Disclaimer: Twilight é da Stephenie Meyer. Eu só faço a Bella ter um incrível azar e ainda rio da cara dela.
Obrigada à Dandara, minha beta sempre perfeita sem defeitos.
VOLTEI! Sigam meu twitter pra ter notícias, memes e mimos sobre a fic – hohcarol
Veja sobre o EXTRA lá embaixo. É fofo :)
Capítulo 9: No Limite
– Como é que a gente faz o "isso" mesmo? – Foi a primeira coisa que Bella disse, toda afoita e esbaforida sob um murmúrio de rua.
– Como é que é? Não entendi.
Edward abafou o celular com a mão tentando entender melhor, e também um pouco envergonhado que sua descarga fosse soar do outro lado. Por pura sorte, tinha pego a ligação de Bella logo na pausa entre ensaios da noite. Vinha tentando falar com ela desde a tarde para saber sobre toda a repercussão do vídeo viralizado na faculdade.
– O "isso", lembra? Que a gente conversou ontem. Acho que não deixamos claro o suficiente e eu estou em dúvidas sobre o que podemos ou não fazer.
Nada daquelas frases faziam sentido, e ele estava cansado. Talvez explicasse a complicação. Mas ela parecia tão aflita, que ele esforçou-se para acompanhar a conversa. Caminhou até a pia, indo lavar as mãos.
– O "isso" o quê, exatamente?
– Que ainda não é "aquilo".
– Ai, caralho, eles te pegaram, né?
– Ahm?
– A máfia do Stefan te sequestrou, por isso esses códigos aí. Quanto é que eles querem, hein? Posso vender um rim. – ele tentou fazê-la rir.
Fracassou.
– Sério, Edward! A nossa conversa de ontem… Na banheira. Sobre tentar de novo.
– Ah. – foi falando e saindo do banheiro antes de parar no corredor da ONG. Na sua orelha, ouviu uma buzina e alguém xingando. Ela já não deveria estar em casa a essa hora? — Lembro, claro. Sobre o nosso test-drive, sem ser namoro de verdade, né?
– É, eu estava tentando ser fofa e evitar falar desse jeito, mas tudo bem… Me diz, por favor, quais são nossos limites?
– Amor, eu não sei ser namorado-de-testes, só aprendi a ser namorado-namorado. Você que deu a ideia, devia saber.
– O problema é que eu não sei! Eu não sei mais nada hoje— Oh, porra!
– Que houve?
– Tropecei numa estátua de Papai Noel e meti o pé numa poça com tudo, essa maldita neve derretendo. Mas que dia infernal, caralhos de asa! – esbravejou, se apropriando de um xingamento peculiar sempre usado por Edward, e o rapaz precisou afastar um pouco o celular, assustado com a agressividade.
Sentiu suas sobrancelhas unindo-se. Estava tudo estranho por aqui.
Ficou alguns segundos ouvindo o burburinho da rua enquanto ela caminhava e resmungava baixinho, antes de mudar o tom para falar com outra pessoa algo ininteligível.
Ele sentiu-se esquecido.
– ...Bella?
– Oi. Desculpa. Tô aqui. Eu... – deixou um suspiro longo sair. – Não está sendo fácil hoje
– Pode me explicar o que está acontecendo? Você sumiu o dia todo, agora com esse papo...
– Eu só queria saber se te perturbar durante o trabalho está fora do nosso acordo, porque talvez eu esteja no meio de uma crise aqui e não tenho mais ninguém a quem recorrer. Me desculpa.
– Ah. Estou num break. Tenho uma hora até o próximo ensaio, quer conversar?
– Na verdade... Seria um pouco mais do que isso.
– Como assim? – Edward viu a jovem Olivia da recepção cruzando o corredor até chegar nele com seu imenso fone branco no pescoço, como de costume. – Só um segundo. Oi, Liv?
– Desculpa incomodar, professor, mas tem uma moça na porta procurando pelo senhor e eu acho que é urgente…
Levou apenas meio segundo para ele unir dois com dois.
– Por acaso é uma morena que está com um sapato podre de lama?
– Ei! Eu limpei no tapete de entrada! – Bella protestou no ouvido dele, que somente riu. Olivia nada entendeu.
– Estou indo. – o rapaz disse para ambas antes de desligar o telefone e sair em direção à recepção com a jovem ao lado.
A essa hora da noite, somente algumas aulas de música e dança ainda rolavam na ONG e os sons das últimas aulas do dia se misturavam no espaço quase vazio enquanto eles caminhavam pelos corredores de salas.
Ainda a Edward impressionava como a atmosfera toda lhe trazia tanta paz. Ele adorava, assim como adorava também o cheiro da madeira dos móveis, pisos e instrumentos. Embora o trabalho fosse pesado, esse lugar tinha o acolhido como uma casa, e talvez por isso ele não se importasse em ficar depois do horário.
Não via a hora de poder apresentar o espaço para Bella, besta de orgulho por fazer parte disso, e ficou embasbacado pela oportunidade ter vindo tão rápido.
Bom, iria fazer um tour com ela – se é que era ela mesmo sob aquele xale roxo e óculos escuros. Que porra?
– Se veio pedir minha ajuda pra esconder o corpo, desista, essa calça é nova. – ele chegou, e ela se ergueu da cadeira.
– Não tem corpo nenhum, mas bem que eu queria que tivesse.
Puderam ver Olivia arregalando-se toda, um momento antes de voltar ao seu posto.
– Ela tá brincando. – Edward tratou de avisar.
– É. Tô brincando… – resmungou Bella, enfim tirando seu disfarce tosco que lhe acompanhou o dia todo na rua, botando-o na mochila. O rapaz tinha mil perguntas, porém guardou para mais tarde.
– Bom. Oi, né. – Apenas abriu os braços, rapidamente recebendo Bella, que se aninhou em seu peito, enlaçando sua cintura.
– Nossa, como eu precisava desse abraço.
– Tá tudo bem agora, eu tô aqui. – O beijo que deixou na testa foi suave como ela necessitava. Silenciosamente, ambos tiveram um flashback da primeira noite no hotel, quando Bella desmanchou em seus braços após todo o estresse do voo. Ainda bem que não precisavam mais esconder nada agora. – Vem, vamos comer alguma coisa lá na cafeteria. Liv, me arranja um crachá de visitante pra ela, por favor?
– Claro, professor. – a mocinha sorriu digitando no computador, e Bella recebeu seu crachá após pegar a identidade de volta.
Edward a direcionou para a entrada, toda enfeitada para o Natal daqui a uma semana, subindo as escadas. A bota dela fazia um barulho engraçado.
– Como está esse pé?
– Encharcado. Nojento. Gelado.
– Tenho meias limpas no meu armário e sabonete, você pode lavar lá no vestiário.
– Não adianta, minha bota tá molhada por dentro.
– A gente pega emprestado um sapato no achados e perdidos do seu tamanho. Quer?
– Não quero te dar trabalho, não precisa.
– Que trabalho? Eu não vou lavar seus pés não, doida, você que vai.
– Ih, grosso! – fez um biquinho. – Mas tudo bem, só vou aceitar porque meus dedinhos estão congelando.
– Por aqui.
Viraram uma esquina e logo Bella estava sendo puxada pela mão, com ele indo na frente. Ela freou antes de entrar.
– Isso é o vestiário masculino.
– Sim, onde estão minhas coisas. Vem.
– Não vou entrar aí, deve ter criança e eu não quero traumatizar nenhuma por eu ter visto o pintinho dela.
– Não tem criança a essa hora, só adultos.
– Piorou!
– A ONG tá quase vazia, meus dois alunos ainda não chegaram e as aulas da noite acabaram de começar. – ele meteu a cabeça dentro para chamar. – Alô? Alguém por aí?
– Edward, pra quê? Que ideia. Pega o que precisa e eu vou no feminino.
– Não tem ninguém, vem. – Cansada, Bella deixou ser puxada e levada até o armário. Edward sacou a chave de um colar dentro do cardigã para abrir o seu escaninho, logo notando a cara que a moça fazia. – Que foi?
– Cheiro estranho...
– Bem-vindo ao mundo masculino, cheira a chulé e toalha suja. Não as minhas, porém. – ele entregou uma toalha cinza, o sabonete e suas meias brancas de algodão. – Toma, tá tudo limpinho. A água quente no chuveiro é a torneira da direita.
Mas a moça continuou parada, apenas olhando as coisas em seu colo como se decifrasse física quântica.
– Qual o problema agora?
– Por acaso você não teria um chinelo por aí, não?
– De novo essa frescura de não entrar descalça no box?
– É nojentinho aqui, você mesmo disse!
– Eles lavam o banheiro todos os dias, Fresquinha. Mas como você teve um dia difícil, vou te dar esse desconto. – Voltou e pegou o chinelo Adidas, que geralmente usava para a Yoga. Às vezes para tomar banho, também, quando havia algo suspeito no chão, mas não revelaria isso a ela.
– Obrigada. – Bella deixou a mochila e o sobretudo preto no banco, sentando para tirar as botas e meias. Tinha esquecido que estava com a meia-calça por baixo da jeans, e teria que tirá-los também.
– Ei ei, não precisa ficar pelada pra limpar os pés. – ele se aprumou, a interrompendo com a calcinha preta já à mostra, o jeans no meio das pernas.
– Eu só não quero molhar minha calça toda, e eu não consigo dobrar muito o joelho, é apertada.
– Mas os chuveiros são todos abertos, não tem nem divisória, se alguém entrar…
– Se alguém entrar, vai ser culpa sua que me trouxe aqui.
– Merda. Tem razão.
– Ai, dane-se, só fica lá na porta. Se alguém chegar, você avisa. – ela disse tirando as peças de uma vez antes de entrar, e ele fez o combinado. – A essa altura, não consigo mais ligar pra nada, já explodi minha cota de constrangimento do dia. Nada será pior do que ser obrigada a fazer xixi num pote em frente a outra pessoa.
Como ela havia ligado o chuveiro na mesma hora, Edward achou ter ouvido errado.
Xixi no pote. Para um... teste laboratorial?
Puta merda. Caralho. Porra.
De repente, toda aquela conversa doida de "futuro papai" com os gatos que ouviu era a única coisa que ele conseguia pensar, e seu coração disparou novamente.
Mas ele já havia descartado essa possibilidade, tinha certeza que não era possível... Ou era?
– O-o quê? Repete. – engoliu em seco.
– Xixi no pote, Edward! Fiz obrigada hoje, foi horrível. – sua voz saía abafada pela água corrente. – Quando eu te contar tudo, você nem vai acreditar.
– Caramba… E o resultado já saiu?
– Não faço ideia, não fiquei pra ver essa humilhação.
Sua mente estava realmente lenta essa noite, e era difícil entender por que alguém obrigaria uma mulher a fazer um teste desses logo em frente a outra pessoa. Achava que o exame normal seria por coleta de sangue, mas será que ela havia escolhido um procedimento alternativo que deu errado?
Seu coração martelava até as orelhas, e se não respirasse um pouco iria ter um piripaque.
– Calma, amor. – falou para ela e para si mesmo, respirando fundo. – A gente… A gente pode dar um jeito nisso. Eu posso ir pegar os resultados. Até posso te acompanhar em outro lugar pra fazer de novo, já que esse lugar que você foi não presta, claramente.
– Não preciso fazer de novo, não tenho nada a provar, pra mim esse assunto já está resolvido. E pra que vou meter você nessa história? Claro que não.
– Mas… Eu achei que a gente… Estivesse junto pra valer. Ou não, por causa do negócio de testes. – murmurou a última frase para si, enquanto ela desligava o chuveiro e ia se secar no banco só de calcinha. Enfim ele saiu do posto de guarda-porta, sem conseguir encará-la direito. – Bella?
– Sim?
– Você quer tirar, é isso?
– Ahm? – a morena encarou confusa, terminando de secar dedinho por dedinho.
Ele não fazia ideia de como abordar esse assunto delicadamente, nunca tinha passado por isso. Tentou manter a calma. Claro que falhou.
– Se você quiser tirar, tudo bem. Eu entendo, e te apoio. Não precisa surtar, sabe.
– Que caralhos você tá falando, Edward?
– Do bebê… Do teste... de gravidez.
Ela olhou-o absurdada, como o grande asno que ele estava sendo no momento.
– Que teste de gravidez, rapaz?! Eu tô falando de um exame toxicológico que Peter Gale me obrigou a fazer!
– Ah. Ahhh! Exame toxicológico? – De olhos imensos, uma risada nervosa escapou, e ele cobriu o peito para ver se o ataque seria adiado até a terceira idade pelo menos. – Uh! Graças a Deus. Não me dá mais esses sustos, por favor.
Abanou as axilas molhadas ao sentar, o pobre estava até tonto. Bella furiosamente secava os chinelos para poder usar.
– Eu hein. Você que não me invente mais problema, pelo amor de Deus! Bate na madeira. – mandou e ele obedeceu, pois não daria sorte ao azar.
– Bem, é só que eu achei que, depois de ter ouvido aquilo de manhã…
– Aquilo o quê? – Ela se ergueu, terminando de colocar a calça de trabalho, junto às meias e chinelos.
– Ah. Nada não, esquece. Me conta, o que houve?
– Eu preciso comer alguma coisa, meu estômago dói e piora só de pensar nessa história. Me leva na cafeteria, por favor? Vou te contando.
Edward meteu as coisas dela rapidamente no escaninho, e a tirou dali antes que alguém entrasse. Por um segundo, lembrou-se que talvez fosse pegar mal ser visto saindo com uma mulher do vestiário, mas felizmente não cruzaram com ninguém mesmo no caminho.
Bella andava com a dignidade que lhe restava, portanto o look professora-respeitada no corpo, e aposentado-na-farmácia nos pés. Até que sentiu-se adequada ao seu bairro pela primeira vez, onde a cada esquina se via uma moda nada comum. Poderia, finalmente, assumir seu título infundado de hipster alternativa?
– Que história é essa de exame toxicológico? – ele perguntou.
– A cereja do bolo de merda que foi o meu dia. Mas antes, espera aí… – pegou seu braço e começou a rir, do nada.
– Quê?
– Você realmente achou que eu estava falando de teste de gravidez?
– Eu? Claro que não, eu tava zoando.
– Achou sim. Ai, como você é besta! – ela riu mais, a primeira vez no dia, e só por isso já tinha valido a pena cruzar a cidade, quase se perder porque o motorista do Uber não sabia andar nessa "quebrada sinistra" e meter o pé numa poça para vir atrás dele.
O rapaz fez um bico muito parecido com o dela quando ele ria assim e sentiu estar provando do próprio veneno.
– Ah, me deixa!
– Não dá. Sério, você ficou branco que nem papel.
– Eu sei lá? Você chega toda nervosa, falando em códigos. E de manhã ainda estava naquele papo doido de papai com os gatos… Só pensei nisso.
– Amor, eu tenho DIU e nossas camisinhas não estouraram. – falou mais baixo. – Fora que não daria nem tempo de aparecer num teste. Se alguém surgisse aqui, só sendo trabalho do Espírito Santo.
– Eu sei! Mas quando se ouve algo assim, a cabeça logo pensa no pior, né?
– Olha. Obrigada por aquilo que você disse de me apoiar, caso eu não quisesse ter. – ela parou de andar, querendo encará-lo. – Eu aprecio muito.
– É o mínimo que eu posso fazer, né? A gente falou sobre filhos ontem, mas não quero que seja nada apressado, eu sei que você tem que estar segura e preparada antes. Nossos esquemas tem que estar acertados.
– Droga, você falando assim agora me dá até vontade de treinar pra fazer um... – ela se espichou, envolvendo seu pescoço na ponta dos pés para beijá-lo lentamente.
– Eu bem que estava com vontade de treinar também. – ele apertou sua cintura.
– Uhum...
Ambos ouviram um barulho borbulhante, fazendo o rapaz quebrar o beijo.
– Que foi isso?
– Meu estômago. Não como nada desde o almoço.
– Jesus, vamos botar uma comida nesse corpinho logo.
Chegando na cantina, pediram um pratão de macarrão com queijo e hambúrguer – só para Bella, pois Edward já havia comido. Além deles, só havia mais uma moça no salão jantando e os dois rapazes que atendiam. Obviamente, a convidada do rapaz não passou despercebida.
– Eles estão me encarando ou já é mais uma paranoia nova que devo contar à minha terapeuta? – perguntou ela com receio, sentando numa mesa.
– Devem estar curiosos porque eu nunca trouxe um visitante aqui.
– Ninguém? Nem seus amigos?
– Ninguém gosta de vir até aqui, é longe de tudo e Peckham não é dos bairros mais seguros.
– Nem me fale. O Uber me largou na entrada da rua, tive que saltar e vir andando.
Edward fez uma careta, sentindo-se mal por ela.
– Eu podia ter te encontrado em outro lugar depois, não precisava ter vindo.
– Precisava. Queria andar pra espairecer um pouco. Às vezes gosto disso, sabe? Essa sensação de ter um destino certo e chegar até o final com minhas próprias pernas. Sei lá, queria sentir que eu estava no controle um pouquinho hoje, pelo menos em alguma coisa.
– E surtiu efeito?
– Nada! Além da poça, quase me perdi até chegar aqui. Acho que não estou nos meus melhores dias mesmo, é uma maré de infortúnios essa semana que eu vou te contar...
– Porra, valeu, hein.
– Oi?
– Esqueceu que eu estou no meio desses dias aí?
Ela o fitou, sem saber dizer se ele estava apenas fazendo charme ou magoado de fato. Em todo caso, tomou sua mão para se explicar.
– Eu obviamente não estou incluindo as partes com você, né, bobo? Eu amei demais, já te falei isso. Foram dias maravilhosos, mas não dá pra negar que também foram super esquisitos e eu fiquei boiando nessa maré agitada de sorte e azar, variando entre uma coisa e outra desde a Grécia...
– Ok, já que você está curtindo um drama e mistério, que tal me contar agora o que houve?
Bella desviou os olhos pela primeira vez, sentindo ressurgir toda a frustração e constrangimento que ela havia passado nessa tarde. Respirou fundo para, enfim, se abrir.
– Eles decidiram me suspender até o fim dessa semana. Quatro dias.
– O QUÊ?! – Edward exclamou alto, chamando a atenção novamente de todos os presentes, antes de abaixar a voz. – Como assim?
– O meu departamento recebeu três ligações da mídia, só pela manhã, procurando por mim, querendo saber como entrar em contato com "a garota do vídeo do aeroporto que é amiga da modelo Nina Pavlova", além de todo o burburinho pelos corredores e sala de professores sobre o mesmo assunto... E por isso, de acordo com o Conselho de Professores de Ciências Humanas, minha presença iria perturbar a ordem das aulas.
– Que coisa absurda! Mas que merda de Conselho é esse? Em quem eu devo dar uma surra? Você quer? Eu dou.
Bella sorriu tristonha, pois ele era fofo demais tentando ser durão e lavar sua honra, mesmo sendo o cara que não gostava nem de matar uma barata por pena – sério, ela que tinha que matar todas quando moravam juntos.
– Carlisle disse que a maioria dos professores estavam ao meu lado, mas quem dá a palavra final é o Conselho.
– Nomes, Bella. Eu quero nomes.
– Peter Gale, meu coordenador de Letras, Marcus Vangelis, de Cinema, Alistair Houston de História e Jason Jenks de Ciências Sociais. Ainda faltam alguns, mas não estavam presentes e eles acabaram decidindo assim mesmo.
– Bando de pilantras! Canalhas! – Nessas horas, ele gostava de usar todos os adjetivos que enchiam a boca.
E, aparentemente, Bella também.
– Pois é, talvez eu tenha dito a mesma coisa pra eles… – lembrou do exato momento com uma careta. Não foi um dos seus melhores.
Estavam na fatídica reunião, a qual ela tinha sido convocada às seis da tarde, depois de sua última aula.
– O Conselho decidiu suspender suas aulas e atividades na faculdade até sexta-feira, Isabella. – Peter Gale cinicamente avisara, prostrado como um pedregulho em sua cadeira de couro velho que fazia um barulho irritante e Bella tinha vontade de chutar. Se acertasse partes moles desse senhor, não seria um problema.
– Me suspender?!
– Sim, você volta a trabalhar depois das festas de fim de ano. Veja isso como uma semana adicional de folga. Feliz Natal adiantado, eu diria!
– Como assim, Gale? Eu... – Sua mente desesperada buscava por palavras capazes de parar toda essa loucura. – Eu não posso simplesmente largar minhas turmas assim, preciso terminar as matérias pendentes antes do recesso da próxima semana, e eu já me ausentei semana passada viajando com o Projeto, não dá mais—
– Não esquente a cabeça com isso, o professor Wilson que vem te substituindo está a postos, nós daremos um jeito.
– Nós? Essas são as minhas turmas, eu devo decidir como lidar com elas. Perdão, eu realmente não estou entendendo porque estou sendo impedida de fazer o meu trabalho direito.
– Eu sei que parece um castigo, mas não é. Só não queremos causar tumultos por aqui, sua presença pode desviar a atenção dos alunos das aulas.
– Mas eu não tive nenhum problema nas aulas de hoje. – tentou ela.
Não era exatamente verdade, alguns alunos vieram perguntar, tão encantados e amorosos com toda a história (alunos de literatura e sua mania de romantizar tudo), que Bella não resistiu em contar algumas coisas rapidamente no início da aula.
10 minutos perdidos, apenas.
Ok, 15… estourando 20.
– Mas nós tivemos ligações de jornais e outros veículos que não tem absolutamente nada a ver com o alinhamento moral e acadêmico dessa Universidade. Sites de fofoca, pra ser exato.
– Meus alunos não paravam de falar sobre isso hoje. – Jason Jenks deu seu pitaco. – Pareciam fuxiqueiras de feira, demorei horas para começar a aula.
– Desculpem, mas eu sinceramente não vejo porque eu mereço ser prejudicada pela conduta de curiosos que não sabem respeitar o ambiente acadêmico com a seriedade que merece.
– Já está decidido. Sinto muito. – Peter sentenciou. – Achamos que será melhor para todos nós e para você também, Isabella. Vamos dar um tempo para essa história esfriar.
A moça precisou se recompor, respirando e contando até cinco, o máximo que ela conseguia chegar.
– Eu já entendi a motivação, mas com todo respeito, Gale, isso é uma decisão totalmente arbitrária, extrema e canalha da parte de vocês! – olhou ao redor para todos aqueles senhores. – Eu não fiz nada que pudesse prejudicar a imagem da instituição, é um vídeo inocente que só diz respeito à minha vida particular.
– Ela disse canalha? – Bella ouviu Marcus murmurar. Sempre pensou que o cara parecia mais uma múmia lerda de tanto remédio para dormir, era o que ela tinha ouvido; Volta e meia ele perdia aulas só para ser encontrado num pub em plena luz do dia, e ninguém mexia com ele, pois era um intocável daqui.
Ao contrário dela, como se podia ver.
– Oh-oh. – Edward falou sobriamente. – Você disse canalha na cara deles? Aí também não, Bella, são seus superiores.
– Eu estava fora de mim! Foi uma puta injustiça! O Gale me chamou logo quando cheguei e avisou que o Conselho iria decidir meu destino, mas desde aquela hora eu já sentia o tom de ameaça, ele estava doido pra fazer isso, me punir. Palhaço sádico e misógino.
– Esse é bom, vou anotar. Mas você não disse na frente dele também não, né?
– Não, mas bem que merecia. Ainda mais depois de ter me obrigado a fazer a porcaria do teste… Eu e minha boca grande, também! Pra que fui falar que bebi um monte no voo?
– Você falou o quê?!
Bastou um olhar para Edward, e ela confirmou que havia feito a maior burrada bem aí.
– Falei que… – confessou envergonhada. – Meu vexame todo foi porque bebi um pouquinho a mais pra relaxar.
– Ah, jura? Podia também ter contado que quase transou no carro de um traficante internacional.
– Não me julga, cacete!
– Porra, você também não facilita pro seu lado, né, amor? E ainda bem que não negou que aquele cara é traficante, você sabe a verdade.
Ela revirou os olhos, ocupada demais com algo mais importante.
– Eu só quero entender o que está acontecendo, Swan... – Gale se debruçara sobre a mesa, depois de fazê-la esperar por quinze minutos na primeira reunião que tiveram, a sós, após ela ter sido pescada da conversa com Carlisle no corredor.
A moça já tinha organizado mentalmente todos os livros de uma prateleira por ordem alfabética, mas agora que ele havia chegado, preferia continuar organizando a estante inteira.
– Entender o quê, exatamente? – ela deu uma tentativa de sorriso.
– Há quantos meses trabalha conosco?
– Tirando os dois de teste, estou desde outubro do ano passado, oficialmente… Quatorze meses.
– Bom. Durante esse tempo, você nunca demonstrou nenhum problema de relacionamento com seus colegas.
– Não. Tenho minhas divergências com alguns poucos, claro, mas sempre resolvemos de forma cordial.
– E pela sua ficha, também não apresentou nenhum problema de comportamento nesses meses, nem dentro, nem fora da Universidade. Estou correto?
– Sim... Me desculpe, mas onde o senhor está querendo chegar?
– Só quero entender o que leva uma pessoa em sã consciência a entrar num lugar proibido – sim, porque eu já chequei e sei que só pessoal autorizado podia circular naquela sala de som –, para fazer um escarcéu, procurando por alguém? Um adulto, ainda por cima. Se fosse uma criança, eu poderia até relevar…
Como ela sequer começaria a explicar? Teria que encurtar muito a história, a fim de manter um pouco de sua dignidade e privacidade.
Tentou ir pelo caminho fácil que já era de conhecimento de muitos colegas daqui: seu pânico de aviões.
– Veja bem, eu concordo com o senhor. De fato, foi um exagero. Mas eu não estava no meu juízo perfeito. Não sei se o senhor sabe, mas eu tenho muitos problemas pra voar. Ansiedade grave, fobia... Nesse dia em especial, depois de ter passado por um voo muito traumático, eu precisei enfrentar outro e só conseguiria se estivesse dopada.
– Dopada? – Peter ajeitou-se, aparentemente ultrajado com olhos arregalados atrás dos óculos.
Ótimo, agora ele vai achar que sou uma viciada que surta em aviões, pensou ela, Adeus, viagens do projeto de extensão.
– Bom, não dopada assim, é modo de dizer. Eu… Acabei consumindo um pouco mais de álcool do que o indicado no voo, e todo o estresse com certeza mexeu com meu juízo. O senhor já deve ter passado por uma situação dessas.
– Está insinuando que eu sou um alcoólatra que não sabe se controlar?
– Não! Pelo amor de Deus, não. Quis dizer que já deve ter visto alguém nessa situação. Um deslize, sabe, acontece.
Ela estava tão nervosa, que sentia suor pingando até no cofrinho, e olha que devia estar uns cinco graus do lado de fora.
Como é que tinha se metido nessa roubada e perdido tanto o controle de sua vida? Essa não era Isabella Marie Swan. Que porra de desequilíbrio estava acontecendo aqui, Universo?
O homem de cabelos grisalhos e sorriso presunçoso a encarou por uns segundos.
– Por que os óculos escuros?
– Deus, perdão, que gafe. – ela quase arrancou os óculos do rosto, mentalmente se xingando de idiota para baixo. – Estou meio atordoada hoje, nem lembrei de tirar.
Esperou a inspeção silenciosa dele, que balançou a cabeça lentamente, rodando sua caneta de cem libras entre os dedos.
– Me diga, Swan. Se por acaso eu pedir que faça um teste agora, provando que está limpa, eu teria alguma surpresa?
– Desculpe, não entendi?
– Você entendeu… Mas vamos deixar isso pra mais tarde. – olhou no relógio da parede. – Estou no meu horário de almoço e não quero perdê-lo. Eu vou me reunir com o Conselho daqui a pouco. Qualquer notícia, nós te chamaremos.
– Puta que pariu, ele estava tentando te forçar a confessar algum podre! – Edward indignou-se, quando Bella terminou de recontar.
– É, eu tive essa impressão também. Bem que me avisaram pra tomar cuidado, porque ele sempre foi meio implicante com as professoras mais jovens.
– E essa história aí do teste, como foi?
Bella gemeu de frustração e vergonha, pendendo a cabeça para a mesa, onde encostou no antebraço. Fechou os olhos, escondendo-se do mundo pelo menos um pouquinho, perdida na escuridão entre seus braços dobrados.
– Não me faz lembrar disso. Foi horrível!
– Algum deles encostou em você, Bella? – o rapaz disse seriamente. – Me diz, se algum daqueles velhos safados encostou, eu juro que—
– Não, eles só foram os mandantes. Mas foi ruim de qualquer jeito.
Bella fumegava de ódio. Nunca havia sido tão desrespeitada e constrangida assim num ambiente de trabalho, ou em lugar algum, na verdade.
– Isso é sério? Você quer que eu faça um exame pra comprovar que eu não sou usuária de drogas, só porque eu usei a palavra "canalha" sobre sua decisão?
– Tecnicalidades, Bella. Claro que não é por isso, mas pela nossa integridade, e a sua também. É parte do procedimento. Você sabe disso, fez o mesmo teste quando nós a admitimos ano passado, sabe como é tranquilo e indolor.
– Vocês não podem me obrigar a fazer um teste de saúde.
– Podemos, caso haja suspeita de comportamento fora das normas de conduta, e se assim o Conselho achar propício. Está no manual do Professor e também nos contratos que vocês assinaram. Eu chequei nos seus documentos à tarde.
– Tanto tempo livre pra coçar as bolas… – ela sibilou baixo entre dentes.
– Perdão, não ouvi?
– Eu disse que, mesmo que eu aceite fazer o teste, eu não estou com vontade de ir ao banheiro agora. – disse qualquer besteira, e logo percebeu que seria melhor ter ficado calada. Os homens riram de zombaria.
Na sua cabeça, ela já tinha virado a própria Uma Thurman em Kill Bill, chutando a cara de um por um – com uma katana.
– Não temos pressa, tome seu tempo. Heidi, pode entrar. – Gale chamou sua secretária, entregando-lhe o pacote com o kit, que parecia estar naquele escritório a vida toda, só esperando o momento de constranger uma pobre professora americana desesperadamente romântica e perturbada. – Por favor, acompanhe a Professora Isabella até o toalete, certifique-se que ela colha o material pro exame. Pode usar o do escritório, estarão só as duas.
Peter Gale tinha dito tudo isso baixo perto de Heidi, mas dentro dessa sala quase hermética, podia-se ouvir até um alfinete caindo.
Bella estava a um passo de levantar e sair dali sem olhar para trás, o estômago e garganta em nós. Porém foi difícil ignorar todos os boletos que iriam vencer na próxima semana dançando hula-hula na sua mente, e ela apenas agarrou sua cadeira com um pouco mais de força.
Tentou fazer sua última apelação.
– Não. Eu me recuso! Eu não vou fazer isso, expor a minha privacidade assim. Vocês devem acreditar na minha palavra, e eu afirmo que não tenho nada que me comprometa. Por favor, Gale.
– Por favor digo eu. Não faça isso ser mais difícil do que já é. Eu te garanto que não gostaria de estar tomando essas medidas, Swan, você realmente tem sido uma das melhores professoras que tivemos nos últimos tempos. Mas regras são regras.
– Regras são regras. Sei! – Bella cuspiu as palavras, voltando ao seu presente. – Só se for as que ele tirou do cu dele!
– OPA! Ok, não precisa ser tão gráfica. – Edward teve que acalmá-la, pois ela já berrava no meio da cantina da ONG e quem não queria ser chamado para uma conversinha com os chefes agora era ele.
– Desculpa... Será que isso é castigo, Edward? Por eu sempre ter sido a chata das regras e agora estou sendo cobrada e chutada na bunda por elas?
– Não acho que é assim que funciona.
– Seja lá o que for essa coisa, está funcionando e muito bem. Não acredito, sério.
– Isso foi absolutamente terrível, e eu sinto muito por você ter passado por essa situação. Mas e agora, o que vai fazer? Porque eu realmente acho que você não deve deixar isso barato, não. Deve ter algum tipo de processo que você pode abrir contra eles, por calúnia, constrangimento no trabalho ou algo assim.
– Não sei, Edward. Não sei. Eu não consigo pensar em nada agora. Minha cabeça tá um mar em tempestade, ainda preciso de um tempo pra assentar e entender tudo o que rolou.
– Certo. Tem razão. Tome esse tempo, mas fale com um advogado o quanto antes.
– Vou tentar falar com Leah, assim que ela me atender. Falei com ela e Alice de manhã, mas as duas sumiram agora, parece que combinaram.
Ele pegou sua mão, acariciando os dedos, que haviam ficado gelados após expôr todo o seu calvário.
– Eu sei que você não gosta quando eu peço calma, mas vamos pensar que o pior já passou e amanhã vai ser um novo dia… Respira, amor. – indicou, e ela o fez. – Quer respirar comigo? Meditar junto?
– Como faz isso? Nunca fiz.
– Eu te ensino. Senta reta, olha nos meus olhos e a gente se conecta. Ah. Aliás… Depois me lembra de mostrar umas outras coisinhas que aprendi.
– Mais massagens?
– Também. – ele sorriu com malícia, subindo as sobrancelhas duas vezes.
– Quando você faz essa cara é porque tá pensando sacanagem.
– Com certeza.
– O que é? Me fala. Também quero pensar sacanagem, não aguento mais pensar que eu levei suspensão e fiz xixi num potinho na frente da porra da secretária do maldito do meu chefe.
Espontaneamente, ele acabou rindo do jeito que ela falou, e a moça não teve alternativa, a não ser abrir um leve sorriso. Era música aos seus ouvidos.
– Vamos deixar pra mais tarde, porque o ambiente não permite. – disse, abaixando bem a voz e a olhando tão intensamente, que seu coração bateu mais forte, e não por raiva dessa vez. – Só vou dizer que envolve nós dois numa cama pelados e a palavra tântrico está incluída.
– Hmm. Parece bom…
– Parece excelente.
– Com licença, o jantar. – o rapaz da cantina surgiu, colocando o prato de macarrão com queijo e hambúrguer picadinho à sua frente, além de um copo d'água. Bella quase babou de tanto salivar. – Bom apetite!
– Isso está lindo demais. Shukraan, Mohammed! – ela gentilmente agradeceu em árabe, e o jovem tímido fez um sinal com a cabeça antes de sair sorrindo.
– Alguns deles amam quando falamos a língua, mesmo nessas palavras pequenas. – comentou Edward, com um sorriso também. – Acho que se sentem mais acolhidos.
– Posso imaginar, eu também gostaria. – falou assoprando a comida para colocar na boca. Fechou os olhos em seguida, gemendo meio alto demais, respirando fundo e mastigando. Pequenos prazeres como esse eram seus motivos pessoais para achar que nem tudo estava perdido.
– Gostou?
– Nossa, tá uma delícia! Não acredito, era exatamente o que eu precisava hoje. Um abraço quentinho no estômago.
– É bem gostoso, mesmo. Os cozinheiros eram especialistas nas cidades deles, sabem fazer de tudo, você viu a variedade do cardápio. Até macarrão americanizado fazem bem.
– Sério, lembra muito o da minha mãe. Você comeu, sabe do que eu tô falando. – disse empolgada, oferecendo uma garfada na boca de Edward, que mastigou concordando. Renee nunca foi uma grande cozinheira, mas exatamente esse prato era o único que ela fazia com prazer.
– Ainda bem que pude te proporcionar um pouco de conforto hoje. Fiquei o dia todo preocupado com você incomunicável, não pensei em outra coisa.
– Desculpa ter sumido… Tive que deixar o celular desligado pra conseguir me focar no trabalho. Tentei orquestrar uma fuga do mundo exterior, mas acabou que o meu inferno particular foi lá dentro da Faculdade mesmo.
– Bom, isso sim seria uma ironia do destino. Certo, Professora?
– Pode ser...
Pacientemente, Edward esperou Bella terminar de comer, e a deixou sossegada, sem interrompê-la com mais perguntas.
Ao mesmo tempo, era inevitável que se espalhasse nele uma satisfação por ela ter vindo procurar sua ajuda. Bella veio até aqui, e agora ele podia fazer algo por ela. Podia ser a paz de espírito que ela precisava hoje.
Enquanto a assistia, só conseguia pensar que normalmente, ficaria irritado com barulhos de uma boca mastigando, mas devia admitir que era tão besta por essa mulher, que vê-la devorando a comida com tanto gosto estava sendo a coisa mais legal do seu dia. Preciosa.
Porra, estou tão, tão apaixonado. Mais ainda do que antes. Será possível?
Aliás, que espetáculo essa boca lambendo a colher. Imagina lambendo o meu—
– Que é? – Bella devia ter reparado sua cara.
– Nada. Tô te namorando, só.
Com um sorriso sutil, ela apenas tocou a cadeira ao lado da sua, para onde o rapaz rapidamente mudou-se. Colando-se à sua morena, envolvendo-a como um cobertor de proteção em seu abraço, eles ficaram juntos enquanto ela terminava o jantar. Alguns beijos e garfadas foram roubados.
Ao fim, Bella ainda pediu uma sobremesa, e Edward tinha até esquecido que deveria deixá-la para ir ao último ensaio do dia, não fosse o telefonema que recebeu quando o sorvete chegou.
– Quem era? – a moça indagou.
– Acho que estamos na sua maré de sorte do dia… Meus alunos cancelaram o ensaio. São gêmeos e a mãe não deixou que voltassem pra ONG, tem prova amanhã. Isso quer dizer que estou livre, sou todinho seu a partir de agora.
– Oba. Vamos pra minha casa?
– Claro. Termina o sorvete e vamos pegar nossas coisas.
Despediram-se dos moços sírios da cantina, pouco depois, e saíram pelos corredores de mãos dadas. Sem perder tempo, Edward começou a apresentar um pouco a ONG, que tinha o nome propício de Reconstruir, num pequeno tour.
– Nossa, que árvore mais linda. – comentou Bella ao ver a grande árvore de Natal toda iluminada numa área comum.
– Não é? Cada um daqui da ONG colocou um enfeite, todos os alunos e funcionários. São coisas especiais que nos representam.
– O que você colocou?
– Uma cabeça de touro do Chicago Bulls.
– Ah sim. Saudades de casa, né...
– Nessa época do ano? Sempre. – eles pararam em frente a uma porta dupla com janelões. Era o auditório. – Essa é minha sala favorita, tenho ensaiado aí bastante. Não dá pra ver agora, mas o teto tem uma parte de vidro, então a iluminação durante o dia é uma coisa de doido, fora que o palco pode ser aberto na parte de trás, que dá pro pátio. Às vezes rolam uns eventos ao ar livre também.
– Uau, deve ser maravilhoso. Parece grande.
– Esse prédio todo é um bom espaço. A Rede Reconstruir tem outra filial maior aqui perto, que é onde fica a escola de educação básica e técnica, e também os treinos de esportes. Mas pra mim nada supera essa daqui, a filial das artes. – ele sorriu, e Bella se pegou acompanhando o sorriso. Era encantador vê-lo falar, e talvez fosse a primeira vez que o via tão entusiasmado com algum projeto na vida.
– Parece bem agradável por aqui, um ambiente tranquilo pra trabalhar, apesar do bairro ser meio tenso. Tem uma aura legal, não sei explicar, deve ser toda a energia criativa concentrada.
– Tem, com certeza. Mas a tranquilidade é só agora, porque de manhã e de tarde isso aqui ferve… Tem mais cursos. Além de dança e música, tem teatro, artes plásticas, clube de leitura, que inclusive você poderia nos dar a honra de sua ilustre presença pra uma palestra ou algo assim... Ah, e tem yoga também.
– Jura? É aqui que você faz, então?
– Sim, todo dia. O professor é indiano refugiado da Caxemira, avô de um dos meus alunos. Sujeito é magrinho e parece de elástico, conhece tudo da cultura. Verdadeiro Mestre. Mas não o chame assim, ele detesta.
– Perfeito. – sorriu. – E sobre o clube de leitura, eu adoraria, só me dizer o dia. Mas imagino que nem todos falem inglês?
– Depende muito, eles aprendem na escola, mas a maioria já fala razoavelmente bem, estão em Londres há um tempo. O clube de leitura é uma ajuda.
– E como você se comunica com os alunos que não falam bem ainda? Adoro saber como as pessoas conseguem se comunicar mesmo com línguas tão diferentes.
– Acho que é a magia da música, a gente se entende de qualquer forma através dela. A peça dos adolescentes, por exemplo, a base de diálogos é em inglês, mas algumas músicas são as que eles sugeriram da língua materna de cada um.
– Que lindo, Edward. O enredo é tipo a Torre de Babel?
– Não, não é tão sério. São adolescentes, né? O enredo está mais pra High School Musical, foi o que pediram.
– Faz sentido. – ela riu. – Estou ansiosa pra ver. Quando estreia mesmo?
– Fevereiro. Eu que estou ansioso pra vocês verem… Claro que não é nenhum Despertar da Primavera. Mas acho que não vou fazer feio. – brincou, se referindo ao célebre musical adolescente.
– Falando em jovens… Como foi a repercussão do video por aqui? – perguntou Bella receosa.
– Olha, acho que ainda não chegou nas rodinhas do pessoal daqui… Se chegou, eles não ligaram muito. Só alguns alunos meus, crianças e adolescentes, vieram questionar, me mostraram empolgados que viram minha cara de bobo apaixonado no Twitter. Falaram que virei meme e riram.
– E como você reagiu?
– Ué, eu ri com eles, né? Não tem muito o que fazer.
– Professor! – um garotinho muito loiro surgiu, saindo de uma salinha e veio correndo na direção deles, cumprimentando Edward com um aperto de mão estilizado, que parecia ter sido ensaiado várias e várias vezes.
– E aí, rapaz? Melhorou?
– Sim. Tomei vários remédios. Eca.
– Quero te ver na próxima aula, hein. O que tá fazendo a essa hora aqui?
– A mamãe tá no coral, ela mandou eu estudar na biblioteca, tem prova amanhã. – ele tinha um forte sotaque, que Bella deduziu ser ucraniano, parecido com o de uma aluna que teve semestre passado.
– Ah, semana de prova pra vocês, né? Então boa sorte, estude bem.
– Essa é sua namorada? – falou o menino em sua espontaneidade infantil, deixando Edward em alerta pela saia-justa que ele não estava nem um pouco preparado.
– Ah-ahm… – gaguejou.
– Sim. – enfim, Bella sorriu, estendendo a mão ao garoto. – Sou a Bella. Como vai?
– Bem. Sou o Petro. – ele disse com as orelhas vermelhas, e puxou a manga do cardigã do professor, fazendo-o se inclinar para cochichar em seu ouvido. – Ela é tão bonita. Caramba.
Edward só podia rir.
– Ela é. Mas por que não diz isso a ela?
– Vergonha. Diz que eu falei.
– Tá bom. – o rapaz se ergueu. – Petro disse que você é muito bonita.
– Obrigada, Petro. Você também é muito bonito.
– Ok. Brigado. Tchau! – e assim como veio, foi embora correndo.
Os dois adultos continuaram andando.
– Não lembro há quanto tempo eu não interajo com uma criança, isso foi tão fofinho! – a morena comentou animada.
– É assim todo dia, quase.
– Eles te amam, né?
– A maioria. Os que não amam, eu ainda vou conquistar.
– Convencido…
– Você sabe que é verdade.
– Pior que sei.
Se havia alguém aqui que conquistava facilmente o coração de todos por onde passava, esse alguém era Edward.
Bella ainda tinha dificuldade de compreender isso, às vezes, como namorada e como pessoa.
Que dura tarefa para uma introvertida que precisava lutar para sair de seu casulo, enquanto o cara era capaz de fazer amizades até em velório. Toda hora precisava lembrar que essa era a personalidade dele – ser falante, simpático e naturalmente charmoso com todos –, mas não deixava de ser uma prova de fogo para seu ciúme.
Edward vivia assim, colecionando afetos a cada esquina. Todos verdadeiros.
No início do namoro, contava que mesmo quando chegou aqui e morou no trailer, na pior das condições, nunca sentiu-se desamparado, tinha sempre alguém disposto a ajudá-lo, e ele sempre retribuía de alguma forma. Bella tinha aprendido e muito com sua generosidade, ele a fazia enxergar na prática a máxima clichê do "é dando que se recebe".
Por tudo isso, esse lugar e esse emprego tinham absolutamente tudo a ver com o rapaz, e o coração de Bella estava repleto de amor e gratidão por ele ter tido essa oportunidade perfeita. Por ele ter crescido tanto nesse último ano, e não sucumbido à perdição da vida, como ela tinha medo que acontecesse quando saiu de casa naquele dia chuvoso de fevereiro.
– Você achou seu lugar aqui. – numa voz suave, seu coração transbordou.
– Acredito que sim. Finalmente.
– Não sei se já disse isso, mas estou muito feliz por você. E orgulhosa.
– Obrigado, eu sei disso... Também estou. Minha auto-estima profissional está lá no alto pela primeira vez na vida, e isso é tão estranho.
– É uma sensação boa, te faz querer melhorar cada vez mais.
Dividiram um sorriso, ambos de satisfação. Era tão bom estar compartilhando esse sentimento com alguém especial, e ele não sabia que precisava disso até agora.
O momento dissolveu-se suavemente pelo resto da caminhada pelo prédio, até que Edward resolveu retomar um outro assunto.
– Então… Namorada, é?
Bella fez uma careta, agora sua vez de ficar com as orelhas vermelhas.
– Ugh, eu sei, desculpa!
– Você vai me deixar doido assim, mulher.
– Eu sei. Mas eu não podia dizer pra criança "sou a ex-namorada porém estamos na fase de testes após uma pausa de dez meses", né?
– Tá. Essa vou deixar passar. Mas o que a gente diz pro resto do mundo nessa fase?
– Precisamos dizer algo?
– Eles vão perguntar. Ainda mais agora, com esse vídeo e tudo o mais.
– Ai, nem fala. – ela choramingou, e logo suspirou. – Bom, prefiro dizer que estamos juntos, sem rótulos, por enquanto. Tá bom?
– Ok. Sem rótulos... – concordou em aparente contentamento.
Edward foi ao vestiário pegar as coisas do armário, enquanto ela ficou do lado de fora dessa vez, já que as aulas tinham acabado de terminar, e o lugar se enchia dos últimos alunos do dia.
Vários olhavam para ela com curiosidade, de certo por seu grande crachá de visitante pendurado no pescoço, porém deixaram-na em paz. Não queria parecer dramática nem nada, mas era bom voltar a ser anônima – mesmo que tivesse experimentado a fama apenas por um dia.
A viagem para casa dela em Camden Town durava 45 minutos de trem mais metrô, e eles acabaram pegando um vagão quase vazio, contrário ao fluxo dos trabalhadores que vinham do Centro.
Bella não parava de olhar seus pés. Usava um tênis um número maior, que Edward arranjara no achados e perdidos, como prometido. As botas estavam na mochila.
– Fala a verdade, você nunca me viu tão cool e fashion quanto agora.
– Original como todos os outros dez mil hipsters de Londres.
– O nome disso é inveja.
– Desse tênis velho horroroso com meia aparecendo que nem meu tio usava em 1992?
– Se chama ugly sneakers, é o conceito. Vi na Vogue.
– Desde quando você lê Vogue?
– Tinha na sala VIP do aeroporto. Se bem que a revista estava surrada, devia ser uma edição velha. Droga, será que tô atrasada na tendência?
– Tadinha, nem assim consegue ser cool.
– Vou continuar tentando.
– Por favor, não. – falou rindo. Bella fez uma careta e sorriu de lado em resposta, antes de se calar.
Conforme o papo se diluía no ar, outras questões tomavam sua cabeça, e assim ela ficou por alguns longos minutos. Edward, lógico, percebeu sua mudança de humor.
– Tá preocupada? – chamou encostando o cotovelo.
– Preocupada. Puta da vida…
– Quer desabafar mais um pouco?
– Eu só queria esquecer tudo isso até passar, pra ser sincera. Não acredito que vou ter que ficar em casa, de castigo, que nem uma adolescente que botou bombinha na lixeira na escola.
– Eu se fosse você, apareceria pra dar aula amanhã na maior cara de pau, mesmo. É um absurdo, até mesmo com alunos que vão ficar sem aulas, assim, do nada.
– Gale me garantiu que minhas faltas serão justificadas por agenda de compromissos e eu vou poder repor as aulas depois, ele não vai dizer aos alunos nada sobre suspensão. É o que ele vai colocar na minha ficha também. Pelo menos uma mentira conveniente pra não manchar meu currículo, uhul! – ela comemorou com sarcasmo.
– É o mínimo que esse crápula poderia fazer.
– Crápula é ótimo. – riu de leve. – Essa semana vai ser difícil… Posso te pedir uma coisa um pouco complicada, se não for abusar da sua boa vontade de namorado-de-testes?
– Manda.
– Me faz esquecer toda essa bagunça? Nem que seja só por hoje?
Ele meneou a cabeça com um sorriso conspiratório.
– É o que estou tentando desde que você me ligou desesperada mais cedo. Você sabe que eu tô aqui pro que der e vier.
– Pode parar de ser tão fofo, por favor? Dá vontade de te apertar e encher de beijos.
– Pois está liberado, senhora. – ele riu, e logo a morena estava segurando sua nuca e atravessando as pernas sobre as dele para distribuir beijinhos na bochecha, pálpebras, canto da boca, até beijá-lo com tudo em agradecimento. Seus sorrisos teimaram em não sumir, e foi até difícil manter a atividade.
Demonstrar afeto em público não era muito a praia deles, porém algumas vezes, como agora, Bella não resistia à proximidade, e essa sensação, em especial, a acompanhava desde a Grécia. Ficaram trocando carinhos discretos e beijos no banco sujo do metrô, o lugar mais romântico do mundo naquele momento.
Depois de um tempo, Bella se afastou. Viu que Edward tinha um brilho diferente no olhar.
– Eu sei que você quer dizer alguma coisa. Fala.
– Quer começar agora? – inquiriu ele com firmeza. – A parte que eu te ajudo a esquecer.
– Achei que já tinha começado.
– Já, mas posso melhorar ainda mais.
– Como?
– Está cansada?
– Você vai responder minhas perguntas com outra pergunta?
– Talvez?
Ela riu.
– Não estou cansada. Bebi litros de café enquanto esperava o Conselho decidir minha sentença.
– E quer mesmo ir pra casa?
– Qual a outra opção?
– Aproveitar que sua maré está de sorte agora e seguir comigo numa aventura.
– Aventura em plena segunda à noite, Edward?
– E daí? Não é uma segunda qualquer. Você foi colocada em férias forçadas de novo, não tem nada pra fazer amanhã, e eu só tenho trabalho à noite.
Bella ponderou. Lembrou-se das últimas aventuras que tinha vivido nesse fim de semana, e como, apesar de toda a dor de cabeça e os golpes de azar que sofreu, a adrenalina de se sentir livre havia sido incrível. Seu antiga crença de que surtaria ao viver tanto fora de seus planos havia sido desbancada pela realidade: ela havia sobrevivido bem, e ainda garantido várias histórias boas para contar.
Por que não? A pergunta surgiu mais uma vez; Aquela que ela gostaria de incluir em seu vocabulário corriqueiro. Por que não me jogar no mundo de vez em quando, e colher os frutos? Eles podem acabar sendo frescos e deliciosos.
Suas pernas continuavam inquietas desde cedo, doidas para chegar a algum lugar. Seu coração ainda queria correr – para onde, não sabia, mas com certeza para longe de sua atual situação. Nem que fosse só por essa noite.
O não até ameaçou sua língua, tão acostumado a visitá-la, porém o sim pareceu ser a única resposta compatível.
– Ok. Aceito. – concedeu, enfim. – O que você tem em mente?
– Só um minuto. – Edward sorriu, rapidamente pegando seu celular para vasculhar algo. Ansiosa que só, Bella tentou bisbilhotar, porém ele escondeu-se.
A voz do metrô anunciou a próxima parada, e foi apenas quando o vagão estacionou e as portas se abriram, que Edward ergueu-se de supetão, agarrando a mão dela.
– Vem.
– Pra onde?
– Só vem! Se a gente perder essa, vai ficar muito longe pra voltar andando.
Bella enfim levantou-se, deixando ser puxada por ele, e correndo. A porta do metrô quase fechou em suas mochilas, ambos saíram rindo da afobação.
– Então, pra onde vamos? – perguntou ela, andando pela plataforma.
– Confia em mim?
– Claro, mas estou curiosa.
– Surpresa é parte da aventura. Você vai gostar.
– Ai, pelo menos diz se vai demorar muito? Preciso fazer xixi.
– De acordo com o mapa, uns dez minutos a pé. Dá pra aguentar?
Não dava.
O banheiro do posto de gasolina da esquina foi o que salvou a essa hora, enquanto Edward ia na loja de conveniência abastecer para a noite, jogando tudo dentro da mochila como quando fazia na adolescência em Chicago.
Ao sair da lojinha, avistou Bella vindo. Ela sorria, seu corpo parecia vibrar de ansiedade, com uma raríssima disponibilidade para o desconhecido, que Edward só havia visto um pedacinho durante o fim de semana na Grécia, e desejava poder ver muito mais. Talvez estivessem abrindo uma nova porta na relação deles.
– Pronta? – segurou a mão dela, que tremia um pouco, motivada pelo seu coração acelerado.
A situação não era nada extraordinária; Bella já tinha saído com ele incontáveis vezes durante a noite, e podia lembrar de algumas surpresas que o rapaz havia lhe feito nesses anos. Mas essa era diferente.
Finalmente, estavam na "vida real", na cidade deles, e Bella continuava eufórica ao lado do rapaz, da mesma forma como na recente viagem. Mas nesse momento, as dúvidas já tinham ficado para trás.
Percebeu, então, que sua euforia não se fazia presente por essa ou aquela condição, e sim pelo reencontro dos dois, pela excitação da novidade de estarem juntos tantos meses depois.
Agora era pra valer. Era Edward e era Bella, e tudo o que mudou dentro deles para melhor e precisava ser reconectado. E não havia hora mais perfeita para isso do que o agora.
– Sim. Pronta.
– Então vamos.
N/A: SOBRE O EXTRA – Será o primeiro trecho do primeiro encontro deles. Quer ler? MANDA REVIEW E DEIXA SEU CONTATO (twitter ou email disfarçado – veja como fazer no meu perfil)
Quem adivinha pra onde eles vão? Vou dar um spoiler: o próximo se chama Casa dos Segredos!
Volto rápido! Prometo.
Beijossss
