Capítulo 39
A trilha era larga e bem marcada como se fosse usada com frequência e Harry imaginou que era um caminho comum para os centauros e outros seres subirem a montanha. O caminho se inclinava, se inclinava e, quanto mais subiam, mais frio ficava e Harry logo vestiu a parka que a Sra. Madaki lhe presenteara no Natal. Sirius lhe contou sobre como se tornar um animago e de tempos em tempos os faziam parar para um momento de descanso, água e comida. Harry achou a ideia de se tornar um animago com uma folha de mandrágora na boca, secreção de mariposa, orvalho e tempestades de raios muito estranha e absurda.
— E essa é a única maneira? Os bruxos existem a milênios e esse é o único jeito de se tornar animagus? — Harry perguntou abismado e sem fôlego.
— Sim, do meu conhecimento, é sim. — Disse Sirius e deu de ombros. — É bem chato e nada emocionante, um pouco estúpido, na verdade, mas dá resultado. É melhor falarmos menos, o ar ficará mais rarefeito e temos que economizar energia.
Harry acenou concordando e tentou desconsiderar o fato de que já estava sem energia, a verdade é que todos os exercícios do dia não foram uma escolha tão inteligente antes desta jornada. Ele tentou se concentrar na respiração e nos passos, as varinhas iluminavam o caminho e a escuridão ou frio não o incomodavam. Mas para Sirius a escuridão era o mais difícil, o lembravam de Azkaban e cada pequeno barulho da Floresta o assustava, seu coração acelerado o enchia de adrenalina e seus olhos olhavam em volta vendo sombras e terrores.
Por quase duas horas eles seguiram e quando pararam para um descanso e água, Harry percebeu que Sirius estava muito tenso e sobressaltado.
— Tudo bem, Sirius? — Ele perguntou suavemente.
— Sim, apenas... toda essa escuridão e frio, me lembram de Azkaban. — Respondeu ele suspirando, fechou os olhos tentando afastar os fantasmas.
— Eu não sei como é Azkaban, mas aqui não um lugar ruim, Sirius. Você não pode sentir? — Harry fechou os olhos e sorriu ao sentir a energia mágica da Floresta, ela sussurrava e o acariciava. — A Floresta está cheia de magia e nos acolhe, é bom e suave.
Sirius o imitou e fechou os olhos tentando se conectar com a Floresta, mas sua mente, carregada de tormentos, teve dificuldades em sentir seus sussurros suaves.
"Respire, Sirius, esvazie sua mente e respire, nada mais existe, apenas sua magia e a magia da Floresta. "
Suas palavras suaves o ajudaram a encontrar sua magia que parecia frágil e hesitante em se conectar com a energia da Floresta. Sirius entendeu que precisava fortalecer sua mente para fortalecer sua magia. Encontrando a magia da Floresta permitiu timidamente a conexão e quando ela finalmente aconteceu, Sirius se sentiu inundado pela suavidade e vida que os cercavam, não havia dor ou raiva, desespero ou medo, apenas vida. Sem perceber que estava a quase uma hora meditando e tentando a conexão, Sirius ao se sentir inundado por tanta energia e vida, soluçou, era como se pela primeira vez sentisse sua própria magia e a bondade do mundo natural.
Harry, que acabou adormecendo acordou com seus soluços e o abraçou sem dizer nada. Depois que Sirius se acalmou, eles prosseguiram, seu padrinho parecia mais leve e agora olhava para escuridão com um leve sorriso. Para ele o caminho ficou mais difícil, respirar, respirar e respirar, sua mente repetia focada e tentando não parar. Um passo após outro passo, mais um passo e mais um, respirar, andar. Então ele tropeçou, não caiu, mas cambaleou e eles pararam outra vez para descanso e água.
— Quando chegamos? Quer dizer, onde fica esse local de ritual? — Perguntou Harry tentando não mostrar sua exaustão.
— Não deve estar longe, fica no meio da montanha e acredito que em breve chegaremos. — Disse Sirius e olhando para o afilhado, acrescentou. — Posso te carregar um pouco, se quiser.
O primeiro impulso do Harry foi negar, mas então se lembrou das palavras de Firenze, "um verdadeiro guerreiro não tem vergonha de pedir ajuda" e acenou concordando e subiu nas costas de seu padrinho. Eles caminharam assim por mais uma hora quando Harry pediu para descer, pois estava mais descansado. Foi perto do amanhecer que sentiu a necessidade de ir em outra direção, sua conexão com a Floresta lhe indicou um novo caminho e ele percebeu que era o momento de se separar de Sirius.
— Eu vou por aqui agora, Sirius. — Disse ele quando chegaram a uma bifurcação, o seu novo caminho parecia bem mais estreito.
— O que? Não, Harry, nos separamos quando chegarmos lá. — Disse Sirius surpreso.
— Acredito que já chegamos, Sirius. A Floresta me diz que meu caminho deve ser por aqui agora, preciso continuar sozinho. — Harry disse seriamente.
— Mas... Harry, eu... — Sirius parou desconcertado entre o desejo de protegê-lo o desejo de continuar a subir a trilha.
— Está tudo bem, você continua a subir e eu vou por aqui. — Disse ele apontando a trilha estreita que parecia seguir em linha reta, circulando a montanha e não mais subindo.
Sirius encarou a trilha e Harry em dúvida, mas por fim suspirou e acenou cansadamente.
— Ok, nos encontramos aqui na segunda-feira de manhã. Seja cuidadoso, Harry e nunca conte a Serafina que o deixei andar sozinho pela montanha. Combinado? — Disse Sirius com a sobrancelha arqueada.
— Combinado. — Respondeu Harry sorrindo divertido.
E assim eles seguiram separados, a nova trilha era reta e o vento fez Harry agradecer mentalmente a Sra. Madaki por sua parka. Quando finalmente, a claridade lhe permitiu apagar sua varinha, Harry teve uma vista de tirar o fôlego e percebeu que estava a poucos passos de um assustador precipício. Olhando para baixo a centenas e centenas de metros as copas verdes das árvores eram vistas e olhando para o leste onde sol nascia, Harry viu Hogwarts a distância e o lago, era tão lindo que ele desejou ter uma câmera para fotografar. Mas o vento era tão frio que ele decidiu se apressar. Enquanto o sol aos poucos surgia, Harry caminhou e não demorou para a trilha se desviar para a Floresta e descer na direção de um som que ele identificou como água e, para seu choque e prazer, ele chegou a uma pequena queda d'água. Não era muito alta como uma cachoeira e a água descia suavemente pelas pedras verdes formando uma lagoa e depois seguindo por um rio estreito. A área era plana e Harry percebeu que estava no lugar que precisava estar. Buscando a conexão com a árvore ele fechou os olhos e caminhou lentamente até sentir a cintilação de energia de um grande e antigo carvalho, onde encontrou preso ao tronco um saco de estopa com ervas secas amarradas juntas por uma corda rústica. Haviam vários iguais, mas Harry, instintivamente, sabia que poderia usar apenas um e deixar os outros no saco. Cheirando as ervas, ele identificou algumas, sálvia, alfazema, cravo, alecrim, verbena, jasmim e mais algumas que não conhecia.
Voltando para perto da água onde o som o atraia, Harry tirou as roupas mais pesadas, as botas e apenas de calça e camiseta, juntou algumas pedras e fez um círculo, colocou as ervas no meio e usando um fosforo e não magia as ascendeu. Ajoelhando-se aprofundou sua conexão com a Floresta e limpou sua mente, sentindo sua magia o percorrer e estalar como eletricidade por sua pele. Sentado em posição de lótus nem percebeu quando começou a flutuar, mas sentiu quando a fumaça com os cheiros das ervas penetrou seus sentidos, sua mente rodou quando tudo o envolveu e Harry perdeu a noção de tudo.
Enquanto as horas prosseguiam seu corpo esquentou e suou, sua mente continuou limpa de pensamentos, mas visões a envolveram. Sua intenção de limpeza era física e espiritual, mas não lhe ocorreu que sua mente inconsciente fosse afetada. E, no entanto...
Harry olhou em volta para uma casa com decoração antiga, mas espere, ele conhecia essa casa e ele conhecia essa voz. Algo o incomodava, sim, sim, sim, mamãe, queria a mamãe... Seu berço era alto, mas não alto demais e ele tentou escalá-lo, só para cair de volta para traz sentado. Soltando um grunhido de raiva e determinação ficou de pé em suas pernas bambas e curtas outra vez e segurou na grade do berço com firmeza. Queria a mamãe, queria, queria, sua voz suave era ouvida por ele e Harry a chamou.
— Maman. — O som não foi alto o suficiente, talvez se chorasse, quando chorava a mamãe vinha. Fez uma careta, não queria chorar, só queria a mamãe, tentou subir de novo pela grade e caiu, não ia desistir, queria a mamãe agora. Sua vontade foi recompensada quando começou a flutuar sobre o berço até pousar no chão em pé. Isso, conseguira, agora era só encontrar a mamãe.
Suas pernas instáveis os levaram pelo corredor com tapete macio e Harry chegou ao topo da escada, era alto, mas ele não tinha medo de altura, voava de vassoura com seu papai e de vassoura barulhenta com io Siri. Assim, Harry se agachou e engatinhando desceu os degraus, demorou muito, mas a voz da mamãe ficou mais perto e mais perto, mamãe estava triste e Harry precisava chegar a ela. Quando alcançou o último degrau se virou para a sala onde estavam seus brinquedos e viu mamãe e papai abraçados, sua mamãe chorava, Harry a ouvira chorar.
— Acalme-se, Lily, não chore mais... — Seu pai disse a consolando.
— Oh, James, como posso não sofrer, Marlene e toda a família, os irmãos eram só crianças, James. Ela era como uma irmã para mim, assim como Sirius é para você... — Mamãe chorou mais fortemente. — O que estamos fazendo, James? Desde que abandonamos a luta, tudo ficou pior, nossos amigos estão morrendo, inocentes estão morrendo. O que estamos fazendo?
— Estamos fazendo o certo, Lily. — Harry se aproximou, também queria abraçar sua mamãe como seu papai fazia.
— O certo para quem, James? Quem?
— Ele. — Seu pai o olhou e o pegou fora do berço, Harry sorriu tímido. — É tudo por ele...
Mamãe também o olhou e antes de ficar brava por não estar no berço, Harry subiu no sofá e em seu colo.
— Hawry abaça maman, nãn chori, maman. — Harry a abraçou com força pelo pescoço.
— Oh... meu garotinho, o que está fazendo acordado, meu Harry James? Hum? — Disse ela suavemente contra seu cabelo.
— Maman tristi, Hawry senti maman tristi. — Disse ele e a beijou. — Hawry beji melor.
— Oh, você me sentiu triste, meu amor, sim seus beijos melhoram tudo. — Ela o abraçou e seu cheiro o envolveu, lírios e violetas. — Mamãe te ama tanto, e seu papai também. Você está certo, James, tudo é por ele e vale a pena.
— Ouviu isso, Harry? — Harry olhou para seu papai, ele tinha aquele sorriso doce e olhos castanhos brilhando, ele acenou. — Nunca se esqueça disso, Harry, nós amamos você, tanto e tanto, por você tudo vale a pena.
Harry acenou e sorriu olhando para sua mamãe com olhos verdes e sorriso que o enchia de amor.
— Hawry ama maman e papi. Ama monti aschim. — Disse ele abrindo seus braços e seu pais riram o abraçando, o som bonito se perdeu quando outra visão ou lembrança se moveu em sua mente.
Ele estava em um berço outra vez no escuro e o quarto não era familiar, não ouvia sua mamãe, onde ela estava? Tentou lembrar e a imagem do homem com capuz o envolveu, pensara que era o papai brincando, mas ele machucou sua mamãe. Ela gritou e o homem riu, mamãe estava no chão e ele chorou. Agora estava na casa da tia Petúnia, não gostava da casa da tia Petúnia, queria sua mamãe. Voando por sobre o berço, Harry caminhou do quarto pelo corredor e desceu as escadas, ele foi até a sala, mas mamãe e papai não estavam lá, ele procurou na cozinha escura, mas nada. Triste, ele chorou e tia Petúnia apareceu, ela o pegou no colo e o envolveu no coberto que Harry arrastava pela casa. Ela se sentou no sofá com ele em seu colo e o balançou suavemente.
— O que está fazendo aqui embaixo, devia estar dormindo. — Disse ela suavemente.
— Eu queria maman, ondi maman e papi, ia Peúnia?
— Oh... Eles... Não estão mais aqui, Harry. Eles se foram.
— Quero eles, ia Peúnia, voche busca eies pa mim?
Tia Petúnia se engasgou e chorou baixinho.
— Eu não posso fazer isso, eu juro que faria se pudesse, mas eles não podem voltar. — Ela disse e seu olhos azuis estavam tristes, lágrimas escorriam pelo seu rosto.
— Maman não volta?
— Não, Harry.
— Papi não volta?
— Não, Harry, sinto muito.
— Hawry sozinho agora? — Harry começou a chorar de tristeza. Porque? Porque mamãe e papai não voltam?
— Não, você não está sozinho, eu estou aqui. — Disse ela e Harry a olhou com aqueles grandes olhos verdes, pareciam ler sua alma e ela não pode mentir quando ele perguntou.
— Ia Peúnia ama Hawry?
— Sim, eu amo, amo muito.
Harry acenou e suavemente tocou seu rosto para limpar suas lágrimas.
— Hawry ama ia Peúnia, mas Hawry queria maman e papi. — Ele soluçou e afundando o rosto em seu peito, chorou suavemente.
— Eu sei, eu sei. Eu os queria também e meu papai e mamãe também, sinto muito a falta deles, de todos eles... — Disse ela o abraçando e chorando enquanto o balançava...
O balanço suave o embalou assim como a música suave que uma voz conhecida lhe cantava:
Balanço baixo, carruagem doce
Vindo para me levar para casa
Balanço baixo, carruagem doce
Vindo para me levar para casa.
Eu olhei para Jordan e o que eu vi
Vindo para me levar para casa
Um bando de anjos vindo atrás de mim
Vindo para me levar para casa
— Maman...
— Hush, meu doce bebê, não tenha medo, meu Harry James. Durma, durma...
E Harry fechou os olhos e atendeu seu pedido, dormindo em paz com seu cheiro suave, apoiado em seu colo, seguro e amado.
Em volta do Harry a magia se agitava, a fumaça do fogo dançava criando formas das suas visões e ao mudar de visão as formas de fumaça passavam ao seu lado e o tocavam com carinho., seu rosto e seu cabelo. A magia de seus ancestrais o fortaleciam e protegiam, lhe dando aquilo que precisava, o amor que ansiava e assim o dia passou, quando escureceu as visões mudaram e Harry se viu trancado em seu armário, sozinho e com fome. Ele chorou chamando sua mãe e sua tia Petúnia que o abandonaram, mas ele nunca estava sozinho, o amor estava lá o tocando e protegendo, mas Harry não encontrava. Então...
Harry estava sonhando, ele sabia que estava, era um sonho feliz, ele voava em uma moto e era seguro por tio Siri. Olhando para seu tio, tentou gravar a lembrança, quando acordasse em seu armário esperava não esquecer.
— Veja, Jamie, ele gosta de voar, aposto que quando lhe der uma vassoura será um natural. — Disse tio Siri e Harry olhou e viu seu papai sorrindo animado no sidecar.
— Eu sei disso, espero que ele cresça logo, assim podemos voar juntos. — Disse seu papai segurando sua mão firmemente. — Devagar Sirius, não quero que Harry se assuste.
Eles voavam no jardim, a vassoura barulhenta era muito divertida.
— Vruuunmm, vruum. — Disse Harry animado.
— Sim, Harry, quando fizer um ano te darei uma vassoura, mesmo sua mãe tem que reconhecer que você nasceu para voar. Tio Siri ama você, Harry, você nunca estará sozinho.
— Eu estou sozinho, tio Siri, maman e papi se foram para sempre. — Disse Harry e não era mais um bebê, era um garotinho de 7 anos e grandes olhos verdes tristes.
Sirius se abaixou a sua altura e se sentou ao seu lado no jardim.
— Você sabe que não é verdade. O amor deles sempre estará com você, um amor tão grande não morre nunca, não vai embora. E, um dia, eu voltarei para você, Harry, seus amigos são sua família também.
— Eu não tenho amigos, tio Siri. — Disse Harry tristemente.
— Não? Mas você matou por eles. — Disse Sirius e então estavam na câmara com o espelho destruído e Quirrell tentando matá-lo.
— Eu não devia impedir, Sirius? Não seria melhor, eu não seria uma pessoa melhor se não o matasse? — Perguntou Harry ao ver seus amigos surgirem correndo.
A cena se paralisou e uma voz conhecida lhe respondeu.
— Porque você faz isso!? — Gritou a voz e Harry olhou para uma versão de si mesmo, mais magro e maltratado que o olhava muito zangado. — Porque você duvida de si mesmo? Dos seus instintos? Você não matou Quirrell por diversão ou com prazer, o matou para se salvar e a seus amigos. E sou aquele que surge quando você hesita.
— Mas, você é eu, o que aconteceu com você? — Harry perguntou confuso.
— Você hesitou e tudo mudou, você se tornou eu. Quer ver? — O outro Harry perguntou cheio de raiva.
Harry acenou e a cena se desenrolou, ao em vez de matar Quirrell, Harry hesitou e seus amigos chegaram para ajudar, George e Terry o tiraram de cima dele, mas a varinha estava na mão do professor que furioso apontou a varinha para Terry e gritou.
— Avada kedrava! — A luz verde o atingiu no peito e seu amigo caiu de olhos abertos e vazios no chão.
— Não! Terry! — Mas a cena se paralisou mais uma vez.
— Você sentiu o perigo quando eles entraram, não foi? — Outra voz disse e quando Harry se virou, engasgou e caiu de joelhos.
— Mamãe...
—O que você sentiu quando seus amigos entraram, meu Harry James? O que seus instintos lhe disseram? — Ela sussurrou se sentando ao seu lado, seus cabelos vermelhos escuros tão bonitos até a cintura, olhos verdes o olhando com amor e rosto sério.
— Que eles estavam em perigo, que Quirrell tinha que morrer, naquele momento. — Disse Harry com voz engasgada.
— Existia uma escolha diferente, Harry? — Perguntou ela suavemente.
Harry olhou para seu melhor amigo morto e acenou negativamente.
— Não.
— Eu também não tive, você pode aceitar isso, meu amor? Você pode aceitar que nunca houve uma escolha para mim? Você pode me perdoar por escolher o caminho mais fácil para mim? — Perguntou ela e suavemente tocou seu rosto, magia e magia se tocaram e Harry suspirou com o amor de seu toque. — Morrer por você foi a decisão mais fácil e simples da minha vida. O caminho que escolhi era o único, mas foi e será o mais difícil para você, Harry.
— Eu aceito e não me importo o que tiver que enfrentar, eu perdoo você e o papai, mas sinto suas mortes em meu coração, sei que não é minha culpa, mamãe, mas ainda sinto. — Disse ele chorando.
— E lamento que tenha que carregar esse peso, existem fardos que sempre carregamos. O ritual vai limpar sua magia, seu espirito. O amor dos amigos e família confortará seu coração e lhe trará felicidade. Sua inteligência e bondade acalmará sua mente. Cada pequeno gesto seu de vida e amor, é nosso amor e sacrifício vivendo, mas você já sabe de tudo isso. — Disse ela o olhando com carinho. — Você cresceu tanto, meu Harry James. Respeite que seus pais foram guerreiros e fizeram o que tinham que fazer assim como você fez e fará quando lhe for exigido. E, um dia, quando chegar o momento de nos encontrarmos, mesmo que demore muitos e muitos anos, então sua dor e saudades passarão.
— Eu te amo, mamãe, obrigado. — Disse ele suavemente.
— Eu te amo, Harry James e seu pai também o ama muito. Nunca se esqueça, você nunca está sozinho. — Ela sorriu docemente.
Harry acenou e a viu desaparecer, ficando de pé viu a cena voltar e ele matar Quirrell e não lamentou mais. Estava cansado de lamentar, de hesitar e duvidar de si mesmo, tinha que respeitar a si mesmo e seus instintos. Precisava aceitar, pensou, e respeitar seus pais, suas escolhas, suas coragens e sacrifícios. Era difícil, mas quando se culpava, desrespeitava-os e seu amor por ele.
Quando iniciou o amanhecer, Harry saiu do transe da meditação e olhou em volta. Sua roupa estava suada, o fogo ainda crepitava e o esquentava na manhã fria. A pedra em sua mão parecia suja e lamacenta, sem hesitar a jogou no fogo de ervas que enchia o ambiente de um cheiro gostoso. A fumaça imediatamente escureceu e o fogo se agitou. Olhando para a água e ignorando a quão fria ela estava, Harry se despiu e pulou em um único mergulho. Incrivelmente, apesar de gelada, Harry não sentiu vontade de sair da água e, prendendo a respiração, pediu a natureza que o limpasse das últimas energias negativas e da morte. A água atendeu seu pedido em um sussurro e Harry sentiu esquentar seu corpo como se o esfregasse. Precisando respirar, ele boiou e de olhos fechados sentiu a água pura o banhar em um sussurro amoroso, que o lembrou de sua mãe e de sua tia. Antes dela decidir não o amar mais, quer dizer. Em algum momento isso aconteceu, pensou, ele, pois a lembrança ou visão, tinha certeza que eram reais, mostravam que sua tia Petúnia o amou.
E seus pais, como fora incrível os ver e como fora tolo dele se lamentar e se culpar, ao em vez de agradecer e respeitar o presente que eles lhe deram. A vida, o amor, alegria, ele nunca esteve sozinho, podia ver agora, mesmo nos momentos mais difíceis, ao seu lado estavam seus pais o fortalecendo e amando. Abrindo os olhos viu o céu azul entre as árvores e chorou de alívio, de tristeza, de alegria, de amor e de dor, suas lágrimas de misturaram com a água pura da montanha até que nada mais restasse a chorar. Harry deixou a lagoa nu e se sentindo leve e forte, pegando sua mochila se enxugou e se vestiu com roupas limpas e quentes, comeu umas nozes e depois de agradecer a Floresta por ajudá-lo em sua jornada, começou a caminhar de volta para a trilha onde encontraria seu padrinho.
Sirius estava completamente pedido ao ver seu afilhado caminhar seguro e confiante, mas sozinho para outra direção, parecia que o escuro não o incomodava. Mas ele sempre foi assim, pensou, corajoso, independente, era o bebê que nunca chamava por ajuda, quando queria algo ia pegar ou pelo menos se esforçava muito por isso. Suspirando ao perceber que ele é quem se sentia solitário, Sirius retomou a caminhada, a escuridão não o lembrava mais de Azkaban e estar na Floresta que sempre lhe significou diversão e amizade era incrivelmente bom. Quase se sentia o Sirius de antes.
Em determinado momento a trilha se tornou mais difícil e íngreme e Sirius se tornou Almofadinhas para continuar a subida. Quando finalmente amanheceu completamente, Sirius sentiu a magia o puxar na direção de um pequeno platô e a entrada de uma caverna, voltando a ser Sirius, acendeu sua varinha e entrou. Mesmo com a luz, a escuridão da caverna era espessa e sufocante, ele tentou respirar fundo e ignorar o fato de estar entrando em um lugar fechado, lembrando que não estava preso e poderia sair quando quisesse, mas o medo entrou sorrateiro e o suor frio logo lhe empapou a roupa. Sirius prosseguiu, mesmo quando sua respiração saiu tropegamente e sua visão periférica voltou a ver fantasmas, sufocado e em pânico, ele decidiu voltar, mas seus pés escorregaram. Ele tentou se levantar, mas desorientado percebeu que não sabia para que lado ficava a saída.
— Não... Não posso ficar preso... Não podem me prender, Harry precisa de mim..., por favor... — Sirius tropeçou desorientado tentando encontrar a saída, mas se aprofundou ainda mais na caverna escura.
Quando vislumbrou uma luz no fundo do corredor cavernoso acelerou o passo certo que era a entrada da caverna, mas descobriu ser uma câmara dentro da caverna com uma lagoa cristalina que refletia a luz dos cristais no teto, era tão lindo e tranquilo que todos os fantasmas e medo se foram. Trêmulo e sentindo-se tolo por seu pânico e falta de controle, Sirius se aproximou da lagoa e olhou em volta à procura de um saco com ervas e o encontrou facilmente em cima de algumas rochas. O saco estava velho e úmido, mas as ervas secas pareciam bem preservadas, assim ele fez um círculo com pedras e colocou no meio. Tirou o excesso de roupa e, se ajoelhando, ascendeu o fogo com um isqueiro de prata, os cheiros de ervas se espalharam e ele fechou os olhos buscando a conexão com a Floresta, mas o suor gelado grudava em sua pele e Sirius não conseguia se concentrar.
Suspirando profundamente tentou limpar a mente, mas a preocupação com Harry e o medo pareciam engolfar tudo, ele abriu os olhos e viu o fogo que se apagar, furioso consigo mesmo se levantou e chutou as pedras e ervas.
— Maldição, porra! — Gritou e continuou chutando tudo o que viu pela frente, até perder o equilibro e cair na lagoa de costas e um grito nada viril.
A água estava tão fria que sufocou seu grito e raiva em instantes. Tremendo agora de frio saiu correndo da água, vestiu roupas secas e tentou ignorar o pensamento de que se James estivesse ali estaria rolando de rir. Suspirando outra vez, Sirius decidiu tentar mais uma vez e ignorar que estava dentro de uma maldita caverna.
Quando se ajoelhou e acendeu o fogo, sentiu o seu calor o envolver e esvaziou a mente, se conectou com a magia da caverna e não da Floresta. O cheiro e a fumaça penetraram em seus sentidos e o mundo físico deixou de existir. Sirius não teve uma visão do passado, ele não voltou a infância, tudo o que havia era escuridão e frio, vultos e gritos, os lamentos dolorosos e o desespero e desesperança o engolfaram. Completamente em transe, lágrimas escorreram por seu rosto e a vontade de fugir e desistir o espreitaram, mas a energia da caverna o sustentou e a fumaça carregada de magia o envolveu.
Foram horas e horas, quando finalmente algo mudou e Sirius ouviu passos e, sentado no escuro, viu James Potter se aproximar com um sorriso malicioso e olhos de avelã brincalhão e brilhantes, sentar-se ao seu lado como se fosse um encontro normal.
— James... — Disse ele engasgado.
— Oi, Siri, sua mente está bem bagunçada, irmão. E sim, eu teria morrido de rir de seu pequeno chilique, mas o melhor foi o grito na hora da queda, é quase um crime não ter testemunhas. — Disse ele rindo divertido.
— James... — Sua voz agora saiu triste e saudosa.
— Sim, esse é meu nome e você já o disse, Sirius. Irmão, você costumava ser mais eloquente e sua mente mais divertida. — Disse ele olhando em volta.
— Essa é minha mente?
— O que você achou que era? O inferno? — James perguntou ironicamente.
— Pensei que era Azkaban. — Disse Sirius olhando em volta e logo voltando para seu melhor amigo, parecendo tão vivo.
— Bem, é o que dizem, podem até te tirar da prisão, mas não tiram a prisão de você. — Disse James e mais sério o olhou. — Você está indo bem, Siri, no começo tive medo que fosse mergulhar na culpa, na dor e tristeza, além do whisky de fogo, claro, mas não foi o que aconteceu.
— Os Boots não deixaram ou Harry, mas ainda me sinto culpado, Jamie, foi minha ideia e...
— E eu concordei e Lily, três dos maiores e mais inteligentes bruxos sendo enganados por aquele rato com cérebro de rato. — James parecia irritado consigo mesmo. — Essa é uma culpa que todos carregaremos e nosso fardo, Sirius, de nós três, não vou vir aqui e dizer que não foi sua culpa, você já sabe que os culpados são Rabicho e Voldemort. Nossa estupidez e arrogância é nosso fardo, me impediu de estar lá e ver meu bebê crescer e nosso único consolo é que nosso sacrifício final o protegeu, Sirius e que você e Remus estão aqui com ele. Mesmo que atrasados. — James tinha aquela expressão estranhamente madura que só passou a ter depois que o Harry nasceu.
— Lamento estar atrasado, também carrego o fardo de ir atrás do rato ao em vez de ficar com o Harry. — Disse Sirius envergonhado.
— Isso é tolice, você fez o que qualquer um faria, Siri, eu faria o mesmo. Harry estava seguro e fazer justiça, ter vingança era um desejo justo, claro que poderia ter avisado alguém, mas todos poderíamos ter sido mais inteligentes e avisado alguém da troca. O fardo por sua prisão e a vida do Harry é de Dumbledore, os idiotas do Ministério e Petúnia. — Disse James cabisbaixo. — Você conversou com ela ontem.
— Sim. — Disse Sirius e de repente no meio da escuridão surgiram uma versão de si mesmo e Petúnia Dursley, discutindo.
— Como você pode maltratar o seu sangue! O filho de Lily! O menino mais doce e amoroso que nunca deve ter feito um único gesto na sua direção que não fosse de afeto e carinho, Petúnia! — Foram as palavras que saíram de sua boca, a conversa parecia tão distante, nem parecia que fora a apenas um dia.
— Não ouse me julgar! E onde você estava? Porque não estava aqui assumindo sua reponsabilidade? — Disse ela com raiva e defensiva.
— Eu estava no inferno, fui jogado na prisão, Azkaban, sem julgamento, não houve investigação, interrogatório, nada e mesmo quando achei que os Dementadores me enlouqueceriam, eu não me esqueci da minha responsabilidade e mais importante da minha família. E você, pode dizer o mesmo? — Disse ele com escárnio, ela estava pálida.
— Eu fiz tudo pela minha família, tudo, você não entende...
— Quem é sua família, Petúnia?
E os dois desapareceram porque neste momento foram interrompidos.
— E você sabe que Harry não vai gostar que ataque sua tia, não é? — Disse James com um sorriso tímido.
— Eu nunca sei o que ele vai fazer a seguir, ele é tão imprevisível. — Disse Sirius carinhoso.
— Sim, e isso é só dele, esse gosto pelo mistério, nem Lily ou eu somos assim, talvez meu pai um pouco. — James sorriu ainda mais ao pensar no filho, seus olhos avelã brilhando de amor.
— Porque estamos aqui, Jamie? — Sirius olhou em volta para a escuridão, confuso.
— Você veio aqui para se limpar das energias negativas, mas você está carregado delas por causa do inferno onde esteve nos últimos anos, a magia da caverna é mais forte e escura para lidar com toda essa escuridão. A pedra de turmalina ajudará, mas todas as pedras da caverna eram necessárias também. — Informou James suavemente. — Estou aqui, porque sua mente não precisa de mais ninguém, apenas de mim.
Sirius acenou e olhou em volta tentando afastar o medo e os gritos.
— Tinha perdido a esperança, Jamie, os Dementadores, a escuridão e o frio, às vezes, ainda penso se não estou sonhando e que acordarei naquele inferno de novo. — Sirius disse e quando James se levantou e o convidou para andar pela escuridão, ele foi hesitante.
— Você precisa superar esse medo, Siri, se livrar de Azkaban.
— Como faço isso? — Perguntou ele olhando em volta.
— Vivendo e vivendo. O que mais lhe dava prazer na vida, irmão?
— Mulheres, andar em minha moto, mulheres, um bom duelo, mulheres. E depois que virei um padrinho, estar com meu afilhado.
James riu divertido e o som pareceu afastar a escuridão apenas um pouquinho.
— Esse é o Sirius que eu me lembro. Onde está? — Perguntou curioso.
— O que?
— O seu tempo com Harry? Onde está? — James olhou em volta procurando e de repente uma sucessão de momentos apareceram.
Harry bebê em seus braços logo depois que nasceu e em muitos dos momentos em que eles estavam juntos, seu riso e rosto feliz e animado pareceram afastar um pouco mais a escuridão.
— Ele era o bebê mais lindo. — Disse Sirius e, quando as imagens passaram ao Harry de 11 anos, sorriu ainda mais. — Harry se parece com você, Jamie.
— Não parece, não. — Disse James sorrindo com tanto amor no olhar para seu filho que Sirius desviou o seu olhar. — Harry é muito melhor que eu, Siri, e que Lily também. Ele tem muita inteligência e um coração sem fim, tem intuição e esperteza. Eu era um tolo arrogante e mimado que acreditava ser perfeito e Lily teimosa e temperamental, nunca admitia estar errada. Claro que ele tem um pouco de nós, mas, se fosse a Lily ou eu, vivendo tudo o que ele passou, nunca nos sairíamos tão bem. Pare de olhar para ele e me ver, Sirius, olhe, é Harry, é isso que ele quer que veja quando o olhar, Harry James Potter.
Sirius olhou para o afilhado que nesse momento corria e dizia que ele roncava, rindo com os olhos brilhantes, seus olhos verdes, com a malicia brincalhona que James nunca teve. Os olhos do amigo tinham uma malicia maldosa e nesta idade a diversão acontecia apenas se alguém brincasse com alguém, zombando ou se divertindo às custas de alguma pessoa.
— Mas você amadureceu. — Protestou Sirius.
— Sim, eu fiz e você sabe por que. Nós quase perdemos tudo naquela noite, uma brincadeira sem pensar e nossa... Meu pai me bateu pela primeira vez, sabia? — Disse James envergonhado.
— O que? Você não me contou. Porque ele te bateu se foi minha a brincadeira? Você concertou a minha estupidez. — Sirius não entendia.
— Eu merecia, Siri, eu alimentava o seu ódio pelo Snape, Merlin como eu tinha ciúme dele com a Lily e mesmo depois que eles brigaram no fim do 5º ano e durante o 6º ano, quando ela não me dava bola, eu culpava ele. E o idiota gorduroso não era culpado, eu era, por minha arrogância e imaturidade. — James se aproximou e tocou suavemente o rosto de Harry, a imagem se paralisou quando eles se separaram na trilha. — Meu pai me disse que tinha vergonha de mim e que queria que eu fosse o homem que o deixaria orgulhoso e aos meus filhos. Como eu poderia conquistar a Lily, a garota mais incrível, se não podia deixar o homem que mais me amava no mundo orgulhoso de mim. Então eu mudei e você também.
— Eu quase perdi sua amizade, não me preocupava com o que minha família pensava de mim, mas você e Remus me olharam e me fizeram sentir tão pequeno e jurei que ia compensá-los, me tornar alguém digno de suas amizades. — Disse Sirius envergonhado.
— E você se tornou. Remus está mergulhado em sua própria prisão, ela é quase tão dura quanto Azkaban. Bem, você tem passado tempo com o Harry e as mulheres, a moto? — James perguntou se afastando quando a imagem de Harry se desvaneceu.
— Foram só 4 meses, Jamie, e minha prioridade é o Harry, estou tentando me tornar mais forte para ser o padrinho que ele precisa. Eu saí um pouco e estamos concertando a moto. — Sirius deu de ombros.
— Se sua prioridade é o Harry, você precisa se cuidar mais, você precisa viver, Siri e ser feliz! Não pode continuar de luto por nós! Não pode deixar que a culpa o faça se punir! — James de aproximou e sorriu suavemente. — Olha em volta.
Sirius o fez e a escuridão era bem suave, havia pontos de claridade e durante a conversa, os gritos e lamentos desapareceram.
— Como?
— Esta é sua mente, Sirius e ela será o que você quiser. Preencha tudo isso de amor e alegria, mais do que o Harry, não coloque nos ombros do meu filho toda a sua felicidade, não é justo com ele. Viva, Siri, sinta sua liberdade, por quanto tempo mais vai carregar Azkaban com você? — James falou e tocou seu ombro.
— Eu não sei como fazer isso sem você e Lily, eu não sei quem eu sou, Jamie, me olho no espelho e não me reconheço, tenho 31 anos e me sinto com 21, como faço para ser quem eu era? — Sirius se sentia perdido.
— Você nunca mais vai ser quem era antes de nossas mortes e de sua prisão. Acredita que Harry pode voltar a ser quem era antes de matar Quirrell? Eu sei, foi legítima defesa e na minha opinião aquele imbecil morreu tarde e meu garoto foi brilhante. — James falou antes que Sirius pudesse protestar. — Mas Harry nunca será o mesmo, assim como, quando ele se apaixonar, também mudará para sempre. Assim é a vida, cheia de momentos que nos mudam completamente, assim como esta jornada que você espera sair diferente, melhor. Não tem como voltar, Siri, veja... — Apontou James e uma imagem de si mesmo jovem e sorridente, olhos cinzentos brilhando apareceu. — Ele morreu, Sirius.
A dor com a verdade dessas palavras o atravessou e Sirius caiu de joelhos soluçando. Não podia voltar, se foram para sempre, sua família e a si mesmo, mortos.
— Não chore, io Siri. — A voz de um Harry bebê que cambaleou até ele o fez engasgar e surpreso olhou em volta. James não estava ali.
— Harry...
— Hawry beji melor, io Siri. — Disse o bebê e o abraçou e beijou na bochecha.
— Harry, olá meu garotinho, senti tanto a sua falta. Tio Siri está aqui. — Ele o embalou e então não era mais um bebê e sim o Harry de 11 anos em seus braços.
— Estou aqui, também, Sirius. Nós mudamos e crescemos, mas ainda somos família e eu o amo muito.
— Eu também o amo, Harry.
— Nunca estamos sozinhos, temos uma nova família e um ao outro. — Disse Harry com um olhar inteligente e depois se foi.
E então ele estava sozinho e sozinho a escuridão pareceu crescer, os gritos e lamentos voltaram e Sirius olhou em volta buscando por James ou Harry, mas eles se foram. Não podia sucumbir, precisava lutar, essa era sua mente e em sua mente não havia só escuridão, ele podia combater Azkaban, podia afastar os lamentos e substituir pelo riso, pela alegria e amor.
— Corre, Sirius, vamos, vou te ajudar a se esconder. — Sirius se virou e viu Régulos de uns 6 anos o segurando pelo braço. — Aqui, entra aqui, Sirius, se mamãe perguntar vou dizer que você não estava em casa ou ela vai te culpar.
— Obrigada, Régulos.
— Tudo bem, sou seu irmão, te amo, Sirius, se esconda agora...
— Sirius, você aceita ser padrinho do Harry?
— Eu?
— Quem mais escolheríamos, Siri?
— Eu... Me sinto tão honrado, eu prometo que vou amá-lo para sempre... Obrigado.
— Sem lágrimas, Almofadinhas, eu te amo irmão, mas já chorei demais quando o Harry nasceu...
— Nós te amamos e sabemos que você é a pessoa certa, Sirius...
Risos o fizeram virar para outra cena e os marotos riam e corriam por Hogwarts.
— Mais, mais. — Outra voz sussurrou sensual e ele foi envolvido pelo cheiro e emoção que o prazer da linda mulher em seus braços.
— Somos campeões! — O grito da casa Gryffindor o envolveu e ele riu.
— Isso é bom, são boas lembranças, ajudam a afastar a escuridão, Siri. — James apareceu ao seu lado. — Quem é a garota, ali? Não me lembro dela.
— Você não conhece todas as garotas com quem transei, é uma garota trouxa e ela tinha muita imaginação. — Disse Sirius com um sorriso sonhador.
— Você sempre foi uma puta, tinha me esquecido disso.
— Está com inveja porque só transou com uma garota.
— A melhor garota do mundo, minha Lily. — James é quem tinha uma expressão sonhadora agora. — De qualquer forma, para afastar totalmente essa escuridão, para tirar a prisão de você, Sirius, precisa de mais do que lembranças do passado, mesmo que sejam lindas e prazerosas lembranças.
— Eu preciso de novas lembranças.
— Precisa viver, Siri, você pode fazer 100 rituais e tirar toda a energia negativa, mas depois de morrer só se volta a viver, vivendo, irmão. Vá viver, Sirius Black. — James disse com seu sorriso alegre característico. — Viva sem culpa e aceite o seu fardo, sua dor, mas não deixe que isso o impeça de cumprir sua promessa.
— Eu não quebrarei minha promessa...
E tudo se desvaneceu...
Sirius abriu os olhos e engasgado, soltou a pedra no fogo, a fumaça escureceu e chocado viu a pedra de turmalina se desmanchar em lama e desaparecer no fogo. Merlin, a pedra nunca teria sido o suficiente para absorver tudo o que havia de negativo em sua alma, pensou, Sirius abalado e se levantou, despiu e mergulhou na água fria. Deixou que o sussurro da água o envolvesse e quando saiu se sentiu limpo e cru, dolorido e sem poder se deter chorou enquanto se vestia. Percebeu que precisava sair da caverna, ela estava impregnada de energia negativa e ficar ali não era inteligente, demoraria para as pedras dispersarem toda aquela escuridão.
Quando Sirius alcançou a abertura, se sentiu finalmente livre, esse era o sentimento que buscava quando deixou a prisão e não sentira. Estava livre, pensou, livre, e podia viver. Livre. Correndo, sorrindo e animado, correu pela trilha até alcançar a encruzilhada e ver Harry o esperando.
— Harry!
— Tio Siri! — Seu grito espontâneo desconcertou Sirius por um instante, mas em seguida ele o abraçou com força.
— Harry, estou tão feliz de estar livre, de estar aqui com você. Eu te amo, Harry. Você é minha família, saiba disso e nunca mais te deixarei sozinho. — Disse ele, o apertando contra seu peito e beijando seus cabelos.
— Eu também te amo, tio Siri, eu entendo agora, precisamos viver, Sirius, nós os perdemos e sempre vai doer, mas eles me deram um presente e tenho que o viver ao máximo. Viver, Sirius, temos que viver. — Disse Harry com voz engasgada, mas sorrindo.
Os dois se abraçaram e depois sorrindo e mais leves iniciaram a descida da Montanha Negra, em direção ao que a vida lhes reservava, muito dispostos a vivê-la, e juntos.
Enquanto o domingo de Harry e Sirius era o mais difícil e diferente e mágico possível, os dos Boots era bem trouxa. Na casa dos Madakis em Oxford, assistindo ao jogo na TV, filmes, comendo pipoca, jogando xadrez e comendo muito bem. O único ponto triste era a ausência de 2 membros muito importantes, era incrível como em tão pouco tempo, Harry e Sirius se tornaram parte dos Boots e como faziam falta. As crianças apenas sentiam saudades e pensavam neles com carinho, mas os adultos se preocupavam, pois sabiam que suas jornadas seriam difíceis e dolorosas, ainda que necessárias.
Mas havia uma outra casa que tinha um dia de domingo, aparentemente, comum, ela ficava bem longe de Oxford, localizada nos arredores de Ottery St. Catchpole em Devon e invisível ao trouxas que com certeza se assustariam com a casa de vários níveis, torta que não poderiam pela graça dos deuses da arquitetura parar de pé, mas que incrivelmente ou magicamente se mantinha muito bem.
No quarto mais alto da casa torta um jovem de cabelos ruivos tentava ler uma revista de quadribol, a matéria era sobre seu time de quadribol, mas ele não conseguia se concentrar, por pura irritação. Sua irritação não vinha da matéria que dizia que seu time ficaria em último no campeonato, Ron Weasley já sabia disso, não, sua irritação vinha de sua irmã caçula que neste momento tagarelava sem parar, como sempre, sobre Harry Potter.
— …. Não sei porque você não se tornou amigo dele, Ron, quer dizer vocês estão no mesmo ano e gostam de quadribol, ele é o buscador mais novo em um século. E você não me escreveu uma carta para me falar como é Hogwarts ou como ele é, quer dizer, você deve vê-lo todos os dias, mesmo que não sejam amigos, você deve saber como ele é. Eu tentei vê-lo na estação, mas...
— Cala a boca! Pare de falar e, principalmente, para de falar de Harry Potter. — Gritou Ron além de irritado.
— Não grite comigo, Ronald Weasley! Eu não tenho culpa se estou curiosa e você não me conta nada de nada, nem quer falar de Hogwarts! Quando pegar minha varinha transformarei você em um rato e te prenderei na gaiola com o Perebas. — Gritou ela vermelha de raiva.
Quando ela terminou de falar a porta se abriu e os gêmeos entraram, tendo ouvido os gritos dos dois.
— O que tem você tão irritada, Ginnygirl. — Perguntou Fred sorrindo com diversão, Ginny fez uma careta para o apelido, não era nenhuma menina.
— Ron está te incomodando? Podemos lhe dar uma lição se quiser, Ginnyzinha. — Disse George mais docemente.
Ela conseguiu controlar a careta, George era sempre mais bom para ela, mas também não gostou do apelido, não era pequena.
— Ei! — Protestou Ron, chateado. — Se vocês não perceberam, ela está no meu quarto, se alguém está incomodando aqui é ela, que não cala a boca nunca e só fica perguntando de Harry Potter.
— Ah! Entendi, Ronyzinho...
— Não me chame assim!
— ... Você não quer contar para Ginny a espinafrada que o Potter te deu, hum? — Fred disse malicioso.
— Claro que não, Potter o humilhou na frente de toda a escola, imagine se o nosso querido irmãozinho iria querer falar dele. — Disse George, brincalhão.
— O que!? — Gritou Ginny.
— Ele não me humilhou! — Ron gritou ao mesmo tempo.
— O que você fez? Ronald, o que você fez para o Harry Potter? — Perguntou Ginny indignada.
— Eu não fiz nada! E porque você acredita que foi eu o culpado e não ele? — Ron se levantou irritado.
— Porque, ao contrário de você, Harry Potter é um garoto legal, eu li em seus livros, ele não humilharia ninguém que não tivesse feito algo ruim! — Disse Ginny com segurança.
— Você nem o conhece! Fica aí, feito uma menina fã organizando o casamento e nunca nem o viu! — Zombou Ron com um sorriso malicioso.
— Como você ousa! — Gritou ela e furiosa foi para cima dele, mas George a segurou para traz. — Me solta, George, eu vou socar o nariz desse idiota! — Ela tentou se soltar e quando não conseguiu ergueu os pés tentando chutá-lo no rosto. — Eu não quero me casar com ele, seu imbecil, quero apenas conhecê-lo e se sou sua fã é problema meu e se você abrir a boca para falar alguma coisa disso na frente dele...
Mas suas palavras se perderam com o grito furioso que veio do pé da escada.
— Porque estão brigando!? Se eu tiver que subir aí, todos ficarão de castigo até setembro! Estou avisando! — Molly Weasley não era de se duvidar ou enfrentar, assim Ginny engoliu sua raiva a muito custo.
— Bem e o que você fez então? — Perguntou ela ainda com um olhar mortal para Ron e cruzando os braços.
— Não é da sua conta. — Disse ele emburrado e voltou a se de deitar e enfiar o rosto na revista.
— Contem-me. — Ordenou ela olhando para os gêmeos.
— Bem, esse é um conto do mais interessantes, Ginnygirl. — Disse Fred sorridente. — Nosso muito inteligente irmão aqui e seus amigos, obviamente, idiotas...
— Eles não são idiotas! — Protestou Ron.
— Você não queria me contar nada, agora fecha a matraca, Ronald! — Disse Ginny o olhando com fúria nos olhos.
— E eles são idiotas por serem seus amigos, Ronnie. — Disse Fred sorrindo. — Bem, os três idiotas 1º anos da Gryffindor...
— Esse é o apelido deles. — Disse George e Ginny abriu a boca chocada.
— ... Foram perguntar ao Harry, como se perguntasse sobre uma festa ou grande e feliz evento, se ele se lembrava do dia em que você-sabe-quem matou seus pais e lhe deu sua cicatriz. — Fred concluiu e lançou um olhar de pena exasperada na direção do irmão mais novo.
Ginny empalideceu e depois ficou vermelha e olhando para Ron percebeu por sua expressão envergonhada que era tudo verdade.
— Eu não acredito! Como você e seus amigos puderam ser tão insensíveis! — Ginny estava além de furiosa agora, esses idiotas com certeza magoaram o Harry.
— Bem, e o que você teria perguntado? Sobre sua cor preferida? — Zombou Ron tentando disfarçar a vergonha.
— Bem, é azul, a cor de sua casa, ou talvez verde como seus belos olhos. — Disse Fred com um sorriso meloso e batendo os cílios.
— Não, mas poderia ter perguntado sobre suas viagens, suas aventuras! Você é um idiota insensível! — Disse ela e Ron escondeu o rosto vermelho de vergonha dentro da revista.
— Bem... Então, quando você o ver, pergunte... Quero ver você perguntar. E saiam do meu quarto, todos vocês, ou chamarei a mãe e direi que estão... Estão...
— Se você pretende nos ameaçar com a mãe é melhor aprender a mentir melhor, Ronnie. — Disse Fred zombando.
— E inventa a mentira antes também, irmãozinho. — Disse George e saíram do quarto.
Ginny lançou um último olhar irritado para o seu ex-irmão preferido e seguiu os gêmeos um andar abaixo e entrou em seu quarto.
— Contem-me tudo, o que o Harry falou para o Ron e seus amigos? — Perguntou ela ansiosa.
— Bem, não estávamos lá, mas a notícia se espalhou rapidamente que Harry se recusou a responder e ficou zangado com o tom da pergunta, sabe, como se o que aconteceu fosse algo bom. — Explicou George suavemente. — Então Ron e os amigos decidiram ir pedir desculpas e Harry disse que não queria ninguém perguntando sobre aquela noite, pois para ele não é um momento para comemoração. E ele aceitou suas desculpas e apertou a mão dos três.
— Sim, todos disseram que pensaram que Harry ia sair azarando os três, o que teria sido muito mais divertido, mas o baixinho apenas disse que estava tudo esquecido. — Disse Fred com uma careta e olhou para o horizonte como se esperasse ver algo.
— Vocês o conhecem. — Percebeu ela os olhando assombrada.
— O que? Não, claro que não o conhecemos, apenas o vimos pela escola. — Mentiu George, mas quando olhou para os olhos castanhos intensos, engoliu em seco e desviou o olhar.
— Rá rá! Está mentindo, Georgie! Vocês conhecem Harry Potter! Vocês o conhecem e eu perguntando para o Ron todos esses dias feito uma idiota. — Disse ela, dando uns pulinhos de animação.
— Georgie, você tem que mentir melhor para ela, cara, você me envergonha assim. — Disse Fred mal-humorado.
— Ei, eu minto melhor que você, até a mãe acredita em mim, mas é difícil mentir para a Ginny, quando ela me olha desse jeito e, não vem falar de mim, porque você não é muito melhor, Fred. — Disse George cruzando os braços, chateado pela crítica.
— Contem-me, contem-me, contem-me, tudo, tudo, tudo. — Disse Ginny pulando de animação, elegantemente é claro.
— Não podemos, Ginny. — Disse Fred mais sério.
— Não podem? — Ginny parou de pular completamente abismada, desde quando os gêmeos deixam de fazer algo que não podem.
— É, Ginnyzinha, nós prometemos ao Harry não contar para ninguém, sabe. — Disse George e Ginny o olhou ainda mais surpresa.
— Sim, são nossas reputações que estão em jogo, e isso é importante para nós. Assim, pode esquecer. — Disse Fred voltando a olhar pela a janela e fazendo uma careta mal-humorada.
— Vocês são amigos deles. — Disse ela os olhando surpresa e entendendo tudo. — É por isso que não quebrarão a promessa, nem para mim, vocês dois são amigos de Harry Potter! Como puderam me esconder isso!? E Fred, o que você está esperando chegar via coruja?
— O que? Não, não estou esperando nada, quem disse que estou esperando alguma coisa, apenas olhando o tempo, vendo se não vai chover, quero voar mais tarde. — Disse Fred se afastando da janela e sem encará-la.
— George tem razão, Fred, você mente pior que ele, não sei como a mãe cai nisso. — Ginny disse de sobrancelhas arqueadas e apontando para o céu azul e sem nuvens. — Ok, contem-me apenas o que vocês podem contar, não quero que quebrem uma promessa que fizeram a Harry Potter. Como vocês se tornaram amigos?
— Bem, em abril ele nos chamou para a realização de um empreendimento...
— Do qual não podemos falar. — Apontou Fred firmemente e Ginny acenou concordando e olhou para o George continuar.
— ... Foi algo grande e ele até nos pagou. — Disse George animado.
— Isso é legal, quer dizer que ele reconhece seus talentos e foi bom dele perdoar os três idiotas também. — Disse Ginny sorrindo carinhosa, tinha certeza que Harry seria legal, como nos livros. — Como vocês se tornaram amigos e como ele é?
— Ele é baixinho assim como você, Ginnybaby. — Disse Fred sorrindo malicioso.
— Pare de me chamar desses apelidos bobos, eu não sou pequena e muito menos um bebê. — Disse ela com o rosto vermelho de raiva.
— O Harry é legal, muito inteligente e sarcástico, divertido mesmo. — Disse George tentando evitar uma briga. — E nos tornamos amigos porque ele foi legal com a gente e nós fomos legais com ele, só.
— Bem, e o que o Fred está esperando chegar via coruja? — Questionou ela com um olhar afiado.
— É que... Olha, você não pode falar para a mãe, ouviu? Nem sabemos como vamos esconder dela... — Fred disse meio aflito.
— Estamos ficando no nosso quarto para ver se a encomenda vem direto aqui e ela nem percebe. — Disse George meio desanimado. — Ela vai tirar de nós, eu só sei disso.
— Do que vocês estão falando, vocês compraram alguma coisa com o dinheiro que o Harry te pagou? E porque ela ficaria zangada? — Ginny perguntou sem entender.
— Não, no fim do ano o Harry e seus amigos vieram pedir nossas vassouras emprestadas porquê...
— Não podemos dizer. — Disse Fred firme. — Apenas que era algo muito importante.
— Uma aventura? Vocês participaram de uma aventura de Harry Potter? Como nos livros? — Disse ela com os olhos arregalados e brilhando.
— Não, Ginny, não é como nos livros, se é que esses livros são de verdade...
— É claro que são, eles dizem que são baseados na vida dele. — Protestou ela com uma carranca.
— Baseado é uma coisa diferente de dizer que é a vida dele. — Disse George, mas ao ver sua expressão continuou. — De qualquer forma, nós emprestamos as nossas vassouras e decidimos segui-los e chegamos no final, não foi nada divertido como dizem os livros, Ginny, e não podemos falar sobre isso, mas uma pessoa morreu e Harry ficou ferido.
— Ele ficou ferido? Mas ele ficou bem, certo? E quem morreu? — Perguntou ela empalidecendo e se sentando na cama.
— Sim, Harry ficou uns dias no hospital e depois ficou bem. E quem morreu foi um professor, mas não vamos mais falar disso. — Disse Fred com firmeza, George e Ginny acenaram. — Nossas vassouras se perderam, a minha sumiu e a do Georgie ficou meio esquisita. O Harry disse que ia nos ressarcir e comprar vassouras novas, mas não acredito que ele vai enviar como prometeu... — Disse Fred mal-humorado e voltando a olhar para o horizonte.
— Fred! Se Harry Potter prometeu, ele não quebrará uma promessa feita a amigos. — Garantiu Ginny convicta.
— Bem, ele disse que enviaria no início do verão, assim poderíamos voar antes de voltarmos para a escola e até agora nada. — Disse George desanimado. — Ele deve ter se esquecido.
— É claro que ele não esqueceu, Georgie. — Disse ela batendo em seu ombro com carinho. — Não se esqueça que Harry vive no mundo trouxa, assim, pode não ser tão simples ir ao Beco Diagonal.
— Bem, de qualquer forma, não temos como esconder da mãe e, se chegar, ela vai tirá-las de nós. — Fred disse dando de ombros e tentando simular indiferença.
— Bem, esconder da mãe é muito fácil. — Disse Ginny com um sorriso maroto.
— Você tem uma ideia? — Fred perguntou surpreso.
— Nos conte! Por favor! — Implorou George com mãos juntas.
— Eu conto, se me deixarem voar com as vassouras novas. — Propôs ela com um sorriso malicioso.
— É claro que não, você nem sabe voar. — Disse Fred.
— Quem disse que não sei voar? E, se não deixarem, não falo e aí vocês se explicam para a mãe. — Disse ela com um bico e ameaçou sair do quarto.
— Não! Ginny, eu deixo, mesmo que o Fred não a deixe voar na dele, você pode voar na minha vassoura. Qual a sua ideia? — Disse George meio desesperado.
— Promete? — Disse ela com as sobrancelhas arqueadas e estendendo a mão esquerda.
— Prometo. — Disse ele apertando sua mão com seriedade.
— Bem, é um feitiço que uso em minha aula de arte, vovó Cedrella me ensinou. — Disse Ginny e pegando um cartão de sobre a mesa de George, pegou um papel em branco e rabiscou desenhos disformes e feios. Depois estendeu a mão e esperou. — Varinha, por favor.
Seus irmãos hesitaram, a ideia de sua irmãzinha com uma varinha era meio assustadora, mas por fim George lhe entregou a dele.
— Exemplum Imago desenho. — Disse ela firmemente passando a ponta da varinha por cima dos dois papeis e a imagem do rabisco se tornou igual ao bonito desenho do cartão de Natal. — Não dura muito tempo e tem que ser repetido, se usarem a vassoura do George como exemplo, podem disfarçar as vassouras novas que terão a aparência das antigas.
— Uau! — Disse George animado. — Isso é brilhante e tão simples. Como não pensamos nisso antes, Fred?
— Eu respondo. — Disse Ginny com um sorrisinho arrogante. — Porque sou mais inteligente que vocês dois juntos.
— Rá rá, veja isso George, outro baixinho nos ofendendo e questionando nossa inteligência. Bem, vamos ver se você é tão inteligente para entrar na mesma casa de Harry Potter! — Disse Fred maldoso. — E deixar de ser uma Weasley.
— Eu sempre serei uma Weasley, Fred e serei uma Gryffindor! — Disse ela com o rosto vermelho de raiva. — Mas ao contrário de você tenho inteligência suficiente para estar na Ravenclaw se eu quiser.
— Acredita que pode estar na casa dos inteligentes só porque sabe desse feitiço que, nem sei para que serve na aula de arte, você anda falsificando seus desenhos, Ginevra? — Disse ele com um sorriso debochado.
— Para sua informação, o feitiço me ajuda a estruturar e medir os desenhos na minha folha e depois que desaparece consigo desenhar só de olhar a imagem. — Disse ela despeitada. — Não que seu cérebro minúsculo seja capaz de entender algo tão simples.
Fred já estava se preparando para outra estocada, quando George falou:
— Calem a boca vocês dois, olha, olha o que estou vendo. Fred, olha. — Disse ele animado.
E voando no horizonte na direção da toca vinham duas corujas, cada uma com um pacote grande.
— Eu não acredito! — Sussurrou Fred de olhos arregalados. — Ele enviou mesmo.
— Ele não se esqueceu. Tomara que a mãe não veja chegar, Merlin, tomara que ela não veja.
— Eu avisei a vocês. — Disse Ginny com os olhos brilhando animada. — E vocês tem que torcer para o Percy e o Ron não verem também.
— Eles que não ousem abrir a boca ou farei o verão deles um inferno. — Disse Fred e rapidamente abriu a porta e saiu para o corredor para vigiar a porta do quarto dos dois irmãos.
Enquanto isso George esperou ansioso na janela até que as duas corujas entraram, elas fizeram barulhos e Ginny se apressou em acalmá-las com sussurros e tirou uns biscoitos do bolso e dividiu entre elas.
— Boas meninas, vocês são tão bonitas, não façam muito barulho, shusss. — Enquanto isso o George e Fred desamarram as vassouras que estavam embrulhadas em papel marrom. — Obrigada, meninas, façam uma boa viagem de volta.
E as duas partiram pela janela, todos ficaram em silencio esperando para ouvir algo de alguém na casa, mas tudo continuou em silencio, assim os dois adolescentes animadamente começaram a abrir e rasgar os pacotes.
— Uau! Fred, ele comprou uma Nimbus 1700, novinha! — George pulou de entusiasmo feito um canguru.
— Caramba! Não acredito, achei que ele compraria uma mais antiga! Essa é a mais estável da série, só a 2000 é melhor. — Fred olhou para a vassoura brilhante com entusiasmo.
Ginny olhou com entusiasmo as vassouras e viu um bilhete caído no chão na confusão dos irmãos e o pegou.
Como prometido,
Harry J. Potter
— Oh... tem um bilhete. — Disse ela estendendo aos irmãos que leram mais não pegaram e Ginny rapidamente guardou em seu bolso.
— Ok, eu admito, o baixinho é o melhor. — Disse Fred sorrindo e pegando a vassoura velha do George, disse. — Exemplum Imago vassoura. — E a vassoura se tornou envelhecida e riscada, a palavra Nimbus desapareceu e apareceu a Comet desgastada. — Brilhante, Ginny.
— Lembrem-se que tem que repetir uma vez ao dia pelo menos e finito desfaz o feitiço. — Disse ela e viu o George mudar sua vassoura também.
— Ginevra! — O grito que veio do pé da escada os assustou, eles pularam e arregalaram os olhos. — Vem me ajudar a preparar o almoço!
— Grrr! Porque ela sempre me chama para cozinhar!? Vocês estão em casa agora, ela devia chamar um de vocês! — Protestou Ginny indignada e vermelha de raiva.
— Não é óbvio? Ela te chama porque você é menina, Ginnygirl. — Fred sorriu malicioso e feliz por lhe dar a última estocada que estava devendo. — E sai do nosso quarto porque senão ela pode vir aqui, vai, vai. — Disse ele empurrando-a porta a fora.
— Ok, ok, eu já vou. Georgie, depois combinamos uma hora para eu voar. — Disse ela irritada e olhando para o irmão.
— Desculpe, Ginny, mas você não sabe voar e, se cair, mamãe ficará furiosa e pode descobrir sobre nossas vassouras. — Disse George em tom de desculpa.
— Mas você prometeu! — Disse ela furiosa e chocada.
— Sim, mas não prometi quando, deixarei que voe em minha vassoura depois das suas aulas de voos em Hogwarts e bem longe da mãe. — Disse ele com um sorriso arrependido.
— Mas, eu...
— Não tão inteligente assim, não é? — Disse Fred e terminou de empurrá-la para o corredor e fechou a porta na sua cara.
Ginny parou por um instante tentando controlar o temperamento e só conseguiu porque a magoa e decepção eram tão grandes quanto a fúria que sentia.
— GINEVRA! DESÇA NESTE INSTANTE, MOCINHA! — O grito de sua mãe a fez saltar e correndo para seu quarto, guardou o bilhete com a letra do Harry no meio do seu livro Harry Potter preferido e depois correu para baixo.
— Estou indo, mãe! E não me chame de Ginevra! — Disse ela mal-humorada, e tentou se consolar, logo estaria em Hogwarts aprendendo muitas magias, se tornaria uma grande bruxa, teria muitos amigos e um deles seria Harry Potter. Assim que o verão acabasse e estivesse em Hogwarts, sua vida começaria de verdade e tudo seria maravilhoso.
Se para os Weasley o domingo era bem normal, com exceção das vassouras inesperadas, para Hermione seus dias vinham sendo bem incomuns. Quando chegaram em casa da estação a duas semanas seus pais a surpreenderam com uma viagem para a Holanda. Hermione sempre quis visitar os grandes museus e jardins holandeses, os moinhos de ventos, os canais e as cidades com lindas arquiteturas, mas se pudesse admitir para si mesma, a viagem não fora uma surpresa tão agradável. Deixar a Inglaterra a impediu de estar com seus amigos, estudar magia, saber do resultado da audiência do Harry rapidamente e ajudar no projeto Revel. Fora ela quem sugerira o sinônimo pouco conhecido da palavra Rebelde, que teria chamado a atenção do Ministério, desnecessariamente, se usado, mas todos sentiam que Grupo Empresarial Rebelde ou Revel era o nome perfeito e a GER já devia estar em movimento e realizando grandes coisas. E ela aqui em uma das cidades mais lindas do mundo e completamente desinteressante.
— Por Deus, Hermione, esse é o seu nono suspiro em meia hora, será que você pode no dizer o que está acontecendo? Assim podemos resolver e aproveitar as férias. — Disse Jean Granger irritada.
— O que? Não, não tem nada acontecendo. — Disse ela rápido demais e jogou um sorriso com falsa animação. — Estou adorando as nossas férias, sempre quis conhecer a Holanda, sabem disso.
— Nós sabemos, querida e foi por isso que a trouxemos aqui, mas desde antes de deixarmos a Inglaterra você tem agido estranha como se quisesse nos contar alguma coisa ou se tivesse deixando algo importante para traz. — Disse Norton Granger um pouco mais compreensivo.
— Se não fosse por ser tão jovem, eu acreditaria que você está apaixonada...
— Mamãe! — Gritou Hermione corando de constrangimento.
— E nós consideramos isso, mas estamos cansados de tentar adivinhar e esperar que você esteja pronta para nos contar. — Disse seu pai a olhando com atenção. — Vamos, cupcake, nos conte o que se passa nessa sua mente brilhante.
— Seja o que for podemos resolver, juntos, como uma família, mas nos esconder não a levará a lugar nenhum, filha. — Disse sua mãe a olhando com carinho.
Hermione olhou pela janela do quarto e pensou nos planos para o dia e a animação de seus pais com as férias.
— Eu tinha decidido conversar com vocês só depois que voltássemos, não queria estragar suas férias. — Disse Hermione desanimada.
— Mas, Hermione, você não está aproveitando as férias e percebemos isso, preferimos saber e lidar com o que for, do que te ver se arrastando com esse olhar preocupado por toda a Holanda. — Disse sua mãe firmemente e olhar mais duro.
Engolindo em seco, Hermione acenou concordando.
— Bem, vou pedir o nosso café da manhã aqui, assim teremos mais privacidade. — Disse seu pai e se dirigindo ao telefone solicitou a atendente que enviasse o café para três.
Não demorou mais do que 15 minutos para estarem sentados à mesa redonda de café da suíte e durante esse tempo, Hermione usou sua habilidade iniciante em oclumência para se acalmar e organizar os pensamentos, precisava estar segura com tudo o que dissesse, até porque não podia dizer tudo e eles não podiam perceber suas meias verdades ou mentiras. E não pode deixar de se sentir uma tola por não ter feito isso antes, estava tão acostumada a não ter que se proteger com seus pais que baixara a guarda assim que chegara em casa, como fazia quando estudava na escola trouxa e tinha que lidar com o bullying.
— Muito bem. Imagino que, seja lá que esteja acontecendo e não envolvendo meninos, deve ser sobre sua escola. Pelo que nos disse em sua carta você tem bons amigos e não vem sofrendo com bullying. — Contextualizou sua mãe, seu rosto moreno e olhos âmbar a encararam muito sério enquanto preparava seu chá.
— Sim, mamãe, meus melhores amigos são Terry, Neville e Harry, mas também tenho boas amizades com Mandy e Morag e Padma. Mesmo Justin e Megan, Susan e Hannah são bons colegas. Claro que tem alguns garotos e garotas idiotas que me incomodaram no início do ano, por meu jeito estudioso ou por respeitar as regras, mas, bem, com o tempo eu parei de me importar tanto com isso e eles se tornaram um zumbido diante do que era realmente importante. — Disse ela preparando seu próprio chá e se servindo de bacon e panquecas.
— E o que é mais importante? — Seu pai questionou paciente.
— Ok, mas eu gostaria que vocês não me interrompessem, assim posso explicar tudo desde o começo. — Hermione disse suavemente e quando os viu acenar, continuou. — Tudo começou quando...
Hermione contou sobre a primeira reunião do Covil e a verdade sobre a situação dos nascidos trouxas e meia raças. Explicou sobre a guerra e como a vitória era uma ilusão, contou a intenção de Harry, Terry e outros em lutarem contra a ignorância, preconceito e discriminação no mundo mágico, sobre as aulas extras e os infiltrados. ICW, Sirius Black e os lobisomens, elfos domésticos foram explicados, o desejo de ajudar nas mudanças, as ideias do Harry, a criação da GER.
— Eu pretendia contar tudo a vocês assim que chegássemos em casa e Terry disse que seus pais me ajudariam a explicar o que fosse necessário. É por isso que estou tão distraída, quero ajudar no que puder e continuar a estudar, na casa dos Boots, posso fazer magia e não ficarei para traz. Entendem? — Disse Hermione implorando com o olhar suas compreensões. — Há tanto o que fazer e muito o que mudar que as vezes me sinto frustrada por estar perdendo tempo.
O silencio que se manteve depois que terminou de falar a fez perceber como foi grosseira em suas últimas palavras, Terry a vinha ajudando a perceber quando era insensível, mas ainda tinha recaídas.
"Desculpe, não quis dizer que estar com você de férias é perder tempo, apenas..."
— Entendemos o que quis dizer, mas já que tocou no assunto, você estar de férias e descansar depois de um ano tão difícil e de tanto trabalho também não é perda de tempo. — Seu pai disse a olhando nos olhos seriamente. — Você tem 12 anos e duvido que os pais de seus amigos permitem que eles trabalhem ou estudem, sem descanso e lazer. Então pare de se sentir culpada, você mesmo disse, existem tanto o que fazer e não será feito em um verão ou em algumas semanas do verão. Você terá muito tempo para ajudar e deveria aproveitar esse momento para estar aqui conosco, conhecer esse lindo pais e passar um momento feliz com seus pais. Em breve estará de volta a sua escola e esse mundo que exigirá tanto de você, não pode se deixar absorver e esquecer que também vive aqui neste mundo. — Seu pai expressou certa tristeza. — Se esquecer de que é nossa filha.
Hermione ofegou chocada e se levantando correu e o abraçou fortemente.
— Desculpe, papai, estou sendo tola e insensível. — Disse ela chorando baixinho.
— Tudo bem, cupcake, apenas quero lhe ver feliz e estar com você. Nada mais me importa. — Disse ele a balançando suavemente.
Depois que se acalmou, Hermione olhou para sua mãe, sabendo que com ela tudo seria mais complicado. Ela estava sentada calmamente olhando pela janela a linda cidade, pensativa, considerava tudo o que ouviu e, mais importante, como isso afetava sua filha.
— Mamãe...?
— Eu tenho apenas duas perguntas. — Disse Jean Granger olhando para sua filha com atenção, que acenou esperando. — A sua professora que veio a nossa casa a quase um ano, McGonagall, ela mentiu para nós? Quero a verdade, Hermione. — Disse ela com firmeza e Hermione apenas acenou que sim. — Muito bem, então como seu pai e eu podemos ajudar nesta tal revolução rebelde?
Sorrindo e chorando de emoção, Hermione saltou para o colo de sua mãe e a abraçou fortemente. Como estava sendo boba em não aproveitar cada segundo com seus pais e confiar que eles nunca deixariam de apoiá-la. Foram eles que a ensinaram a não tolerar as injustiças, a lutar pelo que era certo e seriam eles que a ajudariam a ser mais forte, Harry estava certo, esconder dos seus pais apenas a enfraqueceria. E, pior, a afastaria deles e isso ela não permitiria que acontecesse.
Para Neville o domingo também era normal, depois de um café da manhã formal com sua avó, eles deixaram a Mansão Longbottom e pelo flu viajaram até o Hospital St. Mungus. Desde pequeno, Neville visitava seus pais aos domingos, era uma tradição dolorosa e, às vezes, mais um dever que um prazer. Em outros depois de passar o dia com eles, não tinha vontade de ir embora. Deixá-los para traz era tão doloroso quanto chegar em casa sem eles.
Sua avó caminhou altiva e rigidamente ao seu lado sem uma palavra, até chegarem ao quarto onde seus pais estavam. Era uma enfermaria com vários outros pacientes e eles estavam em duas camas cercadas por uma cortina branca.
— Olá, mamãe, olá papai. — Disse Neville suavemente. — Como estão vocês hoje? — Ele beijou os dois na bochecha e teve a impressão que os olhos de sua mãe brilharam.
Depois de sua conversa com Harry e de descobrir mais sobre fisioterapia e neurologia, Neville percebia como pouco ou quase nada era feito para a recuperação dos seus pais. A enfermaria era estéril e sem vida, não havia cores ou calor, os dois passavam os dias sentados na cama ou poltronas sem atividades, distrações ou exercícios físicos ou mentais. Seus remédios, até onde sabia, eram poções para mantê-los vivos e calmos, pois se ficassem irritados poderiam machucar alguém com magia descontrolada.
No domingo anterior, Neville estava decidido a tentar se comunicar com seus pais por meio da magia. Desde abril não deixou de pensar por um segundo na ideia que mesmo que suas mentes estivessem perdidas, suas almas, corações e magias ainda estavam aqui, Neville tinha muita esperança de que poderia os alcançar, se conectar com eles. Infelizmente, o café da manhã estava atrasado e, enquanto sua avó se retirava para conversar com a curandeira, uma medibruxa os alimentava e Neville não conseguiu ficar sozinho com eles, assim aproveitou aquele dia para contar sobre Hogwarts, sobre seus amigos e aulas. Mas hoje seria diferente, hoje ele tinha um plano.
Sua avó cumprimentou seus pais como sempre, meio rígida, meio carinhosa e se sentou com seu pai um pouco mais, como sempre depois de alguns minutos, ela se levantou dizendo.
— Vou conversar com a curandeira sobre a semana deles e suas evoluções. — Disse ela e Neville apenas acenou e assim que sua avó deixou o quarto, colocou seu plano em movimento.
— Mamãe, eu preciso que a senhora venha comigo. — Disse Neville com um sorriso gentil. — Vamos sair em uma aventura. — Ele pegou sua mão e ela caminhou ao seu lado suavemente, sem protestar. Pelo cantou dos olhos viu seu pai fazer um movimento brusco e o olhando em dúvida, decidiu. — Ok, pode vir também, papai, mas temos que ser rápidos ou nos pegarão.
Neville voltou e pegou seu pai pelo braço e guiou os dois para fora do quarto e na direção as escadas, ele costumava fugir e se esconder ali quando era pequeno e tinha medo dos pais ou sofria por vê-los daquela maneira. Suavemente, Neville estimulou seus pais a subiram as escadas até chegarem ao andar de cima onde estava o salão de chás e abrindo a porta, ele espiou, mas não havia muitas pessoas e os funcionários pareciam ocupados ou distraídos. Controlando a respiração e agradecendo por ter perdido algum peso, Neville olhou para os pais que tinham seus olhares ausentes e distantes como sempre, mas seus olhos brilhavam, tinha certeza.
— Quando eu era pequeno e vinha visitá-los, às vezes, tinha medo e subia para me esconder onde me sentia seguro. Aqui na sala de chás eles tem um jardim de inverno com lindas plantas, não é uma estufa e é pequeno, mas é muito bom. — Disse Neville suavemente. — Precisamos nos apressar para ninguém nos ver, ok?
Eles não responderam, claro, mas quando Neville espiou de novo e abriu a porta, os dois caminharam pela porta e o seguiram na direção do pequeno jardim. Ele abriu e fechou os três lá dentro e olhando pelo vidro do jardim, suspirou de alivio, ninguém os viu.
— Vamos nos sentar em meio as plantas, assim ninguém nos vê, eu trouxe um cobertor e almofadas, para ficarmos confortáveis. — Disse Neville e realmente tirou de dentro de sua bolsa que tinha o feitiço de extensão os itens e os espalhou no chão. — Colorido, mamãe, veja, vovó me disse que sua cor preferida era amarela e roxa, olha. É como um piquenique.
Emocionado, Neville os observou se sentarem e tocarem o cobertor roxo e as almofadas amarelas com interesse, seu pai tinha uma expressão mais fechada e inexpressiva, mas sua mãe sorria suavemente e seus olhos brilhavam, havia até um pouco de lágrimas no canto de seus olhos. Suspirando, ele se sentou ao lado deles e pegou na mão de sua mãe, ela o olhou e para as mãos unidas, parecia quase entender que era um momento importante.
— Mamãe, um amigo me disse que você está aqui, eu apenas preciso alcançá-la e me permitir sentir o seu amor e que vocês sintam o meu, assim, pensei em tentar a conexão, igual à que eu fiz com a Floresta. Lembra-se que eu lhe contei domingo passado sobre as aulas de carpintaria mágica e como me conectei com as árvores, se elas tinham magia, vocês com certeza têm também, certo? — Neville explicou, mas logo percebeu que estava tentando convencer a si mesmo e se recriminou. "Agora não é o momento para dúvidas, não quando chegou tão longe", pensou e respirando fundo, fechou os olhos e limpou sua mente.
Neville alcançou sua magia e a estendeu se conectando com as plantas facilmente como fazia quando estava na Floresta ou estufas, elas suspiraram e sussurram contentes pelo toque gentil e amoroso de sua magia. Segurando firmemente a mãos de sua mãe, Neville buscou conectar sua magia com a dela e ao em vez de uma cintilação suave de energia foi engolfado por chamas amarelas e roxas de magia, eram chamas quentes e fortes, mas não queimava ou doía, pelo contrário, tinham tantos sentimentos bons e positivos que ele se engasgou emocionado. Neville se concentrou e enviou seu amor por sua magia e ouviu sua mão suspirar trêmula, apertando a mão dela, sussurrou:
— Estou aqui mamãe, é o Neville.
As chamas se tornaram labaredas e explosões de magia coloridas envolveram sua mente, sua magia, Neville ofegou, sentindo o seu amor.
— E você está aqui, eu sinto você, mamãe, eu sinto você...
A magia era tão forte que arrepiou os pelos dos seus braços e ao sentir um toque, Neville abriu os olhos e viu seu pai olhando, realmente, olhando para algo e era a sua mão unida a da sua mãe. Entendendo, ele soltou uma e pegou a dele, concentrado, Neville enviou a sua magia e amor para seu pai que arregalou os olhos e começou a chorar. Olhando para sua mãe, viu que ela também chorava e parecia sobrecarregada.
— Fechem os olhos, isso, apenas sintam, a magia é linda e colorida e cheia de amor. Eu amo muito vocês, não tenham medo. — Ele sussurrou gentilmente e viu os dois fecharem os olhos.
Suspirando, Neville concentrou em sua magia para tocá-los suavemente, com amor e afeto, com alegria e anseio. Depois de um tempo os dois retribuíram e chamas vermelhas e douradas o alcançaram e a amarelas e roxas pareciam querer embalá-lo como um bebê. Soluçando sem perceber, Neville expressou sua saudade e solidão, e sentiu a caricia como se tentassem consolá-lo e amá-lo. Quando tudo cresceu além do que ele esperava de tão bom, Neville abriu os olhos e os viu suavemente murmurando, como uma canção de ninar, de olhos fechados e sorrisos suaves e percebeu que eles se lembravam dele, ainda como um bebê, mas ainda se lembravam dele e o amavam. Harry estava certo, eles estavam aqui e ele era muito amado.
— Desculpa não ter sentido vocês antes, desculpa, eu estava com medo e solitário e não entendia, mas eu estou aqui agora, nunca mais vou deixá-los, prometo. — Sem poder segurar a emoção Neville os abraçou, encostado o rosto contra o peito de sua mãe, com o outro braço puxou seu pai e pode sentir o toque de suas mãos em suas costas, não era um abraço forte, mas era mais do que ele jamais tivera antes e só lhe restou chorar. — Senti tanto a suas faltas, tanto.
Mais tarde Neville, muito sorridente, os levou de volta para o andar deles pelo elevador. Sua mãe segurava seu ombro e sorria suavemente e ele segurava o braço de seu pai e o guiava gentil, sua expressão não tão inexpressiva. Quando se aproximaram da porta do quarto deles, Neville percebeu a agitação e a voz enérgica de sua avó exigindo ação.
— Vocês precisam encontrá-los! Que tipo de hospital é esse que perde e não consegue encontrar...
— Estamos aqui, vovó, parem as buscas! — Disse Neville ainda sorrindo e em tom de zombaria.
Todos pararam o que faziam e os encaram, não apenas surpresos por seu surgimento inesperado ou desaparecimento absurdo, mas também por seu grande sorriso animado, ombros erguidos e passos seguros.
— Neville Longbottom! — Gritou sua avó o olhando com fúria.
Seu pai saltou meio assustado e sua mãe gemeu, mas depois se colocou na frente do Neville como se quisesse protegê-lo.
— Tudo bem, mamãe, papai, estamos todos seguros. Apenas a vovó está de mal humor e ela não gritará mais, não é mesmo avó? — Disse Neville a olhando firmemente.
Ele pode ver como ela se preparava para fazer o oposto do que pedira, mas rapidamente continuou decidido a impedi-la de assustar seu pais outra vez.
— Curandeira Agnes? — Neville chamou e uma mulher baixinha, grisalha e expressão maternal entrou em seu campo de visão. — Eu levei meus pais para um passeio e agora os acompanharei aos seus leitos, gostaria que nos seguisse, pois quero discutir com a senhora algumas mudanças na qualidade de vida dos meus pais. Também quero saber mais detalhes de seus tratamentos.
Neville falou seriamente e voltou a andar com eles na direção do quarto e depois aos seus leitos.
— Qualidade de vida... — Engasgou a mulher chocada.
— Neville, o que pensa que...
Mas ele as ignorou e prosseguiu até que acomodou seu pai, que parecia cansado em sua cama e depois ajudou sua mãe em uma poltrona.
— Neville, estou falando com você, não me ignore e me responda. O que pensa que está...
— Eu já disse o que estava fazendo e pare de gritar ou expulsarei você do quarto do meus pais, não permitirei que os assuste. — Disse Neville suavemente a encarando nos olhos, ela engoliu o resto de seus gritos e até engasgou de espanto. — Se quiser ficar, pode, mas fale em tom suave. Curandeira Agnes?
A mulher que estava a alguns passos atrás se aproximou e olhou um pouco chocada e preocupada, na direção de sua avó e na dele.
— Eu não estou contente com a qualidade de vida dos meus pais, acredito que podemos tornar a vida e o dia deles menos estéril e mais feliz. Quero fazer mudanças e as quero imediatamente. — Disse ele com determinação.
— Mudanças? — Ela questionou absolutamente confusa.
— Sim. Eles precisam de um ambiente melhor, quero que estejam cercados de cores, nas roupas de cama e cortinado, plantas também, minha mãe sempre adorou flores e não tem nenhuma aqui. E musica claro, comprarei uma vitrola e vinis, meus amigos trouxas me ajudarão e um rádio também para eles ouvirem as notícias e músicas bruxas. — Enumerou Neville animado. — E quero que façam atividades, caminhadas, alongamentos, talvez arte com tinta ou lápis coloridos. Ah, o jardim lá no salão de chá, as plantas estão precisando de cuidados e pretendo levar meus pais comigo para me ajudarem. Vou visitá-los com mais frequência enquanto estou de férias neste verão, pretendo participar de suas atividades novas e ajudá-los a se desenvolverem fisicamente e cognitivamente.
— O que!? — Ela o olhou chocada. — Neville, muitas destas coisas que mencionou não são permitidas pelo Hospital, temos regras e protocolos, você não pode...
— Sinto muito, Curandeira Agnes, é Sr. Longbottom e sou eu quem pago e muito para o Hospital cuidar dos meus pais. Não me importa suas regras e protocolos, meus pais estão aqui neste mesmo quarto a mais de 10 anos e eles não evoluíram e pior, não estão felizes. — Neville falou com frieza. — Eu posso até aceitar que as condições deles são irreversíveis, mas não aceitarei que vivam infelizes, uma existência vazia e estéril, apenas esperando a morte. Além disso acredito ser um grande absurdo que depois de tantos anos eles não apresentem nenhuma melhora. Quero que me explique quais são os tratamentos que estão fazendo, quais poções e feitiços estão sendo usados em meus pais.
Quando terminou a encarou com firmeza erguendo as sobrancelhas e esperou, a Curandeira Agnes o olhou de boca aberta e depois olhou para sua avó que o encarava com igual espanto. Quando sua avó acenou ao seu pedido de autorização, Neville rangeu os dentes de raiva, mas se controlou e ouviu com atenção os detalhes sobre o tratamento dos pais. E no fim a encarou sem entender.
— Só isso? — Perguntou com voz cortante. — Poções calmantes e para não desenvolverem problemas musculares, de apetite e digestão, para o funcionamento do intestino. Feitiços de higienização e hidratação da pele para evitar escaras. Onde estão os feitiços de cura? As poções para estimulação cerebral ou algo assim?
— Nevi... Sr. Longbottom, como o senhor está ciente, os quadros diagnósticos de seus pais são irreversíveis e nosso trabalho é cuidar deles para que tenham uma existência boa e saudável dentro das possibilidades. Não existem curas ou estimulação capaz de reverter o mal que sofreram, eu compreendo o seu desejo de que eles melhorem, mas isso é impossível. — Disse ela maternalmente.
— Como sabe? Como sabe que é impossível se não estão fazendo nada? Se não existem tratamentos? E que existência boa e saudável é esta? Isso? — Neville apontou para os pais, os dois pegaram no sono, na poltrona e na cama, as cores brancas e cinzas predominavam e eles pareciam muito mais velhos do que suas idades reais. — Acredita que ficar aqui sem fazer nada o dia todo, sem cores, cheiros, músicas, sem vida, que isso é bom para eles? Além disso meus pais merecem mais do que existir, eles merecem viver. E não ouse dizer que compreende, ninguém aqui pode entender o que eu sinto e se não concordarem com as mudanças e começarem a buscar maneiras de tratá-los, efetivamente, os tirareis daqui e isso é uma promessa.
Curandeira Agnes o encarou com pena e depois olhou para sua avó outra vez como se buscasse ajuda ou uma posição e isso foi o limite para sua paciência. Neville deu um passo à frente e sua magia se agitou e raivosamente como chamas esquentou o ambiente e não era de um jeito agradável e amoroso.
— Não olhe para ela! — Sua voz ainda saiu baixa, mas intensa e cortante. — Eu sou o sangue Longbottom aqui! Eles são meus pai minha vontade, é a minha palavra que basta. Não ouse questionar meu sangue, minha magia e meu sobrenome!
Mais uma vez a Curandeira o olhou chocada, mas sentido a intenção mágica inquestionável de suas palavras acenou concordando.
— Sim, Sr. Longbottom. — Ela engoliu em seco e depois deixou o quarto.
O silencio entre sua avó e ele se manteve por uns instantes, até que Neville sentiu um toque nos ombros e a encarou, sua expressão era orgulhosamente surpresa e emocionada.
— Seus pais estariam muito orgulhosos de você, meu neto. — Disse ela com voz embargada.
— Eles não estariam, eles estão, avó. Meus pais não estão mortos e no que depender de mim viverão por muito tempo e felizes. — Neville disse firme, depois suspirou. — Não quero lutar contra a senhora, mas o farei se ficar em meu caminho.
— Não ficarei em seu caminho, Neville, ficarei ao seu lado, onde é meu lugar. — Suas palavras pereciam uma promessa e Neville aliviado a abraçou se sentido próximo a ela pela primeira vez em sua vida.
Segunda-feira, 7 horas
Enquanto desciam a montanha, Sirius e Harry em comum acordo, sem palavras, não falaram sobre suas experiências, era algo íntimo e, apesar de positivo, emocionalmente doloroso. Eles decidiram falar sobre o que gostariam de fazer, de viver deste ponto em diante. Harry falou sobre as ideias para Hogwarts e os projetos com seus amigos, sobre a GER e falou sobre o seu desejo de encontrar o Prof. Flitwick e agradecer. Sirius falou sobre sua ansiedade para começar o treinamento auror e sua relação difícil com Remus, sobre seu encontro com McGonagall e como esteve distante dos Tonks. Quando chegaram a Floresta, Harry perguntou sobre sua conversa com sua tia Petúnia e Sirius foi sincero.
— Isso não foi muito legal de você, Sirius, ela está tentando e Dumbledore e a Sra. Serafina já lhe disseram palavras duras. — Disse Harry seriamente.
— Eu sei, mas mesmo que ela esteja te tratando melhor agora, sob ameaças, não apaga tudo o que você passou e como seu padrinho é meu dever te proteger, te defender. — Disse Sirius e parando o encarou. — Ainda me magoa o que eles fizeram, Harry e eu não estava lá, mas ela estava, sua tia teve 10 anos com você, para amá-lo, cuidá-lo e o que ela fez? Maltratou você.
Harry acenou entendendo e respeitando seu sentimento.
— Tudo bem, apenas, de certa forma, ela é uma vítima também, sabe. Indiretamente, ela é uma vítima de Dumbledore, de Voldemort, da magia, do destino. — Harry olhou para o céu azul e sentiu o sussurro da Floresta. — Às vezes, você não se questiona, Sirius, porque eu? Porque isso acontece ou aconteceu comigo? Quando cheguei a Hogwarts tudo o que eu queria era ser um garoto normal, apenas Harry, não um herói, um órfão ou uma pessoa marcada por uma profecia estúpida e seria tão fácil me deixar tomar pela amargura, pela raiva, pelo inconformismo.
— Pelo sentimento de traição e abandono. — Sussurrou Sirius acenando.
— Ela fez isso, Sirius, minha tia vislumbrou um mundo encantado e mágico, lindo e aventureiro e descobriu, cruelmente, que não poderia entrar. — Harry suspirou triste. — Tia Petúnia me amava, eu sei que sim e se forçou não me amar mais, ela está errada, mas esteve tão infeliz quanto eu nos últimos 10 anos. Preciso ajudá-la, Sirius, assim como te ajudei e estou tentando ajudar o mundo mágico, preciso fazer o possível por ela também.
— Porque, Harry? Porque você se importa com ela? — Sirius perguntou confuso.
— Porque eu a amo, ela é meu sangue, Sirius, ela é o sangue de minha mãe e do jeito dela, tia Petúnia se importa e mesmo que nunca possa fazer parte de sua vida, quero que ela seja feliz. — Harry usou as costas da mão para limpar as lágrimas do rosto e o olhou com um sorriso triste. — Eu consigo perdoá-la e, talvez, esse seja o primeiro passo para você, tio Siri, perdoar.
Depois disso eles continuaram pela Floresta em silencio contemplativo, talvez percebendo que, ao fim da difícil jornada, havia vida e tudo o que a acompanha. Amor, ódio, tristeza, alegria, perdão, amargura. Quem disse que viver era fácil?
