Capítulo 32
Durante os segundos em que a verdade de sua ingenuidade se tornou clara, Harry ficou paralisado com o olhar fixo em Quirrell que se movia em volta do espelho falando sozinho sem notá-lo. Respirando fundo, silenciosamente, Harry se forçou a deixar todos os pensamentos de lado e focar em sobreviver a sua primeira grande batalha. Reforçando sua oclumência ele deu alguns passos à frente e tomou a iniciativa.
— Olá, professor. — Disse ele calmamente segurando sua varinha displicentemente ao longo do corpo.
Quirrell se virou e sorriu. Seu rosto não tinha nenhum tique.
— Estive me perguntando se você apareceria, Potter. — Disse um pouco debochado. — Depois de seu pequeno ato na Floresta tinha a esperança de poder liquidá-lo antes de deixar Hogwarts com a Pedra Filosofal para o meu mestre.
Harry sorriu e o olhou com o mesmo ar de deboche.
— Quirrell, nós dois sabemos que você não vai sair vivo dessa sala e muito menos da escola, as chances de você chegar até seu mestre com a Pedra são ainda mais pífias. — Disse ele com muito mais segurança do que sentia, mas em uma batalha você não mostra medo, insegurança ou confusão.
Quirrell deu uma gargalhada e com um estalo cordas voaram na direção de Harry que com grande agilidade se afastou para o lado enquanto erguia a varinha.
— Incendio! — Gritou e as cordas se desfizeram nas chamas. — Quanta agressividade, professor, não gosta de conversar? Ou não gosta de ouvir a verdade? — Disse ele ainda sorrindo.
Quirrell o olhou zangado, mas depois relaxou com um sorriso frio.
— Muito bem, você quer conversar? Porque não me conta como descobriu que eu estaria aqui? Você não parecia surpreso em me ver como se soubesse que era eu o ladrão da Pedra. — Disse ele caminhando mais perto, Harry não se moveu ou mostrou desconforto.
— Bem, to...da eessaa gag...guei...ra, desculpe professor, mas não convenceu. E não vamos esquecer do troll, hum... esse foi um movimento bem tolo e então Hagrid realiza seu grande sonho e consegue um ovo de dragão, raro e valioso, em um jogo de cartas em um bar onde ele acaba sempre bêbado. — Harry moveu a cabeça negativamente e mostrou certa pena. — Um plano absurdo e exagerado, óbvio mesmo. E hoje o diretor deixa Hogwarts para Londres e eu pensei, olha só, Quirrell finalmente resolveu agir. E pronto, cá estou.
— Mas todas essas coisas, menos a gagueira, poderiam ter sido feitos por qualquer outro, como você chegou à conclusão de que eu sou o autor? — Disse ele dando mais uns passos em sua direção, Harry sorriu e displicentemente, se moveu lateralmente ao ter uma ideia e planejando seus próximos movimentos.
— Essa é uma boa pergunta e na verdade Snape era um bom candidato, com seu ódio por meu pai e clara aversão por minha pessoa. E ele com seu jeito de morcegão andando por aí e maltratando todo mundo faz o tipo, mas existem alguns detalhes que na hora de deduzir deixou claro quem era o ladrão. — Explicou Harry mantendo os olhos fixos em Quirrell para o caso de ele se cansar da conversa e atacar.
— E que detalhes são esses? — Perguntou Quirrell curioso dando outro passo para frente e Harry aumentando o sorriso deu outro passo para o lado, como se eles estivessem dançando.
— Bem, o dia em que nos conhecemos no Beco, por exemplo, o Gringotes foi roubado naquele dia e eu estava com Hagrid quando o cofre foi esvaziado, imagine, a Pedra Filosofal bem ali durante todos as horas em que fiz minhas compras escolares. — Harry mostrou uma expressão de assombro debochado e depois continuou. — E não vamos esquecer do dia em que atacou minha vassoura, sabemos que Snape não pode me atacar por causa do juramento e você era o único que não estava no camarote dos professores, apesar de ter estado lá no início do jogo. E claro, o mais flagrante, no dia do ataque do troll eu estava na enfermaria e imagine minha surpresa quando o ouvi, sem gagueira alguma, conversando com o ser fedorento e o levando para o Grande Salão. Muitos furos, na verdade, acredito que se pudesse lhe dar uma nota, seria T, de troll. — Harry riu suavemente.
Harry viu Quirrell ficar vermelho de raiva e apertar sua varinha com mais firmeza e preparou-se.
— E porque você não contou a...
— Chega... Ele está ganhando tempo... Seu tolo... Consiga a Pedra... — Disse uma voz fria de pesadelos que parecia vir do próprio Quirrell.
— Sim, mestre. — Disse Quirrell e se aproximou do espelho o olhando com cobiça.
Harry que havia se aproximado do espelho, mas não o suficiente deu dois passos mais, Quirrell percebeu e apontou sua varinha.
— Nem mais um passo ou acabarei com você agora mesmo, se quer viver mais um pouco se mantenha quieto enquanto consigo a Pedra para o meu mestre e prometo que o matarei com misericórdia, rápido e sem dor. — Disse ele e Harry parou, não por causa da ameaça ou promessa, mas porque ainda não era o momento para começar a inevitável luta.
— A Pedra está escondida neste espelho, eu a vejo... e me vejo a apresentando ao meu mestre..., mas onde é que ela está? — Murmurou Quirrell, batendo de leve na moldura. — Pode-se confiar em Dumbledore para inventar uma coisa dessas..., mas ele está em Londres... E estarei bem longe quando voltar.
— Dumbledore está longe, mas ele não é o único que pode detê-lo, existem outros professores poderosos em Hogwarts. — Disse Harry tentando distrai-lo do espelho.
Quirrell riu e o olhou com expressão de pena.
— Um deles já tentou, acredito que terei o prazer de ser o primeiro a lhe informar que seu querido chefe de casa está morto. Eu o matei mais cedo quando tentou se interpor em meu caminho, assim como matarei você em breve. — Disse Quirrell com grande prazer, logo se virou para o espelho e não viu a expressão de raiva no rosto de Harry e nenhuma surpresa. — Como se uma meia raça imunda poderia me deter quando tenho Lord Voldemort do meu lado...
Harry engoliu a raiva e vontade de enfeitiçá-lo e se concentrou nas informações que ele lhe dera, ainda sem entender como a voz de Voldemort soara da câmara a alguns instantes.
— Como você o conheceu? Voldemort? Pelo que sei seus seguidores o abandonaram quando perdeu seus poderes, muitos acreditam que ele está morto. — Harry perguntou mostrando sua sincera curiosidade.
Quirrell deu a volta no espelho examinando e batendo com sua varinha na moldura, murmurando, Harry achou que ele não responderia, mas se enganou.
–– Conheci-o quando estava viajando pelo mundo. Eu era um rapaz tolo naquela época, cheio de ideias ridículas sobre o bem e o mal. Lord Voldemort me mostrou como eu estava errado. Não existe bem nem mal, só existe o poder e aqueles que são demasiado fracos para o desejarem... Desde então, eu o tenho servido com fidelidade, embora o desaponte muitas vezes. Por isso tem precisado ser muito severo comigo. — Quirrell estremeceu de repente. — Não perdoa erros com muita facilidade. Quando não consegui roubar a pedra de Gringotes, ele ficou muito aborrecido. Me castigou... resolveu me vigiar mais de perto...
A voz de Quirrell foi morrendo e ele praguejou baixinho.
— Eu não entendo... a Pedra está dentro do espelho? Devo quebrá-lo? — Disse pensativo, mais uma vez rodeando o espelho.
Vigiando de perto? O que exatamente isso quer dizer? Dando mais uns passos para frente Harry se colocou em frente ao espelho, segurou a varinha com firmeza e olhou sabendo que veria seu maior desejo, a localização da pedra ou uma maneira de mantê-la segura. Quirrell não o percebeu no começo, mas, quando viu seu reflexo no espelho, se virou furioso.
— Potter! Afaste-se, eu já disse! — E levantou a varinha, mas a voz soou outra vez.
— Não... Use-o.… use o menino para pegar a Pedra...
— Não estou interessado em ser usado para te ajudar Voldemort. E por que não aparece? Acredito que já conversei com seu capacho o suficiente. — Disse ele resolutamente.
Harry sentiu uma forte magia tentar invadir sua mente e ele pediu a sua magia que o afastasse, não lhe dando acesso nem mesmo a pensamentos superficiais, não queria o assassino de seus pais dentro de sua mente. Sua magia, forte e protetora o atendeu lutando bravamente e mantendo-se impenetrável.
Isso durou alguns segundos quando a voz alta e fria tornou a falar.
— Deixe-me falar com ele... cara a cara...
— Mestre, o senhor está muito enfraquecido!
— Estou forte... para isso...
Harry não fazia ideia de aonde Voldemort surgiria e ficou completamente chocado quando viu Quirrell erguer os braços e começar a desenrolar o turbante. O que raios ele estava fazendo? O turbante caiu. A cabeça de Quirrell parecia estranhamente pequena sem ele. Então ele virou de costas sem sair do lugar. Harry empalideceu com o que viu e sentiu a bile de asco e pavor subir a sua garganta. Onde deveria estar a parte de trás da cabeça de Quirrell, havia um rosto, o rosto mais horrível que Harry já vira.
Era branco-giz com intensos olhos vermelhos e fendas no lugar das narinas, como uma cobra.
— Harry Potter... — falou o rosto.
Harry apertou com firmeza a varinha e se forçou a se acalmar.
— Está vendo no que me transformei? — Disse Voldemort. — Apenas uma sombra vaporosa... Só tenho forma quando posso compartir o corpo de alguém..., mas sempre houve gente disposta a me deixar entrar no seu coração e na sua mente... O sangue do unicórnio me fortaleceria nessas últimas semanas... meu servo fiel Quirrell esteve bebendo-o por mim na floresta..., mas alguém nos impediu em nossa última caça e tivemos que adiantar o roubo da Pedra…, mas uma vez que eu tenha o elixir da vida, poderei criar um corpo só meu... Agora... por que você não é um bom menino e me ajuda a consegui-la?
— E porque eu faria isso? Por pena do seu estado? Talvez em agradecimento por ter assassinado meus pais. — Disse Harry com uma raiva fria que estranhamente o tornou ainda mais calmo.
— Não seja tolo — rosnou o rosto. — É melhor salvar sua vida e se unir a mim... ou vai ter o mesmo fim dos seus pais... Eles morreram suplicando piedade...
Harry riu levemente e se moveu buscando a posição para seu plano, Voldemort o espelhou distraidamente.
— Isso é o melhor que você tem para me provocar? Uma óbvia mentira sobre meus pais? Patético. — Disse Harry dançado com um Quirrell de costas e tentou ignorar a bizarrice desse fato.
Voldemort não se zangou com a sua provocação, seu rosto malvado sorriu.
— Que interessante... — sibilou. — Sempre dei valor à inteligência e coragem... E você parece ter eles de sobra, herdados de seu pais... É, menino, seus pais foram corajosos... Matei seu pai primeiro e ele me enfrentou com coragem..., mas sua mãe não precisava ter morrido... estava tentando protegê-lo... Me ajude e deixarei que viva, a não ser que queira que sua morte tenha sido em vão...
Isso desconcertou Harry, completamente, disfarçando ele sorriu e moveu a cabeça negativamente.
— Mais mentiras, é assim que consegue servos tão fieis? Com mentiras e ameaças e eles são tolos em segui-lo? Ah, mas eles o abandonaram, talvez tenham percebido que você não era mais que uma fraude com palavras doces. — Disse Harry que refletindo rapidamente sobre o que ouvira decidiu cutucar seu ego. — Afinal um bebê de 15 meses o derrotou...
— Garoto tolo... Acha que tem alguma chance contra Voldemort... Você nunca me derrotou... sua mãe, poderosa e talentosa... eu a teria deixado viver por isso, apesar de seu sangue imundo... Ela se recusou a se afastar e então eu a matei... Em frente ao seu berço e você tão patético não pode me impedir…, mas seu sacrifício criou uma proteção, magia antiga... Eu fui tolo, não previ isso... Quando virei minha varinha para você a maldição ricocheteou e destruiu meu corpo... Dor foi tudo o que senti desde então... Até que o fiel Quirrell me encontrou... Ele será grandemente recompensado por seus serviços...
— Por sua servidão você quer dizer, já entendi que você quer servos, escravos e pelo que soube estava muito perto de vencer a guerra a quase 11 anos. E de repente decidiu matar um bebê e perseguiu meus pais obsessivamente até encontrá-los por isso? E quer que eu acredite nisso? — Disse Harry sentindo um frio estranho atravessar seu coração. — Acho que você estava com medo dos meus pais, eles eram poderosos, mais jovens que você e poderiam vencê-lo, cedo ou tarde. Não foi? Você percebeu que eles eram mais poderosos e agora inventa essa história para não admitir aos seus escravos que seu mestre é fraco. — Harry cuspiu a última parte com todo o nojo que conseguiu reunir.
Os olhos vermelhos brilharam de malícia como se estivesse satisfeito com a reação de Harry ou por saber algo que ele não sabia.
— Então Dumbledore não lhe contou... Imagino que o velho tolo o ache muito jovem para saber a verdade…, mas posso lhe contar, porque não... Assim você morre sabendo que a culpa da morte dos seus pais é sua... Houve uma profecia... sobre uma criança nascida no fim de julho... Que seu pais me desafiaram três vezes e ela teria o poder de me derrotar...
Harry ficou ainda mais pálido e não conseguiu disfarçar o choque, sabia que Voldemort não mentia, mas ainda assim a necessidade quase infantil de negar prevaleceu.
— Mentira, isso é mentira, você está inventando. — Disse ele com voz rouca de dor e Voldemort riu satisfeito. Um riso estranhamente familiar.
— Não minto menino tolo... Voldemort não teme ninguém... Decidi matá-lo apenas para acabar com as esperanças de Dumbledore e a sua Ordem patética... Meu comensal espionava o diretor e ouviu quando a profecia foi feita... Ele não ouviu toda a profecia... um erro do qual o farei pagar dolorosamente... Quando tiver meu corpo irei conseguir a informação no Ministério e entenderei... Ainda que você já estará morto e não fará diferença...
— Quer dizer que uma profecia foi feita que uma criança teria o poder de derrotá-lo e essa criança sou eu? — Harry perguntou pensativo e se esforçando em esconder sua dor, não queria lhe dar essa satisfação.
— Poderia ser você ou aquele patético Longbottom, seus pais também eram atrevidos... Mas, não tão poderosos quanto os seus pais, apesar de serem aurores... Eu o escolhi porque, como eu, você é um mestiço e senti que seria o mais forte por sua história familiar... Os Potters são muito conhecidos por seu poder…, mas eu pretendia matar o garoto aborto também... Apenas você foi mais fácil encontrar graças a Rabicho... Talvez já tenha sido informado da traição do amigo de seu pai, o rato...
Voldemort concluiu com um riso frio e de repente Harry reconheceu ele de seus pesadelos. Afastando esse pensamento para mais tarde ele se forçou a se concentrar em seus planos, dando o último passo para a posição.
— Eu sei o que deve dizer a profecia. — Disse ele seriamente e depois o encarou nos olhos vermelhos. — Deve dizer, "não mate seus pais Voldemort ou você terá um grande inimigo" ou talvez, "além de poder para derrotá-lo ele vai ter a sede de os vingar e destruí-lo" quem sabe, "ele não vai descansar enquanto não o fizer pagar por matar seus pais". — Harry levantou a varinha, pronto para lutar.
— Acha que o temo menino... Vou destruí-lo e expor seu corpo para todos saberem que ninguém pode derrotar Voldemort...
Mas Harry estava cansado de sua voz e seu discurso narcisista e gritou:
— Então lute! E me dê o prazer de cumprir aquela maldita profecia.
E Voldemort fez o que ele esperava, começou a se virar para que Quirrell com os braços e varinha pudesse lutar e Harry se aproveitou da oportunidade.
— Accio Quirrell! — E no momento em que o homem, a poucos metros de distância, ainda de costas e meio de lado voou em sua direção Harry posicionado em frente ao espelho esperou, esperou e se afastou levemente sentindo o vento provocado por seu corpo passar por ele e em seguida o barulho ensurdecedor do seu encontro com o espelho.
Harry observou enquanto Quirrell e espelho voavam vários metros à frente, até atingir o chão e rolar mais alguns metros pela força do feitiço. Sem perda de tempo ele murmurou um "Wingardium leviosa" e fez o espelho flutuar alguns centímetros do chão. Enquanto isso meio trôpego, Quirrell se levantou do chão, estava com alguns arranhões e a veste uma bagunça, seu olhar era de profundo ódio.
— Você vai pagar por isso Potter, vou te matar bem devagar e dolorosamente. — Disse ele dando alguns passos em sua direção.
Harry sorriu satisfeito quando ele caminhou para onde o queria.
— Que coincidência engraçada, eu estava pensando a mesma coisa. — E com um movimento e intenção pediu a magia que erguesse o espelho e quando ele estava na altura do peito de Quirrell, Harry soltou o feitiço de levitação e rapidamente gritou. — Depulso! Depulso! — O primeiro feitiço jogou o espelho em Quirrell com violência, mas o segundo jogou Quirrell e o espelho na direção da parede de pedra.
O estrondo foi ainda mais ensurdecedor porquê dessa vez o espelho se quebrou e Harry tomado por fúria fria não hesitou em tentar esmagá-los. Homem e espelho.
— Depulso! Reducto! — Gritou e se aproximou vendo que Quirrell estava inconsciente e com cortes numerosos por toda parte do corpo, causados pelo espelho que se espatifara. Sua varinha estava no chão ao seu lado quebrada em vários pedaços.
Quando se preparava a continuar atacando até ter certeza que Quirrell estava morto, uma onda de magia explodiu em sua direção e Harry se viu voando e girando, enquanto caia desejou desesperadamente a sua magia que o protegesse da queda, mas ela ainda aconteceu. Batendo com força de costas no chão, Harry deslizou pelas pedras ásperas segurando sua varinha com força e quando parou sem fôlego e tomado pela dor encarou o teto da câmara. Quando ouviu passos se forçou a erguer a cabeça e o tronco apesar da dor e viu Quirrell andar de costas em sua direção, os olhos vermelhos raivosos o encaravam e seu rosto antes feio agora estava grotesco por ter sido esmagado contra a parede.
— Você morrerá e depois matarei cada um de seus amigos...
— Por favor, nós sabemos que quem vai morrer aqui não sou eu e nem você, mas seu patético servo. — Harry o cortou enquanto se levantava dolorosamente. — Estou muito cansado e dolorido para ouvir seu discurso, e você, Voldemort é um grande egocêntrico para ouvir qualquer um, assim, te pouparei do meu.
Ele parou a uns três metros de distância e se encararam, analisando a verdade de suas palavras e por fim ele sorriu.
— Você está certo Harry Potter... Eu gosto de sua inteligência e coragem... Um dia será um poderoso bruxo como seus pais foram... Junte-se a mim e poderemos governar esse mundo de fracos, juntos….
— Agora que você me deu a informação de que tenho o poder de derrotá-lo? Por que me uniria a você? Voldemort, nós dois sabemos que você já cumpriu a profecia, você me criou... — Harry sorriu friamente e deu um passo mais perto. — Você escolheu seu inimigo e seu futuro carrasco e eu vou adorar vê-lo gritar por misericórdia.
— Garoto atrevido vou... — Mas ele se interrompeu e se virou bruscamente, pego de surpresa Harry não conseguiu erguer a varinha para se proteger quando um Quirrell consciente e possesso saltou na sua direção.
Furioso consigo mesmo por baixar a guarda Harry mais uma vez bateu as costas dolorosamente no chão com o homem enraivecido sobre ele. Na batida sua varinha se soltou de sua mão e Quirrell agarrou seu pescoço tentando estrangulá-lo. Harry sentiu uma dor excruciante em sua cicatriz, mas logo Quirrell o soltou com um grito aterrorizante.
— Ahhhhhhhhh. Estão queimando, mestre, minhas mãos.
— Mate-o... mate-o...
Tonto pela dor Harry tateou para encontrar a varinha e tentou desalojar o homem ferido de cima dele, mas não conseguiu nem um nem outro e quando Quirrell voltou a apertar seu pescoço os dois gritaram juntos pela dor que sentiam, ainda que seu grito saísse abafado por causa do estrangulamento.
— Minhas mãos mestre... — Quirrell chorava pateticamente com sangue escorrendo por seus inúmeros ferimentos e as mãos em carne viva e, finalmente, Harry entendeu que a queimadura vinha de quando ele tocava sua pele.
Sem hesitar ele levou as duas mãos ao seu rosto e pescoço que já estavam uma bagunça e o homem gritou ainda mais pela dor terrível, mas Harry percebeu que a dor em sua cicatriz parecia querer tirar seus sentidos de tão forte.
— Ahhh, mestre... Queima... Me ajude mestre...
— A varinha... Pegue a varinha... — A voz de Voldemort saiu mais fraca, mas Harry não sabia se era por que estava quase inconsciente.
Harry viu Quirrell pegar sua varinha e a erguer na sua direção, mas ele agarrou sua mão queimando-o e esperando que ele soltasse a varinha pela dor, mas tudo o que conseguiu foi desviar a ponta da varinha para a entrada da câmara. Os dois lutaram por alguns segundos, disputando a varinha e foi quando o caos se fez presente.
Com gritos de "Harry! ", "Harry, estamos aqui", e "Solta ele! ", seus amigos, Terry, Hermione e Neville apareceram seguidos de perto por Penny, Fred e George. Todos tinham uma expressão feroz e preocupada, mas tudo o que Harry podia ver, de ponta cabeça, era sua varinha apontada para eles. Quirrell também percebeu e gritou.
— Confringo!
— Aguamenti! — Harry gritou ao mesmo tempo e ficou aliviado quando sua varinha o obedeceu e um jato de água vou na direção das escadas.
Sabendo o que fazer Harry segurou seu punho com a duas mãos, ignorou seus gritos de dor, seu pulso queimado em carne viva e a própria dor e usando todas a suas forças apontou sua varinha para o pescoço de Quirrell e sem hesitar, gritou:
— Confringo! — E nem ficou chocado quando sua cabeça explodiu enviando sangue, cérebro e crânio para todos os lados.
Mas quando o corpo sem cabeça começou a cair sobre ele, Harry tentou se afastar se arrastando pelo chão de pedra, desesperadamente, mas sabia que não conseguiria e foi quando George e Neville o puxaram com força e o colocaram sobre seus pés. Com um grito de alivio e dor, Harry cambaleou e olhou em volta procurando perigo, sua varinha, precisava de sua varinha.
— Aqui. — Disse Fred colocando-a em sua mão, Harry nem percebera que estava gritando pedindo por ela.
Aliviado e respirando fundo para se controlar ele olhou em volta procurando.
— Está tudo bem Harry, já acabou, Quirrell está morto. — Disse Penny suavemente e Harry a encarou percebendo que eles não sabiam, não entendiam.
— Não, Quirrell está morto, mas Voldemort está aqui também, fiquem todos a postos, peguem suas varinhas. — Seus amigos obedeceram e se colocaram ao seu lado, mas ele pode ver que Penny, George e Fred pareciam pensar que ele enlouquecera. — Façam o que eu mandei. Agora! — Ele gritou e os viu obedecerem muito chocados.
Harry observou em volta e finalmente viu um espectro deixando o corpo de Quirrell. Sem ter a menor ideia do que fazer com algo sem corpo e temendo por seus amigos, Harry deu um passo à frente.
— Vá embora Voldemort, você perdeu, mas hoje ainda não é o dia em que vou te matar. — Disse ele mais corajoso do que se sentia, na verdade tinha a sensação que ia desmaiar a qualquer momento.
— Você pagará por isso Harry Potter... Aguarde, retornarei e destruirei tudo o que ama... O farei temer e respeitar Voldemort...
Harry sentiu seus amigos tensos e ouviu exclamações de surpresa e choque.
— Vá embora. — Falou em firmeza e felizmente viu o espectro deixar a câmara.
Sem forças ele cambaleou e antes de cair Terry o agarrou de um lado, Neville do outro.
— Tudo bem, estou bem, apenas muito cansado, acho que vou desmaiar. — Sussurrou ele sem perceber que estava em choque.
— Vamos te levar daqui, vamos te levar para Madame Pomfrey. — Disse Terry com voz embargada.
— Sim, Harry, você vai ficar bem, estamos aqui, desculpa não entrarmos antes. — Disse uma chorosa Hermione e de repente Harry ouviu uma voz conhecida chamar seu nome.
Tirando forças não sabendo de onde, Harry se virou para o George ou Fred, não tinha certeza.
— No meu bolso, uma Pedra, pegue, ninguém a viu ou ouviu sobre ela. — Seu sussurro entrecortado saiu com tanta urgência que ninguém questionou e George pegou a Pedra Filosofal do bolso de sua veste e rapidamente ele e o irmão a fizeram desaparecer.
E então a voz que o chamava com urgência entrou na câmara, Harry teve um vislumbre do rosto pálido e preocupado de Dumbledore antes que tudo escurecesse e ele não sabia mais.
Quando a consciência retornou o encontrou na escuridão da enfermaria, um lugar reconfortantemente familiar. Harry demorou uns segundos para se lembrar o motivo de estar ali, sentia a cabeça latejando e pesada, o corpo estranhamente dolorido. Quando se lembrou de repente, ofegou, e se virando de lado vomitou até que apenas a bile amarga saísse com seus engasgos. Ele ouviu passos e logo Madame Pomfrey o cercou e suavemente o ajudou a se deitar lhe dando uma poção para acabar com a ânsia de vômito.
— Pronto, pronto, você acordou bem antes do que eu esperava Harry. — Disse ela quase carinhosamente. — Quando chegou inconsciente acreditei que demoraria mais para se recuperar.
— Quanto... quanto tempo estou aqui? — Sua voz saiu rouca, fraca e Harry sentiu-se sem energia.
— A pouco mais de 24 horas, me trouxeram você na madrugada de sábado e estamos perto do amanhecer de domingo. Como está se sentindo? — Perguntou ele enquanto lhe dava um copo com água bem gelada, Harry suspirou de prazer.
— Obrigado. Me sinto sem energia, minha cabeça lateja e meu corpo está dolorido. — Harry foi sincero, aprendera meses atrás a não esconder dela seus verdadeiros sintomas.
— Tudo normal, você teve um grande desgaste mágico e sofreu ferimentos compatíveis com uma queda forte, eu curei tudo, mas é normal a musculatura dolorida. — Concluiu ela agitando sua varinha sobre ele. — Sua cabeça deve ser efeito da concussão leve que sofreu. Vou lhe pegar uma poção leve para dor e uma de sono sem sonhos.
E deixou a enfermaria para seu escritório, Harry pegou seus óculos na cabeceira e olhou em volta, vendo uma cortina puxada envolta de uma cama sentiu um aperto no peito ao pensar no seu professor preferido. Quando Madame Pomfrey retornou Harry respirou fundo para fazer a pergunta que mais temia.
— Prof. Flitwick vai se recuperar? — Disse baixinho.
Ela o olhou agudamente, percebendo que fora ele a trazer o professor, mas não disse nada ou fez perguntas.
— Ele vai se recuperar, teve costelas e caixa torácica esmagada, hemorragia interna e colapso pulmonar. Será uma longa recuperação, e dolorosa, mas vai sobreviver. — Disse ela e Harry soltou a respiração que estava segurando, sentindo tanto alívio que poderia ter chorado.
— Que bom. — Disse ele fungando baixinho em suspirou trêmulo.
— Aqui, beba e durma, no momento é o que você precisa mais do que tudo para se recuperar, um bom sono. — Disse ela lhe entregando a primeira poção, Harry bebeu e sentiu de imediato o alivio em seus músculos doloridos. — O diretor Dumbledore quer falar com você assim que acordar, mas acredito que você vai dormir por mais 2 dias como eu previ.
Harry a olhou e sorriu levemente tomando a segunda poção.
— Obrigado. — E se deitando dormiu em segundos ainda com os óculos, que Madame Pomfrey tirou por ele delicadamente.
Harry acordou mais duas vezes, se alimentou, viu os inúmeros presentes de doces e cartões lhe desejando melhoras, soube que seus amigos estavam bem, Flitwick progredia e voltou a dormir. Madame Pomfrey não fez perguntas e a cada vez que ficou consciente Harry se sentia melhor, mais forte e usou cada momento para refletir, sobre o que acontecera, sobre o que descobrira, sobre o que fora obrigado a fazer e seu iminente encontro com o diretor.
Na vez seguinte em que acordou deparou-se com alguma coisa dourada e brilhante logo acima dele, lembrou-lhe um pomo, confuso ele passou a mão pelos olhos tentando afastar o sono e olhando de novo viu que eram óculos. Que estranho. Piscou os olhos outra vez e o rosto sorridente de Albus Dumbledore entrou em foco curvado sobre ele.
— Boa tarde, Harry — disse o diretor.
Harry voltou a fechar os olhos e levou a mão a cabeça, fingindo sonolência e desorientação. Ele tinha um importante papel a desempenhar e estava preparado. Reforçando sua oclumência ele suspirou e mais uma vez abriu os olhos, olhando em volta confuso.
— Meus óculos? Onde?
— Aqui, Harry, você está com dor? Quer que eu chame Madame Pomfrey? — Disse ele suavemente e lhe entregou os óculos.
Harry acenou a cabeça e depois parou, fingindo dor e levando uma das mãos à cabeça.
— Estou bem, senhor, minha cabeça apenas dói um pouco. — Disse baixinho e tímido, não querendo incomodar.
— Que bom, receei que tivesse chegado tarde demais. — Disse o diretor.
— Tarde demais? — Harry voltou a olhar em volta e depois arregalou os olhos. — Diretor! O professor Flitwick, senhor! Eu o trouxe para Madame Pomfrey, sabia que alguém poderia roubar a Pedra e o encontrei no corredor, ele parecia muito ferido, senhor.
— Acalme-se Harry, o Prof. Flitwick vai se recuperar completamente, você fez muito bem, salvou sua vida. — Disse ele com um sorriso orgulhoso.
Harry suspirou e se recostou contra os travesseiros meio sentado.
— Que bom, eu não pude esperar para ver se ele ficaria bom, tinha que tentar salvar a Pedra. A quanto tempo estou aqui, senhor? — Disse Harry olhando para seus olhos azuis brilhantes. Dumbledore se mostrava sereno, quase animado.
— Três dias. Seus amigos vão se sentir muito aliviados por você ter voltado a si, estavam muitíssimos preocupados.
— Eles estavam lá, eu me lembro, Quirrell e eu lutávamos pela minha varinha e ele tentou acertá-los com um feitiço que eu não conhecia, mas eu gritei junto e a varinha me obedeceu. Então eu consegui virá-la para ele e gritei o feitiço que ele gritou antes e... — Harry ficou ofegante e não estava fingindo quando empalideceu com a lembrança grotesca.
— Acalme-se menino ou Madame Pomfrey me expulsará da enfermaria. — Disse ele suavemente e tocou seu ombro, Harry se encolheu automaticamente e baixou a cabeça fungando.
— Desculpe, senhor. — Disse ele baixinho.
— Tudo bem, Harry, o que aconteceu não foi sua culpa. Quirrell estava condenado a morte a partir do momento em que concordou em compartilhar seu corpo com Voldemort e você apenas se defendeu de alguém que queria lhe ferir e a seus amigos. — Disse ele e sorrindo levemente apontou para os doces e presentes com a intenção clara de distraí-lo. — Seus amigos e admiradores enviaram presentes, o que aconteceu nas masmorras deveria ser um segredo absoluto, por isso, é claro, a escola inteira já sabe. Acredito que os nossos amigos, os Srs. Fred e George Weasley, foram os responsáveis pela tentativa de lhe mandar um assento de vaso sanitário. Com certeza acharam que você ia achar engraçado. Madame Pomfrey, porém, achou que poderia ser pouco higiênico e o confiscou.
Harry olhou com expressão meio assombrada pela quantidade de presentes e sorriu levemente.
— Eu me lembro de os gêmeos estarem lá e Penny também e então eu ouvi alguém me chamar, Voldemort já havia partido, mas eu temia que ele voltasse, então o senhor apareceu e fiquei aliviado e.… acho que desmaiei. — Contou Harry olhando constrangido e agradecido para o diretor.
— Você foi muito corajoso, Harry. O esforço que você fez quase o matou, temi não chegar a tempo para ajudá-lo. — Disse ele aceitando sutilmente seu silencioso agradecimento e Harry se esforçou para não se irritar com isso.
— A Pedra, senhor, ela está segura agora? — Perguntou ele cansadamente.
— Acredito que a Pedra foi destruída quando o espelho foi destruído. Você poderia me contar o que aconteceu com o espelho? — Dumbledore perguntou serenamente.
— Ele voou e eu também... Voldemort mandou Quirrell me usar para conseguir a Pedra no espelho e eu corri e me escondi atrás dele, isso o deixou zangado e ele disse que ia me matar como matou meus pais. — Harry apertou as mãos nas cobertas mostrando sua raiva e dor. — Então eu me lembrei de um feitiço que o Terry estava me falando outro dia, Depulso era o nome, eu estava com raiva e quando o Quirrell se aproximou acertei o espelho com o feitiço. Ele foi surpreendido porque o espelho o acertou em cheio e os dois foram para longe, então eu corri e gritei Depulso de novo e Quirrell e o espelho bateram na parede com força. Ele parecia inconsciente e me aproximei, mas de repente houve uma explosão de magia, nem ouvi ele falar nenhum feitiço, mas eu estava voando e o espelho também. Lembro de bater no chão com força e perder o fôlego e ouvir o espelho cair em algum lugar com um barulho terrível. E quando voltei a mim Quirrell estava tentando me estra... Professor? Porque quando o Quirrell me tocou sua mão se queimou daquele jeito, senhor? — Disse ele mostrando toda sua sincera curiosidade, depois de um conto de mentiras envoltas em verdade.
Harry se esforçou a manter os sentimentos de raiva e dor, a sensação de voar e bater no chão com força como foco em seus pensamentos, protegendo a verdade fortemente, o importante era Dumbledore não desconfiar que ele mentia.
— Sua mãe morreu para salvar você. Se existe uma coisa que Voldemort não consegue compreender é o amor. Ele não entende que um amor forte como o de sua mãe por você deixa uma marca própria. Não é uma cicatriz, não é um sinal visível... ter sido amado tão profundamente, mesmo que a pessoa que nos amou já tenha morrido, nos confere uma proteção eterna. Está entranhada em nossa pele. Por isso Quirrell, cheio de ódio, avareza e ambição, compartindo a alma com Voldemort, não podia tocá-lo. Era uma agonia tocar uma pessoa marcada por algo tão bom. — Disse ele e Harry mostrou surpresa, pensar na mãe morrendo para salvá-lo o encheu de dor e seus olhos brilharam de lagrimas verdadeiras.
Dumbledore se distraiu olhando para o teto e assoviando suavemente.
— Então... — Harry pigarreou tentando afastar a emoção. — Foi isso que tirou os poderes de Voldemort a tantos anos, foi por isso que eu sobrevivi, senhor? Porque o sacrifício de minha mãe criou essa proteção e o impediu de me matar aquele dia e novamente a três dias? — Harry se esforçou para mostrar a necessidade de saber a verdade que já sabia, mas ele queria a confirmação.
— Sim, Harry, essa foi uma magia antiga que Voldemort não previu ou ignorou, a intenção na magia é muito importante. Quando sua mãe se dispôs a morrer, a dar sua vida para te salvar acionou uma mágica muito poderosa que o protegeu. Alguns consideram tolice, mas o amor é a mágica mais poderosa do mundo. Voldemort nunca teve a capacidade de amar e assim entender algo tão fundamental. — Dumbledore falava em tom solene, Harry acenou e suspirando colocou a mão na cabeça fingido dor e assim disfarçou a raiva que sentia ao pensar que se Dumbledore tivesse contado a verdade a todos, sua mãe seria a justa heroína do mundo mágico e não ele.
— Eu o chamei de mentiroso, senhor, ele disse que meus pais morreram pedindo misericórdia, mas eu sabia que era mentira e disse na cara dele. Professor, ele disse outra coisa... Voldemort, bem, ele disse que mamãe não precisava morrer, que ela morreu para impedi-lo de me matar, mas não entendo porque ele queria me matar, senhor? — Harry precisou se esforçar ainda mais, um grande esforço mental para não pensar na profecia e apenas se concentrar em sua confusão e na negação que sentira ao ouvir essa afirmação.
— A esta pergunta eu não vou poder responder. Não hoje. Não agora. Você vai saber, um dia.… por ora tire isso da cabeça, Harry. Quando você for mais velho... Sei que detesta ouvir isso..., mas quando estiver pronto, você vai saber.
Harry entendeu que não ia adiantar insistir, mas ele não esperava outra coisa e na verdade não se importava, já sabia a resposta.
— Senhor, o que vai acontecer com o Sr. Flamel, agora que a Pedra foi destruída? — Harry não estava particularmente preocupado com isso, ainda que lamentasse que o homem talvez morresse.
— Ah, você já ouviu falar no Nicolas? — Perguntou Dumbledore, parecendo encantado. — Você fez mesmo a coisa certa, não foi? Bom, Nicolas e eu tivemos uma conversinha e concordamos que assim era melhor, no fim a destruição da Pedra foi como um sinal de que esse era o momento de se desapegar de seu poder.
— Mas isto quer dizer que ele vai morrer, não é?
— Eles têm elixir suficiente para deixar os negócios em ordem e então, é, eles vão morrer.
Dumbledore sorriu ao ver a expressão de surpresa no rosto de Harry.
— Para alguém jovem como você, tenho certeza de que isto parece incrível, mas para Nicolas e sua esposa, Perenelle, na verdade, é como se fossem deitar depois de um dia muito, muito longo. Afinal, para a mente bem estruturada, a morte é apenas a grande aventura seguinte. Você sabe, a Pedra não foi uma coisa tão boa assim. Todo o dinheiro e a vida que a pessoa poderia querer! As duas coisas que a maioria dos seres humanos escolheriam em primeiro lugar. O problema é que os humanos têm o condão de escolher exatamente as coisas que são piores para eles.
Harry ficou ali deitado, sem se preocupar em responder, até porque concordava com o diretor, a Pedra Filosofal era uma péssima invenção e ele pretendia destruí-la assim que possível. Dumbledore cantarolou um pouquinho e sorriu para o teto.
— Professor? Como, se a Pedra estava dentro do espelho, ela não apareceu quando se quebrou? Quirrell não conseguia pegá-la, ele disse que se via com a Pedra e a entregando a Voldemort, chegou a considerar quebrá-lo. — Harry estava curioso sobre como a Pedra apareceu em seu bolso e transformou isso em curiosidade e confusão.
— Ah, essa é uma excelente questão e fico satisfeito que tenha me perguntado. Foi, ou assim pensei, uma das minhas ideias mais brilhantes, e cá entre nós, isto é alguma coisa. — Disse ele com uma piscadela. Harry sorriu divertido. — Quirrell não conseguiu a Pedra porque apenas uma pessoa que quisesse encontrar a Pedra, encontrar sem usá-la, poderia obtê-la; de outra forma, a pessoa só iria se ver produzindo ouro e bebendo elixir da vida. O meu cérebro às vezes surpreende até a mim... Infelizmente, não considerei a possibilidade de o espelho ser destruído com a Pedra magicamente vinculada a ele, tentei concertá-lo, mas sua destruição foi feita por uma magia muito poderosa e intencional o que torna impossível desfazer o estrago.
— Mas…, mas, então, Quirrell nunca conseguiria a Pedra, professor. Terry estava certo, eu devia ter confiado nas proteções e não descido pelo alçapão e por minha causa tanto a Pedra como o espelho foram destruídos... — Harry mostrou aflição e culpa. — Estou em apuros, senhor?
— Não, Harry, relaxe. Você fez o certo, seguiu seu coração e com isso salvou a vida do Prof. Flitwick. Todo o resto não foi sua culpa e na verdade você merece uma recompensa por tentar proteger a Pedra colocando em risco a sua vida. Agora chega de perguntas. Sugiro que comece a comer esses doces. Ah, feijõezinhos de todos os sabores! Quando eu era moço tive a infelicidade de encontrar um com gosto de vômito, e desde então receio que tenha perdido o gosto por eles. Mas acho que não corro perigo com um gostoso caramelo, não acha? – E sorrindo jogou um feijãozinho caramelo escuro na boca.
Então se engasgou e disse:
"Que pena! Cera de ouvido! "
Harry riu divertido e aliviado, observando o diretor deixar a enfermaria, assim que se viu sozinho o sorriso falso morreu. Esgotado pelo esforço de manter a fachada, mas contente por conseguir por mais um tempo enganar Dumbledore, ele decidiu seguir seu conselho e pegando alguns sapos de chocolate e pasteis de abóbora começou a comê-los.
Com todas as novas informações sua percepção sobre Dumbledore mudou sutilmente, era claro para ele que o diretor queria prepará-lo, ensiná-lo para cumprir a profecia e destruir Voldemort. Ele não o enxergava como um ser com sentimentos, com desejos ou sonhos, nem se importava com isso, Harry era apenas a arma final que tinha que ser treinada para o momento certo. O que não fazia sentido era porque o deixar nos Dursleys por todos esses anos? Porque não o treinar e preparar desde sempre? Qual era o raciocínio por traz da ideia de que ele ser um Gryffindor, tolo e imprudente, pouco estudioso, que não faz perguntas e não sabe nada sobre seu lugar no mundo mágico ou sua família, tinha mais chances de derrotar Voldemort do que um verdadeiro Potter, inteligente e poderoso?
Suspirando, Harry deu uma grande mordida em seu pastel. Esse era, pensou, apenas mais um mistério envolvendo Albus Dumbledore e sua "mente brilhante", mas assim como ele enfrentara Voldemort com tudo o que tinha, muito em breve o momento para seu confronto com o diretor chegaria e Harry pretendia mais uma vez, vencer essa batalha.
Edgar Schubert estava lendo o jornal calmamente em seu escritório enquanto ao mesmo tempo tomava seu primeiro café. Sua esposa apenas permitia chá em sua casa e considerava seu vício secreto um veneno. Ler o jornal em casa durante o café da manhã também era impossível, não quando se tinha 3 filhos com menos de 10 anos. Jéssica, Mike e Sarah eram seus maiores amores, mas isso não mudava o fato de que eram pequenos demônios com cara de anjos e vozes de harpias, que eles nunca calavam.
Edgar era um homem simples, tinha 49 anos e estava a poucos meses de chegar aos 50, mas não aparentava sua idade, sendo um homem feliz e bem-amado, além de bruxo, poderia facilmente ser confundido com alguém bem mais jovem. Seus cabelos castanhos, olhos azuis claros e rosto comum escondia um homem inteligente e cheio de ideias. Seu avô fora um inventor alemão, com grandes projetos e pouco sucesso, morrera na miséria e seu pai igualmente inteligente, ainda que sem imaginação, percebendo os ventos da guerra se aproximar, se mudara para a Inglaterra na década de 30.
Quando Edgar nascera, a guerra mundial estava em seu auge, seu pai escondia sua nacionalidade alemã e trabalhava em uma fábrica em Leeds. A fábrica não apenas aceitava alemãs, como ilegais e crianças, seu pai um homem duro e rígido viu em Edgar a mesma inteligência sonhadora que tinha seu pai inventor e fracassado. Assim, temendo que seu único filho tivesse o mesmo destino, levou Edgar para trabalhar na fábrica desde os 8 anos de idade.
Quando sua carta de Hogwarts aparecera 3 anos depois o primeiro pensamento do Sr. Schubert fora negar a permissão de seu filho ser um bruxo, mas sua esposa não permitiu e ameaçou abandoná-lo se ele não concordasse. Hogwarts parecia um sonho e aprender magia com os Hufflepuff era uma imensa alegria. Inteligente e trabalhador, leal e sonhador, Edgar tinha planos e ideias incríveis para quando se tornasse um bruxo adulto.
A cada verão seu pai o forçava a realidade do mundo trouxa, mas ele não se importava, gostava de trabalhar e aprender, sabia que toda experiência o ajudaria no futuro. Leeds era uma área industrial e, sendo um adolescente que só trabalhava durante os verões, Edgar teve a oportunidade que conhecer diversas áreas, a Têxtil era a mais comum, mas ele também trabalhou em fabricas de alimentos, bebidas, farmacêuticas, construtoras e muitas outras.
Quando terminou Hogwarts estava ansioso para usar sua experiência para conseguir um bom trabalho e fazer um curso de administração ou contabilidade e subir na empresa, mas logo ficou claro que o mundo mágico nunca lhe permitiria ser mais do que um operário explorado por um salário miserável e condições de trabalhos insalubres. O mundo mágico ainda estava estacionado na Revolução Industrial e a discriminação contra nascidos trouxas apenas alimentava esse triste fato. Sendo um homem muito mais sensato que seu pai lhe dava crédito Edgar decidiu trabalhar no mundo trouxa e esperar que um dia ele tivesse a oportunidade de realizar seus sonhos. Assim, ele voltou a estudar em um curso noturno para adultos, conseguiu um trabalho em uma fábrica Têxtil e tentou ignorar o amargo fracasso com seu pai lhe dizendo, "Eu lhe avisei".
Incansável apesar dos pesares, Edgar não deixou se abater e enquanto o mundo mágico mergulhava em uma terrível guerra, ele trabalhou e estudou até conseguir o cargo que desejava. Era hoje o Gerente Geral de Produção de um conglomerado industrial, ganhava muito bem, tinha uma linda esposa, três lindos e barulhentos filhos e era incrivelmente feliz. Era verdade que seu lado sonhador tinha que se contentar em trabalhar com aumento de produção, diminuição de custo e lucros, mas ele ainda se sentia muito satisfeito com seu trabalho, pois poderia usar sua imaginação e inteligência para ser o melhor gerente de produção do mundo, em sua modesta opinião.
Assim, não havia porque um anúncio absurdamente estranho o fazer cuspir seu café por toda sua mesa, mas foi o que aconteceu. Chocado Edgar releu os dizeres em negrito que ocupava um quarto da página pensando, distraidamente, que um anúncio tão grande custaria muito caro.
PARA AQUELES INTERESSADOS EM UM TRABALHO IMPORTANTE DE GERENTE DE PRODUÇÃO. BEM REMUNERADO. TEM QUE TER EXPERIÊNCIA EM DIVERSAS ÁREAS INDUSTRIAIS. PODE TER TRABALHADO APENAS NO MUNDO COMUM, MAS DEVE TER FREQUENTADO A ESCOLA HOGWARTS. CASO PREENCHA OS REQUISITOS APRESENTE-SE NO DIA 09 DE MAIO NO HOTEL SANDERSON EM LONDRES AS 9 HORAS DA MANHÃ NO SALÃO GREEN. PROCURE POR SR. BLACK E BOOT. NÃO APARATE POR FAVOR, ÁREA TROUXA.
Edgar ainda leu mais duas vezes antes de acreditar que não estava alucinado, e se beliscou três vezes também, apenas para tripla confirmação. Quando teve certeza que era real olhou pela janela de seu escritório e pela primeira vez em anos seu olhos azuis e sorriso se tornaram sonhadores e doces, lembrando muito, mas muito mesmo seu avô inventor.
Para Sirius Black um dos muitos desafios que enfrentou depois de deixar a prisão foi se encontrar com seu grande amigo Remus Lupin. Inicialmente ele acreditava que nada superaria aquelas semanas na cela da ICW esperando sua liberdade a qualquer momento, cheio de ansiedade. Então, estar finalmente livre e lidar com essa realidade estranha, sem saber muito bem o que fazer consigo mesmo ou os sentimentos de dor, tristeza e culpa, se mostraram muito mais difícil do que imaginara. Depois ele percebeu quer enfrentar seu afilhado e assumir a culpa pela morte de James e Lily o forçara a buscar forças que não sabia que ainda tinha. Mas ver o Harry partir para Hogwarts foi o momento mais angustiante que vivera desde o dia em que encontrara seus melhores amigos, seu irmão, mortos.
O apoio e afeto dos Boots e Madakis eram um verdadeiro milagre e o tirou dos momentos mais difíceis e sombrios. Ao em vez de mergulhar na dor, solidão e whisky de fogo, Sirius mergulhou no trabalho. Sentiu um grande prazer em despedir Smith, Carrow e Crabbe da gerência de suas fábricas e entrevistou pessoalmente cada funcionário, com a ajuda de Falc refez seus contratos com salários justos e prometeu um novo gerente que melhoraria as condições de trabalho. A ideia de procurar no mundo trouxa foi a mais acertada, em 09 de maio, um sábado, Falc e Sirius receberam 16 nascidos trouxas interessados no trabalho. Apesar de escolherem apenas um para o cargo de Gerente Geral, ficaram com o contato dos outros para opções de trabalhos futuras.
Edgar Schubert era incrivelmente experiente, inteligente e criativo. Sua empolgação contagiou Sirius que se viu ouvindo com muita atenção suas ideias para as melhorias, alterações, modernizações. Os dois escolheram entre os funcionários um gerente individual para cada fábrica e Edgar, Sr. Schubert era seu pai, ficaria como o Gerente de todas as Fábricas Black. Aliviado ao ver a cada dia mais e mais mudanças que realmente traziam benefícios aos funcionários e ao mundo mágico, Sirius vivia um bom momento.
Seu outro bom momento foi encontrar sua prima Nymphadora, que preferiria Tonks. A tantos anos uma menina curiosa e cheia de perguntas, agora uma mulher bonita e auror em treinamento. Quando se abraçaram os dois choraram, pela saudade e injustiça, Tonks jurou que não acreditava em sua culpa e que muitas vezes pensou que alguém fraudara o julgamento para culpá-lo, apenas nunca esperou que nem ao menos houvera um.
Sirius passou bons momentos com os Tonks, ainda que houvesse uma parte dele, que ele se esforçava para ignorar, que se ressentia deles, de todos. Maria MacDougal foi outro bom momento, eles se tornaram bons amigos a tantos anos e reencontrá-la lhe trouxe uma sensação doce. Ela ainda parecia tão jovem, inocente e, apesar dos olhos tristes, não permitiu que a perda do homem que amava a destruísse e Sirius a admirou e seu talento. Ele conversou com ela sobre o que estava fazendo com sua Fábrica Têxtil e Maria se interessou muito em saber sobre a parte criativa, desenhos, tipos de tecido, cores e Sirius a convidou para trabalhar com ele. Ela aceitou, mas por apenas alguns dias na semana, não queria abandonar seu trabalho artesanal, tinha bons e fieis clientes.
Edgar e Maria se deram bem e os três passaram horas trabalhando em ideias de modernização, tendências e moda, além de pensarem em possiblidades futuras de entrarem no mundo trouxa. E trazerem roupas trouxas estilizadas para o mundo mágico. Sirius não entendia nada de moda feminina, mas tendo sido sempre um homem vaidoso, pode colaborar com a moda masculina. Isso até lhe fez bem para auto estima e o desejo de melhorar sua aparência o fez aumentar e se dedicar mais aos exercícios e se alimentar ainda melhor.
Mas foi na psicoterapia que Sirius encontrou as nuvens em seu céu limpo e azulado. Ele nunca diria isso a ninguém, mas poder conversar sobre as coisas boas da sua vida, suas dúvidas e inseguranças era bom e se, por um acaso, ele se esforçava para evitar assuntos mais pesados, sentimentos e vulnerabilidades mais dolorosos ou constrangedores, bem, isso não importava tanto. Infelizmente, Martin não pensava assim e depois de 1 mês de psicoterapia com 3 sessões semanais, as coisas mudaram.
— Bem, Sirius, pelo que você me conta, tudo está bem, assim acredito que devo dar-lhe alta. — Disse Martin suavemente.
— Alta? Mas achei que terapias eram longas? E que, bem, depois deveria procurar um psicólogo? — Sirius disse confuso.
— Sim, você está em uma fase mais aguda e depois que superá-la um psicólogo seria uma boa opção. Isso na teoria, mas me parece que você nem precisa de um ou de nossas sessões, nas últimas 5 sessões você me contou como sua vida é perfeita, seu trabalho, sua saúde, as cartas do Harry. Eu lhe perguntei sobre pesadelos e você disse, eles não importam, eu lhe perguntei sobre o passado e você disse, ele não importa, eu lhe perguntei sobre um possível encontro com seu antigo amigo Remus Lupin e você disse, ele não importa. Nós dois estamos perdendo tempo aqui, Sirius. — Disse Martin, sinceramente.
— Eu... O que você quer que eu lhe diga? — Sirius perguntou defensivamente, não gostava nem um pouco do seu psiquiatra no momento. — Eu não quero falar sobre isso! Minha vida está bem, porque vou querer ficar falando sobre o que não se pode voltar e mudar?
— Ok, mas os pesadelos estão no presente e Remus Lupim também...
— Eu não quero vê-lo, ok! — Gritou Sirius com raiva.
— Ok, fico feliz que me diga isso, infelizmente, nosso tempo acabou. Fizemos progressos hoje Sirius, nos vemos na próxima sessão.
Desconcertado Sirius percebeu que o tempo realmente acabara, mas que progresso eles fizeram? Não tinha entendido nada. Na sessão seguinte ele estava um pouco tenso, recebera a terceira carta de Remus pedindo um encontro, não respondera as duas primeiras e não sabia o que responder a essa. Remus não estava no passado ou morto, talvez eles pudessem conversar e se entender.
— Remus me enviou outra carta. — Disse ele no meio da sessão.
— O que ele lhe disse nesta?
— Praticamente a mesma da outra, que sente e entende que o que fez não tem desculpas, tudo o que quer é um encontro, para explicar e implorar meu perdão. — Disse Sirius com uma careta.
— E você não sente que deveria encontrá-lo?
— Eu não sei, eu... Não consigo deixar de pensar no que você falou sobre ele estar vivo e que eu também pensei que ele era o traidor, mas... não sei se estou pronto para encará-lo...
— Isso é importante? Estar pronto?
— Eu..., bem, não posso simplesmente encontrá-lo, posso?
— Porque não?
— Porque... eu... Merlin, eu estou tão zangado, tão furioso, eu era seu amigo, seu melhor amigo! — Gritou Sirius. — Todos vêm e pedem desculpas, Andy, Ted, Tonks, Maria, choram, se sentem culpados e eu fico aflito e digo que está tudo bem! Que não foi culpa deles, mas foi culpa deles! Eu passei 10 anos naquele inferno e longe do Harry porque eles acreditaram que eu era um monstro ou porque, se tinham dúvidas, acharam mais fácil não fazerem nada! Seguiram com suas vidas como se nada importante tivesse acontecido! E agora nem posso ficar zangado porque eles choram e me fazem sentir culpa.
— Mas você ainda está zangado.
— Sim, eu ainda estou, estou furioso quase o tempo todo. Eles não podiam simplesmente agir assim.
— Como você se sente sobre como eles agiram?
Sirius se levantara e andava de um lado para o outro furioso, angustiado.
— Eu me sinto... abandonado, esquecido... — Ele parou e seus olhos se encheram de lágrimas. — Pouco importante, algo e não alguém, eles não me amavam, não se importavam comigo, simplesmente me esqueceram, eles me abandonaram...— E a tristeza se tornou grande demais, o sentimento de desamor e angústia pareciam que iam afogá-lo e ele chorou.
Sirius perdeu a noção do tempo e todo o constrangimento e chorou como não chorava desde o dia em que parte de sua família se fora para sempre. Quando conseguiu se controlar, olhou para o Martin e sorriu tristemente.
— Era isso que você queria? Que eu desmoronasse?
— Não, apenas esperava que fosse sincero sobre seus sentimentos, ao menos aqui espero que admita o que sente, fingir que está tudo bem para mim e para si mesmo não vai te ajudar.
— Não está tudo bem. — Disse Sirius sentindo uma certa leveza por dizer a verdade. — Nada está bem, eu estou sempre ou zangado, ou culpado, ou triste. Não sei se algum dia vou estar bem de novo.
— Ok, vamos falar sobre isso.
E assim, finalmente, Sirius começou a ser sincero e parar de negar seus sentimentos. E foi em terapia que ele conseguiu entender que precisava se encontrar com Remus, para ouvir suas desculpas, para entregar as suas e aos poucos seguir em frente com sua vida, sem negações e fugas sem fim. Remus o convidou para sua casa, quando Sirius não quis um lugar público e assim no fim de maio ele se viu aparatando e caminhando por um caminho bem familiar. Ele bateu na porta que se abriu em segundos, revelando seu antigo amigo, muito envelhecido, pálido e desgastado. Sirius se lembrou com um sobressalto que a lua cheia fora a 2 dias, sentiu se culpado por não pensar nisso uma única vez desde que esteve livre.
— Sirius, entre, que bom que você veio. Você parece melhor, no dia da entrevista estava mais magro.
Sirius acenou e entrou no pequeno chalé, a sala era simples e confortável, Remus ansiosamente lhe ofereceu um acento e chá. Lembrando o quanto seu amigo gostava de chá, ele aceitou e em minutos os dois estavam em silencio, tomando seus chás, sem coragem de começarem a falar e olhando um para o outro disfarçadamente. Estranho ao constrangimento que nunca houvera na amizade deles, Sirius decidiu começar.
— Você estava lá? Quer dizer, no dia do anúncio, você estava lá no Ministério?
— Sim, quando ouvi os boatos de um importante anúncio e que a imprensa foi chamada, imaginei do que se tratava, eu... Bem, não achei que teria a oportunidade de falar com você, mas queria ver como estava, caso aparecesse. — Disse Remus timidamente Sirius teve que se controlar para não sorrir.
Remus era sempre assim, tímido e suave, calmo e seguro, dificilmente você poderia ficar bravo com ele por muito tempo, ter ressentimentos então, era quase impossível. Mas, ainda, Sirius sentia uma grande amargura e não relevaria o passado agindo como se nada importante aconteceu, não fingiria mais.
— Eu estou melhorando aos poucos, há dias mais difíceis, mas estou tendo ajuda e apoio. Tenho me exercitado e me alimentado bem, estou também fazendo fisioterapia e psicoterapia. — Informou Sirius ao perceber que ele realmente estava interessado em sua saúde.
— Psicoterapia? Como, com um psicólogo? — Remus mostrou surpresa.
— Sim, com um psiquiatra na verdade, foi um conselho de Ted e tem sido bom, nunca tive a oportunidade de falar ou aceitar o que aconteceu com James e Lily e comigo. — Disse Sirius pensativamente.
— Peter nos enganou a todos, nunca pensei que ele poderia fazer o que fez. — Disse Remus triste.
— E pensou que eu poderia? — Sirius disse em tom cortante.
Remus ficou ainda mais pálido e seus olhos se fecharam de culpa.
— Não, quer dizer, eu procurei o Dumbledore e disse que algo não parecia certo, mas ele disse que as provas eram incontestáveis. Sirius, eu...
— Mas você sabia que não houve um julgamento. Apesar de ter dito aos Tonks que eu estava julgado e condenado, você sabia que não era verdade. E mesmo assim não teve dúvidas. — Cortou Sirius sem paciência para desculpas tolas.
— Não! Sirius, eu tive dúvidas! Eu disse a Dumbledore, mas ele disse que as provas tornavam um julgamento uma formalidade. Dumbledore insistiu com Bagnold, mas ela se recusou a voltar a atrás em sua condenação e, então...
— E, então, vocês desistiram, era mais fácil assim, seguiram em frente porque afinal ele é culpado e se por um acaso houve algum momento de dúvida era só deixar de lado e acreditar em provas inexistentes. — Sirius se levantou e andou de um lado ao outro pela sala pequena. — Nunca houve prova alguma, Remus! Eles nem se deram ao trabalho de investigar e se tivessem não encontrariam provas porque eu era inocente! E ninguém se importou se eu tinha ou não um julgamento, porque todos acreditavam na minha culpa e os outros eu entendo, mas os Tonks, Dumbledore, a Ordem, você... — Sirius se interrompeu tentando engolir o gosto amargo da traição.
— Sirius, me perdoa, eu... eu pensei que não fazia sentido...
— Mentira! Eu não vim até aqui para ouvir mentiras ou meias verdades, desculpas esfarrapadas ou sentimento de culpa. Eu quero a verdade, eu mereço saber porque foi tão fácil para você acreditar que eu era esse monstro. Você melhor do que ninguém sabia o que James e Lily significavam para mim, eles eram minha família e Harry... — Seus olhos se encheram de amor ao pensar naquele menino incrível lhe dizendo que o perdoava. — Apenas os pais dele amavam aquele menino mais do que eu. A verdade Remus, eu preciso da verdade.
Remus também se levantou e os dois se encararam, por fim seu antigo amigo acenou.
— Depois do que aconteceu em nosso 6º ano minha visão sobre você mudou, eu tentei seguir em frente, tentei relevar porque éramos todos jovens e tolos, mas quando Dumbledore me disse que você era culpado, que as provas eram claras, bem, eu fiquei muito confuso. Mas, então me lembrei daquela época, o que você fez foi a pior coisa que alguém já fez para mim depois de Greyback, a maneira como você desconsiderou minha vida, a vida de Snape, apenas por uma brincadeira estúpida. Eu teria sido morto se tivesse mordido ou matado Snape, se tivesse escapado carregaria uma culpa terrível, mas nada disso importava para você além de pregar uma peça em alguém, sempre arrogante, imprudente e irresponsável. — Disse Remus, mas mesmo enquanto falava Sirius podia ver o carinho em seus olhos.
— Vocês ficaram meses sem falar comigo, Dumbledore me deu detenções e também nunca mais me olhou igual, um erro, uma decisão estupida, imprudente e de repente eu era um Black, de coração negro. Eu percebi e eu me esforcei para ser melhor, o seu perdão e o de James significaram muito para mim e eu valorizei isso. — Sirius suspirou magoado. — Eu não era perfeito e não levava a vida tão a sério, quando se tratava de mim ou garotas, mas em relação a guerra, a vocês, tentei ser mais consciente e focado, Merlin, eu teria morrido por vocês a qualquer dia ou hora.
— Eu vejo isso agora, mas...
— Você não poderia duvidar do diretor, acreditar, que o grande Albus Dumbledore cometeu um erro, seria impossível, meu histórico e personalidade apenas colocou mais peso sobre minha culpa. — Sirius acenou entendendo.
— Sim, Dumbledore também foi enganado, mas ele também permitiu que um crime fosse cometido assim como eu. Sirius, tive dúvidas, eu juro, mas sem a ajuda do diretor não havia nada que eu poderia fazer. O Ministério estava matando os lobisomens a vista quando eles eram identificados e se me aproximasse... Eu me escondi apavorado e covarde. — Remus abaixou a cabeça envergonhado. — E pensar que você era inocente me levaria a considerar que Peter era o culpado e simplesmente não me parecia possível, então o tempo passou e as dúvidas foram morrendo ou, eu as matei, como disse AC Denver.
Eles ficaram em silencio depois disso, Sirius olhou pela janela e Remus o olhando esperando sua decisão. E os dois refletiam sobre o mesmo, os erros cruéis que os fizeram pagar um preço absurdamente alto.
— Ela disse isso a você? Denver, que dizer, disse isso? — Sirius perguntou curioso.
— Sim, na minha cara, disse que eu matei as dúvidas, pois assim não tinha que encarar minhas fraquezas, minha traição. — Disse Remus cabisbaixo.
— Eu gosto dessa garota, acredito que foi a melhor Auror que eu já conheci, dura e sem frescuras, gostei dela de cara quando me interrogou. — Disse Sirius com um sorriso.
— Melhor do que Moody? — Remus estava curioso e aliviado com a conversa mais leve, talvez não durasse, mas ainda era um bom sinal.
— Moody é mortal e paranoico, Denver é forte e muito talentosa, percebi isso. — Sirius considerou.
— Ainda pensando em ser um Auror? — Remus perguntou, lembrando como seu amigo era quase obcecado por essa ideia.
— Ainda tem um tempo antes de estar recuperado, mas depois quero tentar entrar no treinamento, nunca pensei em fazer outra coisa e mais do que nunca sinto vontade de defender a justiça e as vítimas. — Disse Sirius, se virando encarou seu amigo nos olhos. — Quero também lhe pedir desculpas, não escolhemos você para ser o guardião ou o informamos sobre a troca porque temíamos que o espião da Ordem era você.
— Eu suspeitei disso quando percebi que escolheram Peter para ser o guardião e não eu. Acredito que fazia sentido, Peter parecia confiável e vocês pouco me encontravam por causa das missões. — Disse Remus e não parecia zangado. — Além disso com minha condição e estando em meio aos lobisomens...
— Isso não é desculpa, nunca o consideramos um monstro ou alguém não confiável apenas porque é um lobisomem. Mas Dumbledore foi insistente com James e Lily, disse que o espião da Ordem era um de seus amigos e, como não era eu, entre Peter e você... Sinto muito, foi injusto e um erro, que todos nós pagamos caro demais. — Disse Sirius envergonhado.
— Sirius, acredita que me zangaria por isso? Meu amigo, apenas sinto uma grande dor e tristeza por tudo o que perdemos e, no fim, tudo se resume a traição de alguém que amávamos, de sua covardia e como isso destruiu nossas vidas. — Remus tinha lágrimas escorrendo em seu rosto e sua tristeza era óbvia. — Se você pode tentar me perdoar por meu cruel abandono, como eu posso não o perdoar e James e Lily por serem, com justiça, cautelosos?
— E sobre o que eu fiz no 6º ano? — Sirius ainda estava inseguro.
Remus suspirou e fechou os olhos envergonhado.
— Eu fui muito rápido em lhe julgar, como se todos não fossemos humanos e capazes de erros e até crueldades, se alguma coisa eu aprendi com meus erros é que não tenho o direito de apontar para o seus de cima da minha arrogância e pedestal. Sinto muito, Sirius, de verdade. — Disse ele com voz embargada.
— Eu não vim aqui para que pudesse lhe acusar ou porque queria desculpas ou humilhação, vim por que precisava que tudo isso fosse dito entre nós com sinceridade e porque quero seguir em frente. Você tem razão, já perdemos muito, mas do que era suportável perder e sua amizade é muito importante para mim. Eu... — Emocionado Sirius e Remus se moveram juntos e se abraçaram fortemente.
Eles choraram mais um pouco, falaram de James e Lily, a falta que sentiam, tomaram mais chá e Sirius perguntou sobre sua vida durante esses anos. Remus contou sobre suas dificuldades e solidão, mas que apesar de tudo ele estava vivendo.
— Sobrevivendo, você quer dizer. Remus! Todos esses anos e você ficou aqui sozinho, não entrou em contato com o pessoal da Ordem? Não fez novos amigos? — Repreendeu Sirius levemente.
— Eu fiquei muito deprimido no começo, perdi contato com todos, depois tinha que me preocupar em conseguir dinheiro para me manter e só conseguia trabalhos temporários. O tempo passou e eu pensei que eles deveriam ter seguido em frente e eu devia fazer o mesmo. — Disse ele, dando de ombros, mas era óbvio sua tristeza e solidão. — Você se encontrou com os amigos antigos?
— Sim, Moody eu encontrei no Ministério, ele queria se desculpar, Sturgie, Diggle, Doge enviaram cartas pedindo desculpas e desejando melhoras. Me encontrei com Maria e passei uma noite bem gostosa com Emmy. — Disse Sirius com um sorriso travesso e uma piscadela.
Remus riu divertidamente e se levantando começou a procurar algo para preparar para o jantar.
— É claro que passou, eu não os vejo desde aquela época, mas se me lembro bem, você e Vance sempre gostaram de dançar na horizontal. — Disse Remus fazendo uma careta por não ter pensado em comprar nada melhor que macarrão.
— Remus, eu sempre gostei de dançar na horizontal com qualquer mulher, alguém descolada e moderna como Emmy era apenas ainda melhor, sexo com uma amiga que não quer de você mais do que amizade, respeito e um orgasmo é muito bom. E exatamente o que eu precisava, imagino que você também deva estar necessitando, já que tem se mantido tão isolado. — Disse Sirius e viu o amigo corar.
— Na verdade, eu as vezes saio em um pub trouxa e me divirto um pouco, e você está certo. É muito bom que as mulheres tenham os mesmos direitos que os homens de ter sexo casual, me parece mais justo. — Disse Remus seriamente.
— Ei, vamos sair um pouco, nem me lembro a última vez que fui a um pub trouxa e podemos jantar algo mais substancial que macarrão. Vamos lá, por minha conta. — Disse Sirius e cheio de animação já se dirigia para a porta.
Remus suspirou, desligou a água que colocou para ferver, guardou o macarrão e com um sorriso incomumente alegre, seguiu seu amigo.
Depois se um jantar farto e saboroso Remus lhe perguntou sobre seus planos para os próximos meses.
— Estou vivendo um dia de cada vez Remus. — Respondeu Sirius bebendo um gole de sua cerveja gelada, muito boa. — Preciso melhorar minha saúde, física e mental, quero muito me encontrar com o Harry nesse verão, estou ansioso por isso na verdade.
— Harry? — Remus pareceu surpreso.
— Sim, Remus, nosso Harry, lembra-se dele? Ele ainda está vivo e está terminando seu 1º ano em Hogwarts, não vejo a hora de vê-lo. Estou pensando em ir encontrá-lo na chegada do trem, você se encontrou em ele esses anos todos? — Sirius perguntou casualmente, já sabendo a resposta e observou a expressão de culpa de Remus que olhou para sua cerveja e brincou distraidamente como o copo.
— Não, eu até pedi para visitá-lo, mas Dumbledore disse ser impossível. Ele explicou que o melhor para o Harry era ficar com seus parentes trouxas e se o visitasse poderia levar perigo a ele, você sabe, algum comensal poderia me seguir. — Disse Remus bebendo a cerveja tentando engolir a culpa por pouco ter se preocupado com o Harry nesses anos todos, a verdade era que o menino era muito pequeno e estava sendo cuidado.
Em setembro pensara em escrever a ele, mas não pensou que um garoto de 11 anos iria querer saber do velho amigo de seu pai e seria perigoso entrar na vida do menino com sua condição. A verdade é que se isolara tanto nos últimos anos que ainda achava difícil a ideia de iniciar contato com o mundo real.
— Bem, isso é uma pena e lamento que decidiu ouvir Dumbledore mais uma vez, eu soube coisas incríveis sobre ele. Parece ser um grande garoto, muito doce e inteligente, é um Ravenclaw, imagine isso. — Disse Sirius se esforçando para não ficar com raiva do amigo. Seu erro em se isolar do Harry, Remus teria que responder ao próprio Harry.
— Um Ravenclaw? O filho de James? — Remus estava abismado.
— Você se esquece que ele é filho de Lily também, Moony! — Disse ele rindo divertido da surpresa do amigo. — De qualquer forma, me disseram que ele é a cara do James, apenas com os olhos verdes de Lily, o que já sabemos. E agora que já estou livre, espero que ele aceite morar comigo.
— Sirius, ele cresceu com seus tios, você não pode estar pensando em tirar o menino de sua família. — Disse Remus exasperado.
— Estou pensando em conhecê-lo, se ele estiver feliz e quiser a viver com os tios, tudo bem, mas sou seu guardião Moony, estava no testamento dos pais dele e se houver alguma possibilidade, sou sua família também. — Disse Sirius, seriamente.
— Eu sei, mas você ainda está se recuperando e não creio que vai querer se preocupar em criar um adolescente. — Remus parecia incrédulo.
— E é por isso que estou me esforçando para melhorar, para poder ser o que ele precisa, Harry é meu afilhado Remus, minha família e se ele quiser vou com muito prazer enfrentar todos os problemas de ser a figura parental de um adolescente. — Disse Sirius muito decidido.
— E você já falou com Dumbledore sobre isso? Não creio que ele vai deixar você tirar o Harry da casa de seus tios. — Considerou Remus suavemente.
Sirius o olhou com irritação e tentou não falar mais do que devia, lembrando que ele também, em outros tempos, confiara cegamente no diretor de Hogwarts.
— Não vou fazer nada que o Harry não queira e no fim do dia o que ele quer é mais importante, Remus. E por um acaso Dumbledore é o dono do Harry? Até onde eu sei não está em seu poder ditar a vida do meu afilhado indiscriminadamente. — Sirius respirou fundo e procurou se acalmar. — De qualquer forma o diretor me escreveu pedindo um encontro logo depois do anúncio e minha vontade foi não responder, mas Andy me lembrou que preciso me reunir com ele em algum momento para conversar sobre o Harry. Assim lhe respondi que quando estivesse mais recuperado nos encontraríamos e ele respondeu desejando que eu me recupere rapidamente.
Sirius segurou a careta ao pensar em suas cartas cordiais e civilizadas, como se o velho não fosse um dos, diretamente, responsáveis pelo que lhe acontecera.
— Isso é bom, não acredito que o hostilizar vai ajudar você a manter contato com o Harry. — Disse Remus e Sirius bebeu sua cerveja para não lhe responder duramente. Como era difícil manter o controle sobre seu temperamento, sempre fora do tipo que diz o que pensa e dane-se as consequências, mas esse não era o momento de cometer erros.
— Moony, queria saber se você está interessado em trabalhar nas Fábricas Black? Eu estou assumindo o comando de tudo e redefinindo as políticas, métodos de trabalho, condições e salários dos funcionários. Tenho já novos gerentes e um administrador e gerente geral, se você estiver interessado poderia trabalhar como contador, lembro me como você sempre foi bom com números, o melhor em Aritmancia, bem, depois de James. — Disse Sirius, sorrindo e indo para um assunto mais tranquilo.
Remus arregalou os olhos surpreso, um trabalho? E um trabalho onde poderia usar o cérebro e não apenas os braços.
— Você tem certeza? Sirius, você tem conhecimento da minha condição, eu teria que faltar todos os meses e...
— E exatamente porque eu sei de seu pequeno problema peludo que eu tenho certeza e você pode faltar sempre que precisar. Moony os negócios Blacks se transformarão no lugar de bons empregos e salários para todos, nascidos trouxas, lobisomens e qualquer outro ser mágico que precisar e tiver competência para fazer um bom trabalho. — Sirius se inclinou e sorriu animado. — E você tem competência de sobra para me ajudar nesse projeto. Eu estou aprendendo muito todos os dias, nunca imaginei que gostaria tanto de trabalhar.
— Se James estivesse aqui e ouvisse você dizer isso, pensaria que com certeza que você foi polissuco. — Disse Remus e os dois riram divertidos, depois ficaram sérios, olhos tristes, ainda doía falar de sua ausência. — Eu ainda tenho dúvidas, o que você pretende explicar para os outros funcionários de minhas faltas? Eles acreditarão que eu tenho tratamento preferencial ou pior, descobrirão a verdade e isso poderia prejudicar seus negócios, Almofadinhas. — Disse Remus preocupado.
— Eu não me importo e os outros funcionários serão aqueles que sofrem discriminações também, assim não se importarão. Quanto a falta de lucros, isso não vai acontecer porque estou mudando os produtos que produzimos, antes eram apenas os mais finos para puristas ricos, agora serão produtos mais acessíveis para todos os bolsos e se os puristas não quiserem mais consumir nossos produtos, ainda melhor. — Disse Sirius sorridente. — Mas se para você realmente é importante que as pessoas não saibam que você é um lobisomem, podemos encontrar um caminho diferente. Você poderia trabalhar a partir da sua casa e aparecer apenas alguns dias da semana, como se fosse um contador contratado e não um funcionário das fábricas. Que me diz? — Sirius especulou com a sobrancelha arqueada.
— Isso poderia dar certo. — Remus tinha os olhos brilhando, um trabalho de verdade, poder viver dignamente e ainda ajudar seu amigo e outras pessoas nas mesmas condições que ele. — Eu aceito. Agora conte-me tudo, suas ideias, o que já foi feito e quando eu posso começar.
Sorrindo Sirius fez exatamente isso e ficou feliz ao perceber que seu amigo parecia com mais energia e saúde. Os dois conversaram por horas, Remus com os olhos brilhando de alegria com a expectativa de um futuro intelectualmente e magicamente ativo e Sirius apenas por estar com um amigo, livre e vivo como a muito tempo não se sentia.
Hermione caminhou resoluta pelos corredores de Hogwarts, hoje estava sozinha, algo raro, ela gostava de estar com seus amigos. Se alguém tivesse lhe contado antes de vir a Hogwarts que seus melhores amigos seriam três garotos, ela teria questionado a sanidade mental do indivíduo. Seu desejo de se encaixar, de encontrar seu lugar e fazer amigos a cegara para a realidade do mundo mágico e durante esse ano longo e duro, houvera momentos em que pensara em desistir. Terry a ajudara a ver que no mundo trouxa também existiam preconceitos, crueldades e negligências e que pertencer aos dois mundos e tentar transformá-los para melhor, por mais difícil que fosse, era o caminho.
Hermione percebia que antes de conhecer Harry e Terry estava se encaminhando para fazer parte do sistema, ela queria ser a melhor aluna, ter boas notas, aprender todas as magias possíveis, ser uma garota comportada, monitora, monitora chefe, trabalhar no Ministério e quem sabe um dia poderia ser uma Ministra. Mas a realidade do sistema em que o mundo mágico vivia foi escancarado e, mesmo quando tentou, não conseguiu desviar o olhar. Ela tentara entender, compreender e ser madura, não julgar ou criticar, mas percebera que se fizesse isso estaria se tornando parte do sistema cruel que cometia crimes terríveis contra os direitos humanos, que defendia, promulgava e aceitava os preconceitos e racismos, que vivia da escravidão.
Depois dessa constatação a algumas semanas a vontade de lutar, de se rebelar crescera tanto, que Hermione se vira pensando em maneiras de ir contra o sistema. Planejando passar seu verão mergulhada em projetos anti-governo, mas que beneficiaria milhares de pessoas boas e decentes que como ela nasceu de pais sem magia. E então a alguns dias, 4 dias, todo seu mundo mudara outra vez, sua confiança nos adultos esteve tão abalada por semanas, meses, mas Hermione se esforçara em acreditar que havia pessoas que se importavam, pessoas que enxergavam e que apenas não podiam fazer mais para ajudar. Ela se esforçara em respeitar a cultura, a história e o talento mágico, compreendendo e admirando, aceitando que ninguém é perfeito, constatação essa dolorosa, mas que lhe trouxera maturidade, humildade.
E fora graças a essa maturidade e humildade, que Hermione tinha os melhores amigos do mundo, Neville, tão leal e doce. Terry tão forte e seguro e Harry, tão corajoso e generoso, não podia deixar pensar que poderia tê-los perdido por sua própria tolice.
Terminando sua caminhada, Hermione respirou fundo, estava fazendo isso por si mesma, precisava fazer isso, precisava se tornar quem nascera para ser. Harry lhe disse isso uma vez, não importava comparações, notas, quem era o melhor ou admirar bruxos mais velhos e poderosos. Hermione tinha que ser ela mesma e sabia muito bem quem queria ser. Ela bateu na porta com força e esperou alguns minutos antes de que se abrisse e sua professora preferida aparecesse. Sua expressão era o mesmo de sempre, severa e ausente de emoções, além da seriedade.
— Srta. Granger? Posso fazer algo por você?
— Posso falar um momento com a senhora?
— Claro, entre.
— Obrigada. — Hermione entrou e não se sentou na cadeira que a professora indicou antes de se sentar na sua atrás da mesa.
— No que posso lhe ajudar? Alguma coisa em seus exames? Você tem mais um, não?
— Sim senhora, o último é História e está tudo bem. Gostaria de falar com a senhora sobre o que aconteceu na sexta-feira, quando viemos aqui lhe contar o que sabíamos e nossa intuição de que uma tentativa seria feita para roubar a Pedra Filosofal. — Disse Hermione rigidamente.
— Ah sim, vocês crianças são muito curiosas, nem sei como descobriram sobre a Pedra, mas como eu disse ela estava segura e Dumbledore chegou a tempo para resolver tudo. — Disse ela calmamente e se Hermione tivesse alguma dúvida do por que estava ali, teria perdido naquele instante.
— Sabe, professora, quando a senhora entrou na minha casa com minha carta e me contou que eu era uma bruxa, sobre magia, o mundo mágico, eu a admirei muito e desejei um dia ser exatamente como a senhora. Pensava em vir para Hogwarts e ser uma Gryffindor, implorei ao chapéu para me colocar nessa casa, ele me disse que a Ravenclaw era o lugar para mim, mas eu não quis ouvi-lo, porque queria ser sua aluna, queria lhe deixar orgulhosa. Não pensei em deixar meus pais orgulhos com minhas notas ou dedicação e sim a senhora. — Hermione explicou e viu seu rosto suavizar levemente com o elogio.
— Muito me agrada que se sinta assim, tenho muito orgulho que pertença a minha casa.
— Pois é, mas não me sinto mais assim, sabe, quando todos os problemas aconteceram no semestre passado, que culminou com o troll no Halloween, eu compreendi que a senhora era muito ocupada para se preocupar com uma aluna tola e com saudades de casa e a admirei por sua decisão de deixar de ser chefe de casa e permitir que alguém cuidasse de nós com mais atenção e competência. Naquele momento meus problemas pareciam resolvidos, mas eis que eu descubro que havia um objeto mágico perigoso escondido na escola, com um Cerberus na porta de um corredor que um 1º ano poderia abrir. E que alguém estava tentando roubá-lo e percebi que o anúncio do diretor e a "proteções" eram apenas uma armadilha para atrair o ladrão para uma escola cheia de crianças.
— Srta. Granger todos estavam perfeitamente seguros...
— Não estávamos seguros! O troll que quase me matou foi usado como um teste por Quirrell para tentar roubar a Pedra, ele disse, "vá e mate alguns sangues ruins por mim". — Gritou Hermione indignada com sua indiferença. — Nunca estivemos seguros porque o nosso professor era o ladrão, eu estive sozinha com ele diversas vezes para fazer perguntas, com um assassino de nascidos trouxas.
— Eu não sabia que Quirrell era o ladrão. — Disse ela rigidamente, seu rosto estava pálido.
— Todas as pistas estavam lá, Harry sabia desde o primeiro jogo de quadribol em novembro, ele tem 11 anos e, se a senhora não descobriu, foi porque não se importou de olhar ou perguntar ao diretor, porque ele sabia. Dumbledore sempre soube quem era o ladrão, quando a armadilha foi preparada em setembro ele já sabia que era Voldemort quem estava por traz da Pedra para recuperar seu poder e que Quirrell o estava ajudando. Eu não vou questioná-lo porque, sinceramente, não me importa suas explicações e também não vim aqui para questioná-la, não quero desculpas, se é que a senhora julga que merecemos, mas já percebi que não. — Hermione respirou fundo. — Vim aqui apenas para lhe dizer que 4 dos seus alunos vieram lhe pedir sua ajuda, batemos em sua porta porque confiávamos na senhora e eu até disse, "não precisamos nos preocupar, Prof.ª McGonagall vai resolver tudo". E a senhora bateu a porta na nossa cara, sem nos ouvir, sem nos compreender, como se fossemos moleques mentirosos, como se por termos 11 anos não fossemos suficientemente inteligentes para descobrir ou deduzir ou saber. A senhora foi arrogante, convencida e cruel, esse é um internato, o que aconteceria se eu viesse a sua porta lhe dizer que fui molestada, estuprada, a senhora me chamaria de mentirosa e tola e me expulsaria do seu escritório? — Ofegante por colocar toda sua indignação para fora, Hermione prosseguiu. — Saímos daqui e procuramos o Prof. Flitwick que nos ouviu por que como ele disse, "somos bons garotos" e se dispôs a descobrir se nossas percepções estavam corretas. Ele quase morreu por isso, mas ele acreditou em nós e Harry, Merlin, Harry foi corajoso e incansável e talvez a Pedra nunca tenha estado em perigo, mas ele se arriscou para protegê-la. E a senhora não fez nada! Precisávamos do seu apoio e a senhora foi como quando era a chefe da Gryffindor, indiferente, negligente, ausente. Foi por isso que eu vim aqui, para lhe dizer que a senhora é uma péssima professora e que, nunca, quero ser nada como a senhora.
Hermione não esperou resposta e se encaminhou para fora da sala ignorando a expressão de choque da sua ex-professora favorita. Mas antes...
— Se a senhora tiver um pouco de senso de autocrítica e resolver fazer uma autorreflexão, eu sugiro que comece questionando sua lealdade cega ao diretor, a senhora poderia ser grande, mas tudo o que faz é ficar a sua sombra, obediente como um peão... Ah, e pode me dar detenção o ano que vem inteiro se quiser, não me importo e cumprirei elas com orgulho.
E saiu da sala fechando a porta com a mesma batida seca e caminhou pelo corredor de ombros erguidos. Hermione sabia desde sexta-feira que nunca seria como ela, cega, indiferente, uma sombra, parte do sistema, Hermione era e seria uma lutadora, uma guerreira, uma rebelde e o mundo mágico que se preparasse, porque o dia de hoje, era apenas o começo.
