Disclaimer: Twilight é da Stephenie Meyer. Eu apenas faço seus personagens serem igualmente implicantes e fofinhos um com o outro.

Obrigada à minha beta Dandara, que ilumina minhas ideias e incentiva quando preciso.

*NOVIDADE DO MÊS*

Tenho 2 fics novas atualizando todo dia de Outubro no site Nyah, um Desafio. Veja o link no meu perfil :)

- FUGA, drama sobre uma Bella com um casamento abusivo, mas encontra Edward, professor de piano – bit. ly/ficfuga
- MEU MELHOR AMIGO, comédia com um Edward rabugento implicante com o melhor amigo da Bella – bit. ly/ficmeumelhoramigo


Capítulo 11: O Aprendiz

Os dois que estavam na sala prontamente foram acudir a moça estatelada na escada, e até os gatos curiosos desceram para ver a confusão.

– Meu Deus, Bella. Está bem? – perguntou Esme, enquanto Edward ajudava a levantar. – Se machucou?

– Não, tudo bem… É pressão baixa de fome, não como nada desde que acordei.

– Você acordou há cinco minutos. – o rapaz deixou escapar, virando alvo do fuzilamento ocular de Bella. Sua chefe não precisava saber que ela não estava acordada para atender a própria campainha pois teve uma madrugada de farra.

– Desculpa aparecer sem avisar, tentei tanto, mas seu celular está desligado desde ontem.

– Imagina, Professora, eu que peço desculpa por te receber assim… Tive um dia difícil ontem, minha noite foi um pouco agitada.

Bota agitada nisso. – Edward murmurou, e agora sim, se não metesse o pé, Bella comeria seu fígado só com a força do pensamento. – Bom, vou deixar vocês à vontade, com licença.

Ele nunca subiu uma escada tão rápido.

Pena que o último degrau estivesse ali só esperando seu dedinho bater, e quando aconteceu, berrou, – Ai, buceta! – e saltitou antes de lembrar que havia alguém podre de chique na sala que nem era sua. – Desculpa. Desculpa!

Quando ele saiu do campo de visão, as mulheres se entreolharam. Só o que se ouvia agora era o Mr. Darcy brincando com seu ursinho de pelúcia no sofá – que fazia um apito horrível, por sinal.

Isabella, mesmo de braços cruzados no corpo, estava pronta para levantar as mãos e Deus puxar.

– Então, esse é o famoso Edward. – Esme tentou quebrar o gelo, sorrindo. – Bem mais bonito pessoalmente, se me permite dizer.

– Sim… É ele. Bonitinho, né? Meu ex. Quer dizer. Era ex. Antes da Grécia. Agora não é mais. – balbuciou. Dez anos em estudos da Língua, e bastou uma manhã catastrófica para esquecer tudo sobre coesão e coerência.

– Ah sim. O famoso "é complicado".

– Um pouco… Mas na verdade, não. Está sendo mais fácil do que eu imaginava. – disse, antes de reparar que discutia sua vida amorosa com a chefe em trajes mínimos no pé da escada. – Por favor, sente-se. Posso te oferecer um chá ou café? Uma água?

– Estou bem, obrigada. – falou indo ao sofá. – O que eu gostaria é de conversar com você. É urgente e importante. Tem algum compromisso agora?

– Nenhum. Se importa se eu subir e trocar de roupa antes?

– Claro que não, eu espero.

– Com licença. Fique à vontade. Tem um lavabo logo ali, se precisar. – ela puxou o brinquedo irritante da boca do Darcy antes de subir, e os bichanos foram atrás, putos como (e com) ela.

Assim que fechou a porta do quarto, traçou uma linha reta para Edward esparramado na cama, aparentemente já dormindo com a bunda para cima como se não houvesse problema no mundo. O peteleco de seus dedos no montinho macio foi certeiro.

– Ai! Que isso, cacete?! – ele se contorceu, tirando o travesseiro da cara e esfregando a bunda.

– Não acredito que você abriu a porta pra minha chefe só com um pedaço de pano tapando o pinto! – berrou em sussurros. – E não grita!

– Isso é uma cueca, doida! Você me mandou descer, porra, eu achei que fosse o cara da feira.

– Tem olho mágico na porta, sabia?

– Eu estava fazendo um favor!

– Ainda por cima, deixou entrar antes de me avisar, olha o estado que eu fui receber essa mulher. – ela caiu na cama, tapando o rosto com a mão. – Puta que pariu, eu não quero voltar. Ela quer conversar agora e minha cabeça tá estourando com o susto, acho que vou vomitar. Eu já sei que ela veio pra me desligar do Projeto. É isso, acabou.

– Você ainda nem sabe o que está rolando, porque ela veio até aqui. – ele tentou racionalizar, mas ela não deu ouvidos.

– Que merda, merda! Se eu perder esse dinheiro extra, eu perco a mensalidade da Yoga, do clube do livro e o plano de saúde dos gatos. O que eu vou fazer? Só falta o jornal me ligar e me dispensar também.

– Bella! Eu sei que você ama um drama sem motivo, mas para. Olha pra mim. – ele pegou seus ombros, encarando fundo em seus olhos. – Vai lá e enfrenta. Se ela quiser te dispensar, você vai convencer que não fez nada de errado, que aquilo não interfere no seu trabalho e você continua sendo a ótima profissional que sempre foi. Você sabe que consegue. Agora, para de surtar, mete uma roupa e desce logo.

– Nossa, um tapa na cara seria mais gentil. – murmurou, mas suspirou. – Tá, você tem razão... Me ajuda a respirar um pouco antes? Preciso relaxar o diafragma, não quero vomitar nos sapatos Chanel de Esme Thompson.

– Claro. – ele pegou suas mãos.

Só depois de fazer uma meditação express em dupla, lavar o rosto, escovar os dentes, botar um perfume e uma roupa decente, Bella tomou coragem para encontrar Esme novamente.

Ela folheava um dos livros de arte que intelectualizavam a mesinha de centro.

– Desculpa a demora.

– Você gosta de Dança? – a professora mostrou um livro de fotos da companhia de balé de Londres.

– Gosto, mas não entendo muito. Na verdade, esse foi minha amiga Alice que me deu. Ela é bailarina da companhia, e fiquei tão encantada com o balé de Romeu e Julieta, que ela acabou me dando esse no aniversário. É ela na página vinte.

– É mesmo? – ela voltou para ver a foto. – Que lindinha. Tive alguns amigos que dançaram por lá. Todos aposentados a essa altura. Ao contrário da Literatura, é um meio difícil pros mais velhos.

– É verdade… Bom, você já tomou café da manhã? Aqui do lado tem uma cafeteria, o capuccino é uma delícia.

– Eu já tomei, mas sei que você não. Vamos. Não consigo ver ninguém com fome, sinto agonia tremenda. – ela se levantou trazendo sua bolsa Prada nude, a qual Bella já invejou tanto desde que Esme foi sua professora na pós-graduação, que nem sabia como ainda estava inteira.

– Tenho que te pedir desculpas por te recepcionar daquele jeito, a confusão toda… – Bella começou, já sentadas na cafeteria do lado de casa após pedir seu desjejum. – E desculpa por Edward, também! Nossa, que gafe. Achamos que era um entregador.

– Imagina, acontece. – ela deu um sorriso singelo. – Foi uma noite agitada mesmo, não? Ressaca?

Bella sentiu as orelhas queimando.

– Ressaca de dormir pouco. – soltou uma curta risada. – Edward me levou a um lugar… Eu realmente não faço essas coisas durante a semana. Aliás, quase nunca faço nos fins de semana também. Precisava de uma distração ontem.

– Querida, está tudo bem. Não precisa se explicar e nem ter vergonha, eu entendo, de verdade. Já fui jovem um dia, sei bem como é.

– Ah, que isso, professora, você ainda é jovem também.

– Hm, até parece! Mas vou me gabar sobre isso com meu dermatologista. E por favor, me chame de Esme. Estamos trabalhando juntas há quase seis meses, acho que já temos uma certa intimidade. Já até vi seu namorado seminu. – ela brincou, e a morena acompanhou com uma risada toda trêmula e sem graça.

– Pois é… Tudo bem, então, Esme. É que… Eu sinto como se todos os meus professores fossem meus mestres para sempre, sabe? Acho um título tão nobre… Principalmente quando se trata de alguém que faz um bom trabalho, alguém que me inspira, como você... – sorriu, mordendo a boca de nervoso e brincando com os pacotes de açúcar. – Não que eu esteja puxando seu saco, nem nada.

– Pode puxar, também acho que eu faço um bom trabalho. – ela brincou com a modéstia, antes de assumir um tom sóbrio. – Assim como você também faz, Bella. Por isso que eu vim aqui, essa conversa será muito importante.

– Olha, se isso é sobre aquela tolice de vídeo, eu tenho uma boa explicação…

– Não, não é sobre ele. Vamos falar sobre isso depois, porque eu tive umas ideias. O que eu quero saber mesmo é o que você pretende fazer sobre a barbaridade que Peter Gale e aquela corja fizeram com você.

A morena suspirou, relaxando um pouco na cadeira, embora a vergonha não deixasse de pesar nos ombros.

– Pois é. Fui colocada de castigo… Quatro dias em casa, sem poder lecionar.

– Eu sei e não gostei nenhum pouco. Você se importa de me contar, em detalhes, o que aconteceu na reunião?

Agora, com certa distância do acontecido, ela conseguia dimensionar melhor tudo, e sua raiva dava lugar à revolta e tristeza. Precisou se segurar para recontar toda a história. Sua voz magoada tocou Esme.

– Terrível. – ela disse, ao terminar de ouvir o desabafo. – Absolutamente, terrível. Sinto muito, de coração.

– Obrigada.

A garçonete trouxe o café da manhã, e Bella agradeceu com um sorriso, embora o estômago se apertasse em nós, sem apetite algum. Tomou um gole da água gelada para reanimar, e Esme, em toda sua sensibilidade, pegou sua mão livre. Um alívio caloroso em sua pele gelada e trêmula.

– Bella, o que eles fizeram foi abuso de autoridade e assédio moral, você sabe, não é?

– Acho que sei. Quer dizer, nunca passei por nada assim, não sabia como reagir na hora, o que dizer. Foi difícil.

– O pior de tudo, é que não é a primeira vez que acontece com uma professora jovem, mas eu acho que é a primeira vez que passaram de todos os limites. Eu estou de olho nesse Conselho faz tempo também por outros motivos, eu e mais algumas professoras e alunas. Não sei se você ficou sabendo do caso do professor James Hay, de Cinema?

– Ouvi um rumor, mas nunca soube de nada concreto. O que houve?

– Bem, há dois meses, duas alunas levaram reclamações formais de assédio sexual contra James. Ele insinuou que aumentaria a nota delas em troca de favores sexuais, e uma delas foi até coagida numa festa, mas as alunas não tinham como provar, era só a palavra delas contra James. Acabou não dando em nada, não quiseram investigar mais. Em suma, o Conselho colocou panos quentes. Pelando.

Tentar conjecturar uma nova imagem de James, um professor amigo que tinha um papo interessante para trocar com um café, era algo que Bella já vinha tentando desde que Edward lhe falou sobre isso, em Atenas. Saber de tudo, e do perigo que potencialmente tinha corrido, fazia seu sangue borbulhar.

– Meu Deus, eu não fazia ideia. Confesso que não frequento muito as rodinhas dos professores, as fofocas… Como sou novata e passo pouco tempo na faculdade, gosto de ficar focada no meu trabalho. Isso tudo passou batido pra mim.

– Ouça meu conselho, Bella. Comece a circular, prestar mais atenção. Eu sou muito discreta em relação aos meus colegas, mas com todo respeito, esse Conselho não presta. É uma panelinha da pior espécie. Nós devemos ficar alertas.

– Por que fariam algo assim? Uma acusação tão grave dessa, ainda mais nesse mundo que a gente vive hoje… Os movimentos contra assédio e tudo mais?

– Eu também não entendia, até descobrir que a mãe de James Hay teve um caso com o Gale no passado. Isso explica a proteção dele.

– Mas… Como? Eu sou colega de James… Ou era, agora não sei. – constrangida, desviou os olhos. – Fui no jantar de aniversário dele e conheci os pais, que por sinal são muito bem casados há cinquenta anos. São donos da maior produtora de filmes do Reino Unido.

– Eu sei. Meu ex-marido me contou, ele é do clube de golfe que todos eles frequentam. Fica aqui perto, inclusive, no Regent's Park. Todo mundo sabe disso por lá, foi a fofoca mais quente dos anos 90 naquele clube, depois da morte da Lady Di.

– Nossa, eu realmente não fazia ideia...

– O ponto mais importante, é que eu acho que Peter Gale usou seu caso como um exemplo, uma resposta às críticas. Muitos professores desaprovaram a forma como o Conselho lidou com o caso do assédio, e vários alunos de Cinema ficaram revoltados. Tenho certeza que o Conselho te usou como bode expiatório, entende?

Bastou bobear por um segundo, e o nó no estômago de Bella já tinha subido para a garganta, os olhos enchendo d'água sem permissão alguma da dona.

– Entendo. – ela sacudiu a cabeça, tentando não desabar e falhando totalmente. Seu soluço único saiu alto, uma senhorinha na mesa ao lado até virou para olhar.

– Bella… Querida. Não fica assim, por favor. Vai ficar tudo bem. Toma. – Esme tirou um lenço de papel de sua bolsa, e Bella assoou o nariz. O barulho foi alto e nojento. Obviamente.

– Desculpa. É rinite. – tentou fingir, e como a péssima atriz que era, acabou chorando mais ainda. Sua professora e chefe a olhava, pacientemente, com um sorriso de pena.

– Eu imagino como você deve ter ficado assustada e magoada com tudo, mas eu te garanto que nós vamos fazer justiça. Eu vou te ajudar, estou com você nessa.

– Obrigada, Esme. Eu fiquei muito confusa… – ela tomou um grande gole para se acalmar, e quando sentiu que conseguiria falar, limpou as lágrimas. – Não entendo por que tudo isso está acontecendo comigo, foi tanta coisa desde que saí de Alexandria, parece até um grande sonho. E um pesadelo, tudo junto…

– Sinto muito por tudo o que você passou, não se sinta mal por chorar, você tem todo direito de não ser forte.

– Obrigada. Mas acho que estou chorando de alívio também. Agora, ouvindo tudo o que você falou, fico um pouco mais leve de saber que a culpa não foi realmente minha, que eu não fiz uma grande burrada no meu trabalho. As coisas fazem um pouquinho mais sentido agora. Muito obrigada pelo apoio, de verdade.

– Imagina. É o meu dever como professora da instituição, como sua colega, e principalmente como sua mentora, aliás, não esqueça que eu detesto a palavra chefe, certo? – ela riu. – Ah, Bella… Quando fiquei sabendo do voo, me senti tão mal. Eu deveria estar no seu lugar, você foi porque eu pedi. Deus me livre se algo tivesse acontecido, não sei como conviveria com isso.

– Não tem problema, não é culpa sua, foi um golpe do destino, faz parte.

– Você tem um advogado? – ela mudou o assunto totalmente.

– Uma amiga, Leah Clearwater, fez trabalho de papelada pra mim quando cheguei no Reino Unido. Por quê?

– Porque eu quero te propor que a gente vá ainda hoje na Faculdade com sua advogada, pra que você volte a dar suas aulas. E vamos dar início aos processos. As duas alunas de Cinema vão processar o Conselho e James, e quanto mais pessoas juntas nessa, melhor para todas nós. E eu digo todas porque nada me tira da cabeça que o alvo preferido desses homens são as mulheres daquela Universidade. Temos que nos proteger.

– Claro. Você tem razão, Edward já tinha me aconselhado a abrir um processo. Tudo bem. Estou com vocês. Vou ligar pra Leah e ver o que podemos fazer hoje mesmo.

– Ótimo. – Esme abriu um sorriso, respirando fundo, um pouco da tensão deixando seu corpo e transmitindo isso à Bella. – Agora, por favor, coma. Você está pálida, e eu já disse que não aguento ver gente sem comer?

Bella riu fungando.

– Claro, professo— Esme.

A fome foi saciada, um banho tomado, os gatos alimentados, um beijo de despedida dado em Edward, e logo Isabella estava no carro de Leah em direção à Universidade de Londres. Esme já tinha ido para adiantar algumas coisas.

Seu coração ia saltar da boca a qualquer minuto, mas ela o distraiu enquanto sua amiga repassava tudo o que seria dito em breve.

– Você sabe dizer se eles já preencheram sua ficha com o registro de suspensão? – perguntou Leah.

– Ah, Gale disse que não registraria suspensão na ficha e sim faltas normais por compromisso.

– Filho da mãe esperto.

– Por quê?

– Eles só podiam te suspender se o seu teste desse positivo pra entorpecentes, comprovando que a regra interna foi violada. Como te dispensaram antes do resultado, um registro de suspensão por pura suspeita seria falsa acusação. Ele já devia saber disso, então.

– É, não brinca em serviço, mesmo.

– Além dos membros do Conselho, teve outra testemunha das reuniões?

– A secretária do Gale, a Heidi... Carlisle estava comigo quando me chamaram. E talvez as câmeras de segurança?

– Você acha que a Heidi poderia ser envenenada por eles?

– Ela é uma incógnita. Estava totalmente estóica quando ficou de babá do meu xixi, não sei o quanto é fiel aos chefes.

O carro parou num semáforo vermelho, e Leah apoiou o cotovelo no vidro com seu jeito despachado, virando-se para Bella no carona.

– Olha, só por alto, consigo pensar em processos por danos morais, constrangimento, assédio moral... Quando ganharmos, e nós vamos ganhar, você vai levar uma bolada.

– Deus te ouça.

– Já pode marcar o meu jantar, garota. Estou morrendo por uma lagosta há meses.

– Pago a lagosta e até um rodízio de churrasco naquele restaurante brasileiro.

– Hmm, porra, que fome, bem na hora do almoço. Só vim porque eu te amo, viu?

– Que linda, nem parece que vou te pagar pela hora.

– Mas eu amo sim, sua vaca! – Leah empurrou seu ombro, rindo. – Então tá, pode começar me comprando um Big Mac daqui a pouco.

As duas riram, porém Bella logo voltou a ficar séria quando o semáforo abriu.

– Será que vamos ganhar mesmo, Leah? A Universidade deve contratar uma equipe inteira pra defesa deles.

– Amiga, o meu passatempo preferido é infernizar a vida de homens brancos nojentos até eles chorarem na frente de um tribunal. E eu sou ótima nisso.

– Você nem sabe se ele é branco.

– Não, mas soa como um. Estou certa?

– Claro que está.

.

.

Esme Thompson esperava por elas na porta da faculdade com mais quatro mulheres, as advogadas e as alunas. Uma reunião já estava marcada com o Conselho e o reitor, e assim que todas se encontraram, foram caminhando lado a lado.

Bella sentou-se na cadeira, a mesma de ontem, e tiveram que esperar alguns minutos infinitos por eles. Sua amiga percebeu sua inquietude na perna que não parava de balançar. Leah pegou sua mão e apertou.

– Relaxa, tá? Ou pelo menos finge que está relaxada... Infelizmente, eles se sentem mais superiores quando veem que estamos nervosas. Temos que mostrar que nós é que estamos por cima aqui.

– Eu sei. Só estou com medo de tudo isso se voltar contra mim de algum jeito… Pensando mil besteiras.

– Então pensa em outra besteira. Você vai passar o Natal com a minha família?

– Pensei em passar lá mais cedo, Edward quer ir na festa dos amigos dele que acabaram de casar e vão dar o primeiro Natal na casa nova.

Leah soltou uma risadinha de lábios fechados, espremendo os olhos e sacudindo a cabeça.

– Bella…

– Que é?

– Nunca pensei que você teria medo de assumir compromisso, mas é o que tá rolando aqui, você tá ciente, né?

– Eu?

– Ué, você falou ontem mesmo que não estavam namorando de novo, só indo com calma e se curtindo, mas já vão até fazer programa de casal no feriado.

– Ah, para. Eu só não quero colocar uma pressão antes do tempo. Não tenho medo de nada. Quer dizer, tenho, de fazer uma decisão precipitada, por isso prefiro evitar nomes oficiais, por enquanto.

– Tá. Há quantos dias Edward está morando na sua casa mesmo?

– Ele só dormiu lá duas noites desde que chegamos!

– E desde então, vocês não se desgrudaram. Mas tudo bem, não vou tirar sua razão. Eu provavelmente faria o mesmo, ou pior. Não sei como vocês conseguiram, se eu ficasse quase um ano sem minha namorada, não iria nem sair do quarto por dias. Uma de nós ficaria amarrada.

– Leah! Shh. – Bella sussurrou porém riu, felizmente as outras mulheres também preenchiam o ambiente de conversas paralelas. Abriu sua bolsa para pegar o planner. – Vou até rever a lista de presentes, agora tem tanta gente nova. Espero não falir.

– Tá preocupada com o quê? Já disse que vai encher o rabo de dinheiro em breve.

– Você é tão fina.

– O orgulho da família.

Quando abriu o planner, um pedaço de papel de uma cor familiar guardava seu nome com uma letra que ela jamais poderia esquecer. Seu peito se apertou, e ela deve ter feito uma cara de idiota apaixonada tão óbvia, que Leah ficou curiosa.

– Que foi?

– Ele me deixou um bilhete. E um chocolate. – ela puxou dois bombons de licor de cereja.

– Vocês são enjoativos de tão fofos, argh.

A implicância da amiga foi ignorada enquanto lia o papel, como nos velhos tempos.

"BELLA,

Para adoçar essa situação amarguenta, seu preferido de cereja (ainda bem que vende no café aqui do lado, a Sade disse que você encheu o saco pra ter).

Naquele aniversário de Carlisle que você não foi, ouvi seu nome em várias rodinhas (e juro, tentei me esquivar). Você não tem ideia do quanto as pessoas te admiram e respeitam como profissional. Ou talvez tenha, mas achei melhor ressaltar isso hoje.

Pensarei em você enquanto lavo roupa no meu apartamento. Direi seu nome esfregando minhas cuecas sujas... Que foi? Você disse que ama um homem romântico, estou tentando.

Me liga quando chegar, boa sorte! TE AMO (saudades de escrever isso)

Edward

PS: Alguma dica pra tirar mancha de azeite? Acho que foi naquele restaurante chique em Atenas... Olho grande do traficante. A camisa é bonita."

Sorrindo tanto que chegava a doer, ela dobrou o bilhete com cuidado, e o colocaria junto dos outros em sua caixinha de memórias, uma feliz sobrevivente dos meses de separação. Pegou o celular para digitar uma resposta.

[Bella]

Mas é claro que, em 2 dias, você já fez amizade com a minha barista favorita. Resta alguém nessa cidade pra vc conhecer, rapaz? rs

Sobre a mancha, o meu truque é infalível: joga no google hahahah (Sério, não sei mesmo!)

E obrigada. Mil vezes.
Estou confiante, pés quentinhos.
Te amo, até mais.

Peter Gale escolheu aquele momento para surgir na porta acompanhado pelo reitor, Laurent Armond, e outros dois membros do Conselho.

Embora seu coração acelerasse toda vez que pensava no que estava por vir nos próximos meses, poucas vezes Bella sentiu-se tão segura de uma decisão. Outros corações que batiam como o seu a cercavam. Não estava sozinha.

A reunião foi dura, tensa, e produtiva. Bella foi a primeira a ser atendida, enquanto as advogadas e as alunas ficaram esperando lá fora.

Não demorou muito para que o reitor entendesse a situação e ficasse do seu lado e, ao que tudo indicava, também ficaria ao lado das alunas. Ver o Gale sendo desmandado na frente de todos foi o ponto alto do encontro.

– É absurda a forma como o Conselho lidou com sua situação, Isabella. Peço profundas desculpas em nome da Instituição, a Direção repudia qualquer constrangimento aos funcionários. Heidi, por favor, informe ao professor substituto que ela voltará ainda hoje. – Laurent pediu à moça que registrava a reunião em uma ata. – Tudo bem, por você, Isabella? Pode voltar hoje?

– Claro. Já trouxe meu material, a minha aula começa em duas horas.

– Laurent, mas e os alunos? – Peter interrompeu. – A baderna que ela pode trazer pra esse lugar durante as aulas, já expliquei que foi por isso que—

– Por favor, Gale, não se complique ainda mais. A professora claramente não violou as regras da faculdade, o exame deu negativo. A senhorita Clearwater já averiguou que o aeroporto não entrou com processo contra ela e nem vai entrar, então não houve crime algum.

Leah sorriu com gosto para Peter e Marcus Vangelis, os membros do Conselho presentes.

– Exatamente, senhor Armond. Bom, te agradeço pela cordialidade com a minha cliente. Mas tendo em vista todo o transtorno causado à professora Swan, nós decidimos entrar com um processo contra os senhores Gale, Vangelis, Houston e Jenks.

Bella se preparou apenas para ver a reação deles, e prendeu um sorriso de satisfação. Vangelis ficou mais pálido do que já era, enquanto Gale só faltou espumar pela boca – a qual ele abriu só para balbuciar tentativas de defesa inúteis.

– Isabella, isso é mesmo necessário? Por favor, não vamos nos precipitar com ameaças. Podemos resolver facilmente em uma conversa.

– Isso não é uma ameaça, é um fato. – Bella confirmou. – É um direito meu, eu não vou ficar calada.

– Esperem uma notificação em breve. Creio que já deu nossa hora. – Leah se ergueu, carregando a bolsa e estendendo a mão para o reitor. – Muito obrigada por nos ouvir. Acredito que o senhor vai gostar muito de ouvir também o que as próximas advogadas tem a dizer, é ainda mais importante. Aprecio que seja um aliado.

Ela piscou um olho, sacudindo a mão do reitor, e virou-se sem olhar para trás. Bella ficou até meio besta com tanta atitude dessa Leah que ela ainda não conhecia. Sua amiga mais palhaça sendo uma advogada séria era um belo contraste, uma outra pessoa totalmente diferente. Cabia perfeitamente bem à ela.

– Muito obrigada. – Bella finalmente se mexeu, cumprimentando o reitor, e apenas falou aos Conselheiros, – Estarei na minha sala. Obrigada pelo tempo de vocês. Com licença.

Foi recepcionada pelas suas companheiras na ante-sala da Direção ao sair, e a carga de emoção lhe atingiu com tanto impacto, que ela temeu chorar de novo. Respirou fundo para receber o abraço da sua amiga.

– Muito obrigada, Leah. – disse. – Você foi incrível, eu nem sabia o que dizer direito, teve uma hora que eu tremia tanto, minha voz travou.

– Não sirvo só pra ameaçar chutar o saco do seu namoradinho, não. Somos família, esqueceu? Mexeram com a pessoa errada. Eu te amo, porra. E guarda bem esse momento, porque não sou de falar essas coisas melosas.

– Eu também te amo. – Bella só riu, se afastando.

– Laurent está com a gente, então? – perguntou Esme.

– Está, é o que parece. – ela virou-se, pegando as mãos das alunas de James Hay. – Boa sorte pra vocês, podem contar comigo pro que precisar. Esme, me dê notícias?

– Claro. Vou te ligar para marcarmos um café. Preciso contar novidades do Projeto, tive algumas ideias pro ano que vem.

As duas amigas saíram pelo pátio da Universidade com passos confiantes e sorrisos enfeitando os rostos, que se franziam com o sol incomum para o inverno de Londres.

– Nossa, isso foi muito bom! – Leah falou alto, encarando o céu.

– Você é tão maravilhosa fazendo seu trabalho. Deu pra entender o que quis dizer com aquilo de fazê-los acreditar que estamos no controle.

– Sim, é assim que disciplinamos os cachorros.

– Leah! – ela riu.

– É uma adrenalina fodida, sabe? Eu amo. É quase como cair numa estrada vazia com a minha moto.

– Você e essa bendita moto, que perigo.

– Ih, vai começar a chatice. Você e Ekene… Aliás, não foi você que saiu pelo litoral da Grécia com o namoradinho de moto? Só se tiver um macho pode, sozinha não?

– Primeiro, ele não é meu namoradinho, e nós fomos devagar, com cuidado. E segundo, para de ser ridícula, não foi isso que eu quis dizer.

– Eu sei me cuidar, confia em mim.

– Está bem, então… Posso te pagar o McDonald's ainda? Tem um aqui do lado.

– Precisava nem perguntar, amiga.

Edward ficou sabendo das novidades por telefone, quando ela terminou a primeira aula do dia, a barriga cheia de McNuggets e batatas fritas como a adulta responsável que era.

Ficou tentada a deixar de fora a parte sobre James, só para não lhe dar esse gostinho de estar certo sobre alguma coisa, mais uma vez. Porém não teve como escapar.

Eu sabia! – ele não parava de rir. – Puta merda, eu sabia! Você não me ouve, né? Eu tenho faro pra detectar vagabundo, já te disse. Eu devia ter apostado com você, droga.

– Hm. Parece que ficou mais feliz com a queda de James do que com a minha vitória. – ela fez uma chantagenzinha barata, porque não era de ferro.

Talvez tenha ficado mesmo. E daí?

– Poxa...

É brincadeira, bobona. Estou muito feliz por você, ainda bem que tudo se resolveu da melhor forma. E parece que vai ser assim no tribunal, também. Eu disse que não precisava surtar tanto.

– É, acho que devo começar a te ouvir mais…

Acha o quê? Por favor, fala de novo, preciso gravar essa conversa.

– Tsc, besta.

Como seus alunos reagiram a tudo?

– Alguns não entenderam muito bem as trocas de professores, outros não ligaram, mas a maioria me apoiou. Não contei os detalhes, mas acho que as fofocas correm e eles devem ter entendido, mais ou menos, o que aconteceu. O problema é que agora tem mais gente vindo falar comigo sobre o vídeo. Parece que foi parar num programa de TV matinal hoje, acredita?

Eu sei, estavam vendo aqui na cafeteria quando cheguei. Já acharam a ONG, ligaram pra lá e tudo.

– Ai, não. E o que você fez?

Fiz algo que tenho aprimorado nesses últimos tempos: fingi demência. Mandei dizer que eu não trabalhava mais lá.

– Duas semanas até essa loucura acabar, não foi o que você disse?

Pois é. Uma já foi...

– Ainda bem. Tenho que ir, vou usar o intervalo pra ler o livro da resenha de janeiro.

O que vai fazer à noite?

– Chegar em casa, comer e dormir. Só isso, espero que literalmente, estou um caco. Por quê?

Nada, só fiquei curioso…

– Pode ir dormir comigo, tá? Se não se importar de ter minha companhia adormecida.

Não, tudo bem, vou ficar trabalhando em uns textos. Descansa. Mas vou sentir saudades. Quase uma semana juntos o tempo todo, dá pra acreditar?

Ele disse aquilo com uma voz derretida, balançando Bella e arrumando um sorriso em seu rosto.

– Eu sei, parece mais tempo… Também vou sentir saudades. Mas acho que vamos sobreviver a um dia. Se você tivesse um iPhone ao invés desse celular da China, poderíamos ligar pelo Facetime pra falar até eu pegar no sono e você me assistir dormindo.

Cruzes, coisa de stalker esquisito.

– É romântico! – ela riu.

Que nem a música do The Police. Cada respiro seu, estarei te observando… – ele fez uma voz grave para brincar. – Espera, você vai me dar um iPhone de Natal? Depois de ter pisado no meu celular...

– Quê?

Você jogou um verde, né? Você sempre faz isso quando tem que me presentear e não sabe o que comprar.

Bella gargalhou na orelha dele.

– Você tem noção de quanto custa um iPhone, Edward?

Ué, o que Leah falou mesmo? Que você ia encher as burras de dinheiro com o processo? Então.

– Encher as burras? De onde você tira essas coisas, garoto? – ela riu. – Ok, agora vou de verdade. Te amo, até depois.

Te amo, bom trabalho.

Quando chegou em casa naquela noite, pegou sua chave com a vizinha, onde Edward havia deixado, já que ele continuou ainda dormindo um pouco mais quando ela saiu para a Universidade.

Amarrado na porta da geladeira para os gatos não alcançarem, um saquinho com folhas verdes e uma nota lhe aguardava.

"Passei por uma senhora indiana que vende ervas numa feira na rua de baixo, ela me explicou sobre o orégano. Achei que você fosse querer. A coitada trabalhou demais ontem, merece um spa."

Mesmo sozinha, sentiu o calor da vergonha, e saiu rindo que nem uma adolescente em aula de educação sexual. Iria preparar o banho de assento agora mesmo.

Sentada na bacia com suas velas aromáticas em volta, ela tirou uma foto. A boca num biquinho triste, o queixo sobre os joelhos cruzados. Foi a nude mais fofa que Edward já recebeu, e só podia ter vindo dela.

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O Natal tão aguardado chegou seis dias depois.

Frio, chuvoso, e colocando mais dez cabelos brancos na cabeça de Bella, na luta para comprar tantos presentes de última hora.

Edward, que tinha ficado meio longe nessa semana devido aos compromissos de ambos, chegou cedo na casa dela no dia 24 para ajudar a preparar as sobremesas que levariam amanhã. Bella cortava os cookies com moldes de estrela e árvore de Natal, enquanto ele encontrava-se há meia hora debruçado na bancada roubando a massa crua para comer.

A morena estava a uma dedada de tacar toda a farinha na cabeça dele.

– Foi tão legal, os meninos amaram, a gente até saiu no jornal da TV. – ele contava sobre a apresentação do coral da ONG ontem. Tinham saído pelo bairro de Peckham cantando canções natalinas. – Você bem que podia ter feito um esforcinho pra ir...

– Eu sou só uma, Edward. Andei pra caramba desde anteontem pra conseguir comprar tudo, e ainda fazer mercado. Você sabe que se eu estivesse à toa, eu iria.

– Eu sei… Mas olha só, eu avisei que não precisava de tudo isso. Rosie e Emm não ligam pra presentes, e esqueceu que a mãe dele tem uma confeitaria? Vai ter doce à beça.

– Tudo bem, mas agora já foi. Me sinto mal por chegar de mãos abanando. E a sobremesa é pra família Clearwater também.

– O que você comprou pro casal?

– Um jogo de toalhas com dois roupões e um kit de sais de banho.

– Caralho, muita coisa. Eles já ficariam felizes com uma garrafa de vinho, não precisa tudo isso, bobagem.

Bella quase parou e largou o molde, porém respirou fundo.

– Edward, faz um favor? – sua voz subiu uma oitava.

– Sim?

– Senta na sala e vai ver TV. Deve tá passando Esqueceram de Mim, você ama, né?

– Ué, você me pediu ajuda, eu tô aqui pra ajudar.

– Ok, mas você está me atrapalhando ao invés de ajudar, e ainda por cima criticando as coisas que eu fiz e estou fazendo pra ser legal com seus amigos.

Edward fez um som de indignação, boquiaberto.

– Você recusou minha ajuda com os cookies, literalmente não me deixou tocar na sua receita, falou que eu ia arruinar as medidas. Não me pediu mais nada, fiquei sem função!

– Tá vendo a pia lotada? Então.

– Beleza, era só ter pedido antes. – ele se ergueu, indo para a pia e abrindo a torneira.

– Estou concentrada aqui, nem pensei nisso, você podia ter se ligado. E eu acho um saco ter que ficar pedindo pra fazer as coisas. Não quero ser essa pessoa chata, achei que a já tínhamos passado dessa fase.

– Certo…

O silêncio se arrastou por longos minutos, cada um voltado para dentro de sua cabeça, e conforme o rapaz refletia na mancada que tinha dado, a morena irradiava mais e mais estresse. Ela sempre ficava assim nessas épocas, sempre.

Esperou até que Bella tivesse colocado as duas grandes formas de cookies no forno e guardado alguns materiais usados nos armários. Ainda iria preparar uma torta. Edward fechou a torneira, secando as mãos, se apoiando na pia.

– Bella.

– Hm.

– Vem cá.

– Tô ocupada.

– Por favor, quero falar um negócio.

– Fala, ué.

Ele andou até ela.

– Ei. – e pegou seus ombros para virá-la de frente.

– Ai, que é?

– Calma, tá? Não me odeie por pedir isso, mas relaxa um pouco, seus ombros parecem mármore. – Suas mãos massagearam-na de leve.

Ainda com raiva dele e de algo que nem conseguia explicar, ela sentiu lágrimas se formando nos cantos dos olhos. Sua respiração saiu travada. Talvez fosse TPM?

– Não consigo.

– Foi por causa do que eu disse, né? Fui idiota falando aquelas coisas, foi sem pensar. Nem te agradeci por todo seu trabalho.

– Eu só quero que tudo saia bom, Edward. Fazer algo legal, que as pessoas gostem. – ela desviou os olhos, triste e momentaneamente perdida.

– Eu sei, e vai sair. Seus esquemas já deram certo, está tudo como planejou. Agora relaxa, você tá há dois dias sem parar. Lembra que você é só uma convidada, qualquer coisa que fizer, será bem-vinda.

– Tá bom…

– Me perdoa pelo que eu falei? Hein? – Começou a dizer, e finalmente Bella voltou a encará-lo. – Você foi além do que precisava, mas tudo bem, é a sua forma de mostrar que se importa com as pessoas, de ser legal com elas. No caso, está mostrando que se importa também com as pessoas da minha vida, quer participar. Isso sempre rolou, mas agora eu entendo melhor e aprecio. Tenho que me lembrar disso. Desculpa.

Bella engoliu o choro porque caramba, como esse cara conseguia? Era impossível resistir aos benditos olhinhos que ele fazia quando se mostrava arrependido de verdade por magoá-la. Passou o dorso da mão passou sobre o nariz ao disfarçar uma fungada.

– Tá… Perdoo sim. Que bom que você sabe qu… – ela se distraiu quando Edward começou a morder os lábios, fazendo força para não sorrir. – Que foi?

– Nada. Continua.

Mas ele não parava, e começou a rir por dentro.

– Fala, cacete, o que foi?

– É que seu nariz tá sujo de farinha, não consigo te levar a sério. – assim que disse, ela tentou limpar.

– Saiu?

– Não, piorou. – ele riu, lambendo o dedão para limpar por ela.

– Eca, dedão molhado! – ela gemeu.

– De todas as minhas partes molhadas que já passei na sua cara, essa é a que você tem nojo?

– Ai, você é muito ridículo! – choramingou empurrando seu peito, porém ele não deixou que saísse de seus braços. A moça não se fez de difícil e deixou-se ser abraçada, retribuindo. Os lábios do rapaz traçaram seu ombro e pescoço gentilmente, deixando-a toda mole.

– Você tá com cheiro de baunilha.

– E você com cheiro de massa crua. – ela riu, antes de emendar onde tinha parado. – Eu sei que você está tentando seu melhor. Também estou... Perdão pelo meu estresse. E obrigada por ter vindo me dar uma mão hoje.

– Imagina. Não tem outro lugar que eu queria estar agora. E eu realmente podia ter prestado mais atenção no que você precisava.

Ela voltou a focar, separando-se.

– Ok, então vamos terminar tudo aqui logo, o espetáculo é às cinco.

Iriam assistir à sessão especial do balé O Quebra-Nozes, no Royal Opera House. Alice tinha lhes presentado convites num lugar que custavam uma fortuna.

– Ainda são onze da manhã.

– É, mas ainda temos que terminar a torta, fazer almoço, comer, arrumar a cozinha, se arrumar…

– Credo, já estou exausto. Se eu dormir no meio de uma pirueta de Alice, você me acorda.

– Alice não te matou por ter vacilado comigo, mas se você dormir no meio da dança dela, aí sim vou preparar o caixão.

– Você tem umas amizades violentas, viu… – ele saiu preocupado, e Bella rindo.

Enquanto um lavava as louças, a outra fazia a torta de chocolate meio-amargo com cereja, sua especialidade. Já era sucesso com a família de Leah e Jake, onde ela sempre passava os Natais quando não podia ir para Seattle.

A apresentação do balé natalino, à noite, foi tudo de mágico e encantador, bem como ambos recordavam.

Ver O Quebra-Nozes e outros espetáculos com tema de Natal que achavam por Londres já era uma tradição deles no final do ano. Por um tempo, até acharam que não seria possível nesse ano, mas ficaram contentes ao perceber que conseguiram concluir a tradição do casal, apesar de tudo.

A outra tradição era trocar presentes assim que o relógio marcasse meia-noite do dia 25. O problema é que na hora, eles ainda estavam na rua, dentro do pub de um amigo de Edward, no Covent Garden, bairro onde ficava o teatro Real.

Até seus amigos já tinham ido embora, mas o papo com Bella rendeu e ele foram ficando. Falavam sobre suas teorias para o final de Game of Thrones dali a alguns meses. Tinham altas esperanças.

– A Daenerys vai sentar no trono, isso nem tem discussão, já é del—Puta merda! Meia-noite e quinze já, não acredito que a gente esqueceu dos presentes! – Exclamou o rapaz, baixando a cerveja quando se tocou do horário, olhando o relógio no pulso.

– Nem eu. Droga. Mas tudo bem, já vamos embora mesmo, né?

– Vamos. Mas e aí, o que você vai me dar?

– Não vou dizer.

– Ah, fala.

– Presente é surpresa, Edward, essa é a graça.

Quando entraram no ônibus para voltar, ele tentou de novo enquanto a distraía brincando com os anéis nos dedos dela.

– Me conta.

– O quê?

– Meu presente.

– Claro que não.

– Conta, poxa.

– Não. Tsc, parece criança!

– Não me lembrava que você era tão boa em guardar segredos.

– Sempre fui.

– Só me diz se é um iPhone. A gente já tá chegando na sua casa, mesmo.

– Não é um iPhone. Mas é algo que eu já estava querendo te comprar faz tempo.

– Uma máquina de lavar? De escrever? De fazer sorvete?

– Você tá bêbado, cara?

– Só estou feliz. – ele a surpreendeu com um beijo entusiasmado. Feriados de final de ano faziam isso com Edward.

E como uma criança, assim que Bella abriu a porta, o rapaz correu para sua mochila, pegando o embrulho prateado. Teve que esperar a morena acarinhar os felinos, tirar os sapatos, subir, aliviar a bexiga, trocar de roupa e descer as escadas para finalmente poderem trocar os presentes.

– Pronto. – anunciou Bella.

Edward já tinha colocado sua playlist de jazz natalino, acendido os abajures, tirado os tênis e estendido a manta de tricô no sofá. Ambos se aconchegaram sob ela, frente a frente entre almofadas fofas.

– Quer começar?

– Não tenho escolha, né. Toma logo. – ela ofereceu.

Ele pegou a grande caixa preta com o maior sorriso no rosto, desfazendo a fita vermelha para encontrar algo embrulhado em papel de seda. Ao perceber o que era, suas sobrancelhas foram parar lá em cima, totalmente surpreso.

– Mentira! – Pegou o item nas mãos. – Achei que minhas boinas fossem odiadas por aqui.

Vendo a cara dele, Bella até sentiu-se mal. Tinha uma implicância gratuita com as benditas boinas, mas não queria que ele se magoasse e achasse que era realmente algo que a incomodava.

– Ah. São meio irritantes, mas são parte de você, é difícil odiar. Até senti falta quando estávamos separados…

– Então isso significa que está liberado o uso, até em casamentos?

– Ok, não vamos testar a Bella, por favor? Grata.

Ele riu enquanto avaliava a boina verde escura que ela escolheu para combinar com seus olhos.

– Muito obrigado, amor. Porra, é tão bem feita... Gianni Boutique, Roma. – ele leu na pequena etiqueta.

– É italiana mesmo e vintage, a moça disse que é dos anos 80, semi-novo.

Os olhos verdes aumentaram por outro motivo agora.

– Você comprou num desses brechós podres de chiques de Candem, né? Caralho, deve ter custado um rim!

– Tsc, será que dá pra só apreciar o presente e não me chamar de burguesa safada por um momento?

– Estou apreciando! Eu amei, de verdade. Obrigado, nem sei como agradecer, isso é incrível. – sorriu, colocando a peça na cabeça. – Tô bem?

– Lindo, como sempre.

– Minha vez agora?

– Ah, tem mais um.

– Mais presente? Vou ficar mimado assim. Já aviso que só te trouxe um, não quero chororô, hein.

– Tudo bem. – sorriu. – Pega logo. Tá na caixa. Tem um cartão também, depois você lê.

Edward viu o cartão e vasculhou até seus dedos acharem algo parecido com um chaveiro.

– Um mini-piano. Fofo. – comentou sem entender nada.

– Abre no meio.

– Um pendrive? – ele abriu, e Bella assentiu. Por algum motivo, esse era o presente que ela mais estava apreensiva de entregar, de todos os que comprou nesse Natal.

– Sim, um pendrive... É que nesses meses eu fiz uma pastinha de arquivos, e ia colocando coisas que me lembravam você, na esperança de um dia te entregar. Bom… Aí está.

Edward ficou quieto, sua energia visivelmente mais calma e reservada enquanto brincava com o pendrive de piano entre os dedos, focado nele.

– Que foi? Fala. – pediu uma Bella apreensiva

– Achei que tinha dito que não pensou em mim nesses meses? – Sua voz soou séria e vulnerável.

– Eu disse que pensei algumas vezes... Só não foi em voz alta pra todo mundo ouvir. E eu realmente tentei muito, muito mesmo evitar esse auto-flagelo, mas tinha vezes que era simplesmente impossível.

– O que tem aqui?

– Coisas que consumi no último ano. Lista de livros, filmes, frases, músicas, uns pensamentos que tive, peças de arte que descobri, fotos de lugares que visitei, ou comidas que experimentei... Essas coisas que a gente compartilha com o namorado, mas na época eu não tinha coragem de mandar mensagem só pra falar do tailandês incrível que comi no almoço de segunda enquanto eu não olhava na sua cara há meses... Edward, você tá chorando?

– Porra. – ele secou os olhos com o moletom, sem desgrudar do pendrive.

– Isso quer dizer que gostou do presente?

– Essa é a coisa mais bonita que alguém já fez pra mim, Bella.

– Jura? Porque eu literalmente professei meu amor por você na frente de milhões de pessoas. Isso é só um pendrive.

– Ok, a segunda coisa mais bonita. Mas isso é… Você pensou nisso por meses, pode ser só um pendrive, mas mostra minha importância na sua vida. É como se eu tivesse feito parte dos seus dias mesmo estando longe.

Bella segurou a mão que ele ofereceu para, timidamente, abrir seu coração, afagando com os dedos.

– Ainda não sei se foi bom ou ruim, só sei que… Foi. Você esteve no meu cotidiano por anos. Era difícil me livrar de uma presença tão forte de repente, sabe? Tanta coisa me fazia lembrar você… – ela beijou sua mão.

– Eu sei, também me senti assim.

– Então eu tinha que dar um destino à isso, colocar pra fora de alguma maneira. De certa forma, me ajudou.

– É o presente perfeito. Você é perfeita, e eu sou um filho da mãe sortudo. Te amo. – ele se inclinou, mirando sua boca para beijá-la, segurando seu rosto.

– Também te amo. E eu não sou perfeita, mas bem que queria ser. – ela riu em seus lábios, antes de ele recuar para entregar seu pacote.

– Agora, faça o favor de abrir seu presente logo, porque em cinco minutos eu quero estar te beijando todinha na cama, mulher.

– Podemos guardar os beijos pra amanhã? Estou tão cansada. – Bella fez um dengo, já abrindo o embrulho pesado.

O que se revelou foram dois cadernos: um escrito "Planner" em dourado numa capa preta, e o outro, o mais gordinho de páginas, de capa de couro rosa-claro com um fecho, sem descrição, que tinha até um compartimento para colocar caneta.

– Dois presentes. Você disse que só tinha um!

– São dois da mesma coisa, vai... Fui eu que fiz. Tudo.

Bella o olhou de queixo caído.

– Para. Você fez mesmo?! Tá brincando, né?

– É sério. Sofri horas e horas em blogs e youtubers de "faça você mesmo". Descobri que existe toda uma seita de planejadores insanos. Achei que você fosse a única.

– Ah vai tomar banho, Edward! – ela o xingou rindo enquanto abria o planner. Folheou as páginas impressas de organização de tarefas em branco, tão excitada já com a perspectiva de preenchê-las. – Ficou lindo demais. Obrigada, eu amei muito, muito. São os melhores presentes pra mim, os que eu vou usar bastante. Não dá pra acreditar, como você fez tudo isso em menos de uma semana?

– Onde você acha que eu estava esses dias todos enquanto você organizava as coisas do nosso Natal? Acho que devo pedir desculpas?

– Não precisa se desculpar, está mais do que justificado.

Abriu o outro caderno, e logo algumas fotos escorregaram em seu colo.

– Esse é pra você usar como quiser. Não sei se você tem algo como um diário, mas gosto da ideia de ter um lugar pra guardar memórias. Tem uma dedicatória atrás. Ah, e eu fiz esse do zero também.

Bella sacudiu a cabeça, boba, encantada com seus presentes especiais. Sorriu ao observar as imagens que tinham tirado na Grécia, e Edward acompanhou o sorriso, seu peito inflado por vê-la tão feliz.

Viram juntos a foto de quando ele a pegou desprevenida, no primeiro dia antes de saírem de moto; Bella na Acrópole, o sol iluminando seus cabelos ao vento, e mais quatro dela, sozinha, em pontos turísticos que visitaram; A selfie do casal, quando saltaram do ônibus só para isso, tinha ficado linda.

E, a última, ela teve que rir, era a foto que havia tirado de Edward deitado na cama no hotel, após a primeira noite juntos. Verdadeiro garoto propaganda de uma cueca que nem existia ali. Quase um pornô, mas tinha ficado linda.

– Por mim, você pode fazer um pôster dessa aí e botar na sala. Eu realmente fiquei muito gostoso.

– Hm. Até parece que eu vou dividir meu macho gostoso com o mundo todo.

– Nossa…

– Quê?

– Eu sei que é errado, mas caralho, me deu o maior tesão agora te ouvir falando assim. – ele tentou agarrá-la pela cintura, atacando seu pescoço com beijinhos. – Fala mais.

Bella riu da besteirada e das cócegas que sentiu, até desistir de lutar e deixar tudo em cima da mesinha de centro, tirando do caminho para poder deitar por cima dele no sofá. Quando o beijou de verdade, a nova boina foi parar no chão, suas mãos fazendo um cafuné nos cabelos despenteados dele.

Era para ser inocente, um agradecimento. Porém a língua de Edward estava provocante demais para o gosto dela, e logo sentiu as mãos bobas puxando sua bunda sob o pijama de moletom, a ereção discreta cutucando seu centro.

A sensação era maravilhosa, mas ela não tinha ânimo o suficiente para prosseguir agora. Se apoiou no peito dele.

– Chega, a gente tem que dormir, e hoje não abro mão. Amanhã vai ser puxado.

– Por favor, só uma rapidinha. A gente não transa desde segunda. – ele subiu o nariz para fungar o pescoço dela, arrepiando tudo por ali. – Saudades do seu corpo…

– O que são sete dias pra quem ficou dez meses sem?

– Até um dia é demais pra mim, Bella.

– Jura?

– Não deu pra reparar nesses anos todos?

– Nossa. Deus me livre, esses hormônios masculinos. – ela se sentou sobre as pernas dele, ajeitando o cabelo. As mãos continuaram vagando por suas coxas.

– Até parece que você não iria querer todo dia se tivesse oportunidade, se não tivesse que trabalhar e dormir cedo.

– Dúvido. Algumas mulheres tem dias no ciclo menstrual que a última coisa que a gente quer é sexo. Estou passando por eles. E imagina foder todo dia com você? Tenho dó da minha vagina.

Sem aviso, Edward irrompeu em uma risada bufada, parecendo mais um carburador furado. Bella franziu a cara.

– Que é, hein?

– Você falou vagina.

– Você tem doze anos, idiota? – Rolando os olhos, ela levantou do colo dele, catando suas coisas para subir. – Ok, quer saber? Aumenta a conta agora pra catorze dias.

– Nem brinca com isso, Isabella.

– Sem brincadeira. Agora só ano que vem.

Edward, todo arregalado, desligou a playlist e foi atrás dela pela escada, carregando seus presentes.

– Você tá falando sério?

– Claro que sim. Duas semanas sem sexo! E se chorar, aumento pra três.

– Só porque eu ri da sua vagina?

– Palhaço! A conta vai ser exponencial agora!

– Não, Bella, espera, volta aqui, me explica isso direito. Eu nem sei o que é exponencial!

Bella estava blefando, claro, mas ver o desespero do homem era muito mais divertido. E assim foram, se implicando e se amando, enquanto escovavam os dentes, e até adormecer.


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