Capítulo 3
O silencio pensativo se prolongou por algum tempo na cabine, para Terry era um momento de organizar os pensamentos, ele precisava responder a última das perguntas de Harry. Mas ele também tinha suas próprias perguntas, a verdade é que Harry Potter, este na sua frente não fazia sentido e o que não faz sentindo deve ser questionado, mas ele não queria ser insensível. Perguntaria sobre sua vida e se Harry não confiasse nele para responder, esperaria que um dia teria sua confiança.
Para Harry, foi um momento de analisar as informações que Terry lhe deu, quer dizer era fascinante saber sobre a fundação de Hogwarts e do Ministério da Magia, e pensar que os Potters, sua família fazia parte dessa história, era de tirar o folego. Ele que sempre foi menosprezado e desprezado por seus parentes, mas agora ele sabia que tinha motivo para se orgulhar de quem era. A injustiça que era cometida contra os nascidos trouxas e de maneira legal, autorizada e defendida pelo próprio Ministério que deveria protege-los, era revoltante e ele não precisava ter conhecido sua mãe para saber que ela ficaria muito indignada ao saber dessa informação.
Ele podia imaginar é claro, as crianças que viviam em casas magicas passando todo o verão fazendo não apenas os feitiços aprendidos no ano que passara na escola, mas alguns dos livros do ano seguinte. E quando as aulas recomeçassem, e os professores revisassem o conteúdo aprendido e ao longo do ano quando novos feitiços fossem ensinados a desvantagens de crianças nascidas trouxas seriam enormes. Agora ele poderia se incluir nesse grupo, pensou, como se viver com os Dursley já não fosse ruim o suficiente. Mas havia apenas um senão nessa conclusão.
— Terry eu compreendo a injustiça causada por essa "lei", mas como é possível então que sua mãe e minha mãe, segundo me disseram, tenham sido consideradas entre os melhores alunos do seu ano. — Questionou Harry.
Terry riu, movendo a cabeça de um lado para o outro.
— E essa Harry é a falha em suas teorias e planos. Quando crianças como minha mãe e sua mãe chegam a Hogwarts e se destacam, com as melhores notas e trabalho de varinha, suas teorias de superioridade puro-sangue se perde, e seus planos com essa "lei", — zombou Terry. — falham porque elas são muito inteligentes, determinadas e poderosas bruxas para deixar essa desvantagem impedi-las, infelizmente, não todas as crianças são tão inteligentes assim e algumas delas sofrem para acompanhar as aulas, principalmente o trabalho prático com a varinha. Quanto as crianças meios-sangues ou puros-sangues, nem todas também se beneficiam dessa lei, algumas porque seus pais seguem e defendem o Ministério e assim proíbem seus filhos de fazer magia, claro eles ainda podem fazer escondido, outras são preguiçosas, tendo crescido com a magia e muitas vezes se considerando superiores, que ninguém pode saber ou ter mais poder que eles, essas crianças não se esforçam, podem até usar magia fora da escola, mas não realmente estudam ou treinam.
Harry assentiu entendendo, fazia sentido, e ficou feliz ao pensar que sua mãe não se deixou abater por essa injustiça, será que poderia fazer o mesmo, se perguntou, será que poderia superar essa desvantagem e ser um bruxo tão bom quanto sua mãe, ele não se achava muito inteligente ou poderoso, mas determinação não lhe faltava. Ele se prometeu tentar, se sua mãe conseguira, ele tinha que respeitar sua memória dando o melhor de si.
— Entendi Terry, e na sua casa como é? — Perguntou curioso.
— Bem Harry, eu sou o filho mais velho dos meus pais, o primeiro a ir a Hogwarts, mas neste verão meus pais me disseram que durante os verões terei algumas horas de estudo por dia, para revisão e preparação para o próximo ano, e será apenas durante essas horas que poderei fazer magia, estudo e treinamento. No resto do tempo não terei autorização a não ser em alguma emergência.
— Isso é legal deles. — Disse Harry. — Me diga porque eles não gostam ou confiam no Ministério, além do que você já disse.
— Bem, a verdade é que enquanto essa injusta "lei" é significativa, não é a única nem a pior, eu acho. Começando com Hogwarts, quando os nascidos trouxas são informados sobre sua capacidade magica, eles são visitados por um professor da escola que lhes entrega sua carta, explica sobre a existência do nosso mundo, entrega um pequeno kit fornecido pelo Departamento de Educação do Ministério, que explica algumas regras e leis, alguns deveres e alguma informação básica sobre Hogwarts e suas aulas. O professor então acompanha o aluno e seus pais até o Beco Diagonal, onde eles são informados sobre o nosso dinheiro, fazem compras e depois a crianças vão para Hogwarts, começam a estudar diversos assuntos mágicos, mas entre eles não há uma única aula sobre a sociedade magica, costumes, regras, leis, tradições. O nascido trouxa chega quase que completamente ignorante, e tem que aprender toda uma cultura, a não ser que queira sempre se sentir um estranho, por conta própria.
— Mas, e as aulas de História, quer dizer, esses fatos não deveriam entrar nesta aula? — Perguntou confuso, e além disso, de que kit Terry estava falando, ele não recebera nenhum, mas antes de perguntar seu novo amigo continuou.
— Não vou explicar isso Harry, você vai ver por si mesmo quando tivermos nossa primeira aula de História, mas já te adianto que esse é um assunto que teremos que estudar por conta própria como minha mãe e provavelmente a sua fizeram. — Disse Terry e continuou. — Além dessa ausência de orientação, quando os alunos chegam ao terceiro e quinto ano existem algumas eletivas que você escolhe e acrescenta ao seu currículo, elas são importantes para você conseguir um emprego fora de Hogwarts, tanto quanto suas notas, quais aulas você faz garante a você esse ou aquele emprego, entende? Por exemplo, sem concluir Poções até o sétimo ano você não pode ser um Curandeiro ou um Auror.
— O que é um Auror? — Interrompeu Harry, o outro garoto tinha um jeito de explicar bem fácil de entender, mas essa palavra não tinha como imaginar o que fosse.
— Um Auror é o equivalente bruxo de um policial, — explicou Terry — como não temos forças militares, os aurores são treinados para trabalho criminal, mas também para combate e apoio a multidão e tudo o mais que você puder imaginar. É um trabalho muito importante e difícil, assim apenas os melhores conseguem entrar no treinamento e o treinamento é tão intenso que apenas poucos conseguem se formar e se tornarem aurores. — Completou.
Harry assentiu e não pode deixar de pensar que lhe parecia um trabalho muito legal.
— Por favor continue, desculpe interromper. — Disse timidamente.
— Não se desculpe Harry, sempre que tiver uma dúvida me pergunte, não saber algo não é muito bom se você quer se adaptar, e você não vai saber se você não perguntar ou ler, quer dizer além das pessoas, os livros também tem informações. — Respirando fundo Terry coçou o queixo. — Hum, onde eu estava... ah, já sei. Expliquei porque as eletivas que você escolhe são importantes, você compreendeu essa parte? Sim? Bom, então as eletivas do terceiro ano são divulgadas para todos os alunos, tanto nascidos trouxas, como puros-sangues ou mestiços como nós, mas as eletivas do quinto ano são oferecidos apenas para os puros-sangues, se você não é um nem fica sabendo sobre elas.
— Como? Não são todos informados? Como isso é possível? — Perguntou Harry, meio indignado e confuso.
— Essa informação não é de conhecimento público Harry, mas as famílias que se acham superiores por seu sangue-puro se casam apenas com outras famílias como elas e que tenham grande fortuna e negócios familiares, os casamentos arranjados nesse meio social é muito comum ainda, portanto as partir dos 16 anos eles acreditam que seus filhos devem ser preparados para assumir seus negócios de famílias, para representar suas famílias na Suprema Corte dos Bruxos, que é o equivalente ao Parlamento dos Trouxas, e em alguns casos para conseguir cargos importantes no Ministério da Magia, como os Chefes de Departamentos.
Terry suspirou, quando soubera dessas informações ficara chocado, até mesmo para ele, devido a quem era sua mãe, seria difícil conseguir chegar a cargos altos no Ministério.
— Então, a partir do sexto ano todas as crianças puros-sangues são convidadas, não é obrigatório, a participar de aulas eletivas todos os sábados de manhã. Há aulas de Direito, Economia, Administração, Etiqueta, Política, todas essas são aulas que reforçam o currículo de um puro-sangue que ao disputar um cargo com um mestiço tem uma vantagem impossível de vencer.
— Mas isso é muito injusto, porque não oferecer as aulas a todos? E se são apenas as famílias que se acreditam superiores, que defendem a política de Voldemort porque o Diretor Dumbledore ou o Ministro deixam isso acontecer? — Perguntou Harry indignado.
— Você disse o nome dele!? — Disse Terry tão chocado que nem estremeceu de medo ao ouvir o nome.
— Hã? Ah, bem é o nome dele, não é? Não entendi toda essa história de você-sabe-quem ou aquele-que-não-deve-ser-nomeado, sinceramente, não faz o menor sentido, cada vez que escuto isso parece que eu devia sentir medo ou ter algum tipo de respeito e eu com certeza não vou mostrar nem uma coisa nem outra para o assassino dos meus pais! — Disse Harry, seus olhos verdes brilhando com uma raiva fria.
Terry engoliu em seco diante do poder e da raiva nos olhos verdes, e agradeceu por ser amigo e não inimigo do outro menino. Suspirando tentou lembrar-se da pergunta feita antes, ah, sim, claro, uma boa pergunta, Harry se mostrava tímido e quieto, mas era obviamente muito inteligente.
— Você está certo Harry, essa história de hifens é um absurdo sem sentido, mas eu cresci ouvindo Vol... Volde...mort ser chamado assim e temido, vai demorar um pouco para me acostumar. — disse estremecendo, seu rosto moreno claro ficara estranhamente branco, a palidez não combinava com ele, pensou Harry — Bem, — pigarreou — respondendo sua pergunta, não são todas as famílias puros-sangues que defendem o ideal de pureza de sangue, existem alguns, os Weasley, por exemplo, que lutaram contra Volde... Voldemort... na guerra e são completamente contra esses ideais, e existem famílias puros-sangues que acreditam na superioridade dos sangues puros, mas se mantiveram neutros na guerra, os Greengrass, por exemplo, não lutaram nem de um lado nem de outro. Assim essas aulas são oferecidas a todas essas crianças, para nós dois que temos mães nascidas trouxas, não teremos acesso, não importa que nossos sobrenomes sejam de famílias magicas antigas importantes ou ricas, o que importa é nosso status de sangue. Agora porque isso é permitido, bem diversos motivos eu acho, desinteresse, preguiça, manter as tradições, falta de união, a verdade é que sozinho ninguém consegue mudar nada. Eu não sei se o Diretor Dumbledore tentou mudar as coisas, mas se fez desistiu. E claro o motivo mais importante, ninguém sabe! Papai como puro-sangue foi oferecido claro, fez aulas de Direito e Economia, ele estava em Gryffindor e tinha amigos mestiços e nascidos trouxas, e não entendia porque eles não estavam nas aulas, mas sempre que pensava em perguntar a eles, esquecia e ia fazer outra coisa. Quando ele tentou contar para a mamãe das aulas e perguntar quais ela fizera, o mesmo aconteceu, minha mãe é muito boa em magia e percebeu que ele havia sido fortemente amaldiçoado com um feitiço, ela tirou o feitiço e foram quando eles descobriram que os nascidos trouxas e mestiços nunca são oferecidos essas aulas, apenas puros-sangues e eles são enfeitiçados para nunca falar disso, e arrumar desculpas para onde estão nas horas das aulas. — Completou Terry meio enojado.
— Bem, mas se os mestiços têm uma "pequena" desvantagem no currículo ao disputar um emprego, para os nascidos trouxas é muito pior, eles podem se candidatar, mas nem são chamados para a entrevista devido ao seu status sanguíneo. Não importa suas notas, um nascido trouxa nunca consegue um cargo no Ministério maior do que faxineiro, ou recepcionista ou assistente, abrir um negócio, impossível, as taxas são tão altas que apenas se você for rico poderia pagar, mas para puros-sangues ou mestiços as taxas praticamente não existem. Eles não podem entrar para política, não conseguem cargos bem remunerados, não podem abrir um negócio, e não tem como se sustentarem com dignidade. Para nós também há muitas limitações, como eu disse nossos currículos são inferiores e enquanto conseguimos cargos melhores nunca seremos chefes de departamento, podemos tentar entrar para a política, mas para isso é necessário apoio da maioria na Suprema Corte e se você não tem uma política no mínimo na superfície contra os trouxas não te deixam ir a lugar nenhum. E além de tudo isso, não esqueça que os nascidos trouxas abandonam a educação normal quando veem para Hogwarts, quando terminam a educação magica e não conseguem bons trabalhos tentam voltar para o mundo trouxa em busca de um emprego, mas sem educação formal terminam em subempregos, alguns ainda piores do que os no mundo magico, mas ao menos lá não vivenciam a discriminação ou violência por causa do seu sangue. Muitos nascidos trouxas vão para o mundo normal depois de Hogwarts e muitos não voltam. — Disse Terry tristemente.
Harry é claro estava chocado, entendeu porque Terry disse que o Mundo Magico não é um sonho, pode imaginar uma garotinha de olhos verdes vindo a Hogwarts, deixando sua família, seus amigos, descobrindo um mundo incrível, lutando para se encaixar, estudando incansavelmente determinada a ser uma grande bruxa, para depois descobrir que na verdade nunca teria um lugar aqui. Pois todas essas manobras não eram nada mais do que uma maneira de expulsa-los do Mundo Magico, eles não puderam proibir que viessem a Hogwarts, mas com certeza estavam trabalhando duro para manda-los embora. Ele não tinha como saber se isso acontecera com sua mãe, mas ao menos podia perguntar ao Terry da dele.
— O que aconteceu com sua mãe quando ela deixou Hogwarts? — Disse seriamente. O clima no compartimento era sombrio, lá fora o sol da tarde avançava pelas colinas em direção ao oeste, a paisagem era de tirar o folego, mas não podia ser totalmente apreciada.
— Mamãe deixou Hogwarts com as melhores notas do seu ano de todas as casas, sua intenção era se candidatar ao Departamento de Ligações Trouxas, o Mundo Magico estava em plena guerra, era um tempo perigoso, mas ela queria fazer a diferença e achava que se ajudasse a melhor o entendimento que os bruxos tinham dos trouxas estaria fazendo algo para acabar com a guerra. Você sabe, vencer o preconceito com palavras e não violência como vovô Bunmi ensinou. Mas ela só conseguiu um cargo de recepcionista no Departamento e ficou muito decepcionada. Nesta época ela conheceu o papai, ele era 3 anos mais velho e já trabalhava no Departamento de Execução das Leis Magicas, vovô Boot também trabalhou lá, assim como todos os Boots desde que o Departamento foi criado. Eles se apaixonaram e noivaram, e logo depois o chefe do meu pai o chamou um dia e disse claramente que se ele se casasse com uma nascida trouxa seus status diminuiria e ele dificilmente conseguiria um cargo melhor ou casos mais importantes, papai claro, ficou furioso. Na mesma época uma colega do ano da mamãe, que tinha notas abissais foi contratada para o cargo que ela queria, a mulher era puro-sangue, mas não entendia nada de trouxas, na verdade os abominava. Foi quando minha mãe percebeu a discriminação, mas ela ainda queria persistir, portanto, tentou mostrar um bom trabalho, mas logo depois a guerra piorou, as pessoas estavam sendo mortas, nascidos trouxas, principalmente. Papai estava decepcionado com o próprio trabalho e preocupado com a segurança dela principalmente depois que eles se casaram, mas ela não queria ir embora, fugir, desistir, mamãe queria lutar. Foi só quando descobriram que estava gravida de mim que ela concordou e eles deixaram a Inglaterra, acabei nascendo na América e tinha quase dois anos quando a guerra acabou e então voltamos. Mamãe achou que seria um recomeço e as coisas mudariam, mas não foi o que aconteceu, as mesmas pessoas continuaram no poder, muitas que seguiram Voldemort e tinham matado pessoas saíram livres e não foram presas, — disse com raiva e amargura, havia uma certa tristeza em seus olhos também, percebeu Harry. — e quando tentaram verificar a política de contratação descobriram que seu status de sangue ainda contava.
— O que eles fizeram então?
— Papai vinha de uma família com dinheiro, não tanto quanto os Potters, mas o suficiente para abrir seu escritório e trabalhar como advogado, mamãe teve mais sorte que a maioria dos nascidos trouxas, vovô Bunmi como professor não permitiu que ela abandonasse sua educação normal e ele mesmo a ensinava durante os verões. Assim ela pôde fazer faculdade e trabalhar no mundo trouxa, e decidiu ser professora como vovô, ela dá aulas para adolescentes, mas quer fazer um Mestrado em História para dar aulas em Universidades também. — Encerrou Terry.
Depois sedento de tanto falar pegou mais suco e serviu para os dois, pegando um sanduiche cada um começou a comer, sentindo-se um pouco constrangido de ter falado tanto de sua família, não queria sobrecarregar o Harry, mas achava que fizera justamente isso.
— Sinto muito que isso tudo aconteceu com seu pais Terry, realmente é tudo muito injusto. — Disse mastigando lentamente seu sanduiche de frango, esse era seu preferido, sem dúvida.
— Tudo bem Harry, não é como se eles estivessem infelizes, mamãe adora ser professora e o papai diz que talvez um dia seu trabalho possa ajudar a mudar o mundo magico. Eles ficaram em silencio enquanto comiam, pensado sobre tudo, Harry em seus pais, se suas histórias foram parecidas com as dos pais de Terry, se sua mãe também fora discriminada e seu pai por se casar com ela. Se perguntou porque as pessoas não mudaram as coisas depois que Voldemort se fora e a guerra chegara ao fim, quer dizer, porque ninguém impedira, lutara, para mudar o que estava errado. Mas será que eles percebiam? Ele Harry, fascinado pelo mundo do seus pais, louco para se encaixar perceberia se Terry não tivesse lhe contado? Tantas perguntas, tantas dúvidas, havia muito mais a ser descoberto, pensou, Terry não lhe falara tudo, apostava que havia muito mais. E ele queria saber? Saber o ajudaria em que? Ele não poderia mudar nada, poderia? Mas seus pais estavam mortos, pensou, sentindo outra vez um peso desconhecido no estomago, seus pais morreram não apenas por causa desse preconceito idiota, mas lutando contra ele. Como poderia ele, Harry, seu filho não fazer o mesmo, não honrar suas memórias, como poderia encara-los um dia se simplesmente cruzasse os braços e não fizesse nada. Havia uma escolha, pensou, poderia se fazer de cego, surdo e desmemoriado, ou poderia ser corajoso e ajudar as pessoas, lutar por elas, mas ele faria isso de maneira inteligente, com palavras, com conhecimento e não com violência, decidiu.
Neste momento como se tomando coragem, Terry olhou para ele e delicadamente perguntou:
— Harry, eu não me importo de te contar todas essas coisas, mas eu não entendo, como é possível que você não soubesse sobre ser um bruxo e sobre o nosso mundo. Se não te incomodar você poderia me explicar?
Harry suspirou deixando os restos de seu sanduiche de lado, perdera o apetite, ele sabia que não conseguiria se livrar dessa pergunta uma segunda vez, mas ao mesmo tempo sentia que podia confiar em Terry, ele não o trairia, faria drama ou pior ficaria com pena dele. Assim, começou a contar a ele sua vida nos Dursley, não uma versão condensada que tinha planejado inicialmente, mas sim a história completa.
— ... e então, Hagrid, o Guardião das Chaves de Hogwarts, finalmente, me entregou minha carta, me contou que eu era um bruxo e a verdade sobre os meus pais e suas mortes e, no dia seguinte fomos ao Beco Diagonal para as compras. Mas tem uma coisa que você falou antes, sobre um kit de informações básicas para as crianças trouxas, Hagrid deve ter se esquecido de me dar, teria sido bom saber algumas coisas a mais sobre tudo sabe. — Disse Harry, cabisbaixo.
Ele estivera contando tudo, alternando entre olhar pela janela e para o seu colo, envergonhado de encarar o Terry, mas o silencio que se seguiu depois de terminar de falar o fez olhar para o outro menino. Terry estava olhando para ele com uma expressão esquisita, parecia como Dudley quando os professores tentavam explicar matemática, mas era estranho ver essa expressão no garoto inteligente, é como se a burrice não combinasse com seu rosto.
— Terry? Você está bem? — Harry perguntou, imaginado se de alguma maneira ele quebrara seu novo amigo. Isso pareceu traze-lo de volta, ele olhou para o Harry e depois moveu a cabeça em sinal negativo, seu rosto parecendo meio indignado, meio triste. Harry sentiu seu estomago despencar, será que o outro garoto depois de ouvir as coisas que os Dursley disseram dele não queria mais ser seu amigo? Ele não devia ter falado sobre o armário sob a escada pensou, nem sobre a tia Marge e seu cão idiota ou sobre não ter amigos e ser considerado um marginal pela vizinhança.
— Desculpe Harry, fiquei tão chocado com tudo que você me contou, é tudo tão sem sentido e absurdo que nem sei o que pensar e sinceramente, é chocante. Quero dizer, sabíamos aqui no Mundo Magico de você vivia com trouxas, e na verdade, como você é o último Potter fazia sentido que você fosse viver com sua família do lado de sua mãe, mas com certeza a maneira como eles te trataram, — Terry moveu a cabeça outra vez, não com pena, mas com raiva — ninguém merece isso Harry, nenhuma criança no mundo merece ser tratada dessa maneira por nenhum motivo e por ser um bruxo muito menos. Não é diferente de um bruxo maltratar uma criança trouxa apenas porque ela é trouxa, isso está errado, mas tão errado como é, isso ter acontecido com você, você Harry de todas as crianças bruxas que existem, isso é o mais chocante, entende? — perguntou Terry, parecendo angustiado.
Agora foi a vez de Harry parar surpreso pela reação de seu amigo, que ainda queria ser seu amigo, pensou aliviado, não esperara isso, essa indignação, compaixão e raiva, por ele, a declaração em alto e bom tom de que o que acontecera não apenas era errado, mas que Harry nunca fizera nada para merece-lo. Estranhamente comovido, Harry pigarreou, pensando em sua pergunta.
— Não, na verdade Terry, não entendo porque algo assim não poderia acontecer, pincipalmente comigo como você diz, quero dizer, depois que fui morar com minha tia não é como se houvesse alguém para ir me visitar e impedir, ou me contar a verdade de quem eu era e sobre os meus pais. Você mesmo disse que eu não tenho família magica deixada. — Disse Harry confuso.
Terry pareceu hesitar, seu conflito estava evidente em seu rosto e pela primeira vez ele passou a mão pelos cabelos deixando-os meio bagunçado e lhe dando um ar menos de menino cuidado pela mãe.
— Fale Terry. — Disse Harry impaciente, já fora mantido no escuro o suficiente, queria saber a verdade, e queria entender, agora mais do que nunca ele sabia que não poderia mais calar as perguntas como o obrigara a fazer os Dursley.
— Eu não sei Harry, isso é muito grande, muito importante e não sei se meus pensamentos estarão certos e não sei se devo lhe influenciar com eles, são apenas meus pensamentos, minhas opiniões. Você deve descobrir por si mesmo acho, e além disso não quero ser intrometido e insensível Harry, é sua vida e parece uma intrusão ficar aqui analisando tudo, sabe. — Completou ele meio acovardado, meio arrependido.
Sim, Harry sabia, encontra pessoas o suficiente ao longo da sua vida que pareciam olhar para ele, e perceber que ele precisava de ajuda, mas que depois recuavam, com medo de se intrometer, com receio de ter problemas para sim mesmo se estivessem errados. E o Harry de antes de entrar neste trem tinha sido complacente, aceitara suas covardias, seus olhares de desculpa, e seguira em frente com sua vida dura nos Dursley, resignado de que nada nunca mudaria, não havia ninguém para ajudar. Mas ele não era mais este Harry, ele não só descobrira nas últimas horas que ele merecia ser salvo como percebera que se não dissesse nada sobre isso a ajuda nunca chegaria. Dependia de si mesmo, pensou, lutar por mudanças, mas para isso ele precisava saber, entender. Assim, olhando para um Terry meio aterrorizado, disse seriamente.
— Você já me disse que devo pensar por mim mesmo, eu compreendo Terry, não vou me deixar influenciar por suas opiniões, mas você também me disse que sem todas as informações não se pode compreender, analisar e chegar as próprias conclusões. Diga Terry, me diga o que sabe e o que você pensa.
Terry, concordou é claro, como poderia não o fazer, talvez não fosse o mais corajoso amigo que Harry poderia ter, mas também não era um covarde e não ia desaponta-lo. Ele organizou seus pensamentos, nunca lhe parecera tão importante as palavras que deixariam seus lábios, Terry sendo tão inteligente percebia a grandiosidade desse momento, mas sabia que não poderia recuar. A ignorância, seu avô lhe dissera uma vez era a fonte de muitos males do mundo, muitas guerras ao longo da história, para Terry, a ignorância de Harry era um mau que precisava ser combatido, mas ele não poderia deixar de se perguntar contra quem exatamente eles estavam lutando.
— Bem Harry, na verdade eu não sei muito, o que eu tenho são apenas muitas perguntas, vamos começar falando sobre seus pais eu acho, vamos deixar de lado o fato de você ser, essencialmente, um herói no Mundo Magico, vamos deixar de lado o fato de você ser um Potter. Vamos analisar partes por partes, sua mãe era uma grande bruxa, muito talentosa e, segundo minha mãe, ela era...
— Espera, sua mãe conheceu minha mãe? — Interrompeu Harry surpreso.
— Sim, claro que sim, elas se conheceram em Hogwarts, não eram exatamente amigas, minha mãe era uma monitora do 5° ano quando seus pais começaram o 1° ano, papai já havia se formado, mas vovô conhecia socialmente seus avós, eu posso escrever para ele pedindo histórias sobre eles se você quiser. — Terry ao ver o olhar esperançoso e animado de Harry, percebeu emocionado com um caroço na garganta que com tudo o que lhe fora dito era obvio que Harry não sabia nada sobre seus pais, talvez nunca nem mesmo vira uma foto deles. Engolindo em seco, Terry tentou se concentrar, o importante era ajudar seu amigo agora, pensou. — Minha mãe me contou algumas coisas sobre seu pais, mas tenho certeza que ela poderá lhe contar muito mais Harry, pedirei para que te escreva pessoalmente. — Disse, pigarreando.
— Obrigada Terry, isso seria legal, se eles puderem é claro, não quero incomoda-los. — Harry tentou controlar o bater forte do coração com o pensamento de saber mais sobre seus pais.
— Não se preocupe Harry, eles não vão se importar, pelo contrário, tenho certeza que se sentirão felizes. Bem deixa eu te contar o que minha mãe me falou sobre seus pais. Seu pai, James era, segundo ela, um grande brincalhão, muito alegre e agitado vivia correndo por Hogwarts com seus amigos fazendo brincadeiras, se metendo em encrencas. Ela muitas vezes o pegou vagando fora do horário permitido para se estar fora de sua sala comunal, muitas vezes lhe tirou ponto por travessuras, e ele só sorria cheio de charme, foi isso que ela disse, todo charmoso, sorrindo feliz. — Disse Terry com uma risada. Harry engoliu o caroço de sua garganta, e tentou não derramar as lagrimas que lhe encheram os olhos.
— Sua mãe, assim como seu pai, estava na casa Gryffindor, e com a diferenças de casas e idades e com sua mãe sendo bem-comportada, elas não deveriam se conhecer, mas Lily Evans fazia parte junto com minha mãe do Clube de Feitiços, elas passaram muito tempo juntas no clube, e ela era brilhante. Não havia um único feitiço que sua mãe não pegava de primeira e ela tinha muito poder para que seus feitiços fossem os mais fortes. Além disso sua mãe era uma menina doce, atenta e acolhedora, tinha amigos em todas as casas, e não sabia preconceito. Mas também tinha um temperamento, se alguém a desafiasse ou a ofendesse, mamãe disse que ficava meio assustadora. — Disse Terry pensando que vira um pouco disso em Harry ainda mais cedo quando seus olhos pareciam fogo verde. — Mamãe não viu mais sua mãe depois que ela terminou Hogwarts, mas soube dela pelo Professor Flitwick, o chefe da casa Ravenclaw e também coordenador do Clube de Feitiços, ele lhe escreveu no ano em que sua mãe se formou e contou que ela fora a melhor aluna de Feitiços que ele ensinara e que ela poderia um dia substitui-lo como o Professor de Feitiços em Hogwarts com os olhos vendados, na verdade ele acreditava que ela era melhor que ele mesmo.
Harry não conseguiu conter algumas lagrimas que escorreram por seu rosto, mas também estava sorrindo, feliz por saber sobre seus pais e orgulhoso de que eles pareciam ser incríveis. Disfarçadamente, usou as mangas para enxugar o rosto, fungando baixinho, um pouco envergonhado, mas Terry não olhou para ele com pena ou nojo chamando-o de fraco, na verdade ele estava olhando pela janela, dando lhe, pensou Harry, tempo para se recompor sem plateia e nunca se sentiu tão grato por ter se sentado neste compartimento com um menino chamado Terry Boot.
Respirando fundo para controlar as emoções, Harry olhou para o outro garoto, pigarreando para afastar o constrangimento disse.
— Obrigada Terry, é muito bom ouvir coisas boas sobre eles, conhece-los, mesmo que seja pelos olhos de outros. Por favor continue o você estava dizendo antes de eu te interromper.
— Bem, na verdade tudo isso ajudou a contextualizar onde eu queria chegar. Harry, eu descrevi seus pais, alegres, animados, doces, talentosos, cercados de amigos. — Terry viu no rosto de Harry quando o entendimento começou a florescer, claro que para uma criança que nunca tivera amigos não lhe ocorrera pensar e se perguntar onde estavam os amigos de seus pais. — Temos, é claro, — continuou — que levar em consideração que aquela era uma época de guerra, que alguns talvez não sobreviveram, mas é difícil pensar que não havia um único amigo deixado, se não para assumir sua tutela, ao menos para te visitar e contar a verdade.
Harry concordou que isso era um pouco estranho, mas não pode deixar de pensar que talvez ele não fora tão querido como seus pais, que ninguém quis visitar e perder seu tempo em ajuda-lo. Terry pareceu perceber que ele não parecia convencido e continuou.
— Agora vamos pensar nas partes legais, seus pais eram não apenas inteligentes, mas brilhantes, e muito ricos e estavam lutando uma guerra, portanto, há de se supor com certeza absoluta que eles fizeram um testamento, você disse que você entrou em seu cofre de confiança em Gringotes, certo? — Harry assentiu e ele continuou — Isso quer dizer que você não tem acesso ao seu cofre de família.
— Espera, desculpa interromper, mas eu tenho outro cofre? Mas aquele já estava cheio!
— Cheio de moedas apenas, não é? Sim? Bem seu cofre de família estará mais fundo nas cavernas do banco, maior, mais cheio de moedas e com objetos também, joias, livros, armas, quadros, e um monte de outras coisas que pertenceram a seus antepassados.
Harry ficou chocado, porque ninguém lhe falara sobre isso, nem Hagrid ou alguém do Banco? Seria incrível se pudesse ver algumas dessas coisas, talvez houvesse algo dos seus pais lá. Ele perguntou isso para Terry que suspirou, bagunçando mais o cabelo, mais um pouco ficaria tão confuso quanto o do Harry.
— Chegaremos a isso em um instante, vamos falar sobre o testamento de seus pais, eles devem ter deixado toda a fortuna Potter para você e configuraram um cofre confiança para suas despesas do dia a dia, comidas, roupas, brinquedos, material escolar, o fato de estar tão cheio mostra que ele deve ter sido reabastecido anualmente e que nada foi tirado nesses anos todos. Se eles configuraram isto, também devem ter estabelecido uma data para você ter acesso ao cofre principal, normalmente seria com a maioridade, mas em muitos casos quando as famílias são antigas como a sua os pais podem deixar em testamento alguma idade anterior, 16, mesmo 15 anos.
— Talvez eles não tenham feito um testamento... — disse Harry hesitante, mas mesmo enquanto falava sabia que não era verdade, lembrava-se claramente de Hagrid lhe dizendo que Voldemort estava visando seus pais e que eles haviam se escondido, inteligentes como eram, deviam imaginar que poderiam não sobreviver a guerra e teriam acertado tudo antes de se esconder.
— Nem você acredita nisso Harry, — disse Terry lendo sua expressão. — Eles fizeram sim um testamento e além das questões financeiras, aposto que deixaram os nomes dos amigos que eles queriam que cuidassem de você caso o pior acontecesse. E aposto que depois de tudo que me disse sobre seus tios, que seus pais não os colocaram nesta lista. E você pode me dizer que toda a lista morreu, ou que quem sobreviveu não pode ou quis ficar com você e pode ser verdade, mas a questão é, e se não for assim, onde está o testamento, o que está escrito nele, onde estão esses amigos e porque nenhum visitou ou escreveu para você?
Harry assentiu pensando que essas eram todas boas perguntas, mas Terry continuou parecendo ter decidido que agora que começara a falar não se calaria e voltou a prestar atenção.
— Quanto a sua pergunta anterior, ninguém te falou sobre isso em Gringotes por que os Goblins não se importam, eles não ligam e não se envolvem nos assuntos bruxos, claro, eles vão até responder se você perguntar e se tem a ver com seus cofres, mas se você não perguntar entra sem saber e sai do mesmo jeito. E sobre o Hagrid, é obvio que ele não sabe, Harry, eu entendo que você gostou dele, afinal ele te tratou bem, contou lhe sobre ser um bruxo e parece ser um cara legal, mas o que raios ele estava fazendo lá? — Terry questionou impaciente. — Apenas os professores fazem essa visita para explicar a verdade para crianças nascidas trouxas, levam o kit, respondem a montes de perguntas, e depois de acompanhar a criança ao Beco respondem a ainda mais perguntas. Hagrid não é um professor e obviamente não sabe como apresentar uma criança ao mundo magico e nunca deve ter feito isso, principalmente, uma criança que precisava saber ainda mais informações do que qualquer outra. E não venha me dizer que quem o envio acreditava que você já soubesse do nosso mundo, Harry, dezenas de cartas foram enviadas e você não abriu uma única, isso por sim só deveria ter levado o Diretor até você, ou ao menos um professor. Você como todos os nascidos trouxas foi mal orientado, mas incrivelmente, você teve a pior orientação que poderia ter. — suspirando pesadamente, Terry continuou — Os testamentos são documentos mágicos Harry, quando seus pais faleceram esse documento entrou em vigor automaticamente, uma cópia deve estar em Gringotes e os Goblins colocaram em vigor todas as questões financeiras de imediato, provavelmente, eles só te procurarão quando você puder legalmente acessar seu cofre de família e lidar com os investimentos. Deve haver uma cópia nos advogados dos seus pais que deveriam chamar todos os listados no testamento para passar seu conteúdo e fazer valer sua vontade, não sei o que ou quem os impediu e, claro deve haver uma cópia no Ministério da Magia que observa e verifica que as questões das famílias antigas sejam mantidas bem cuidadas e o Departamento de Cuidados Infantis estaria atento que você estivesse com quem seus pais determinaram e seguro. — Terry suspirou parecendo triste — A verdade é que só alguém muito poderoso poderia impedir que todas essas coisas acontecessem, e essa mesma pessoa o colocou no Dursley, o deixou, como sua tia disse, na varanda sem lhe dar a chance de recusar ficar com você, essa mesma pessoa não se preocupou em verificar se estavam te tratando bem, essa mesma pessoa não se preocupou em ir te ensinar sobre quem você era e sobre a magia e mais importante, não te preparou para assumir seu lugar no Mundo Magico.
— Meu lugar? Como assim meu lugar? — Perguntou Harry que estava completamente chocado com tudo o que fora dito, mas ainda queria saber mais, entender mais, perguntar mais, sua mente estava um turbilhão e não se calaria.
— E aqui Harry entramos nas questões que deixei de lado, vamos primeiro falar sobre você ser um Potter, não vou entrar em detalhes, até porque não sei muita coisa. Algumas dessas coisas são passadas de pai para filho, mas as famílias antigas têm livros que passam a história e feitiços especiais da família para seus herdeiros, no caso de o pai do herdeiro morrer cedo, como aconteceu com você. Tem vários nomes, na minha família é chamado de Livros de Leis dos Boot, conta em mais detalhes sobre os negócios da minha, que é basicamente leis, mas tem também alguns feitiços inventados por algum Boot, apenas eu e meus irmãos podem ler e nossos futuros herdeiros. Esses livros são importantes para conhecermos nossa história e nos prepararmos para representar nossa casa, a casa Boot não é tão antiga ou rica, mas ainda temos tradições e temos que agir com respeito a elas, nada absurdo, mas ainda que não me permitem ridicularizar minha família. Você, Harry, crescendo sem seu pai, deveria ter tido acesso a esses livros e ensinado por seu tutor magico quais eram todas essas coisas que fazem um Potter um Potter, acredite que todos estarão esperando que você mostre respeito a sua casa.
Harry engoliu em seco, um pouco em pânico, não entendia, o que se esperava dele? O que ele tinha que fazer para não envergonhar seu nome? E porque ninguém lhe dissera sobre isso antes para ele se preparar? Não, pensou, absolutamente irritado, ele tivera que ficar mofando nos Dursley, cozinhando, limpando, podando e carpindo, tratado como um verme asqueroso e inútil. Quem, quem era responsável por isso?
— Bem, e não vamos esquecer o fato de você ser o menino-que-viveu...
— Não me importo com isso, não quero tratamento especial por causa disso, não me lembro e meus pais foram mortos, o que torna seja lá o que aconteceu uma tragédia para mim e não algo para ser celebrado. — Disse Harry, bruscamente.
— Concordo com o pensamento Harry e na verdade não é com seus fãs e adoradores que estou preocupado e sim com seus muitos inimigos. — Terry nunca pareceu tão sério como nesse momento, sombrio até. — Eu lhe disse Harry, muitos seguidores de Volde... mort nunca foram julgados ou presos, literalmente, pagaram por suas liberdades, eles foram chamados de Comensais da Morte, assassinos, cruéis como seu Lord, mataram e ainda estão livres para pregar e manter as ideologias puros sangues, muitos trabalham no Ministério, muitos frequentam jantares chiques na casa do Ministro da Magia, muito tem filhos vindo para Hogwarts neste momento estudar com você. Você Harry, é aquele que matou seu líder, aquele aclamado como herói, aquele a quem com certeza eles odeiam e ficariam muito felizes de se vingarem. A pessoa que te impediu de sua herança, de saber quem você é, também não te preparou para se defender Harry, se você tivesse tido as mesmas aulas que eu estaria razoavelmente preparado, mas com o que e quem você terá que enfrentar deveria ter sido ensinado muito mais. Você neste momento é um gatinho entrando em uma toca de lobos Harry.
Harry não teve tempo de analisar esta verdade assustadora, pois neste momento a porta do compartimento se abriu bruscamente e a menina de cabelos cacheados e dentuça apareceu.
— Oi, vocês precisam colocar suas vestes, conversei com o maquinista e chegaremos em meia hora. Neville ainda não encontrou o seu sapo, vocês não o viram? — Perguntou, mas antes que pudessem responder ela continuou. — Algumas crianças têm se comportado mal lá para trás correndo pelos corredores e dois garotos estava brigando, nem chegamos na escola e já estarão em apuros. _ ela falou tudo de uma vez e bem rápido e terminou com um suspiro chateada.
— Hum..., desculpa, mas como você se chama? — Perguntou Terry, um pouco assombrado pela garota.
— Ah, desculpa, meu nome é Hermione Granger, ninguém na minha família tem magia, eu fiquei muito surpresa quando a Professora McGonagall trouxe minha carta, mas então ela explicou tudo para mim e meus pais e depois me indicou um monte de livros complementares para mim me preparar, quer dizer li todos os livros do curso de cor, mas suas indicações e explicações ajudaram muito. Estou muito excitada, acho que é por isso que não consigo ficar parada ou parar de falar. — Completou outra vez em um só folego.
— Ok, isso faz mais sentido agora, — sorriu Terry — eu sou Terry e esse é Harry, porque não deixa a gente se trocar antes de chegarmos. Podemos conversar mais depois, talvez estaremos na mesma casa. — Disse animadamente.
_ Oh sim, eu espero estar na Gryffindor, mas a Ravenclaw parece muito bom também, vou procurar o Neville, ele estava um pouco assustado com a classificação, talvez vocês possam tranquiliza-lo. — Disse com um sorriso brilhante e saiu rapidamente pelo corredor.
— Bem, está explicado porque ela parece ter ingerido 10 litros de cafeína, — disse Terry, pegando suas vestes, Harry fez o mesmo e rapidamente eles se trocaram, olhando para fora a escuridão havia caído completamente, não se via mais nada.
Neste momento o trem diminuiu a velocidade, uma voz disse para deixar suas coisas a bordo, hesitante Harry olhou para Edwiges.
— Não se preocupe, o elfos domésticos cuidarão bem dela e da nossa bagagem, vamos lá, nós chegamos. — Disse excitadamente Terry.
E eles tinham, o trem parou e eles seguiram pelo corredor até as portas que se abriram, ao descer Harry ouviu uma voz conhecida gritar sobre o barulho da multidão.
— Primeiros anos! Aqui! Primeiros anos aqui comigo! — Gritou Hagrid.
Vendo-o, Harry não soube o que pensar, não achava que o bondoso gigante faria qualquer coisa para prejudica-lo, intencionalmente, mas havia muitas perguntas, e poucas respostas e Hagrid era apenas mais uma. Ele chegou até o Guardião com Terry e acompanhou os primeiros anos pela trilha escura e íngreme, podia sentir Neville tremendo as suas costas, Terry animado e a garota Hermione saltando excitada. Mas ele não sabia o que estava sentindo, e quando parou junto com os outros para olhar o magnifico castelo, percebeu que era o sentimento que ele associava a sua vontade de não deixar os Dursley quebra-lo, era teimosia, determinação, raiva, um pouco de medo e tristeza também.
Aqui, pensou Harry, aqui era o seu lugar e ninguém, não importava quem fosse iria impedi-lo de sua herança, de seus direitos, de sua magia. Ele aprenderia, e aprenderia e se tornaria o melhor bruxo possível, deixaria seus pais orgulhosos, ele lutaria para mudar as coisas como eles haviam lutado, para que suas mortes não tenham sido em vão. Eles esperavam, ao mantê-lo na ignorância que ele fosse um gatinho fácil de destruir, manipular, bem eles iam ter uma grande surpresa.
