem. – Bella foi puxada para a escada. – Alonga o pescoço e empina um pouco o bumbum, vai dar tudo certo. Manda ver, Edward!

Irina ficou um degrau abaixo, diminuindo a diferença de quinze centímetros entre elas. Segurou firme a cintura de Bella, que estava doida para usar os conhecimentos de uma adolescência assistindo America's Next Top Model, porém apenas se conteve em tentar não parecer um boneco Funko perto dela.

Estavam trocando e-mails e telefones para que enviassem as fotos depois, quando o marido dela finalmente apareceu.

– Ah, Stefan vem vindo ali. – Irina virou-se para acenar, berrando um "benzinho" em russo. – Golubshka!

Subindo as escadas, vinha o homem mais bem vestido do local, com calça de linho bege, camisa de botão preta, e um relógio tão reluzente quanto seus sapatos de couro. Devia ser uns dez anos mais velho. Mas Bella até conseguia entender porque Irina tinha virado sua esposa. Seus frios olhos azuis contrastando com o cabelo e a barba muito escuros davam-lhe um ar excêntrico e misterioso.

Ela só sabia que poucas vezes tinha visto alguém como ele. Bom, também não estava acostumada a ver gente como Irina. Nem a própria tinha essa aparência quando se conheceram, anos atrás. Parecia coisa de filme.

O casal se cumprimentou com um sonoro beijo na boca sem vergonha nenhuma, como se não se vissem há dias. O ex-casal sobressalente desviou o olhar, se entreolhando por um momento. De cenho franzido, Edward buscava explicação para tudo isso, mas Bella apenas ergueu os ombros.

Irina soltou Stefan e trocaram umas palavras em russo antes de mudarem para inglês.

– Quem são seus amigos? Modelos também? – ele lançou um sorriso brilhante, imediatamente irritando Edward. Seu sotaque russo era forte como o da esposa.

– Essa é Isabella Swan, aquela amiga americana que eu falei... do intercâmbio, a Bella. É professora universitária. E este é Edward Cullen, amigo dela. Também professor, músico, escritor, ih! Um currículo imenso. – falou, antes de segurar o ombro do marido. – Amigos, este é Stefan Vlasak, ele é empresário de comércio internacional. E também o amor da minha vida.

– Olá, prazer. – A morena ofereceu uma mão para cumprimentá-lo, porém Stefan a virou, trazendo aos lábios e depositando um beijo.

– Encantado. Bella. Adoro esse nome. Preenche a boca.

Tá, agora foi estranho, ela achou, mas sorriu apesar disso.

– Obrigada... É italiano.

– Sim, e espanhol também. Combina com você... Bella cual flor. Bonita como uma flor.

– Obrigada.

Tão original. – Edward debochou da cantada barata com um resmungo, mas apenas Bella captou o que ele disse e fez cara de "se comporta".

Ele estendeu a mão, mudando o foco.

– Como vai, Stefan? Vou ficar te devendo um nome interessante. Edward é bastante inglês.

– Prazer. – Stefan sorriu, apertando forte. – Não tem problema, Edward também combina com você. Tens cara de realeza.

– Hm. Pelo menos não sou o bobo da corte.

– Ok, já fomos todos apresentados. – Irina interviu. – Agora, me digam, quais os seus planos pra hoje?

– Bem, a gente só ia jantar por aqui antes de pegar o último ônibus de volta a Nea Makri, por quê? – Bella respondeu.

– Stefan e eu temos uma reserva pra jantar em Atenas, mas depois vamos a uma festa em Chamolia, na boate de um amigo nosso. Vocês são nossos convidados para os dois eventos, que tal?

– Ah, festa... não sei. Mas o jantar, acho que podemos topar sim. – Bella falou olhando Edward, que assentiu concordando.

– A festa também, por favor! – Irina implorou. – É o evento principal, amiga.

– Vamos ver, vamos ver... Temos que organizar as coisas pra voar amanhã, provavelmente vão nos chamar cedo.

– Está bem, até mais tarde eu convenço vocês. Vamos, então? Nossa reserva é às oito.

– Não tem problema adicionar mais duas pessoas?

– Ah não, temos a varanda só pra gente.

– Venham, o carro já está esperando na ladeira. – Stefan gesticulou para irem na frente.

Por algum motivo, Bella esperava encontrar uma limusine branca com champanhe dentro. Mas o Audi preto guiado pelo motorista do casal também não decepcionou.

– Tomara que eu não esteja muito desarrumada pro lugar... – ela comentou, entrando no carro. Stefan foi no carona e os outros três no banco traseiro.

– Imagina. Cidade turística na Grécia é assim mesmo, os restaurantes estão acostumados. Tem gente arrumadíssima e gente de sandália e bermuda. – Irina explicou. – O que querem mesmo é que os turistas gastem bastante aqui. Se você tem grana, pode estar até de saída de praia.

No caminho, ela contou a Felix, o motorista, que seus convidados eram sobreviventes do voo, e o homem achou tão incrível, que eles se dispuseram a contar os detalhes da aventura. Em meio a conversa animada, chegaram em poucos minutos. O local na verdade era um bistrô que ficava no alto de um morro oposto ao da Acrópole.

E era chique. Podre de chique.

Bella só ia a lugares assim quando algum professor mais velho (leia-se: mais rico) a convidava, ou algum amigo abastado comemorava aniversário.

Para Edward, nem isso. Lugares luxuosos simplesmente não faziam parte da sua vida e círculo social. Foi a algumas noites de autógrafos em restaurantes chiques acompanhando Bella, e só. Eventos em pubs obscuros eram mais sua praia.

Liderados pelo recepcionista, eles seguiam Irina e Stefan pelo bistrô. Por onde passavam, sentiam uma espécie de tensão. Cochichos e olhares discretamente indiscretos voltavam-se para o comboio, porém com muitos, muitos sorrisos. Principalmente dos funcionários.

– Ela é famosinha mesmo, né? – Edward cochichou para a ex. – O povo tá todo olhando pra gente.

– Espero que estejam olhando pra ela mesmo e não pra minha roupa toda errada, de mochila ainda por cima...

– Você está ótima. E eu que estou com esse jeans rasgando a cada degrau? Daqui a pouco meu joelho pula pra fora.

Ela olhou para a peça arrombada enquanto subiam as escadas.

– Porra, Edward, vai cair a mão se der uma remendada? – brigou num sussurro.

– Você que remendava minhas roupas. – falou como se fosse uma defesa.

– E eu te ensinei como faz, pra eu não ter que ficar fazendo. Não aprendeu não?

– Sim, mas estou sem tempo agora.

– Tsc, tsc. Não quero nem imaginar o estado daquele muquifo que você chama de flat sem mim por lá.

– Ei, sem insultar. Está limpinho.

– Imagino.

– Você não ouviu quando eu disse que mudei, estou mais organizado? Criei novos hábitos pra isso também.

Ela resolveu acreditar, porque pensar nisso já lhe irritava. A bagunça de Edward era uma das coisas que mais a incomodava na convivência, e ela tinha perdido a conta de quantas vezes brigaram por isso. Deixou para lá também porque haviam chegado ao local reservado, que não era apenas uma varanda, e sim um terraço inteiro.

Era tudo muito bem decorado e aconchegante. A mesa ficava sob uma tenda elegante de madeira e tecido branco, com aquecedor portátil ao lado. A visão era privilegiada; viam a cidade toda, além das ruínas iluminadas ao longe.

– Que vista! Certeza que o cartão postal que eu comprei mais cedo foi fotografado daqui. – Bella comentou enquanto sentavam-se. Um casal de cada lado da mesa.

– É lindo, não? – Stefan abriu aquele seu sorriso estranho e afetado porém misteriosamente atraente. – Atenas é bonita. Se bem que eu prefiro as ilhas. Nossa, se tivéssemos nos encontrado em Santorini... É de tirar o fôlego.

– Quero visitar um dia. Nunca tinha dado muita bola para as ilhas gregas, mas agora virou um objetivo.

– Ah, então você é nossa convidada. O amigo Edward também, claro. Podem ficar na nossa casa em Chamolia, e pegamos o iate pra visitar as ilhas. É só marcar.

Claro que eles tem um iate, Edward pensou, apenas sorrindo e acenando com a cabeça.

– Agradeço o convite. – Bella sorriu. – Mas marcar é difícil, eu não sei nem quando vou ter férias de verdade...

– Por favor, eu faço questão, amiga. – Irina adicionou. – No verão! Não tem férias na faculdade?

– Alguns dias. Quem sabe. A gente vai se falando. – disse enquanto o garçom ia enchendo todas as taças com champanhe, sem sequer eles pedirem.

– Vamos brindar! – Irina ergueu sua taça.

– Eu juro que tomaria, mas realmente me prometi não beber mais por um tempo... Ontem passei um pouco do ponto.

– Só um gole.

– Se for um gole, eu vou querer beber tudo. Melhor não.

– É, ela prometeu que hoje não beberia nada. – Edward avisou. – Nem eu posso oferecer.

– Edward, faça ela desprometer. Não vai se arrepender, amiga, é a melhor garrafa do restaurante, você tem que provar.

Ela entreolhou a taça, Irina e Edward. A taça de novo. Suspirou.

– Ok. Eu tomo. Só uma, hein...

O rapaz virou-se para ela lentamente sacudindo a cabeça e meio boquiaberto, mas viu a decisão firme em seu rosto, e acabou desistindo. Como ela poderia ter mudado de ideia tão facilmente após ter dito aquelas coisas pela manhã?

– Aos encontros inesperados! – a russa comemorou, e ele teve que pegar sua taça para brindar com os demais.

Discretamente, enquanto olhavam o menu caríssimo, Edward inclinou-se para Bella.

– Então todo aquele papo de regras era balela, né? Ou só se aplica pra quando estamos a sós?

Ele nem disfarçou o rancor, exatamente para ela ouvir na sua voz. A moça permaneceu-se impenetrável.

– Você sabe que eu tive um motivo pra fazer as regras, eu te falei. Porém são minhas regras. Posso mudar se quiser.

– Isso significa que vai continuar bebendo?

– Eu sei o que estou fazendo, não se preocupe.

– Tá bem... Se eu tiver que cuidar, eu cuido. Mas depois não fica surtando com ressaca moral amanhã e nem botando a culpa em mim, hein.

Bella apenas ignorou sua rabugice e tomou um bom gole, afrontosamente.

– Hmm, uma delícia mesmo. – comentou. – É champanhe da região?

Stefan começou a falar sobre safras, uvas e solo grego. Derrotado, Edward pegou novamente sua taça para beber. Era, de fato, delicioso.

O jantar exclusivo até que foi agradável. Mais duas garrafas de vinho chegaram à mesa, porém Bella não tomou mais, como prometido, e Edward se limitou a beber apenas mais uma taça. O restante ficou por conta do casal.

Irina parou duas vezes e fez algumas fotos e vídeos para seu Instagram, tendo que matar a curiosidade de Bella sobre como era ser uma webcelebridade. Ela era expansiva e barulhenta, mas Edward até se divertiu com suas histórias malucas sobre os bastidores do mundo da Moda.

Com o passar do tempo, o grupo conseguiu se soltar e se conectar melhor. Apesar de Irina falar o triplo do que o marido, e apesar do ligeiro mau humor que Bella sentia em Edward.

Não era perceptível aos demais, mas ela conhecia bem os sutis sinais de que algo o incomodava. Resolveu não dar muita atenção a isso. Estava se divertindo, aproveitando a onda do acaso, como tinha decidido fazer ao sair do quarto em Nea Makri. Se ele não estava curtindo toda a situação inusitada e as mordomias que vieram junto, problema dele.

Enquanto terminavam a sobremesa, Irina tentava convencê-los a irem para a festa. A carona até o hotel já estava garantida, agora só faltava aceitarem ir para a boate.

– Vamos, Bella. Só por umas horinhas, você volta cedo. Você não vai querer perder. Os DJs são os melhores da região, o lugar é lindo. E melhor ainda, os drinks são maravilhosos.

– Melhor nada, pior. Vou ficar passando vontade.

– Edward. – ele desfocou da sobremesa ao ouvir seu nome. – Você quer ir, né?

– Bom, eu... Até acho que iria, não sou de recusar uma festa, mas também não sei—

– Isso! Então você vai! – ela interrompeu, esticando uma mão na mesa, quase pegando a dele. – Agora, convence nossa garota? Por favor?

– Eu? – O rapaz riu nervoso, olhando Bella. – Não, não. É decisão dela... Ela está há dois dias preocupada com esse voo de volta. Já fiz bastante convencimento durante essa viagem, melhor ficar quietinho agora pra não sobrar pra mim.

– Bella...

– Nina...

A russa parou por um instante, tendo uma nova ideia. Seu sorriso abriu-se quase maquiavélico.

– Tudo bem, então Isabella não quer ir, eu respeito. Mas mesmo que ela não vá, Edward vai, né? Você disse que não recusa uma festa. Alguns amigos vão, acho que você vai se dar super bem com eles... Aliás, tenho duas amigas muito gatas e solteiras que estarão lá.

– Ah. Eu... Não sei. – pego de surpresa, ele olhou sua ex em busca de ajuda.

– Por que está olhando pra mim?

– Porque tecnicamente eu sou seu companheiro de viagem por aqui? – nem ele sabia a resposta direito. O que sabia era que Irina era só um pouquinho intimidadora quando queria conseguir algo, e ele não tinha ideia de como agir.

– Você pode ir, se quiser. – Bella deu de ombros, segurando o desejo de cruzar os braços infantilmente. – Quer dizer, não que você precise da minha autorização pra sair com colegas, embora possa achar a prática normal e tal...

Ela replicou uma besteira que Edward tinha dito horas atrás no ônibus, fazendo-o revirar os olhos. Bella estava o espezinhando de propósito. Aquilo era ciúme ou o quê? Ele conhecia bem a linguagem corporal dela quando ficava ciumenta, e agora era o que via, sem tirar nem por.

Com certeza era pelo que Irina disse sobre as amigas solteiras, ele constatou. Bella estava com ciúmes que ele ficasse com alguém, ao mesmo tempo que havia vetado aproximação física entre eles por sei lá quanto tempo. Como entender essa mulher?

Imediatamente, ele tomou sua decisão. Odiava joguinhos, mas se ela estava disposta a fazê-los, então iria entrar na dança só para ver como ela reagiria.

– Tudo bem. Eu vou, então. – afirmou, tirando o olhar de cima de Bella e o levando à Irina.

– Isso! Esse é meu garoto! Vai ser foda. – a russa deu uma mão para ele bater.

No canto da mesa, alheio a tudo, Stefan com o semblante sério e indecifrável digitava furiosamente no celular. Bella começou a fazer o mesmo, tentando ignorar a nova dupla de melhores amigos festeiros do mundo.

A conta sequer chegou na mesa, e os americanos, confusos com a manobra, deduziram que devia ser coisa de gente rica. No carro a caminho de Chamolia, eles passaram grande parte dos trinta minutos falando sobre música eletrônica.

Edward achava que os DJs mais famosos atuais eram preguiçosos e sem criatividade, endeusando os de Londres dos anos 90. Irina ficou indignada e defendeu seus amigos (sim, ela era amiga de algumas celebridades da música). Bella tentava acompanhar, porém sua cultura musical passava longe do estilo eletrônico.

Já chegando perto da boate, Irina pegou o celular, recebendo mensagens sem parar. Riu de alguma coisa, e depois esticou a tela na cara de Edward.

Era a foto de uma mulher. Bella se fez de cega.

– O que acha dela, Adonis? – a modelo quis saber.

– Ahm... Ela é ruiva?

– Ah, você jura?! Sério, o que acha? Faz seu tipo?

Ele sentiu Bella tensionar ao seu lado. Por algum motivo, também prendeu a respiração.

– Oh. Bom... Ela é bonita, eu acho.

– É uma das solteiras. Acho que vocês se dariam bem. Tanya Dee, já ouviu falar? É uma cantora do Alaska, está morando em Paris.

– Irina... – ele arrastou seu nome. – Ela parece legal. Mas não sei se rola.

– Como não?

Queria dizer "Não posso, minha ex está aqui e não quero magoá-la, mesmo que ela não esteja ligando muito pra mim nesse momento, embora eu ache que esteja. Sei lá, porra".

Porém pensou melhor, e deu uma resposta que não expunha seu verdadeiro relacionamento com Bella, como ela tinha indicado ser seu desejo mais cedo.

– Eu estou em viagem, devo ir embora amanhã. Não acho que seria legal.

– Ah, bobagem. Ela também vai logo. É só uma noite. Tem coisa mais excitante que uma aventura sexual durante uma viagem? Não tem.

– Nina, está deixando os convidados constrangidos. – Stefan no banco da frente deu um sermão em tom paternal.

– Eles são bem grandinhos, já falam de sexo. Eu espero, né. – ela riu.

Edward roubou um olhar para sua ex, que tinha ficado suspeitosamente quieta. Estava jogando Palavras com Amigos.

Sério, bem no meio dessa loucura toda ela decide se isolar com joguinho no celular?

Chegaram à boate nem dois minutos depois. O lugar fervia de gente muito bem arrumada na porta, seus carrões caríssimos estacionados por ali. Um jardim com caminho de arbustos e palmeiras iluminado pelo jogo de luzes se estendia por alguns metros, até chegar à mansão de dois andares toda branca com pé direito alto. Atrás, o mar cheio de barcos atracados e uma lua imensa fazendo o píer brilhar.

– Bom, é aqui que nos despedimos. – Nina falou para Bella, que seguiria no carro com o motorista para deixá-la em Nea Makri.

No entanto, olhando toda movimentação da fila, uma espécie de desespero começou a subir pelo seu corpo enquanto imaginava qual daquelas mulheres lindíssimas seria Tanya Dee. Não queria que sua cabeça tivesse ido a esse lugar, mas foi. Sentiu-se fraca.

– Eu vou ficar. – acabou vomitando as palavras antes de pensar muito. Os dois no banco traseiro encararam, surpresos.

– Quê? – Edward duvidou do que ouviu.

– Quer dizer, acho que quero ficar por aqui... Com vocês. Ainda são dez horas, posso voltar cedo, e—

– Oba! Obrigada, sabia que mudaria de ideia. – sua amiga interrompeu, refletindo os pensamentos de Edward. Ela saiu do carro primeiro. – Vem, vamos mexer essa bunda.

Eles passaram pela entrada VIP sem esforço algum.

Ao contrário do que Bella e Edward esperavam, o clube não tinha música estridente nem chata. Era agradável aos ouvidos, um estilo gostosinho de dançar, sem deixar de ser jovem.

A decoração era um misto de clássica com moderninha. Paredes brancas e de cimento queimado sob a iluminação meio roxa e rosa faziam o ambiente ficar descolado. A parede ao fundo era envidraçada de cima a baixo, e fornecia uma incrível visão da enseada.

Poucas vezes Bella e Edward tinham visto tantas pessoas bonitas juntas enquanto passavam pela pista, indo parar numa espécie de camarote no canto. Era elevado em cinco degraus, tinha sofás de couro, uma mesinha dourada e a faixa vermelha delimitando o espaço. Duas garrafas de vodka já estavam no gelo, e embora Bella tenha se assustado com a quantidade, tudo foi explicado quando os amigos começaram a chegar.

Alec e Marcus, um casal grego que devia ter seus quarenta anos, vieram acompanhados de uma jovem, Katrina, quase uma gêmea da outra russa. Modelo também. Eram todos simpáticos, logo que foram apresentados, as conversas já começaram a rolar.

Os shots de vodka foram servidos ao som de "Ura!" e "Eviva!", e embora quisesse compartilhar o momento de descontração, Bella rejeitou.

Não demorou muito para a bebida subir à cabeça do pessoal, e menos de uma hora depois, todos já pareciam bem empolgados. Ao lado das loiras, Alec e Marcus contavam histórias da pousada que tinham em Atenas, de pé, reencenando trechos. Sexo grupal era o tema da vez. Eles eram os protagonistas.

Roubando um olhar para Edward, Bella viu que ele parecia se divertir, embora reservado. Deu um toque com o cotovelo para mexer um pouco com ele.

– Você acha que até o fim da noite eles chamam a gente pra suruba?

Ele fez um som de indignação.

– Só porque são gays falando de sexo?

– Claro que não. Porque são europeus.

– Tsc, olha o estereótipo. – ele deu a bronca, mas riu um pouco. O povo era realmente bem mais liberal do que estavam acostumados na América.

– Cadê o Stefan? – Bella olhou em volta, reparando que ele era o único da comitiva original que tinha sumido do camarote.

– Um cara de terno veio chamar, e ele foi atrás. Entraram naquela porta lá em cima. – Edward apontou a cabeça para frente, o segundo andar, que Bella deduziu ser da administração.

– Deve ter ido com o amigo que é dono daqui.

– Pode ser. – murmurou sério.

– Que cara é essa?

– Você não acha que tem alguma coisa meio esquisita nele?

– Stefan? Parece aquele vilão das Panteras dos anos 2000, né? Mas deve ser só botox mesmo. – ela riu da própria piada. Edward apenas bufou uma risada, sacudindo a cabeça.

Mais uma amiga chegou naquele momento, e Irina a apresentou rapidamente. Carmem Duran, uma atriz de TV espanhola lindíssima, que depois de trocar dois beijinhos com eles, avisou à Irina que a tal Tanya ainda demoraria pois estava num jantar de negócios.

Ao menos, foi isso que Bella ouviu Carmem dizer. Não que ela estivesse bisbilhotando conversa alheia nem nada...

O camarote bebeu mais shots de vodka, e Bella novamente fingiu que não era com ela quando lhe foi oferecido, assim como também fingiu não ver Alec e Katrina dividindo um comprimido tirado da bolsa Gucci dela. No entanto, não conseguiu fugir quando a nova colega puxou seu braço, insistindo para descerem à pista e dançar.

– Poxa, obrigada, Katrina, mas—

– Pra você é Kate.

– Kate. – ela sorriu. – Eu estou meio cansada, andei o dia todo. Estou um pouco sem clima.

– Ah para com isso, agita o clima! – a loira respondeu no sotaque russo com o inglês um pouco atrapalhado.

– Acho melhor agitar mesmo, porque daqui a pouco a gente vai pro mar. – Irina levantou-se com uma taça de martini nas mãos que ninguém nem viu chegando. O pessoal comemorou a novidade, mas Bella e Edward ficaram confusos.

– Mar? – perguntaram.

– Nosso iate está atracado aqui atrás. – Stefan chegou como uma assombração, falando debruçado na grade. Talvez Edward tenha pulado um pouco. – Estão mais do que convidados. É a melhor festa da cidade, eu garanto.

– Achei que essa era a melhor festa da cidade. – o rapaz comentou.

– Meu amor, você não viu nada. – Carmem sorriu, piscando um olho.

– Bom, eu... – Bella começou, sendo interrompida por Irina.

– Já sei, estava planejando voltar cedo pra dormir e voar amanhã. – imitou com uma voz melosa, já demonstrando sinais de alteração. – A gente deixa vocês em Nea Makri primeiro, não é problema algum. O problema vai ser vocês perderem a festinha.

– Tá bom, então. Vamos pra festinha. – a morena aquiesceu, olhando Edward em busca de confirmação, mas ele estava disperso, o cenho franzido na direção do segundo andar mais uma vez, e não disse nada. Ela escolheu o momento de rabugice dele para se levantar e ir ao banheiro.

Ao sair depois de enfrentar uma longa fila, encontrou a pista de dança mais cheia, finalmente sentindo uma animação surgir enquanto atravessava os corpos dançantes até ao camarote.

Do nada, sentiu uma mão em seu punho, e iria fazer um escarcéu com o macho abusado que a importunava, até ver que era Kate, mais para lá do que para cá de chapada.

– Não quer mesmo, anjo? Nina disse que você adooora dançar.

– Nina falou de mim, é? – Bella riu.

– Por favor. – ela fez um bico no meio da pista. – Estou sozinha aqui, todos me abandonaram.

Deixando a timidez para lá, Bella resolveu aceitar.

Achou engraçado quando lembrou-se das palavras de Alice sobre andar pela Grécia num barco com gogo boys, champanhe e modelos russas. Metade de sua profecia já se concretizava, agora aguardava os homens semi-nus aparecerem e o grego sedutor. Se bem que esse ela podia ficar sem.

As duas começaram a dançar a música de uma cantora pop americana que Bella não lembrava o nome e falava sobre beijar uma garota no verão e não contar para a mãe. Foi difícil não se sentir velha demais para boates.

Katrina perguntou-lhe algo, e sem entender nada sob o som alto, ela pediu para repetir. Só conseguiu ouvir a última parte.

– Você gosta, né? – perguntou Kate com um sorriso misterioso, apontando para cima, como se fosse para as caixas de som. Bella não sabia exatamente do que se tratava, mas inferiu que deveria estar falando da música.

– Acho que sim. Gosto.

– Uhum.

Os braços da russa tinham vida própria. Conduziam Bella para todos os lados, rodopiando e obrigando-a a soltar os quadris. A morena quase caiu depois de pisar em seu pé, e Kate teve que segurá-la pela cintura evitando a queda. Apesar da estranheza, Bella entrou na onda, riram muito juntas.

– Como é nome do seu amigo mesmo? – Kate perguntou.

– Edward?

– É, ele está te olhando bastante. – falou, meneando a cabeça para o camarote, fazendo Bella avistá-lo de pé observando as duas.

Um rebuliço inesperado em seu peito subiu com a intensidade do olhar dele. Perguntou-se quanto tempo ele estava ali.

– Ah. É...

– Vem. – Katrina o chamou, batendo a mão.

– Ai, acho melhor não...

– Estamos só brincando. – disse, chegando mais perto para dizer colada em seu ouvido. – Nunca faço isso, mas vocês são um casal tão irresistível. Adoraria brincar com os dois juntos.

Por um instante, Bella paralisou, sem saber como se livrar das pernas que já quase se entrelaçavam nas suas enquanto Kate ondulava o corpo. Só agora caía a ficha de que aquela pergunta não era sobre o que achava da música, mas sobre o que ela achava de beijar garotas.

– Kate... – ela se afastou um pouco.

– Sim?

– Olha, você é linda, mas... Não é pra mim. Entende? – disse tão delicadamente com medo de não parecer rude, que Kate não conseguiu segurar a risada.

– Tudo bem, meu anjo. – falou acariciando o queixo da morena e se desgrudou por completo. – Mas se mudar de ideia, sabe onde me encontrar.

Continuaram a dançar, cada uma em seu espaço, como se nada tivesse acontecido, para alívio de Bella.

A tranquilidade não durou muito, porém. Segundos depois, um calor em suas costas arrepiou seu dorso involuntariamente. Nem precisou virar para reconhecer o dono da voz em seu ouvido.

– Pra quem não queria vir, você até que tá bem soltinha, hein?

– Estou aproveitando, apenas. – respondeu a Edward sem parar de dançar.

– Certo... Se importa se eu ficar aqui?

– Não, tudo bem.

O cara gostava de dançar, isso era verdade. Mas principalmente, ele gostava de dançar com ela. Não queria perder a oportunidade.

Tentou se enfiar para ficar em seu lado direito sem sucesso; atrás dela era o único lugar onde havia espaço na pista já cheia, e foi lá que ele ficou. Se baixasse o olhar, tinha visão privilegiada de uma linda bunda bem conhecida. Ele que não iria reclamar.

Bem, isso era o que ele achava.

Um hip hop antigo que Bella adorava começou a tocar, e seus olhos fecharam-se para sentir a melodia nostálgica. Era seu gênero favorito para dançar. Seus movimentos fatalmente se tornaram lânguidos, seus quadris subindo, descendo e girando na bendita música suingada.

O rapaz não aguentou.

– Vem cá, a regra de não tocar ainda está valendo?

– Claro.

– Mesmo numa dança inocente?

– De inocente você tem só a cara, Edward...

Sendo hipócrita a suas próprias palavras, ela ergueu os braços, pendendo-se um pouco para trás. Acabou roçando nele, que tentava acompanhá-la livre de mãos (e outras partes) bobas, ao contrário de como costumava fazer quando saíam para dançar juntos.

Mas em vez de se afastar, ela se permitiu sentir seus corpos se tocando em partes bem estratégicas. Mesmo sabendo que estava quebrando mais uma regra, o momento foi mais forte que ela.

Edward achegou-se mais, abaixando o rosto até cheirar seu pescoço. A morena deixou – sorrindo ainda por cima –, e viu Kate piscando um olho. Estava divertido, ambas acharam. Só se afastou sentindo o rapaz completamente colado e abraçando-a, e riu ao ouvir o gemido de protesto quando espantou seu braço dali.

– Você está se divertindo com isso. – reclamou ele em seu ouvido, fazendo-a a girar o rosto.

– Com certeza.

– Isso é tortura.

– Você que está fazendo ser tortura. Eu estou só dançando.

– Claro. dançando que nem gata no cio se esfregando em mim. E não posso nem te tocar.

– Ué, não é assim que os jovens dançam hoje em dia?

Ela sorriu maliciosa, gostando muito do joguinho de implicar com ele.

– Deus do céu, você está se divertindo demais. Tsc, tsc... Quem é você e o que você fez com a Isabella?

Rindo, ela viu que Katrina tinha desistido deles e começado a se embolar com outra garota, deixando-os para trás. Decidiu se virar para enfim encarar Edward. Se fossem se tocar para valer, então devia ela mesma guiar. Punhos cruzados atrás do pescoço dele, antebraços apoiados em seus ombros. Perto, mas nem tanto.

– Pronto. Tá bom assim?

– Melhoraria se eu pudesse pegar na sua cintura.

– Tá bom... Mas não abusa. Deixe espaço para o Espírito Santo entre nós.

– Quê?! – ele riu.

– Era o que os professores diziam nas festas da escola.

– Ah, esqueci que você estudou em colégio adventista... – ele assentiu, enfim botando as mãos nela e entrando no seu ritmo. – Minha escola estava bem longe disso. Nas festinhas sempre tinha boquete e dedadas rolando atrás das arquibancadas.

Bella riu da vulgaridade inesperada, deixando cair sua máscara de femme fatale provocadora.

– Ai Meu Deus!

– Pois é, essa expressão ecoava muito no ginásio.

– Nunca soube que você foi um adolescente pervertido.

– Ah, eu não. Infelizmente, nunca estive envolvido nessas atividades.

– Aham, sei.

– Juro. Já na faculdade, foi outra história...

– Não vou nem perguntar.

– Só digo que a sala do Diretório Acadêmico já viu muita coisa.

– Eca! – exclamou ela, rindo.

Sem perceber, tinham se aproximado além do que ela havia planejado nessa brincadeira toda.

Era inevitável, tanto pela necessidade de se fazer ouvir sob o batidão alto, quanto pela natural atração entre eles. Bella sentiu o peito bater cadenciado junto a música, e se afastou, continuando a deixar o som embalar seus corpos. De volta a posição original, dançaram mais duas músicas no mesmo estilo de hip hop antigo, comentando como o DJ era realmente bom.

Apesar de tentar, Bella não conseguia fixar o olhar nele por muito tempo. Ele a deixava nervosa – o nervosismo do tipo bom, mas ruim naquele momento. Se forçou a pensar em outras coisas.

– Você não pareceu muito animado em ir na festinha do iate. –falou na introdução da próxima canção.

– É, não estou muito a fim.

– Sério? Eu queria tanto ir.

– Quer mesmo?

– Claro, ué. Ser extremamente VIP uma vez na vida, quem recusaria?

– Bella... – ele sacudiu a cabeça suspirando e parando de dançar. Os braços de ambos penderam para as laterais do corpo.

– Que foi agora?

– Não acho uma boa ideia. – ele declarou.

– Por quê?

– Porque não.

– Você vai precisar de mais do que isso pra me convencer.

– Vem aqui que eu não quero berrar.

Ela o seguiu, indo parar no paredão envidraçado onde o som era mais baixo; seus rostos iluminados meio a meio pelas luzes da boate, e pelo luar forte que atravessava o vidro.

– Olha, esse pessoal é legal e tal. – Edward começou. – Mas você não notou que quase todos estão super chapados?

– Ah, me poupe. Até parece que não estamos acostumados a ir em festa com gente se drogando. Aliás, pelo que eu me lembre, você e seus amigos sempre gostaram de uma erva no final da noite e eu nunca falei nada.

– Não se compara. Você estava na pista com Katrina e começou a rolar umas coisas pesadas no camarote, eu vi. Ela própria já estava bem doida.

– E daí? É só não usar.

– Não é simples assim, e você sabe.

Bella o avaliou, vendo que Edward estava falando sério e parecia irredutível. Bem diferente do homem aventureiro que dizia "fazer a diversão acontecer" e tinha a incentivado a ir viver um pouco. Ela começava a ficar impaciente.

– Edward, o que houve, hein?

– O que houve o quê?

– Isso não é só por eles estarem chapados.

– Claro que é.

– Você não me engana. Na boa, você tá mais chato que eu essa noite, tá assim desde que Irina chegou... Ficou emburrado no jantar porque eu tomei uma taça de champanhe, fez vários comentariozinhos sarcásticos, agora isso. O que tá te incomodando? Fala logo.

– Bella. – ele bufou. – Sei lá, eu só não fui com a cara desse sujeito, Stefan Vlasak. E agora essa ideia de festinha particular em alto mar... Fiquei com um pé atrás. Você mesma disse que acha ele estranho.

– Só porque ele tem uma aparência peculiar? Qual o problema nisso?

– Não é a aparência, é o jeitão todo... Irina disse que ele é empresário de comércio internacional. Que porra isso significa?

– Não sei. Talvez faça exportações de produtos na Alemanha, onde eles moram?

– Eu vi o homem mal-encarado que subiu com ele lá pro segundo andar. As drogas apareceram logo depois que voltaram… Achei suspeito.

– Ok, mas eu vi, com esses olhinhos aqui, Kate tirando comprimidos da bolsa. O povo deve estar carregando o resto com eles. Sabe, pra uso pessoal. Não pra tráfico. – ela disse sarcástica.

– Continua suspeito. Stefan desconversou no jantar quando eu perguntei mais a respeito dos negócios, por que faria isso?

– Empresários milionários são assim mesmo, não saem falando dos negócios deles pra não chamar atenção.

Ele sacudiu a cabeça dramaticamente, botando as mãos na cintura.

– Parece drogas pra mim. Máfia, tráfico... Eles se encontram nesses lugares tipo boate, restaurante, pra despistar mesmo, por isso ele subiu lá na salinha, pra ter alguma reunião.

Bella gargalhou.

– Edward, não pira! Você tá vendo muito filme de gangster. Tá maratonando Narcos de novo?

– Eu sei lá! Esse cara é esquisito, estou te falando. E você já sabe quando eu acho alguém esquisito... Lembre-se do professorzinho, James Hay. Eu estava certo o tempo todo.

– Ah, para. Você está estereotipando alguém que nem conhece.

– E você conhece Stefan?

– Conheço Nina. Bom, um dia já conheci muito bem. Mas pense um pouco. Alguém que é uma celebridade na internet, modelo internacional, com a vida toda exposta, seria casada com um mafioso, que ainda por cima dá bandeira distribuindo drogas pra galera dele num lugar aberto? Acho que não. A Interpol já estaria aqui a essa hora.

Atendendo ao pedido, ele refletiu por um momento. Mesmo assim, a ideia ainda o incomodava.

– Olha, eu não sei nada sobre famosos no Instagram e muito menos sobre a Interpol, mas continuo achando um pouco arriscado ir nessa festinha com eles. Sabe-se lá o que rola.

– O que você acha que vão fazer? Nos sequestrar e vender nossos órgãos?

Ele ficou branco.

– Nem brinca com isso.

– Ai, Edward, vamos. Para de ser chato. Você fez todo um discurso sobre a necessidade de ser mais espontâneo e sair dos planos, aproveitar a onda... Agora é a hora.

Ele suspirou pesado.

– Não estou sendo chato, estou sendo responsável. Até estranho que você não esteja avaliando nem um pouquinho os perigos. Quase não saiu do quarto hoje porque ficou com medo de se empolgar e fazer besteira, e é isso que parece que está fazendo agora. Você realmente quer ir ou só está deslumbrada?

Suas palavras tiveram o impacto desejado.

Para ser sincera, as mordomias da experiência eram o foco de Bella. Não estava acostumada com nada disso. Precisou se forçar a parar de pensar naquilo e considerar outros fatores, pois talvez ele pudesse ter um pouco de razão.

– Quão chapados eles estão? – perguntou.

– Bastante. A única que eu não vi usando foi Irina. E Stefan, claro, porque quem vende nunca usa.

– Shh, para com isso! – falou mais baixo. – Se alguém te ouve falando assim...

– Ah, agora tá com medo?

Ela revirou os olhos. Edward tinha vencido.

– Ok. Eu poderia ir sozinha, mas só vou rejeitar o convite porque ficar sóbria no meio de gente doida é um saco, e eu não quero descumprir minha promessa de não beber nada.

– Tá... – assentiu, satisfeito por ter tirado essa ideia doida da cabeça dela. Ficaram parados encostados no vidro, cada um olhando para outros lugares. Bella de braços cruzados, se moveu primeiro.

– Achou que vou sentar.

– Espera... Queria dançar mais um pouco. – pediu ele, a voz tímida. Não estava pronto para voltar a ficar longe dela novamente.

Bella suspirou, deliberando se ele merecia ou não. A carinha de gato do Shrek era ridícula. Obviamente a resposta era sim. Ele tinha vencido, de novo.

– Tá bom. – falou indo na frente. – Mas você está me devendo um passeio de iate de luxo.

– Claro, vou pedir pra um dos meus amigos traficantes milionários.

– Cala a boca!

O hip hop estava sendo trocado por um ritmo latino assim que chegaram na pista, para a infelicidade de Bella.

– Poxa. Não sei dançar isso.

– Sabe sim, vem cá. – ele a puxou, pegando uma mão e envolvendo sua cintura. Ela colocou seu outro braço pelo ombro dele. – Vai ignorar aquela aula de salsa que você me arrastou por uma semana?

– Nossa, nem lembrava disso. Foi horrível, a gente parecia dois gafanhotos com artrose.

– A gente não. Eu não tenho culpa se você ficou com vergonha de rebolar na frente do professor. A parceira tem que ajudar o homem na dança, você lembra que ele disse, né?

– E eu não tenho culpa se eu não sei rebolar!

– Aquilo que estava fazendo mais cedo era o quê? Sabe rebolar muito bem, principalmente quand— ele parou no meio da frase.

– Quando o quê?

– Nada. Eu ia falar uma besteira, mas arriscava eu perder um dente aqui.

Bella o ignorou.

– Tá, eu posso ter molejo, mas não ia nunca conseguir fazer os movimentos igual ao professor, não lembra da malemolência daquele homem?

– Claro, aquele pêndulo no moletom sem cueca me assombra até hoje.

Ela riu.

– Ah, tadinho, não pode ver pinto que não seja o seu. É ruim ter a masculinidade frágil, né?

– Para. – ele riu enquanto conduzia uma Bella ainda tímida. – Não tem nada disso não, tá tudo muito bem resolvido por aqui. Foi só uma situação... Esdrúxula.

– Certo.

– Vamos tentar de novo?

– O quê?

– Dançar bonito esse ritmo. Agora.

– Estou tentando.

– Só relaxa, sente a música e deixa eu te guiar.

Eles entraram numa sincronia em poucos segundos de treinamento, tentando lembrar do que aprenderam anos atrás e olhando os casais corajosos ao redor. Havia um em especial que parecia profissional, e todos os olhares estavam voltados para eles.

Era mais fácil se soltar sem ninguém observando todos os seus erros. Edward sabia guiar, era um ótimo dançarino e aprendia rápido. Bella sabia deixar ser guiada quando preciso, e em matéria de comunicação corporal e sintonia, eles tiravam de letra.

– Agora sim. – ele falou, girando Bella no início de uma nova música em espanhol. A moça até arriscou uns movimentos que trocava as pernas enquanto mexia os quadris, lembrando das aulas.

Edward soltou um som de aprovação, fazendo-a olhar para ele entusiasmada. Ele sorriu um pouco. Torto. Para o sofrimento do seu pobre coração já abalado.

– Há quanto tempo não te vejo dançando... – ele disse. – Faz mais de ano. A gente ia pra tantas festas no início do namoro.

– Pra ser sincera, perdi um pouco a vontade quando elas começaram a ser dentro da minha casa no meio da semana.

O rapaz desviou o olhar, envergonhado. Sabia que era culpa sua.

– Eu não faço mais isso, sabe. – declarou.

– Festas?

– Festas aleatórias no meio da semana. Agora só vai um pessoal num domingo à noite e acaba cedo, mas foram poucas desde que você se mudou. A gente joga um baralho, bebe, tira um som... Rosie está numas de ler poesias dela e todo mundo finge que é a melhor coisa que já ouviram.

– Rosalie é uma figura. – riu. – Que saudades.

– Vocês deviam ficar mais próximas, acho que seriam grandes amigas. Ela também diz que está com saudades... Na verdade, todo mundo. Sua falta é sempre sentida.

Bella abriu um sorriso satisfeito, seu peito quentinho por dentro. Negar que tinha adorado ouvir aquilo seria uma falha de caráter. Com certeza não sentia falta da bagunça que encontrava ao acordar para trabalhar numa quarta-feira, porém tinha vivenciado momentos bem legais nesses encontros e os levava na memória com carinho. Sentia falta também.

– Marque com o pessoal quando a gente voltar. Eu apareço. – avisou, para surpresa dele.

– Jura?

– Sim. Posso levar meus amigos também pra vocês se verem...

– Oh. Ok. – ele espelhou seu sorriso antes de voltarem a dançar calados.

Seus corpos começavam a suar, cada vez mais próximos e entrelaçados. Vez ou outra, um movimento fazia com que se encarassem, uma energia diferente passando entre eles nesses momentos. Tantas coisas que tentavam dizer só com os olhos. Ambos compartilhavam segredos silenciosos, e sabiam.

Edward conseguiu sustentar o olhar dela por longos segundos, e não parou mais até fazê-la sentir aquela inexplicável vontade de pular em seu colo para escalar aquele homem como uma árvore – de preferência, sem roupas.

Tesão. Era isso, pura e simplesmente. Essa era a palavra que ela detestava usar, achava brega. Mas o pior era saber que ainda não podia agir para dar cabo nisso. Não antes de estar a salvo em Londres, não antes de botar todos os pingos nos is com ele.

O rapaz obviamente reparou a mudança no rosto de sua ex, a boca entreaberta, os olhos baixos. Conhecia bem aquela expressão. Sentia saudades daquela expressão.

Sem refletir muito, ele molhou os lábios, afastando uma mecha da franja comprida do rosto dela. Aproveitou para acariciar a lateral do pescoço e maxilar, aproximando-se. Parando de se mover, Bella suspirou.

Mas antes não tivesse suspirado e nem parado de dançar, pois aquilo deu espaço aos seus pensamentos mais lógicos, e o que era para ser um suspiro de entrega, acabou se tornando quase um princípio de crise de ansiedade. Seus batimentos se acelerando e a respiração encurtando ao perceber o que acontecia.

Ela cortou a conexão antes que Edward pudesse completar a manobra, sendo rápida em desviar o rosto para abraçá-lo forte em seu torso.

Tirado de seu transe, o rapaz apenas deixou os braços soltos, sem entender nada.

– Obrigada por ter me aturado nessa viagem toda. E por ter me convencido a não ficar trancada no quarto. – ela tagarelou, a cara enfiada no peito dele. – Eu nunca me perdoaria por perder todas essas experiências. Está sendo incrível mesmo.

– Ahm... De nada. – suas mãos deram tapinhas nas costas dela. Agora era ele que estava desconfortável. Era difícil entender o que se passava na cabeça de sua ex.

Jamais iria forçar qualquer coisa, mas ele tinha sentido algo diferente ali. Não tinha? Não era possível que ele estivesse tão fora da realidade assim. Ela queria tanto quanto ele, então por que negar algo que só faria bem aos dois?

A resposta lhe faltava, seu peito se enchendo de decepção. De repente, a música ficou alta demais, a pista muito lotada, e ele se arrependia de ter aceitado vir para esse lugar.

Tudo o que ele mais queria de Bella, desde antes do fim, era sua entrega total e confiança que eles dariam certo. Essa era sua principal condição a respeito dela, não tinha muitas exigências. Ele era paciente, mas se Bella ainda não estava preparada para isso agora, mesmo depois de tudo que viveram e sentiram nesse fim de semana, será que um dia estaria?

Se afastou quando ela permitiu.

– Eu... Acho que vou ao banheiro.

Bella quase não aguentou seu olhar triste e a voz séria. Xingava-se mentalmente por ter estragado o momento.

– Tá bom. – sua voz saiu embargada. – Vou no camarote beber uma água.

Ele andaram a lados opostos sem olhar para trás e com os corações pesados.

Os pés de Edward, após sair do banheiro, acabaram levando-o a comprar um cigarro no bar. Uma trapaça nos meses longe do vício, mas agora era uma situação que o cigarro eletrônico não daria conta de acalmar.

Estava na fila para pagar, quando uma mulher surgiu ao seu lado.

– Ei, você é o Edward?

Ele virou-se. Tinha a sensação de já ter visto ela em algum lugar.

– Eu... Aham. Sou, Edward Cullen.

A mulher sorriu, os dentes brancos quase brilhando, e olhos que viajavam de cima abaixo sobre ele.

– Sou Tanya. Irina me falou de você...

A luz de estroboscópio começou a piscar freneticamente, perturbando seu raciocínio. Porém ele conseguiu reconhecer, parecia a mulher da foto que viu rapidamente no carro. Sorriu mesmo sem um pingo de vontade, estendendo-lhe a mão para apertar.

– Claro. Tanya Dee. Prazer.

– O prazer é todo meu. – ela respondeu.


N/A: Vejam no meu perfil o link pro álbum da fic! Tem fotos das tatuagens, dos lugares, das obras de arte e tá bonitinho.

A música que Bella dança com Kate é Cool For The Summer da Demi Lovato. AMO

Deixe sua review! Saber que tem gente lendo e acompanhando me incentiva pra caramba, vcs não tem ideia :)

Até breve. Bjs!