Disclaimer: Twilight é da Stephenie Meyer! Eu apenas faço seus personagens serem desesperados e emocionados demais.
Alerta de gatilho: cenas de hospital e descrição de ansiedade (mas lembrem que isso aqui ainda é uma comédia romântica, só achei bom avisar)
Obrigada a Dandara por betar e me dar carinho com seus comentários s2
Capítulo 14: True Life
Conscientemente, Bella sabia que não deveria se desesperar. Afinal, se ele estava berrando, é porque estava vivo.
Mas sua imaginação fértil e a lentidão do atendimento fizeram sua ansiedade ir a níveis tão altos, que ela precisou sair correndo para o banheiro. Todos os meses de vitória no controle de seus vômitos nervosos foram descarga abaixo em apenas cinco minutos.
Depois, foram mais quinze sentada na tampa da privada fazendo exercícios de respiração enquanto tentava contactar algum amigo que não estivesse ocupado numa sexta à noite. Nunca precisou tanto de ajuda – física e mentalmente. Nunca quis tanto sua mãe.
Estava pronta para desistir e apelar para invadir o celular que estava na mochila e chamar algum amigo dele, quando Alice finalmente atendeu.
– Ai, graças a Deus! – Comemorou aliviada.
– Que voz é essa, amiga? Tá tudo bem?
– Não… É que…
– ...Alô, Bella? Fala comigo, tá me assustando.
– Edward tá no hospital. – ela foi interrompida pelo nó em sua garganta.
– Quê?! No hospital? Foi isso que disse?
– Sim, eu tô aqui também. Mas acho que ele vai precisar de algumas coisas e eu não quero sair daqui… Roupas, sabonete, toalha, escova de dentes, e… Ah! O chinelo. Isso, o chinelinho dele. – A essa altura, ela já havia voltado a chorar, sua voz embargada e mais fina do que a amiga podia entender naquele emaranhado de palavras cuspidas. – Deve ter mais alguma coisa que eu tô esquecendo, mas minhas mãos estão tremendo demais pra fazer uma lista agora. Você pode pegar pra mim, por favor?
– Ok, acho que entendi... Mais ou menos. Respira, por favor, me conta o que houve.
– Não sei direito, me ligaram e eu cheguei aqui e só disseram que ele estava passando por exames. Ele tava no carro… – ela tentava respirar. – Foi por minha causa, eu sei disso. Mas tô apavorada, não sei o que faço, eles não me falaram muita coisa. Alice, se ele...
– Calma, vai ficar tudo bem, eu sei que vai. Não deve ser tão grave se ele não está em cirurgia de emergência, são só exames.
– Não consigo ficar calma. Eu amo tanto esse homem, ele é meu tudo, Alice. Meu coração tá doendo.
Agoniada, suas pernas levantaram e a levaram até a pia. Estava hiperventilando.
– Qual hospital? Jasper e eu vamos passar na casa dele e vamos até aí. Mas preciso que você fique calma e me dê as instruções direito, ok?
Bella esforçou-se para engolir o choro e, enfim, falar objetivamente. Quando terminou a ligação, largou o celular na mochila para abrir a torneira e jogar água fria no rosto.
Seu reflexo no espelho era terrível. A culpa, pavor e remorso se misturavam na pele inchada. Não podia deixar Edward vê-la assim, não era justo, e por isso, lutou ainda mais para se acalmar e travar suas emoções. Agia mecanicamente. Precisava ser forte por ele agora.
Outras mulheres entraram e saíram do banheiro enquanto isso, ela perdeu a noção de quanto tempo ficou lá. Até que, em algum momento, enfim, ouviu um chamado da recepção.
– Edward Anthony Masen Cullen…. Atenção, acompanhante de Edward A. M. Cullen, compareça à recepção.
.
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O tempo passa.
Mesmo quando isso parece impossível. Mesmo quando cada batida do ponteiro dos segundos dói como o sangue pulsando sob um hematoma. Passa de modo inconstante, com guinadas estranhas e calmarias arrastadas, mas passa. Até para mim—
Ai, pelo amor de Deus, Edward, virou livro de romance adolescente essa porra?, ele interrompeu seu ensaio de um dramático monólogo interno no meio da tomografia.
Seu cérebro era a única coisa que não estava proibida de mexer naquela maca gelada, e ele tentava fazer o tempo passar mais rápido treinando como contaria essa aventura ao mundo.
Não, tá exagerado. É só uma máquina de exame. Você está bem, está tudo bem. Nem estou vendo duplicado, e de acordo com a mãe, isso é a maior sorte que pode haver nessa situação.
Puta merda, minha mãe. Ela vai me matar quando souber, eu vou ouvir tanto.
Seu corpo parecia ter sofrido uma overdose de adrenalina, sua mente ainda rodava um pouco, ele parecia nem estar ali de verdade, tudo era como desenho animado. A única coisa real era a dor. Ainda não sabia ao certo o que havia acontecido, talvez nunca soubesse.
Uma hora estava com a cabeça lá na morena teimosa que às vezes gostava de se fazer de sonsa quando não conseguia processar emoções complicadas, e na outra, estava girando dentro de seu Volvo, num 360º de invejar qualquer Velozes e Furiosos. Chupa, Vin Diesel.
Concentrar-se em respirar e manter-se vivo era o essencial agora, e ele fazia exatamente isso ao se distrair escrevendo histórias mentais – um de seus passatempos favoritos.
Todo seu lado direito doía, pulsava e incomodava, especialmente o cotovelo e o ombro que o fizeram desmaiar de dor assim que o carro parou na pista após bater num hidrante, um pouco antes de uma pequena multidão cercá-lo.
Ele só acordou numa ambulância em movimento para implorar por um analgésico. Chorou, até. E é claro que essa parte humilhante não entraria na sua história, mas o apelo deu certo. Haviam lhe dado algo tão forte, que ele não sentia mais nada agora.
Deve ser narcótico pesado esse caralho. Se a minha mãe não entrar num avião pra vir me matar, Bella é quem vai fazer o serviço. Puta merda, Bella… Será que ela já sabe?
Finalmente, o silêncio abrupto interrompeu seu fluxo de pensamentos, a máquina parava aos poucos.
Foi com alívio que sentiu dois enfermeiros o levando à uma nova sala, onde um médico o esperava, já com um resultado na mão. Estranhou por ser tudo tão rápido, mas a bem da verdade, sua percepção dos acontecimentos estava esquisita desde aquele remédio.
Ele foi colocado frente a frente com um ortopedista, e ok, essa próxima parte definitivamente seria cortada de seu roteiro, pois foi quando, de repente, seu cérebro acordou, e os berros de gata parindo começaram a ecoar pelos corredores enquanto seu ombro deslocado era colocado no lugar.
Durou apenas uma pequena eternidade de 15 segundos, enquanto ele se arrependia de todos os pecados. O tempo exato para o escândalo voar até os ouvidos de Bella, que naquela altura já estava há mais de uma hora na recepção do pequeno hospital do bairro esperando pela liberação para poder ver seu namorado.
Ele foi levado para uma cama na enfermaria quase vazia enquanto Bella vomitava no banheiro.
Foi entupido de medicação e comprimidos enquanto ela se desesperava no celular em cima de uma privada fechada.
E sorriu, sem resistir, quando seus ouvidos captaram a voz familiar afobada que corria e xingava, aproximando-se pelo corredor.
– Perdão! Desculpa! Mil desculpas! Merda. Com licença, onde está Edward Cullen?
Bella saíra do banheiro tão rápido após ser chamada, quase derrubou uma idosa que passava de andador. E assim foi, sua mochila nas costas batendo nos outros feito criança saindo da escola, derrapando no chão liso mesmo tentando não correr.
Na entrada na enfermaria, havia um médico parado ali só para ser completamente ignorado por ela. O fim do corredor cheio de macas, equipamentos e cortinas azuis parecia não chegar nunca, mas finalmente ela o alcançou.
Foi ao mesmo tempo a visão mais linda e mais horrível de sua vida.
Edward estava lá na cama, braço direito e testa enfaixados, além da boca machucada, a pele branca com indícios de hematomas em vários lugares. Mas seu bendito sorriso também estava a postos, os olhinhos espremidos e brilhando por vê-la.
Um coração poderia quebrar em mil pedaços só com uma imagem?
– Oi, amor. Até que enfim. – a voz enrouquecida e cansada dele falou. Foi o bastante para Bella sair do choque e se lançar à frente, indo ao seu encontro na cama a passos silenciosos, os dentes trincados.
Só abriu a boca para dizer numa voz miúda:
– Posso te abraçar?
– Deve.
Ela conseguiu soltar o ar apenas quando seu corpo encontrou o dele, abraçando-o delicadamente em seu lado saudável. Enquanto Edward alisava suas costas com ternura, Bella prendia o choro e cheirava o pescoço do namorado, precisava certificar-se que não era uma miragem.
Sentir o calor dos corpos naquele momento foi o paraíso para ambos. Era consolo, segurança, conforto, alívio, tudo junto.
– Que susto você me deu, Edward, nossa… – ele ouviu e apertou um pouco mais.
– Sinto muito, não foi dessa vez que ficou viúva.
– Para de brincar, tô falando sério.
– Ah, é, pra ficar viúva você teria que ser minha esposa antes. Será que vendem anel na cantina?
Bella não se aguentou e soltou uma risada, subindo do abraço. Precisou esconder a aflição ao reparar que conseguia ver pequenos cortes naquele lindo rosto de perto, e ela só queria beijar cada um até sarar. Nunca esteve tão alerta como agora, seus olhos captavam cada pequeno detalhe, respiro e expressão do namorado.
– Como você tá?
Ele sorriu lentamente.
– Dopadassaço.
– Essa palavra nem existe.
– Ok, Profe.
– O que aconteceu? Você tá bem? Você ficou uma eternidade fazendo exames.
– Ah, por isso você veio correndo. Não subornou nenhum funcionário pra me ver dessa vez não, né?
– Com licença. – O doutor que estava esquecido lá na porta já ia entrando, assustando Bella.
– Desculpa, doutor, eu preciso sair?
– Não, tudo bem. – O olhar do médico escorregou para os pés dela, mas a moça estava tão focada em Edward que sequer percebeu. – Sou o Dr. Raj Nalin, não me apresentei.
– Ah, perdão, eu que entrei desesperada. Como vai? – Ela esticou-se para apertarem as mãos. – Sou Isabella Swan, a namorada dele. Estou de acompanhante.
– Ok, eu só vim avisar que em cinco minutos começaremos a engessar, o material já está vindo.
Bella entreolhou Edward e o médico com olhos arregalados.
– Ele fraturou alguma coisa? Está tudo bem?
– Eu tô bem.
– Sim, num quadro geral Edward está bem. Teve foi sorte de estar dirigindo devagar e de cinto. Os exames só acusaram uma pequena fratura logo abaixo do cotovelo, no rádio direito, além do deslocamento do ombro que já foi resolvido.
Ela ouvia tudo segurando a mão do rapaz na cama firmemente, coração na boca. Enquanto isso, o Dr. Raj nem disfarçava mais o olhar deslizando pelas pernas dela, Edward notou. Que porra é essa com a minha mulher?
– E a cabeça dele, doutor?
– Minha cabeça tá ótima...
– Na cabeça foi só um corte superficial e uma concussão moderada da pancada no vidro, sem sequelas.
– Mas Edward vai ficar bem, então?
– Já falei que eu tô bem, cacete!
– Sim, Isabella, ele vai ficar bem. Amanhã já deve ter alta, se tudo der certo.
– Ah, que bom. – a morena testou um sorriso. – Obrigada por tirar minhas dúvidas, fiquei um pouco nervosa de vê-lo… Assim, nesse estado.
– Era só me ouvir!
– Sem problemas. Bom, já volto com o gesso.
– Uau, quem diria que sofrer um acidente te deixa invisível? Kevin Bacon naquele filme tosco, agora te entendo. Ou era o Nicolas Cage?
Quando o médico saiu, Bella finalmente voltou-se para o acidentado tagarela na cama. O peteleco mais leve da vida foi desferido na coxa dele.
– Porra, você não consegue ficar quietinho nem quando eu tô tentando saber do seu estado de saúde?!
– Foi mal, eu... sou geminiano? – Ela nem conseguia ficar brava, porque Edward realmente parecia fora da casinha no momento. Não tinha nada que ele detestasse mais que papo de astrologia.
– Olha, Alice e Jasper estão vindo, tá? Pedi pra eles pegarem umas roupas na sua casa. Parece que Emmett e Rosalie vão dar um pulo aqui também, falaram agora há pouco.
– Oba, excursão pra ver o todo-quebrado. Alice não tem apresentação hoje no balé?
– Só amanhã. – explicou, indo deixar sua mochila numa cadeira. – Ela foi a única que consegui contactar pra pedir ajuda, parece que todo mundo resolveu ir pra balada hoje.
– Antes eu tivesse ido também, não teria me metido ness— Sua frase foi cortada ao meio quando, num relance, seus olhos encontraram a resposta do enigma para o que tanto aquele médico safado olhava no corpo dela. – Ah não.
– Que foi?
– Vai mais pra trás e dá uma voltinha, por favor.
– Ahm? – Ela o fez, e no meio do caminho já ouviu um ronco característico, seguido pela risada que em poucos segundos se tornaria estratosférica. Quando ela percebeu o motivo, pôs as mãos na cintura, revirando os olhos. – Tá rindo de quê, palhaço? Tô suja, por acaso?
– Não, pior. Veio de pantufas de gatinho pro hospital! – Ele começou a se tremer todo na cama tentando conter o riso baixo, a cabeça quase caindo de fraqueza. Doía, mas era mais forte que ele. – E um pé de cada cor, ainda por cima!
– Ah, me deixa. Eu saí correndo pra ir à sua casa. Ingrato!
O chacoalhar de Edward não cessava e a dor aumentava no corpo moído. Mas tudo bem, a gargalhada estava boa demais, um alívio para o espírito que também sofreu hoje.
– E esse conjuntinho de moletom rosa do Pooh? Não é um daqueles seus rasgados no meio do rego não, né? Vira a bundinha aqui pra mim.
– Vai à merda, Edward, nem nesse estado você para de me zoar? – Ela choramingou prendendo o riso.
– Eu não consigo! Sério, quantos pares dessas de gato você tem? – A gargalhada já tomava todo o cômodo.
Uma enfermeira passou olhando feio, e foi espelhada por Bella, que fingiu estar brava, cruzando os braços. Ela deixou um sorriso brincar nos lábios, sabia reconhecer quando estava ridícula. A porra das pantufas tinham até orelhinhas, porém não teve tempo de trocar, na pressa para sair.
– Só não te taco uma pantufa agora porque você já tá todo machucado…
– Perdão por apontar a verdade.
– E não tem moral nenhuma, deitado aí de camisola que deixa a bunda de fora. Duvido vir aqui dar uma voltinha.
– Daria com prazer, só não vou porque não consigo ficar de pé hoje. Mas me aguarde amanhã quando você for me dar banho, vai poder apreciar meu belo bumbum à vontade.
Bella terminou a discussão mostrando a língua infantilmente. Aos poucos, ele ia se acalmando do ataque de risos e parando, o silêncio voltando a reinar. Sua última frase ecoou no espaço, porém, transformando a energia entre eles para um peso que ele tinha tentado afastar a todo custo.
Sem querer, Bella viu-se obrigada a encarar aquela grande verdade que até então evitava pensar. Engoliu com dificuldade, mordendo os lábios franzidos, tentando segurar a barra.
– Amor? – Ele viu suas feições mudarem da água para o vinho.
A morena só aguentou manter a fachada de forte por mais cinco segundos. Todo aquele pavor mostrou sua cara feia mais uma vez, fazendo o bolo em sua garganta explodir num choro de alívio guardado há minutos.
Com um soluço alto, ela desabou.
– Ei, ei. Que houve? Eu tava só brincando… Vem cá. – ele chamou, batendo na cama.
Dessa vez, Bella subiu cuidadosamente para sentar ao seu lado, abraçando seu torso, sempre com medo de quebrá-lo. Sua cabeça pendeu para o ombro dele com lágrimas escorrendo pelo canto direito. Sentiu um beijo macio na testa, os longos dedos acariciando seus cabelos, arrepiando sua cabeça.
– Droga, eu me prometi que não choraria na sua frente. – ela fungou.
– Mas por quê?
– Você é quem merece consolo agora, não eu.
– Ah, que bobagem. Você tá nervosa, é seu direito.
– Mas é você que tá numa cama de hospital. E tudo por minha causa.
– Sua causa? Eu é que fui um idiota de não prestar atenção ao trânsito, tive um lapso achando que estava dirigindo na América e fiz uma curva errada.
– Minha causa, sim. Você só ficou avoado porque eu fiquei enchendo o saco ligando sem parar e mandando todas aquelas mensagens, eu sei disso.
– Não cheguei a ver as mensagens, só ouvi as ligações… E antes eu tivesse parado num lugar pra atender. Fiquei só imaginando o que poderia ser, fora todos os problemas que já tinha na cabeça… Viajei na maionese. Deu nisso.
– Você não tem ideia do quanto fiquei assustada quando aquele policial ligou, que sensação horrível. Fiquei pensando que tinha sido preso ou coisa pior.
– Ah não. Foi o policial que ligou? Que merda.
– Você bateu em alguém na hora?
– Não… Eu acho. Mas tinha uma patrulha na frente de um bar, isso eu lembro. Porra, eu apaguei por um tempo, devem ter tirado meu celular do bolso e ligado. – Edward sacudiu a cabeça, instigando uma careta de dor. – Eu até falei que eu mesmo ligaria quando cheguei aqui, mas ignoraram e me mandaram pros malditos exames logo.
– Aliás, me entregaram seus pertences. – Bella rapidamente foi buscar um saco da mochila para entregar a Edward, antes de voltar ao aconchego do calor dele. – Vê se tá tudo aí.
– Acho que sim. – o rapaz inspecionou, pegando seu celular velho de guerra. – Pensei que ele teria se espatifado todo, mas até que sobreviveu bem.
– Celular da China é à prova de bomba atômica, amor.
– É... Vaso ruim não quebra. Igual a mim.
Bella não conseguiu rir dessa vez.
– E a gente tinha acabado de discutir quando você desligou… Se alguma coisa acontecesse… – ela o abraçou mais forte, sem coragem de completar aquela frase.
– Não fica pensando nisso, já passou, eu tô vivo. Mas saiba que se eu morresse eu voltaria pra puxar seu pé, porque nem fodendo que minhas últimas palavras pra você seriam também, boa noite.
– Ahm? – Ela ergueu a cabeça, deixando uma poça no ombro da camisola de hospital dele.
– Na nossa última ligação, você disse eu te amo, e eu falei também, nem tive coragem de dizer a frase inteira.
– Você sabe que eu não ligo pra isso, o sentimento é o que vale.
– Eu sei, mas eu gosto de ser o mais detalhista possível pra mostrar o meu amor.
Lentamente, um sorriso triste brotou no rosto dela. Seu peito ia explodir de amor, tinha certeza. Sorte que já se encontrava num lugar propício para ser acudida.
– Posso te dar um beijo? – Indagou.
– Se não se importar em sentir um gostinho de sangue…
Sua namorada virou-se na cama e se posicionou para, sutilmente, salpicar beijinhos na testa, pálpebras, bochechas, até chegar em sua boca. Havia adquirido esse hábito de Edward, que fazia isso quando ela estava para baixo e queria fazê-la se sentir amada e cuidada. Não havia hora melhor para retribuir.
– Eu te amo. Muito. – sussurrou sobre os lábios maltratados.
– Te amo mais.
O momento foi interrompido por vários passos no corredor, junto com um carrinho sendo puxado. Bella foi rápida em descer da cama, pouco antes da equipe de ortopedia entrar para começar a aplicar o gesso no antebraço dele.
Deixaram que a moça ficasse no canto assistindo, e Edward não parava de se lembrar da infância e todas as vezes que caiu daquela casa da árvore que seu tio fez. Até pediu uma foto para quando contasse à família.
Seus amigos chegaram um pouco depois, aflitos, trazendo as coisas que Bella havia pedido – Jasper era a quem Edward tinha confiado uma cópia da chave de seu flat. A visita foi rápida pelo avançar da hora, e após a enfermeira vir aplicar mais doses de analgésicos e antiinflamatórios, o casal jantou sozinho assistindo Friends na TV da enfermaria.
A notícia do acidente não demorou a se espalhar. O celular dele teve que ser colocado no modo vibratório pelas inúmeras ligações e mensagens preocupadas de amigos, conhecidos, alunos, colegas de trabalho. Foram muitas, como ele jamais pensou ser possível.
O calorzinho no coração ao saber que tanta gente se preocupava foi inevitável, tanto para ele quanto para Bella também, vendo como seu namorado era precioso e amado. Era tudo o que ele merecia.
A notícia para a família, no entanto, ficaria para amanhã, pois estavam exaustos. Já passava de três da madrugada quando finalmente conseguiram dormir – Bella caiu de cansaço na poltrona desconfortável, embora Edward tivesse precisado de um calmante para apagar, depois de ficar gemendo e rolando por um bom tempo.
As dores no corpo inteiro só aumentavam com o passar das horas, mas era normal, todos os médicos e enfermeiros para quem Bella perguntava diziam. E perguntar era algo que ela fazia. Toda hora. A partir de qualquer mínimo desconforto que seu namorado aparentasse estar sentindo.
O pessoal quase deu graças quando Edward teve alta, finalmente, um dia e meio depois. Só pôde ser liberado após o médico certificar-se que ele estava se recuperando bem da concussão, mas precisaria continuar com o repouso total e os remédios.
Bella sequer pensou duas vezes antes de levá-lo para sua casa. Não desgrudaria dele por nada agora, se pudesse nem iria trabalhar, e quando precisava sair, voltava logo.
– Pensando aqui… – Edward murmurou enquanto mastigava a comida indiana de seu lugar favorito, que Bella tinha ido buscar pessoalmente. A moça estava mesmo empenhada em dar tudo o que ele pedia.
Agora já era o terceiro dia após saírem do hospital. Estavam almoçando na cama dela, frente a frente, de pernas cruzadas.
Por sorte, Bella não tinha nenhuma aula hoje, poderia ficar paparicando-o. Os gatos também pareciam sensíveis sobre o futuro papai deles, estavam sempre por perto. Mr. Darcy tinha se aninhado ao lado do rapaz, enquanto Heathcliff recuperava-se da otite amuado na sua caminha dentro do quarto.
– Pensando o quê?
– Acho que já gastei toda minha cota de experiências em desastres. Estou imune.
– Como? – Ela riu, erguendo o guardanapo para limpar o queixo de Edward sujo de curry, já que a outra mão dele estava na tipóia.
Atividades corriqueiras como essa tinham logo se mostrado difíceis. Já no dia em que chegaram em casa, o rapaz demorou quase dez minutos para conseguir subir a escada, os joelhos ainda inchados da batida. A hora do banho, então, era um desafio à parte. Estava tudo sendo um grande exercício de paciência.
– Lembra daquele papo de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar? Então. Já tive um quase desastre aéreo, e agora tive um quase desastre terrestre. O que significa que nossa viagem pela California será perfeita e segura, já queimei as duas chances de desastres que eu tinha.
– Você ainda não andou em navegação marítima pra comprovar essa tese.
– Ué, liga pra sua amiga Nina e o traficante dela, eles tem um iate…
– Nem brinca. Ela inclusive chamou pra passar o verão lá na casa deles na Grécia, bem no período da nossa viagem… Tive que recusar com o coração na mão.
– Mas é por uma boa causa, pelo menos.
– É. – ela sorriu. – Como você tá agora?
– Só desconfortável. O que é bom, as dores diminuíram bastante. Esses remédios são foda mesmo.
– E psicologicamente?
Edward pensou por um instante. Sabia que tinha sido um filho da mãe sortudo por escapar dessa praticamente ileso. A noite ainda era complicada e ele estava exausto, mas ao menos os sonhos continuavam normais e esquisitos como sempre.
– Sei lá, não parei pra refletir muito… Estou anestesiado do susto, e só de estar vivo já estou grato. Pra ser sincero, agora só consigo pensar mesmo no meu carrinho, que provavelmente perdi.
– O estrago foi grande? – Ela fez uma careta mastigando.
– Não faço ideia, eu não vi nada na hora. Só sei que freei, girei na pista e senti batendo na lateral traseira. Tudo aconteceu tão lento e tão rápido ao mesmo tempo… Eu estava dirigindo devagar, de repente… Pow.
– Ah, o Emmett ligou mais cedo, você tava dormindo. A gente conversou um pouco. Ele tem um tio que é da guarda de trânsito e pode te ajudar. Parece que o carro fica lá pra ser buscado, aí você vê se consegue salvar… Mas isso só depois de pagar a multa.
– Multa?! – Ele chegou a tossir a comida apimentada.
– Ops. Você não sabia?
– Não?!
– Surpresa! – Ela tentou brincar. – Mas… É. Você entrou na contramão e furou um semáforo, a câmera pegou. A sorte é que não atingiu ninguém e você não tinha bebido. Até fizeram exames toxicológicos lá no hospital, lembra?
Decepcionado, ele sacudiu a cabeça lentamente. Como podia ter sido tão idiota assim?
– Não acredito que além de me foder todo, ainda vou ter que pagar por isso.
– Calma, qualquer coisa eu pago pra você, nem deve ser tão caro.
– Você não lembra como é ter um carro? Tudo é caro. Absolutamente tudo. – bufou, recostando-se nas almofadas, até o gesso começou a coçar de nervoso. – Maldito dia aquele, eu não devia nem ter levantado da cama. Lembra quando você estava com aquela onda de azar sinistra? Acho que a roda da fortuna girou e agora a setinha tá com uma mira bem na minha testa.
– Como assim? Aconteceu mais alguma coisa?
– Semana passada eu descobri que o flat está com uma infiltração de verdade na cozinha. – confessou numa voz morosa. – E não é daquelas fáceis de consertar, como na sua época. Agora caíram uns azulejos enquanto eu dormia...
– Meu Deus, que perigo. Poxa, e você ainda queria que eu dormisse lá.
– Não tá tão horrível assim, eu não corria risco de vida. Foram azulejos perto do chão, e eu dei um jeitinho.
– Sei... – ela cerrou os olhos para aquela defesa. – Mas e agora?
– O proprietário prometeu que vai reformar, mas eu vou ter que sair até terminar. E daí que naquele dia, antes de você me ligar, eu tinha ido ver uns apartamentos pra alugar, gastei algumas horas nisso antes de ir pro trabalho, mas não deu em nada. Por isso também eu estava exausto.
– Mentira?! Podia ter me chamado, eu adoro ver apartamento, te ajudaria.
– Eu sei. Mas eu fui um bebezão idiota, não quis te contar.
– Por quê?
– Porque… – seus olhos eram pura vergonha, até desviavam. – Sei lá, orgulho, fiquei de birra. Não queria mostrar que você estava certa em reclamar da minha casa, no fim das contas.
– Edward. – ela até colocou seu prato terminado de lado para encará-lo melhor. – Olha, eu vou ser muito honesta aqui. Eu reclamo sim, porque nunca gostei. Mas hoje em dia é principalmente porque eu acho que você merece coisa melhor, sempre achei. Fico preocupada te vendo morando num lugar precário.
– Você esquece que eu já morei num trailer. – ele riu de escárnio.
– Sim, quando não tinha um puto no bolso. Mas não é motivo pros seus padrões continuarem baixos a vida toda, sua realidade mudou. Eu sei que você foi criado sem ligar pras aparências e coisas materiais, e sério, eu admiro tanto isso em você. Mas poxa, aceita que ter um cantinho arrumado é legal. Não precisa ser um palácio, só precisa ser seguro e bem cuidado.
– É, eu sei que mereço coisa melhor, mas eu adoro aquela vizinhança. Por isso que, mesmo melhorando de grana, me estabilizando, eu fui ficando... Gosto de lá de verdade, fazer o quê? – ele subiu e desceu o único ombro não-machucado. – Eu até já vinha brincando com a ideia de me mudar pra mais perto de você, mas realmente não queria dar o braço a torcer.
– Espera aí. – ela sorriu. – Você queria mesmo se mudar só pra ficar perto de mim?
Edward revirou os olhos, vendo a namorada toda boba.
– É, isso mesmo que você ouviu, eu sou um gado emocionado por você. Muuu.
A gargalhada de Bella fez sua cabeça até cair para trás. Voltou só para deixar um beijo na boca dele.
– Então eu sou a sua vaquinha, é isso?
– Não sei, só sei que vaca me lembra a palavra "tetas" e no momento não estamos podendo pensar nisso. Muda de assunto.
– Besta! – Ela riu novamente, ajeitando o cabelo num coque. – Teve algum apartamento que você gostou?
– Sim, naquela região universitária, Elephant and Castle, sabe? Pensei que seria perfeito porque fica exatamente entre a sua casa e a ONG. São só 25 minutos de carro pra cá e 35 minutos de ônibus, tem um direto. Eu vi no Google.
– Não acredito que você pesquisou até sobre o transporte pra minha casa. Isso é muito, muito fofo e legal da sua parte. – ela pegou a mão dele para beijar. – E o que aconteceu que te deixou chateado?
– Assim que saí do melhor apê que vi, o lugar já tinha dono, foram rápidos em fechar o contrato de aluguel. Era o último do dia.
– Que merda. E agora?
– E agora… Não sei. A obra vai acontecer, então não tenho alternativa, a não ser deixar o flat por uns meses. Mas como eu sou um imbecil que consegue se meter num acidente idiota sozinho, não posso sair procurando nada agora. Acho que estou sem teto.
Bella não aguentava ver o desespero no semblante dele, a ansiedade pelo futuro incerto. Seu coração apertava enquanto tentava buscar uma alternativa para resolver seu problema. Poderia fazer tudo isso por ele, mas sabia que Edward prezava tanto por sua autonomia, dificilmente daria certo.
A verdade era que ela simplesmente não conseguia pensar em outro jeito, a não ser o mais óbvio. Seu peito acelerou concluindo, ela mordeu o canto da boca. Hesitou por uma respiração para checar se estava certa disso, até que soltou a oferta:
– Edward… Vamos morar juntos?
Ele piscou uma vez.
– Quê? Não… – e sacudiu a cabeça. O gato laranja ao seu lado pareceu sentir o climão e até saltou da cama.
– Não por quê?
– Aqui?
– Sim?
– Você não vai me querer morando nessa casa linda que você montou pra si mesma.
– Ué, eu tô te convidando. Eu quero e você precisa. Unimos o útil ao agradável.
– Eu sei. Não tô fazendo desfeita, fico muito grato, juro!
– Então qual o problema?
– O problema é que a gente está se dando tão bem nesses meses, não quero que nada estrague, e a convivência sempre é um desafio… Você não lembra? A coisa começou a ficar feia quando resolvemos morar juntos muito rápido, só um ano de relacionamento.
– Acontece que agora já nos conhecemos bem, e mudamos um bocado desde aquela época, nem tem comparação. – ela suspirou, meio desanimada de argumentar, tentando muito não se deixar abalar pela recusa ao seu convite mais do que especial e genuíno. – Tá, eu não vou ficar insistindo, isso é chato. Se você não quer—
– Não é que eu não queira... – Agora era seu curativo na testa que coçava de nervoso. Passou a mão nos cabelos, em vez disso.
– Mas…?
– É bem mais o fato de que eu ainda tenho muito exercício a fazer pra melhorar como companheiro de casa, como você merece e como eu prometi que melhoraria.
Bella uniu as sobrancelhas, tentando entender aquela lógica. Por que homens eram tão tapados, às vezes?
– Mas, Edward, essas coisas a gente aprende na prática, e pode ser que algumas a gente nunca consiga dominar completamente, é um aprendizado eterno. Você e eu nos comprometemos a mudar, estamos tentando e falhando e tentando de novo. Se esse nosso processo não for no dia a dia, em casal, não funciona. Nem faz sentido.
– Tá, tem razão. Mas eu ainda estou inseguro sobre isso, preferia treinar um pouco mais antes de assumir esse compromisso de dia a dia. – ele explicou, e Bella soltou uma pequena risada sacudindo a cabeça. – Que foi?
– Desculpa. É que eu tô achando engraçado esse papo de treinos e exercícios… Sei que você adora brincar sobre a minha profissão, mas só sou professora na universidade, tá? Não vou ficar te avaliando e dando nota em tarefas domésticas. Se alguma coisa não funcionar, a gente vai conversar, se entender e é isso.
Meio constrangido, Edward deixou cair a cabeça, buscando uma forma de expressar melhor seus receios.
– Eu sei… Você não tá aqui pra ser minha professora. Ou minha mãe.
– Eu realmente só quero te ajudar sobre esse rolo do flat. Sem pressão. Meu convite não precisa ser definitivo, só enquanto acontece a obra e você procura outro lugar com calma. A gente faz um… test-drive. – ela acrescentou com uma voz travessa, erguendo as sobrancelhas.
Edward cerrou a boca, prendendo o sorriso.
– Você e seus test-drives...
– Olha, eu confio em você, eu te conheço, e a gente já dividiu uma casa, sei mais ou menos o que esperar. Fica tranquilo. E agora eu também me comprometo a não ficar exigindo demais, se é o que te deixa ansioso.
Com o rosto contraído de preocupação, ele respirou fundo, mesmo que sua costela ainda doesse um pouco.
Além do orgulho e a vergonha, o medo de estar aceitando algo precipitado também surgia. Todas as vezes que ficou exasperado por Bella querer adiar o reinício do namoro pelo mesmo receio agora voltavam para chutar sua bunda. Karma era isso.
– Você sabe que eu não comecei esse papo pra você sentir pena de mim e oferecer sua casa, né? Por isso mesmo nem queria falar antes.
– Claro que sei. Mas eu me importo com você, não quero que isso seja mais uma dor de cabeça. Não quero te ver sofrendo, sabendo que eu posso ajudar, tendo uma solução fácil, me deixaria péssima também. O que dói em você, dói em mim, lembra?
Edward não pôde evitar o leve sorriso de satisfação que apareceu quando suas palavras de uma conversa antiga lhe foram devolvidas. A plenitude a imensa gratidão lhe invadiram. Sim, era um filho da mãe sortudo.
Aquela oferta era tentadora demais, claro.
Nenhum dos dois aguentava mais dormir e acordar com a cama vazia, não ter alguém para cuidar e ser cuidado. Ambos eram do tipo de gente que precisava disso, de estar perto mesmo que em silêncio, só sentindo a presença do outro, compartilhando pequenos momentos de intimidade.
Mas ainda assim, o medo de perturbar a harmonia que haviam construído era muito grande nele.
– Eu preciso pensar por um tempo. – o rapaz concluiu, enfim.
– Tudo bem. Quanto quiser.
– Preciso também pôr na ponta do lápis as despesas, a minha renda. Eu sou só um artista pé rapado, lembre-se disso, Profe Doutora. – zombou, fazendo Bella rir.
– Quanto a isso não se preocupe. A gente divide o que der, o que não der eu cubro, sem problemas. E se ficar pesado demais pra você, a gente pode ver outro bairro mais barato, também.
Os olhos dele se arregalaram um pouco.
– Sair de Candem Town? Eu ouvi direito?
– Ué. Qual o problema?
– Bella, você ama esse bendito lugar de hipster caro pra caralho mas que é super charmoso e conveniente. Você não vai querer sair desse bairro perfeito só por minha causa.
– Tá bem longe de ser perfeito. Mas qual a parte do "vamos morar juntos" você não ouviu? Eu quero dividir a casa com você, não importa onde. Quer dizer, importa, mas tem que ser bom pra nós dois. Se Candem não funcionar pra você, eu terei que abrir mão.
Foram duas piscadas enquanto o rapaz a olhava com a cara de bobo apaixonado que era. Ficou um pouco sem palavras.
– Ok, depois da declaração do aeroporto e seu pendrive de tesouros pessoais, essa é a terceira demonstração de amor mais legal que você já me deu.
– Você é realmente muito emocionado. – A risada de Bella acompanhou sua cabeça sacudindo. – Eu amo esse lugar, claro, é mesmo um cantinho ótimo pra mim, mas não me importo em mudar. Você tá na minha vida e é mais importante do que essa casa. Porque é isso, é só uma casa. O que faz um lar é outra coisa, é como a gente constrói ele.
– É, acho que é isso. – ele esticou sua mão boa para a namorada afagar. Olhava-o com um sorriso de tanta doçura e carinho, que Edward só queria abraçá-la com força, e xingou pela milésima vez aquela tipóia e gesso idiotas.
Seu coração pulava sempre que pensava na possibilidade de construir um lar com Bella. De verdade, feito gente grande como ambos agora eram, seu amor e união oficialmente reconhecidos perante o mundo. Ele sabia que esse dia aproximava-se a cada nova conquista, sorriso ou dor compartilhada. Só lhe faltava a coragem de fazer a pergunta.
– O que você tá pensando aí? – Indagou Bella após ouvir um suspiro. Edward abriu a boca e fechou, antes de apenas balançar a cabeça.
– Nada… Agradeço pelo convite, de verdade.
– Imagina. Se bem que eu devia mesmo era estar pedindo desculpas por uma coisa…
– Ih, lá vem.
Bella respirou fundo.
– O que rolou no dia do acidente. Você já deve ter lido o que eu falei nas mensagens, né?
– Sim. – deu uma risadinha. – Credo, como é dramática.
– Eu sou dramática? – Bella cruzou os braços, meio sarcástica, meio séria. – Você que ficou ignorando minhas ligações e mensagens, e ainda acabou metendo a cara num muro depois de uma briga que nem foi tão séria. Se isso não é o maior dramalhão mexicano…
– Primeiramente, o que bateu foi a traseira. Segundo… – ele expirou, revirando os olhos para si mesmo. – Tá, eu reagi como um mimadinho, mas eu estava puto da minha cara. Além de ficar puto com você, também fiquei comigo, por ter omitido durante tanto tempo que eu não estava gostando muito daquilo tudo, e por não ter te contado a real sobre a situação do flat.
– Bom, então estamos quites. Porque eu também só saí correndo desesperada por estar com raiva de mim mesma depois de te tratar mal e te enrolar, ao invés de expor o que eu sentia.
– É, além de dramática, você é meio desesperada mesmo. – Edward ponderou em tom de deboche, e Bella devolveu com careta, fazendo ambos rirem na face de seus defeitos expostos ali.
– Tá... Mas eu é que estava errada. Você estava fazendo tanto por mim vindo me ver sempre, e eu fiquei acomodada, podia ter pelo menos tentado reciprocar mais. Não custava nada.
– Só acho que você podia ter me dito que a razão principal era porque acorda com crise de rinite na minha cama. Eu entenderia, sabe?
– Eu achei que era óbvio? Espera. Ah não, você me ouviu falando isso?! – Ela lembrou de uma de suas ligações vergonhosas dentro do Uber.
– Tudinho, caiu na caixa postal.
– Eu disse, eu não queria mais ser a chata que reclama, poxa. Não queria trazer um assunto que eu sei que te magoaria. – explicou, acrescentando. – Nos últimos tempos eu vinha tomando um antialérgico antes de você acordar, pra não incomodar.
Aquilo fez Edward gargalhar.
– Você é completamente absurda.
– Perdão por tentar manter o romance e a harmonia vivos? – Ela deu de ombros, erguendo as mãos para cima.
– Então, nós dois escondemos coisas e quebramos nossas promessas do Dia dos Namorados. Nem três meses depois…
– É… Como vai acontecer várias outras vezes, com toda certeza, até virar um comportamento orgânico e natural. Temos que nos preparar melhor pra isso.
– Vamos re-prometer se esforçar mais? Eu juro que o romance vai sobreviver de qualquer forma, mesmo se você jogar verdades na minha cara. Eu sou um gado emocionado, afinal.
– E eu sua vaquinha. Mu. – ela sorriu. – Ok. Re-prometido.
– Ótimo. Agora, vem tirar minha roupa.
– Oi?!
– Pro banho.
– Ah. – Ela o ajudou a levantar-se, indo direto ao serviço. Edward agora vivia em moletons de zíper para auxiliar o trabalho dela, e rapidamente seu torso estava descoberto, também sem a calça de moletom. Cuecas já eram itens ultrapassados aqui.
Ensaboar algumas partes com o braço livre era fácil para Edward, sentado numa cadeira no box, embora abaixar a cabeça ainda estivesse fora de cogitação. Entretanto, toda vez que a namorada ajoelhava-se para ajudá-lo no banho, o rapaz não aguentava. Tinha que sacanear.
– Hm... – ele segurou o riso enquanto Bella limpava seus pés. Ela percebeu.
– Eu te desafio a ficar caladinho sem soltar nenhuma gracinha agora.
– Mal posso. – ele mordeu o lábio.
– Ahm?
– Mal posso esperar pra você brincar de enfermeira comigo de novo em quatro semanas. – Foi o prazo dado para recuperar-se totalmente da concussão. Bella arquejou fingindo ultraje, entrando na brincadeira.
– Garoto? Enfermagem é profissão séria, tá? Mais respeito.
– Total respeito pelas enfermeiras e enfermeiros. Mas o problema é que a minha é muito gostosa, eu não resisto.
– Olha aqui, Edward Anthony, se esse pau ficar duro de novo enquanto eu estiver ensaboando suas costas, juro que prendo numa gaiola.
Ele fez uma cara de dor.
– Nossa, quanta violência. – e continuou provocando como o tremendo safado que era. – E o que mais?
Ela sorriu ardilosa. Gostava tanto quanto ele, eram eternas preliminares.
– Prendo e te amarro na cama. Braços e pernas bem separados… Completamente nu, só pra mim.
– Por favor, diz que é pra bolinar meu corpinho e sentar na minha cara igual aquela outra vez que você me amarrou.
– Não, melhor... – Foi a vez dela prender o riso, desligando o chuveiro para passar a esponja nas costas dele.
– O que pode ser melhor do que você na minha cara se eu estaria com uma gaiola no pau?
– Adivinha? ...Cócegas! – Seus dedos exemplificaram com um único cutuque surpresa abaixo da costela esquerda dele, e Edward berrou uma risada dolorosa, contorcendo-se, enquanto o braço livre puxava Bella para sentar em seu colo, tentando revidar com cócegas também.
– Porra, se aproveitar de um homem vulnerável é sacanagem!
Bella só ria desesperada.
– Paraparapara! Eu vou escorregar! Para! Desculpa, não faço mais, juro! – Edward só parou quando ela acabou caindo no colo dele, sua camisola branca agora toda molhada e cheia de sabão. Eles riam, recuperando o fôlego. – Perdão. Te machuquei?
– Não. Mas talvez você tenha mesmo que comprar uma gaiola… – ele lançou um olhar para baixo, e Bella acompanhou, embora sentisse na sua coxa, já que Edward a segurava firme contra seu corpo.
– Como você consegue pensar em sexo mesmo estando todo ferrado, hein?
– Ué, com você me tocando o tempo todo. E tem coisa melhor do que sexo pra celebrar a vida após uma experiência dessas? – Ele riu, apesar de sua voz ter um fundo de verdade, ambos sentiram.
O momento do casal suspendeu-se no ar, então. Encarando-se, suas respirações sincronizaram-se aos poucos, o riso dando lugar à uma sensação de plenitude que encontravam dentro do olhar do outro. Encostando-se na parede fria, Bella levou a mão ao rosto dele com cuidado, afastando uma mecha molhada da testa.
– A gente ainda vai ter muito tempo pra celebrar bastante, graças a Deus. Que alívio poder dizer isso… E não faz essa cara de choro, senão eu choro também.
Edward deu um meio sorriso e fungou.
– Queria te agradecer por cuidar de mim tão bem. Às vezes não consigo acreditar na minha sorte. Nem sei como eu estaria agora se não tivesse você na minha vida…
– Estou fazendo só meu dever como companheira. Quantas vezes você já não cuidou de mim também? Até quando vomitei vinho e Uzo num canteiro grego, e você não tinha qualquer compromisso comigo.
– Não precisava me lembrar dessa imagem. – ele fez uma careta rindo, antes de deixar um beijo na testa dela. – Agora, vamos terminar esse banho, já tá tão frio que eu nem preciso mais de gaiola nenhuma pra me comportar.
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O mês de maio esvaiu-se lentamente, como os hematomas na pele de Edward. Quatro semanas depois, agora enfim eram apenas marcas amareladas e um trauma de dirigir que ele ainda nem queria reconhecer que existia.
Ainda em repouso na casa de Bella, ele vinha fazendo leves exercícios de fisioterapia até poder tirar o gesso e começar a terapia real. Havia retornado ao trabalho após uma semana do acidente, e nunca esteve mais cansado, desde andar todo dia no transporte público, até ministrar aulas de música sem poder tocar nada.
Embora seu Volvo não tivesse sido destruído, sua conta bancária foi arrombada. A multa, o conserto e a taxa de resgate do carro pesaram mais do que ele planejava, e teve que fazer malabarismos para não gastar todo o dinheiro reservado à viagem de julho. Apesar disso, todo dia só pensava na sorte de ter plano de saúde pela ONG, e nunca ficou tão grato por ter um emprego fixo.
Seus problemas financeiros o fizeram protelar a resposta definitiva para o convite de Bella, até que o proprietário do flat acabou decidindo por ele no início de Junho. Prazo de uma semana, apenas, para que desse o fora dali e sem rescisão do contrato, que já venceria de qualquer forma.
Bella quase o matou pela falta de programação, pois calhou de ser justamente em dias que ela estaria viajando com o Projeto. Felizmente, Jake (o amigo arquiteto cheio de contatos), salvou o dia conseguindo um caminhão de mudança na última hora, e ele, Edward, Jasper e Emmett levaram tudo para Candem Town num fim de semana. Abastecidos de muita cerveja e pizza, eles organizaram e limparam tudo antes de Bella chegar em casa.
Finalmente, Edward havia conseguido dar conta de coordenar tudo sozinho, lidando com seus próprios pepinos. Orgulhoso de si mesmo, estava doido para que ela chegasse logo e pudesse mostrar serviço, tinha certeza que ela teria um orgasmo de organização quando visse.
Mas a realidade passou longe.
– Eu prometi que deixaria tudo arrumado, e deixei, viu? Até fiz faxina. – Foi assim que Edward recepcionou a namorada que voltava da Irlanda, na segunda à noite. Os gatos vieram correndo para ela ao jogar-se na poltrona verde moderninha que veio do flat dele, os olhos de quem não dormia há dias. Não tinha ido nem guardar os sapatos da rua no armário embaixo da escada e calçar suas pantufas, como sempre fazia. Era grave.
– Uhum, percebi. – sua voz era puro desânimo, os dedos coçando Heathcliff quase sem forças. – Tá um cheirinho bom aqui, obrigada.
– Viu a vitrola ali, e os quadros em volta do espelho? Fiz igualzinho você sugeriu, fiz uma curadoria... Eu preciso mesmo dar uma parada nessa coisa de comprar arte, mas são meus amigos, é difícil, né?
– Uhum.
– Instalei o lustre novo também, tá boa a altura? Ah, e deixei a monguba ali porque não quis botar lá fora. Os gatos não mexem com planta no chão não, né? – Bella apenas negou com a cabeça. – Acho que deu uma vida pra mesa, ficou uma área gostosinha pra receber o pessoal.
– Ficou ótimo mesmo.
Ele viu o olhar distante e lânguido dela pela sala. Dois instantes de silêncio foram o bastante para o rapaz cansar de ser ignorado pela namorada monossilábica.
– Tsc. Bella.
– Oi.
– Você tá esquisita, que foi, hein? Achei que ficaria super animada com o que eu fiz na arrumação.
– Eu tô animada…
– Animada pra dormir, né? Eu ia te levar lá na salinha pra mostrar os meus livros completamente organizados em ordem alfabética por autor e ainda separados dos seus, mas agora até brochei.
– Desculpa, amor. Só estou cansada da viagem... – ela começou a tirar as botas, suspirando. – E ansiosa também. Leah mandou mensagem, disse que o tribunal confirmou minha audiência pra semana que vem.
– Ah! – Ele respirou fundo ao ouvir, compreendendo tudo. – Até que enfim! Que ótimo. Finalmente, vai acabar com essa história toda. Fiz chá gelado pra você, quer? De pêssego.
– Quero sim, obrigada. – agradeceu vendo-o abrir a geladeira que agora seria dele também. – É… Acho que devia estar feliz, mas só estou com vontade de me enterrar na cama e me encher de chocolate. Não estou tão confiante assim.
– Por quê? Eu não vejo como você poderia perder. Eles foram uns crápulas, é fácil confirmar.
– Ah, sei lá. Só uma sensação estranha. Mas deve ser mesmo só minha cabeça paranóica cansada de trabalhar e viajar. – ela pegou o chá. – Como tá seu braço?
– Bem. O doutor falou pra eu ir lá tirar o gesso depois de amanhã, já peguei o contato do fisioterapeuta.
– Ótimo. Não fez esforço carregando caixa não, né?
– Nem um pouco, juro. – ele mentiu completamente, preferindo evitar estressá-la ainda mais ao informar que carregara seus instrumentos musicais pessoalmente. Não o julgue, eram as únicas coisas materiais que ele tinha ciúmes de verdade. – Vamos, você tá merecendo um bom banho de banheira. Vai me falando como preparar, só relaxa.
Ela foi puxada pela mão escada acima para ser paparicada como havia feito com o namorado quase o mês todo. No entanto, por mais que Edward tentasse lhe ajudar a distrair, pensar em outra coisa nos dias precedentes à audiência foi impossível para Bella.
Nem à noite estava livre, dormia derrubada pela exaustão, estava complicado. Seus sonhos bons variavam entre achar uma maleta de ouro ou notas de cem presas em seu sapato. Mas os pesadelos também foram frequentes: quando não estava sendo perseguida na rua, era porque estava nua diante de todo o tribunal, humilhada e desesperada.
Não sabia em qual sonho confiar.
Quando enfim o grande dia chegou, seus nervos faziam seu corpo tremer e suar frio, nem meditação deu jeito. Foi para o tribunal acompanhada de Edward, Angela e Leah, que lhe dariam o mais necessário apoio naquele começo de dia.
Mas as coisas já estavam estranhas quando Bella entrou num corredor e deparou-se com a última pessoa que pensaria encontrar no final dele. Sua advogada reparou também.
– Nossa, não é possível que aquele bebê seja o advogado novo deles. Quando avisaram que trocariam, eu tava pensando que seria um desses jurássicos super experientes. Pronto, amiga, tá mais tranquila vendo esse franguinho cheirando a leite representando os canalhas? – Leah comentou sussurrando para a amiga muda e estática. – Bella? Tô falando com você.
Ela não respondeu, petrificada. Suas veias geladas, seus pulmões sem ar.
Como se percebesse que falavam dele, o jovem rapaz interrompeu sua conversa com Peter Gale e o outro advogado para mandar um tchauzinho, sorrindo brilhantemente, bem simpático, composto e lindo como era.
Tudo isso direcionado à Bella.
Embora tentasse responder, o rosto inteiro da professora parecia ter adormecido, os cantos da boca tremendo. Isso é mentira. Eu tô delirando. Isso simplesmente não está acontecendo, sua mente repetia, e era só o que conseguia fazer agora. Pois do outro lado da sala, na companhia de seus ardilosos chefes, estava o último cara que havia lhe visto pelada depois de Edward.
Seu ex, Riley Biers.
N/A: Algum palpite do que vai rolar? hehehe Leitoras fanstaminhas, apareçam! Aprecio qualquer tipo de comentário s2 Queria muito saber quem ainda tá acompanhando!
Até breve! Beijoss
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