Capítulo 35

O silencio na biblioteca durou alguns segundos enquanto Anton compreendia sua intenção.

— O que? Você está pretendendo processar Albus Dumbledore? — A voz de Anton se elevou no escritório silencioso.

— Não vou processá-lo e sim lutar contra ele em um caso de guarda. Pretendo requerer a guarda de Harry Potter, na verdade já entrei com o processo na quinta-feira e pretendia me representar, mas as coisas mudaram. — Falc explicou e viu seu rosto ficar confuso. — Eu sei, é bem complicado e se você estiver disposto a me representar e tiver tempo vou te explicar tudo, mas já lhe digo, não há garantias de que venceremos.

— Você sabe que te ajudaria de qualquer forma, a disputa ser contra aquele homem apenas me motiva ainda mais. Me conte tudo, lhe conheço o suficiente para compreender que suas razões são solidas e honestas e estou curioso para saber o que mais o Grande Albus Dumbledore fez merda. — Disse Anton com um sorriso irônico.

— Muito bem, tudo começa a mais de 10 anos quando...

A explicação foi longa e difícil, como um pai apaixonado por seus filhos, Anton Davis não podia conceber a negligência e abusos contra crianças. Depois de assistir a cada lembrança ele ficou mais pálido, sério e furioso. A conversa com Dumbledore no escritório lhe arrancou vários palavrões e as mudanças dos últimos dias o deteve de seu caminhar enérgico.

— Foi por isso que você decidiu me chamar? Por causa das ações absurdas do diretor de arrancar o menino de Hogwarts?

— Sim, eu penso, e meu pai concorda, que isso só mostra o quão longe ele está disposto a ir para controlar o Harry e mantê-lo na casa dos tios. Tirá-lo de Hogwarts desta maneira desesperada e absurda apenas para evitar que ele se encontre com o padrinho? Isso não é normal, Anton, nada sobre sua obsessão por Harry é normal. — Falc se levantou e começou a lhes preparar um chá. — Na audiência teremos que ser mais agressivos, incisivos e, se necessário, até mesmo acusá-lo de ser um tutor negligente, mas se eu assumir esse tom, perderei qualquer apoio no trabalho da conta Potter, ele pode me anular completamente. Pior, ele poderia, se vencer a audiência, proibir Harry de voltar a pôr os pés em minha casa, isso seria terrível. Nós já o amamos, Anton, as crianças o veem como um irmão, não queremos substituir James e Lily, apenas...

— Eu compreendo. Ele parece ser um incrível garoto e passar por tudo o que passou e ainda manter aqueles olhos inocentes e bondosos. — Anton suspirou e pegando sua xícara de chá, bebeu um gole. — Você tem razão, nada disso é normal, porque se fosse todas essas provas já seriam mais do que suficientes para garantir a vocês a guarda do menino. Você teme que Dumbledore use seu poder e influência para impedir isso e eu vou te ajudar com prazer. Incrivelmente essas atitudes dele não me surpreendem, você sempre insistiu em defendê-lo, mas...

— E eu me arrependo, de verdade, me arrependo de cada palavra que algum dia disse para defender Dumbledore, mas naquele momento... Anton, eu realmente sinto muito. — Disse Falc e viu ao amigo acenar de volta meio constrangido, meio emocionado.

— Você não tem culpa, ninguém tem culpa, o que Dumbledore fez todos esses anos com Harry, essa omissão, negligência, não é diferente do que ele fez a tantos anos atrás e continua a fazer em relação ao mundo mágico. — Anton soltou a xícara e impaciente pôs-se a andar pelo escritório. — Pense em tudo isso, Falc, o homem é importante e poderoso, poderia ter mudado leis discriminatórias, poderia ter unido o mundo mágico, verdadeiramente. Os puros-sangues não puristas o seguiriam e poderíamos ter combatido esse racismo de sangue sem fim. A guerra durou 11 malditos anos e ele efetivamente não fez nada, não agiu politicamente, não agiu magicamente e, quando criou aquela Ordem da Fênix, ainda assim manteve-se na defensiva e manipulando as pessoas como se elas fossem peões em um tabuleiro de xadrez. E quando Carole foi morta daquela maneira, haviam testemunhas e meu irmão, Louis foi uma delas.

Falc acenou tentando conter a dor e também não expressar o conhecimento de que a morte de Carole teve influência da Ordem de Dumbledore, esse não era o momento para mexer em velhas feridas.

— Os dois estavam tão felizes, noivos e com planos de se casarem em breve, minha mãe me disse que tentou convencê-la a vir ao meu encontro e de Serafina, sair da Inglaterra, mas os dois queriam ajudar na guerra, proteger os nascidos trouxas. — Disse Falc com o pensamento no passado.

— Sim, Louis tinha grandes ideias e um grande desejo de lutar, mas quando Carole foi assassinada por Malfoy, tudo mudou, ele dedicou cada segundo em fazer justiça. Quando a guerra acabou Louis se apresentou com outras testemunhas para acusarem Malfoy que, nesse momento, já estava apresentando a versão falsa de ter estado sob a Maldição Imperius. — Anton suspirou arrasado. — Meu irmão ficou furioso e gritou para todos ouvirem a verdade, foi a rádio, ao jornal, a Dumbledore e quando parecia que ia conseguir ao menos um julgamento, desapareceu...

— Anton...

— Está morto, sei que está morto e que Malfoy foi o responsável, as outras testemunhas ficaram com medo e recuaram. Eu, Falc, eu fui procurar Dumbledore, pessoalmente, para pedir que exigisse uma investigação completa, ele tinha poder, era o Chefe da Suprema Corte, mas tudo o que ele me disse foi que não podia ordenar a Ministra ou o Chefe Auror. Disse que não havia nada a se fazer sem provas, que eu devia perdoar e seguir em frente. — Anton riu debochado. — Seguir em frente, eu nem tinha o corpo do meu irmão para enterrar e ele queria que eu superasse e perdoasse seu assassino. Tudo isso enquanto Malfoy se tornou cada vez mais poderoso dentro do Ministério e ele não fez nada, Falc, Dumbledore apenas se senta e preside os encontros da Suprema Corte, não propõe uma lei ou impede uma lei dos racistas, mesmo depois daquela guerra horrível, mesmo depois de tantas mortes.

— Você está certo, sempre esteve certo e eu vejo isso agora. Tem uma lei nova sendo votada esse verão, do Weasley, para defesa dos trouxas e Dumbledore não fez um pronunciamento de apoio, seu silencio chega a ser constrangedor. — Disse Falc e sorriu para surpresa do amigo. — Eu sei Anton, não estou mais cego, acredite e sei ainda mais coisas, mas agora precisamos esquecer o passado e nos concentrarmos no Harry, no futuro desse garoto maravilhoso. Depois, prometo que me sento com você para beber e te conto cada podre de Albus Dumbledore.

Anton o olhou interessado, depois sorriu animado e bateu palmas.

— Bem, o que está esperando, meu amigo, vamos trabalhar e, depois que vencermos, vou lhe cobrar essa promessa.

Falc sorriu, não tão animado, e eles começaram a discutir as estratégias para tentar vencer o bruxo mais poderoso do mundo mágico.

No dia seguinte Falc foi buscar Terry na estação e informou a ele e seus ansiosos amigos, discretamente, que Harry estava bem. Era óbvio que os últimos dias não haviam sido nada tranquilos para o trio.

— Neville? Estes são seus amigos? — Sra. Augusta Longbottom surgiu, muito intimidadora e curiosa.

— Sim, avó. — Disse Neville tentado conter a ansiedade. — Meus melhores amigos, Hermione Granger, Terrence Boot e seu pai, Falcon Boot, está minha avó, Augusta Longbottom.

Houve um momento de cumprimentos e formalidades.

— E onde está Harry Potter? Você não disse que eram amigos? Gostaria de conhecê-lo. — Disse ela olhando em volta rigidamente.

— Harry teve que ir para casa mais cedo, avó, em setembro, eu os apresento. — Disse Neville e ignorou seu olhar decepcionado, como se a ausência de Harry fosse sua falha.

— Sra. Longbottom, eu convidei Neville para me visitar durante o verão, para estudamos e passarmos um tempo juntos. A senhora daria permissão? — Perguntou Terry educadamente.

— Conversarei com meu neto sobre isso, dependerá dos resultados dos seus exames. — Disse ela muito séria e olhando para Neville como se não esperasse que os resultados a agradariam. — Agora devemos ir, seus tios estão nos esperando para o chá. — Seu tom não admitia discussão e Neville apenas abraçou e se despediu dos amigos antes de seguir a avó para a lareira.

— Sr. Falc? Eu queria apresentar o senhor e Terry para meus pais, se estiver tudo bem? — Hermione perguntou sorrindo tímida.

— Claro, querida, vamos lá. — Disse Falc sorrindo.

Os três atravessaram a barreira e logo Hermione localizou seus pais e correu para abraçá-los. Os dois Boots ficaram mais atrás lhes dando um momento e quando uma emocionada Hermione gesticulou, eles se aproximaram.

— Mamãe, papai, esse é um dos meus amigos que lhes falei, Neville e Harry já foram para casa, este é Terry e o pai dele, Sr. Boot. Estes são meus pais Jean e Norton Granger. — Disse ela sorrindo, apesar dos olhos úmidos.

O casal trouxa era muito simpático e curioso, Sra. Granger tinha os cabelos encaracolados como a filha e a pele morena clara como Terry, olhos da cor do whisky. Seu marido bem mais alto, era negro e de ombros largos, Hermione herdara seus olhos castanhos e ele tinha muito humor e jovialidade. Eles se cumprimentaram e conversaram por alguns minutos, Terry refez o convite para a Hermione visitar durante o verão e os pais Granger concordaram. Falc os convidou para um jantar no Chalé e combinou de enviar uma carta para definirem uma data. Em seguida eles se despediram.

Pouco depois que chegaram ao Chalé, os Boots receberam a visita da Sra. MacMillan e Sra. Diggory que lhes questionaram, suas intenções e condições para cuidar do Harry. Elas tiraram foto de seu quarto e ouviram as crianças falando de seu irmão e como ele fazia os melhores queijos grelhados e chocolates quentes. A disparidade entre as duas casas era tão grande e absurda que ninguém duvidaria da decisão da audiência.

Na segunda-feira de manhã, antes de Vernon Dursley sair para o trabalho, o número 4 recebeu uma carta via coruja. Era uma carta oficial do Ministério convocando-os a comparecer ao Tribunal de Justiça do Ministério da Magia em 04 de julho, ou seja, quarta-feira, as 10 horas. Harry observou seu tio furioso quase rasgar a carta e sua tia pálida e ansiosa tentar acalmá-lo. E por fim.

— Nós não vamos! Eu não sei como você vai chegar até esse tal Ministério de aberrações! Isso é problema seu, mas por mim você pode ir e não voltar, aliás, já vai tarde! E não passe bem! — Disse seu tio vermelho e cuspindo saliva com seus berros.

Depois ele foi trabalhar e Harry esperou a volta de Edwiges para poder escrever aos Boots e informar a decisão de seus tios e pedir o endereço do Ministério. Ele não deixaria de comparecer por nada no mundo.

Os Boots haviam recebia a carta de Harry informando da visita das assistentes sociais e na segunda-feira pela manhã também receberam a carta com a data e horário da audiência.

— Em dois dias, eles foram rápidos. — Disse Serafina relendo a carta ansiosa.

— O relatório delas deve ter pedido urgência ao perceberem o tipo de ambiente em que Harry está, mesmo que ele não está em perigo físico, os perigos emocionais não podem ser desconsiderados. — Disse Falc seriamente antes de ir trabalhar.

Em Hogwarts, Albus Dumbledore também recebeu a carta o convocando, como tutor do menor, a comparecer à audiência de disputa de guarda de Harry Potter. Dizer que ele ficou chocado era um eufemismo e sua primeira atitude foi ir ao Tribunal de Justiça no Ministério da Magia, questionar e tentar obter informações do processo que estava sob sigilo. Mas logo ficou claro que seu nome e influência não tinham poder nenhum para burlar as leis e as novas regras impostas por Madame Bones. Ele apenas conseguiu, como tutor do Harry e seu representante legal, acesso as provas dos maus tratos que estavam sendo usadas como alavanca para o pedido de guarda por uma família desconhecida.

Ainda no tribunal, ele assistiu as lembranças fornecidas por Harry e ficou enfurecido, sabia que o menino não seria querido e amado, mas nunca supôs que os Dursleys o tratariam assim. Os relatórios médicos trouxas e mágicos o desconcertou, doente, o garoto estava gravemente doente, poderia até ter morrido. A Sra. Figg o alertara, mas Dumbledore pensara ser exagero ou que ela simplesmente não simpatizava com os tios do menino, suas queixas de que Harry não era bem tratado nunca foram explicativas e agora percebia que não tinha como ela saber do que acontecia dentro da casa.

Dumbledore não errava com frequência e muito menos admitia um erro com frequência, mas ao olhar para todas aquelas provas incontentáveis, suspirou cansadamente e se perguntou baixinho:

— O que eu fiz?

Na quarta às 8 horas Harry terminou de se arrumar e colocou seu baú no bolso, suspirando, olhou em volta, as chances de não ter que voltar eram pequenas, mas ele sempre poderia esperar. Ele já enviara Edwiges para St. Albans, assim não precisava se preocupar com a segurança de sua amiga e caso tivesse que voltar para cá, ela retornaria depois.

Descendo as escadas, Harry se deparou com sua tia no hall de entrada. Seu tio já deixara para o trabalho e o primo, que estava de férias, finalmente, ainda dormia.

— Estou indo, tia Petúnia. — Disse ele com firmeza. Sua tia o olhava pálida, ansiosa e contrariada, desde domingo estava assim e à Harry parecia que ela queria dizer alguma coisa, mas não dizia. — Se ganharmos a causa não retornarei, peguei todas as minhas coisas já e enviei minha coruja para a casa dos Boots.

— E sobre a carta? Você não queria a carta? — Disse ela meio sem fôlego.

— A senhora a encontrou? — Harry perguntou ansioso.

— Sim. — Respondeu ela e pegando a carta do bolso lhe entregou. — Eu... acredito, pelo que reli, que você terá que voltar, parece ser uma proteção muito importante...

— Talvez. — Disse Harry olhando para o envelope amarelado pelo tempo, suspirando o guardou no bolso, leria mais tarde com calma. — De qualquer forma saberemos em algumas horas e... bem, adeus e sinto muito ter sido um peso para a senhora e sua família, tia Petúnia.

Harry foi na direção da porta e quando a abriu ouviu sua tia o chamar. Olhando para traz a encarou, ela abriu a boca e parecia que ia dizer algo, mas depois pensou melhor e olhando para as mãos questionou:

— Como você vai chegar nesse Ministério de aberrações? — Seu tom era ríspido.

— Acredito, que isso não é da sua conta. — Respondeu Harry e sem esperar mais nada, saiu da casa e caminhou de cabeça erguida pela entrada, quando caminhou pela rua na direção do parque, não olhou para atrás.

No parque quem o esperava era o Sr. Falc, Harry pretendia ir sozinho de trem para Londres, mas a Sra. Serafina não permitiu e disse que alguém o buscaria. Harry se sentia tão emocionado em ver um rosto amigo depois de todos esses dias que não conseguiu evitar o enorme sorriso e o abraço, que surpreendeu o Sr. Falc.

— Ei, você está bem? — Disse ele suavemente.

— Sim, senhor, apenas muito feliz em vê-lo, apenas uns dias na casa dos Dursleys e já estava cheio de saudades de ver pessoas boas. — Disse Harry com um sorriso tímido.

— Posso imaginar. Eles não mudaram de ideia? Não vão mesmo comparecer à audiência? — Perguntou enquanto caminhavam para a estação, não iam por magia porque tinham receio de que Dumbledore descobrisse que eles sabiam o endereço de Harry.

— Não senhor, na verdade, deixaram bem claro que esperam que eu não volte e imagino que planejam uma comemoração caso isso aconteça. — Disse Harry ironicamente.

Ainda que fosse estranhamento doloroso, mesmo que não surpreendente, a atitude de sua tia.

— Bem, eles podem comemorar e nós faremos o mesmo. Harry, eu vim porque quero lhe contar algumas mudanças de estratégias enquanto viajamos. — Disse Sr. Falc e quando se sentaram no trem explicou a presença de Anton Davis no caso como advogado e até contou porque o sócio não gostava de Dumbledore.

Harry ouviu em silencio entendendo a intenção, era boa, mas ele foi realista.

— Não acredito que o diretor deixará de lutar, mesmo com a ausência dos meus tios, precisamos de outra estratégia e acredito que sei o que fazer, Sr. Falc. — Disse Harry muito seriamente e rapidamente explicou sua ideia, Sr. Falc levantou a sobrancelha surpreso, mas acenou entendendo e até fez algumas anotações.

Em 45 minutos, eles chegaram a Londres e andaram algumas quadras por Whitehall até a entrada dos visitantes do Ministério da Magia. Quanto mais andavam, menores e menos imponentes os edifícios se tornavam, até que finalmente chegaram a uma rua em que havia vários prédios de escritórios de mau aspecto, um bar e uma caçamba transbordando lixo.

— Chegamos — disse o Sr. Falc, apontando para uma velha cabine telefônica vermelha, em que faltavam vários vidros nos caixilhos e que fora instalada em frente a uma parede toda grafitada. — Aqui dentro, Harry.

— O que? Essa é entrada para os visitantes? — Harry estava chocado, esperara um local mais atraente para o Ministério da Magia.

O Sr. Falc abriu a porta da cabine.

— Infelizmente, sim. Eles acreditam que a aparência de abandono ajuda a impedir que os trouxas prestem atenção e percebam alguma coisa. — Explicou Falc.

Harry olhou em volta e não viu um único trouxa que passava, olhar na direção deles.

— Mas o Feitiço Repele trouxa não tem essa exata função? — Harry questionou e entrou na cabine, imaginando o que aconteceria ali.

O Sr. Falc apertou-se ao lado dele e fechou a porta. Quase não deu; Harry ficou entalado contra o aparelho de telefone que pendia torto da parede, como se algum vândalo tivesse tentado arrancá-lo. O Sr. Falc esticou o braço à frente de Harry para apanhar o fone.

— Tem sim, Harry e como você pode ver a cabine nem tem um feitiço de extensão. Quando Serafina diz como os bruxos são ilógicos e insensatos, não tenho como contradizê-la. — Disse ele ao apertou o disco. — Tem um código para entrar... seis... — discou ele — dois... quatro... e quatro outra vez... e dois...

Quando o disco voltou suavemente à posição inicial, ouviu-se uma voz tranquila de mulher, dentro da cabine, não no fone que o Sr. Falc segurava, mas uma voz alta e clara como se houvesse uma mulher invisível ali ao lado deles.

— Bem-vindos ao Ministério da Magia. Por favor, informem seus nomes e o objetivo da visita.

— Falcon Boot e Harry Potter, para uma audiência no Tribunal de Justiça. — Disse o Sr. Falc objetivamente.

— Obrigada — disse a voz tranquila de mulher. – Visitante, por favor, apanhe o crachá e prenda-o ao peito de suas vestes. – Ouviu-se um clique e um rumorejo, e Harry viu alguma coisa sair pela ranhura de metal por onde normalmente saem as moedas excedentes. Apanhou a: era um quadrado prateado em que se lia Harry Potter, Audiência no Tribunal de Justiça. Prendeu-a ao peito da camisa e a voz feminina tornou a falar.

— Visitante ao Ministério, o senhor deve se submeter a uma revista e apresentar sua varinha, para registro, à mesa da segurança, localizada ao fundo do Átrio.

O piso da cabine telefônica estremeceu e eles começaram a afundar lentamente. Harry observou com apreensão a calçada ir subindo pelas vidraças da cabine e, por fim, a escuridão se fechar sobre suas cabeças. Então não conseguiu ver mais nada; ouviu apenas um ruído abafado de trituração, enquanto a cabine continuava a entrar pela terra.

— O Ministério fica no subsolo. — Constatou Harry curioso.

— Sim. — Sr. Falc respondeu baixinho.

Decorrido mais ou menos um minuto, uma claridade dourada iluminou seus pés e foi se ampliando, subindo pelo seu corpo até bater em cheio no rosto e ele precisou piscar para os olhos não lacrimejarem.

— O Ministério da Magia deseja ao senhor um dia muito agradável — disse a voz feminina.

A porta da cabine telefônica se escancarou e o Sr. Falc saiu, acompanhado por Harry, que olhou em volta surpreendido. Estavam parados a um extremo de um saguão muito longo e suntuoso, com um soalho de madeira escuro e extremamente polido. O teto azul-pavão era entalhado com símbolos dourados que se moviam e se alternavam como um enorme quadro celeste de avisos.

As paredes de cada lado eram forradas de painéis de madeira escura e lustrosa, e nelas havia, engastadas, muitas lareiras douradas. A intervalos de segundos, bruxos e bruxas emergiam de uma das lareiras à esquerda com um suave ruído de deslocamento de ar. Na parede da direita, iam se formando diante de cada lareira pequenas filas de gente que aguardava o momento da partida.

No meio do saguão havia uma fonte. Um grupo de estátuas de ouro, maiores que o tamanho natural, estavam dispostas no centro de um espelho de água circular. A mais alta era de um bruxo de aparência aristocrática, com a varinha apontando para o ar. Agrupados a seu redor, havia uma bela bruxa, um centauro, um duende e um elfo doméstico. Os três últimos olhavam com adoração para o casal de bruxos. Das pontas de suas varinhas, saíam jorros de água cintilante, bem como da ponta da flecha do centauro, da ponta do chapéu do duende e de cada orelha do elfo doméstico.

— Isso é grotesco. — Silvou Harry irritado, Firenze e seus amigos elfos não mereciam essa fonte ofensiva.

E os goblins, como os bruxos poderiam ser tão cegos em não perceberem que os orgulhosos goblins jamais tratariam ninguém com adoração? Respeito, se conquistado, mas não adoração.

— Sim, essa é a política do Ministério, sempre em defesa da superioridade dos bruxos. — Disse Sr. Falc, apontando em uma direção e eles se juntaram à multidão e continuaram a caminhar entre os funcionários do Ministério.

Ao passarem pela fonte, Harry viu sicles de prata e nuques de bronze brilhando no fundo da água. Um pequeno cartaz ao lado da fonte informava:

TODO O DINHEIRO RECOLHIDO NA FONTE DOS IRMÃOS MÁGICOS SERÁ DOADO AO HOSPITAL ST. MUNGUS PARA DOENÇAS E ACIDENTES MÁGICOS

Harry não pode deixar de se perguntar quanto desse dinheiro realmente chegava o hospital e quanto era desviado para o bolso de alguém.

— Aqui, Harry — disse o Sr. Falc e eles se separaram do fluxo de funcionários do Ministério que se encaminhavam para as portas douradas.

Sentado a uma mesa à esquerda, sob a placa Segurança, um bruxo mal barbeado de vestes azul-pavão parou de ler o seu Profeta Diário e ergueu a cabeça quando os dois se aproximaram.

— Somos visitantes. — Disse o Sr. Falc cordialmente.

— Venha até aqui — disse o bruxo com voz entediada.

Harry se aproximou e o bruxo ergueu uma longa vara dourada, fina e flexível como uma antena de carro, e correu-a pelo corpo do garoto, de alto a baixo, de frente e costas.

— Varinha — grunhiu o segurança para Harry, baixando o instrumento dourado e estendendo a mão.

Harry apanhou e lhe entregou a varinha. O bruxo largou-a em cima de um estranho instrumento de latão, que lembrava uma balança de um único prato. A coisa começou a vibrar. Uma tira fina de pergaminho foi saindo instantaneamente de uma ranhura na base. O bruxo destacou-a e leu o que estava escrito.

— Vinte e oito centímetros, cerne de pena de fênix, em uso há 1 ano. Correto?

— Correto — respondeu Harry educado.

— Fico com ela — disse o bruxo, enfiando a tira de pergaminho em um pequeno espeto de latão.

— O que? Porque? — Harry perguntou chocado.

— Política do Ministério, eu a devolvo depois. — Acrescentou, apontando a varinha para o garoto.

— Nem pensar. — Disse Harry e sem hesitar ergueu a mão e pediu a magia que lhe devolvesse sua varinha que voou da mão do homem direto para a sua. — Eu não sei quem faz a política nesse lugar, senhor, mas não vou ficar sem minha varinha.

— Escuta aqui garoto...

— Harry...

Disseram o funcionário entediado e o Sr. Falc ao mesmo tempo, mas Harry os ignorou e ajustando a postura de um senhor que ele sabia que era, disse:

— Eu não sou nenhum garoto, meu nome é Harry Potter e me recuso a entregar minha varinha e única forma de defesa. — Harry viu o homem arregalar os olhos e pela primeira vez o encarar com atenção e identificar sua cicatriz em sua testa.

— Sr. Potter... Eu... é uma honra senhor, meu nome é Eric, prazer em conhecê-lo. — Disse o homem ansiosamente apertando sua mão.

— Prazer em conhecê-lo também, Sr. Eric, mas não deixarei minha varinha.

— Mas..., mas eu... Sr. Potter, eu gostaria de ajudá-lo, mas não posso ir contra as regras do Ministério, eu... Perderia meu emprego, senhor... — Disse o homem pálido e muito aflito.

— Harry, está tudo bem, sua varinha estará aqui quando saímos, essa é uma regra antiga, visitantes não podem entrar com suas varinhas. — Disse o Sr. Falc suavemente.

— Apenas os visitantes? E os funcionários? — Perguntou Harry olhando em volta e observando muitos entrando por lareiras ou aparatação e seguindo para o que, ele percebia agora, eram elevadores.

— Não, os funcionários entram com varinha, mas Harry... — Sr. Falc parou ao ver o olhar determinado do menino e seu movimento negativo de cabeça.

— E quantos desses funcionários não são antigos seguidores de Voldemort que ficariam muito felizes em me atacar. Não vou entrar aí sem minha varinha. — Disse Harry com firmeza e ignorou o grito do homem, Eric, quando disse o nome do temido bruxo.

— Harry, ninguém te atacaria assim na frente de um monte de pessoas e haveriam muitos para protegê-lo, eu mesmo...

— Mas o senhor deixará sua varinha também. E Dumbledore também estará sem varinha? — Interrompeu Harry, irritado.

— Não, Dumbledore é o Chefe da Suprema Corte, ele estará com sua varinha. — Disse Sr. Falc levemente preocupado.

— O senhor realmente quer ficar na mesma sala com ele sem uma varinha? Pois eu, não. — Disse Harry decidido e olhando para o funcionário e tentava ouvir a conversa que se tornara um sussurro, continuou. — Sr. Eric, não quero lhe causar nenhum problema ou que perca seu emprego, ainda que o contrataria para trabalhar para mim caso isso acontecesse, mas não entrarei no Ministério da Magia ou nenhum outro lugar da face desta terra sem minha varinha. Agora, ou o senhor me deixa entrar com ela ou chama alguém que possa, seu superior, chefe, até o Ministro da Magia, não me importo. — O tom de Harry foi respeitoso e cordial, mas firme e determinado.

O homem o encarou de boca aberta por alguns segundos e depois a fechou e rapidamente pegou um papel e escreveu algo, depois com um feitiço o transformou em um aviãozinho de papel e este saiu voado na direção pretendida. Harry quase se engasgou.

— É dessa maneira que vocês se intercomunicam? — Perguntou chocado.

— Sim, senhor, eletricidade não funciona aqui, tentamos corujas, mas elas fazem muita sujeira. — Disse ele timidamente e Harry se esforçou para não demonstrar ainda mais sua descrença.

Se afastando um pouco para deixar outro visitante passar, Harry questionou o Sr. Falc que, ansioso, olhava o relógio.

— Um monte de bruxos inteligentes e ninguém pensou em uma forma de comunicação mais efetiva? E eles dizem que os trouxas são inferiores? — Harry questionou completamente abismado.

— Os bruxos fazem tudo facilmente com magia e não pesquisam ou inventam nada, basicamente. Harry, eu entendo que está preocupado, mas Dumbledore não vai nos atacar e se demorarmos, chegaremos atrasados. — Disse ele tenso.

Harry suspirou, não queria chatear ou preocupar ninguém e muito menos chegar atrasado, mas ele sofrera uma tentativa de assassinato a menos de três semanas e não se separaria de sua varinha por nenhum motivo, muito menos por causa de uma regra estúpida do Ministério. Pensado, ele viu o funcionário ficar livre outras vez e se aproximou.

— Sr. Eric, temos um horário marcado para uma audiência no Tribunal, tem como o senhor enviar um aviãozinho desses e avisar que nos atrasaremos por um momento? — Pediu Harry suavemente.

O homem arregalou os olhos e lendo o crachá em seu peito acenou e rapidamente fez outro aviãozinho que saiu voando.

— Muito obrigado. — Disse Harry sorrindo. — Pronto Sr. Falc, agora eles estão avisados do que acontece.

Sr. Falc o olhou e pela primeira vez pareceu perceber que Harry não era o mesmo garoto que estivera em sua casa a pouco mais de 2 meses.

— Harry, o que te faz temer ser atacado por Dumbledore? — Sussurrou ele confuso.

— Não temo ser atacado por Dumbledore, Sr. Falc e, muito menos acredito que nós o venceríamos se fossemos, mesmo com 10 varinhas cada um. Agora, existem milhares de funcionários nesse lugar que podem me odiar e decidir que vale a pena ir para Azkaban se conseguirem me matar. — Harry o olhou bem em seus olhos azuis. — Está disposto a arriscar? Bem, eu não estou e se não me deixarem entrar com minha varinha, não entro, o senhor pode ir para a audiência, irei para o seu escritório esperar as notícias, não fica longe, certo?

— Não, mas...

E nesse momento um homem alto e negro, careca e usando vestes negras e bonitas, parecendo muito oficias se aproximou do funcionário.

— Qual o problema, Eric? — Perguntou ele, tinha uma voz grave e lenta e Harry viu que usava um único brinco de ouro na orelha.

— Ah, Sr. Shacklebolt, senhor, temos um visitante que se recusa a deixar sua varinha...

— Bem, nesse caso ele não pode entrar no Ministério, Eric, estas são as regras, não existem exceções. — Disse ele muito seguro e calmo.

Incrivelmente isso pareceu tranquilizar o homem que parecia menos ansioso.

— Eu sei senhor, mas ele é... — E parou olhando para o Harry que se aproximou junto com o Sr. Falc.

— Olá senhor, meu nome é Harry Potter, prazer em conhecê-lo. — Disse Harry estendendo a mão.

Sr. Shacklebolt mostrou uma leve surpresa, mas imediatamente estendeu sua mão e o cumprimentou firmemente.

— Auror Kingsley Shacklebolt, Sr. Potter, prazer em conhecê-lo e eu o reconheceria facilmente, o senhor é muito parecido com seu pai. — Disse ele com um sorriso suave.

Harry sorriu sentindo a quentura de amor de sempre, ao pensar em seus pais.

— O senhor conheceu meu pai? — Ele perguntou surpreso.

— Sim, lutamos muitas vezes lado a lado durante a guerra e os Shacklebolts e os Potters sempre foram famílias amigas. Assim como com os Boots, Falc, como vai? — Disse ele aumentando o sorriso e cumprimento o Sr. Falc com outro aperto firme.

— Bem, King, mas, infelizmente, estamos presos aqui e quase atrasados. Sei que isso não é comum, mas algo poderia ser feito para que Harry comparecesse a audiência sem deixar sua varinha? — Sr. Falc disse preocupado e tenso.

— Sim, Sr. King, eu não vou entrar no Ministério sem minha varinha, preciso dela para me defender. E registre-se que acredito que essa regra é muito arbitrária e absurda. — Disse ele firme.

King Shacklebolt o encarou surpreso e depois ao funcionário que fez uma expressão, "eu te disse" e depois voltou a olhar para Harry.

— Vocês estão aqui para que compromisso? — Perguntou ele com sua voz tranquilizadora, Harry não pode deixar de imaginar que não havia um único ser humano que não confiaria nele.

Sr. Falc, se afastando ao lado, discretamente, explicou ao Sr. King o motivo da presença deles, Harry os acompanhou e viu o olhar desapontado do Sr. Eric que queria, com certeza, ouvir a fofoca.

— Ok. — Disse o Sr. King e depois olhando para Harry com atentos olhos negros, continuou. — E o senhor não deseja entrar no Ministério da Magia sem sua varinha, Sr. Potter? Poderia me explicar seu raciocínio?

Harry sorriu reconhecendo um companheiro Ravenclaw.

— Apenas Harry, por favor, Sr. King. Meu raciocínio é muito simples, minha varinha é meu maior instrumento de proteção e nenhum bruxo inteligente abre mão, voluntariamente, deste instrumento. Principalmente, quando o motivo para isso é a hipócrita explicação de que isso é a política do Ministério da Magia.

— Muito bem, o que você classificaria como hipócrita nessa política? — Perguntou ele interessado.

— Quando a ordem não vale para todos os envolvidos. Proibir a entrada de visitantes com suas varinhas sugere o pensamento de que o Ministério e sua política acreditam que a referida varinha é uma arma e fonte de perigo. Mas ao permitir que todos os funcionários, não apenas aurores ou guardas, entrem com suas varinhas, o Ministério apenas transfere o perigo para o visitante que se vê sem defesa diante de milhares de bruxos. Isso é uma grande e absurda hipocrisia. E para mim, fere o meu direito de me defender e coloca minha vida em risco, assim é também arbitrária. — Disse Harry inteligente e firme.

— Compreendo seu raciocínio, mas espero que entenda que você ser quem é não é motivo para privilégios e acredito que dificilmente você seria atacado no Ministério da Magia. — Disse ele depois de refletir sobre suas palavras.

— Hum... então isso seria uma grande novidade, não é? Está me dizendo que ninguém neste Ministério nunca conseguiu um privilégio, talvez um presente ou, quem sabe, um emprego apenas pelo seu sobrenome ou fama? — Harry perguntou com o sarcasmo escorrendo em cada palavra. — Por favor, eu sou um Ravenclaw, Sr. King, não me subestime. E quanto a sua outra afirmação, tem certeza absoluta que entre todos os funcionários deste Ministério, muitos deles ex-comensais da morte ou puristas, não poderia haver um com covardia suficiente para me atacar em vingança?

O Sr. King o olhou pensativamente e depois acenou concordando.

— Ok, eu estaria mentindo sobre a primeira questão e sendo ingênuo sobre a segunda e como disse compreendo seu raciocínio, mas espero que você entenda que regras são feitas para serem seguidas, Harry e permitir que você entre com sua varinha, quando essa permissão não é dada a outros me parece muito injusto. O que você pensa disso? — King perguntou curioso.

Harry refletiu e sorriu, apontando para os visitantes que passavam pelo funcionário, Eric, sem nem mesmo uma careta de desconforto ao abandonarem suas varinhas.

— Observe-os, Sr. King. Algum deles está desconfortável, ou receoso, talvez temeroso de abandonar suas varinhas? Alguns deles parece preocupado ou dispostos a lutar pelo direito que todo bruxo tem de manter seu único meio de defesa? — Perguntou Harry objetivamente.

— Não, Harry. — Respondeu King.

— Pois é, eu não espero nenhum privilégio por quem sou, seja por meu sobrenome ou estúpido apelido, espero apenas ser respeitado em meu protesto e desejo de manter minha varinha. Não me sinto seguro de entrar no Ministério da Magia sem minha varinha e espero que meu direito como cidadão seja respeitado e aceito. — Disse Harry determinado.

Falc sorriu apesar do atraso, nunca o garoto pareceu tanto com o Sr. Fleamont, quando contasse, a seu pai não acreditaria. King o observou com atenção e viu algo em seus olhos, anos de experiência em missões e batalhas o permitiu ver nos olhos do menino, não apenas determinação, mas um leve desespero e pânico. Mais suavemente que nunca, perguntou:

— O que aconteceu que faz com que você se sinta tão receoso de ser atacado, Harry? Mesmo quando sabe que estará cercado por adultos, alguns com varinhas, que o defenderiam com determinação de qualquer ataque?

Harry olhou surpreso o auror experiente e percebeu que não disfarçara tão bem o medo de deixar sua varinha. Engolindo em seco, ele olhou em volta e depois para o Sr. Falc.

— Ele é de confiança, Sr. Falc? — Perguntou Harry e parecia estranhamente mais jovem com seus grandes olhos verdes receosos.

— Harry? — Confuso pela mudança do menino determinado para o receoso e inseguro que conhecera em dezembro, Falc apoiou a mão em seu ombro suavemente. — O que é isso? Algo aconteceu? Você pode nos contar, King é de confiança e é um grande auror.

Acenando, Harry voltou a olhar em volta e se aproximando mais dos dois homens em um tom mais baixo, disse:

— Não tenho tempo de contar todos os detalhes e imagino que Dumbledore tem seus motivos para não ter avisado os aurores, mas a quase três semanas um dos meus professores, Quirrell, de Defesa, ele... — Harry parou receoso se devia confessar que matara uma pessoa para um auror, e se ele fosse preso?

— Eu soube que houve um acidente e que um dos professores morreu, me informaram que um dos alunos presenciou a morte. Foi você, Harry? Você viu o seu professor morrer? — King perguntou suavemente.

— O que!? — Falc falou chocado, apesar de manter o tom bem baixo. — Eu não ouvi nada sobre uma morte em Hogwarts, porque os pais não foram informados? E isso aconteceu a mais de duas semanas?

— Mais como 19 dias. — Disse Harry e suspirando, os olhou cansado. — E Dumbledore mentiu, como disse, deve ter seus motivos, mas Quirrell não morreu em nenhum acidente. Ele..., é difícil explicar, mas, basicamente, a Pedra Filosofal de Flamel estava escondida em Hogwarts, o diretor montou uma armadilha para pegar o ladrão que estava tentado roubá-la. Meus amigos e eu descobrimos que o ladrão era Quirrell e sua intenção era entregar a Pedra para Voldemort recuperar seus poderes. No dia do roubo, Dumbledore deixou a escola e temíamos que as proteções não fossem o suficiente para detê-lo. — Harry respirou fundo vendo como os dois homens empalideciam e o encaravam chocados. — Nesse ponto já tínhamos confirmado que a Pedra usada como isca era a verdadeira e chamamos os professores para ajudar, McGonagall nos expulsou do seu escritório e nos chamou de mentirosos, mas Flitwick, ele... — Harry parou, meio trêmulo e seus olhos assombrados voltaram para o momento em que seu querido professor quase morreu, ele continuou com a fala mais entrecortada. — Ele acreditou em nós e tentou deter Quirrell, eu assisti a luta, Flitwick quase morreu, foi horrível, consegui levá-lo a enfermaria e Madame Pomfrey o salvou.

— E enquanto ela o salvava, você foi atrás de Quirrell? — Perguntou King em tom calmo e firme.

Harry acenou e se endireitou, levemente mais calmo.

— Eu desci pelo alçapão com meus amigos, mas no fim só um pode entrar na última câmara e eu segui, Sr. King, precisava impedi-lo de pegar a Pedra. Quirrell não estava sozinho, Voldemort estava com ele, o havia possuído, nós lutamos e eu o matei, Quirrell, quero dizer, Voldemort era apenas um espectro negro e fugiu. — Harry terminou levemente ofegante, não percebendo que estava suado e trêmulo.

King percebeu os sintomas de ansiedade pós trauma facilmente e decidiu rapidamente que tirar a varinha do menino seria uma tortura emocional para ele. Tentando superar o choque pelas informações reveladas, ele acenou seriamente.

— Muito bem, Harry, vou lhe deixar, diante das circunstâncias, manter sua varinha, mas seja discreto e apenas a use em emergência. Estamos de acordo? — Disse ele suavemente e viu o alívio na expressão do menino.

— Sim, senhor, Sr. King, muito obrigada. — Disse Harry suspirando e sorrindo de aliviado.

— Falc, espero que você não se importe de deixar sua varinha. — Disse King para o homem pálido que, sem dizer nada, acenou e foi deixar sua varinha com o Eric.

Logo depois os três seguiram para um dos elevadores e Harry ficou meio espremido contra a parede no fundo, protegido pelos dois homens. Quando o elevador chegou ao nível dois, eles desceram.

— Vocês se importam que eu os acompanhe? Eu gostaria de conversar com Harry mais um pouco e posso agir como um auror de proteção. — Solicitou King e os dois acenaram concordando. Sr. Falc por ainda não conseguir dizer uma palavra e Harry por estar se sentindo estranhamente confortado pela preocupação do homem, em sua experiência com adultos, isso não era muito comum.

Os três foram na direção ao Tribunal de Justiça e ao entrarem por um corredor se depararam com uma sala de espera onde estavam, Sr. Davis, Sra. Serafina e Albus Dumbledore, um pouco mais afastado.

— Falc! Harry! Eu já estava começando a pensar que algo terrível lhes acontecera! — Disse Sra. Serafina em tom baixo e preocupado ao se aproximar deles.

Ela veio direto ao Harry e o abraçou fortemente, ele suspirou, não tinha percebido como sentira falta dela e de seus abraços.

— Desculpe, Sra. Serafina, foi minha culpa. — Disse ele sorrindo tímido.

— A assistente do juiz veio nos avisar que recebeu um aviso que que vocês ficaram presos na revista e entrega das varinhas, e que por isso teríamos um atraso. O que aconteceu? — Perguntou o Sr. Davis preocupado.

— É uma longa história para outra hora. Anton, preciso falar com você, urgentemente, antes que o juiz nos chame. — Disse Sr. Falc e se afastou com ele na direção oposta à de Dumbledore, e os dois falaram em sussurros urgentes e rápidos.

— Harry, querido, você está bem? Como foi na casa dos seus tios? E King, o que o traz aqui? — Perguntou ela suavemente e curiosa.

— Estou bem, Sra. Serafina e consegui controlar meus parentes bem o suficiente. Sr. King está aqui como uma espécie de auror de proteção, certo? — Disse ele sorrindo para o homem com quem muito simpatizara.

— Sim e essa é outra longa história que acredito terá que ficar para outro momento, vocês já serão chamados. — Apontou King e era verdade.

Uma mulher veio e os convocou formalmente a entrar no Tribunal e Harry descobriu que não poderia entrar.

— Eu não entendo, eu sou o maior interessado, porque não posso estar presente? — Perguntou chateado ao ver os adultos, com exceção de King, entrarem na sala do Tribunal

— Acredito que tem a ver com o fato de ser tão jovem e que uma disputa de guarda pode ser muito dura e agressiva, seria nocivo para uma criança presenciar e assumir que isso é sua culpa. — Considerou King suavemente e Harry acenou, entendendo.

Os dois se sentaram e Harry tentando não pensar no que acontecia na sala, olhou para o auror e decidiu ser direto.

— O senhor vai me prender, Sr. King? — Perguntou firme

— Não, Harry, eu não vou prendê-lo e não estou aqui para vigiá-lo e sim protegê-lo, acredito que depois de tudo o que passou, ficar sozinho lhe traria uma grande ansiedade. — Disse King muito sincero e depois. — Você acredite que eu deveria prendê-lo?

— Não, eu apenas me defendi e aos meus amigos, mas nunca se sabe, meu padrinho foi preso sem ao menos um julgamento. — Disse Harry levemente mal-humorado e viu o homem acenar compreensível.

— Tem razão e lamento que isso tenha acontecido. Eu não era responsável direto pelo caso, mas conhecia Sirius e seus pais, deveria ter sabido que as informações de traição eram absurdas. Sinto muito, Harry. — Disse ele muito contrito e formal.

Harry acenou e suspirou, muitos não fizeram nada, mas a verdade é que a culpa era dos que decidiram não fazer nada mesmo sabendo que não houvera um julgamento ou, que decidiram por uma condenação, sem julgamento. Ele não podia culpar cada pessoa que conhecia seus pais.

— Tudo bem, sei que não foi sua culpa. — Disse dando de ombros.

— Obrigado por sua compreensão. E se você pudesse me contar com mais detalhes o que aconteceu em sua luta com Quirrell, eu não vou prendê-lo, mas gostaria de entender como ele acabou morto. — King perguntou com grande suavidade.

— Bem, tudo começa na Floresta... — Harry contou sobre a luta na Floresta Proibida e a luta para salvar o unicórnio. Contou sobre a luta de Flitwick e Quirrell, sobre descerem o alçapão.

— O que guardava o alçapão? — Perguntou King curioso.

— Um Cerberus. — Disse Harry simplesmente.

— Claro, porque não? Vamos colocar um Cerberus em uma escola, muito inteligente. — Disse ele e Harry sorriu para o seu sarcasmo.

Depois ele contou como foi fácil passar pelas proteções e finalmente chegar a última câmara. Harry não contou sua percepção de que tudo fora uma armadilha para ele, deixaria que King tirasse suas próprias conclusões. Quando contou a conversa que teve com Quirrell e Voldemort, exclui a profecia, esse era um assunto muito delicado e não queria que se espalhasse. Ele falou da luta e seu planejamento e descuido, como seus amigos chegaram e a necessidade de protegê-los.

— Eu não me arrependo ou me sinto culpado, Sr. King, eu fiz o que tinha que fazer para proteger meus amigos e a mim, mas lamento que isso tenha sido necessário. Não tive nenhum prazer ou orgulho em matá-lo, senhor. — Disse Harry firme e sincero.

— Eu compreendo e lamento que você esteve nessa posição e, sendo tão jovem, já tenha sido obrigado a matar alguém, mesmo que em defesa própria. — Disse King muito solene. — Pesadelos?

Harry olhou para as mãos envergonhado.

— Sim, senhor, eles me atormentam a noite. Firenze me disse que sou um guerreiro e que, às vezes, um guerreiro ou um caçador precisa de um ritual de purificação, para limpar a energia da morte de sua magia. Espero que, em setembro, eu consiga subir a montanha e realizar o ritual. — Disse Harry enxugando as mãos suadas em sua calça.

— Isso que você está enfrentando agora, ter que lidar com o trauma, nós, aurores também passamos. Os trouxas chamam de Stress Pós-Traumático ou SPT e evoluíram muito no tratamento. Infelizmente, no mundo mágico a psicologia e psiquiatria ainda não avançou, mas a ideia de Firenze é muito boa. — Disse King gentilmente e Harry não se sentiu julgado. — Quando matei a primeira vez, em legitima defesa, foi um ano depois que me tornei auror. Minhas raízes mágicas africanas me ajudaram a limpar minha alma e magia da impureza da morte em um ritual de purificação, mas foi a terapia trouxa que ajudou a me ajustar a realidade do que eu fiz e a curar minha mente e meu coração.

Harry suspirou agradecido ao saber que o que vinha passando não era apenas por sua fraqueza e pensou que deveria ter escrito ao Sr. Martin, sabia que ele o ajudaria. Seu diário também ficou em segundo plano, mesmo antes do que acontecera, Harry estava tão ocupado e envolvido com estudos e exames que ele deixou de escrever nele.

Olhando para o Sr. King, Harry explicou sobre o irmão da Sra. Serafina e como ele o ajudara nos últimos meses. O Auror o ouviu e elogiou sua coragem e inteligência na luta, além de seu controle. Pelo tempo que durou a audiência que decidiria seu futuro Harry e King conversaram sobre si mesmos, o trabalho auror, batalhas e magia sem perceberem que estavam iniciando um longa e forte amizade.

Na sala do Tribunal, o oficial os recebeu e conduziu a se sentarem. Em uma mesa cumprida, Os Boots e Davis de sentaram de um lado e Dumbledore no outro, sozinho. Poucos instantes depois o Juiz foi apresentado pelo oficial:

— Vossa Excelência, o Juiz, Clarence Wood. — E da porta lateral entrou um homem alto e calvo, devia estar perto dos 70 anos e tinham bondosos olhos acinzentados.

Todos os presentes se levantaram e apenas quando ele se sentou a ponta da mesa em um púlpito mais alto, todos se sentaram.

— Bom dia a todos.

— Bom Dia, Excelência. — Todos responderam respeitosamente.

— Tenho aqui as provas apresentadas pelos requerentes da guarda do menor e os relatórios das assistentes sociais. Tenho também a presença dos requerentes, os Srs. Boots com seu advogado, Sr. Davis. Tenho a presença do sempre ausente tutor do Sr. Potter e sei que o próprio está presente do lado de fora, aguardando a minha decisão. Mas, o que eu não tenho, são os tios e atuais guardiões legais do Sr. Potter e gostaria muito de compreender os seus não comparecimentos a uma convocação oficial. — Disse o Juiz Wood com muita frieza.

— Excelência, se o senhor puder adiar a audiência em alguns dias, poderei providenciar a presença dos Dursleys, é provável que sendo trouxas não sabiam como se apresentar a este tribunal. — Pediu Dumbledore suavemente.

— Vossa Excelência, a ausência dos tios do Sr. Potter não é um erro ou engano e sim uma escolha. Meu cliente, Sr. Falc recebeu uma carta do menor explicando que os tios se recusaram a vir a este tribunal, suas palavras exatas foram "Já vai tarde" e "não passar bem". Meu cliente foi buscar o Sr. Potter na estação para que este não andasse por Londres sozinho, pois os tios se recusaram até mesmo lhe trazerem em segurança até aqui. — Sr. Davis disse formalmente.

— Sim, isso não me surpreende, os relatórios das assistentes sociais do Departamento Infantil foram bem claros. Todos os Dursleys, inclusive o primo de 12 anos, deixaram bem claro que nunca quiseram, não gostam ou mesmo toleram a presença do Sr. Potter em sua casa perfeita e normal. — Disse o Juiz Wood com ironia mordaz. — Então, estou negando seu pedido, Chefe Dumbledore, um adiamento me parece um grande despropósito em um caso, obviamente, simples. Ainda assim, seguiremos a lei e gostaria de ouvir as partes envolvidas, começando pelos requerentes.

— Obrigado, Vossa Excelência. — Disse Davis e olhando para os amigos sinalizou.

— Vossa Excelência, conhecemos o Harry em dezembro, mas na verdade é como se fosse a muito mais tempo... — Falc então explicou a longa amizade entre os Boots e os Potters, particularmente, de seu pai com o Sr. Fleamont. — Imagine a tristeza do meu pai quando soube que ele era um dos possíveis guardiões listados no testamento de James e Lily que foi anulado. Harry nunca deveria ter ido viver com os Dursleys, Excelência e apenas queremos corrigir um grande erro.

— Eu conheci Lily na escola, Excelência... — E Serafina contou sobre sua relação, as cartas entre as duas foram entregues como provas e sua fala apenas corroborava-as. — No Natal, o Harry se encaixou em nossa família, meus filhos o amam e Harry retribui esse amor. Ele é um menino tão doce, Excelência, tão especial, é impossível não o amar e isso só mostra que seus tios são pessoas terríveis e cheias de preconceitos. Queremos muito lhe dar um lar e família de verdade... — Serafina se emocionou e Falc passou o braço por seus ombros.

Juiz Wood acenou e fez algumas perguntas, questões financeiras e se eles queriam adotar o menino.

— Temos condições de dar tudo o que ele precisa sem que sua herança seja utilizada e acredito que o Harry não gostaria de deixar de ser um Potter e para nós respeitar seu desejo é muito importante. — Responderam Falc e Serafina.

— Bem, acredito que vocês se encaixam perfeitamente como guardiões do Sr. Potter e dos relatórios das assistentes sociais é desejo de o menor viver com vocês, sua expressão foi "eles realmente me querem e se importam comigo". — Disse o Juiz Wood e isso provocou mais emoção nos Boots.

— Nós realmente o queremos e o amamos, Excelência. — Disseram o casal.

— Bem, sem a presença ou luta efetiva pela guarda do menor pelos atuais guardiões, minha decisão deveria ser uma mera formalidade, mas sei que o senhor, Chefe Dumbledore, como seu tutor legal tem uma opinião diferente. Gostaria de ouvi-lo e também uma explicação sobre como o senhor permitiu que a criança mais importante de nosso mundo e, que estava sob sua responsabilidade, fosse abusada de maneira tão cruel por trouxas. — Questionou o Juiz Wood com firmeza e frieza.

— Excelência, o meu erro não foi de forma alguma intencional e acredite, ao ver as provas me culpei por minha tolice e descuido, pois acreditei que ao estar com sua família, o Sr. Potter não poderia estar em lugar mais seguro. Ainda assim, acredito que o melhor para o menino é estar com sua família...

Ele foi interrompido por uma exclamação de choque de Serafina que o olhou como se não o reconhecesse.

— O senhor viu todas aquelas lembranças? Viu cada uma delas e sabe que o Harry não quer viver com os tios e sim conosco, que nós o amamos e ainda acredita que o melhor para ele seria ficar naquele lugar?

— Essa é uma boa questão. Diretor Dumbledore, o senhor diz que imaginou que o Sr. Potter estaria seguro na casa dos tios, mas colocou um aborto, a Sra. Figg para vigiá-lo. Porque? E porque nunca cumpriu seu papel de tutor de verificar a segurança do menino e muito menos o preparar, o educar para se apresentar no mundo magico como um bruxo? — Davis foi frio e duro, o desprezo em sua voz era nada sutil.

Dumbledore ficou muito sério e não parecia nenhum pouco feliz de ser questionado tão duramente.

— Eu pedi a Sra. Figg que observasse o Sr. Potter e diante de seus relatórios acreditei que o menino estava bem. — Disse ele em uma de suas respostas que nada dizem.

— Espere, o senhor disse que acreditou que o bebê estaria bem na casa dos tios e agora diz que colocou alguém para vigiá-lo. Ou uma coisa ou outra, Diretor Dumbledore, ou o senhor acreditava ou desconfiava de sua segurança, pois me parece que se o senhor confiava, a presença da Sra. Figg não era necessária? — Sr. Davis o questionou rápido e certeiro.

— Eu também gostaria de entender, Chefe Dumbledore. — Considerou o Juiz Wood.

— Eu sabia que Lily e sua irmã não tinham uma boa relação, acreditei que diante a perda da irmã todas as diferenças seriam esquecidas e a Sra. Dursley acolheria seu sobrinho com amor e cuidado. Mas, como seu tutor, eu tinha que ter certeza disso, assim solicitei a Sra. Figg que se mudasse para a Rua dos Alfeneiros e observasse a família, ela me enviou relatórios e como eu disse, em nenhum deles alegou que o Sr. Potter estava sendo tratado de tal maneira. — Disse Dumbledore sereno.

— O senhor terceirizou o seu trabalho de tutor para uma mulher que não se apresentou em nenhum momento como seu representante e não podia entrar ou interferir na casa dos Dursleys e acreditou que estava fazendo o seu papel de tutor? O que o impedia de ir pessoalmente verificar o Sr. Potter? De ensiná-lo sobre seus pais e suas origens? Vossa Excelência deve ter sido informado que o menino só soube que era um bruxo ao receber sua carta de Hogwarts e que antes seus tios lhe informaram que seus pais eram bêbados que morreram em um acidente de carro. — Disse Davis mordaz e irônico.

— O senhor tem uma explicação para tal absurdo, Chefe Dumbledore? — Questionou o Juiz com frieza.

— Eu nunca imaginei, como disse foi um erro. Eu deveria ter participado da vida do Sr. Potter, pessoalmente, a mais tempo, agora percebo isso, mas eu expliquei a Sra. Dursley em minha carta o que acontecera com sua irmã e acreditei que eles, ao aceitarem o menino, lhe contariam sobre sua origem. — Disse o diretor, claramente defensivo.

— Carta? De que carta está falando? — O Juiz Wood perguntou confuso e zangado.

— Ah, Vossa Excelência não sabia que o Diretor Dumbledore deixou o bebê Harry na porta da casa de sua tia com apenas uma carta contando sobre a morte da irmã e sem ao menos questioná-la se ela e o marido queriam criar o menino? — Davis perguntou ironicamente.

— Isso é verdade? — Juiz Wood estava além de furioso e ao ver o aceno de Dumbledore, continuou. — O senhor, Chefe Dumbledore pediu a anulação do testamento dos Potters, cruzou os braços diante a prisão injusta e criminosa do padrinho do menino, se tornou seu tutor legal, deixou o menino em um lugar que sabia ou não tinha certeza de sua segurança sem nem ao menos verificar se ele era bem-vindo. Impediu a visita das assistentes sociais e em 10 anos não se dispôs a uma única visita ou se preocupou em ensiná-lo e educá-lo sobre sua origem e história. Um Potter chegando a Hogwarts como um nascido trouxa, e agora vem até mim e diz que deveria deixar o menino na casa onde ele foi abusado, aonde ele não é querido. O senhor perdeu sua sanidade? — Questionou o Juiz Wood duramente.

— Meu erro não apaga o fato de que os Dursleys são a única família que o Sr. Potter tem, separá-los me parece um exagero. Vossa Excelência, me comprometo a participar ativamente da vida do Sr. Potter e assegurar sua vida na casa dos tios. — Disse Dumbledore, levemente contrariado.

— Desculpe, Diretor Dumbledore, mas a mim me parece que isso não foi um erro, negligência, abandono de seus deveres como tutor é muito mais que um erro, é um crime que coloca em questão seu papel como tutor do Sr. Potter. E coloca em questão o seu interesse no menino e mais importante qual interesse o senhor tem em manter o Sr. Potter em uma casa e com pessoas que nunca o quiseram quando, meus clientes aqui, estão mais que dispostos a lhe dar amor e uma família de verdade. — Sr. Davis falou ainda mais duro.

— Meu interesse sempre foi e continua sendo o melhor para o Sr. Potter, nunca questionem isso por um segundo. — Disse o diretor veementemente. — Eu me preocupo com ele e quero seu bem, enquanto os Boots poderiam lhe dar um lar, ainda não são sua família de sangue e perder isso seria muito prejudicial ao menino.

— Família de sangue que não o deseja, não o amam e efetivamente o abusaram, Chefe Dumbledore, mesmo que o senhor visite e tenha certeza que o menino não será mau tratado, o senhor não pode assegurar sua saúde emocional. Não pode obrigar seus tios a amá-los ou ao menos que o trate com o mínimo de respeito e bondade. — Disse o Juiz Wood em tom definitivo. — E a não ser que tenha mais alguma coisa a dizer, já tomei minha decisão e...

— Vossa Excelência, por favor, existem outro forte e importante motivo para o Sr. Potter ficar com seus tios, se pudéssemos conversar privadamente...

— Protesto! Vossa Excelência, meus clientes tem o direito de saber porque o Diretor Dumbledore não os considera dignos de cuidar do Sr. Potter e prefere que abusadores mantenham sua guarda. — Sr. Davis defendeu intensamente.

— Excelência, apenas solicito privacidade, porque as informações são muito delicadas e seu sigilo é fundamental para a segurança do Sr. Potter. — Afirmou Dumbledore mais duramente.

— Ninguém aqui deseja o mal do Harry, diretor, pelo contrário, acredito que se existem segredos eles devem ser esclarecidos e não apenas para nós. Harry merece saber a verdade do porque ficou os últimos 10 anos naquela casa, o que o senhor julgava mais importante que sua segurança e felicidade. — Disse Serafina muito zangada.

— Eu concordo. Diga agora, Chefe ou tomarei minha decisão. — Disse o Juiz Wood impaciente e firme.

— Muito bem. — Dumbledore não parecia feliz, mas cedeu. — Na noite de Halloween a tantos anos, o motivo pelo qual Harry sobreviveu a maldição da morte que Voldemort enviou em sua direção foi porque Lily morreu para salvá-lo.

— O que? — Todos questionaram surpresos.

— Deixe-me explicar. — Dumbledore contou sobre o sacrifício de Lily e a magia antiga que foi acionada e como essa magia criou uma proteção que permitiu que Harry sobrevivesse ao ataque. — Eu sempre quis a segurança de Harry, graças a essa proteção, eu criei alas de sangue poderosas que impediram que Harry fosse encontrado e morto ou sequestrado por comensais da morte. Principalmente depois do ataque a Frank e Alice, sua segurança no mundo trouxa e manter as alas se tornaram ainda mais importantes. Enquanto Harry chamar de casa o lugar onde o sangue de Lily reside, as alas e proteções continuarão a existir, pelo menos até sua maioridade. E é por causa dessa proteção que sei que a Sra. Dursley, não importa o que ela diga, ama o Harry, foi esse amor que a fez aceitar o menino e foi essa aceitação que permitiu que as alas fossem acionadas. — Dumbledore suspirou triste e sincero. — Foi também por isso que não me preocupei muito com o menino, do mesmo jeito que ninguém pode entrar na Rua do Alfeneiros e machucá-lo, dentro de casa ele também não pode ser atacado e ferido. Só posso pensar que a maioria dos abusos vieram de seu tio, que não é seu sangue e que a Sra. Dursley não pode impedir ou se viu em grande conflito entre sua mente e seu coração. Entendam, essa é uma magia muito poderosa e antiga, não poderia desperdiçar o sacrifício de Lily e, se por um segundo, pensei que o Harry talvez não fosse completamente feliz na casa dos tios, julguei que ao menos estaria completamente seguro. Nunca imaginei que esses absurdos abusos aconteceriam e percebo que sim, foi negligente de minha parte apenas esperar o melhor, deveria ter estado presente na vida do Harry, para cuidar e ensinar. — Dumbledore se mostrava verdadeiramente arrependido. — Me comprometo, deste momento em diante, a fazer o necessário não apenas para sua segurança, mas também sua educação e bem-estar emocional.

Ao fim da explanação todos ficaram pensativos, não haviam porque duvidar das informações e Serafina percebeu que essa era a carta na manga e o motivo pelo qual Dumbledore queria manter Harry na casa dos tios a qualquer custo.

— E o senhor tem certeza que agora, neste momento, essa proteção é tão importante? Depois de tantos anos do fim da guerra o menino ainda estaria em um perigo tão grave que considera aceitável que ele viva com pessoas que o trataram de maneira tão abominável? — Questionou Sr. Davis sem perder o ímpeto. — Isso sem considerar o fato que na casa dos meus clientes o Sr. Potter estaria mais do que protegido. Além das alas mágicas, há em todos os momentos pelo menos um ou dois, mesmo três bruxos adultos com uma varinha na casa, assim me parece que essas alas não são tão importantes assim.

— Pelo contrário, todos nesta sala sabem que muitos seguidores de Voldemort escaparam da justiça e os puristas são uma parte importante de nossa sociedade. Acredito que o Sr. Potter ainda está em grave risco, isso sem considerarmos o fato que nunca houve a certeza da morte do próprio Voldemort. Tenho suspeitas e informações de que ele, na verdade, está muito vivo e se em algum momento recuperar seus poderes, efetivamente, não pode matar o menino. — Informou Dumbledore serenamente. — Estão dispostos a jogarem no lixo o sacrifício de Lily? E, talvez, a maior defesa que algum bruxo tem contra dezenas de inimigos poderosos? Eu acredito que a própria Lily concordaria comi...

— Não fale de Lily Potter! — Serafina se levantou enfurecida e bateu a mão na mesa. — Não ouse falar como se soubesse alguma coisa sobre o amor de uma mãe pelo seu filho ou como se, verdadeiramente, a tenha conhecido. Se minha amiga pudesse expressar o desgosto e a dor que deve ter sentido ao ver o sofrimento pelo qual seu garotinho passou nos últimos anos. Ela se sacrificou por ele e tenho certeza que morreria mil vezes mais para que Harry estivesse seguro, mas ela jamais toleraria que sua proteção pesasse sobre os ombros daquele menino e o obrigasse a sofrer anos de abuso e desamor. — Os olhos dela se encheram de lágrimas e ela voltou a se sentar. — Lily quereria que seu bebê fosse amado e o senhor tirou isso deles, não é aceitável que continuemos a permitir que ele sofra. O que você fará, professor? Sairá e enfrentará aquele doce menino que está confiando em nós para protegê-lo e o informará que sua felicidade não é importante? Que não confiem nos adultos porque não somos fortes o suficiente para defendê-lo?

Todos ficaram em silencio e era óbvio que todos estavam indecisos sobre o que era menos pior sacrificar, a proteção ou a felicidade do Harry. Dumbledore tentou mais um argumento.

— Vocês estão dispostos a expor seus filhos ao perigo que o Sr. Potter representa? Vale a pena...

— Não ouse ir por esse caminho! — Agora foi Falc que se mostrou indignado e furioso. — Sempre tive um grande respeito pelo senhor, não me faça perdê-lo. Qualquer criança no mundo vale a pena nossa ajuda e qualquer risco, se for para lhe dar amor, carinho e proteção. Eu pensaria que um professor saberia disso melhor do que ninguém e nunca vou perdoá-lo se o senhor até mesmo insinuar aquele menino que ele seria um peso ou um perigo para nós. — Falc parecia emocionado. — Ele nunca se sentiu querido e mesmo se houverem perigos não deixaremos de o querer, fui claro?

— Sim, Falcon, sinto muito, vocês dois estão certos. Espero que possam perdoar um velho que parece que se esqueceu das motivações humanas e como o amor e bondade são importantes. — Dumbledore tinha seus olhos azuis sem seu brilho habitual e expressão triste. — Mesmo um homem tão experiente e assumidamente inteligente pode cometer erros ou se enganar, mas isso não afasta o fato de que sem essa proteção, que Lily lhe deu tão generosamente, Harry estará em grave perigo e todos a sua volta. Tenho certeza que podemos chegar a um acordo com os Dursley, Harry precisa chamar a casa dos tios de sua casa e lá residir apenas durantes os verões, natais e páscoa poderiam estar com vocês ou na escola, assim como o resto dos meses do ano. E apenas até completar 17 anos. Tenho certeza que, se todos nos uníssemos, poderíamos dar-lhe todo amor e bondade que ele não encontrará com seus tios. — Expos Dumbledore gentilmente e sincero.

Mais uma vez todos ficaram em silencio e o Juiz Wood estava muito pensativo.

— Me parece que estamos em uma situação em que de qualquer forma o Sr. Potter vai sofrer algum prejuízo e acredito que todos nós precisamos refletir como adultos que somos e chegar a uma solução que menos prejudique esse menino que já perdeu e sofreu tanto. — Disse ele solenemente.

— Acredito que posso ter uma solução, Vossa Excelência. — Disse Davis pensativo. — Diretor Dumbledore, o senhor disse que para a proteção e as alas estarem em ação o Sr. Potter precisa considerar a casa de sua tia como seu lar e ela o aceitar em sua casa. Isso quer dizer que não é necessário um período de tempo ou horas específicas em que ele precisa estar na casa ou então sua presença em Hogwarts poderia ser questionada. Estou certo?

— Não, Sr. Davis, seu raciocínio está correto, claro que a presença na casa dos tios é necessária porque se não o Sr. Potter, naturalmente, começará a sentir o outro lugar, a casa do Boots, por exemplo, como seu lar e assim perderíamos a proteção. — Explicou Dumbledore pensativo. — Qual é sua ideia?

— Bem, se tudo é uma questão de percepção e não tempo, acredito que o Sr. Potter poderia passar seu dia em um lugar seguro, a casa dos meus clientes, ele estaria com pessoas que o amam e apreciam sua presença. Além de brincar com as crianças dos meus clientes, ele poderá estudar e até mesmo fazer atividades de lazer no mundo trouxa e ao fim da tarde voltaria para sua casa, onde participaria de pouco convívio com os parentes. O jantar e depois dormir e, na manhã seguinte, mais uma vez iria passar seu dia na casa dos Boots, quase como se ele estivesse indo a uma escola de verão ou algo assim. — Explicou Davis objetivamente.

Todos ficaram em silencio e Dumbledore refletindo acenou e parecia aliviado.

— Para mim parece uma solução viável, a proteção continuará a existir, assim como as alas, pois Harry ainda verá a casa da tia como sua casa, onde ele retorna todos os dias. — Disse ele mais sereno.

— E imagino que vocês não se importariam com essa espécie de guarda compartilhada, Sr. e Sra. Boot? — Perguntou o Juiz Wood os encarando.

— Preferíamos o Harry conosco e termos certeza de sua segurança, mas se essa é a única solução ou pelo menos a que menos o prejudica, estamos dispostos a guarda compartilhada. — Disse Falc apertando firmemente a mão de Serafina que parecia querer protestar. — A questão é como garantimos sua segurança nas 12 horas ou pouco mais que ele passará naquela casa? Porque se eles tiveram dificuldades em lidar com uma criança mágica tão doce e educada, como será quando eles tiverem que enfrentar um adolescente inteligente, sarcástico e rebelde?

— Qual sua preocupação, Sr. Boot? — Perguntou o Juiz Wood, interessado.

— Estou preocupado com magia acidental, e não de uma criança com pouco poder mágico, mas de um adolescente poderoso que tem que lidar com muita pressão. O que acontecerá se ele for provocado, hostilizado? Por muito menos trouxas acabaram magicamente prejudicados, como impedimos que Harry acabe por ferir alguém ou ferido por alguém? — Questionou ele muito claramente.

— Essa é uma questão importante. Podemos realmente alcançar algum tipo de acordo com esses Dursleys? Eles, claramente, não o querem e se decidirem o expulsar agora que sabem que outra família quer levá-lo? — Juiz Wood questionou sensato.

— Podemos fazer uma experiência? Eu prometo que estarei mais presente na vida familiar dele e pretendo conversar, pessoalmente, com o casal Dursley. E teremos a assistente social visitando também e...

— Nós, nós podemos visitar, quer dizer teremos que pegar e deixar ele todos os dias e talvez a presença de tantos bruxos adultos que se importam com ele os iniba de serem hostis. — Disse Falc.

— Muito bem, como o Sr. Potter estará na casa dos tios por apenas 2 meses, determinarei a visita das assistentes sociais para uma vez a cada 2 semanas. E assim determino que os requerentes, a família Boot, compartilharão a guarda do menor, Harry Potter que continuará a residir na casa dos seus tios, a família Dursley. Determino também que se qualquer risco, seja físico ou emocional, for detectado ao menor a qualquer momento dos próximos anos, sua guarda passará a ser exclusivamente do Sr. e da Sra. Boot. E espero que você, Chefe Dumbledore assuma e cumpra seu papel como tutor do Sr. Potter porque, se descobrir que voltou a ser negligente, eu, pessoalmente, rasgarei a declaração de tutela. — Disse o Juiz Wood com firmeza e no fim a frieza e decepção eram claras.

Dumbledore acenou triste e envergonhado, parecia sincero, mas, nenhum dos três adultos a sua frente, acreditou completamente.

— Oficial? Solicite a entrada do Sr. Potter, quero lhe contar, pessoalmente, sobre minha decisão e os motivos. É o mínimo que podemos fazer depois de termos que engolir o absurdo de tê-lo de volta para aquelas pessoas que deveriam ser processadas pelo que fizeram. — Continuou o Juiz Wood.

Harry estava aprendendo com o Sr. King algumas técnicas de luta corporal para que, mesmo sendo menor e mais magro, ele pudesse se defender de um ataque físico e não ficar preso em uma situação como a que ocorrera com Quirrell.

— O Muay Thai tem essa vantagem de apresentar técnicas de defesa para mulheres ou pessoas menores contra um homem ou alguém maior. Além, do estímulo a ação e a reação instintiva, os golpes defensivos são rápidos e precisos, assim você usa seu corpo para torções e inversões. — Disse King que, de pé ao lado do menino, explicava alguns golpes defensivos. — E seu corpo leve e rápido deve ser uma vantagem e nunca uma desvantagem.

— Isso é muito bom, Sr. King, teria me ajudado muito na luta com Quirrell. Sempre pensei que lutas corporais tinham a ver com força e que eu teria que crescer para poder lutar fisicamente. — Disse Harry enquanto movia o braço e o corpo para bloquear e derrubar o agressor invisível com a força de seu ataque.

— Esse é um pensamento comum e errado, muitas mulheres sofrem abusos dos parceiros porque acreditam que por serem fisicamente mais fracas não podem se defender. Aconselho-o a procurar uma academia para treinamento, Harry, posso recomendar a que eu frequento. Isso vai ajuda-lo, principalmente, a não se sentir tão ansioso em não estar com sua varinha. — Explicou King e quando a porta do Tribunal se abriu os dois pararam o "treino" e olharam na direção do Oficial que tentando manter a ansiedade e falhando, disse:

— Sr. Harry Potter, por favor.

Harry engoliu em seco e depois se virou para o Sr. King e estendeu a mão.

— Obrigada por tudo, Sr. King, nunca vou me esquecer e estou muito feliz por conhecê-lo. — Disse ele solene e sincero.

— O prazer foi meu e eu que agradeço por sua companhia, foi o melhor dia de trabalho que já tive. Escreverei para você com informações sobre a academia e se precisar de qualquer coisa, mesmo apenas conversar, não hesite em me escrever. Até mais, Harry. — Disse King sorrindo e apertando sua mão firmemente.

— Até mais, Sr. King. — Disse Harry sorrindo e depois entrou na sala do tribunal com o Oficial.

Ao ver a expressão séria de todos e o olhar triste da Sra. Serafina, ele sentiu seu estômago afundar, olhou rapidamente para o Sr. Falc, esperando que sua ideia tenha dado certo e seu aceno sutil foi o suficiente para lhe aliviar o aperto no peito.

— Sr. Potter, eu sou o Juiz Clarence Wood tenho muito prazer em conhecê-lo apesar das circunstâncias. — Disse o homem alto e calvo na bancada mais alta.

Harry o observou e percebeu uma razoável semelhança com seu neto, Oliver Wood, capitão do time de quadribol da Gryffindor.

— Prazer em conhecê-lo, Vossa Excelência. Espero que minha vitória sobre o seu neto, Oliver, não influencie sua decisão hoje. — Disse ele sorrindo com certa malícia.

O juiz Wood riu divertido e os Boots, apesar de tudo, sorriram diante de sua brincadeira. Harry amadurecera muito, em dezembro, provavelmente, não se sentiria seguro para falar assim com um adulto.

— Não, Sr. Potter, ainda que deveria repreendê-lo por não estar na Gryffindor e por me obrigar a ouvir meu neto dizer umas 100x que, se você fosse seu buscador, o título estaria em suas mãos, fácil, fácil. — Disse o Juiz Wood e depois seu rosto ficou sóbrio. — Infelizmente, talvez a decisão que tomei não seja a que lhe agradará mais e desde já gostaria de me desculpar por decepcioná-lo e também por tudo o que sofreu na casa de seus parentes. Como um adulto, um jurista e um bruxo me sinto responsável por não ter de alguma forma te protegido e espero que saiba desde já que, apesar de minha decisão, por nenhum segundo não terei sua segurança em minha mente. E foi por isso que minha decisão foi pelo compartilhamento de sua guarda entre os Dursley e os Boots. Você ainda residirá durante os verões na casa dos seus tios, mas passará o dia na casa dos Boots, com seus filhos e estudando.

Harry olhou para o chão se esforçando em não demonstrar qualquer sentimento positivo e até desceu os ombros um pouquinho, não foi tão difícil porque, realmente, desejara muito que a tal proteção fosse uma mentira do diretor para a sua tia e que ele poderia nunca mais ter que voltar aos Dursley.

— Compreendo. Hum... eu poderia saber o motivo que tenho que continuar na casa dos meus tios, Vossa Excelência? Eles realmente não me querem lá. — Questionou Harry muito sério.

— Sim, acredito que o seu Tutor, o Chefe Dumbledore poderá lhe explicar. — Disse o Juiz Wood encarando o diretor com um olhar nada amigável.

— Olá Harry, você se lembra que a poucas semanas, eu lhe expliquei o porquê Voldemort não conseguiu matá-lo a tantos anos? Eu lhe falei do sacrifício de sua mãe e como uma antiga magia acionou uma proteção? — Questionou Dumbledore suavemente.

— Sim e que essa proteção vem do amor da minha mãe e sua disposição em me proteger com sua vida. O senhor me disse que foi por esse motivo que o feitiço ricocheteou e só me deixou com uma cicatriz e destruiu o corpo de Voldemort. — Disse Harry muito sério.

— Exatamente e, graças a essa proteção, eu pude criar alas de sangue muito poderosas, mas elas funcionam apenas com o sangue de Lily, ou seja, sua tia. Assim, enquanto Petúnia o aceitar em sua casa e você chamar de lar a casa de sua tia, a proteção e as alas estarão no lugar e protegerão você. Foi por isso que eu o levei para a casa dos seus tios e lamento que minha negligência e confiança tola tenha lhe causado tantas tristezas. Eu acreditei que sua tia, diante da perda da irmã, superaria suas diferenças e ofereceria um lar de verdade para você. E também confiei que, o amor dela ao te aceitar em sua casa e que acionou as alas, não permitiria que nenhum mal lhe acontecesse. De inimigos externos e internos também. — Harry observou o diretor com atenção e ele realmente parecia sincero e arrependido.

Talvez o arrependimento viesse do fato que ele se encontrava nessa posição e não exatamente do que ele sofreu, pensou Harry, e talvez esse pensamento fosse cínico, mas como poderia confiar nesse homem?

— Então, essas alas foram acionadas pelo amor da minha tia? Tem certeza que elas existem? Porque de minha experiência, tia Petúnia nunca me amou, ao contrário. — Harry perguntou, apesar da vontade de expressar sua raiva por suas ações, ele sabia que esse não era o momento e nem ali era o lugar.

— Garanto-lhe que as alas existem e te protegeram por todos esses anos, não duvide que se tivessem tido a oportunidade comensais da morte teriam tentado te matar ou sequestrar. E a proteção de sua mãe ainda existe graças ao amor de sua tia por você, e essa proteção impedirá que Voldemort possa tocá-lo. — Dumbledore o olhou com cuidado o lembrando do que aconteceu a pouco mais de 2 semanas.

— Entendo. — Harry pensou rapidamente. — Achei que a proteção vinha do amor de minha mãe e não da minha tia, estou confuso.

— O amor de sua mãe, seu sacrifício acionou essa magia antiga, essa proteção, mas, como toda magia, ela se desgastaria com o tempo, principalmente, diante da morte do bruxo que a projetou. As alas e a proteção existem até hoje por que é uma magia de sangue, ligada ao sangue de Lily e foi a decisão de Petúnia e seu amor por você ao aceitá-lo em sua casa que manteve e manterá a proteção funcionando até sua maioridade. — Dumbledore explicou e seus olhos tinham um leve brilho quando sorriu suavemente. — Mesmo que sua tia nunca tenha conseguido demonstrar seu amor por você, em algum lugar em seu coração, ele existe.

— Deve ser um lugar pequeno, escuro e distante que nem ela sabe onde está. — Disse Harry sarcástico. — Mas não questionarei essa magia ou seu poder, vi em primeira mão do que ela é capaz. Ok, Vossa Excelência, aceito essa decisão, estar metade do meu dia na casa dos Boots e ainda viver na casa de minha tia e manter a proteção me parece o melhor diante das circunstancias. — Disse Harry claro e educado.

— Isso é muito maduro de você, Sr. Potter. — Disse o Juiz Wood o olhando carinhosamente. — Espero que compreenda que apesar da importância dessa proteção não permitiremos que você enfrente sozinho seus tios. Designarei uma assistente social para visitar sua casa a cada duas semanas e ter certeza que você está seguro, acompanharei com atenção cada relatório. O Chefe Dumbledore se comprometeu a conversar com seus tios e lhe garantir uma convivência segura e também assumirá um maior papel em sua educação, função que deveria ter exercido a muitos anos como seu tutor. E, sinceramente, espero que as horas em que estará na casa dos Boots compense um pouco tudo o que sofreu. — Concluiu ele e se levantando, todos o imitaram, deu a volta na mesa e apertou sua mão.

— Obrigada, Vossa Excelência. — Disse Harry apertando sua mão com firmeza.

Depois disso tudo correu mais rápido, Dumbledore solicitou levá-lo até sua casa, pois queria conversar com sua tia. Harry acenou concordando e se afastou com os Boots para se despedir.

— Sinto muito, Harry, queríamos muito que você nunca mais voltasse para aquela casa. De verdade. — Disse Sra. Serafina muito triste e emocionada.

Harry a abraçou com força, depois se afastou e a olhou com firmeza nos olhos.

— Está tudo bem, Sra. Serafina, o resultado foi exatamente o que eu queria. — E depois olhou para o Sr. Falc e sorriu suavemente. — Conseguimos.

— Sim, na verdade foi mais fácil do que eu pensei que seria. — Disse ele apertando o ombro suavemente.

— O que!? Do que vocês estão falando? — Perguntou ela chocada.

— Explicamos com mais calma depois, mas em resumo, hoje nós vencemos e não o contrário. E não se preocupe, Sra. Serafina, eu consigo lidar bem com meus parentes, nos últimos dias até me diverti um pouco. — Harry disse sorrindo malicioso.

— Ok, mas saiba que ficaremos atentos e amaremos tê-lo conosco todos os dias. — Disse ela passando a mão por seus cabelos com carinho.

— Harry, estou muito preocupado com o que me disse mais cedo, se você não se importar, o buscaremos para jantar hoje mais tarde e assim combinaremos seus dias conosco e quero ouvir em detalhes tudo o que aconteceu em Hogwarts esse ano. Fui claro? — Disse Sr. Falc muito seriamente.

— Sim, Sr. Falc, mas talvez o senhor deveria trazer a penseira, algumas coisas são melhores vocês verem do que apenas ouvirem e precisaremos de muito tempo para ver tudo, assim sugiro que deixemos para domingo. Hoje, eu preferiria passar um tempo com minha família preferida, se o senhor não se importar? — Disse Harry sorrindo e o olhando com seus grandes olhos verdes.

Falc suspirou e acenou concordando, como não poderia quando o garoto o olhava com aqueles olhos?

— Muito bem, mas de domingo não passa. Nos espere as 16 horas, ok? Você se sente seguro em ir com Dumbledore? Tem uma estratégia? — Questionou preocupado e lançando um olhar na direção do diretor que esperava calmamente.

— Não se preocupe, eu tenho uma ideia. — Disse Harry com seus olhos brilhando de malícia.

Depois eles se abraçaram e Harry foi agradecer e se despedir do Sr. Davis.

— O Sr. Falc me garantiu que o senhor é de confiança e se estiver disposto de me ver, além do apelido estúpido e minha conta bancária, estou disposto a lhe dar um voto de confiança. — Disse Harry baixo e firme.

— Posso ignorar seu estúpido apelido, mas nunca poderia ignorar sua conta bancária, eu não seria um Slytherin ou um advogado se fizesse isso. — Disse ele sincero.

Harry não aguentou e riu, seus olhos brilhando.

— Gosto da sua sinceridade, me lembra Tracy, ela é uma boa amiga. — Disse Harry e depois se afastou na direção do diretor. — Vamos, senhor?

— Certamente. Por aqui, Harry. — Disse e indicou o caminho para os elevadores.

A viagem de elevador e depois pelo grande e luxuoso saguão do Ministério foi feita em silencio, mas atraíram muitos olhares e logo um zunzunzum se espalhou quando as pessoas percebiam que aquele com Albus Dumbledore era Harry Potter. Os dois ignoraram e caminharam sérios e tranquilos, quando se aproximaram da saída Harry se dirigiu na direção da cabine de entrada e saída de visitantes. Dumbledore o deteve.

— Vamos por aparatação, Harry, é por aqui. — Disse ele indicando o caminho. Harry o olhou, levemente confuso.

— Acredito que o senhor pediu para me acompanhar de volta a minha casa. Eu voltarei como vim, por trem, o senhor pode me acompanhar ou ir por aparatação e me esperar lá. — Disse Harry com firmeza e seguiu na direção da cabine. — Mas, eu não recomendo, se quer ver e conversar com minha tia, agir de maneira menos bruxa poderia lhe ajudar.

— Ok... eu nunca andei de trem, suponha que seria bom viver uma nova experiência... Harry, você tem que pegar sua varinha. — Disse Dumbledore o seguindo apressadamente.

— Eu estou com minha varinha, diretor, acredita que depois do que aconteceu a poucos mais de 2 semanas, permitiria que alguém a tirasse de mim? — Harry levantou a sobrancelha e viu o velho parecer levemente envergonhado e surpreso.

— Claro. E lamento que tenha passado por uma experiência tão difícil. — Disse ele solenemente.

Harry controlou a irritação por essa afirmação falsa e abriu a cabine vermelha disponível e entrou, Dumbledore desajeitadamente o acompanhou e os dois ficaram esmagados, o diretor mais alto do que o Sr. Falc ficou com sua cabeça torta, pois se não, a batia no teto.

— E agora? — Perguntou ele e Harry se segurou para não rir.

— O senhor é o funcionário do Ministério e não sabe como usar a saída de visitantes? — Harry questionou e suspirando exasperado discou o número no telefone e a voz da mulher anterior falou, enquanto a cabine subia suavemente.

— Caro visitante, agradecemos sua visita ao Ministério da Magia e esperamos que tenha um dia agradável.

Quando a cabine chegou ao nível da rua Dumbledore abriu e eles saíram do apertado espaço para o beco sujo e decrépito. Harry não hesitou.

— O senhor, como o Chefe Bruxo da Suprema Corte, poderia me explicar o raciocínio de uma entrada de visitantes tão absurda e sem propósito? — Seu tom era frio. — Com um forte feitiço Repele Trouxa e alguns outros que não conheço, um saguão normal, com uma recepcionista e um elevador seriam mais do que suficientes para se evitar que os trouxas descobrissem ou se interessassem pela entrada. Vocês realmente recebem todos os visitantes por aqui? Como, por exemplo, o Ministro da Magia da França?

Dumbledore que nunca havia estado ali olhou em volta surpreso e um pouco enojado com o cheiro e sujeira.

— Eu... realmente não sei e essa é uma pergunta, cuja resposta, com certeza me interessa. Não sabia que a entrada dos visitantes era aqui ou assim e confesso não compreender o raciocínio de quem a criou. — Dumbledore moveu cabeça negativamente, uma nova experiência, sem dúvida. — Vamos?

Harry o olhou se perguntando se ele estava brincando ou falando sério e quase se bateu na cabeça ao ver que era sério.

— O senhor pretende andar por Londres vestido assim? — Perguntou incrédulo.

— Ora, claro que não... que descuido o meu. — Disse Dumbledore com um sorriso envergonhado e transfigurou sua veste lilás em um terno de veludo roxo. — Pronto.

Harry se engasgou e abriu a boca o olhando chocado. Ele realmente era considerado o bruxo mais inteligente do mundo?

— Diretor...

— O que foi? Algo errado com minha roupa? Eu sempre a uso quando vou a uma função no mundo trouxa. — Disse ele com um sorriso maior e meio infantil.

— Bem, primeiro se o evento fosse em um circo talvez essa cor fosse aceitável e estamos no verão, ninguém usa veludo no verão, morreriam de insolação. — Disse Harry exasperado. — E posso estar enganado, mas esse modelo de terno foi moderno na década de trinta, pelo menos.

— Oh... — Dumbledore parecia desapontado e Harry quase teve pena dele, mas se ele aparecesse assim diante de seus tios, nunca seria levado a sério e complicaria ainda mais sua vida. — Sempre achei que combinava comigo...

— Talvez combine, senhor, já que tem uma personalidade jovem e excêntrica, não tem nada errado, mas se a ideia é não chamar atenção dos trouxas, se encaixar e mais importante conversar com meus tios sem causar mais problemas para mim e ser levado a sério, acredito que o senhor precisa de algo diferente. — Disse Harry determinado. — Venha comigo.

E ele caminhou para fora do beco, Dumbledore o seguiu curioso e divertido com a aventura e esse Harry direto e inteligente. Eles caminharam apenas 3 quadras antes do Harry apontar para uma loja, na vitrine havia um manequim com um terno de corte moderno, cinza chumbo, a camisa era branca e o colete cinza claro.

— Esse é o terno que deve usar, senhor. — Disse Harry com firmeza.

— Hum... Muito bonito, mas a cor é um pouco séria e carregada, você acredita que eu poderia manter essa cor? — Perguntou Dumbledore curioso, apontando para o terno que usava e que ele percebera atraíra muitos olhares de espanto dos trouxas.

— Não, definitivamente não. Bem, talvez em um evento a noite, uma festa ou jantar romântico. O senhor tem namorada, diretor? — Perguntou Harry curioso.

Dumbledore riu suavemente e, olhando em volta, lhes lançou um feitiço Repele Trouxa e mudou seu terno para o igual ao da vitrine. Pelo vidro se observou e fez uma careta, parecia roupa de enterro.

— Sou um pouco velho para encontros românticos, Harry. Então? — Disse ele sorrindo e esperando a aprovação do seu jovem companheiro.

— Hum... Não entendo muito de moda, mas acho que essa cor não o favorece, senhor. Talvez um cinza mais claro, vai destacar seus olhos azuis e.… esse colete deveria ser xadrez, assim o senhor parece mais um professor do que um advogado. — Sugeriu Harry muito sério.

— Bem, vamos ver... — Disse Dumbledore pensativo e acenou sua varinha, o terno moderno se tornou um cinza claro azulado e o colete passou para o xadrez, azul escuro, branco e vinho. Depois ele se olhou no espelho e gostou do que viu. — Eu acredito que ficou bom.

— Sim, realmente ficou, senhor. Agora precisamos dar um jeito no cabelo...

— Hum?

— …e na barba. — Disse Harry ainda muito sério e o analisando com profunda concentração.

— O que!? — Dumbledore o encarou meio em pânico e escandalizado.

Harry não aguentou e jogou a cabeça para traz soltando uma gargalhada, ainda um pouco abalado, Dumbledore também riu ao perceber que era uma brincadeira.

— Estou brincando, diretor. — Harry disso divertido e olhando para o relógio, suspirou. — O senhor se importa se pararmos para almoçar? Meu café da manhã foi a horas e prometi a Madame Pomfrey que não ficaria muito tempo sem comer, antes estava muito ansioso, mas agora estou faminto.

— Não, Harry, de maneira alguma. Eu não conheço nenhum restaurante por aqui, mas não devemos estar longe do Caldeirão Furado. — Disse o diretor olhando em volta levemente perdido, e aliviado que sua barba continuaria como estava.

— Tem um shopping a algumas quadras, senhor, acredito que será mais rápido e não é longe da estação. — Disse Harry apontando para o caminho em frente.

— Ok, nos conduza, Harry e eu o acompanharei. — Disse Dumbledore curioso sobre o que seria um shopping exatamente.

Eles caminharam lado a lado e agora não chamavam a atenção, Dumbledore se perguntou como não percebera antes os olhares dos trouxas para sua roupa. Quando entraram no shopping, ele olhou em volta para o enorme saguão de vários andares e centenas de lojas e provavelmente milhares de pessoas e abriu a boca assombrado e caminhou olhando em volta como uma criança encantada. Depois de esbarrar em algumas pessoas e quase perder de vista o seu jovem companheiro que caminhava apressado e confortável, Dumbledore parou de olhar em volta.

Eles usaram uma escada rolante e ele se perguntou como eles faziam ela subir sozinha sem magia. Ora, sempre pensara que esse era um feitiço que só ele sabia. Quando chegaram ao último andar em uma grande área com muitas mesas ocupadas, um barulho de conversa ensurdecedor, a vista da parede de vidro de Londres era muito bonita. O cheiro de comida era delicioso e Dumbledore decidiu que também estava com fome.

— Vou pegar meu preferido, senhor. O que o senhor vai querer? — Questionou Harry como se almoçarem em um shopping fosse algo comum aos dois.

— Eu... Acredito que vou experimentar o seu preferido... — Disse Dumbledore confuso ao olhar em volta e ver as dezenas de opções diferentes.

Em poucos minutos os dois se sentavam em uma das mesas de formicas e cadeiras simples com uma bandeja cada um e Harry desejou ter uma câmara para fotografar o grande Albus Dumbledore olhando confuso para o seu prato e destoando completamente do ambiente com seu terno elegante e cabelos e barbas compridas e brancas.

— Eu adoro o hambúrguer duplo com bacon, batatas fritas e milk shake de chocolate chips, espero que o senhor goste também. — Disse o Harry e pegando seu hambúrguer com a mão, deu uma grande dentada.

Dumbledore o imitou pouco à vontade, mas quando sentiu o sabor do lanche arregalou os olhos surpreso e deu uma segunda mordida maior. Depois de engolir ele bebeu no canudinho o tal shake e olhou chocado, o que era exatamente e porque era tão delicioso? Os dois poucos falaram, concentrados em comer e foi só quando comiam as batatas fritas finais que Dumbledore perguntou porque haviam tantas pessoas naquele prédio.

— Porque é um shopping, como o Beco Diagonal, mas ao em vez de uma rua ou beco, eles colocaram tudo aqui dentro. Tem lojas de todos os tipos, bancos, refeições variadas e até cinema. — Informou Harry e viu o diretor acenar.

— Eu conheço um pouco do mundo mágico, minha mãe era nascida trouxa, gosto muito de jogar boliche e opera, mas acredito que foi a muito tempo que eu, realmente, caminhei por esse mundo incrível. Não tinha percebido quantas novidades os trouxas inventaram. — Disse ele muito pensativo e com um sorriso feliz.

Harry tentou não rir da mostarda amarela em sua barba branca e comentou:

— Acredito que tem um boliche aqui também. Caso o senhor deseje vir jogar um dia. — Disse Harry e rapidamente se levantou para deixaram as bandejas no lugar adequado.

Na saída, Harry sugeriu uma passada no banheiro, assim o diretor limpava a barba e logo depois os dois seguiram para a estação. Eles se sentaram em duas cadeiras vermelhas desconfortáveis e mais uma vez Harry tentou não rir de como as compridas pernas de Dumbledore atrapalhavam o apertado espaço do trem. Quando eles lentamente deixaram a estação, Harry elogiou a transfiguração de seu terno.

— Bem, eu fui professor de Transfiguração antes de ser diretor, acredito que ainda não me esqueci como se faz algo tão básico. — Disse ele sorrindo.

— Então o senhor foi professor da Prof. McGonagall?

— Sim, seu professor desde que ela tinha 11 anos, até a conclusão de seu mestre em Transfiguração. E a ajudei a alcançar sua transformação animaga. — Disse ele com um sorriso nostálgico.

Harry acenou, isso explicava porque a professora o respeitava tanto, teria que contar a Hermione e talvez ela perdoasse a sua ex-professora favorita, pensou.

— O que pretende dizer a minha tia, senhor? — Perguntou Harry curioso. — Meu tio só estará em casa por volta das 18 horas.

— Conversarei com sua tia e se for necessário, voltarei outro dia a noite para falar com o Sr. Dursley. — Disse o diretor pensativamente. — Creio que devo me desculpar com sua tia por ter lhe deixado um bebê sem lhe dar uma escolha na questão. Minhas ações, percebo agora, foram injustas com ela e com você. E sinto que seu ódio pela magia é minha culpa, talvez eu consiga que ela não desconte mais em você sua amargura. Me entristece que mesmo depois de tantos anos, sua tia não encontre dentro de si amor suficiente para perdoar.

Harry, mesmo não querendo encará-lo nos olhos, não pode evitar e o fez surpreendido.

— Sua culpa? O que quer dizer, senhor? — Ele não pode esconder sua ansiedade, isso era algo que o confundia, porque sua tia odiava tanto a magia?

— Quando sua mãe recebeu sua carta de Hogwarts, sua tia me escreveu uma carta muito bonita e doce. Ela disse que não queria se separar de sua irmãzinha, que era seu trabalho cuidar dela e por isso pedia autorização de ir para Hogwarts. Me perguntou se não havia uma magia que pudesse transformá-la em uma bruxa também e assim ela e a irmã seriam especiais. E seus pais também pensariam que ela era especial. — Contou Dumbledore tristemente.

— Ela... Queria ser uma bruxa e... ir para Hogwarts? — Harry não sabia o que pensar dessa nova informação.

— Sim, eu escrevi para ela e expliquei que não havia uma magia para transformar trouxas em bruxos e que ela era especial por si mesma, que deveria encontrar seus talentos e que eu lhe desejava muita sorte. Tentei ser gentil, mas talvez minha carta tenha sido por demais paternalista e eu não percebi naquele momento que, na verdade, ela pedia minha ajuda. Como um professor percebo que falhei com ela e com você, muito gravemente, Harry e, espero que um dia, vocês possam me perdoar. — Concluiu o diretor sombrio.

Harry não respondeu, será que era isso que estava fazendo? Deixando que as ações do diretor o enchessem de amargura e raiva, será que um dia terminaria cheia de ódio como sua tia? Confuso, Harry observou um jovem de roupas desgastadas, cabelos e barbas compridas começar a tocar um saxofone. A música encheu o ambiente, era bonita e triste e, apesar de não entender nada, Harry achou que o homem tocava muito bem. E ele ouviu a música e refletiu sobre se podia perdoar o diretor por seus erros, sua negligência. Talvez, pensou, se Dumbledore, realmente, estivesse arrependido e parasse de mentir e esconder os fatos. Harry estava cansado de ser subestimado e engando.

Durante o resto da viagem eles pouco falaram e quando finalmente chegaram a estação em Surrey, Harry colocou 10 libras no compartimento do músico, pois ele era muito bom.

— Ele é um músico tão talentoso, porque se apresenta assim e não em concertos e shows? — Questionou Dumbledore, lamentando não ter libras com ele.

— Eu não sei, talvez nunca teve uma oportunidade. — Disse Harry um pouco triste.

— Bem, pelo menos nossa viagem foi das mais interessantes, nunca pensei que gostaria tanto de fazer um passeio no mundo trouxa. Obrigada, Harry, por essa aventura. — Disse o diretor sincero.

— De nada. — Disse Harry e quando chegaram na rua dos Alfeneiros, decidiu que era o momento para uma importante questão. — O Juiz Wood disse que o senhor estará mais envolvido em minha educação a partir de agora. O que o senhor pretende me ensinar?

— Posso lhe ensinar muitas coisas, o que você gostaria de aprender? — Perguntou o diretor quando pararam em frente ao número 4.

— Quero que o senhor me ensine a matar Voldemort. — Suas palavras foram duras e claras, Harry o encarou nos olhos e deixou o desejo de vingar e honrar seus pais a frente de seus pensamentos.

— Harry... O dia de aprender como vencê-lo chegará, mas não é agora, você é muito jovem e não está pronto, ainda não, mas um dia. — Disse ele suavemente. — Seus pais iam querer que você aproveitasse um pouco mais sua infância, aproveite para viver e ser feliz com seus amigos. Lembre-se do que eu lhe falei sobre viver no passado, ficar remoendo a morte de seus pais e desejando vingança não é o caminho certo, meu menino.

Harry olhou para o chão e tentou não explodir a sua raiva, seus planos eram importantes demais apenas pela satisfação de gritar com Albus Dumbledore.

— Ok, e imagino que o senhor ainda me considere muito jovem para saber porque Voldemort tentou me matar. — Questionou ele, levemente irritado.

— Sim, ainda não é o momento, sei que não saber o desagrada, mas esse é um peso que não quero sobre seus jovens ombros. — Disse Dumbledore em um tom definitivo.

— Muito Bem, apenas... não adie demais diretor, porque não pretendo esperá-lo para sempre. — Harry falou com firmeza e, sem esperar uma resposta, foi para a porta e bateu.

A porta se abriu e sua tia, muito pálida e ansiosa a abriu, quando o viu arregalou os olhos e parecia, suspirar, quase aliviada.

— Estou de volta tia Petúnia, acredito que vamos ter que nos aturar por mais um tempo. — Disse Harry com um sorriso tímido.

— Entre e... — Mas ela parou e abriu a boca assombrada ao ver o diretor que se aproximava.

— Boa tarde, Petúnia, já nos correspondemos, claro, sou Albus Dumbledore e acredito que temos uma conversa a muito atrasada a nossa espera, uma longa e difícil conversa. — Disse o diretor em seu tom sério e sombrio.

Harry quase teve pena de sua tia, quase.