Capítulo 47
Durante a sexta-feira, Harry conseguiu ignorar tudo a sua volta e se concentrar em seus pensamentos e planos. Snape foi ignorado, facilmente, durante as aulas de Poções, os cochichos de sua reação a Lockhart, que desagradou as suas meninas fãs, era só um zumbido chato e, os comentários feitos sobre ele ter ameaçado Draco com uma faca, não foram registrados.
Felizmente, Harry e os amigos se entenderam e entraram em sintonia, sem discussões e recriminações, o que, por si só, era um grande alívio. Hermione espalhou um bilhete marcando a reunião com os colegas 2º anos, Penny e os gêmeos, para sábado à noite e Harry escreveu uma longa carta para casa. Como queria informar a seus guardiões e Sirius do que acontecera, desde o momento em que entrou no trem, Harry decidiu escrever uma carta apenas e pedir que a lessem com sua tia presente. Ele também pedia conselhos sobre anunciar no Profeta a verdade sobre os livros de aventura.
— Ainda acho muito Gryffindor de você escrever contando o que fizeram, Harry. — Disse Hermione aprovadora.
— Eles saberão cedo ou tarde, depois que conversar com o Flitwick é bem possível que ele escreva a eles, assim, o melhor é contar a verdade por mim e lidar com isso. — Observou Harry pensativo. — Não quero ter que ficar me preocupando com isso, aceito a bronca e o castigo, seguimos em frente, pois temos coisas mais importantes para nos concentrarmos.
E isso se mostrou verdade com o anúncio de Trevor, seu capitão do time de quadribol, que eles teriam testes para um time reserva, no dia seguinte. Quando Harry lhe perguntou sobre ser logo na primeira de aula, Trevor explicou:
— O melhor é tirarmos isso do caminho, Harry, escolhemos o time reserva essa semana e na próxima já podemos começar a treinar. — Trevor sinalizou para subirem até sua sala de convivência que ficava no ponto mais alto, já que ele estava no 7º ano. — Dará muito trabalho treinar um time inteiro do zero e precisaremos nos concentrarmos em nossas estratégias para o primeiro jogo em novembro também. Além disso, eu tenho meus NEWTs este ano e por mais que ame quadribol, não trabalharei nisso no futuro, assim preciso das minhas notas no topo.
— Essa é uma boa ideia, pode contar comigo. — Disse Harry e acenou, cumprimento alguns outros garotos do 7º ano que estavam por ali.
— Eu espero que sim, estou com esperança de que me ajude com algumas estratégias e jogadas, Harry. Felizmente, não precisamos nos preocupar com integrantes novos no time titular, já confirmei e todos pretendem continuar a jogar este ano. — Informou ele e, acenando com a varinha, duas cervejas amanteigadas saíram de uma pequena caixa fria e flutuaram até os dois.
— Ótimo e posso ajudar com certeza, na verdade, eu encontrei um caderno antigo do meu pai cheio de ideias e estratégias, prometo separar algumas boas para treinarmos. — Disse Harry sorrindo animado.
— Verdade? Isso seria incrível, cara, eu vi os troféus do seu pai na sala de troféus, ele deve ter sido o maior artilheiro que já passou por essa escola. — O elogio fez Harry sorrir ainda mais e se encher de orgulho.
— Me diga, no que está pensando em trabalhar depois de se formar? — Ele perguntou curioso.
— Bem, eu tinha esperança de conseguir uma vaga em algum time de quadribol da Liga, não como jogador porque não sou tão bom, mas como assistente, talvez preparador físico. Estou pensando em estudar medicina esportiva no mundo trouxa e, se não conseguir trabalhar no mundo mágico, posso trabalhar com futebol ou outro esporte. — Disse ele dando de ombros.
Harry arregalou os olhos surpreso, mas não deveria, Trevor poderia parecer só um cara grande e cheio de músculos, mas ele era um Ravenclaw e, provavelmente, queria usar essa inteligência para fazer uma faculdade.
— Deixa eu te contar sobre o lugar que conheci neste verão... — Harry rapidamente contou sobre o Centro Esportivo e viu seus olhos brilharem.
— Harry, algo assim... que incrível e um projeto social. Se conseguir ir para a Universidade de Londres adoraria estagiar lá, todos esses esportes e crianças de todas as idades, nossa, seria incrível trabalhar com eles depois de me formar também. — Disse ele entusiasmado.
— E sobre um lugar assim no mundo mágico? — Perguntou Harry curioso para ver a reação do amigo.
— Um Centro Esportivo? Para os Bruxos? — Trevor tomou um gole de cerveja, pensativamente. — Sinceramente, não acredito que haveria demanda, a população mágica é muito pequena comparada a trouxa e durante a maior parte do ano uma grande parte está aqui em Hogwarts. Isso sem falar que os bruxos puro-sangue e muitos mestiços não conhecem nada sobre os esportes trouxas.
— Sim, mas, e se o foco principal fosse o quadribol, um lugar amplo e grande para voarem e fazerem manobras, para as crianças pré Hogwarts aprenderem a voar com seus pais. Quer dizer, nem todos têm espaço ou privacidade para voarem e eu vi muitas crianças puros-sangues que tinham voado pouca ou nenhuma vez na primeira aula de voo. —Apontou Harry e viu o interesse do amigo aumentar. — Aos poucos poderiam serem acrescentados outros esportes, uma academia para treino físico, quem sabe, uma piscina.
Trevor estava com os olhos brilhantes agora e sorriu.
— Isso poderia dar certo, se feito de uma maneira lúdica e divertida para atrair as crianças e os pais, mas também profissional, mantendo a segurança. — Trevor o encarou agora. — São suas ideias?
— Não, do meu pai, ainda que os esportes trouxas e academia é um acréscimo meu, pois papai não sabia nada sobre isso sendo puro sangue. O foco dele é.… era o quadribol, ele tinha muitas ideias e, no caso de um Centro de Treinamento, o seu objetivo era encontrar e treinar promessas. — Explicou Harry.
— Promessas? — Trevor não entendeu.
— Sim, de jogadores de quadribol. Papai tinha a teoria de que ter Hogwarts e seus times como o único lugar de recrutamento é um absurdo e que os jogadores começarem a treinar tão tarde e de maneira quase informal era um grande erro. Quer dizer, não temos treinadores, apenas um capitão e o resto é por nossa conta. — Apontou Harry. — Se houvesse um Centro de Treinamento que ensinasse a voar, as técnicas e manobras, descobrisse a posição em que cada um é melhor e os jogadores mais talentosos, claro, não serão todos que terão talento, mas aposto que seriam descobertos e treinados muito mais jogadores do que agora. E, eles poderiam continuar o treinamento durante o verão, quando chegasse a idade de Hogwarts.
— Isso... Harry, isso seria incrível, seu pai estava certo, os níveis de jogadores não são muito bons na Liga e os melhores são contratados pelos times que pagam mais como Arrows, Falcons, Pride of Portree, Puddlemere e as Harpies que pegam todas as meninas, claro. Os outros times ficam com as sobras e acabam tendo times mais fracos porque não têm muitas opções, assim, não há um grande nível competitivo. — Trevor estava pensativo. — Mas, você sabe o que? Se isso der certo pode ter muitos jogadores para poucos times, mesmo cada um tendo reservas, são apenas 140 jogadores já que a Liga tem apenas 10 times.
— Sim, mas, e se a Liga tiver mais do que 10 times? Além disso...
— Harry, isso seria algo incrível, mas é um pouco fora das nossas mãos, não é? — Trevor parecia incrédulo.
— Vamos deixar as questões práticas de lado, Trevor e pensar na teoria. Quando você olha para a Liga de Quadribol, o que, de primeira, você sente falta? — Perguntou Harry sorrindo.
— Bem, se for comparar com a nova Primeira Liga de Futebol que começou esse ano, quer dizer, eu estive lendo tudo sobre isso, as novas regras e como a Federação não tem mais poder, quem comanda tudo são os clubes. Eu diria que o Ministério parece ter muito poder sobre a Liga de Quadribol, além disso, não tem uma segunda divisão e isso é importante... — Trevor se interrompeu ao ver o amigo sorrir com malícia. — Você não estaria planejando revolucionar a Liga Britânica e Irlandesa de Quadribol, não é mesmo, Harry?
— Eu? Não, isso nem me passou pela cabeça, eu juro, mas meu pai é outra história. — Harry disse divertido. — Ele teve boas e incríveis ideias, Trevor e não conseguiu realizá-las, assim, farei isso por ele, mas preciso de ajuda de pessoas de confiança e que se interessem e amem o quadribol tanto quanto meu pai amou.
Trevor o encarou pensativo, mas logo acenou e estendeu a mão, eles trocaram um aperto firme.
— Pode contar comigo, Harry. — Seu tom era de promessa e Harry sorriu ainda mais animado e agradecido.
— Bom, porque temos muito o que fazer e, na verdade, indiretamente, os planos já estão indo nesta direção.
— Como assim? — Trevor não entendeu.
— O que você acha de uma academia de treino com piscina, aqui em Hogwarts? — Harry sorriu ainda mais ao ver sua expressão surpresa.
— O diretor ou o Conselho de Governadores nunca concordariam com isso. — Disse ele sem fôlego.
— Já concordaram. — Harry então explicou sobre seu problema de saúde e a iniciativa de Madame Pomfrey, o resultado e o que seu padrinho fez em seguida.
— Você está me dizendo que Sirius Black, seu padrinho, construiu uma academia de treinamento físico e uma piscina em Hogwarts? — Trevor o encarou com olhos arregalados.
— Sim. — Harry riu divertido quando o amigo se levantou e o ergueu junto comemorando.
— Uau! Harry, isso é incrível! Podemos treinar e melhorar nossas condições físicas, isso aumentará o nível do nosso jogo e, claro, os benefícios para a saúde de todos será imensurável. — Trevor se acalmou um pouco e então o encarou sério. — Eu tinha certeza que você estava falando sério antes e, agora, tenho a impressão de que ninguém poderia te impedir mesmo que tentassem muito.
— Sua impressão está correta, Trevor e, se você tiver um tempo, posso lhe apresentar, em mais detalhes, o que faremos. Chamaremos de Operação James Potter...
E o resto da noite de sexta-feira foi de planos e projetos, os de curto e longo prazo, Trevor tinha um conhecimento maior de quadribol e da Liga do que o Harry, mas entre seus próprios estudos e o projeto do seu pai, ele também tinha muito a contribuir. No fim, eles formaram uma boa dupla e Harry teve a sensação de que encontrara mais um grande parceiro de negócios.
Os testes foram agendados para sábado bem cedo porque, à tarde, eles já tinham aulas de Carpintaria Mágica. Harry desceu sozinho, Terry resolveu que preferia dormir do que ver os testes do time reserva e também não teve interesse em entrar no time.
— Eu gosto de esportes, Harry, mas de assistir, não tenho interesse em jogar. — Ele lhe dissera na noite anterior.
Assim, ele tomou o café da manhã sozinho antes de ir para o campo. Quando estava deixando o salão ouviu alguém chamá-lo, se virando, encontrou Colin Creevey vindo em sua direção.
— Oi, Harry, hum... Eu queria me desculpar pelo que disse no outro dia, foi... tão horrível e insensível... — O rosto do garoto mostrava seu constrangimento e culpa. — Todos me contaram como você era um herói e famoso, falaram do seu livro e...
— E, você pensou que eu seria como uma espécie de atração turística, uma celebridade com quem se tira fotos ou pede autógrafos. — Harry acenou mostrando entendimento e o rosto do menino se entristeceu ainda mais, seus olhos se encheram de lágrimas. — Eu entendo, você não é o primeiro a agir assim e não será o último, mas espero que tenha entendido porque não gosto de ser celebrado ou tratado assim.
— Eu entendi, realmente, sinto muito e espero que possa me desculpar. — Sussurrou ele arrasado.
— Eu posso, se você também me desculpar por ter sido tão grosseiro, não foi justo lhe tratar assim quando era, óbvio, que não havia como você saber o que eu sentia. — Disse Harry suavemente e viu seu olhar surpreso.
— Sim, claro, eu... eu mereci e entendo porque você disse... eu... Seu amigo, Neville, me disse para me colocar no seu lugar, e bem, eu fiz isso e entendi como tinha te magoado com a forma como agi e, realmente, sinto muito, de verdade. — Colin enxugou uma lágrima que escorreu e corou de vergonha.
— Ok, está tudo perdoado, então. — Disse Harry e, tentando ser gentil, acrescentou. — Estou indo para os testes do time reserva de quadribol, você que vir assistir?
— Eu posso? — Seus olhos se arregalaram e se encheram de brilho e entusiasmo.
— Sim, claro. — Disse Harry e os dois começaram a caminhar. — Alguém já te explicou sobre quadribol?
— Não, mas eu ouvi que você é o buscador mais novo em um século, Harry. — O menino saltitou ao seu lado para acompanhá-lo.
— Bem, o jogo não tem só o buscador... — Durante o caminho, Harry contou sobre as posições, bolas e regras do jogo para um Colin corado de animação e olhos arregalados.
Quando chegaram ao campo, os dois riam muito quando Harry terminou de contar sobre como tomou a goles, do jogador da Slytherin, bem debaixo do seu nariz.
— Eu juro, Colin, que ele ficou lá parado olhando confuso sem entender o que aconteceu por uns bons 5 minutos. — Harry riu ainda mais e Colin o acompanhou.
— Isso deve ter sido demais, não vejo a hora de ver um jogo. — Disse Colin corado de emoção.
— Os jogos só começam em novembro, mas teremos muitos treinos até lá, ainda que sugiro que assista os da Gryffindor, os times não gostam muito de espiões. — Disse Harry divertido e depois se despediu indo para o meio do campo.
Houve um grande número de alunos aparecendo para os testes, para surpresa de Trevor, Harry já esperava por isso.
— Você e MacMillan são 7º anos, capitão, essas pessoas sabem que, se forem reservas esse ano, têm grandes chances de estarem no time titular ano que vem, além disso, nós vencemos o campeonato ano passado e eles sabem que podemos ganhar esse ano. E, mesmo como reservas, ainda fariam parte disso. — Harry apontou enquanto a pequena multidão se formava.
Os testes foram iguais aos do ano passado, mas Trevor dispensou os primeiros anos antes mesmo de começarem. Isso causou discussão, pois Wilkes alegou que Harry fora testado e aceito no time quando estava no 1º ano.
— Sim, mas ele veio com uma recomendação da Madame Hooch, se você não tem isso pode deixar o campo. Agora! — Disse Trevor com firmeza.
Depois desse problema a única coisa que incomodou Harry foi o desejo que houvesse algum buscador melhor do que Cho Chang, a garota asiática que lhe dera uma tapa no ano passado. Infelizmente, isso não aconteceu e seu olhar triunfante na sua direção lhe mostrou que a convivência entre eles não seria das melhores. Os escolhidos foram:
Goleiro: Eddie Carmichael
Artilheiros: Claire Stuart, Zane Erwood, Morag MacDougal
Batedores: Michael Corner e Hunter Jonas
Buscadora: Cho Chang
Enquanto Trevor explicava os horários e regras de treino para os novos jogadores, Harry se aproximou da arquibancada onde Colin ainda assistia.
— Ei, Colin, onde está sua câmera?
— Oh... — O menino corou parecendo envergonhado. — Eu percebi que não era educado da minha parte sair por aí tirando fotos, quer dizer, tem pessoas que não gostam disso.
— Bem, se você perguntar antes e, for um amigo ou colega, eu não vejo problema. — Harry hesitou, não querendo incentivá-lo na direção errada. — Queria saber se você nos fotografaria, o time todo, quero dizer.
Colin arregalou os olhos com entusiasmo e se levantou na hora.
— Vou correndo buscar minha câmera. — Disse ele, mas parou quando Harry o chamou.
— O time todo, Colin, não apenas eu, você entende? — Harry falou muito sério e viu o menino o olhar da mesma maneira.
— Eu prometo, Harry. — Disse e, um segundo depois, disparou de volta ao castelo.
Harry explicou a Trevor e, aos outros, sua ideia e todos ficaram entusiasmados aguardando por Colin que voltou correndo e ofegante, mas com um sorriso enorme. Eles posaram juntos e depois separados, time titular e reserva, Harry conseguiu uma foto com seu capitão e outra, com o próprio Colin, quando estavam acabando, seus amigos apareceram e Harry pediu uma foto dos 4. Neville ficou constrangido, mas Hermione o encarou com orgulho e Terry bateu em seu ombro, animadamente. No fim, todos voltaram para o almoço conversando e Harry deu a Colin alguns galeões.
— Eu gostaria de copias das fotos, Colin, mágica e trouxa, por favor. — Disse Harry sorrindo.
— Combinado, Harry, deixa comigo. — Respondeu o menino sorridente e cheio de energia.
À tarde, na aula de Carpintaria, Harry iniciou um novo projeto, ele queria fazer, por si mesmo, uma grande estante para os seus livros e não pedir para o Prof. Flitwick, em dezembro. Prof. Jonas concordou com entusiasmo e incentivou que cada aluno tivesse seu próprio projeto, desenhassem o que queria e, depois, todos foram para a Floresta conseguir a madeira. Mais uma vez, Harry foi um dos primeiros a se conectar a uma grande árvore de carvalho que o acolheu, carinhosamente. Neville o seguiu de perto se conectando com um salgueiro.
Ao fim da aula, Harry se aproximou de Jonas para conversarem.
— O nosso time reserva foi escolhido hoje e tinha um Jonas.
— Esse é meu sobrinho, Hunter, ele me contou e estava muito contente. — Explicou o professor.
— Filho do seu irmão, Hélio? — Perguntou Harry curioso com todos esses nomes com H.
— Sim, você o conhece? — Harry explicou que o Sr. Falc pretendia contratá-lo para fazer a manutenção de suas propriedades.
— Isso seria ótimo, Harry, meu irmão adora o trabalho e iniciou seu próprio negócio quando terminou a escola, pois percebeu que seria impossível para todos vivermos da Fábrica de Madeira. — Jonas parecia ter orgulho do irmão.
— Está indo tão mal assim? — Harry estava confuso, pois pensara que a Fábrica era lucrativa.
— Bem, não, mas meu pai não é o filho mais velho, assim a maior porcentagem ficou para meu tio Hércules, além da porcentagem que vai para você. Somos em três irmãos, Hélio e eu não somos os mais velhos, assim a porcentagem pequena do meu pai vai, quando ele morrer, para o meu irmão mais velho, Henry. — Disse Jonas e deu de ombros. — Eu sou apenas um funcionário lá na Fábrica e, por isso, essas aulas foram muito boas para mim, aliás, a partir deste ano elas são obrigatórias paras os alunos do 1º ao 4º ano. Quem quiser interromper, a partir das OWLs em diante, podem.
— Isso é legal! — Harry disse e depois olhando seu professor que também sorria animado, teve uma ideia. — Professor Jonas, o senhor nunca pensou sem abrir uma loja de móveis no Beco Diagonal?
A noite eles se reuniram com seus colegas de ano, mais Penny e os gêmeos no Covil. Harry usou o feitiço Apud Patitur nas estatuas das três entradas e, junto ao bilhete, colocou a senha e acrescentou o pedido que todos os queimassem. Os colegas foram chegando aos poucos e se acomodando, enquanto esperavam, Neville perguntou a Harry porque não chamou os colegas do time de quadribol.
— Porque sei que Melrose é um purista e, se ele percebesse que estou me reunindo com o time sem incluí-lo, poderia desconfiar. Acho que temos olhos o suficiente sobre nós. — Disse ele calmamente.
— E o novo time de reservas tem alguns jogadores que não sabemos as preferências, quer dizer, Morag e Michael, além do sobrinho do professor Jonas não são puristas. — Disse Terry pensativo. — Cho Chang, acredito que também não, mas não a convidaríamos de qualquer maneira.
— Com certeza, não. — Disse Hermione, como sempre, protetora dos meninos.
— Assim, temos Carmichael, Stuart e Erwood que temos que conhecer melhor antes de pensar em incluí-los em qualquer coisa. — Concluiu Terry e Morag, ouvindo a conversa, se aproximou.
— Bem, estive conversando com eles e fazendo amizade se quiserem um pouco de informação. — Quando os 4 acenaram, ela continuou. — Hunter é um 4º ano, ele é amigo de Owen e foi incentivado pelo amigo a tentar os testes, assim não purista, como pensaram. Claire é nascida trouxa e está no 6º ano, ela me disse que sempre teve vontade de jogar, mas estava muito focada nos estudos e obter notas, agora que ela sabe que isso não é importante para conseguir um bom emprego, decidiu relaxar e se divertir um pouco. O Carmichael é puro-sangue e está no 3º ano, me pareceu meio idiota e arrogante, igual ao MacMillan mais velho, mas o vi conversando, normalmente, com Owen e a Claire, na verdade, a Claire lhe lançou um olhar bem irritado por causa de suas cantadas.
— Ele está no 3º ano e estava dando em cima de uma garota do 6º? — Harry perguntou surpreso e olhou para os amigos, tanto Neville e Terry pareciam pensar o mesmo que ele. — Corajoso.
— Mais como idiota convencido, isso sim. — Disse Morag com uma careta. — O outro é o Erwood e ele é puro-sangue, também está no 4º ano e não parece amigo do Owen ou do Hunter, ele ficou meio que isolado, não conversou ou destratou ninguém, não importa o status de sangue.
— Melrose é assim também, é educado e distante, mas, se você observar com atenção, percebe o desprezo em seu olhar e que, seus poucos sorrisos, são falsos. — Apontou Harry e, olhando em volta, percebeu que quase todos chegaram.
— Não sei, Harry, não senti nada negativo da parte dele, mas você terá a oportunidade de conhecê-lo e descobrir por si mesmo. — Disse Morag dando de ombros.
— Obrigado, Morag. — Disse ele e se levantou quando viu Daphne, Tracy e Lidya entrarem.
Tirando a varinha, Harry fechou a porta e lançou o feitiço Imperturbabili Locus na sala, seguido do Homenum Revelio para ter certeza que ninguém invisível entrou de penetra. Satisfeito, ele olhou para os colegas e notou que, mais uma vez, Ron Weasley não comparecera, ele ainda não aceitava a presença das meninas Slytherins ou pedira desculpas por sua explosão. Harry quase fez uma careta ao perceber que, nos últimos dias, agira mais como o garoto Gryffindor do que como o Ravenclaw que era, esse pensamento não era nada agradável
— Boa noite, pessoal. — Disse Harry e os poucos que conversavam ficaram em silêncio e o encararam. — Preciso falar algo sério e importante com vocês, mas, tão importante quanto o que vou lhes contar, é que mantenham em sigilo absoluto, pois a vida de alguém inocente está em risco. Vocês entendem? — Seu tom sério e sombrio não caiu bem e Megan empalideceu.
— Tem a ver com Voldemort? — Perguntou ela preocupada.
Todos se encolheram ou empalideceram, mas Harry sorriu suavemente, por sua coragem em dizer o nome dele.
— Ainda não sabemos. É possível que, indiretamente, tenha a ver com ele. — Harry foi sincero.
— Harry? —Justin perguntou antes de ele poder continuar. — Queria saber se vamos falar sobre a Associação de Pais?
— Podemos falar disso se quiser, Justin, sem problemas. — Disse Harry positivamente.
— Minha mãe ficou muito impressionada e chocada com a reunião, Harry, e quando chegou em casa quis saber porque não contei sobre a morte de Quirrell, quer dizer, a verdade sobre a morte dele. — Disse Ernie preocupado. — Meu irmão, Edwin, já havia contado sobre o "acidente".
— E você contou a verdade? — Terry questionou.
— Sim e disse que não contei porque não pensei que eles acreditariam, na verdade, meu pai e irmão estavam um pouco céticos, mas mamãe explicou que seus pais contaram terem visto a lembrança na penseira sobre o que aconteceu. — Ernie olhou em volta. — Eles ficaram além de chocados ao perceberem que você-sabe-quem está vivo, ainda que fraco.
— O que é essa Associação de Pais? — Perguntou Fred confuso e Hermione assumiu a frente explicando do que se tratava.
— Meu pai estava furioso. — Contou Justin. — Ele disse que está disposto a dar uma chance e tentar lutar contra o preconceito, mas, que se as coisas não melhorarem, me tirará da escola.
— Com a minha mãe foi o mesmo, ela disse que, no próximo verão, iremos pesquisar outras escolas mágicas ou tutores e, que se for necessário, deixarei Hogwarts. — Disse Anthony preocupado.
— Mas isso não resolve nada que os puristas querem, nos expulsar. Eu poderia ir estudar em Beauxbatons, na França, mas o que acontece depois quando me formar? — Hermione disse exasperada. — Me mudo de vez para a França? Volto e encaro o preconceito ou desisto do mundo mágico e me torno trouxa? Se tiver que voltar não é melhor lutar desde já contra o preconceito? E se for desistir, o que adianta estudar pelos próximos 6 anos?
— Além disso, já estamos lutando de muitas maneiras contra os puristas e um dia acredito que venceremos. — Disse Terry convicto. — Não estamos dizendo que será fácil ou que não acabaremos em uma guerra, se Voldemort retornar, mas fugir ou fingir que nada está acontecendo não me parece o caminho mais inteligente.
— Sabemos que muitos nascidos trouxas no passado tiveram que abandonar o mundo mágico por falta de oportunidades de trabalho, mas agora é diferente. Temos lutado em várias frentes, algumas vocês não sabem ainda e estão acontecendo lá fora neste instante, mas aqui em Hogwarts muita coisa já está mudando também. — Harry falou sorrindo. — Temos os alunos infiltrados, amizades com Slytherins, temos a verdade se espalhando, os alunos voltando aos estudos trouxas, a Associação de Pais que acredito trará muitas mudanças e tenho outra novidade. — Harry compartilhou a notícia sobre a academia e piscina, isso levou a exclamações e comemorações.
— Quando poderemos usá-la, Harry? — Perguntou Mandy eufórica.
— Acredito que em breve estará terminada e isso é um grande avanço, assim, acredito que vale a pena continuarmos lutando de maneira inteligente e bem debaixo dos seus narizes. — Disse Harry e viu muitos acenos positivos e sorrisos. — Agora, para um assunto mais sombrio. — Seu sorriso morreu e seu tom ficou sério, os colegas o acompanharam. — Eu recebi uma visita esse verão que me causou alguns problemas, mas, depois até foi positivo...
— Colocar você no hospital não foi positivo, Harry. — Protestou Terry sério e essa afirmação causou exclamações de preocupação e surpresa.
— O que aconteceu? — Perguntaram várias vozes diferentes.
— O visitante tinha um aviso para me dar e queria me proteger, implorou que eu prometesse não voltar a Hogwarts. — Mais exclamações surpresas. — Ele decidiu flutuar o pudim da minha tia, meus tios estavam dando um jantar de negócios e, entre a sobremesa destruída no chão e a coruja do Ministério chegando com um aviso de magia menor de idade, vou apenas lhes dizer que o jantar foi um desastre.
— Mas eles não sabiam que o feitiço não era seu? — Padma perguntou confusa.
— Sim e não sei porque, a não ser pelo fato de que eles sabem que naquela casa só tem um bruxo, eu, não imagino porque não perceberam, quer dizer, já houve bruxos adultos realizando magia na minha casa e ele não registram nada. — Harry deu de ombros.
— Isso deve ser porque, quem fez o pudim flutuar, não é um bruxo adulto. — Apontou Daphne e Harry acenou concordando. — A magia de um bruxo adulto não se registraria e seus tios devem estar classificados como familiares trouxas que sabem de magia e podem ver magia. Assim, se a magia feita foi registrada, eles pularam, automaticamente, para a conclusão que o feitiço foi feito por um menor, ou seja, você. — Encerrou ela com seu tom indiferente.
— Isso faz incrível sentido, obrigado, Daphne. Olha, a vida desse visitante está em risco, por isso estou relutante em dizer quem é. — Harry os olhou angustiado. — Ele foi lá com a intenção de me proteger e é inocente, entendem?
— Tudo bem, Harry, não precisa nos dizer quem é, nós entendemos. — Disse Mandy e Harry sorriu ao ver os acenos.
— Eu nunca me dei bem com meus tios, meu tio, principalmente, apenas me tolerava em sua casa e de muita má vontade. — Continuou Harry e viu muitos olhares surpresos e confusos. — Eles odeiam magia, quase tanto quanto os puristas odeiam os trouxas. — Explicou brevemente constrangido e continuou. — Meu tio ficou furioso com o desastre do jantar de negócios e tentou me punir, fisicamente..., — Novamente exclamações foram ouvidas dessa vez de choque e indignação. — Mas, minha magia reagiu e o acertou, ele ficou bem, enquanto eu acabei caindo pelo corrimão da escada e batendo a cabeça. Tive uma concussão e fiquei uns dias de repouso, mas logo me recuperei e, no fim, as coisas deram certo porque minha tia decidiu se divorciar e espero nunca mais ver meu ex-tio.
Houve sorrisos de alívio e preocupação, mas todos pareciam surpresos com seu conto, talvez, percebendo que a vida dele não era perfeita como diziam os livros.
"Meu visitante tinha esperança que, ao fazer a magia, eu seria expulso e, assim, ficaria em casa seguro. " — Continuou Harry.
— Seguro? Porque você não estaria seguro em Hogwarts? — Perguntou Michael parecendo indignado.
— Você quer dizer, além de cães de três cabeças? —Perguntou Fred ironicamente.
— Ou visgos do diabo? — Acrescentou George no mesmo tom.
— E não se esqueça do troll? — Apontou Fred.
— Ou, quem sabe, um professor possuído por Voldemort? Você está certo, cara... — George acrescentou e então os dois disseram ao mesmo tempo. — Hogwarts é muito seguro.
Isso trouxe risos, inclusive de Michael e o clima se descontraiu, levemente.
— Qual foi seu aviso? — Perguntou Daphne, sem rir e parecendo tensa.
— Que coisas terríveis acontecerão em Hogwarts este ano. — Harry falou e todos se arrepiaram de medo e preocupação. — Ele disse que existe um plano e, apesar de saber a meses, não sabia o que fazer, então, decidiu me avisar e me colocar em segurança. Ele é um pouco confuso, disse que sou muito importante na luta contra Voldemort e não posso morrer, que sou um símbolo de esperança. Eu lhe disse que não fugiria ou abandonaria meus amigos, foi quando ele decidiu destruir a sobremesa.
— O plano é para te matar? — Justin perguntou e Harry acenou negativamente.
— Não, eu não sou o alvo, mas ainda corro perigo, todos estamos em grave perigo. — Harry disse a eles e viu o olhar cético de Ernie. — Sei que parece loucura, mas acreditem, ele não estava mentindo e, desde então, outras coisas aconteceram que apenas confirmaram o que ele me disse.
— Bem, mas o que acontecerá e quem é o alvo? Porque, simplesmente, não impedimos que aconteça? Avisamos os professores? — Ernie questionou.
— Os professores já foram avisados, Ernie, antes das aulas começarem, assim como meus pais e o padrinho do Harry, até um auror, amigo de Sirius foi avisado, mas trabalhamos com poucas informações. — Terry disse exasperado.
— Ele não podia me dizer muito, porque...
— Era um elfo doméstico. — Concluiu corretamente Daphne e, diante da surpresa de Harry, acrescentou. — Está claro, Potter, ele não é um adulto, não pode ser uma criança ou falaria todo o plano, mas se tem restrições, só pode ser um elfo e, na verdade, é surpreendente que ele tenha conseguido dizer qualquer coisa.
— Acredito que ele conseguiu se desviar porque não foi proibido de contar que havia um plano, apenas qual era plano. — Harry os olhou triste enquanto assentiam. — Pessoal, se a família dele descobrir, eu sei que eles o matarão e ele estava tão apavorado...
— Não falaremos nada, Harry, pode confiar. — Disse Seamus e Harry os encarou.
— Realmente? Mesmo se coisas horríveis acontecerem, se alguém morrer ou vocês estiverem apavorados? Conseguirão ficar calmos e não confrontar ou falar o que sabem? — Seu tom era duro e seus colegas ficaram pálidos. — Porque não deixarei que ele pague por nossos medos e, se vocês querem a informação, terão que ser responsáveis por ela. Assim é a vida, quando crescemos temos que sermos mais maduros e responsáveis, além de proteger os inocentes. Estão preparados para me ajudar a protegê-lo?
Todos acenaram e prometeram, Harry acreditou neles ao ver suas expressões determinadas.
"Muito bem, mas se algum de vocês falhar não terão outra chance. — Seu tom saiu duro, mas eles parecerem se fortalecer disso, pois não queriam decepcioná-lo. — O elfo se chama Dobby e pertence ao Malfoys... — Harry, então, com mais detalhes contou a conversa terrível com o pequeno elfo e muitos se emocionaram, Hermione chorou outra vez ao ouvir como ele era maltratado e foi acompanhada por outras meninas, até mesmo Justin ficou abalado.
— Temos elfos em casa, mas, jamais os maltratamos. — Disse Michael parecendo muito chocado.
— Sim, mas isso não os faz menos escravos. — Disse Hermione com frieza.
— Outro dia falaremos mais sobre isso, podemos continuar o assunto, por favor? — Pediu Harry sabendo que uma discussão agora não era bem-vinda. Ele então explicou o que aconteceu no trem e depois no escritório com Malfoy sênior. — Vocês podem ver que, seja o que for esse plano, já está em andamento e pode ser qualquer coisa, claramente, o alvo são os nascidos trouxas, mestiços também, mas acredito que os nascidos trouxas estão em maior perigo.
— E se tem a ver com Voldemort, não é impossível supor que Harry seja um alvo. — Apontou Terry seriamente.
— Porque o auror amigo do seu padrinho não faz alguma coisa? — Questionou Seamus e Harry se irritou na hora.
— Fazer o que e com que informação? Praticamente, não temos nada e o que temos colocaria a vida do Dobby em risco. — Harry o olhou com dureza e ele acenou meio envergonhado. — O motivo para contar a vocês não é para causar pânico e sim para que mais pessoas estejam atentas a algo ou alguém agindo de maneira diferente ou inexplicável. Entendem?
— Sim, percebemos que, apenas nós 4, não somos o suficiente, não conhecemos tantas pessoas, mas, entre todos nós, acredito que poderemos observar mais pessoas ou professores e assim por diante. — Explicou Hermione ansiosa.
— Não é para ninguém fazer nada ou se colocar em perigo, se algo parecer estranho, nos avise e avisaremos ao Flitwick que avisará ao diretor e eles resolverão. Prometemos aos nossos pais e guardiões que, desta vez, não no envolveríamos diretamente e deixaríamos os adultos agirem. — Explicou Harry e viu todos acenaram preocupados e tensos.
— O que você suspeita que pode estar acontecendo, Harry? — Penny perguntou sabendo que seu amigo teria uma teoria.
— Bem, minha teoria é que alguém poderia ter sido imperioso por Malfoy e ordenado a machucar os nascidos trouxas. — Harry falou pensativo. — A maneira como Dobby respondeu, me diz que há um alvo específico...
— Os nascidos trouxas? — Perguntou Seamus.
— Talvez eles sejam um alvo secundário. Vamos tentar pensar com a mente de Malfoy, se eu quisesse matar alguém ou muitos alguéns e não ser pego, o que eu faria? Colocaria a culpa em outra pessoa, assim minha teoria é que ele pode ter usado a maldição Imperius em algum aluno para que este machuque os nascidos trouxas e ainda leve a culpa. — Explicou sua ideia aos amigos.
— O que nos levaria a conclusão de que esse aluno não seria um puro-sangue purista? — Questionou Penny.
— Não, necessariamente, Malfoy tem muitos inimigos e desafetos mesmo entre os puristas e é uma questão de oportunidade, também. — Apontou Daphne séria. — Ele não teria acesso a um inimigo declarado, mas um falso amigo ou um aluno, cujo pai, ele quer fora do caminho, Malfoy poderia se aproximar facilmente.
— Isso quer dizer que poderia ser qualquer um, particularmente, acredito que seria um dos alunos mais velhos e com mais conhecimento de magia, mas Terry tem outra teoria. Terry? — Disse Harry e seu amigo contou, rapidamente, sobre os garotos, Avery e Wilkes.
— Eu sei que eles são 1º anos, mas, como apontei, suas famílias têm muitos motivos e um histórico nada agradável. Além disso, Harry e eu já tivemos problemas com o Wilkes... — Terry contou sobre a pequena discussão com o garoto.
— Ele fez isso? — Penny estava furiosa. — Não se preocupem, ficarei de olho nele e avisarei os outros monitores.
— Melrose também é purista, mas muito discreto, assim como qualquer outro da nossa casa, infelizmente, Wilkes me parece que nos causará problemas e os dois seriam suspeitos óbvios. — Harry explicou e, suspirando preocupado, acrescentou. — Tenho a sensação de que, seja quem for, será alguém que nunca pensaríamos.
Na sala comunal da Gryffindor, Ginny estava sentada sozinha perto do fogo e olhando a todo momento com esperança de ver os gêmeos entrarem pelo retrato da mulher gorda, mas, em um sábado à noite, poucos alunos se encontravam por ali. O espaço era para estudos agora e, sem uma festa, os alunos se espalhavam por suas salas de convivência, Ron estava na sala do seu andar, jogando xadrez com um garoto do 3º ano porque, por algum motivo, Seamus e Dean não estavam por perto. Na sala de convivência do seu andar, suas colegas de ano jogavam snap explosivo ou conversavam, mas ela não era bem-vinda ou, pelo menos, Ginny não se sentia bem-vinda. A verdade é que ela perdera a chance de se aproximar das meninas quando se sentou com seus irmãos e depois ficou para traz no caminho para a torre no dia da chegada. Na manhã seguinte, ela acordara cansada e atrasada para o primeiro dia de aulas e se perdera várias vezes, ao chegar as aulas, as 4 meninas se sentaram juntas em duplas e quando, finalmente, Ginny se apresentou, não se sentiu bem acolhida.
Infelizmente, ela se aventurou primeiro com Fay Dunbar e Kellah Merrywhite, mestiça e puro-sangue, que olharam para seus cabelos ruivos, sardas, roupas usadas, ainda que bem conservadas, e se mostraram frias e superficiais como são, normalmente, meninas nessa idade quando se sentem superiores. Constrangida, Ginny se apresentou a outra dupla de meninas, Abla Faraji, Demelza Robins, as duas eram nascidas trouxas que se tornaram amigas muito facilmente e falavam de assuntos que Ginny não entendia nada. O que raios era uma televisão ou vídeo game, computador? As meninas trataram Ginny bem, mas eram tímidas e não tinham muito em comum, elas perguntaram um pouco sobre o mundo mágico, mas tinham pouco interesse em quadribol, o Ministério, dragões ou o Egito.
Os meninos não eram uma opção, Ginny crescera cercada por meninos e queria fazer amizade com meninas, assim, ela não tentou ir para a sala de convivência deles. Isso tornou seus momentos na torre bem solitários, quando tentou se aproximar de Ron, ele a afastara dizendo para procurar seus colegas de ano. Os gêmeos pareciam estar sempre ocupados com algum projeto e, por esses dias, tiveram problemas com a chefe da casa, a Prof.ª Vector, porque eles queriam ficar em um mesmo quarto e não separados. A solução foi construir uma porta na parede entre os quartos e, depois disso, Ginny pouco os viu. Percy, que ela não queria ver, também parecia muito ocupado e pouco preocupado com ela, além disso, sempre que o via, suas palavras eram para que Ginny não fizesse nada para incomodá-lo ou atrapalhar suas chances de ser o monitor chefe no ano seguinte.
E, então, havia Luna, sua amiga também não fizera amigos na Ravenclaw, o que não parecia incomodá-la, mas pouca coisa incomodava sua amiga, pensou Ginny, divertida. Elas estavam sempre juntas fora da torre e nas aulas em que Gryffindor e Ravenclaw tinham juntas, além de estudarem e fazerem os deveres na biblioteca, mas sua amiga gostava de ficar na sua sala comunal. Luna lhe contou que aos sábados eles tinham aulas de auxílio dos alunos mais velhos, além de um laboratório para treinarem. Eles também tinham quartos individuais, salas de convivência e uma sala comunal para estudos, pelo que entendera, tudo isso era novo na Gryffindor e fora copiado da Ravenclaw depois que a Prof.ª Vector se tornara a chefe da casa dos leões.
Suspirando, Ginny olhou mais uma vez para a parte de traz do retrato, mas não parecia que os gêmeos apareciam tão cedo, assim, decidiu ir conversar com seu outro amigo. Subindo as escadas, ela entrou em seu quarto, colocou seu pijama e se sentando na mesa de estudos abriu seu diário.
Oi, Tom, hoje não tive aulas e meus deveres estão prontos, assim fiquei sem muito o que fazer, foi um pouco solitário.
Sinto muito, Ginny, que não tenha feito mais amigos e que Luna não tenha tempo para você.
Oh, Luna tem tempo, ela apenas se distrai as vezes, queria que estivéssemos na mesma casa.
Pensei que estivesse feliz na Gryffindor? Está se sentindo fora de lugar? Que não foi corajosa o suficiente para ir para uma casa diferente que a que seus irmãos estão?
Não sei, quer dizer, me sinto confusa e sozinha, não pensei que seria assim quando estivesse em Hogwarts...
Você não está sozinha, você tem a mim...
Obrigada, Tom, é muito bom ter te encontrado, é como ter um amigo portátil que se leva para todo lado no bolso e que me entende de verdade
Acho que sou seu único amigo agora, mas o que você decidiu sobre Harry Potter?
Sei que ele me odeia, Tom, eu apenas sei, quero me desculpar, mas ainda não tive coragem, acho que sou mesma uma covarde
Conte-me mais sobre a história dele, você me disse que esse menino sobreviveu a maldição da morte e matou um poderoso bruxo?
Sim, aconteceu a 11 anos no Halloween...
No Covil a reunião estava se encerrando com todos prometendo ficar atentos e serem cuidadosos.
— Antes de encerrar, Potter, se vocês estão se preocupando com Avery e Wilkes, deveriam se preocupar com a gêmeas Carrows também. — Apontou Daphne antes que todos partissem. — Elas são filhas dos irmãos gêmeos, Alecto e Amycus Carrow, puristas extremos.
— Como assim? Elas são filhas de dois irmãos? — Hermione perguntou chocada e quando Daphne acenou houve muitos sons de engasgos e exclamações de nojos. — E eu achei que já tinha ouvido de tudo...
— Eles são o que os puristas chamam de extremistas. Minha família e a dos Malfoy, por exemplo, fingem e até convivem com mestiços, mesmo nascidos trouxas, por civilidade ou interesses. — Explicou Daphne. — Mas, famílias como os Carrows, Travers, Wilkes ou Blacks, eles não fingem, convivem ou fazem negócios nem com mestiços, muito menos com nascidos trouxas. E, como casamentos são considerados negócios, eles se casam apenas com famílias puros-sangues que, como eles, nunca mancharam suas linhas com sangue impuro. E, se não houver um partido adequado, se casam com primos ou mesmo irmãos para manterem a linha pura.
— O Blacks não são mais assim, porque agora meu padrinho é o único que restou da família e ele não é purista. Sirius me contou que seus pais eram primos irmãos, mas confesso que nunca pensei que esses puristas iriam tão longe assim. — Harry falou enojado.
— O que vocês precisam entender é que famílias como os Carrows desprezam famílias como a minha ou os Malfoys, nós por termos sido neutros na guerra e Malfoy porque fingem não serem puristas. — Daphne continuou em seu tom indiferente. — Eles também escaparam da prisão com dinheiro e mentiras, mas nunca fingiram ou se misturaram com impuros.
— Bem, é muito bom compreender melhor essa divisão e assim todos ficamos cientes do tipo de pessoas que estamos lidando. — Disse Harry pensativo.
— E também podemos ficar atentos aos 1º anos nascidos trouxas, quer dizer, nós os avisamos sobre os preconceitos, mas eles precisam estar cientes de tipos como esse Wilkes, Travers e a gêmeas. — Disse Penny e todos acenaram se comprometendo a manterem a atenção aos seus colegas de casa.
Em seguida, eles se despediram e deixaram o Covil, tensos e preocupados, mas dispostos e determinados a ajudarem. Harry foi dormir se sentindo mais tranquilo, entre eles e os professores, não havia como não perceberem algo estranho acontecendo.
O domingo foi de treino de Defesa, Harry preparara uma aula mais dura aos amigos, inclusive repassando o que aconteceu com Quirrell e como eles poderiam ter agido mais rapidamente para não se tornarem alvos de seu ataque.
— Se aquela varinha não fosse a minha e não me obedecesse, um de vocês poderiam ter se ferido, assim, é muito importante terem atenção ao ambiente, identificar o perigo e agirem rapidamente. Isso exige pensamentos e decisões rápidas, sem planejamento, apenas instintos. — Harry falou com firmeza e simulou algumas situações.
Eles afastaram os móveis do Covil, espalharam almofadas e treinaram uns com os outros. Harry não hesitou em corrigir suas posturas ou atitudes hesitantes e duvidosas, também não deixou de acertá-los com feitiços até que se esquivar se tornasse algo instintivo. Quando foram almoçar estavam exaustos e meio estropiados, mas satisfeitos com o avanço. Sentados na mesa da Ravenclaw, Harry falou suavemente:
— O treino foi muito bom, pessoal, e mostrou a evolução da forma física de vocês, agora que teremos a piscina e academia, acredito que todos evoluiremos. — Disse Harry animado e ignorou o olhar de pânico dos amigos só de pensar em terem que enfrentar mais exercícios. — Acredito que podemos ir curtir o sol no jardim um pouco essa tarde, quero terminar o livro de animagus do Mason antes do chá com Flitwick.
Os três concordaram aliviados e os 4 se deitaram no jardim, relaxaram, conversaram e leram. Neville estava lendo outro livro policial de Conan Doyle que ele gostava muito, Hermione um sobre criaturas mágicas e Terry, o vol.2 de Defesa de Mason.
— Esses feitiços do Vol. 2 de Mason são muito bons, Harry. — Disse ele baixinho.
— O do Vol. 3 são ainda melhores, estou trabalhando neles agora e espero que, em mais alguns dias, eu os tenha dominado, então, começarei a ensiná-los. — Disse Harry virando mais uma página do seu livro.
— Quem precisa de Lockhart e suas trapalhadas quando se tem o Harry nos ensinando. — Disse Neville e Hermione abriu a boca para defender o professor, mas, ao ver que Terry acenava em concordância, decidiu ficar calada. No ano passado se cansara de defender McGonagall, Dumbledore, mesmo Snape, e estivera sempre errada, não continuaria cega aos defeitos dos adultos.
— A maneira de se tornar animagus ensinada pelo Mason é diferente, Harry? — Perguntou ela decidindo a mudar de assunto.
— Muito diferente, graças a Merlin, acho que se tivesse que fazer todas aquelas bobagens que o Sirius me disse, provavelmente, eu desistiria. — Disse Harry sorrindo animado e fechou o livro, marcando a página, olhando para o relógio, percebeu que era hora de ir para sua reunião. — O problema é que, durante a pesquisa que Mason fez na África, ficou claro para ele que você precisa se sentir pronto, quase como um chamado porque, se fizer o processo de transformação, mas não estiver preparado ou conseguir ser aceito pelo espírito do seu animago, não tem uma segunda chance. Poderia até repetir o processo dezenas de vezes depois, mas o seu animago jamais responderia a sua tentativa de contato.
— Isso parece intenso, não seria melhor ir pelo jeito mais simples, do Sirius? — Neville perguntou inseguro.
— Talvez, mas... — Harry parou e olhou o relógio, não queria se atrasar. — Olha, os dois jeitos têm suas vantagens e desvantagens, vocês terão que lerem o livro do Mason e decidirem por si mesmos. Preciso ir ou me atrasarei e já estou em problemas o suficiente, nos vemos depois.
Durante o caminho subindo as escadas da entrada, ele viu Luna e Ginny descendo, rindo e conversando, a garota loira tinha uma risada que parecia um grito, era bem contagiante. A ruiva ria jogando a cabeça para traz e seu rosto cheio de sardas estava corado e alegre, seus olhos chocolate tinham um brilho quente.
— Oi, Luna, olá, Ginny, divertindo-se? — Perguntou ele apressado.
— Oi, Harry, estamos conversando sobre porque Lockhart não para de piscar e sorrir, sabe, parece até que alguém o enfeitiçou. — Disse Luna sonhadoramente.
Harry riu divertido e olhando para a silenciosa Ginny, viu seus olhos arregalados o encararem, seu rosto estava muito corado e quando ela o viu olhando, abaixou a cabeça envergonhada. Sem saber o que fazer sobre isso, além de estar sem tempo, Harry apenas continuou subindo.
— Seria ótimo se alguém o enfeitiçasse para desaparecer. Nos vemos depois, meninas. — Disse ele e entrou no castelo.
Quando bateu na porta do Flitwick, percebeu que perdera a oportunidade de se desculpar e talvez quebrar o gelo com a garota ruiva. Precisava agir normalmente como fizera com Colin, assim ela perceberia que ele era um garoto normal e não um herói. A porta se abriu e Harry se concentrou no aqui e agora.
— Boa tarde, Harry, entre. — Disse um Flitwick, estranhamente sério, lhe dando passagem para o escritório.
— Boa tarde, senhor. Obrigado. — Harry se sentou no sofá da pequena saleta e ficou em silêncio enquanto seu chefe lhes servia um chá e pequenos sanduíches e biscoitos.
— Antes de lhe falar porque te chamei ao meu escritório gostaria de ouvir sobre o que aconteceu no trem com o Sr. Malfoy, a verdade, por favor. — Pediu Flitwick educadamente e indo direto ao ponto.
Harry suspirou e soltando a xícara, ergueu sua calça jeans e tirou a adaga do coldre a colocando sobre a mesa de chá. Depois pegou a xícara, bebeu um gole e, calmamente, começou a explicar tudo em detalhes, inclusive, que já escrevera para seus guardiões e padrinhos contando tudo.
— Me desculpa se o decepcionei, professor e se quiser me tomar a adaga, tudo bem, mas saiba que aprendi com meus erros e estou tentando controlar meu temperamento. — Disse Harry sincero.
Flitwick não disse nada e, flutuando a adaga até sua mão, a tirou da bainha e murmurou suavemente.
— Essa é uma linda peça, Harry, você a comprou? — Perguntou ele suavemente.
— Não, senhor, estava em meu cofre familiar. — Explicou Harry levemente confuso, esperava que seu professor estivesse gritando com ele.
— Essa é uma lamina feita por goblins, Harry e uma poderosa, apenas o desenho do cabo me é desconhecido, não me lembro de nenhum artesão goblin que assine com esse símbolo. — Disse ele pensativo.
— Oh! Eu não sei se foi um goblin quem fez a adaga, senhor, quer dizer, quando estava em meu cofre encontrei um livro antigo que listava as peças mais antigas e suas origens. Essa adaga ou Athame foi um presente ao meu antepassado, Linfred, é dito que ele ajudou uma família, assim como sempre ajudava a todos sem saber suas origens, bruxa ou trouxa. — Explicou Harry suavemente. — Essa família estava fugindo de ataques do exército do rei trouxa e acabou se perdendo dos outros, Linfred os alimentou, curou suas feridas e enviou dois de seus filhos para acompanhá-los até o acampamento. Ele pensou que eram ciganos, mas alguns dias depois um homem surgiu para agradecer, ele se apresentou como Ariosto Coeden Dderw, disse ser um... Altammer, foi o que consegui traduzir do escrito em latim e não sei o que significa. Mas aquelas pessoas que Linfred ajudou eram a sua família e, em agradecimento, ele presenteou meu antepassado com seu Athame cerimonial e disse que, ao usá-lo, suas magias e runas seriam mais poderosas, ao cortar os ingredientes, suas poções curariam mais forte e, ao matar um ser vivo, sua alma retornaria ao início de tudo.
— Inicio de tudo? — Flitwick mostrou curiosidade.
— Também não entendi, professor, mas pensei em conversar com o meu amigo centauro, Firenze, ele me falou sobre os antigos druidas e rituais, talvez ele saiba algo sobre o símbolo na adaga e o que significa. Apenas sei que, depois desse dia, Linfred decidiu usar essa árvore em nosso brasão, pois se sentiu honrado por receber um presente tão poderoso de um Altammer. — Disse Harry. — Quando vi no brasão eu identifiquei como uma faia, a árvore da vida, pensei que simbolizava, junto com o caldeirão, a cura e proteção da vida que Linfred defendeu por anos com suas pesquisas e trabalho incansável em ajudar a todos. Depois, entendi que a adaga veio antes que o brasão.
— Altammer... Estranho, tenho quase certeza que já li essa palavra, hum... — Flitwick acenou com a varinha e em segundos um livro veio flutuando em sua direção, ele o abriu e folheou, Harry identificou o livro como um de História Mágica Antiga. — Aqui, aqui está... Altammer era um dos nomes respeitosos usados para designar os Altos Elfos ou Lordes Elfos, seres ancestrais dos Elfos da Floresta.
— Altos Elfos? — Harry ficou curioso e animado.
— Sim, Harry, os Altos Elfos eram seres poderosos criados pela magia natural, grandes conhecedores da magia, feitiços, runas e rituais. Era uma grande honra e privilégio encontrar um deles, pois eram muito discretos, viviam isolados e, como eram pacíficos, não entravam em disputas por territórios com bruxos ou trouxas. Quando a população do Reino Unido cresceu cada vez mais e, com o mundo bruxo se tornando mais rígido e cheio de preconceitos, eles desapareceram, dizem que fizeram sua corte em Avalon, o reino das fadas, onde nenhum homem entrou, a não ser Merlin, e que os que ficaram são os que chamamos hoje de Elfos da Floresta.
Harry acenou, sentindo a emoção borbulhar, um presente de um Alto Elfo, um ser tão poderoso, isso explicava porque Linfred se sentiu tão honrado e começou a usar o símbolo no brasão da família. Pensando na Srta. Fiona, concluiu que ela poderia ser uma descendente desses seres antigos e saberia algo sobre o símbolo também.
"Harry, se essa adaga foi feita por um Alto Elfo, isso explica seu poder, eles eram aliados dos goblins e ensinaram ao meu povo o segredo da Metalurgia Mágica antes de se afastarem do nosso mundo. Mas, Harry, essa não é uma adaga qualquer, ela é um Athame cerimonial e, portanto, tem muito simbolismo e conexão com a magia natural. — Flitwick o olhou pensativo. — Me diga, quando você a tocou, o que sentiu? O que o fez decidir tirá-la de seu cofre?
— Senti que precisava mantê-la, que ela deveria estar comigo daquele momento em diante. Ainda sinto isso, senhor. — Harry explicou sincero.
— Bom, se você sentiu algo tão poderoso é porque essa adaga é importante e você deve ficar com ela. — Disse Flitwick e a flutuou devolvendo até o colo dele.
Harry o encarou chocado e pegando a adaga voltou a sentir a certeza que ela deveria estar com ele o tempo todo, isso era magia antiga e ele não iria questionar.
— Obrigada, senhor, por confiar em mim, não vou decepcioná-lo. — Prometeu Harry sincero.
— Essa adaga é poderosa, Harry, foi um presente honroso de um Alto Elfo, um ser antigo e nobre, para um grande bruxo, seu ancestral. Ela não foi feita para ameaçar crianças por discussões tolas, você percebe que envergonha seus antepassados e desmerece a posse de tal presente ao agir assim. — As palavras, além do tom de Flitwick eram duros e Harry empalideceu ao perceber o que fizera.
— Eu não tinha percebido, senhor, até agora, mas me senti envergonhado pelo que fiz assim que aconteceu. — Harry hesitou e suspirou cansado. — Isso não é justificativa, mas tenho sentido mais dificuldade de controlar minhas emoções desde que entrei no trem, não sei porque, exatamente, mas prometo que isso não...
— Não faça promessas que não pode cumprir, Harry. — Flitwick suspirou e o olhou com carinho. — Você é um jovem com personalidade forte e determinado que nem sempre se preocupa com as regras ou ordens de adultos. Uma mistura bem interessante de James e Lily, mas, seus pais, assim como todos os outros alunos desta escola tiveram tempo para serem adolescentes, para perderem o controle sobre seus temperamentos, se enganarem, corrigirem seus erros e crescerem aos poucos. Nós professores estamos acostumados ao drama e hormônios adolescentes, a convivência social difícil e muitas vezes violenta e injusta. — Flitwick parecia se sentir culpado quando continuou. — E você deveria ter tempo de passar por tudo isso sem tanto peso em seus ombros, deveria ser lhe dada a chance de ser apenas um adolescente com seus amigos e rivais, jogar quadribol, quem sabe, uma namorada em alguns anos.
Harry corou nesta última parte e seu chefe riu, suavemente, pois isso mostrava o quão jovem seu aluno era.
— Eu não entendo, senhor. — Disse ele.
— Depois que soube a verdade do que aconteceu naquele dia, a evidência de que você-sabe-quem está vivo e tentando retomar o poder, além da questão da profecia, decidi ir até o diretor e exigir que algumas mudanças sejam feitas em Hogwarts, imediatamente. — Explicou Flitwick e ao ver seu olhar preocupado, acrescentou. — Não disse a ele que sabemos sobre a profecia, apenas que você está em perigo e precisa ser treinado em magia mais avançada para que possa se defender. Começando com um bom professor de Defesa e...
Harry não pode evitar de bufar, sarcasticamente, ao pensar em Lockhart e, seu chefe acenou compreendendo, antes de continuar.
"... E talvez algumas aulas extras e mais avançadas em Feitiços e Transfiguração, quem sabe, começar Runas Antigas este ano. Bem, o currículo de Hogwarts precisa ser atualizado e se tornar mais exigente a algum tempo, assim, apresentei a ele a ideia de usarmos isso como uma desculpa para você ser mais exigido. — Flitwick deu de ombros e suspirou. — A verdade é que minha proposta era pensarmos juntos em como tornar possível que você sobreviva a você-sabe-quem, mas o diretor diz que cuidará de sua educação quando chegar o momento certo. Se recusou a considerar acelerar ou avançar os seus estudos e disse querer que, pelos próximos anos, você se concentre em ser uma criança, não quer sobrecarregar seus ombros com o que está por vir.
— E ele espera que eu o agradeça por isso? Por me fornecer péssimos professores, esconder fatos importantes para o meu futuro e, ainda, não me permitir treinar ou aumentar minhas chances de sobreviver? — Harry estava muito irritado.
— Ele não sabe que você já tem conhecimento sobre a profecia e se decidisse treiná-lo teria que lhe explicar o porquê. E eu o entendo. — Flitwick suspirou e sorriu para sua expressão surpresa. — Sim, como um adulto e professor que quer cuidar e proteger uma criança e aluno, eu o compreendo, pois se estivesse em minhas mãos essa difícil e pesada informação, eu hesitaria muito em colocar sobre seus ombros, Harry.
Harry refletiu e se lembrou de Terry dizendo que quando gostávamos de alguém queríamos protegê-los, impedir que fossem feridos ou perdessem suas inocências e compreendeu melhor o que disse Flitwick.
— Eu entendo, professor, mas no fim acredito que o senhor pensaria no que é melhor para mim e não no que o faz se sentir melhor sobre si mesmo. — Disse Harry com firmeza. — Dumbledore, neste momento, se sente confortado e generoso por me dar uma infância tranquila e se, no fim, eu sobreviver por sorte ou porque outras pessoas morreram por mim ou porque houve outro fenômeno mágico, como a proteção de minha mãe, ele sentirá que fez a coisa certa. Mas a verdade é que isso não é o melhor para mim, senhor... — Harry hesitou tentando explicar. — Desde que soube sobre a profecia, senti muitas emoções, professor, culpa, raiva, amargura, até alivio, mas, em nenhum momento senti medo porque, quando penso em morrer, tudo o que sinto é gratidão. Sou muito grato pelo tempo a mais que tenho de vida porque, nós dois sabemos, eu deveria ter morrido aquela noite, senhor. Na verdade, no momento em que Voldemort me escolheu, minha sentença de morte estava assinada, mas eu estou aqui... — Harry sorriu grato e emocionado. — O amor dos meus pais, suas vidas, me permitem estar aqui conversando com o senhor, respirando, sorrindo, fazendo amigos e, quem sabe, mais. — Ele usou as costas da mão para limpar uma lágrima que escorreu por seu rosto, mas não deixou de sorrir. — Morrer não me assusta, professor, o que me deixa apavorado é não ser forte o suficiente para cumprir a profecia e destruir Voldemort antes disso. Se meus dias ou anos aqui estão contados, então os dele também estão e, a cada dia que estudo e aprendo um novo feitiço, me sinto mais perto disso. Às vezes, penso que é impossível, mas, então, olho para os meus amigos e decido que farei ser possível, lutarei até o fim, professor, porque para mim o impossível seria desistir.
Eles ficaram em silêncio e Flitwick parecia emocionado.
— Você sempre tem a capacidade de me surpreender, Harry e está certo em dizer que busco paz de espírito quando lhe pergunto se tem certeza que quer sacrificar sua infância e talvez sua vida. — Flitwick o questionou hesitante. — Você pode ser só um aluno ou, tentar ser, esquecer tudo sobre a profecia, Voldemort e comensais da morte por alguns anos.
— Fugir? Não fisicamente, mas, emocionalmente, fugir da verdade? Agir como se eu não soubesse o que me espera, a verdade do porque meu pais foram caçados, traídos e mortos? — Harry tinha uma expressão de nojo. — Com todo o respeito, professor, se Dumbledore não pode encarar a verdade e mostrar um pouco de respeito aos meus pais, problema dele. Não tenho como voltar atrás e não voltaria mesmo se pudesse, pois, saber a verdade me dá propósito. Mesmo sem a profecia, eu lutaria contra Voldemort e vingaria meus pais, mas saber que, por alguma razão mágica, estou destinado a ter poder para destruí-lo quando esse momento chegar, me conforta, Prof. Flitwick. — Harry o encarou com determinação. — Eu acredito, professor, tenho fé que posso fazer isso, se usar minha inteligência, além da minha magia e, com o apoio dos meus amigos, sei que posso fazer isso. Eu... me sinto grato e esperançoso quando penso na profecia, professor e, sei que se não sobreviver, estarei deixando um grande legado aqui neste mundo.
Mais uma vez eles ficaram em silêncio e Harry sentiu vontade de contar sobre a GER e seu testamento, mas antes que pudesse falar, seu chefe se adiantou.
— Muito bem. Se você está seguro sobre isso, quero lhe oferecer o meu conhecimento para o seu treinamento. — Disse ele decidido.
— O que? — Harry ficou um segundo sem entender. — O senhor irá me treinar?
— Sim, eu tenho dois Mestres, um em Feitiços e outro em Defesa. Quando era jovem, ser meio goblin e meio bruxo me tornou um alvo de puros-sangues e goblins, para sobreviver tive que aprender a lutar, primeiro com espadas e depois com um Mestre em Defesa. Também entrei em vários torneios de duelos pela Europa e, quando minha reputação se espalhou, consegui respeito e tranquilidade para me dedicar ao meu maior interesse, Feitiços. — Flitwick explicou sincero. — Isso não me fez baixar a guarda, Harry, continuei estudando e foi só quando estava aqui, em Hogwarts, como professor que me senti, verdadeiramente, seguro.
— Os goblins também o perseguiam, senhor? — Harry se mostrou surpreso.
— Sim. Meu povo goblin tem muito orgulho de sua cultura, de seu trabalho e de nunca precisar pedir nada a um bruxo. As guerras nunca foram perdoadas porque os goblins perderam e, para os bruxos puros-sangues, foi uma vitória agridoce porque eles nunca conseguiram obrigar os goblins a revelar seus segredos ou deixaram de precisar deles. — Flitwick sorriu sem diversão. — Eles escravizaram ou isolaram diversos seres mágicos, Harry, mas tiverem que negociar a paz com os goblins para terem acesso ao seu trabalho de Metalurgia que, inclusive, produz o dinheiro dos bruxos. Eles fazem isso com desprezo, com preconceito, nunca vendo os goblins com igualdade ou respeitando sua contribuição para a nossa sociedade, assim os goblins, orgulhosos, devolvem na mesma moeda. Eu, ser meio bruxo, lhes dizem que minha mãe se rebaixou a um bruxo e isso me torna motivo de seu desprezo, teriam me matado se tivessem a chance, mas, quando descobriram sobre mim, eu já sabia me defender. Matei mais de um goblin ou bruxo ao longo da minha vida, Harry e isso me conquistou o respeito dos goblins, não aceitação, ainda não sou bem-vindo na Cidadela, mas eles não me atacarão. Quanto aos bruxos, sou aceito apenas entre o não puristas, os outros me matariam se tivessem a oportunidade.
Harry acenou, respeitando seu professor ainda mais, imagine, uma vida inteira olhando para todos os lados e esperando ser atacado, nunca sendo verdadeiramente aceito em qualquer dos dois povos ao qual pertencia. Entendeu também a importância dos goblins, lamentando que mais um povo era tratado tão horrivelmente pelos bruxos que uma relação ou amizade era encarado com tanto desprezo.
— E o senhor irá me ensinar a duelar, senhor? — Ele perguntou entendendo onde seu chefe queria chegar.
— Sim, Harry, irei lhe ensinar o mesmo que aprendi ao longo da minha vida, a sobreviver. — Flitwick o encarou nos olhos seriamente. — Mas isso tem um preço e você deve estar preparado, ter certeza de sua decisão porque, quando estiver sendo treinado a usar uma espada ou uma adaga, mortalmente, não poderá ser apenas um adolescente hormonal e destemperado. Você entende isso, Harry? Entende que, se eu lhe ensinar como matar com apenas uma maldição, ela não poderá ser dirigida a um rival tolo em uma discussão sem sentido?
Harry engoliu em seco, entendendo onde seu professor queria chegar. Se ele perdesse a calma como fizera nos últimos dias ou com seu tio a algumas semanas, poderia matar alguém, com ou sem intenção. Seu O-Sensei Koolang lhe dissera como era importante manter a frieza em uma luta seja verbal ou física, que o foco de um guerreiro deveria ser a defesa e finalizar o adversário de maneira justa e honrosa. Que ele nunca deveria usar seu conhecimento para atacar ou bullying os mais fracos, para machucar sem necessidade ou com crueldade um inimigo. Ele poderia fazer isso? Ter controle e frieza em seu temperamento, em suas emoções para ser um guerreiro e duelista perfeito? Não, isso era impossível, como Terry lhe dissera a alguns dias, eles estavam crescendo e amadurecendo, Harry não poderia se tornar um adulto maduro ou perfeito do dia para a noite, mas ele poderia tentar, se esforçar para buscar esse controle e se tornar o que precisava para honrar seus pais, orgulhar seus mestres e derrotar Voldemort de uma vez por toda. A verdade é que ele estava cercado de pessoas que poderiam e queriam ajudá-lo, seus amigos, os Boots, Sirius, King e Koolang, agora seu professor e chefe, ele sabia que precisaria de todos eles e seus ensinamentos, assim, Harry precisaria usar sua inteligência, se manter focado e treinar. Claro, essa escolha lhe tiraria a permissão de ser apenas um garoto normal, mas, quando ele fora normal? Se fugir não era uma opção, então, o que devia fazer era ir na direção oposta e Flitwick estava lhe oferecendo a chance de, talvez, sobreviver quando tudo acabasse.
— Eu sei o que quero, o que preciso e, se o senhor me treinar e me ensinar, prometo que me esforçarei com tudo de mim para ser um bom guerreiro, incluindo controlar meu temperamento. O senhor está certo em dizer que não posso prometer que nunca cometerei erros, isso seria impossível, mas posso lhe garantir que nunca desistirei de tentar o meu melhor, Prof. Flitwick. — Harry o encarou nos olhos, sincero e determinado.
Flitwick o encarou de volta, talvez medindo sua sinceridade ou a sua força para se manter determinado e focado, mas a verdade é que ele já sabia disso. Harry mostrava, claramente, que não se afastaria de seus planos e a luta com Quirrell e Voldemort era um exemplo. Quando Flitwick assistiu na penseira a luta, seu foco se manteve em Harry, em sua determinação, frieza, era óbvio que o menino estava planejando e agindo como um duelista desde o momento em que entrou na câmara. A conversa e jogo de palavras, os movimentos sutis, nada era por acaso, tudo intencional e feito de maneira inteligente, usando o ambiente, o ego de você-sabe-quem, a fraqueza de Quirrell. Impressionado era pouco para se descrever e foi nesse momento que Flitwick decidiu que o menino precisava ser treinado, não apenas para ter os recursos necessários para sobreviver a você-sabe-quem, mas porque ele era talentoso demais. Harry Potter era um duelista natural e, mesmo ele, Flitwick, não era tão bom. A verdade é que para ele a violência não viera naturalmente, Flitwick era um Ravenclaw pacífico, inteligente e apaixonado por Feitiços, nunca teria entrado em uma única luta por sua própria escolha, mas o instinto de sobrevivência falara mais alto e o forçara a se tornar um duelista. Harry não precisava se forçar, pois mentalmente, magicamente, talvez, até emocionalmente, a luta, a violência, o pensamento estratégico de derrotar o inimigo, faziam parte dele. Sua ação com o menino Malfoy mostrava isso, foi um erro, claro, mas foi efetivo, o garoto se paralisara e fugira de medo sem nem sacar a varinha, tudo o que Harry teve que fazer foi lhe ameaçar com uma adaga e Draco enxergou em seus olhos que sua ameaça não era vazia. Qualquer outro que fizesse o mesmo, Terry, Neville, mesmo Flitwick em seus tempos, não seria o suficiente para afastar o inimigo. O erro estava em considerar Draco um inimigo, em desperdiçar tempo com um garoto, cujas as atitudes, mostravam seu caráter, assim, Harry deveria ignorá-lo e não aceitar suas provocações. Neste ponto, sua juventude, imaturidade e temperamento se mostrou e Flitwick entendeu, mas, para Harry ter a chance de vencer você-sabe-quem, seu treinamento deveria começar agora e não quando estivesse pronto, como defendeu Dumbledore. Apenas, Harry precisaria pular várias etapas de desenvolvimento e amadurecer mais cedo, para que o treinamento não se mostrasse um perigo para garotos tolos como Malfoy.
— Muito bem. Quero que saiba que, antes de conversar com você, falei com os Boots e seu padrinho e eles concordaram com seu treinamento. Assim como eu, eles querem que você sobreviva, Harry, e fico orgulhoso que tomou a iniciativa de contar e não esconder ou mentir sobre o que aconteceu no trem, isso me mostra que você realmente se arrependeu e entendeu que suas ações foram muito erradas. — Flitwick suspirou. — Mas, Dumbledore não deve saber o que faremos, enquanto ser despedido não me agrada, esse seria o menor dos nossos problemas porque, se eu deixar Hogwarts, dificilmente, poderei continuar seu treinamento, com exceção dos verões, e nós sabemos que isso não seria o suficiente.
Harry acenou ansioso e empolgado, de repente, o pensamento de que ele poderia vencer Voldemort, não lhe parecia tão absurdo.
— Tudo bem, professor, posso ser discreto e meus amigos também, estamos aprendendo oclumência e pretendo me manter longe de Dumbledore. — Harry considerou que esse era outro motivo para não fazer tolices, não chamar a atenção do diretor. — Mas como faremos isso? Quer dizer, onde e quando?
— Bem, não é conhecido por muitos, mas, além do laboratório de Poções e os aposentos de Rowena, a área por traz da estátua na torre Ravenclaw tem uma área de treinamento e duelos. Antigamente, Hogwarts promovia torneios de duelos entre as casas, mágicos e de espada, portanto, cada torre tem sua área para treinamentos. O que precisaremos fazer é sermos discretos, como você disse, trabalhar de acordo com sua agenda e ainda ter você pela escola em diversos momentos. — Flitwick sorriu suavemente. — Eu fingi concordar com Dumbledore, que você é muito jovem, mas que quando estivesse no 4º ou 5º ano voltaríamos ao assunto. Me diga como está sua agenda, Harry e podemos seguir a partir deste ponto.
Sorrindo, Harry, rapidamente, lhe disse seus horários e Flitwick os copiou em uma agenda nova e depois comparou com a dele.
— Sim, os sábados sem aulas de carpintaria e os domingos a tardes seriam os ideais, mas, se você desaparecer sempre nestes horários, acabaria por chamar a atenção, precisamos ser flexíveis, hum... aqui, veja isso pelo próximo mês. — E, assim, com um aceno de varinha dois dias na semana aleatórios se encaixaram nas duas agendas. Em uma semana, seria na segunda à noite e no sábado à tarde, na outra, sexta-feira à noite e no domingo à tarde e assim por diante. — Isso não atrapalha seus horários de aulas, treinos de quadribol, deveres de casa e estudos extras.
— Parece bom para mim, senhor e, esses estudos extras, normalmente, estou ensinando Defesa aos meus amigos, assim eles são bem flexíveis, professor. — Explicou Harry e Flitwick ficou confuso.
— Pensei que eram aulas de preparação?
— Não, senhor, nós fazemos os deveres de casa e preparações, sempre adiantados em uma semana, quando temos todos os textos lidos e preparados para a outra semana, além dos deveres, usamos essas aulas extras para treinar a frente e para os estudos trouxas. — Harry pegou a pena e um pergaminho, anotando a grade de estudos dos 4. — Terry nos ensina História mágica e trouxa, Geografia e Inglês trouxa. Hermione está nos ensinando Transfiguração, Biologia, francês e latim, Neville, ensina Herbologia e eu ensino Matemática, Física, Feitiços, Poções e Defesa.
— Impressionante. Eu não tinha ideia que vocês estavam fazendo estudos trouxas também e, muito menos, que estavam estudando essas disciplinas a frente, mas, pensando bem, deveria saber que você não perderia tempo. — Flitwick suspirou e mais uma vez não conseguiu deixar de pensar em como seu diretor era um tolo.
— Sim, bem, na verdade mais de 50% do tempo de estudo extra é dedicado a Defesa, professor, tenho lido os livros de Mason a frente e, depois que domino as maldições, ensino meus amigos. Nos outros assuntos, com exceção de Transfiguração, que a Hermione domina, estamos todos, basicamente, no mesmo ponto e apenas dividimos os assuntos para que a aula seja preparada por um de nós e não sobrecarregue ninguém. Dividimos de maneira que, cada um, prepare e ensine o assunto em que é melhor e, claro, Neville, não faz estudo trouxas, ele usa esse tempo para preparar aulas de Herbologia ou para alguma pesquisa. — Harry explicou corando pelo elogio. — Isso nos ajuda porque estamos sempre adiantados em nossos estudos, mas, o mais importante, é todos aprendermos Defesa mais avançada e, eles entendem o porquê, depois do que aconteceu com Quirrell.
— Isso é muito inteligente, Harry e se não fosse pelo fato de que chamaria a atenção, negativamente, não me importaria de ter mais alguns pupilos, infelizmente, seria impossível esconder o sumiço dos 4 e acredito que devemos nos concentrar em você por agora. — Disse Flitwick sincero.
— Eu entendo, senhor e eles entenderão também, posso os ensinar o que o senhor me ensinar, professor?
— Sim, você pode, mas terá que ser um bom mestre e dar o exemplo, Harry, isso quer dizer que, não adianta lhes dizer para usarem seus conhecimentos para se defenderem, quando você os usa para atacar crianças tolas. — Flitwick disse a ele em tom de aviso e Harry acenou entendendo a importância disso, ele era um líder para seus amigos e lhes mostrara um péssimo exemplo com sua atitude, isso explicava porque Hermione estivera tão zangada.
— Eu entendo, professor e não vou decepcioná-los. — Ele prometeu com firmeza.
— Eu sei que não, Harry, e estou impressionado com até onde você e seus amigos estão indo, a dedicação de vocês me diz muito, acredite. — Flitwick acenou suavemente para a agenda. — Queria lhe dizer que pretendia convidá-lo para o Clube de Feitiços, mas, com essa agenda e, como acredito que tem interesse em realizar um projeto de pesquisa, acredito que isso o sobrecarregaria, desnecessariamente. Como você disse, o importante é Defesa e me conforta saber que você já está aprendendo Feitiços mais avançados por si mesmo.
Harry sorriu emocionado, a ideia de fazer parte do Clube, ao qual sua mãe pertencera, o atraía, mas sabia que Flitwick estava certo e, entendeu que, esse era o tipo de coisa que perderia de hoje em diante.
— Tudo bem, professor, apenas saber que o senhor pretendia me convidar já me alegra muito. — Disse ele e, se lembrando de seu Grimoire, acrescentou. — Tem outra coisa que quero acrescentar aos meus estudos, senhor, quando estive em meu cofre, tomei posse do meu Grimoire e boa parte dele está escrito em galês, assim pretendo perguntar se a professora Babbling me ensinaria a língua.
— Interessante. Os Grimoires antigos têm feitiços poderosos e, na maioria das vezes, familiares ou ligado ao sangue, assim, entendo seu interesse. — Flitwick olhou pensativo para a sua agenda. — Conversarei com Bathsheda e perguntarei de seu interesse e disponibilidade, mas sugiro que não tenha mais do que 1 hora de aula por semana, Harry, para não se sobrecarregar.
— Isso seria incrível, Prof. Flitwick e, 1 hora é mais do que suficiente, não tenho pressa em me tornar fluente, apenas em traduzir o Grimoire. Ah, diga a Prof.ª Babbling que estou disposto a pagar pela aula e, bem, pagarei pelo treinamento que o senhor me fornecerá também, senhor. — Disse Harry formal e justo.
— Isso não será necessário de minha parte, Harry, meu oferecimento é por muitas razões, que já discutimos, não por dinheiro. Creio que Bathsheda pensará o mesmo, mas lhe darei seu recado. — Flitwick respondeu no mesmo tom e Harry acenou sabendo que insistir poderia ofendê-lo.
— Obrigada, professor, por tudo o que está fazendo, de verdade. — Harry disse grato e sincero.
— De nada, Harry e não será um trabalho muito difícil agora que vejo como está engajado em seus estudos e treinamentos. Isso tudo me surpreendeu, confesso, e continuar seus estudos trouxas é uma grande ideia, todos os nascidos trouxa deveriam fazer o mesmo.
Harry hesitou e suspirando decidiu que tinha que ser sincero e confiar em seu chefe de casa.
— Bem, a verdade é que ninguém é muito claro com eles quando lhes entregam suas cartas e explicam sobre Hogwarts, muitos veem para cá acreditando que ser um bruxo é sua nova vida e que não precisam mais do mundo trouxa. — Harry disse com firmeza e então contou a ele sobre o que Terry e ele fizeram no ano passado, inclusive sobre os infiltrados nas aulas dos puro-sangue. — E nos reunimos com os nascidos trouxas que começaram este ano, contamos a verdade, e todos continuarão com seus estudos trouxas, professor.
— Isso foi realmente uma grande ideia, Harry. — Flitwick tinha um sorriso orgulhoso. — Nunca contamos a verdade porque tememos que seus pais não lhes permitam vir para Hogwarts se soubessem e, isso, bem, seria uma tragédia, poderia significar o fim do mundo mágico britânico. — Disse Flitwick mais seriamente.
— O fim...? Não entendo, senhor. — Harry estava além de confuso.
— Imagine se os nascidos trouxas não viessem a Hogwarts, Harry? Geração após geração sem novos alunos, apenas os alunos puro-sangue. — Apontou Flitwick.
— Mas os mestiços... — Harry se interrompeu entendendo.
— Mestiços não existiriam, Harry, sem nascidos trouxas nunca haveriam mestiços e, somando os dois, são mais de dois terços dos alunos da escola. Não apenas, Hogwarts estaria vazia, mas o mundo mágico também e, claro, podemos imaginar o Ministério incentivando os casais a terem mais filhos, mais ainda não seria o suficiente. Haveria muitos primos casados com primos de graus diferentes e não demoraria muito para que isso se refletisse nos nascimentos, sejam na magia ou saúde física e mental das crianças. — Flitwick viu sua expressão confusa. — Você já leu sobre a endogamia, Harry?
—Não, senhor, nunca ouvi essa palavra. — Harry respondeu.
— Endogamia acontece quando existe o acasalamento entre indivíduos aparentados, ou seja, que tenham o mesmo sangue. O mundo mágico sabe muito pouco sobre isso, mas com o passar dos séculos ficou claro para os curandeiros que os bruxos puros-sangues tinham cada vez menos filhos, gravidezes abortadas, muitos bebês nasciam mortos ou adoeciam e morriam nos primeiros anos da infância. — Flitwick suspirou cansadamente. — Então, o número de Abortos cresceu tanto que se tornou impossível ignorar a quantidade de crianças sendo mortas pelos pais, o Ministério proibiu e elas começaram a serem abandonadas nas ruas de Londres.
Harry empalideceu chocado e sem compreender como o fanatismo ia tão longe a ponto de alguém matar uma criança, seu próprio filho.
— Mas porque isso acontece, professor? — Harry questionou angustiado.
— Eu não entendo de cura o suficiente para explicar os termos técnicos, Harry, mas, basicamente, os descendentes de bruxos que praticam a endogamia, geração após gerações passam a nascer menos apto em todos os aspectos, físicos, mentais e mágicos. É como se, os corpos, o sangue, a magia e a mente se enfraquecessem, quanto mais parentes do mesmo sangue se casassem e procriassem, não era incomum até irmão com irmãos. — Explicou Flitwick e Harry fez uma careta se lembrando das gêmeas Carrows. — Os puristas promoveram casamentos entre parentes para manter a pureza, mas à medida que as gerações passavam, seus descendentes começaram a nascer com fisionomias disformes, retardo nas habilidades motoras e intelectuais, doenças mentais, impotência e esterilidade. O alto índice de mortalidade infantil e dificuldade de gerar descendentes tende a se agravar conforme a endogamia persiste, o que aumenta o risco de extinção completa.
— Merlin! Se não houvessem nascidos trouxas logo não existiriam mais bruxos. — Harry estava em choque.
— Sim, ao perceberem isso, muitas famílias começaram a fazer arranjos de casamentos assim que as crianças nasciam com famílias que não tinham parentescos consanguíneos, mas ainda fossem puros. Alguns fariam exceções, se houvessem alguns mestiços entre os ancestrais, isso era aceito, talvez em detrimento a um acordo financeiro menos vantajoso para uma das partes. — Harry franziu o cenho confuso, o que acordo financeiro tinha a ver com casamento? Mas não interrompeu o seu professor. — Outras famílias mais extremas em seus pensamentos puristas nunca perderam o hábito de casamentos consanguíneos. Mas o fato é que, apesar do quanto eles odeiam os nascidos trouxas, sem eles o mundo mágico estaria em uma situação terrível, assim, nós, os professores de Hogwarts e os professores antes, não dizemos nada que possa levar os pais a não enviarem seus filhos para nós. Quer dizer, já é difícil pedirmos que os enviem a um mundo novo e desconhecido, do qual eles não tem acesso e não são poucos que nos dizem não, Harry. Então, temos que convencê-los e o entusiasmo da criança ajuda, mas se lhes contássemos sobre o lado sombrio do nosso mundo... — Flitwick suspirou e o encarou com um sorriso. — Mas sua ideia e do Terry, realmente, pode ser o que eles precisam, saber a verdade, mas ainda estar aqui e lutar por nosso mundo.
— E, no entanto, muitos foram embora ao longo dos anos, professor, ou trabalham em subempregos, com péssimos salários e tratamentos. Só posso imaginar quantos mais bruxos ou quanto maior o nosso mundo seria, mas eu tive uma ideia de como mudar isso também, senhor e muita ajuda para pôr em prática. — Harry sorriu e lembrou a Flitwick muito seu pai, James. — O senhor já ouviu falar da GER?
— Hum... sim, na verdade, eu ouvi que é uma empresa que está contratando nascidos trouxas e mestiços por bons salários, tive alguns alunos que se formaram no ano passado me escrevendo e contando as novidades. Também soube que eles estão comprando alguns pontos comerciais e abrindo algumas lojas. — Flitwick disse curioso.
— Bem, professor, para essa história, acredito que o senhor terá que providenciar mais chá. — Disse Harry com o sorriso aumentando.
Flitwick estava, claramente, confuso, mas concordou com seu pedido e com um aceno da varinha lhes serviu mais chá e, enquanto bebiam, Harry lhe contou sobre a ideia de infiltrar os nascidos trouxas no mundo mágico, a criação da GER e tudo o que foi feito e será feito nos próximos meses. Seu chefe ficou, visivelmente, emocionado ao perceber a grandiosidade do projeto e quantas vidas mudariam completamente para melhor.
— Harry... eu... não tenho palavras... Algo tão simples e feito com tanta inteligência e delicadeza. — Flitwick usou um lenço para enxugar os olhos das lágrimas de emoção. — Todos aqueles informais, boas pessoas, se arriscando, Merlin, o mundo mágico nunca será o mesmo depois disso, tenho certeza.
— Não resolve todos os problemas, professor, ainda não conseguimos mudar as leis ou as políticas, mesmo aqui, em Hogwarts, os pensamentos puristas estão no comando. A GER e tudo o que a envolve é apenas um passo de muitos que precisamos dar e, acredito que se nos unirmos, poderemos fazer muito, sabe. — Disse Harry como sempre apaixonado pelo seu projeto e ideias.
— Sim, você está certo em apontar que ainda faltam muitos passos e, quando os puros-sangues descobrirem seus movimentos, tentaram detê-los, não duvide disso, mas tenho a impressão que você não permitirá que nada nem ninguém o detenha. Sinto muito ter duvidado por um segundo da sua determinação em sobreviver, Harry. — Flitwick disse solenemente.
— Não sou ingênuo, professor, em acreditar que posso acabar com o preconceito ou que o mundo mágico, de repente, será perfeito, mas não desistirei de tentar que as nossas leis e governos sejam justos para todos. — Harry olhou para as mãos pensando se deveria dizer como se sentia, apenas seus amigos sabiam. — Serei sincero, senhor, se eu sobreviver, quero viver e que meus filhos vivam em um mundo melhor e mais seguro, mas, se eu morrer, ainda quero que a luta continue, assim, fiz um testamento determinando que minha fortuna se destinará a continuar os projetos que iniciei. Tenho muitas outras ideias e quero colocá-las em práticas porque, se eu não conseguir, meus amigos continuarão essa luta por mim e honrarão a minha vida e dos meus pais, eles me prometeram. Mas, professor... — Harry hesitou emocionado. — Eu quero muito viver.
Flitwick engoliu o bolo de emoção em sua garganta e acenou.
— Bom, então, vamos começar a trabalhar duro para que isso aconteça. Te espero no sábado à tarde, Harry.
Durante o jantar, Harry não conseguia tirar a conversa longa e difícil que tivera com Flitwick de sua mente e, quando perguntado, prometeu contar tudo aos amigos na tarde seguinte, depois das aulas. Infelizmente, seu plano não funcionou porque, durante o almoço, ele recebeu um bilhete de Dumbledore lhe pedindo para ir ao seu escritório às 16 horas. Harry sabia que isto estava vindo e se sentia preparado, ainda assim, ao fim das aulas e, depois de um rápido lanche na cozinha, ele seguiu para o Covil e passou quase meia hora antes do encontro meditando e fortalecendo sua oclumência. Antes de sair, combinou com os amigos aflitos de encontrá-los de volta no Covil.
A gárgula e a escada pareciam estar distantes na lembrança, assim como o caminho até o 3º andar, Harry não se lembrava deles, concentrado e preparado, bateu na porta.
— Entre, Harry.
Ele obedeceu e encontrou Dumbledore em pé, olhando pela janela, pensativamente. Sua atenção se desviou, imediatamente, para uma presença nova e, fascinado, Harry se aproximou da linda ave vermelha que se alimentava de algumas nozes e frutas em seu poleiro. Ao se perceber olhada, Fawkes o encarou de volta e Harry sorriu, sem hesitar estendeu sua magia em cumprimento, foi instintivo e natural, mostrar seu respeito e honra por conhecê-lo, sem que palavras sejam necessárias. A fênix se agitou abrindo as asas e trilhou ou, talvez, cantou suavemente, Harry sorriu ainda mais sentindo seu corpo esquentar, seus medos e dúvidas desaparecerem.
— Obrigado. — Disse e acenou, respeitosamente, Fawkes retribuiu e depois voltou a comer, tranquilamente.
Harry olhou para Dumbledore e o encontrou o encarando, curiosamente, não parecia zangado ou frio, na verdade, parecia quase amigável, algo inesperado.
— O senhor me chamou, diretor? — Perguntou Harry decidindo tomar a iniciativa.
— Acredito, Harry, que sabe porque eu lhe chamei, ouso até a dizer que, você sabia que nossa conversa continuaria em um momento posterior quando nos separamos a algumas semanas no Chalé Boot. Estou errado? — Disse Dumbledore suavemente.
— Não, o senhor está certo, na verdade, me surpreendeu que esse momento demorou tanto para acontecer, se me permite. — Harry sorriu com sarcasmo ao dar um pequeno jab, amigável, claro.
— Bem, considerando tudo, acredito que você ganhou o direito a tal observação. —Dumbledore fez um gesto com as mãos como se desculpando por sua falha. — Infelizmente, depois daquele dia, estive muito envolvido com outras coisas, naquela mesma manhã, você deve ter sido informado, fui obrigado a renunciar ao meu cargo de Chefe Supremo na ICW e me afastar de ser o representante do nosso Ministério, que, aliás, estava em um caos além das palavras. Ainda está, na verdade, e fui muito exigido para concertar os estragos feitos, além de ter que cuidar da preparação para o início do ano letivo, que incluiu uma piscina e academia.
Harry teve que se controlar para não rir, pois Dumbledore parecia um menino chateado pelo caos e falta de controle ou, talvez, pelo absurdo de ser obrigado a fazer algo que não queria e ainda disse as palavras piscina e academia como se fossem monstros invadindo sua escola. Nossa, será que ninguém nunca o desafiava, o questionava ou apenas tornava sua vida um pouco mais difícil?
— Devo lhe dizer que sinto muito por sua vida tão difícil? — Harry sabia que não devia, mas não conseguiu evitar lhe dar só mais um jab e prometeu se comportar depois disso.
Ele esperava que seu comentário o deixasse zangado, mas, ao em vez disse, ele riu levemente.
— Não, Harry e, ainda me surpreende, que você tem sempre uma resposta, uma boa resposta, para tudo. — Disse ele e depois mais sério o encarou nos olhos e disse. — Você me enganou.
Não era uma pergunta e Harry não estava ali para segurar suas máscaras, na verdade, com exceção do seu novo treinamento, ele estava mais que disposto a ser verdadeiro. Assim, ele apenas deu de ombros e confirmou o que os dois já sabiam.
— Sim, eu enganei.
— Você nunca pretendeu deixar a casa da sua tia como me ameaçou naquele dia. — Tornou a dizer Dumbledore sem surpresa por sua confirmação.
— Nunca. A partir do momento que eu soube sobre a proteção, um presente dado a mim por minha mãe, seu último presente e gesto de amor para mim e que lhe custou sua vida... — Harry parou emocionado. — Eu jamais, nem por um segundo, pensei em desperdiçar seu amor, seu sacrifício.
— Eu não sabia disso e você usou esse fato, usou o que aconteceu com seu tio para me chantagear, no entanto, era um blefe, muito bem pensado, orquestrado com inteligência e detalhes quase geniais, eu diria. — Dumbledore disse e, em seu tom, parecia haver admiração. — Eu, raramente, fui enganado, Harry e jamais por um garoto de 12 anos, confesso que estive oscilando nos últimos dez dias, desde que percebi a verdade, entre me zangar ou me admirar com você.
Harry não sabia o que pensar ou dizer e por isso esperou, mas Dumbledore apenas o olhou de volta o analisando.
"Diga-me, seu objetivo com esse blefe era tão importante para você? Ou me enganar foi apenas uma espécie de vingança por minhas ações ou inações em sua vida? " — Questionou ele parecendo outra vez um menino inconformado por ter sido enganado e querendo entender o porquê.
Harry não pode deixar de rir divertido.
— Suponho que, se tratando do senhor, essa seja uma pergunta justa, ainda assim, a resposta é muito simples. Nem tudo se trata do senhor, diretor. — Harry foi sincero e sorrindo acrescentou. — Tive alguma satisfação em enganá-lo? Claro que sim. Quem não gostaria de voltar, apenas um pouco, a quem lhe fez tanto mal? Mas, minhas ações eram por mim e, apenas por mim, eu queria o controle sobre minha herança e, mais do isso, eu queria suas mãos bem longe dela.
Isso pareceu chocar Dumbledore que parecia não entender suas motivações.
— Harry... — Sua voz parecia magoada. — Eu sei que cometi erros terríveis com você e preciso me redimir, mas jamais sua herança esteve em perigo. Tomei algumas decisões difíceis, mas...
— Como paralisar as fazendas. — Apontou Harry se esforçando para controlar seu temperamento.
— Sim, entenda que, eu não tinha tempo para administrar todas aquelas inúmeras propriedades, negociar contratos, preços e mercadorias, supervisionar os trabalhadores, a produção e as entregas. Sei o valor de galões em seu cofre e acreditei que alguns anos sem lucros, diante de tudo, seria o menos importante. — Dumbledore apresentou sua justificativa em tom persuasivo.
— Neste último ponto o senhor está certo, realmente, diante dos inúmeros empregos que foram perdidos com o fim da produção das fazendas, os negócios que não foram feitos e que levaram outras empresas a terem dificuldades, o lucro para o meu cofre é o menos importante. — Harry disse com frieza. — Mas, o senhor se lembra da nossa última conversa, quando eu lhe disse que outras alternativas poderiam ter sido pensadas, consideradas, se ao menos houvesse um pouco de esforço, interesse, preocupação?
— Sim, eu me lembro, Harry. — Disse Dumbledore muito sério.
— Sabe quanto o senhor Corner ganhava por mês em seu contrato com os Potters para administrar os negócios da minha família? — Harry sorriu ao ver seu olhar levemente surpreso. — Sim, eu fiz as contas, são 300 galeões por mês, isso nos leva a 3.600 galeões por ano e, surpreendentes, 36 mil galeões durante os 10 anos desde que o senhor se tornou meu tutor. E me diga, diretor, o que Corner fez para abocanhar esse dinheiro todo e justificá-lo?
Os dois se encararam nos olhos e Dumbledore não respondeu, o silêncio se prolongou até que Harry sorriu.
— Nada. O silêncio é uma boa resposta. Ele não fez nada porque o senhor não confiou nele para fazer o seu trabalho, Corner tinha um contrato magicamente vinculativo assinado por meu bisavô Henry e seu pai, Carter Corner e, o senhor, se achou no direito de questionar e desonrar tal acordo. — Harry o encarou ainda esperando uma resposta, mas nada veio. — Eu sei porque o senhor agiu assim.
— Tenho certeza que pensa que sabe, mas você não sabe tudo, Harry, muito menos sobre mim. Minhas escolhas podem ter sido equivocadas, mas não foi com intenção de prejudicar ninguém e muito menos você. — Disse ele e seu tom saiu duro, talvez fosse prudente recuar como vira Malfoy fazer a alguns dias, mas Harry não era um covarde.
— O senhor não se cansa de dizer isso? Não se cansa de viver de arrependimentos? De dizer que não teve má intenção, que não queria machucar ninguém depois de fazer isso de novo e de novo? Acha que isso é justificativa? Foi sem querer e, então, está tudo bem? — Harry devolveu no mesmo tom duro e viu Dumbledore ficar meio pálido e parecer, estranhamente, abalado. — O senhor agiu assim porque gosta de comandar tudo, de planejar e decidir cada detalhe, nunca lhe ocorreu se aconselhar com uma única alma nesta terra sobre mim e o que era melhor para minha infância e agiu assim sobre minha herança também. Corner não poderia me roubar, ele não poderia tomar decisões grandes demais e prejudiciais, mas, com certeza, ele poderia ter feito o que era pago para fazer, administrar, supervisionar, negociar. O senhor apenas observaria de longe, receberia relatórios, quem sabe uma visita por ano, nada muito exigente, mas, então...
— Nada disso estaria sob meu controle. Isso é uma maneira muito simplista de ver as coisas, Harry e, se foi apenas por isso que fez o seu pequeno engodo, estou muito decepcionado com você. — Seu tom e olhar expressavam exatamente isso, decepção e Harry o encarou chocado.
— O senhor está se ouvindo? Acredita que deixar mais de 100 trabalhadores, apenas das minhas fazendas, desempregados é simplista? Trabalhadores nascidos trouxas que, em sua maioria, não têm oportunidades justas de empregos no mundo mágico e que sustentavam suas famílias, que eram protegidos magicamente dos comensais da morte por meu nome e sangue, jogados na rua sem uma explicação. E o senhor chama de apenas isso? Eles foram seus alunos um dia, o senhor se importou com eles depois que deixaram essa escola? Se preocupou com quantos deles voltam para o mundo trouxa porque não são aceitos aqui? O senhor já fez algo em seus mais de 100 anos para mudar isso? — Harry não hesitou em cobrar algo que não o deixava em paz a meses. Porque Dumbledore não fazia mais para mudar o mundo mágico?
— Não seja tolo, menino, você não sabe que não existe um diretor de Hogwarts ou Chefe Bruxo que fez mais pelos nascidos trouxas que Albus Dumbledore? Tenha mais respeito. — Resmungou um dos quadros de uma mulher de rosto frio e severo.
Olhando em volta, Harry viu que os diversos quadros o encaravam indignados, talvez, não acostumados a alguém enfrentando o honorável Albus Dumbledore, e riu.
— Merlin, são os antigos diretores? O senhor terá um quadro assim também quando morrer? Isso dever ser uma tortura, preciso nunca me esquecer disso e pensar em me tornar diretor de Hogwarts um dia. — Disse ele, divertidamente olhando para os diversos quadros, alguns acenaram ou sorriram.
— O menino tem isso certo, foi um pesadelo aguentar todos vocês tagarelando em minha cabeça por anos. — Disse um homem feio e rabugento.
— Harry. — Disse Dumbledore ignorando os quadros. — Eu sempre, em toda a minha vida, tentei ajudar os nascidos trouxas, os defendi, busquei mudar as leis e lutar pelo fim da violência contra eles e os trouxas também, mas não estamos aqui para falar sobre mim e sim sobre você e suas ações. Se você analisou seus negócios com atenção, e me parece que sim, sabe que eu forneci a cada funcionário uma boa indenização, cartas de recomendações para novos empregos e, talvez, eles tenham tido algumas dificuldades, mas tenho certeza que ficaram bem. E, para você, minha justificativa pode ser falha, mas eu não tinha tempo para supervisionar o trabalho de Corner, ser o tutor dos seus negócios exigiria de mim muito mais do que você descreveu. — Dumbledore suspirou e acenou para a cadeira. — Porque não nos sentamos e tentamos resolver tudo isso, é óbvio que você está zangado, mas precisamos superar isso e seguir em frente.
— Foi o senhor quem me perguntou porque era tão importante para mim retomar o controle da minha herança, eu apenas lhe respondi. Se te incomoda ouvir verdades, não pergunte. — Disse Harry objetivamente e se sentou.
— Que menino grosseiro, em meu tempo estaria no calabouço pendurado e sendo chicoteado. — Disse o mesmo homem rabugento.
— Isso é tão importante que o levou a desconsiderar a ética de suas ações, Harry? Os fins justificam os meios? — Dumbledore mais uma vez expressou sua decepção.
— Essa é uma boa pergunta, então, me diga, diretor, os fins justificam os meios? — Harry devolveu a pergunta, ironicamente.
Houve alguns bufos, resmungos e exclamações por seu atrevimento, mas nenhum dos quadros disse nada. Dumbledore e Harry, agora sentados, se encararam em silêncio analisando e decidindo estratégias.
— Pensei que, agora que você reconhece a importância da proteção, entenderia minhas ações, Harry, eu jamais quis o seu mal ou que fosse prejudicado de qualquer maneira. — Observou o diretor em tom razoável.
— Eu entendo e acredito que tomou a decisão certa, senhor, mas nós já conversamos sobre os outros caminhos possíveis que o senhor poderia ter escolhido que tornaria minha vida melhor. Isso, esse desinteresse por mim se reflete em minha herança, como meu autoproclamado tutor, era seu trabalho zelar por mim e por minha herança, mas imagino que alguém tão importante não poderia ter seu preciso tempo perdido por tão pouco. E tudo bem, eu entendo, de verdade, pois existe uma diferença entre nós dois, diretor. — Harry explicou no mesmo tom razoável.
— E qual é, Harry? — Ele parecia curioso.
— Eu sou um Potter e me dói, me humilha, me constrange as suas ações em meu nome... Não! Por favor, deixa eu falar e, então, o senhor poderá julgar por si mesmo se minhas ações não se justificavam. Primeiro, vamos esclarecer que o senhor, sem a "chantagem", jamais concordaria em cancelar ou transferir a minha tutela. Correto? — Harry decidiu ir direto ao ponto.
— Correto. — Respondeu Dumbledore o encarando sério.
— Bem, essa foi minha percepção e eu sabia que brigaríamos na justiça, assim como sabia que tinha uma chance de não vencer. Então, eu pensei, como reassumo o controle da minha herança em definitivo e corrijo tudo o que Dumbledore fez de errado e ofensivo nos últimos 10 anos? A resposta veio na audiência de custódia, o senhor parecia muito ansioso em manter a proteção e, enquanto se recusa a me dizer o porque ela é tão importante, percebi que o senhor, indubitavelmente, me deu um grande poder ou, ao menos, uma vantagem. E foi, então, que eu decidi sobre o meu blefe. — Harry explicou, mas não sorriu, não sentia satisfação mais pelo que fizera, depois da comemoração inicial e desde que Hermione lhe apontara sua arrogância, ele se envergonhara de si mesmo.
— Sua discussão com seu tio também fazia parte do plano? — Questionou ele com frieza.
— Não, isso foi inesperado e apenas tornou tudo mais fácil e crível, mas, com certeza, eu não planejei uma concussão, acredite. — Harry foi sincero e Dumbledore acenou em reconhecimento.
— Bem, e sobre o que das minhas ações em seu nome foi tão ofensivo? — O diretor questionou meio perplexo.
— Ora, paralisar as produções e despedir meus funcionários não é ofensivo o suficiente para o senhor? — Harry acenou negativamente. — Ok, o senhor não é um Potter, mas, como diretor deve entender a preocupação com o seus, o senhor não defenderia seus alunos e professores com sua vida? Bem, aquelas pessoas eram minhas pessoas, eles eram dos meus pais e avós, alguns trabalhavam a décadas para o meu avô e o senhor, ao assumir minha tutela, tinha a obrigação de honrar o nome da minha família. — Harry respirou fundo sentindo seu coração se apertar ao pensar em como decepcionados, tristes e abandonados devem ter se sentido, todos eles, ao serem jogados para fora com alguns trocados no bolso. — Eu era muito pequeno, mas o senhor poderia ter permitido que o testamento se validasse, poderia ter explicado a proteção para os Boots, por exemplo, e deixado que eles cuidassem de mim e da minha herança. Eu teria sido protegido dos meus tios, ainda que vivesse com eles, e as fazendas continuariam a funcionar, mas, o senhor fez questão de invalidar a última vontade dos meus pais, de desrespeitá-los e suas memórias, para, então, desonrar minha família. — Harry percebeu que o diretor parecia perplexo, como se nada disso nunca tivesse lhe ocorrido. — E não vamos esquecer dos elfo domésticos.
— O que tem os elfos? — Dumbledore se mostrou confuso.
— O senhor sabe o suficiente da história da minha família para saber o quão ofensivo seria enviar os elfos para fazer a manutenção das minhas propriedades. — Harry apontou, mas a expressão de Dumbledore parecia indiferente. — E o senhor não se importa. — Constatou ele tentando controlar a irritação.
— Realmente, não, e isso tudo me parece uma grande bobagem. Estávamos em guerra, Harry, pessoas morrendo ou desaparecidas, o Ministério precisando ser reerguido das cinzas, eu tomei decisões práticas que, acredito, me permitiu te proteger e a sua herança, efetivamente, sem deixar de agir pelo mundo mágico. — Dumbledore parecia impaciente. — Eu era o Chefe Supremo da ICW e da Suprema Corte, Hogwarts precisava de atenção e a relação com o Ministro trouxa era delicado por causa de todas as mortes. A última coisa em minha mente, naquele momento, era ferir ou não a honra da sua família, sim, eu enviei os elfos domésticos...
— Escravos. — Interrompeu Harry mais alto e sentindo a raiva borbulhar. — Diga o que eles são de verdade! Eles são escravos usados por bruxos que se sentam em suas cadeiras importantes e acreditam-se superiores para justificarem suas ações.
— Olha o tom. — A expressão amigável do diretor desapareceu. —Não aceitarei seus gritos e desrespeitos em meu escritório, acredito que nós dois sabemos que você não tem mais vantagem alguma sobre mim, assim não hesitarei em lhe dar detenções para que aprenda a respeitar os mais velhos. — Dumbledore falou com tanta frieza que a temperatura da sala caiu, Fawkes trilhou incomodada e Harry o encarou de volta, sem recuar.
— Lamento por perder meu temperamento, isso acontece quando as pessoas agem com tanta indiferença a algo tão importante para mim. — Harry disse com sinceridade, mas não pediu desculpas. — Os elfos, não importa o que diga, são escravos e minha família luta por suas liberdades e por melhores condições para eles a séculos. Utilizá-los, como o senhor fez, desonra os meus antepassados e isso, eles, minha história familiar, são importantes para mim.
— Eu entendo e lamento por isso, mas não sabia que se sentiria assim, naquele momento, minhas decisões foram buscando o benefício e não qualquer prejuízo a sua família. — Disse Dumbledore em tom mais formal.
— Acredito que já estabelecemos que o senhor não é um Potter, já constatamos sua indiferença, desatenção, negligência, incompetência. — Harry disse suavemente, ainda com frieza. — E, nós dois sabemos que o senhor não imaginaria que me sentiria assim porque o senhor nunca planejou que eu soubesse nada sobre minha família ou história. Tudo isso, deveria ter sido invisível e desconhecido para mim, o senhor manipulou a minha infância e agiu sem se preocupar com as consequências, porque, vamos lá, quem iria cobrá-lo? Questioná-lo?
Dumbledore o olhou um pouco triste e parecia que ia interrompê-lo, mas, Harry riu suavemente, o detendo.
"É quase engraçado, não é? O senhor está tão acostumado a ser obedecido e reverenciado, ninguém o questiona e cada palavra que diz é encarado como verdade absoluta e seguida cegamente, mas a pessoa, a única que o senhor precisava que fosse uma ovelha tola e pouco inteligente, não é."
— Harry... — Seu tom tinha um toque de aviso e um pedido de compreensão tudo junto.
— Não quero desrespeitá-lo, senhor, mas é difícil, muito mesmo, agir civilizadamente diante de suas ações e de sua indiferença, mas o pior é que o senhor ainda está me subestimando. — Harry se levantou e andou pelo escritório zangado. — O senhor tem planos para mim, eu já sei disso, e por sua conversa com o Sr. Falc, preciso ser preparado, mas não devo saber sobre minha herança, propriedades e não é só por causa da proteção. O senhor quer um Harry específico que pense e aja como o senhor acredita que é o melhor... sei lá porquê. — Ele gesticulou impaciente. — Suas explicações sobre suas ações são verdadeiras, mas não completas, não poderiam ser porque o senhor não confia em ninguém, muito menos em mim. Mas vou lhe dizer o que eu vejo. — Harry fez uma pausa e o encarou. — O senhor me colocou na casa que queria que eu crescesse, longe da fama, da adoração, sabendo que eu aprenderia a ser humilde e grato pelo pouco que me dessem. Minha história familiar e minha herança me tornariam mais forte, independente, seguro, então, me esconda tudo, entrei naquele trem pensando que meu cofre confiança era o meu único dinheiro. Então, a presença de Hagrid está explicada, afinal, nunca me passaria pela cabeça que tenho mais dinheiro, propriedades, casas, nem me ocorreria perguntar. Diga a Corner para não se comunicar comigo e contar nada, pedido repetido ao Sr. Falc, assim, eu seria quase um nascido trouxa de tão ignorante. O senhor até pediu aos professores para não falarem dos meus pais para não me "sobrecarregarem", quando, na verdade, um órfão estaria sedento de palavras e conhecimentos sobre seus pais. — Harry sorriu sem humor. — Mas, então, eu estava na Ravenclaw e isso deve tê-lo surpreendido, mas Terry era uma boa explicação, meu primeiro amigo e eu pedi ao chapéu para ser classificado junto com ele. O senhor poderia ter percebido, naquele ponto, que seus planos estavam se alterando, mas do mesmo jeito que nunca busca outros caminhos depois que toma uma decisão, fica cego a que seus planos mudem depois de planejá-los. Terry, verdadeiramente, foi uma fonte de informações, ele me falou de minha herança, minha história, me colocou em contato com os Boots e me disse com todas as letras que eu era importante demais para ser jogado na casa dos meus parentes e esquecido, a não ser.… que isso fosse conveniente para alguém e teria que ser alguém poderoso. Neste ponto, eu nem sabia que poderia pensar por mim mesmo, na casa dos meus parentes, me acostumei a ser invisível, não chamar a atenção, não ser muito diferente deles, sabe, assim, me tornei menos para ser igual a eles. Menos inteligente e esperto, menos corajoso e dinâmico, mas em poucos dias na casa Ravenclaw fui incentivado a ser mais, a ser eu mesmo, foi surpreendente, diretor. Eu estava livre, para pensar, para aprender, para crescer, querer e buscar... Buscar a verdade sobre mim e sobre quem me abandonou no mundo trouxa, mas, antes que eu precisasse fazer qualquer coisa, ocorreu aquele episódio absurdo com Snape e...
— Prof. Snape, Harry. — Corrigiu Dumbledore calmamente e ouvindo atento sua história.
— Por favor, nós dois sabemos que professor é a última coisa que ele é aqui em Hogwarts. Ex-comensal, seu espião, talvez, professor? Não mesmo, no entanto, se lhe agrada, o senhor pode continuar me pedindo para lhe dar este título, apenas não espere ser obedecido. — Harry retorquiu com frieza.
Dumbledore mostrou surpresa e desconforto.
— Se você sabe tanto sobre ele, deve estar ciente de sua importância e dos riscos que correu e correrá no futuro para nos ajudar. — Apontou Dumbledore e seu tom era incontestável, mas não para o Harry.
— Sim, reconheço sua importância e sei, inclusive, que suas informações salvaram as vidas dos meus pais mais de uma vez. Isso não lhe dá o direito de pisar em mim e, nem a mim, o dever de ser um tapete silencioso. — Harry respondeu sarcástico.
— Como…? — Pela primeira vez Dumbledore parecia, verdadeiramente, chocado.
— Não é óbvio? O senhor não entendeu nada ainda? — Harry parou em frente a sua mesa e continuou. — Quem o senhor acredita que descobriu que Sirius era inocente? Quem o senhor pensa que o libertou? — Harry viu sua expressão se fechar e seu rosto empalidecer. — Quando o Prof. Flitwick me disse que o senhor era a pessoa que me colocou nos meus parentes e garantiu minha "segurança", eu entendi que era aquele quem tentava me manipular e me controlar, mas nunca pensei que teria chegado tão longe. — Harry lhe devolveu o mesmo olhar decepcionado. — Descobertas após descobertas e as verdades foram aparecendo, perguntas foram respondidas. Quirrell era apenas um elemento a mais e me perguntava, porque Dumbledore não o prende ou despedi quando é óbvio que ele é o ladrão. Onde está o testamento de meus pais? Onde estão os guardiões que meus pais teriam se assegurado de listar em caso de suas mortes. Imagine minha surpresa quando descobri que meu padrinho e guardião estava preso em Azkaban acusado de trair meus pais. — Harry sorriu sem humor. — Eu perguntei sobre meus pais aos Boots, Prof. Flitwick e todos me falaram sobre como geniais eles eram, me disseram como me amavam mais que tudo no mundo. Sabe quanto tempo demorei para perceber que, se isso era verdade, Sirius não poderia ser o traidor? Horas. — Harry respondeu e sorriu, pois, seus olhos pareciam envergonhados pela primeira vez. — Em horas depois de ouvir sobre Sirius, percebi que nada fazia sentido, meus pais não teriam sido enganados por alguém tão próximo, talvez, um amigo, mas não meu padrinho e guardião, não quando eles me amavam tanto e estavam tão dedicados e focados em me manter vivo. O senhor estava lá, eles abandonaram a guerra, a luta direta e se esconderam para me proteger, pais tão inteligentes e amorosos não perderiam um traidor tão perto de mim.
— Olhando para traz e vendo isso pelos seus olhos é muito óbvio, Harry e lamento...
— Cale-se! — Gritou Harry furioso. — Eu não quero ouvir suas desculpas esfarrapadas, se o senhor acredita que deixou meu padrinho ir para a prisão sem julgamento, apenas porque acreditava em sua culpa, se isso o faz dormir à noite e ter sua consciência tranquila, pois muito bem para o senhor. — Harry estava furioso e lutou para se controlar. — Meu padrinho foi trancado naquele inferno por incompetência e maldade, por indiferença e negligência, e porque, ele era uma grande pedra no caminho dos seus planos para mim.
Dumbledore parecia zangado e que ia protestar, mas Harry não o deixou.
"Eu sei que o senhor acreditava em sua culpa e não, conscientemente, deixaria um homem inocente ir para Azkaban, mas, mais uma vez, era conveniente para seus planos, assim, porque olhar muito de perto, porque fazer perguntas e, se, houvesse uma pequena dúvida, era apenas sufocá-la e seguir em frente. Foi muito fácil nos esquecer e continuar com sua vida, negligenciar os seus deveres e ainda agir ofendido por eu questioná-lo. " — Harry suspirou cansado, mas não terminou o que queria dizer. — "Quando fui passar o Natal com os Boots, meu primeiro Natal, contratei o Sr. Falc para ser meu advogado e para descobrir sobre minha herança, o testamento dos meus pais e a verdade sobre Sirius, em poucos dias descobri que o senhor invalidou o testamento, se fez meu tutor, paralisou a produção das minhas fazendas e que meu padrinho estava preso a 10 anos sem julgamento. " — Harry o olhou triste. — "Não faz ideia do que senti, a decepção, a confusão, porque o senhor deveria ser alguém que não comete erros desta enormidade, deveria ser humano e bondoso, mas, então, eu voltei para Hogwarts e me deparei com um espelho"
— Harry...
— O que lhe deu o direito de jogar comigo assim? — Harry gritou a sua dor e Dumbledore se calou. — Minha dor, meu luto, meus pais esfregados na minha cara, como se o senhor jogasse sal em uma ferida que nunca cicatrizará. E ela sangrou e doeu, achei... Merlin, achei que enlouqueceria querendo o impossível, ansiando... — Mas Harry não conseguiu controlar a dor, se inclinou e chorou.
— Sinto muito... eu... me perdoe... — O sussurro de Dumbledore saiu triste e ele se controlou para não abraçar menino que chorava sua perda.
Harry respirou fundo tentando voltar ao foco, fechou os olhos tentando sufocar a dor e se concentrar.
— Não perdoo, pelo menos aqui e agora, não consigo encontrar em mim uma maneira de te perdoar pelo que fez comigo naquela noite, por causa dos seus motivos. O senhor me isolou, se esforçou para me tornar um tolo e ignorante, solitário, sem amigos ou apoio de adultos para que, naquele momento, se tornasse o meu salvador. — Harry o encarou e sorriu tristemente. — Eu percebi e entrei em seu jogo, sem entender todo o quadro, mas notando o seu esforço para substituir meus pais com sua figura. Se eu fosse o Harry que entrou naquele trem, teria dado certo, eu ansiava por carinho, afeto, aceitação e proteção. Naquele momento, eu teria ignorado que o senhor era quem me montou a armadilha para encontrar o espelho e me concentrado apenas no que queria que eu visse, que o senhor me salvou de enlouquecer na frente dele.
— Mas você não é um tolo e conseguiu se livrar sozinho, voltou apenas para descobrir qual o meu jogo. — Disse Dumbledore o encarando com respeito. — E imagino que destruir o espelho foi muito satisfatório.
Harry riu quase divertido e os olhos brilhando, Dumbledore sorriu, levemente, em resposta.
— O senhor não faz ideia, foi um dos meus momentos preferidos da minha vida toda. Mas sobre deixar de ser tolo, não, eu não me livrei do espelho sozinho, Terry me arrancou da frente dele e, praticamente, me obrigou a perceber como terrível ele era. Mas sim, eu voltei apenas para compreender a sua intenção e, neste momento, eu não sabia que seus planos eram maiores, a Pedra e tal. — Harry deu de ombros.
— E imagino que quando me encontrei com Falc logo em seguida sua intenção era descobrir sobre minhas ações e disfarçar o quanto você já sabia. — Apontou Dumbledore com um suspiro.
— Sim e ainda tínhamos esperança de que nossas suposições de que o senhor tem planos para mim fossem errôneas, mas então o senhor disse que preciso ser preparado, que não podia perder meu tempo com minha herança e nem saber que tenho mais casas. Percebemos que nada seria fácil ou simples, decidimos deixar para entrar com o pedido de guarda no fim do mandato e o Sr. Falc iria se concentrar em libertar Sirius. — Harry disse suavemente.
— Eu não tive acesso ao processo, assim nunca soube quem eram os advogados dele, pensei que os Tonks eram os responsáveis por sua liberdade. Porque não me contou? Pensou que impediria que Sirius fosse libertado? — Dumbledore parecia quase magoado.
— E por qual das suas ações, nos últimos 11 anos, eu deveria confiar no senhor? — Harry devolveu com sarcasmo.
— É justo. — Disse ele suspirando cansado e tentando pensar em como seguir e concertar toda essa bagunça que fizera.
— E, então, eu descobri sobre os livros, Harry, O Aventureiro. — Disse Harry em tom de quem não fora interrompido. — Sabe, eu não entendo porque raios o senhor não disse a verdade para todo mundo, que eu não matei ou desapareci com Voldemort, minha mãe fez isso, ela é a heroína. Se o senhor, tivesse dito a verdade a todos, esse apelido estúpido não existiria, minha mãe não seria esquecida e esses livros idiotas nunca teriam sido publicados.
— Não entendo porque isso lhe incomoda, Harry, foi um empreendimento lucrativo para compensar as perdas sofridas pela paralização das fazendas. Eu não permiti que o apelido fosse usado, pois concordo que é bem estúpido, não permiti o seu sobrenome e insisti que fosse escrito baseado em sua vida e não que era, realmente, bem... real. —Apontou Dumbledore confuso e Harry sentiu vontade de questionar sua inteligência, mas se conteve, isso, provavelmente, seria um pouco grosseiro demais e ele já estava bem além do perigo de terminar em detenções até o fim do mandato.
— Primeiro, acredito que já esclarecemos que o lucro ou dinheiro é o que menos importa diante de tudo. Segundo, o senhor não respondeu minha pergunta, porque não dizer a verdade? — Harry voltou a questionar impaciente.
— Dar informações livremente para pessoas de quem gosto, você já percebeu, não é algo que eu faço. Imagine, então, fornecer informações para pessoas a quem não gosto e que usariam essas informações negativamente. — Dumbledore disse em seu melhor tom enigmático.
— É esperado que eu finja entender quando o senhor fala e não diz nada e aceite sem contestar? — Perguntou Harry com as sobrancelhas arqueadas e expressão irônica.
— Se os comensais da morte soubessem como, ou porque, Voldemort foi destruído ou morto, poderiam tentar reverter isso. — Dumbledore explicou objetivamente.
Harry ficou tenso na hora e se sentou na cadeira.
— Isso é possível? — Perguntou preocupado.
— É possível alguém sobreviver a maldição da morte? É possível que a maldição rebata e destrua o seu atacante? Tudo isso por causa do sacrifício e amor de uma mãe? — Dumbledore juntou as mãos pensativamente. — Antes de acontecer, eu diria que não, nada disso nem me ocorreria e me julgo um homem inteligente que já viu muito no decorrer de uma vida muito longa. Mas aconteceu e, se isso foi possível, porque não seria possível reverter? Quando se trata de magia, seria arrogante e juvenil acreditar que sabemos tudo ou temos total controle e os comensais da morte poderiam e, fariam, uso de magia negra sem hesitação se lhes conviesse. E, isso nos levaria para um mundo, completamente, desconhecido.
Harry acenou com a mente girando em todas as direções, se eles revertessem poderiam anular o presente de sua mãe? Ou trazer Voldemort de volta? Talvez as duas coisas?
— Quando o senhor pretendia me dizer isso? — Ele perguntou tentando manter a calma.
— Não pensei que isso era importante. — Dumbledore disse sincero.
— Bem, então, pense de novo e entenda que, tudo que tem a ver com Voldemort, meus pais, a proteção, é importante para mim. — Frisou ele duramente.
— Harry... — Seu tom de aviso voltou, mas Harry o ignorou.
— Não, diretor, o senhor precisa ouvir a verdade, por uma vez alguém tem que lhe dizer ou ficaremos girando em volta em uma discussão sem fim. — Harry respirou fundo para se firmar. — Sabe porque eu lhe enganei tão facilmente a 1 mês atrás? Porque o senhor olha, mas não vê, ouve, mas não escuta, pensa, mas sem compreensão, sente, mas não tem empatia. O senhor poderia ter se aproximado de mim a qualquer momento dos últimos 11 anos, mas no ano passado, aqui, como seu aluno, o senhor poderia e deveria ter me procurado, me conhecido e me alertado da verdade. Voldemort está vivo, como e porque meus pais morreram, Sirius, a proteção, minha herança e minha história familiar, tudo isso, eu deveria ter aprendido e descoberto com o senhor. Meu tutor.
Harry se levantou e caminhou zangado.
"O senhor parece pensar que sou uma espécie de ser sem cérebro ou sentimentos, mas, acredite, eu não sou e sei muito bem o que quero. O que não quero, com certeza, é ter meus pais desrespeitados a cada passo que dou por essa escola. " — Harry fez uma careta de irritação. — "O senhor pode imaginar quantas pessoas agem como se eu fosse uma celebridade estúpida? Algum tipo de herói famoso ou aventureiro fantástico, que me perguntam sobre aquela noite ou comentam como incrível é ter minha cicatriz e vencido Voldemort? Como se fosse um grande feito ou uma aventura emocionante e maravilhosa? "
— Eles são apenas crianças, Harry e não entendem a verdade. — Disse Dumbledore em tom suave.
— Pois eu também sou uma criança! — Harry exclamou com raiva. — Uma criança que nem sabia que seu pais tinham sido assassinados, que teve que descobrir e procurar entender sozinho como ou porque eles foram tirados de mim, ao em vez de ser informado pelo meu tutor! — Harry engoliu a raiva com dificuldade e sentiu a eletricidade percorrê-lo, olhou para as mãos e viu uma energia prateada envolvê-la. — E se eles não entendem é porque nunca foram ensinados, não existem informações verdadeiras, apenas mentiras e esse livro apenas colabora com mais mentiras. O senhor permitiu isso, permitiu que toda essa enganação e que a morte dos meus pais virasse um conto de fadas infantil. Todo esse dinheiro ganho em cima dos assassinatos dos meus pais, crianças e, adultos também, que acreditam que sou o herói e que minha vida é, realmente, cheia de aventuras e de magias. Mentiras e mais mentiras.
— Eu nunca olhei por esse ponto de vista, mas, suponho que, sem a verdade e com as crianças lendo esses livros, naturalmente, acreditariam que você foi o responsável pela morte de Voldemort. Os adultos já acreditavam porque o Ministério divulgou a informação e eles ensinariam os filhos, os livros apenas...
— Reforçam isso e ainda me apresenta como um mago poderoso e aventureiro, um herói famoso. — Harry o olhou tristemente. —Eu tenho fãs, imagine isso, meus pais estão mortos e eu ganho fãs. — A amargura em seu tom era quase doloroso demais para Dumbledore.
— Sinto muito, nunca pensei... — Ele parou entendendo o que Harry dissera antes, "pensa, mas sem compreensão".
— Bem, eu deveria lhe agradecer por tornar minha vida um pouco mais difícil. — Harry não resistiu ao sarcasmo. — Eu vim para Hogwarts louco para ser normal e não uma aberração, ansioso por fazer amigos e tudo o que faço é tentar não gritar com todo mundo, me lembrar que eles são crianças e que ainda podem ser bons amigos, como Hermione. De qualquer forma, eu já tenho um plano sobre o que fazer em relação aos livros e voltando a sua pergunta inicial, um dos meus principais motivos para retomar o controle da minha herança era para acabar com esses livros horríveis. E, lamento que isso não seja importante para o senhor, mas, tudo o que conversamos hoje, é muito importante para mim e me motivou a pensar em como assumir o controle da minha vida. Não vou me desculpar e não aceitarei qualquer punição, porque eu não enganei meu diretor e sim meu ex-tutor.
— Eu entendo tudo o que me disse, Harry e não estou zangado ou quero puni-lo, pelo contrário, quero que nos entendemos, que superemos tudo isso. Quero ajudá-lo no que precisar e que entenda que não sou seu inimigo, suas motivações são justas e, na verdade, seu plano foi genial. — Dumbledore parecia cansado e sincero.
Harry acenou, cansadamente e se sentou outra vez encarando seu diretor pensativo.
— Isso seria bom, não é mesmo? Seguirmos em frente, perdoarmos os erros do passado e nos unirmos para o que está por vir. Quase perfeito demais. — Harry sorriu ironicamente. — No entanto, eu não confio no senhor, o senhor não confia em ninguém, além disso, o senhor espera que eu o siga cegamente e aceite suas decisões sem questioná-lo, como todo o mundo mágico faz. Isso nunca acontecerá.
Seu tom era como uma promessa e Dumbledore o encarou tristemente.
— Tenho certeza que podemos reverter essa situação com esforço de nós dois, Harry.
— Talvez, afinal, não precisamos ser amigos, podemos apenas ser aliados ou algo assim, mas acredito que isso começa com o senhor me respeitando e o que é importante para mim. Por exemplo, porque Voldemort tentou me matar a 11 anos? — Harry perguntou, sabendo que aquele era o momento em que eles avançavam em alguma direção ou estagnavam, indefinidamente.
Dumbledore suspirou cansado e, automaticamente, apesar de tudo o que ouviu nesta noite, seguiu seus planos sem ouvir, sem compreender, sem empatizar, verdadeiramente.
— Harry, seja paciente, quando estiver pronto eu lhe direi, ainda não, é muito cedo, meu menino. — Suas palavras eram sinceras e Harry acenou o encarando.
— Se, esperar para me contar, o faz se sentir melhor consigo mesmo, quem sou eu para julgá-lo, mas penso, e o senhor é inteligente o suficiente para entender, que não podemos avançar enquanto as cartas não estiverem todas abertas. — Harry se levantou e sorriu. — Acredito que não temos mais nada para dizer um ao outro, por enquanto. — Harry se dirigiu a porta e decidiu dar outro jab, amigável, claro, olhando para traz o encarou com falsa aceitação. — Pensando melhor, talvez lhe interesse saber que eu já sei a resposta.
— A resposta? — Dumbledore se mostrou claramente confuso.
— A minha pergunta. — Harry sorriu com falsa animação.
— O que...? Como... O que você sabe, Harry?
— Dumbledore, seja paciente, quando estiver pronto eu lhe direi, ainda não, é muito cedo, meu velho. — Disse ele imitando seu tom sério e enigmático, depois, sorriu brilhantemente para a expressão chocado do diretor e, se aproveitando disso, decidiu fugir bem rápido. — Até outro dia, Fawkes.
Harry desceu as escadas sem esperar que elas rolassem magicamente e em segundos estava correndo pelo corredor, olhando para o relógio percebeu que o jantar ainda acontecia e ele estava faminto, mas sabia que seus amigos deveriam estar esperando impacientes. Quando entrou no Covil, gemeu de prazer com o cheiro de comida e seu estômago roncou.
— Vocês trouxeram comida? — Sorriu satisfeito e se aproximou da mesa pegando um sanduíche.
— Percebemos que você poderia demorar e queríamos ficar aqui te esperando, se descêssemos para o Grande Salão nos desencontraríamos. — Disse Hermione ansiosamente. — Então, Neville teve a ideia de irmos buscar comida para todos nós e jantarmos aqui.
— Sim, pensei que você poderia estar com fome também e que seria difícil nos contar tudo o que aconteceu sem jantar antes. — Disse Neville sorrindo.
— Boa, Nev, estou faminto e exausto. Tenho tanto o que lhes contar, acredito que o melhor é informá-los de tudo hoje, sem interrupções, e amanhã discutimos com calma. — Disse ele pegando seu terceiro sanduíche.
— Parece que ficaremos até depois do toque de recolher. — Disse Terry preocupado.
E eles ficaram, foi difícil para os três não interromperem e fazerem dezenas de perguntas, mas, era claro que Harry estava exausto e os três amigos conseguiram se conter. Ainda assim, ele contou todos os detalhes de sua conversa com Flitwick, Hermione começou a anotar os pontos importantes para não esquecer o que queria perguntar no dia seguinte. De sua reunião com Dumbledore, Harry resumiu os pontos importantes, afinal, muito da conversa não era novidade para eles.
E, enquanto Harry contava o seu longo conto, na torre Gryffindor, Ginny tentava ficar acordada para terminar seu dever de Poções.
— Grrr, professor gorduroso e estúpido. — Disse ela chateada.
Nunca gostara de cozinhar e agora transferira esse incômodo para as aulas de Poções. Não que fosse tão difícil se sentir assim com alguém como Snape lhes dando aulas e todos esses deveres. Porque os professores os faziam escrever tanto? Ela fizera boa parte deles na biblioteca com a Luna, sua amiga sempre calma e serena não parecia ter problemas com nenhuma matéria. "Isso porque Luna sempre foi mais inteligente do que você, Ginny, admita", sua voz interna escarneceu dela outra vez. Bem, era verdade, mas isso não importava, Luna mesmo disse que cada um tinha seus talentos. Ginny era muito boa em Feitiços, a melhor da sua turma, não tinha um feitiço que o professor Flitwick lhes ensinara que ela não aprendera de primeira e antes que todos os outros.
O problema não eram as aulas ou os malditos deveres de casa e sim esse cansaço que nunca ia embora. Tom disse ser normal estar cansada já que tinha tantas coisas novas a fazer, ficar sobrecarregado, não dormir bem em uma cama estranha, mas Ginny tinha que admitir que essa falta de energia não lhe era normal. Na verdade, Ginny tinha muito mais energia do que tempo e atividades para gastá-la quando estava na Toca. "Mas você não está mais na Toca, está em Hogwarts, tudo é diferente aqui", bem, isso era verdade, mas... Bocejando, sem controle, Ginny olhou para o pergaminho, faltavam algumas linhas e depois iria dormir, pensou, sentindo a mente ir à deriva, sem perceber se inclinou sobre a mesa e, em segundos, dormia profundamente.
Um minuto depois de cair no sono, ela levantou a cabeça da mesa e suspirou se espreguiçando, depois se levantou desperta e animada, energia transbordava por seu corpo e um sorriso malicioso lhe tomava o rosto.
— Finalmente, forte o suficiente para assumir. — Disse ela, mas a voz saiu errada, era masculina e seus olhos castanhos como chocolate quente eram frios e duros. — Mesmo que seja por algumas horas. — Se aproximando do espelho, Tom Riddle se analisou e fez uma careta. — Isso não durará muito, em breve terei energia e poder suficientes para ter meu próprio corpo, mas enquanto isso... durma, pequena Ginevra, durma, enquanto acordo um velho amigo.
E, se hesitar pegou a velha varinha, se desiludiu e desceu as escadas correndo, cheio de energia e ansioso para começar o seu velho e divertido jogo.
No Covil, eram mais de 11 horas quando o Harry terminou de contar tudo o que aconteceu e eles estavam bem além do toque de recolher, assim, ele levou Hermione e Neville embaixo da capa de invisibilidade até a torre, onde os amigos entraram, discretamente.
Harry, ainda sob a capa, desceu as escadarias do 7º para o 6º andar, agora era só pegar o Terry no Covil e ir dormir, estava exausto...
— Venha... venha para mim... Me deixe rasgá-lo... me deixe rompê-lo... me deixe matá-lo...
Harry parou, bruscamente, quando uma voz de congelar o tutano dos ossos, uma voz venenosa e gélida de tirar o fôlego ecoou pelo castelo como se estivesse em toda parte.
— Fome... me deixe devorá-lo, venha...
A voz ficou mais distante e Harry deu um enorme pulo pela escadaria tentando seguir o som, ao chegar ao 5º andar, ouviu com mais clareza.
— Matar... Rasgar... venha para mim... me deixe devorá-lo...
— Não! — Gritou Harry, sem se preocupar em ser pego fora da cama e correu na direção do som sem perceber que falava ofidioglossia. — Pare!
Mas seja quem ou o que fosse se movia muito rápido e Harry não o ouviu mais, foi só e, então, que ele olhou em volta e percebeu que estava próximo do Covil.
— Terry! — Seu grito, agora em inglês, saiu abafado pelo pânico e correndo mais rápido do que pensou ser possível, ele chegou a estátua. — Hyde Park! — Em segundos, ele subiu as escadas gritando. — Terry! Terry!
— O que!? — Ele apareceu preocupado e sonolento, com a varinha na mão, Harry também tinha a sua e nem se lembrava de quando a sacara, mas não se importou, apenas sentiu o alívio inundá-lo e abraçou seu irmão com força. — Harry! O que houve? Você está pálido, algo com Hermione? Neville?
— Não! Eles estão bem, eu os deixei na torre. Você não ouviu a voz? — Harry perguntou em um sussurro e aguçou os ouvidos tentando escutar qualquer coisa.
— O que? Que voz? — Terry também sussurrou receoso.
— Eu ouvi uma voz, Terry, não sei o que era ou quem, mas era mal e cruel, ele queria matar e rasgar, disse e repetiu isso várias vezes. Parecia ecoar pelo castelo como se viesse de dentro das paredes e... — Engolindo em seco, Harry o olhou apavorado. — Acho que começou, Terry, aquilo que Dobby me avisou que aconteceria em Hogwarts este ano, acredito que começou esta noite.
NA: Olá, pessoal, esse capítulo ficou muito longo e cansativo de revisar, assim sejam gentis sobre os erros. Mesmo depois de duas revisões, eles existem.
Foram quase 22 mil palavras, assim, me deixaria muito feliz e recompensada se eu tivesse muitas e muitas revisões, por favor. E revisões de verdade! Que me dizem o que gostaram, porque gostaram, isso é um grande incentivo e motivação. Obrigada
Até mais, Tania
