Disclaimer: Twilight é da Stephenie Meyer. Eu apenas faço seus personagens terem desentendimentos bobos e sofrerem por antecipação.

Obrigada a Dandara por betar e surtar com o capítulo.

Perdão pela demora! Mas eu prometo que vai valer a pena. Eu amei escrever esse capítulo, muita coisa especial nele :) Tradução do título: "A Casa de Campo Edwardiana"

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Capítulo 13: The Edwardian Country House

– Bella. Você quer ser minha namorada de novo?

Ele viu a morena recolher suas mãos das dele para colocá-las no rosto. Seus ombros sacudiam, ela emitia um som difícil de ser identificado como choro ou risada. Sentiu o coração apertar e a barriga gelar.

– Que foi? – Indagou apreensivo, pois agora ela também balançava a cabeça. – Porra, se não quiser, fala logo, só não me deixa nessa humilhação aqui.

Bella enfim deixou as mãos caírem para revelar que, sim, ela estava chorando e rindo ao mesmo tempo.

– Eu só estou achando graça de como minha vida virou um livro de romance adolescente, você me pedindo pra namorar num bilhetinho.

– Ah. Desculpa?

– Não! Não é isso, foi perfeito! Eu tô me sentindo com quinze anos, você acabou de realizar todos os meus sonhos de uma nerd viciada em romances bobinhos.

– Então você aceita, é isso?

– Claro que aceito, poxa, como posso recusar depois dessa demonstração de amor tão linda e fofinha? – Ela lançou-se nos braços dele, enchendo seu rosto de beijinhos, até chegar na boca. – Te amo muito.

– Te amo mais. – respondeu, apertando-a num longo abraço, que durou até Bella passar a mão nas costas dele e sentir a pele nos dedos.

– Que isso, sua camisa rasgou?

– Ah, só um pouquinho. – ele deu de ombros, porém a moça já estava virando-o e checando que havia um rombo vertical no meio das costas.

– Cruzes, tá horrível! Vai consertar isso, garoto.

– Eu vou colocar um blazer, relaxa. Ia consertar na hora que peguei seus brownies. Aliás, como fez tudo aquilo enquanto viajava?

– Tenho meus contatos, estava planejando isso há dias. Você entregou pros meninos?

– Sim, peguei o meu e mandei distribuírem pelo camarim enquanto escrevia sua carta correndo, ninguém entendeu nada.

– Você é doido! – Ela riu, ainda meio incrédula e Edward puxou para um último beijo.

– Ok, agora tenho que ir mesmo. Tenho uma turma pra botar em cena e não quero perder meu emprego.

Edward e ela entraram correndo no auditório. O último sinal tocou cinco minutos depois, a plateia fez silêncio para começar.

– Eu tô namorando. – Bella sussurrou para Alice ao seu lado, que arquejou, arregalando os olhos na escuridão. – De novo. Pra valer agora.

– Quê?! Mentira? Finalmente!

– Ele acabou de pedir. Foi super fofo, depois te falo.

– Deve ter sido mesmo, pra você estar usando super como advérbio.

– Ah, não, até você? Me deixa em paz! – A professora riu cotovelando seu braço levemente, bem quando as primeiras notas soaram no piano que Edward tocava ao pé do palco no lado esquerdo. Bella deixou-se flutuar pela música e pela felicidade.

Seu espírito estava tão elevado, que só lembrou de começar a chamada de vídeo com a família de Edward quinze minutos após o início. Foi o namorado que pediu – sua mãe, irmã e tio haviam insistido lá de Chicago. E ela tinha se preparado, como sempre, até trouxe um tripé onde botou o celular.

A peça foi emocionante, muito bem ensaiada, o coral era afinado e alguns talentos se destacavam. Todos ficaram impressionados como as músicas e as culturas diferentes de cada aluno refugiado se mesclaram tão bem.

Bella, em particular, achou encantador como, mesmo tendo sido escrita em conjunto com o grupo, muitas coisas eram a cara de Edward. Desde a escolha de músicas, ao enredo, até algumas falas. Sorria sozinha sempre que ouvia uma expressão do tipo "dar com os burros n'água" ou qualquer frase pitoresca que poderia sair da boca de um idoso na fila do pão. Era o jeitinho Edward Cullen de ser.

No final, o aplauso foi de pé, ovacionando os adolescentes e o professor, que se juntaram no palco em reverência. Quando ele pegou o microfone para agradecer a presença de todos, Bella só faltou se desmanchar no chão vendo aqueles lindos olhos brilhando em seu rosto iluminado pelos holofotes.

– ...Por último, e não menos importante, também agradeço aos meus, minha família que tá vendo pelo celular, minha preciosa namorada e meus amigos que vieram nos prestigiar. – Ele apontou para o pessoal que ocupava quase toda a fila D e, logicamente, vários olhares se voltaram para lá. Bella sorria tanto, chegava a doer a face. – A morena de cachecol azul é minha namorada, aceitou meu pedido hoje, acreditam? Logo no Dia dos Namorados!

Edward! – Ela protestou ouvindo palmas, e quis se esconder quando ouviu uma criança berrando: "Mamãe, é a moça do vídeo!".

– É, ela mesma. – Edward confirmou. – Estava me enrolando há dois meses, essa bandida!

Risadas da plateia vieram misturadas com um "awwn", e Bella não tinha onde enfiar a cara, mas mesmo assim não conseguia parar de sorrir.

Edward demorou um pouco para sair do teatro, mas antes de partirem para a comemoração num pub perto dali, sua família ligou novamente para cumprimentá-lo. É claro que, antes de qualquer coisa, eles quiseram comentar sobre a maior novidade da noite.

Oi, filho. Que história é essa de pedido de namoro? – Elizabeth inquiriu ao lado de Bree e seu cunhado Earnest na sala de casa. – Vocês finalmente reataram? Eu sempre sou a última a saber, poxa vida.

Ai, mãe, tava na cara desde aquele mico no aeroporto, nem precisava contar. – Bree debochou.

Espera aí, eles tinham terminado?! – Perguntou seu tio, por fora como sempre. – Edward e Bella vocês terminaram?

Caralho, tio, em que mundo você vive?

Olha a boca, garota, sua prima tá jogando na sala. – Elizabeth repreendeu Bree, mesmo ela já tendo vinte e sete anos.

Ela tá estourando os miolos de pessoas virtuais, você tá preocupada com um simples caralho?

Tá vendo como ela me trata, Edward? Desde que saiu de casa tá assim, mal criada.

O rapaz revirou os olhos do outro lado do celular, embora sorrisse sem esforço. Sentia saudades dessa bagunça toda.

– Para de responder a mamãe, Brianna. – falou, tentando mudar de assunto pois já estava seco por uma cerveja. – Então, o que acharam? Da peça e tal, caso tenham esquecido que ligaram pra isso.

Olha, vai me doer muito dizer isso, mas... Bom pra car– amba, hein. – sua irmã quase xingou de novo. – A ideia foi ótima. Com uns milhões a mais daria pra um Off-Broadway.

Sim, porra, eu adorei, cara! Foi sensacional. – Tio Ernie respondeu caprichando na empolgação, e Bree bufou uma risada para a câmera.

Ele dormiu no final.

Bocuda do cacete. Acordei cedo pra trabalhar, tenho culpa? Mas o que eu vi, gostei.

Foi lindo, filho. – Elizabeth interveio. – Nossa, quanta delicadeza, que primor. Essa garotada é muito talentosa. Como eu queria estar aí pra ver. Estou tão orgulhosa de você.

– Obrigado, mãe. – seu sorriso estava impossivelmente grande. – Obrigado, pessoal.

Quando viu o olhinho dele brilhando com lágrimas que ameaçavam cair, Bella o abraçou por trás, colocando o queixo em seu ombro, aparecendo para a família. Edward aproveitou o conforto do abraço, enquanto o pessoal cumprimentava-se empolgadamente – os Masen-Cullen realmente adoravam Bella.

O rapaz vivia tão bem quando não pensava em sua família, mas em alguns momentos era impossível não sentir saudades. Sempre foram unidos, e por sua vida e história, eles haviam formado laços muito fortes, inquebráveis mesmo pela distância. Mas ele sabia o quanto sofreram com sua decisão de sair da América, o dia da partida foi duro.

Despediram-se prometendo que se veriam pessoalmente ainda esse ano, dentro de alguns meses. Era só o que podiam fazer para afastar a saudade agora.

Quando os mais novos namorados chegaram ao apartamento de Edward, horas depois, um pouco bêbados de cerveja comemorativa e de alegria contagiante, ele puxou sua agora nova-antiga-namorada pela mão até caírem no pequeno sofá de dois lugares. O rapaz pôde, enfim, fazer o que queria a noite toda.

Beijaram-se por incontáveis e deliciosos minutos como adolescentes, trocando carinhos inocentes e meigos que faziam ambos desejarem a infinitude do momento. Como nos velhos tempos. Esse sofá tinha história em cada partícula de poeira acumulada que irritava a rinite de Bella, mas agora ela nem queria saber.

– Tô tão feliz. – a morena suspirou quando foram pegar fôlego. Edward sorriu, encostando a testa da dela, sentindo seu peso no colo.

– E eu? Finalmente assumido de verdade, não aguentava mais ser namorado-de-testes.

– Que bobagem eu inventei. – ela riu. – Sou muito ridícula, né?

– Nah. Acho que foi um tempo bom que a gente precisava mesmo. Foi um bom test-drive.

– Tô feliz por você, também. Pelo seu sucesso.

– Eu sei. Sua carta deixou bem claro. – sorriu.

– Gostou?

– Se gostei? Vou guardar pra sempre, quem sabe até emoldurar. – ele fez Bella rir de seu entusiasmo. Mas o bichinho do medo aproveitou o momento para se infiltrar, visivelmente embaralhando o humor da moça. – Que foi?

– Ah. Deu até um frio na barriga. A gente estava numa lua de mel, mas agora é pra valer, né…

– Ainda com dúvidas?

– É só o mesmo de sempre. Medo de repetir erros do passado. Meus e seus.

Edward ficou calado por um instante vasculhando na mente uma forma de confortá-la, como fazer aqueles medos irem embora. Começou a dizer com toda seriedade:

– Você quer fazer algumas regras? Se for te deixar mais segura…

Bella soltou uma curta gargalhada.

– Você dando corda às minhas doideiras é muito fofo e eu agradeço Mas não precisa. Um relacionamento não pode ser baseado em regras, ninguém é dono da razão, já aprendi isso. As coisas devem ser maleáveis, deve haver acordos, entendimento, renúncias.

– Aw, tão madura. Orgulho do Ed. – ele apertou a bochecha dela de implicância, tirando-lhe uma careta. – Mas então, me diz, quais seriam os meus erros e quais seriam os seus, exatamente?

– Quer mesmo uma D.R. agora? – Bella sorriu de nervoso.

– É uma hora tão boa quanto qualquer outra. Não quero recomeçar um namoro trazendo bagagem antiga.

– Justo.

– E aí? Se quiser falar….

– Os seus erros passados você já sabe, né?

– Me recorde.

Bella o encarou, o rosto mostrando seu desconforto, pois ele não parecia que iria desistir tão fácil. Mas devia agradecer, mesmo. Falar abertamente e em voz alta sobre um problema sempre lhe ajudava.

– Bom. Acho que é… era aquela falta de compromisso em algumas coisas da vida cotidiana. A falta de me escutar de verdade em algumas situações em que estou certa, me levando mais a sério...

– Você sabe que eu tenho tentado melhorar tudo isso a cada dia, não sabe?

– Eu sei, dá pra sentir. E eu também tenho tentado. Eu não teria aceitado seu pedido de namoro se tudo tivesse continuado igual a um ano atrás.

– E sobre os seus erros do passado?

– Nossa, são tantos, nem sei por onde dizer.

– Já dá pra fazer uma lista, então.

– Uma lista? – Seus olhos até brilharam com a possibilidade, fazendo Edward rir.

– Calma, eu tava brincando. Juro que você tem mais tesão em listas do que em mim, credo. – ele continuou rindo, e Bella agradeceu aos céus por ele ser tão bobo e fazê-la descontrair um pouco nesse momento.

– Ai, Edward… – suspirou, deixando sair de sua boca aquilo que a mente transbordava. – Eu tenho tanto medo de exigir mais do que você pode dar, ser injusta… Tenho medo de continuar impaciente demais e perfeccionista. Medo de ficar colocando todos os meus problemas na frente dos seus, ser uma egoísta filha da puta. E também medo de cair na armadilha de fazer joguinhos mentais quando não sei lidar com alguma emoção, como fiz lá na Grécia. Enfim. Eu sei como sou complicada de conviver.

– Cara, quando você fala assim de você mesma me dá uma agonia.

– Por quê? – Ela sorriu tristonha, fechando os olhos por um momento quando ele acariciou sua bochecha com o dedão.

– Porque eu sei como você fica estressada com essas coisas, tudo socado aí dentro, como isso te dói. E o que dói em você, dói em mim. Às vezes acho que você se pune demais.

– Pode ser. Mas tudo o que eu disse não deixa de ser a realidade.

– É, mas não é tão grave quanto você faz parecer. Acredite quando te digo, você não é a pior pessoa do mundo, nem de longe a mais complicada. Aliás, não está nem no top dez pessoas mais difíceis de lidar que eu conheço.

– Claro, porque estou no décimo primeiro lugar.

– Talvez. – ele brincou, novamente, só para vê-la rindo, e Bella o fez enquanto fungava. Havia lágrima no seu sorriso. – Se você for chorar, a gente para por aqui…

– Não, tudo bem. Só fiquei emocionada. Te agradeço por me falar essas coisas, de verdade. Às vezes eu preciso ouvir, é tão bom, você nem tem ideia.

– Por quê?

Seus olhos desviaram, ela brincava com o botão da camisa dele, já toda desalinhada – e ainda rasgada nas costas. Respirou para tomar coragem de confessar um pouco do seu íntimo.

– Eu sempre achei meio difícil de me sentir compreendida de verdade pelas outras pessoas, acho que funcionam de um jeito tão diferente do meu. E tudo bem, isso é ótimo, sei que não sou nenhum ser celestial especial. Mas é que… às vezes me sinto meio solitária em alguns comportamentos. Tão errada. – sua voz quebrou-se um pouco no final.

Edward buscava seus olhos, mas eles não conseguiam focar. Respeitou.

– Você odeia muito errar.

– Odeio, e principalmente odeio estar errada. E eu sei que projeto esse sentimento nas minhas relações com os outros também. Não deveria.

– Vou dizer o maior clichê aqui, mas, Bella, só erra quem tá vivo, quem tenta. Aproveite os seus erros. Foi por causa de um erro do destino que nos reencontramos, e isso é lindo pra caralho. Errar é se encontrar.

Ela sorriu.

– Amo você todo filósofo de bar, me dá um certo tesãozinho, sabe.

– Foi assim que eu te conquistei. – ele riu, mas logo voltou a ficar sério. – Eu espero que chegue o dia que você não precise de nenhuma validação externa pra se enxergar como é, mas por enquanto, acredite em mim quando digo que não há nada de errado nos seus defeitos. Pelo menos nada fora do extraordinário.

Naquele instante, Bella sentiu vontade de agarrá-lo num abraço de pernas e braços, grudar e nunca mais soltar. Ainda se espantava com a sorte que tinha de ter essa pessoa na vida, desse encontro que preenchia sua alma e fazia crescer. Era mesmo lindo, como ele disse.

– Obrigada… – agradeceu, a voz saindo constrita. Seu peito apertava de ternura e gratidão, mal conseguia respirar. – Por me enxergar de verdade.

– Você faz o mesmo por mim.

– Você é bem transparente, não tem como escapar.

– É, mas tem umas coisas que só você vê. Minhas inseguranças, minhas tristezas… Tento esconder, mas só você sente.

– Legal. Gosto de exclusividade.

– E pra fechar o assunto da D.R., eu só espero que sempre que algo estiver te incomodando, você me fale. Isso serve pra nós dois. Sem guardar rancor, sem orgulho e joguinhos de quem vai quebrar o silêncio primeiro. Não quero esperar até virar uma bola de neve.

– Eu sei. Concordo.

– Por falar em joguinhos… Pode deixá-los pra trás mesmo. A não ser que sejam joguinhos de sedução, porque esses me dão um tesão do caralho. – ele apertou a coxa dela para pontuar. – Mas os joguinhos emocionais, esquece.

– É um pouco difícil perceber quando estou fazendo. É tudo tão difícil, que saco!

– Ninguém disse que seria fácil, já dizia o poeta Chris Martin. – ele riu. – Agora… Eu só quero te ver feliz e isso significa que você precisa relaxar, descontrair, parar de se cobrar tanto e cobrar do mundo. Você sabe disso, não sabe?

– Sei. – seu peito inflou buscando expulsar o ar e todo aquele doloroso peso de dentro dele. – O que eu mais quero agora é focar no presente e parar de querer controlar tudo o tempo todo.

– Isso. A sua vida, a minha vida, a nossa. Isso também influencia os seus ciúmes e toda essa coisa de ficar insegura com a nossa relação. – ele disse suavemente.

– Tenho me esforçado muito. Cada dia é um mini-ataque de ansiedade pra não deixar a vontade de controlar tudo e fazer tudo do meu jeito tomar conta. É difícil desaprender algumas coisas. Mas você precisa me ajudar, também.

– Como?

– Preciso que você tome mais a frente das coisas na nossa vida prática, tome mais atitudes sozinho. Isso também vai me ajudar a não ser controladora, me alivia essa pressão de ter que pensar em tudo, sabe.

– Tipo o que rolou na sua cozinha no Natal? – Indagou, referindo-se ao pequeno desentendimento de quando ele esqueceu que deveria ajudá-la.

– Exatamente.

– Ok. É justo. – assentiu, esticando a mão para pegar a dela. Enquanto brincava com os dedos e anéis, uma vontade de chorar o pegou de surpresa, mas ele apenas respirou fundo. – Hoje é uma data muito significativa, lembra?

– Ih, verdade, hoje é Dia dos Namorados.

– Também, mas fora isso… Um ano atrás foi quando tudo mudou pra gente.

Bella sentiu o incômodo abraçando seu corpo.

Fantasmas de palavras feias, mágoas e gritos ecoavam nessas mesmas paredes do pequeno flat de Hounslow, quando seu mundo acabou por um dia. Ele chorando na cama, ela arrumando as coisas na madrugada para sair correndo dali como criminosa.

– Parece que foi há um século. – comentou, distante. – Claro que lembro. Infelizmente.

– Mas eu gosto daquele ditado cafona "há males que vem para o bem". Estamos tão diferentes hoje, tão melhores.

– E mais fortes, né? – Sorriu, erguendo o punho fechado no ar para que ele batesse, como quem dizia "conseguimos, parceiro!".

– Com certeza. Por isso, acho que hoje foi tão especial, fechamos um ciclo e começamos outro.

– Gostei. Sem querer, criamos uma nova memória pra essa data. Feliz Dia dos Namorados, aliás.

– Pra você também... Pena que não comprei nada, eu estava mesmo levando a sério nosso não-compromisso. Desculpa.

– Tudo bem, eu também não comprei nada pra você. – ela riu mostrando a língua. – Mas, que tal se a gente comprasse logo nossas passagens pra julho?

Bella havia combinado com a faculdade e com Esme, quando aceitou ampliar o Projeto; Um mês entre o final de julho e o final de agosto para poder viajar aos Estados Unidos e ver a família. A única condição seria fazer quatro paradas para palestras.

– Mas já? Fevereiro ainda.

– Quanto antes, melhor. Se você quer me dar um presente hoje, pode me dar a possibilidade de planejar essa viagem logo, eu não vejo a hora.

– Sua parte preferida, né? – O rapaz riu.

– Óbvio. Vai lá abrindo seu computador enquanto eu tomo banho, esse sofá tá atacando minha alergia já. – ela se ergueu coçando o nariz e pescoço, indo mexer na mochila. – Preciso trocar de roupa urgentemente.

– Deixa meu sofá em paz, porra? Aliás, foi você quem escolheu na loja.

– E a culpa é minha que esse flat é mestre em juntar poeira e mofo?

– Não, e nem minha.

– Não falei que era sua, a culpa é do proprietário mão de vaca que não troca o encanamento desde 1900 e não bota uma ventilação boa aqui. – ela ia se despindo enquanto falava, até entrar no chuveiro, a porta do banheiro aberta. O olhar do rapaz acompanhava, o box era ridiculamente perto da sala. – Edward?

– Hm.

– Pega lá o computador, por favor.

– Ah. É. Foi mal.

Bella apenas deu uma risadinha sacudindo a cabeça, embora não tivesse moral nenhuma. Algumas vezes ainda ficava meio abobada também quando ele simplesmente saía pelado por sua casa. A intimidade podia ser incrivelmente erótica, às vezes.

– Ok. – falou ele com o laptop aberto, alto o bastante para a namorada ouvir sob o chuveiro. – O que eu faço?

– Abre o Google… Então, a gente vai mesmo fazer a viagem de carro pela Califórnia?

– Com certeza.

– Tem a grana que você deve ganhar do processo.

– Ah, é verdade. Gênio! Não, mas espera... E se demorar pra cair na minha conta? Se bem que eu tenho umas reservas, dá pra quebrar um galho. Meu Deusinho, por favor, eu tenho que ganhar de primeira, seria minha viagem dos sonhos. – De repente, a imaginação de Bella disparou e ela começou a tagarelar sem respirar. – Vamos ver no Google Maps e planejar logo os pontos por onde vamos passar? Sempre quis visitar os parques naturais, fazer trilha, yoga no topo da montanha. Eu tô até arrepiada só de pensar, olha.

Edward não enxergava nada, obviamente, e apenas ficou lá, achando graça da empolgação súbita da mulher, porque era difícil acompanhá-la nessas horas.

Mesmo depois dos banhos de ambos, e depois de deitarem na cama fresquinha, eles passaram o restante do Dia dos Namorados de 2019 planejando aquele sonho em conjunto. Mal podiam esperar por julho.

xxxx

Em março, aconteceria a primeira viagem de avião de Bella completamente sozinha após o incidente na Grécia.

Se já havia sido um parto viajar naquela volta em dezembro, sabendo que Edward estava no mesmo voo, dessa vez, ela precisou recorrer de verdade à ajuda médica.

– Você tá bem mesmo, amiga? Não estou gostando dessa palidez. – Alice acompanhava-lhe no aeroporto, esperavam juntas o chamado de embarque. Calharam de viajar no mesmo dia e horário, ela com sua companhia de Dança para Portugal, e Bella com o Projeto para a Espanha.

– Estou bem. Quer dizer. Não. Mas vou ficar.

– Tem certeza? Fico preocupada com você. Ainda mais indo sozinha… – ela apertou e alisou seu ombro carinhosamente. Bella sorriu.

– Obrigada, de verdade. Mas acho que vou ficar bem mesmo. Já tem um mês que comecei o tratamento pra fobia, estou na quarta sessão, eles disseram que já devo sentir alguma melhora. Em todo caso, me receitaram um calmante forte se eu ficar muito mal.

– Era isso que você tava tomando agora pouco, né?

– Era. – Bella riu, sem conseguir esconder nada da amiga. – Já estou munida também com um fone de ouvido imenso que Edward me deu, não vaza nenhum som exterior, e tenho uns áudios de natureza pra me concentrar na decolagem. Espero passar ilesa.

– Tomara. E como ele tá?

– Edward? Bem. Trabalhando muito.

– Não nos vemos desde a peça dele, mais de um mês.

– Pois é, vocês artistas trabalham até nas folgas. Nunca vi disso.

Alice riu, – Temos que aproveitar a carreira enquanto jovens. O que ele anda fazendo?

– Querem levar a peça dos meninos pra uma temporada fora da cidade. Agora ele deu pra ficar todo dia depois das aulas ensaiando os protagonistas. Edward está virando algo que nunca pensei: um belo perfeccionistazinho.

– Lógico, aprendeu com a Mestra. – ela brincou, fazendo Bella rir.

– É bonitinho. Mas estou feliz por ele, muito mesmo. Eu só sinto muitas saudades, às vezes, sabe?

– Era diferente quando vocês moravam juntos, eu sei como é.

– Pois é. Namoramos por três anos praticamente estando juntos todo dia. É bom ter espaço pessoal e tempo livre sozinhos, mas ainda estamos tentando encontrar uma rotina boa. Está sendo uma redescoberta namorar assim, se vendo com menos frequência, e tendo que atravessar a cidade pra ir pra casa dele. O que, aliás, às vezes é um saco...

– Você realmente detesta aquele apartamento desde que morava lá, né? – Alice falou, e Bella fez uma careta ouvindo a verdade jogada na cara desse jeito. Queria tanto que fosse diferente.

– Eu sei que já impliquei muito, talvez eu esteja sendo chata à toa, porque Edward realmente deu uma melhorada no espaço quando eu saí. Está bem mais organizado e agradável, ele pintou, até trocou o aquecedor. Mas ainda é tão…

– Escuro e mofado?

– Eu ia dizer que é longe e pequeno, mas pode ser também. – ela bufou uma risada e respirou fundo. – Tudo bem, eu sei que minha casa também é longe pra ele. Estamos quites e fazendo esforços um pelo outro, mas ainda assim, é cansativo.

– Tudo se ajeita, minha amiga. Aproveita esse período. Quando estou na temporada de viagens é sempre uma loucura tentar ver Jasper. Mas quando nos encontramos, cruzes… A saudade é um Viagra natural.

– Alice! – Bella soltou uma gargalhada tão gostosa, que quase esqueceu que logo estaria numa lata voadora partindo para a Espanha. Seu celular soou com uma mensagem. – Ah, é ele.

[Edward]

não posso falar agora pq to dando aula
mas vá tranquila. relaxa, respira, medita

lembra da terapia

vai dar tudo certo e eu vou estar te esperando no aeroporto quando voltar, com a boina verde que vc me deu e a camisa preta que vc disse que me deixa um gostoso do cacete (suas palavras)

te amo, boa viagem

Em cinco minutos, seu voo foi chamado e ela despedia-se de Alice e dos bailarinos para entrar no avião.

Apesar de tanto pavor, seguiu todo o ritual certinho: fez-se confortável, meditou, botou seu travesseiro de lavanda, os fones e fechou os olhos. O coração queria competir voo com aquele avião e seus dedos quase rasgaram a poltrona tamanha força.

Não foi nada fácil, nem a ida nem a volta, ela odiou cada segundo. Mas além do tratamento psicológico que começava a dar resultados, as palavras de Edward e o pensamento de que ele estaria lhe esperando amenizavam um pouco o sofrimento.

Enquanto março avançava, novidades iam surgindo.

Edward havia começado um curso de texto teatral para se aprofundar mais na área, e conseguiu um contato quente com um produtor da Broadway londrina no mesmo dia que ele e Bella foram prestigiar, finalmente, a montagem de Mamma Mia!

– Eu falei que você ia gostar! – Bella estava radiante quando saíram da plateia para andar até o metrô que pararia em frente ao pub favorito deles.

– Sim. Tenho que admitir, adorei. Acho que é até melhor que o filme.

– Aí já não sei, porque o filme é perfeito pra mim, e tem o Colin Firth, né. Mas não dá vontade de sair cantando Abba pelas ruas?

– Pelas ruas de Londres, eu não sei, mas pela Grécia, com certeza…

– Ai, que saudades daquele lugar.

– Nem me fale.

– Quando será que a gente volta, hein? Queria tanto ir no verão. Mas agora só no próximo ano.

– Seria foda, mas deve ser tão caro. Teria que ser uma viagem na pindaíba.

– A gente economiza bem antes de ir. Espera. – Bella parou de andar, fechando os olhos, deixando a cabeça cair para trás e os braços meio abertos. – Nossa.

– Que foi? – Ele parou também, preocupado, embora os pedestres da movimentada rua passassem por eles sem dar bola. A morena parecia tão distante dali, entregue.

– Do nada veio uma memória sensorial. Se eu fechar os olhos, consigo sentir o ventinho e o cheiro da maresia, das plantas, até ouço o mar. E aquele solzão lindo, as cores, os contrastes, o cheirinho das comidas na hora do almoço…

Edward não aguentou a fofura e a agarrou pela cintura. O pescoço à mostra convidava para um beijo que logo foi roubado, enquanto ele ria da sonhadora em seus braços.

– As comidas eram mesmo surrealmente maravilhosas.

– Caramba, deve ter algum restaurante grego por aqui, não é possível, juro que estou sentindo... Vai, fecha o olho, você vai sentir também. – ela permanecia na mesma posição. – Tudo isso na Grécia já é de graça, poxa, não precisamos de luxo.

– Ah, mas eu quero te levar lá de volta como você merece… Já pensou casar naquela paisagem?

A cabeça de Bella voltou-se para ele, quase ficou tonta ao despencar de seu devaneio do alto das nuvens gregas. Suas mãos o agarraram pelos ombros, sorria confusa.

– Casar?

– Eu disse casar? Quis dizer dançar. – Seu sorriso era travesso, mas sem um pingo de vergonha, mesmo tendo sido pego deixando escapar aquilo que preenchia sua cabeça.

– Ok, acho melhor planejarmos só uma viagem simples primeiro, porque isso sim seria uma fortuna.

– Mas dançar na Grécia é de graça, fazem toda hora em Mamma Mia!

– Espertinho.

– Vem, deixa eu te contar sobre o produtor que é meu professor no curso e adorou minha peça, fomos tomar uma depois da aula. – ele entrelaçou o antebraço dela no dele, e foram andando como duas comadres fofoqueiras pela calçada. – Quem sabe ele me chama pra trabalhar e eu ganho um bom cachê até ano que vem?

– Você já fez contatos no curso que começou semana passada? Nossa, invejo tanto essa facilidade.

– Desculpa se sou muito legal e sei fazer amigos?

– E também é convencido pra caralho, né.

– Não fica triste, amor. O importante é que você tem saúde.

– Idiota! – Bella riu empurrando o namorado para longe.

– Assume que você ama meu ego imenso, assume. – ele zombou, abraçando-a de volta. Ambos aqui sabiam muito bem que egocentrismo estava longe de ser um defeito seu.

– Mas é claro que eu amo seu imenso, grosso e pesado ego. – ela tentou fazer uma voz sedutora e foi traída pelas risadas. – Eu acho que a Beyoncé tem uma música dessa pro marido dela. Tá me olhando assim por quê?

– Não fazia ideia que você sabia sobre Beyoncé, muito menos sobre o imenso ego do marido dela.

Bella soltou uma gargalhada que ecoou na noite com o jeito que ele falou e sua careta de estranheza.

– Eu morei com Alice e Angela por uns anos, esqueceu? Era Deus no céu e Beyoncé na Terra naquela casa.

– Por falar em casa… Vamos dormir onde hoje?

– Ué, na minha.

– Vamos pra minha, eu fiz a primeira torta de cereja da minha vida ontem, queria que você provasse.

– Ai, amor… – ela disse com dengo tentando ser delicada. – Que preguicinha de pegar metrô e trem só pra comer torta...

– Eu te levo em casa de carro na volta.

– Não vou te dar esse trabalho todo, tá doido? Vamos lá pra casa, só hoje, semana que vem eu vou, prometo.

– Ok…

Os dias de leveza e felicidade se alternavam com os cinzentos e estressantes. Era assim na vida deles, como era no tempo da cidade; o inverno dava espaço para uma tímida primavera surgir.

Na semana seguinte, Edward descobriu que os dois alunos da classe, irmãos, que estavam faltando muito haviam sido deportados após seus pais terem envolvido-se em crimes, no desespero de meses de desemprego.

Era tão doloroso ver essa realidade de perto. Ver o sofrimento da turma, o medo de que acontecesse o mesmo com eles, e a vida sempre instável de um refugiado mudasse mais uma vez drasticamente do dia para a noite. Ele tentava sempre animá-los nas aulas, um sorriso no rosto, mesmo estando numa fossa grande, ele mesmo. Era desgastante.

Bella foi só preocupação quando o namorado ficou meio sumido por uns três dias, mas tratou de ir buscá-lo no trabalho numa sexta-feira para trancá-lo dentro de sua casa com muito amor, chamegos e comida gostosa.

Ela deixou que Edward chorasse tudo que tinha para, literalmente, chorar no seu colo, ambos revoltados com as injustiças do mundo e as coisas que nenhum deles sabia explicar ou resolver.

Ao mesmo tempo, na segunda-feira após aquele fim de semana, foi com pulos de alegria e champanhe escondido do reitor que Esme, Bella e seus colegas próximos receberam a grande notícia: a Professora Thompson havia sido escolhida como membro-maior do Conselho pelos próximos cinco anos.

– Eu sabia! – Bella a abraçava. – Parabéns!

– Obrigada por tudo, querida. Seu apoio foi fundamental, você tem um pedacinho dessa vitória. – Esme sorria muito. – São novos tempos e eu quero fazer a diferença.

– Você vai.

Depois daquele dia de comemoração, Bella voltou para casa e ficou a noite toda em sua nova atividade favorita: pesquisar nos sites e blogs de viagem os melhores roteiros para uma roadtrip na Califórnia.

Já tinham conseguido comprar as passagens para as três cidades onde precisariam ir de avião: San Diego, Seattle e Chicago. Conseguiram descontos bons, apesar de Edward ter reclamado por ainda assim gastar uma fortuna na classe Econômica Premium. Não tinha jeito, era a única forma de Bella se sentir um pouco melhor.

Para saber se alugariam mesmo uma casa sobre rodas como sempre sonhou, o motorhome, Bella ainda deveria esperar o resultado da audiência do processo contra o Conselho, pois ela e Leah haviam recusado o acordo que eles tentaram propor.

– Você vai vencer. – sua advogada dissera naquela manhã após deixarem a sala de reunião da faculdade. – Escuta e confia.

– Não sei, Leah… Estou com um sentimento estranho na boca do estômago.

– É fome. Vem, vamos tomar o brunch que você me prometeu.

Ela foi carregada pela amiga até estarem sentadas fazendo um lanche delicioso que não foi suficiente para tirar o futuro de seus pensamentos. Sua resposta final só chegaria no fim de maio, e a ansiedade já começava a lhe corroer desde que saiu da sala com os advogados.

Seu estresse crescia tanto a cada dia, que Bella começou a sentir respingar onde mais temia: no seu relacionamento.

Na nova rotina dos namorados, os desafios eram muitos.

Botar em prática todos os acordos verbais e não-verbais que trataram no reinício do relacionamento provou-se ser mais difícil do que pensavam, embora estivessem o tempo todo tentando.

Mas o maior desafio era, de fato, manter a constância de seus encontros. Bella, em meios as viagens, raramente dormia no flat dele, mas pelo menos três dias por semana, Edward estava na casa dela em Camden Town. Já tinha até deixado algumas coisas lá.

Ele não se importava muito, a casa de Camden era perfeita, mas no fundo, também gostaria que Bella se dispusesse a ir mais até Hounslow. Era seu espaço pessoal, afinal, gostava de dividir com ela.

Pelo bem de sua paz e equilíbrio interior, Edward andava varrendo o assunto para debaixo do tapete – o que rapidamente não se sustentou e mostrou-se ser um grande erro.

Oi… Tudo bem, amor?

– Tudo… E aí? Acabei de chegar em casa. A gente vai se ver hoje? – Bella perguntou ao telefone, não pela primeira vez naquela última semana de abril.

No céu, uma tonalidade linda e rara de laranja era trazida pelo sol poente, e ela estava lá fora assistindo, aproveitando para molhar suas plantinhas florescentes após o trabalho.

Ahm… Bar ou cinema? – Era uma sexta-feira à noite. – Tem uma peça que eu tenho convites também...

– Ah, eu queria só ficar em casa mesmo. Fazer uma comidinha, um vinho. Estou meio cansada…

Ufa. Ainda bem, era o que eu tinha em mente também. Vem aqui pra casa, estou no mercadinho chinês aqui perto. O que eu compro?

– Não posso ir pra aí, amor, você sabe.

Não pode ou não quer? – Ele tinha um certo riso na voz, mas Bella conseguiu ouvir o sarcasmo encoberto pelo baixo volume. Aquilo a incomodou como sentar no molhado.

– Como assim? Não entendi. – Tentou fingir para si mesma que não. Sem surpresa, ouviu o ar sendo expirado com força do outro lado.

Esquece, já sei a resposta mesmo...

– Que resposta, Edward? Fala sério.

Já falei pra esquecer, Bella. Também tô meio cansado hoje, deixa.

A moça realmente não queria começar uma discussão agora, mas não conseguiria deixar para lá como ele pedia. Parou de molhar as plantas, e secou as mãos para pegar o celular na mureta, colocando-o na orelha.

– Por que você insinuou que eu não quero ir pra sua casa? – Disse tentando manter a voz neutra. – É brincadeira ou você tá falando sério?

Brincadeira nenhuma. Mas eu também trabalhei feito corno o dia todo e estou exausto, acho melhor a gente conversar amanhã. Eu vou dormir cedo, aí você dorme também.

– É só me dizer, não tô a fim de dormir com isso na cabeça. Poxa, no início do ano você me fez prometer que eu pararia com joguinhos passivo-agressivos e eu parei. Agora é sua vez de retribuir meu esforço. Fala logo o que quis dizer com aquilo, que saco.

Não é nada demais… – sua voz começou meio monótona. – Eu sei que você não gosta muito de dormir no meu apartamento, não gosta de sair daí e vir pra Hounslow. Já estava esperando, você sempre tem uma desculpa pra isso na ponta da língua ultimamente… Foi o que eu quis dizer.

Bella fechou os olhos, chateada consigo mesma por ter sido pega em algo que tentava esconder. Tentou não transparecer nada disso, porém.

– Ok... Mas eu só falei que tenho que ficar aqui hoje porque Heathcliff está doente e eu preciso dar remédio de madrugada, você já sabia disso, eu te falei. Esqueceu?

Sua resposta demorou para vir. Bella ficou nas pontas dos pés ouvindo o som de compras sendo registradas num caixa, sabendo que ele estava usando o tempo para pensar no que dizer.

É… É, eu esqueci.

– Então tá...

Desculpa.

– Tudo bem. – ela falou genuinamente, embora sua consciência começasse a ficar pesada enquanto só pensava que ele tinha razão aqui. Ao mesmo tempo, não queria recomeçar a discussão que poderia se tornar uma briga de verdade, ainda mais por telefone. – A gente se fala melhor amanhã, então?

Tá bom… Tchau.

– Edward?

Hm.

– Te amo, tá?

Também. Boa noite.

Assim que desligou o telefone, aquele arrependimento característico bateu, e Bella subiu as escadinhas para entrar em casa sentindo um bolo se formar na garganta. Ela nem podia imaginar, mas do outro lado da cidade, Edward estava praticamente na mesma situação.

Era quase ridículo, quanto mais ela pensava. Seu namorado só queria sua presença e ela não conseguia ao menos fingir que gostava de ir para a casa dele.

Ficou ali terminando sua tarefa com os pensamentos ainda nele, torcendo para que ao menos aquelas lágrimas chatas adubassem a terra. Se ainda morassem juntos, ela estaria agora indo atrás de Edward, mas só poderia fazer isso na atual situação se fosse irresponsável e largasse seu filho felino sozinho e necessitado.

– Boa noite, Isa. – a Sra. Waters, sua vizinha, apareceu no outro lado da mureta com um sorriso e um prato de cookies igualmente calorosos. – Quer? Estão fresquinhos, acabaram de sair. Vi você da cozinha, vim aqui te trazer.

– Oi, Helen. – ela coçou a testa com o antebraço, as mãos sujas de terra. – Obrigada, mas tô sem apetite.

– Andou chorando, menina? O que houve? Não me diga que o coitado do Heathcliff piorou?!

– Não, ele tá melhorando bem. É só qu— De repente, ela teve um estalo. A solução de seu sofrimento talvez estivesse ao alcance de um braço. – Ah, Helen, você poderia fazer um favorzão pra mim?

– Diga. – ela mastigava seu biscoito.

– Eu preciso muito me encontrar com Edward na casa dele pra conversar, mas Heath precisa tomar o remédio da madrugada e eu não consigo deixá-lo sozinho e nem levá-lo, então…

– Que horas e qual dose?

– Ai, obrigada, você é perfeita! – Bella se ergueu sorrindo, desajeitadamente abraçando o pescoço da senhora para deixar um beijo na bochecha.

– Perfeito só o Todo Poderoso. Mas já fui uma jovem apaixonada, sei como é chato ir dormir brigado.

– De verdade, muito obrigada, nem sei como agradecer.

– Vamos repetir nosso chá da tarde com aquele seu bolinho de canela e estamos entendidas.

– Com certeza. Depois de amanhã! – Ela sorriu, e começou a correr antes que ficasse muito tarde para sair sozinha.

Deu as coordenadas da medicação à Helen enquanto mandava uma mensagem à Edward no celular: "Já tá em casa? Ainda acordado?".

A resposta não veio de imediato – o que ela já esperava, é claro, ele devia estar de saco cheio dela por hoje. Então enviou outra minutos depois ao arrumar sua mochila, avisando que estava esperando um Uber para ir até Hounslow.

Novamente, ficou no escuro.

Esperou algum tempo mais, enquanto tentava manter a respiração e o coração tranquilos, além da mente imaginativa quieta. Coisas essas, todas, que ela falhou completamente em fazer.

Isso é só um flashback do aeroporto. Não preciso surtar. Quer dizer, ou preciso? E se dessa vez ele estiver puto de verdade, e não apenas com o celular desligado?

Puta que pariu, mas é claro que Edward tá muito puto comigo de verdade agora, eu fui uma escrota.

Sua cabeça começou a rodar, e o carro de aluguel chegou antes mesmo que ela pudesse trocar de roupa. Nem ligou para isso, tinha ao menos lavado as mãos. Assim que entrou, já estava pronta para fazer a chamada de voz.

– Atende, Edward, porra. – esbravejava, sendo recebida por seus próprios toques de volta. – Dramático do cacete, eu só não aguento mais dormir aí com a rinite atacada, você sabe disso, inferno!

Telefonou mais um par de vezes, e até se xingou quando lembrou que havia convencido Edward a se livrar do telefone fixo em casa. Maldita hora. Não é possível que isso esteja acontecendo de novo. Eu me recuso a crer.

Tarde demais. A exaustão a alcançou, e ela não conseguiu conter as lágrimas que retornaram, embora relutasse, escondendo. Enquanto tentava se acalmar, o motorista tentava entender porque havia uma maluca de moletom rosa bebê chorando no seu banco, xingando sozinha e falando de rinite. Esse povo de Candem era tão esquisito.

Acabou desistindo de ligar conforme cruzava Londres à noite, quase 1 hora no carro. Decidiu, então, digitar uma grande mensagem apelativa, para que ao menos ele abrisse a porta quando ela chegasse lá e não estivesse indo à toa.

[Bella]

Vamos conversar?

Você não tinha que me pedir desculpas, eu é que tinha. Não fui totalmente sincera mais cedo. (E não, hoje não lancei uma desculpa esfarrapada, Heathcliff tá doente mesmo).

Eu sei que tenho evitado ir até sua casa. Claro que eu sei. Você tá certo, tudo que falou é verdade.

Eu devia ter dito logo ao invés de ser evasiva. Você sabe que tem coisas que eu prefiro não dizer. Não quero ser a chata, a reclamona. Não quero criar conflito bobo. Mas com meu silêncio, acabei criando, né?

Ela só parou os dedos frenéticos quando sentiu o carro desacelerando aos poucos, entrando num engarrafamento no túnel que daria na avenida próxima à rua dele.

– Sexta à noite. – comentou o motorista.

– Que droga. – falou e voltou a digitar, o coração na boca.

[Bella]

Me desculpa. Eu prometi quando voltamos a namorar que me comunicaria melhor sobre o que incomoda. Preciso tentar mais.

Você faz tanto esforço por mim, pra me ver, pra estar perto. Eu tenho que fazer mais por você, também.

Ela apertou enviar com o coração pesado, e foi ainda com o mesmo que viu o telefone tocar em sua mão segundos depois, a foto de Edward sorridente de boina, todo lindo e só dela, brilhando na chamada.

Respirou fundo uma vez antes de atender, aproveitando o alívio que sentia chegar em cada poro.

– Ai, finalmente, Edward!

– Boa noite, aqui é o Sargento Gwen da décima divisão. Eu falo com a Srta. Isabella Swan?


N/A: E VAMOS DE GANCHO hehehehe Conta aí qual seu palpite sobre o que rolou. Quem acertar leva um spoiler...

Se vcs comentarem bastante vão me incentivar a postar mais rápido. Já tem 80% do próximo capítulo pronto. Juro, sério mesmo.

Semana que vem estamos aí. Beijosss

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