Capítulo 52

O silêncio no escritório durou apenas alguns segundos, antes de Moody falar bruscamente, se concentrando em Dumbledore.

— Boa noite, Albus. O que aconteceu para nos chamar a essa hora? — Dumbledore o olhou brevemente antes de voltar sua atenção para Harry e King.

— Boa noite, Alastor, Kingsley. Antes de irmos aos acontecimentos desta noite, acredito que devemos esperar pelos chefes de casas das crianças, seria bom que estivessem presentes antes de questioná-los. — Disse Dumbledore agradavelmente. — E, podemos fazer algumas apresentações, Harry, você já conhece o auror King Shacklebolt, este é o auror Alastor Moody. Alastor, este é Harry Potter.

— Olá, auror Moody, prazer em conhecê-lo. — Disse Harry apertando sua mão formalmente.

— Prazer, Sr. Potter. — Disse ele brusco, não parecia nem um pouco impressionado com seu nome e Harry gostou dele só por isso. — Imagino, pelo sangue no garoto moreno ali que alguém foi ferido. — Continuou ele e Harry percebeu que seu olho de vidro estava concentrado no resto da sala e não nele, como seu olho normal.

— Infelizmente, sim, Alastor. — Disse Dumbledore suavemente e fez o resto das apresentações antes de se virar para Harry outra vez. — Não sabia que tinha informado aos aurores sobre um possível perigo em Hogwarts, Harry.

— Não informei os aurores, diretor, e sim aos meus guardiões e padrinho da visita que recebi durante o verão, visita essa que, indiretamente, me colocou no hospital. — Harry disse o encarando diretamente. — Eles julgaram que, além de informar o senhor e o Prof. Flitwick, deveriam contar ao Sr. King, que é muito amigo de Sirius, além de ter sido amigo do meu pai.

— E, sou seu amigo também, Harry. — Sr. King disse com sua voz profunda e calmante. — Conheci o Harry no dia de sua audiência de custódia, diretor e ele me contou sobre os acontecimentos que levaram a morte de Quirinus Quirrell, os verdadeiros acontecimentos.

— Entendo. — Disse Dumbledore, seu olhar parecia mostrar que ele realmente entendia que King era de confiança em se tratando de proteger o Harry.

— Bem, muito bem que todos entendem tudo, porque eu com certeza não entendo nada. — Disse Moody grosseiramente.

— E, eu fico feliz que alguém não sabe tudo sobre mim antes mesmo de me conhecer, auror Moody, e não se preocupe com o que o senhor não sabe, o mais importante é descobrir o que o resto de nós não sabemos. Como, por exemplo, quem e o que machucou nossa colega Luna Lovegood, hoje à noite? — Disse Harry inteligentemente.

— Hum... — Moody o encarou com os dois olhos o avaliando e depois encarou Dumbledore como se o questionasse, não sobre os acontecimentos, mas sim, sobre o Harry. — Interessante, o menino está certo, mais sensato que muitos idiotas do Ministério que se acham o último biscoito do pacote. Parece que tem um concorrente a altura desta vez, Albus.

A batida na porta sinalizou a chegada de Flitwick e Vector, que foram apresentados aos dois aurores e todos se acomodaram em poltronas fofas que Dumbledore conjurou habilmente.

— Como está a Luna, professor? — Perguntou Hermione torcendo as mãos de preocupação.

— Na mesma, Srta. Granger. — Flitwick tinha uma expressão séria poucas vezes vista no alegre professor. — Madame Pomfrey cuidou do mais urgente e ela está fora de perigo, mas sua petrificação só poderá ser revertida quando as mandrágoras de Sprout amadurecerem e uma poção restauradora for preparada e administrada na Srta. Lovegood.

— Petrificada? Uma aluna foi petrificada, diretor? — King questionou tenso.

— Sim, o lugar onde isso aconteceu está isolado para que vocês possam colher quaisquer evidências e, desde já, lhes peço total discrição sobre o acontecido e o envolvimento de Harry nisso tudo. — Disse Dumbledore claramente tentando assumir o controle da situação.

— O senhor fala como se eu tivesse algo a ver com o que aconteceu com a Luna, diretor. — Disse Harry tentando controlar a irritação. — Enquanto adoraria não ter meu nome nos jornais mais do que já estão e o sigilo em uma investigação é uma noção óbvia, acredito que será impossível esconder os acontecimentos dos pais dos alunos, como o senhor fez no ano passado. — Harry olhou na direção da Penny e Flitwick.

— O senhor tem dois membros da AP presentes, Albus. — Flitwick falou erguendo as sobrancelhas. — Foi por situações como essas que alteramos os protocolos sobre comunicação a apenas algumas semanas. O Sr. Lovegood já está com a filha e todos os outros pais deverão ser informados do que aconteceu e do que estamos fazendo para descobrir e impedir que se repita.

— Por isso a presença dos aurores não poderia ser descartada, diretor. — Disse Penny formalmente. — Suas presenças são obrigatórias e o esperado em situações como essas, Hogwarts não é um território à parte da lei.

— Eu concordo. — Dumbledore acenou levemente castigado. — Minha única preocupação é que o responsável ou responsáveis pelo que aconteceu aqui hoje, também poderão obter informações sigilosas e usá-las para mais maldades. Por isso sou cuidadoso, e não porque não me importo com os alunos ou desconsidero o trabalho dos aurores.

— Bem, se fossemos do tipo que sai fofocando por aí não seriamos aurores, seriamos, Albus? — Moody falou mal-humorado e encarando Dumbledore com certa irritação. — Não se preocupe, pois, qualquer informação obtida em depoimento ou investigação por nós, não será tratada levianamente. Agora poderíamos parar de enrolar e ir direto ao ponto?

— Você está a cargo da investigação, Alastor? — Perguntou Dumbledore serenamente.

— Não. Perdi alguns graus de categoria auror em punição por meu envolvimento no caso Black, assim King aqui é meu superior e o chefe dessa investigação. — Resmungou Moody contrariado e Harry o olhou com a sobrancelha erguida, mas escolheu não dizer nada.

— Muito bem. — Dumbledore acenou encarando King. — Auror Shacklebolt, como diretor autorizo que questione formalmente meus alunos e seus chefes de casa agirão como seus representantes.

— Ok. Faremos isso em duas partes, quero ouvir tudo o que aconteceu hoje à noite e iniciar as investigações forenses. — King olhou para as crianças que ainda estavam pálidas e abaladas. — Amanhã, com mais calma, os questionareis sobre seus depoimentos se houver alguma dúvida. Compreendido?

Todos acenaram e Harry se sentiu grato por sua compreensão, sabia que seus amigos, como ele, estavam muito chocados e cansados para manterem essa formalidade necessária por muito tempo. Ele viu o King tirar uma pena de gravação antifraude e percebeu que precisava falar algo antes dela ser acionada.

— Sr. King, antes queria lhe perguntar se não tem perigo para meu pequeno visitante falar dele ou se deveria deixar isso de fora? — Harry questionou preocupado.

— Você deve deixar seu pequeno visitante e sua visita de fora deste depoimento formal, Harry, meu conhecimento sobre o fato e que faz parte da minha investigação são suficientes legalmente. Não precisamos dessa informação nos altos da investigação que, em teoria, está sob sigilo, mas não podemos saber se os poucos que tem acesso não poderiam informar aquele que não queremos que obtenha está informação.

— Não entendi nada... E pelo jeito sou só eu que está confusa por aqui. — Disse a Prof.ª Vector olhando em volta.

— Eu também não entendi, mas se a intenção é manter sigilo sobre informações valiosas, não me importo. Vigilância constante! — Gritou Moody fazendo as crianças e Vector pularem de susto. — Este é sempre meu lema.

— Eu o informarei depois, Alastor. — Disse King e, rapidamente, acionou a pena. — Depoimentos oficiais colhidos por Auror Kingsley Shacklebolt e Auror Alastor Moody na noite de 31 de outubro de 1992 sobre incidente ocorrido na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, onde uma aluna do primeiro ano, Luna Lovegood foi ferida gravemente. Escritório do Diretor Albus Dumbledore, presente e que autorizou que seus alunos, testemunhas do incidente, deponham sobre os acontecimentos. As testemunhas são Harry James Potter, Terrence Falcon Boot, Hermione Jane Granger e Neville Frank Longbottom. Como seus representantes, estão presentes seus chefes e professores, Filius Flitwick, chefe da Casa Ravenclaw e professor de Feitiços e Séptima Vector chefe da Casa Gryffindor e professora de Aritmancia. Por favor, narrem, o mais detalhadamente possível o que aconteceu esta noite.

Houve um instante de silêncio enquanto todos olhavam paras as crianças e elas para o Harry que por um segundo não soube como explicar ouvir uma voz que ninguém mais ouvia.

— Bem, começou quando estávamos passando um tempo em uma sala que gostamos de ficar sem sermos interrompidos ou ouvidos quando conversamos sobre assuntos nossos. — Disse Harry e enxugou as mãos suadas na veste. — Era por volta das 7 horas e todos estavam no banquete, Hermione lia um livro, Terry escrevia cartas e Neville e eu jogávamos xadrez. — Harry não sabia explicar porque estava falando sobre o que cada um fazia, mas isso o acalmou e respirando fundo continuou. — Foi quando eu ouvi a voz outra vez.

Flitwick arregalou os olhos e Dumbledore ficou tenso, King apenas acenou.

— Essa foi a segunda vez que isso aconteceu, certo? — Perguntou o auror com sua voz calmante e Harry acenou.

— Em 7 de setembro, eu a ouvi, estive em... — Ele fez uma pausa e olhou para Dumbledore que acenou entendendo sua pergunta. — Uma reunião com o diretor Dumbledore, ele foi meu tutor até pouco antes do fim do verão e ficamos resolvendo questões relativas à minha herança até bem tarde. Por volta das 11 horas da noite, quando retornava a minha sala comunal na torre da Ravenclaw ouvi, claramente, uma voz que dizia... — Harry descreveu as palavras com exatidão, pois jamais as esqueceria. — Durante todas essas semanas não voltei a ouvir mais nada, até hoje à noite. Eu saí correndo da sala com meus amigos me seguindo e tentei acompanhar a voz que parecia vir de todos os lados do castelo e, quando se distanciava, o som parecia vir do andar de baixo. Assim, descemos do quinto para o quarto e terceiro andares, foi quando a voz parou.

— Vocês também ouviram essa voz? — King perguntou aos outros três.

— Não, senhor. — Disse Terry sério.

— Também não ouvi nada. — Disse Hermione apertando as mãos.

— Eu não ouvi, mas nunca duvidamos do Harry, por isso o seguimos. — Disse Neville bruscamente.

Essa nova informação parecia desconcertar a todos que franziram o rosto em confusão, enquanto Moody encarava os 4, principalmente, Harry com muita atenção.

— Eu não estou mentido e não compreendo porque eles não ouviram quando, claramente, dizia que estava faminto e precisava matar, rasgar e devorar. — Harry falou um pouco irritado pelos olhares. — Me pareceu um animal e, sua voz era cruel, parecia sentir prazer com a ideia de matar como um... predador.

— Existem poucos animais capazes de petrificar suas vítimas, normalmente, fazem isso para comerem carne fresca e não morta. — Informou Moody como se falasse sobre o tempo, sem perceber que as crianças, mesmo Penny e Vector, empalideceram. — No entanto, existem muitas magias negras que petrificam as vítimas antes de torturá-las ou matá-las lenta e dolorosamente.

Isso fez Neville arregalar os olhos horrorizado e ficar ainda mais pálido, Hermione levou a mão ao rosto em um soluço e Terry se encolheu, Harry fez uma careta para o homem, ainda que não pode deixar de se preocupar com Luna.

— Alastor. — Dumbledore o admoestou exasperado.

— O que? — Ele olhou para o diretor e depois para as crianças horrorizadas. — Elas têm que saber, Albus, não pode esconder a verdade e mantê-las inocentes para sempre. Se não souberem, como poderão se defender? Como saberão do que se defender? Ou mesmo que precisam se defender?

— Vamos continuar. — King retomou o controle antes da discussão continuar. — Você tem certeza que era um animal, Harry?

— Sim, absolutamente. E, hoje, ela pediu ao seu mestre que lhe deixasse se alimentar...

— Como disse? — Dumbledore perguntou alarmado, na verdade, todos o encaravam com expressões surpresas.

— Sim, ela disse...

— Espere, ela? Como no feminino ou por criatura? — Perguntou King suavemente.

Harry fechou os olhos e respirou fundo, tentou se lembrar da sensação, o tom da voz, a crueldade e ânsia, sua mente, bem organizada, voltou para aquele momento e, sem o medo e aflição, tudo ficou claro. Seu primeiro ímpeto foi contar a todos, mas o instinto e desconfiança, arraigados desde que teve um primeiro pensamento racional, o calou. Eram pessoas demais em quem ele não confiava, assim...

— Feminino, tenho certeza que era uma criatura feminina, ela era cruel e má, tinha uma ânsia pela presa. Disse, deixe-me mestre, deixe-me devorá-la, faminta... tão faminta, todo esse tempo... mestre... por favor...

Todos pareciam muito chocados ou apavorados.

— Ela tem um mestre, então, alguém que a comanda. — Moody tinha um olhar desconfiado.

— Por favor, continuem narrando os acontecimentos. — Pediu King.

Harry contou em detalhes, com a ajuda dos amigos, o que eles fizeram, como encontraram a Luna, tentaram ajudá-la, Neville buscando ajuda, a inscrição na parede e a gata morta.

— Ok. Muito bem, crianças, acredito que por hoje, temos tudo o que precisamos e começaremos a investigar o local do ataque. — Disse King percebendo que contar tudo exigira muito deles. — Amanhã teremos algumas perguntas, mas agora vocês devem repousar.

— Eu os acompanharei e depois voltarei para a enfermaria, ou você precisa me questionar sobre algo, King? — Flitwick se levantou e desapareceu as poltronas.

— Podemos encontrá-lo na enfermaria depois, professor, pois também precisamos questionar a curandeira sobre os ferimentos da Srta. Lovegood. — Disse King em tom formal e Flitwick acenou concordando

Harry deixou o escritório, mas, ainda conseguiu ouvir Moody dizendo ao diretor.

— Amanhã precisaremos conversar com os amigos mais próximos da garota, Albus.

— Essa seria minha aluna... — Começou Vector, antes da porta se fechar

Ginny! Pensou Harry, sentindo seu coração se apertar, as duas meninas se adoravam e a ruiva ficaria muito chateada com o ataque a melhor amiga.

Flitwick os levou para suas casas, se despedindo antes de voltar para a enfermaria. Harry, Terry e Penny ficaram parados na sala comunal um pouco paralisados, até que, finalmente, a menina mais velha os abraçou com força.

— Os próximos dias serão muito difíceis, talvez até mais do que foi hoje, assim, o melhor é dormimos, meditem, trabalhem suas oclumências e amanhã tentaremos ajudar no que pudermos. — Disse ela tentando lhes passar força.

— Precisamos avisar todos do Covil, Penny, não devemos andar sozinhos mais, em duplas ou trios e espero que amanhã alguém nos diga o que é essa história de câmara secreta e herdeiro. — Disse ele enquanto subiam as escadas.

— Sim, mas não apenas para o Covil, esse aviso será bom para toda a escola, conversarei com a McGonagall. — Disse ela antes de se despedirem.

— Você acha que devemos escrever para a casa e contar o que aconteceu? — Terry perguntou suavemente.

— Não. King os avisará e sendo membros da AP, eles serão informados amanhã bem cedo. — Disse Harry e viu Terry acenar em concordância. — Tranque a porta, nos vemos amanhã.

— Boa noite.

Harry só conseguiu dormir depois de meditar, a concentração para organizar os acontecimentos e sentimentos, protegendo-os com sua magia e longe do seu pensamento superficial, foi o que ele precisava para repousar de verdade e sem pesadelos.

Enquanto isso, King e Moody passearam pela escola, investigando a área do ataque minuciosamente antes de irem para o banheiro inundado, questionaram um emocional fantasma que fora destratada naquela noite, em uma festa de fantasmas, ela não vira nada porque estava... bem, chorando. Foram a enfermaria e pegaram os dados dos ferimentos e Moody constatou, ao examiná-la, que a menina não fora atingida por nenhuma maldição ou magia negra desconhecida.

O trabalho e entrevistas com os professores duraram algumas horas e, durante todo esse tempo, Ginny dormiu tranquilamente. Quando acordou em sua cama, sonolenta e cansada, decidiu tomar banho antes de descer para o banquete e se despiu das vezes sem perceber o sangue dos galos mortos. A roupa foi jogada na cesta e, magicamente, apareceu na lavanderia onde os elfos a lavariam alegremente na manhã seguinte. Ao deixar o banho, Ginny olhou as horas e ficou chocada ao perceber que era quase meia noite... Ora, confusa esfregou o rosto sonolentamente, como pudera ter dormido tanto e ainda estar cansada? E porque a Luna não viera acordá-la? Ela sabia o quanto Ginny queria ver o banquete de Halloween, mas, suspirando, Luna, provavelmente, se distraíra com alguma coisa e também não fora, pensou. Decepcionada colocou a camisola e deitou para dormir, esperando que seu cansaço não significasse que estava pegando o resfriado que todos tiveram nas últimas semanas.

Na manhã seguinte, acordou pálida e meio grogue, estava faminta, por isso se vestiu rapidamente e desceu para a sala comunal. Mas logo se paralisou confusa e constrangida ao ver todos os olhares dos presentes em sua direção, analisando suas roupas não viu nada de errado e desejou ter um espelho para olhar seu rosto. Percy se aproximou dela e estava muito sério, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Vector entrou pelo retrato e a encarou também. Ora, o que raios estava acontecendo?

— Ginny, você pode vir ao meu escritório, por favor? — Disse ela suavemente.

— Posso acompanhá-la, professora? — Perguntou Percy com o peito estufado.

Vector acenou e eles foram para o escritório, Ginny estava cada vez mais confusa, mas não fez perguntas até que a porta estava fechada.

— Aconteceu alguma coisa? — Perguntou baixinho com um mal pressentimento.

— Você não estava no Grande Salão ontem, na hora do banquete, Ginny? — Vector perguntou, orientando que os dois se sentasse no sofá.

— Eu dormi, professora, não estava me sentindo bem e pensei em tirar um cochilo, mas quando acordei já era quase meia noite. Queria muito ir ao banquete de Halloween, meus irmãos sempre me disseram que é incrível, mas... — Ginny olhou para Percy que sorriu para ela, estranhamente doce, o que a confundiu, porque isso era muito incomum.

— Sei que teve uma semana difícil com tudo o que saiu nos jornais e, me parece, por sua palidez e abatimento, que pode estar pegando a gripe. — Disse Vector tocando seu rosto com carinho. — Mas não há febre, o que é um bom sinal... e é bom que você pegou no sono, assim, você também não acabou ferida.

— Ferida? — Ginny arregalou os olhos e Percy lhe segurou a mão em apoio.

— Luna foi atacada e ferida ontem à noite, Ginny. — Disse Vector com tato.

— Luna... — Ginny tinha uma expressão de incompreensão. —Luna!? — Ela se levantou quando entendeu completamente. — Luna está ferida? Atacada? Como? Onde ela está? O que... — E, então ela se lembrou das zombarias e seus pertencem sumidos. — Foram aquelas meninas? Aquelas meninas bobas a machucaram? Eu vou enfeitiçá-las se elas machucaram a minha Luna!

— Meninas? — Vector perguntou confusa e olhou para Percy que acenou negativamente mostrando que não entendia.

— Sim! São a meninas do ano dela e outras do 3º ano, Cho alguma coisa e suas amigas, vivem zombando dela e suas coisas estão sempre sumindo, mas não sabemos quem... — Ginny respirou fundo, seu rosto estava corado pela raiva e quando percebeu que estava quase gritando parou. — Onde está a Luna? Posso vê-la? Ela ficará bem, certo?

— Luna ficará bem, está na enfermaria e foi tratada por Madame Pomfrey, mas... Ginny, sente-se aqui, querida. — Vector pediu suavemente a incitando a se sentar ao lado de Percy. — Enquanto estou interessada no que me disse sobre o bullying que a Luna vinha sofrendo, não acredito que, neste caso, foram elas quem a atacaram. Infelizmente, parece que algum animal mágico a atacou e petrificou a Luna ontem à noite enquanto ela descia para o banquete.

— Petrificou? Mas... o que... o que isso quer dizer? Ela não pode ser despetrificada ou... — Ginny tinha lágrimas nos olhos de preocupação.

— Ela pode e vai. Prof.ª Sprout disse que em alguns meses suas mandrágoras estarão maduras e crescidas, uma poção restauradora será fabricada e a Luna acordará sem nem perceber que passou todo esse tempo. — Disse ela com um sorriso suave.

— Meses? — Ginny não percebeu as lágrimas que escorreram por seu rosto, seu irmão imediatamente passou o braço por seus ombros, sua irmãzinha raramente chorava, era sempre muito forte e dura.

— Ela ficará bem, Ginny, isso é o que importa. — Disse ele baixinho.

Ginny apenas acenou tentando controlar a vontade de chorar, essa semana derramara mais lágrimas do que podia se lembrar, primeiro a decepção no domingo e agora isso, sua amiga, sua querida e doce Luna.

— Quem fez isso, Prof.ª Vector? — Disse ela quando a tristeza se tornou raiva. — Quem machucou ela?

— Ainda não sabemos e temos dois aurores investigando o ataque, eles precisam falar com você, será em minha presença e de quem mais você quiser junto a ti. — Vector se levantou e estendeu a mão. — Vamos até a enfermaria e você pode visitá-la, quero que Madame Pomfrey lhe examine e, depois, chamarei os aurores.

Ginny acenou e segurou sua mão, quando saíram para o corredor, Percy apertou seu ombro.

— Eu preciso ir para as minhas... quer dizer, um grupo de estudo, Ginny, assim que estiver livre vou te encontrar. Ok? — Disse ele gaguejando estranhamente quando o feitiço lhe impediu de falar das aulas dos puros-sangues.

Ginny não percebeu e apenas acenou, desejando lhe pedir para ficar com ela, mas não queria mostrar fraqueza, não era uma menininha boba.

— Ok, hum..., até mais, Percy. — Disse ela e seguiu com a professora até a enfermaria tentando ignorar os olhares dos alunos pelo caminho.

Quando chegaram e abriram a porta, Ginny viu o Sr. Lovegood com expressão estranhamente séria, conversando em sussurros com a curandeira. Ele a encarou e deu um sorriso suave, seus olhos azuis como os da Luna estavam muito tristes.

— Olá, Ginevra, você veio visitar a minha Luna?

— Sim, Sr. Lovegood, acabei de saber o que aconteceu, ontem não me senti bem e peguei no sono, perdi o banquete e por isso... Luna estava sozinha... eu sinto muito... — Disse ela fungando e tentando não cair no choro.

— Oh, querida menina, Luna jamais iria querer que fosse ferida também, foi melhor assim, provavelmente os espíritos da magia estavam te protegendo. — Disse ele apertando seu ombro suavemente.

— Posso vê-la? — Sussurrou ela tentando ignorar a sensação de culpa.

Madame Pomfrey e o Sr. Lovegood acenaram em concordância e ela foi levada para traz de uma cortina e no leito alto estava sua amiga. Ginny mordeu o lábio para não soluçar quando a viu tão pálida, rígida e com olhar fixo e vazio. Foi só neste instante que ela entendeu a palavra petrificação e, se aproximando, tocou sua mão rígida, pelo menos ela não estava fria ou pareceria morta, pensou, angustiada.

— Quando ela vai acordar? — Sussurrou com voz embargada.

— Em fins de maio é quando as mandrágoras estarão crescidas e poderão ser colhidas, segundo a professora Sprout, então, ela acordará bem. — Disse Pomfrey suavemente.

Ginny acenou, mas, maio lhe pareceu muito, muito longe. Apertando sua mão, ela se inclinou e beijou seu rosto.

— Você ficará bem, Luna e eu te ajudarei a estudar quando você acordar, assim não se preocupe. — Disse ela apenas para a amiga ouvir, quer dizer, não sabia se Luna podia ouvi-la, mas se podia, queria que soubesse que tudo ficaria bem.

— Madame, Ginny se sentiu indisposta ontem, acredito que pode estar caindo para a gripe. Poderia examiná-la, por favor? E, ela ainda não tomou seu café da manhã, assim, poderíamos servi-lo aqui? E, Ginny, hoje você está liberada de suas aulas de carpintaria. — Vector disse objetivamente.

Em poucos minutos, Ginny estava recostada em uma cama alta, teve algumas poções desagradáveis enfiadas por sua garganta, uma bandeja de café da manhã, que ela não queria comer, colocada em seu colo e sua chefe de casa informou que chamaria os aurores que queriam vê-la. Confusa e cansada, Ginny não levantou objeções e comeu sem vontade, mas quando os dois aurores chegaram, se sentiu tensa com suas aparências oficiais e intimidantes. Vector também chamou Flitwick para que ele ouvisse sua história sobre o bullying que Luna sofria e, de repente, tudo se tornou muito grande e assustador.

— Está tudo bem, Srta... Posso te chamar de Ginny? — King perguntou com sua voz profunda e calmante, respirando fundo, ela acenou. — Temos apenas algumas perguntas sobre sua melhor amiga, a Luna, você pode nos contar um pouco sobre ela e sobre se alguém poderia lhe desejar algum mal?

Falar sobre Luna era fácil, assim, Ginny sorriu triste e contou sobre tudo o que havia de especial em sua amiga e porque ela era a melhor pessoa do mundo.

— E, bem, é por isso que é tão fácil gostar dela sabe, você só precisa abrir o coração. Ela nunca vê nada negativo e, seu jeito de enxergar as coisas, nos faz perceber como damos importância a bobagens, sabe. — Disse ela e sua voz se embargou no fim.

— Sim, eu entendo e só de ouvir você, me senti com vontade de conhecer a Luna. — Disse King com um sorriso suave. — Agora, conte-me sobre as dificuldades da Luna com essas pessoas que você disse que foram bobas e maldosas com ela.

— Bem... — Ginny olhou para o Flitwick com um ar de desculpas. — Luna não queria contar para o senhor, professor, porque ela não sentia que era grave, sabe, ela dizia que as meninas apenas a achavam excêntrica e que suas coisas apareciam depois de um tempo, então, não era como se estivessem roubando. Ela me disse que elas apenas não eram felizes e ficavam com inveja dela por ser feliz, mesmo quando zombavam dela. Luna é assim.

— Eu entendo, Ginny, tive oportunidade de conhecer a Luna e sei que ela é muito especial, mas, por favor, nos conte qualquer coisa que você sabe, mesmo que não tenha nada a ver com seu ataque, ainda gostaríamos de saber. — Flitwick falou carinhosamente.

Ginny acenou, também pensava assim e, suavemente, contou sobre as provocações e zombarias, ela não presenciara mais do que alguns e uma vez, um menino, Wilkes, a empurrou quando Luna estava distraída desenhando a estátua da Rowena na sala comunal. Ele dissera que ela estava em seu caminho, o que não era verdade e a chamou de Loony, então vieram os sumiços de suas coisas, livros, penas, sapatos e como eles apareciam pendurados pela escola em lugares altos e difíceis de alcançar sem magia.

— Nós notamos que a Luna estava descalça, mas não sabíamos o motivo. — Disse King suavemente, fazendo algumas anotações.

Flitwick estava com uma expressão muito séria e seu corpo pequeno estava tenso, mesmo Vector, a única outra pessoa acompanhando as perguntas, parecia muito indignada.

— Porque não estava no banquete ontem, Srta. Weasley? — Moody perguntou subitamente, seus dois olhos a encaravam com atenção.

— Oh... eu não estava me sentindo muito bem, estava cansada e sonolenta, como era cedo, decidi tirar um cochilo antes da festa e, quando acordei e olhei as horas, levei um susto porque eram quase meia noite. — Ginny disse e sua sinceridade era clara. — Até pensei que Luna poderia ter ido me acordar, ela sabia o quanto eu estava ansiosa pela festa, mas depois pensei que ela deveria ter se distraído com alguma coisa e nem se lembrou que era Halloween.

— Conveniente. — Murmurou ele em um resmungo, que apenas King ouviu.

Logo depois, eles deixaram a enfermaria e foram para a área de ataque que estava isolada ainda e King suspirou.

— Você não acredita que essa menina tenha algo a ver com a amiga ser atacada. — Disse ele encarando Moody.

— Não. Apenas... não temos como confirmar o álibi de todos nesta escola, apenas que todos ou quase todos estavam no Grande Salão. No entanto, pelo sangramento e perda de sangue, sabemos que o corte em seu braço tinha ocorrido a poucos minutos ou ela não teria sobrevivido, sangraria até morrer. E, curiosamente, a sua melhor amiga não tem um álibi para aquele momento. Me parece conveniente. — Disse Moody com mau humor. — Quando algo parece muito claro, normalmente, é porque é claro.

— Sim, mas como você disse, impossível verificar se todos estavam no banquete ou supor que qualquer um perceberia a ausência de alguém. — Disse King suavemente, mas compreendendo o pensamento do amigo. — E, como você, me parece que Ginny ama muito a amiga e não poderia machucá-la.

— Mas poderia ser usada para isso. — Disse Moody olhando para o lugar onde os restos da gata estiveram mais cedo, Filch os receberia depois de terminado os exames para determinar o tipo de animal que a atacara.

— Imperius? — King perguntou com o cenho franzido.

— Sim. Quem poderia atrair a Luna para cá? Elas não têm mais amigos, esse é um banheiro não utilizado e não o caminho comum para o Grande Salão. — Moody elaborou sua ideia. — Um aluno mais velho ou professor, a coloca sob a maldição, a obriga a vir aqui e atrair a Luna, usa seu animalzinho para petrificá-la, obliviata a ruiva e a manda para o quarto, acreditando que esteve dormindo o tempo todo porque estava cansada.

— Sim, é uma boa teoria, mas porque atacar a Luna? Pelo que o visitante do Harry disse, sua discussão com Draco e o fato de Malfoy ser um purista da pior espécie, os alvos deveriam ser nascidos trouxas. — Disse King pensativo.

— Sim. E, é onde minha teoria não faz sentido, mas devemos deixar tudo em aberto, é só o começo da investigação e duvido que essa menina será o único ataque. — Disse Moody olhando na direção da enfermaria. — Poderíamos procurar a menina por mais magias negras, mas...

— Quem fez isso seria esperto para não deixar vestígios fáceis de encontrar e qualquer diagnóstico mais invasivo a faria desconfortável. — Concluiu King concordando.

— Além disso, não muda nada e, se aquela menina souber que, indiretamente, foi usada para machucar a amiga, isso a marcará para sempre. — Disse Moody em tom brusco.

King o olhou levemente surpreso, conhecia Moody a tempo suficiente para saber que ele era o melhor auror que já vira em ação, mas, raramente, o viu mostrar que se importava.

— Você está certo, amigo. A questão é, como evitamos que mais crianças sejam atacadas? Não temos o suficiente para descobrir quem, ainda que as pistas podem nos dar a criatura mágica. — Disse king olhando para a inscrição, como tinham tirado fotos, ele moveu a varinha e a apagou antes de liberar o corredor.

— Para começar, vamos conversar com Albus, tenho a sensação de que ele está escondendo alguma coisa. — Disse Moody e os dois caminharam para o terceiro andar.

O clima na escola era muito sombrio no café da manhã daquele sábado, quando McGonagall os informou, resumidamente, do que aconteceu com a Luna e orientou que todos andassem em duplas ou trios até que a criatura mágica fosse capturada. Ela disse também que os chefes de casas estariam escrevendo aos pais e informando sobre o que aconteceu e quais as providências estavam sendo tomadas para a segurança dos alunos. Contou que aurores e membros do Controle e Regulamentação de Criaturas Mágicas estavam cuidando de investigar e descobrir qual criatura e como capturá-la. Os alunos ouviram seriamente e, quando ela encerrou, os monitores de cada casa, com exceção da Slytherin, se levantaram e explicaram sobre toques de recolher, não andar para qualquer lugar sozinhos, não vagar para os jardins sozinhos e não desconsiderar os avisos. As crianças mais novas ficaram um pouco assustadas, mas, Harry as preferiria assim do que feridas.

Ele e o três amigos visitaram Luna, brevemente, depois das preparações e estudos extras. O Sr. Lovegood os recebeu com um sorriso sonhador e parecia feliz que sua Luna tivesse tantas pessoas que gostavam dela, bons amigos. Para os 4 foi difícil vê-la petrificada outra vez e Harry ficou muito chateado ao saber que ela só acordaria em maio. Logo depois do almoço, foram chamados ao escritório do diretor para responder algumas perguntas de King e Moody, Flitwick os acompanhou, representando os 4. Harry pediu isso, porque não conhecia a professora Vector e não sabia se poderia confiar nela.

— O senhor descobriu algo, Sr. King? — Perguntou Harry ansioso, assim que entraram na sala.

— Harry, sabe que não posso revelar informações de uma investigação, muito menos a crianças de 12 anos. — Disse ele, o olhando seriamente.

— Mas não vamos falar sobre isso por aí, irresponsavelmente. — Disse Harry surpreso. — Eu lhe contei sobre o meu visitante e sobre a voz, nós encontramos Luna, merecemos saber e, como vamos nos proteger, se não soubermos do que?

— Bem, é para isso que os adultos estão aqui e, se me lembro, você prometeu que não se envolveria com seja lá qual fosse o plano de Malfoy para Hogwarts. — Disse uma voz conhecida ao lado de uma das estantes, Harry arregalou os olhos.

— Sra. Serafina? — Ele disse surpreso, estava tão focado em King que não percebera que havia mais uma pessoa no escritório, além dele, Moody e Dumbledore.

— Mamãe? — Terry pelo jeito teve o mesmo problema, mas assim que a viu se adiantou para abraçá-la. Harry, Hermione e Neville o seguiram.

— É muito bom ver todos vocês, seu pai ficou se exibindo sobre tê-los visto e acredito que agora estamos quites. — Disse ela com um sorriso contido, os meninos sorriram também, ainda que em outro momento teriam rido do comentário. — Como estão vocês? — Ela perguntou preocupada.

Harry não respondeu, não queria falar sobre seus sentimentos na frente de Dumbledore ou o auror Moody, mostrar fraqueza ou quão pesada a sua semana foi apenas para chegar ao seu auge, o ataque de Luna era a última coisa que precisava. Seus amigos parecerem entender e Terry tomou a frente garantido que estavam bem.

— Acabamos de ver a Luna e Madame Pomfrey nos garantiu que ela está bem e, que quando, acordar nem perceberá o tempo que passou. — Encerrou ele sem mencionar os outros problemas.

— Bom, eu também pretendo visitá-la e ao Sr. Lovegood, quero saber se precisam de algo. Estou aqui como diretora executiva da Associação de Pais, pretendo acompanhar a investigação e manter os pais atualizados o máximo possível. — Serafina olhou para King com um sorriso justo. — Ainda que sei que a investigação é confidencial para mim e para vocês também. — Disse ela olhando para Harry com um aviso claro.

— Não quero me envolver ou fazer parte da investigação, apenas quero entender e saber o que está acontecendo, acredito que é justo. — Disse Harry desafiador. — Além disso, eu...

— Isso não é uma questão de justiça, garoto. — Interrompeu Moody bruscamente. — E, sim, de sigilo e protocolo. Vigilância constante! — Gritou ele fazendo os meninos, menos Harry saltarem. — Que tipo de aurores seríamos se saíssemos falando sobre nossas investigações para garotos de 12 anos. E, o fato de você ser quem é, não lhe dá nenhum privilegio, pelo menos não no meu livro. Entendeu?

— Sim. — Harry o encarou com frieza e olhou em volta, percebendo que não teria apoio de nenhum dos adultos. — Fico feliz que pense assim, na verdade, pois não quero privilégios, não preciso deles. Gostaria apenas de fazer duas perguntas se vocês puderem me responder, eu agradeço.

Sua frieza e aceitação causou incomodo em King e Serafina que, claro, não queriam magoá-lo e surpresa nos amigos que não entenderam porque não insistia mais.

— O que você quer saber, Harry? — Dumbledore, que era o menos convicto em mantê-lo no escuro, o que era uma grande ironia.

— Primeiro, porque não conseguimos mandrágoras crescidas em outros lugares? Esperar até maio para que as da Prof.ª estejam prontas me parece absurdo, se despetrificarmos a Luna, saberemos quem é o responsável pelo ataque em segundos. Eu perguntei, e Madame Pomfrey me disse que a petrificação não afeta sua memória.

Um silêncio se manteve na sala enquanto todos o encaravam surpresos e Harry se perguntou se nenhum deles, mesmo os aurores, não tinham pensado no óbvio.

— O que faz você pensar que a menina viu seu atacante, Potter? — Perguntou Moody com um olhar atento.

— Ela estava segurando sua varinha, Auror Moody, com firmeza, com sua mão direita que foi rigidamente paralisada a frente como se pretendesse se defender ou atacar alguém. — Harry disse mostrando a posição com sua própria varinha. — Seu braço esquerdo foi ferido e estava ao longo do seu corpo, pendurado para baixo, o sangue escorria e pingava por seus dedos no chão, onde fizeram uma poça.

A discrição clínica e quase fria de Harry incomodou e impressionou a todos, com exceção de Moody que ficou apenas impressionado.

— Bom olho garoto e sua ideia é muito boa também. — Elogiou o auror com um sorriso que mais parecia uma careta. — E, pensamos nisso ontem mesmo, enviamos recados as lojas de poções do Beco, do estoque do St. Magnus e do Ministério.

— E, a resposta já chegou, nenhum deles tem, mandrágoras são muito caras e raras, pois demoram para crescerem e exigem muitos cuidados. — Respondeu Dumbledore acenando para as cartas sobre a sua mesa. — Qualquer erro e elas morrem, assim, apenas especialistas costumam cultivá-las.

— Ainda assim foi uma boa ideia, Harry e Moody está certo, você tem um bom olho. —Elogiou King claramente tentando aplacá-lo, Harry apenas assentiu sem muito calor. — Qual era sua outra pergunta?

— O que é essa história de câmara secreta e herdeiro? — Seu olhar passeou pelos 4 adultos e se deteve em Dumbledore que deveria saber mais sobre escola.

— A câmara secreta de Slytherin deveria ou é considerada uma lenda, Harry. — Respondeu ele suavemente. — Você conhece a história de Salazar Slytherin? Sua discussão com os outros 3 fundadores, principalmente, Gryffindor e, consequente abandono de Hogwarts?

— Sim. Terry é ótimo professor de História. — Disse Harry olhando para o amigo que corou levemente.

— Além disso, todos lemos Hogwarts, Uma História. — Apontou Hermione muito curiosa.

— Fico feliz em ouvir isso. — O diretor tinha um sorriso suave de aprovação. — Essa informação em particular está nas edições mais antigas do livro, pois com o passar dos séculos ela se tornou uma lenda. Se é ou não um fato verdadeiro, não sabemos, mas, segundo a lenda, Slytherin construiu uma câmara secreta no castelo, onde escondeu algum tipo de monstro. Os outros fundadores não sabiam nada sobre isso, claro, se é que podemos acreditar que ela existe, mas foi dito que Slytherin teria selado a Câmara Secreta de modo que ninguém pudesse abri-la até que o seu legítimo herdeiro chegasse à escola. Somente o herdeiro seria capaz de abrir a Câmara Secreta, controlar o monstro e usá-lo para expurgar a escola de todos que não fossem dignos de estudar magia.

— Nascidos Trouxas. — Disse Hermione em um resmungo e cruzou os braços contrariada.

— Exatamente, Srta. Granger. — Disse Dumbledore suavemente.

— E vocês descobriram qual é a criatura? Pelos restos da gata? — Perguntou Neville olhando para King.

— Tivemos alguém do Departamento de Controle de Criaturas recolhendo o que sobrou da gata, quando temos um ataque de animal, normalmente, trabalhamos em conjunto com eles e, se for considerado um acidente, eles assumem a investigação. — Respondeu King calmamente. — Mas, sabemos que aqui não é esse o caso.

— Teremos uma resposta em poucos dias e, assim que identificarem a criatura, Agente Macnair poderá caçá-la adequadamente, nós ajudaremos e convocaremos outros aurores para ajudar. — Disse Moody.

— Espero que não escondam essa informação, sigilo ou não, precisamos saber como nos defender e as crianças. — Disse Flitwick muito sério.

— Sim, passaremos a informação aos funcionários e professores, mas manteremos dos alunos, não queremos gerar pânico. — Disse Dumbledore e Harry viu todos os adultos concordando com esse absurdo.

— Muito bem. — Harry analisou tudo o que ouvira e se controlou para não fazer uma careta, só recebera notícias ruins. — E, existe alguma maneira mágica de descobrir se Voldemort está possuindo alguém na escola outra vez?

— Voldemort? O que aquele desgraçado tem a ver com isso e quem raios ele possuiu? — Moody questionou bruscamente e olhando em volta, não viu a surpresa de ninguém. — Bem, bem, parece que sou o único idiota aqui que não sabe de nada.

— O que faz você pensar que Voldemort está envolvido nos ataques, Harry? — Dumbledore o olhou com curiosidade.

— Primeiro, a pouco tempo descobri que lendas estão baseados em verdades, ou bem perto disso, assim, depois do ataque de ontem e do que eu ouvi, acredito na existência da câmara secreta. Segundo, porque sei que Voldemort espalhou rumores de que ele é o herdeiro de Slytherin e recebeu o apoio de muitas famílias puros-sangues antigas por causa disso. — Harry expôs objetivo e inteligente. — E, essas famílias podem ser muitas coisas, mas tolas não são, não com seu dinheiro e não com quem servem, se ajoelham e chamam de mestre ou meu Lord. Portanto, ele deve ter lhes provado que era o verdadeiro herdeiro.

Harry falou com ironia e o fato de saber tantos detalhes surpreendeu a todos os adultos, menos Serafina.

— Como sabe de tudo isso, garoto? — Moody perguntou com um olhar desconfiado.

— Eu tenho minhas fontes, auror Moody e como o senhor disse, é quem menos tem informações aqui, assim sugiro que todos trabalhemos juntos para descobrir como Voldemort conseguiu voltar para Hogwarts. — Harry encarou Dumbledore. — Pensei que depois do que aconteceu no ano passado, ele teria fugido para longe, mas se esteve aqui o tempo todo...

— Voldemort não está em Hogwarts, lhe garanto que ele fugiu e já ouvi rumores de que reapareceu em seu antigo esconderijo na Albânia. — Garantiu Dumbledore seriamente. — E, isso tem me desconcertado, pois como você, acredito que Voldemort é direta ou indiretamente responsável pelo ataque de ontem.

—Indireta? — Harry considerou essa ideia pensativamente. — Eu já tinha pensado na possibilidade de Malfoy ter usado a maldição Imperius em alguém, mas com a câmara... — Ele parou ao ver Moody e King trocando um olhar de conhecimento. — O que é isso? Vocês sabem de algo?

— Não, Harry e, mesmo se soubéssemos, não poderíamos lhe dizer, apenas ficamos surpresos que você conheça essa maldição em particular. — Disse King e era óbvio para Harry que não estava sendo totalmente sincero.

— Sim, nem todo garoto de 12 anos sabe sobre as imperdoáveis. — Novamente o olhar desconfiado de Moody estava sobre ele.

Harry não se dignou a responder, apenas levantou a sobrancelha ironicamente, mas Terry ficou incomodado.

— Nós somos Ravenclaws e lemos, auror Moody, além disso, as maldições imperdoáveis são descritas com muito detalhes entre os fatos históricos da guerra e, como dito, sou um bom professor de História. — Disse ele, encarando defensivamente o auror maltratado.

— Olha, eu acredito que estamos perdendo tempo. — Disse Serafina também não feliz com o olhar de Moody. — Eu preciso falar com minha ala em particular e vocês tinham perguntas aos meninos sobre o que aconteceu ontem. Certo?

— Sim, garotos, seus depoimentos foram bem claros, temos apenas algumas dúvidas. Os horários, por exemplo, Harry, você pode nos dizer qual o horário em que ouviu a voz e o tempo que levou para chegar onde estava a Luna.

Harry engoliu a decepção com dificuldade e com a ajuda dos amigos apresentou uma linha de tempo razoável.

— Ok. Vocês podem me dizer porque não estavam na festa? — King perguntou anotando distraidamente os horários.

— Acredito que isso é óbvio. — Disse Harry irritado.

— Não precisamos de sua atitude, garoto, precisamos dos fatos e, verdadeiros fatos. Responda à pergunta! — Moody gritou mal-humorado.

— Ontem fez 11 anos do assassinato dos meus pais, ir a uma festa comemorar o que quer que seja não me interessa, auror Moody. Meus amigos me acompanharam porquê..., bem, são bons amigos. — Harry respondeu em tom robótico, sem demonstrar emoção.

A tensão na sala se acentuou enquanto Harry e Moody se encaravam com frieza, nenhum dos dois desviando o olhar.

— Harry. — King o chamou e ele, relutante, o encarou. — Você disse que a voz vinha de todos os lugares do castelo, mas ia descendo. Poderia explicar melhor?

— Das paredes, Sr. King, a voz vinha das paredes, parecia ecoar pelo castelo e descia pelas paredes ao andar de baixo. — Disse Harry indiferente.

— Muito bem. Vocês conhecem a Luna? São seus amigos ou sabem de alguém que poderia querer machucá-la? — Ele questionou enquanto anotava a resposta anterior.

Suspirando, Harry e seus amigos descreveram a relação que tinham com Luna, que era mínima e que não podiam imaginar alguém que não gostava dela, porque era uma menina muito doce. Harry acrescentou seu flagrante em Wilkes tentado empurrá-la para a piscina para depois empurrar Colin, mas que fora isso, não percebera nenhum bullying.

— E a gata? Filch? Como eram suas relações e quem poderia querer machucá-los? — Moody perguntou os olhando com atenção.

— Todos. — Harry respondeu e ergueu a sobrancelha com ironia. — Filch e aquela gata são odiados por todos nesta escola e muitos gostariam de lhes dar um bom chute ou pregar uma brincadeira. Acredito que a caixa de mensagens e reclamações devem ter centenas de suspeitos, vocês deveriam ler cada uma delas e interrogá-los.

— Harry. — Serafina o admoestou pela grosseria, mas Harry viu que Moody o olhava com aprovação, apesar da desconfiança. Flitwick e Dumbledore também pareciam levemente divertido.

Hermione e Terry explicaram os conflitos com Filch e a gata e, depois disso, King os liberou.

Ele esperava mais perguntas, ele tinha muito o que dizer e perguntar, mas, ficou claro, que nenhum dos adultos lhes daria mais informações.

— Só isso? — Ele perguntou tentando controlar sua impaciência e decepção.

— Sim, Harry, sei que quer participar mais, no entanto, tem que confiar em nós, sabemos o que estamos fazendo e acredito que percebeu que todas as suas sugestões já foram pensadas ou consideradas por nós. — Disse King com a sobrancelha levantada e Harry percebeu que ele o achava arrogante por acreditar que sua ajuda era importante.

— Entendo. — Harry disse e engoliu com dificuldade a raiva que sentia, provavelmente, se não fosse a oclumência, estaria explodindo. — Bem, se é apenas isso, acredito que estamos indo... — Olhou para os amigos que pareciam preocupados com sua atitude e que acenaram se levantando.

— Espere, você parece bem informado, como disse, tem mais alguma coisa que sabe que poderia ajudar na investigação? — Perguntou Moody ainda o olhando com desconfiança.

— Eu sei muitas coisas, auror Moody, mas, tenho certeza que nada que um garoto de 12 anos saiba, poderia ajudá-los. — Harry sorriu com sarcasmo. — Boa tarde.

Harry, os amigos e Serafina deixaram o escritório e foram para uma sala de aula vazia onde ela lançou um feitiço de imperturbabilidade.

— Harry, pensei que manteria sua promessa de não se envolver em tudo isso, você, praticamente, exigiu fazer parte das investigações. — Serafina o encarou chateada.

— Não se trata disso, Sra. Serafina, eu não quero lutar com Voldemort outra vez ou algo assim, apenas quero poder ajudar e acredito que possa fazer isso. Mesmo que King me ache arrogante ou sei lá o que, nós todos poderíamos nos unir e, eu percebi...

— O alunos não serão envolvidos em uma investigação, Harry, ponto final. — Serafina o interrompeu inflexível e os encarou duramente. — Você sabe que isso não seria correto, King pode ser seu amigo, mas seguirá as regras e protocolos do Departamento Auror. O que aconteceu no ano passado foi uma armadilha e entendemos que as circunstâncias o levou a descer pelo alçapão, mas agora Hogwarts está diferente. Os professores estão sendo observados, investigados, a criatura será descoberta e capturada e, se Malfoy está controlando alguém a mando de Voldemort ou não, aqueles dois aurores são mais do que competentes para descobrir. Entendido?

— Sim, mamãe. — Disse Terry percebendo por seu tom que não queria discussão.

— Sim, senhora. — Disse Hermione e Harry teve a impressão que estava aliviada.

Harry e Neville acenaram concordando.

— Vocês já se meteram em confusão no início do ano. — Serafina olhou para os três meninos e se deteve em Harry. — Ficamos muito decepcionados com sua mentira sobre a adaga e sua atitude no trem, você teve uma punição justa, mas não pense que toleraremos que saia da linha e faça o que quiser sem consequências.

— Eu estou mais calmo e já me desculpei, pensei, por suas cartas, que isso estivesse resolvido. — Disse ele rigidamente.

— Resolvido, mas não esquecido e, mais importante, quero que cumpra sua promessa de não se envolver, de deixar que os adultos resolvam o que é sua obrigação e trabalho fazer. Entendo que gosta de mistérios, aventuras e estar envolvido, compreendo que, quando se trata de Voldemort, sinta uma atração maior, mas o que todos queremos é que se dedique aos seus estudos e treinamentos. — Serafina falou seriamente e Harry nunca a tinha visto assim, tão inflexível. — Nós sabemos que um dia será impossível impedir você de lutar e por isso concordamos com seu treinamento com o Prof. Flitwick, mas esse momento ainda não chegou. Você, compreende, Harry?

— Sim, senhora. — Disse ele engolindo a vontade de protestar.

— Agora, precisamos conversar sobre o que aconteceu durante essa semana...

— A senhora tem notícias da garota? Ela ficará bem? — Harry a interrompeu tenso.

— Sim, Falc e eu estivemos no St. Magnus e conversamos com sua família. — Serafina suspirou cansada depois de uma longa semana. — Esperávamos algumas reações, raiva e indignação, mas essa garota, Sally, nos surpreendeu, no entanto, ela tem um histórico de transtorno mental e não tínhamos como prever algo assim. Acredito, pelos sintomas, que ela tem esquizofrenia, mas, no mundo mágico, algo assim não é tratado, bem, mesmo no mundo trouxa existem dificuldades, dependendo o tipo de esquizofrenia que a pessoa sofre.

— Eu não entendo, o que é esquizo... — Neville parou sem conseguir dizer a palavra.

— Esquizofrenia é um transtorno mental que leva o paciente a ter perda de contato com a realidade, isso é chamado de psicose. A pessoa pode ter alucinações, como ouvir vozes, ou falsas convicções e delírios, ela apresenta dificuldades em seus pensamentos, comportamentos, demonstração de emoções. Isso não acontece com todo mundo, mas quem vivencia a doença tem dificuldades cognitivas, de relacionamento, sociais ou de autocuidado. — Serafina explicou suavemente, Harry ouviu enquanto olhava pela janela. — Seus pais a retiraram de Hogwarts quando começou a apresentar os primeiros sintomas, durante seu 5º ano. O curandeiro chamou de doença cerebral e lhe deu poções para mantê-la quieta ou dopada, não existe um tratamento, assim como não existe um para Alzheimer. Como a menina não era violenta, apenas delirante, eles permitiram que os pais cuidassem dela em casa, mas quando ela leu o jornal...

Houve um silêncio pesado e Harry fechou os olhos tentando aceitar, com muita dificuldade, que o que aconteceu foi um caso especial e isolado, como dissera Flitwick. Sally Trypier tinha um transtorno muito sério, não estava sendo tratada e cuidada corretamente, por isso sua tentativa de suicídio ao saber do fim da série de livros Harry, O Aventureiro não era sua culpa. Ainda assim, Harry sentia um peso enorme em seu coração.

— Ela era fã dos livros? — Harry perguntou baixinho.

— Pior. Sua mãe me disse que ela criou uma realidade onde ela era sua amiga e companheira de viagem, quando lia uma nova história, ela incorporava em sua psicose e começava a agir como se tivesse feito as coisas do livro, visitado aquele país, conhecido aqueles animais. — Serafina esfregou a testa onde uma dor surda começava. — Ela criava diálogos inteiros com o personagem Harry e, realmente, acreditava em suas fantasias, assim, quando leu no jornal sobre o fim da série... Harry, ela nem teve capacidade de entender o resto, suas explicações e verdades. Sally apenas entendeu que não haveria mais viagens e que ela não o veria mais, isso causou um surto psicótico e, antes que a mãe pudesse impedi-la, Sally se trancou com magia acidental em seu quarto e usou o vidro que se quebrou da janela para cortar os pulsos.

— Merlin...

— Não é sua culpa, Harry. — Hermione falou e parecia zangada. — Só de ouvir a Sra. Serafina falar dá para perceber que a moça estava sem tratamento, sem remédios para impedir as alucinações e delírios, qualquer coisa, a qualquer momento poderia ter causado um surto que levaria a uma possível violência contra ela ou outras pessoas.

— Eu entendo. — Harry acenou e os olhou. — Eu conversei longamente com o Flitwick e eu entendo tudo isso, esse é um caso isolado e especial, vocês estão certos, não fui diretamente responsável. No entanto, minha necessidade de proclamar a verdade causou muitos sofrimentos, aqui em Hogwarts e com as crianças mais jovens lá fora. Isso sem falar no que aconteceu com a Editora Charmel, nunca pensei que tudo sairia de controle assim e...

— Nós também não pensamos, somos os adultos e acreditamos que teríamos algumas reações, mas toda essa raiva...— Serafina suspirou. — Desconfio que toda essa crise financeira, tantas pessoas desempregadas ou com baixos salários, essa insegurança, então, descobrirem que foram enganados e que seus filhos foram enganados, as crianças chorando e se lamentando. Isso sem falar nas mentiras do Ministério sobre seus pais, ouvi muitos pais chocados sobre como você foi tratado por Dumbledore e o Ministério, como eles foram tolos em acreditar cegamente. Outros dizendo que Sirius foi preso por causa disso, mentiras e mais mentiras. Nas cartas o tom e discursos são os mesmos e, como eles não podem atacar o Ministério ou o diretor, fisicamente, bem, a Editora Charmel era mais vulnerável.

— Felizmente não tinha ninguém, assim não houve feridos, mas o Profeta disse que o fogo destruiu o prédio. — Disse Terry inconformado.

— Sim. O donos e funcionários sabiam que a matéria sairia e que poderiam haver visitas ou cartas de reclamação, assim, decidiram fechar por uns dias, mas acredito que depois da destruição do prédio, eles não reabrirão tão cedo, se é que algum dia será seguro retomarem as atividades. — Disse Serafina cansada.

— Não estou nem um pouco preocupado com eles, pois ganharam dinheiro suficiente enganando todas essas pessoas, ainda que fico feliz que ninguém se feriu. — Disse Harry se aproximando e se sentando perto dos amigos. — Alguém foi preso?

— Não, porque não houve flagrante e poderia ser qualquer um, apesar de que, o auror Dawlish está investigando. — Informou Serafina.

— E as cartas, pararam de chegar? — Harry perguntou se lembrando como na segunda-feira centenas de corujas com cartas chegaram para ele no café da manhã.

Flitwick redirecionara as cartas para sua sala e, no fim do dia, eram milhares, Harry quase enlouquecera de espanto, afinal, ele queria menos fama ou fãs e não uma horda de mensagens. Felizmente, eles tiveram a ideia de enviar tudo para a Abadia e, aos poucos, os adultos lidariam com elas.

— Não, mas diminuíram bastante. Harry, estivemos lendo algumas, é impossível ler tantas em uma semana, a maioria são boas cartas. — Serafina sorriu suavemente. — Tem alguns de fãs, outros de raiva pelo fim da série ou por achar que você quer chamar a atenção ou está mentindo, mas, essas são mínimas. A maior parte são de pessoas dizendo que acreditam em você, te parabenizando ou dizendo que seus pais teriam orgulho de um jovem tão doce e justo. Acredito que, apesar de tudo, conseguimos atingir o principal objetivo, contar a verdade e mudar o foco para o seu eu real. E, o número de livros que recolhemos é absurdo, as filas na Editora Aprilis durante esta semana foram imensas e conseguimos devolver o dinheiro e presenteá-los com os livros novos como prometemos. Pelo menos isso correu bem, sem confusão.

Harry acenou aliviado, se pelo menos o ataque de Luna não tivesse acontecido, a semana poderia ser considerada positiva.

— Sally realmente ficará bem? — Harry perguntou sabendo que ela era a maior vítima em tudo isso.

— Sim, mas, infelizmente, não poderá mais sair da enfermaria de longo prazo do St. Mungus, o que, aliás, me pareceu que deixou os pais aliviados. — Serafina pareceu triste. — Tentei falar sobre os tratamentos trouxas, os remédios e evoluções nestas áreas, mas o pai dela riu e disse que, se magia não podia resolver, alguns trouxas idiotas não conseguiriam.

— Que tolo! Esse preconceito absurdo! — Hermione se levantou com raiva.

— Ele não me pareceu um purista, exatamente, mais como, ignorante e pensa o que muitos bruxos pensam, que os trouxas são inferiores e pouco inteligentes. — Disse Serafina chateada.

— A senhora acredita que eu deveria visitá-la? — Harry perguntou hesitante.

— Não, de maneira alguma, não temos como saber como ela reagiria, que tipo de delírios ou fantasias criaria e quando você for embora...

— Entendi. — Harry acenou engolindo em seco. — Podemos fazer qualquer coisa por ela? Talvez, pagar o tratamento ou...

— Nós oferecemos e o pai não aceitou, muito orgulhoso, mas consegui convencê-los a permitir que ela fique com os livros. Acredito que sem poder compreender o porquê, ter os livros tirados dela seria muito doloroso, quando os deixei, Sally estava lendo os livros outra vez e criando uma nova fantasia. Sobre você estar indo para Hogwarts e por isso não poder mais viajar e, enquanto isso, ela se recupera e descansa até a próxima viagem. — Serafina falou suavemente e um sorriso doce com a lembrança. — Ela tem 19 anos, mas parece bem mais jovem porquê...

— Ser criança faz parte da fantasia dela. — Terminou Terry e sua mãe acenou.

— Qual casa ela estava em Hogwarts? — Perguntou Neville curioso, seu amigo não poderia visitá-la, mas ele podia e o faria sempre que possível.

— Sally era... é uma Ravenclaw. — Serafina disse suavemente e todos ficaram em silêncio respeitoso por um momento. — Harry temos outro problema. — Disse Serafina e Harry acenou esperando que não fossem nada pior do que essa semanal infernal.

— Ok, o que é? — Questionou cauteloso.

— Muitas das pessoas que escreveram enviaram dinheiro para te ajudar a construir o Jardim da Lily, uma colaboração para a homenagem que você pretende prestar aos seus pais. — Disse Serafina sorrindo.

— Oh! Isso... é muito gentil, mas não precisamos e, com toda essa crise, com certeza lhes fará falta. — Disse Harry tocado.

— Sim, pensamos em devolver, mas meu sogro acredita que todos se sentiriam ofendidos e que o melhor é aceitarmos e agradecermos cordialmente. A questão é, o que você gostaria de fazer?

— Bem, na verdade, acredito que o melhor é doarmos este dinheiro, vamos doar para o St. Mungus e para os Orfanato dos Abortos. — Harry se levantou e caminhou de um lado para o outro pensativo. — E, publicaremos uma nota no Profeta, agradecendo e pedindo que as pessoas que quiserem colaborar, encaminhem suas doações paras essas instituições, vamos dizer que é isso que meus pais e avós gostariam.

— Oh! Harry, essa é uma ótima ideia e... — Hermione tinha os olhos arregalados de quem teve uma ideia. — Podemos colocar uma caixa de doações no Jardim da Lily, sabe, não será cobrado para se visitar o Jardim, mas se você quiser e puder colaborar com essas duas instituições, ficaremos muito gratos.

— Boa ideia! — Exclamou Terry sorrindo. — E, podemos usar essa nota para falar dos elfos, do trabalho incrível que eles fazem e que os Potters lhes deram um lar seguro onde se sentem úteis e ainda ajudam o Orfanato.

— Hum... — Harry fez uma careta de timidez. — Precisamos mencionar isso? Quer dizer, meus avós não fizeram isso para se exibir ou para receber elogios, não quero que mais pessoas pensem que estou querendo mais atenção.

— Isso não é se exibir, Harry, são fatos, que as pessoas desconhecem ou não se importam em saber. — Hermione falou como sempre apaixonada pelo assunto dos elfos. — Precisamos mencioná-los e sua escravidão, mesmo que o foco da nota seja as doações gentis das pessoas para o Jardim da Lily, não podemos perder a oportunidade de falar dos elfos.

— Hermione está certa, Harry, e devemos também falar sobre Sally e o ataque a Editora Charmel, dizer que você não aprova essa atitude e lamenta que alguém foi ferido por causa das mentiras dos livros. — Serafina apontou, Harry acenou e suspirou.

— Ok e depois paramos com essas coisas de imprensa. — Disse Harry constrangido.

— Combinado. Preciso ir, tenho muito o que fazer, além de entrevistar alguns professores de História. — Disse ela se levantando para ir embora.

Mas, claro, que ela só deixou a sala depois de confirmar para um entusiasmado Terry que Binns seria substituído assim que um professor fosse escolhido por ela, Dumbledore e os membros do Conselho. Depois das despedidas, os 4 amigos caminharam lentamente pela escola, Hermione e Terry tagarelavam sobre o novo professor, mas Harry estava pensativo, sem perceber que Neville o observava com atenção.

Quando chegaram ao Covil, Harry foi para a janela observar as montanhas e, finalmente, Terry percebeu seu humor.

— Harry, não se chateie por eles não lhe deixarem participar da investigação, isso era esperado, além disso, nós prometemos não no envolvermos. — Disse ele tentando consolá-lo.

— As coisas mudaram, além disso, nossa promessa foi não nos envolver se os adultos estiverem cuidando das coisas. — Harry salientou o texto da tal promessa que jogaram em sua cara várias vezes e veio se sentar os encarando preocupado. — Fiquei mais do que chateado, fiquei decepcionado, esperava mais de King e alguém como Moody, você disse que ele era, O Grande Auror.

— E, ele é, pegou mais comensais da morte do que qualquer outro auror, duro e implacável, bem, você o viu. — Confirmou Terry.

— O que você acredita que eles não estão vendo, Harry? — Perguntou Neville curioso, se tinha algo que sabia, era que seu amigo tinha uma maneira de ver as coisas, com inteligência e instinto que duvidava fossem encontradas facilmente.

— Que você, pensa, que eles não estão vendo, porque as coisas que você mencionou, os dois já tinham considerado e providenciado. — Disse Hermione suspirando. — Precisamos confiar que eles sabem o que estão fazendo, Harry, quando você diz que quer ajudar dá a impressão que não os considera competentes.

— Bem, lamento por minha desconfiança nos adultos, não cresci com ou vi muitos, seja aqui ou no mundo trouxa, que me ofereçam a mínima crença de que posso dormir sossegado. — Harry se levantou irritado. — Não estou pedindo para ser um parceiro auror, mas nós encontramos a Luna! Eu estou ouvindo essa maldita voz e eu recebi a visita do Dobby, então, sim, estou muito zangado por ser descartado desta forma. Eu não sou um aluno qualquer, eu gostaria de ser, mais que tudo, queria ter meus pais, não essa cicatriz ou fama, mas não é assim! — Harry exclamou colocando sua indignação, que ele manteve sufocada antes, para fora. — Eu aceitei isso! Aceitei que tenho que treinar e me preparar, que terei que matar Voldemort ou morrer tentando! Aceitei que estarei envolvido em situações arriscadas, que terei inimigos tentando me matar e não ficarei de braços cruzados enquanto os alunos estão sendo caçados como presas.

— Harry! — Terry se levantou zangado. — Nós prometemos, além disso, os aurores acabaram de começar a investigação e, assim que descobrirem qual criatura está solta por aí, eles a pegarão. E, com a AP, Hogwarts está mudando, teremos dois professores competentes antes do Natal e, talvez, até o fim do ano, teremos uma escola segura onde os adultos é quem resolvem os problemas e nós podemos nos concentrar em sermos alunos.

— Terry está certo, Harry. — Disse Hermione preocupada. — Você parece que quer estar em situações perigosas, como se tivesse uma necessidade de saber tudo ou ser o herói, acredito que, neste caso, temos que confiar que os aurores façam os seus trabalhos.

Harry os encarou controlando, com muita dificuldade, a vontade de ser grosseiro e tentou fazê-los compreender o que ele entendera na noite anterior. Nem mesmo Serafina lhe permitiu falar e esperava que depois disso, eles entendessem sua decepção.

— Vocês não estão sendo justos, não estou pedindo para ir e enfrentar a criatura ou quem a controla, estou apenas pedindo que não me deem tapinhas nas costas e me mandem para a aula como se eu fosse igual aos outros alunos. Sim, eu entendo que as informações não podem ser passadas por aí, mas nós manteríamos segredo, além disso, fiquei decepcionado, porque haviam mais perguntas a serem feitas, importantes perguntas e, se eles tivessem respondido algumas das minhas perguntas, eu sei que poderia ajudá-los. — Harry passou a mão pelos cabelos e não viu os dois trocarem um olhar exasperados. — Primeiro de tudo, essa ideia de que eles encontrarão a criatura é uma grande besteira, isso não acontecerá, posso lhes garantir e, eu...

— Você está sendo arrogante outra vez, Harry. — Disse Hermione e seu tom mais do que as palavras o calaram, uma mistura de pena e exasperação. — Pensar-se especial e que merece mais informações ou tratamento diferenciado é arrogância. E, acreditar que, sem sua ajuda, eles não conseguirão resolver toda essa confusão é arrogância.

Harry não respondeu, apenas os encarou e percebeu que Terry concordava, Neville apenas o encarava com expressão neutra.

— Entendo. — Disse ele com voz suave.

— Você sabe que ela está certa, olha, se chegar ao ponto do ano passado, onde não havia adultos para resolver nada, concordo que temos que agir. Apoiei você naquele momento e o apoiarei outra vez se necessário, mas, neste momento, os adultos, confiáveis adultos estão cuidando de tudo e seja o que for que você sabe ou intui, bem, eles também o farão e terão mais habilidade e recursos para resolverem. — Terry falou com firmeza. — Nós fizemos uma promessa e eu pretendo cumprir, além disso, já estamos em perigo o suficiente mesmo sem saímos do nosso caminho em busca de mais.

Harry apenas acenou sabendo que os dois não mudariam de ideia e tentou disfarçar a mágoa. Ele os amava, mas eles confiavam nos adultos, eram prudentes, gostavam de seguir as regras, muito diferente dele mesmo. Com dificuldade, ele engoliu a injustiça de tudo o que foi dito desde o escritório do diretor e decidiu que era melhor assim, se algo acontecesse, apenas ele estaria em perigo. Lembrou-se do ano passado quando praticamente os obrigou a segui-lo pelo alçapão e como quase ficaram feridos, a visão na montanha com sua mãe lhe veio à mente, se não tivesse matado Quirrell, Terry teria sido morto. Então, as palavras de Firenze o envolveram; "Você é um guerreiro e fez o que era necessário para proteger seu povo"; "Tirar uma vida, pesaria na alma de todos eles". Suspirando, Harry acenou e mentiu sem dificuldades.

— Desculpem, estou sendo tolo, vocês estão certos, não tem porque nos preocuparmos com nada agora e, King é meu amigo, acredito que ele descobrirá tudo no fim. — Disse ele e sorriu um pouco constrangido. — Tem razão, Hermione, estou sendo arrogante outra vez, preciso ser mais cuidadoso com isso ou ficarei insuportável.

Ele riu e quebrou a tensão da sala, todos relaxaram e se sentaram, conversando sobre Luna e como era horrível que ela perdesse todo o ano de aulas. Terry e Hermione não pareciam desconfiados dele e Harry decidiu esquecer por um pouco os problemas. Pouco depois, eles se separaram, seus dois amigos iriam para a biblioteca trabalharem em seu projeto de Transfiguração, Harry e Neville foram na direção da estufa trabalhar no projeto do adubo. Eles tinham os sábados sem aulas de carpintaria para se dedicarem a isso, quando Harry não estava em uma aula de Duelo com Flitwick.

— Seria incrível se pudéssemos criar um adubo natural que acelerasse o crescimento das plantas, Neville, imagine, talvez as mandrágoras não precisassem demorar tanto para serem colhidas. — Disse Harry quando entraram na estufa de adubos que estava vazia. — Eu tive uma ideia sobre isso ontem e...

Neville trancou a porta e lançou um feitiço de imperturbabilidade com segurança, algo que com a varinha antiga, jamais poderia realizar.

— Ok. Pode parar com o teatro, quero saber o que você descobriu e o que pretende fazer. — Disse ele, o encarando com as sobrancelhas erguidas.

— Neville... — Harry o encarou desconcertado e percebeu que ele não seria enganado. — como você percebeu?

— Harry, eu conheço você e sei que não ficará parado, que não liga para regras ou confia nos adultos. — Disse Neville e sorriu. — Quer saber, eu também não, então, me diga, o que você estava tentando contar, mas ninguém se interessou em perguntar ou ouvir, quero ajudar, seja lá qual for o plano.

— Neville, eu... desisti de contar a eles, Hermione e Terry, porque não os quero em perigo, ainda não tenho um plano, porque não sei quem está controlando a criatura, mas pretendo fazer minha própria investigação. E, mesmo que não tenha a intenção de me jogar por um alçapão de novo, ainda poderá ser muito perigoso, por isso, talvez...

— Eu não deixarei você fazer isso sozinho, Terry e Hermione estão aliviados em seguir as regras e deixar os adultos cuidarem de tudo. Eu compreendo isso, mas sei muito bem que eles estão errados. — Neville disse e ao ver seu olhar surpreso, suspirou antes de continuar. — Harry, se nós não tivéssemos atentos no ano passado, se não tivéssemos investigado e feito perguntas, nunca saberíamos o que fazer no fim.

— Sim, mas a pedra nunca esteve em perigo, foi uma armadilha de Dumbledore. — Apontou Harry o olhando com curiosidade.

— Sim, mas não sabíamos disso, pior, nunca saberemos se Voldemort encontraria uma maneira de acessar a Pedra. Além disso, Flitwick estaria morto e não se esqueça que você enfrentou Voldemort e descobriu um monte de coisas importantes. — Neville o encarou e engoliu em seco. — Eu entendo, Harry, apesar de tudo, enfrentá-lo valeu a pena e não tem como voltar atrás, você não pode desligar o desejo de vingá-los, de derrotá-lo em definitivo para proteger os que estão em perigo. Olha, não estou incentivando você a quebrar a promessa, mas, se não soubermos o que está acontecendo, como poderemos ajudar se algo estiver errado? Se os aurores ou os professores não chegarem a tempo ou se pudermos salvar a vida de uma pessoa com nossa investigação, valerá a pena.

Harry o encarou admirado com sua força e, suspirando, se sentou em um banco e passou a mão pelo rosto tentando não mostrar o alívio que sentia por alguém entendê-lo.

— Obrigado pelo apoio, Neville. Eu penso assim também, precisamos estar informados porque tudo o que está acontecendo envolve Voldemort e eu, ou nós. — Harry o olhou e sorriu sem humor. — Eles não perceberam, não fizeram as perguntas certas e agiram como se fossemos crianças tolas, pensei que eles entenderiam que quando se trata de Voldemort, nada é normal, que devemos pensar de maneiras diferentes. Que não podem me colocar em uma bolha de proteção, porque no fim...

— Se trata de destino. — Disse Neville se sentando em um banco. — Eu pensei muito durante o verão, Harry, naquela profecia maldita, um comensal a ouve e conta para Voldemort que escolhe você, que sobrevive ao impossível por causa de magia antiga e o sacrifício de sua mãe. Quais eram as chances? E, no ano passado, tirando toda a armadilha de Dumbledore, vocês se enfrentaram outra vez e a magia o ajudou a sobreviver. Esse ano, Dobby, você ouvir essa criatura, encontrar a Luna, nada disso é coincidência.

— Você acredita que a magia está tentando me ajudar a derrotá-lo? — Harry perguntou espantado.

— Nós, melhor do que ninguém, sabemos que a magia tem vida própria, ela está em todos os lugares, Harry e, quando nos conectamos com ela, podemos senti-la, pulsando, nos acarinhando. — Neville sorriu e Harry acompanhou, pois essa era a discrição correta. — Voldemort é um monstro e acredito que a magia vem trabalhando para sua destruição e acredito que sempre foi você o escolhido.

— Mas, poderia ter sido você também... — Harry parou ao vê-lo mover a cabeça negativamente.

— Não, Harry, a profecia disse que aquele nascido quando o sétimo mês morre, nascido daqueles que os desafiaram três vezes, teria o poder para derrotá-lo. Certo? — Neville o encarou muito sério.

— Sim, não temos como saber o resto, nem Voldemort sabe, mas, porque você acredita que sempre se tratou de mim? — Harry perguntou ansioso.

— Você nasceu dia 31, eu no dia 30, quando o sétimo mês morre? — Neville tinha um sorriso triste. — Perguntei a minha avó sobre isso e a previsão para o meu nascimento era o dia 31 e acabei adiantando, na verdade, quase nasci dia 29, foram alguns minutos depois da meia noite. Aposto que se perguntarmos para o Sirius, descobriremos que você nasceu do dia previsto.

— Magia faria isso? — Harry estava confuso.

— Magia, destino, não há como nomear ou saber. — Neville deu de ombros.

— Mas porque eu, Nev? Porque não você? Ou qualquer outra criança que nasceu em agosto ou no meio de julho? — Harry se levantou e caminhou, ansioso pela ideia que, de alguma forma, o destino o conduziu nesta direção.

— Harry, pense assim, Voldemort era um grande perigo para o mundo, trouxa e mágico, um perigo para a magia, a inocência e a vida. Nada o pararia, mesmo Dumbledore, tão poderoso quanto é, nunca conseguiu destruí-lo. — Neville suspirou e seu rosto ficou triste. — Então, nossos pais o enfrentam três vezes e sobrevivem, magia percebeu que eles eram poderosos e quem sabe poderia um dia vencê-lo, mas...

— Ela decidiu que seus filhos seriam ainda mais poderosos? — Harry voltou a se sentar entendendo seu raciocínio.

— Sim, não me pergunte porque, mas a Ordem tinha um espião e, cedo ou tarde, mesmo sem nós dois, as chances eram que eles acabariam sendo emboscados e mortos. — Neville o olhou nos olhos. — Mas, então, nós chegamos.

— Eu não fui sem querer, meus pais me planejaram, queriam ter um filho, Sirius me disse. — Apontou Harry enxugando as mãos suadas.

— Os meus também. — Neville sorriu e seus olhos tinham um brilho de lágrimas. — Magia ou destino perceberam que um de nós dois era a esperança, porque os 4 seriam traídos e mortos, assim a profecia. No entanto..., algo mudou, eles tinham que escolher um de nós e, ao adiantarem o meu nascimento, escolheram você, por isso, Voldemort te atacou, por isso você sobreviveu. Não estou desmerecendo o sacrifício de sua mãe, Harry, mas duvido que ela foi a primeira bruxa que morreu para salvar um filho. Magia antiga e poderosa agiu, tornou o sacrifício dela uma proteção forte e efetiva, dotou você do poder para derrotá-lo.

— Se essa proteção é o poder que preciso para derrotá-lo, isso explica porque a magia me escolheu, Nev. — Disse Harry suavemente. — Voldemort disse que sentiu que eu era o bebê da profecia porque nós dois somos mestiços, mas que pretendia te matar também, apenas por garantia, no entanto, por causa do Rabicho, o rato, encontrar meus pais era mais fácil. Magia saberia disso, saberia que meus pais seriam traídos e encontrados mais rapidamente, talvez, até soubessem que Voldemort se identificaria comigo. O poder me seria entregue pelo sacrifício da vida da minha mãe, assim, eles adiantaram o seu nascimento e eu me tornei o alvo ou profetizado. — Harry parecia chocado. — Como foi que não percebi isso antes?

— Você cresceu no mundo trouxa e não enxerga a magia ou destino como quem viveu isso a vida toda. — Disse Neville e olhou o amigo preocupado. — Você está chateado?

— Não. Eu já passei dessa fase de me amargurar por meu destino, sabe, meu terapeuta, Sr. Martin, me fez ver que mesmo se eu nunca estivesse nascido, meus pais teriam morrido por causa do espião. — Harry suspirou cansado. — E, isso tudo só confirma isso. Meu pais eram poderosos, Nev, eles eram fantásticos e poderiam, juntos, um dia, derrotar Voldemort, mas nunca teriam a chance. O que a magia foi não permitir que suas mortes fossem em vão, ela usou o seus amores e sacrifícios para me dotar com um presente precioso que pode me ajudar a derrotá-lo para sempre. Não há garantias e não posso confiar apenas neste poder, por isso, estou treinando e mais do que nunca tenho certeza que não posso ficar no escuro e andar por Hogwarts fingindo ser um aluno normal.

— Eu concordo. Agora me conte o que você percebeu, não sei todas as perguntas certas, mas eu o observei e sei de uma. — Neville se inclinou para frente ansioso. — Qual a criatura que atacou Luna?

Harry sorriu e tirou um livro do bolso das vestes, ampliou, abriu e colocou a sua frente.

— Aqui, eu percebi ontem, quando dávamos o depoimento, mas queria confirmar e não confiava em Vector ou Moody sobre minha habilidade especial. — Harry deu de ombros.

Neville pegou o livro e começou a ler em voz alta.

— Das muitas feras e monstros medonhos que vagam pela nossa terra não há nenhum mais curioso ou mortal do que o basilisco, também conhecido como rei das serpentes. Esta cobra, que pode alcançar um tamanho gigantesco e viver centenas de anos, nasce de um ovo de galinha, chocado por uma rã. Seus métodos de matar são os mais espantosos, pois além das presas letais e venenosas, o basilisco tem um olhar mortífero, e todos que são fixados pelos seus olhos sofrem morte instantânea. As aranhas fogem do basilisco, pois é seu inimigo mortal, e o basilisco foge apenas do canto do galo, que lhe é fatal. — Neville o encarou um pouco pálido quando terminou de ler. — Pelas barbas de Merlin! Um basilisco!? Você tem certeza?

— Sim. Lembra-se quando King perguntou se eu estava certo sobre ser feminina a criatura?

— Sim... você disse que tinha certeza que era uma criatura fêmea.

— Pois é, quando estávamos correndo pela escola seguindo a voz, na primeira vez quando eu estava sozinho também, não consegui distinguir, perceber que ouvia uma cobra porque a ofidioglossia parece inglês para mim. Então, ali no escritório, me lembrando, me concentrando de volta naquele momento, percebi os silvos, as palavras arrastadas e entrecortadas, não falei nada porque pensei que era loucura, nunca ouvi falar de uma cobra que petrifica sua presa e decidi ter certeza.

— Existem muitas criaturas mágicas estranhas que fazem coisas bem esquisitas, Harry. — Disse Neville e olhando o livro de novo, acrescentou. — E, claro, em se tratando de Slytherin, uma cobra é o que faria mais sentido.

— Sim, bem... os Boots me disseram que não devo falar que sou um ofidioglota levianamente e pensei que não precisava falar porque eles examinariam os restos da gata e descobririam. E, então, eles entenderiam isso por si mesmos, mas eu queria ter certeza e fui a biblioteca, quando li sobre o basilisco decidi contar ao King, principalmente, quando ele disse que demoraria uns dias para descobrirem a verdade, mas...

— Eles não lhe deixaram falar. — Neville acenou entendendo.

— Eles não queriam que eu falasse nada, mesmo Serafina, Terry e Hermione, nenhum deles me deram a chance de explicar meus pensamentos... — Harry suspirou e passou a mão pelos cabelos. — Talvez, Hermione esteja certa e eu sou arrogante, os aurores poderiam já ter deduzido tudo isso ou o farão em breve, mas ainda assim não deixarei de fazer minha própria investigação.

— Hermione está errada, se dependesse dos adultos, a cena do ataque teria sido apagada, os aurores não seriam chamados e tudo seria abafado. Além disso, em menos de 24 horas do ataque, você já descobriu qual a criatura e aposto que tem um monte de outras ideias, bons insights, como sempre. E, Terry e Hermione sabem disso, aposto que acabarão caindo em si, mas até lá, eu o ajudarei com sua investigação. — Neville falou com firmeza. — Estou apavorado, mas pode contar comigo.

— Eu sei disso, Nev, você é o mais Gryffindor de todos nós e seus pais estarão orgulhosos quando contar a eles isso tudo. — Harry falou sorrindo e viu seu amigo corar de constrangimento, apesar de ter os olhos brilhando. — Obrigado, por seu apoio, sei que posso contar com Terry e Hermione também se a situação apertar, mas... na verdade, eles não precisam estar em perigo, esse é o meu destino e os estou empurrando para algo que os dois temem e não querem fazer parte. Não estava sendo muito justo com eles, não gosto de mentir, mas...

— Eu entendo, mas acredito que eles terão que perceber que não há volta. — Neville se inclinou para frente. — Eu estou apavorado, mas de uma coisa eu sei, nós estamos em guerra, Harry. O perigo está em toda parte, quer você escolha se envolver ou não, a pobre Luna estava apenas passeando pelo castelo e quase foi morta, e mais inocentes podem se ferir ou morrer por causa das ações de Voldemort e seus seguidores. Terry e Hermione estão se iludindo ao acreditarem que podem ficar seguros à margem ou que não precisam lutar, quando chegar a hora, todos teremos que lutar se quisermos vencer essa guerra.

Harry acenou, pois concordava, mas, se seu irmão e Hermione ainda não perceberam isso, ele precisava aceitar e respeitar, tinha que recuar e permitir que percebessem por si mesmos.

— Você está certo, Nev, mas não tenho tanta certeza que Luna foi uma vítima do acaso. — Disse Harry pensativo.

— O que? Como assim? — Neville estava espantado.

— Posso estar sendo tolo, é só uma intuição, mas tenho a sensação de que algo mudou. — Harry passou a mão pelo rosto tentando organizar os pensamentos. — Eles não perguntaram sobre minha conversa com Dobby, pretendia lhes fornecer a lembrança do meu encontro com ele, assim todos poderiam entender tudo o que ele me disse.

— Mas, você já não disse a eles tudo isso? — Neville parecia confuso.

— Sim, depois de uma concussão, mesmo eu não me lembrava dos detalhes, Nev e, King ouviu sobre isso de Sirius que, provavelmente, diluiu ainda mais, é normal resumirmos as informações. — Harry o encarou com uma careta. — Eu gosto de King, mas fiquei desapontado e, talvez, esteja chateado por não fazer parte como gostaria, mas ele tinha perguntas importantes para me fazer. Dobby e o que ele disse em detalhes é uma, a criatura é outra e Voldemort é outra.

— Ok, agora estou ainda mais confuso e não entendo porque Luna ser atacada de propósito é sua suspeita, isso não faz sentido. — Neville estava exasperado por não acompanhar seu raciocínio.

— Isso é só uma intuição, mas vamos aos fatos. Dobby me disse que não viu Voldemort, em espectro ou possuindo alguém na casa dos Malfoys, mas parecia querer sinalizar algo e não pôde, não consegui entender, mas, para mim, significava que Voldemort estava envolvido de alguma maneira. Ele me disse que sabia da trama a meses... meses, Nev, eu o encontrei em 31 de julho, um mês antes...

— Voldemort estava possuindo Quirrell, isso quer dizer que a trama já estava sendo planejada antes daquele dia. — Neville acenou entendendo.

— Se Quirrell se encontrou com Malfoy a mando de Voldemort, Dobby pode ter visto o encontro, o planejamento, sem saber que Voldemort estava lá ou apenas ouviu o Malfoy conversando com alguém e dizendo que era ordens do seu mestre. — Harry exemplificou as possibilidades.

— Mas, Voldemort estava concentrado em ter a Pedra e acreditava que recuperaria seu poder em breve com ela.

— Sim, mas, nós sabemos e Voldemort também, que Quirrell morreria, talvez, ele soubesse que era uma questão de tempo ou talvez decidiu por um plano B, caso ele não chegasse a Pedra. — Harry estava pensativo. — É possível que ele considerou que, mesmo com a Pedra, precisaria de ajuda de outros seguidores, Snape não era confiável. Quem poderia ser? Malfoy. E, eles planejam que coisas terríveis aconteçam em Hogwarts e desde o meu encontro com Dobby, estive pensando no objetivo. Porque? Porque eles querem que coisas terríveis aconteçam na escola?

— Para matar nascidos trouxas. — Neville respondeu e Harry sorriu.

— Exato! Foi o que pensei e fazia sentido, então, porque atacar a Luna!?

— Ela é puro-sangue, não faz sentido atacá-la, mas pode ter sido por um acaso... — Neville moveu a cabeça desconcertado. — E, isso não faz sentido também, porque eles estão planejando isso a meses e devem ter alvos, poderiam facilmente levar qualquer nascido trouxa para aquele corredor, sejam com palavras ou magia. Eles queriam um grande impacto, no Halloween, seria uma grande mensagem para você e Dumbledore, matar uma criança de origem trouxa faria isso. Luna não foi morta porquê...

— É uma puro-sangue, mas porque atacá-la? Se, ela só estava passando, assim como a gata, porque não deixar a garota puro-sangue ir e petrificar ou matar e pendurar a gata do aborto? Mais importante, porque não fazer o que você disse e matar um nascido trouxa? Porque a Luna? — Harry tinha aquela expressão quando tentava entender um mistério. — Não temos uma resposta para isso ainda, mas, me faz pensar que, algo mudou, seus planos ou alvos foram colocados de lado para que a Luna fosse petrificada. Vamos deixar isso de lado, por enquanto, e tentar entender como Voldemort pode estar no castelo controlando o basilisco...

— Quando Dumbledore disse que ele retornou ao seu antigo esconderijo na Albânia e não acredito que o diretor mentiria sobre isso. — Neville considerou e depois franziu o cenho. — Talvez não seja ele, Harry, pode até ser seu plano, mas, Malfoy pode estar controlando alguém como pensamos ou... — Neville se interrompeu ao ver Harry movendo a cabeça negativamente. — O que? O que mudou?

— A câmara, Neville, a lenda da câmara secreta que nos contou Dumbledore. — Harry passou a mão pelos cabelos, tenso. — Isso, isso mudou tudo e, podemos até pensar que é uma lenda, mas a partir do momento em que sabemos que o monstro da lenda existe, porque duvidaríamos da câmara? Uma câmara que apenas o verdadeiro herdeiro de Slytherin pode abrir e, vamos supor, que Voldemort disse onde é a entrada e como abri-la, mas como outro alguém controlaria o basilisco?

— Dumbledore disse que apenas o legitimo herdeiro pode controlar o monstro, mas... — Neville estava tentando encontrar um, mas. — Talvez, enquanto esteve aqui ele falou do plano para o basilisco e disse que deveria obedecer a quem viesse visitá-lo em alguns meses, não sei se faz sentido, mas não é impossível.

— Sinceramente, não acredito que Voldemort deixaria ninguém chegar perto da câmara, informar Malfoy ou qualquer outra pessoa, correr o risco de que seu monstro fosse controlado por outra pessoa qualquer. — Harry acenou com a cabeça. — Se, King tivesse me perguntado, lhe diria que, do que vi de Voldemort, que ele não faria isso, mas, talvez, em seu desespero... A questão é que estou forçando a situação, Nev, porque nada disso faz sentido! — Harry falou irritado.

— Como assim? — Neville suavemente, tentando acalmá-lo, mas Terry era melhor nisso que ele.

— Voldemort está obcecado com recuperar seu corpo, seu poder, se, ele entrou em contato com Malfoy, porque não estão procurando alguma forma de fazer isso? Porque soltar um basilisco e matar algumas crianças? O que ele ganha com isso? Hogwarts será fechada? Dumbledore demitido? E daí? Voldemort precisa de um corpo, está fraco e ficou os últimos 10 anos sem contato com ninguém, até Quirrell, então, ele procura Malfoy e eles decidem fazer isso? — Harry caminhou irritado.

— Nós não sabemos se existe algo a mais em seus planos, talvez, mesmo algo que o ajude a recuperar seu corpo. — Neville deu de ombros razoável.

— Ok, ok. Você está certo, não sabemos de seu plano, então, seguimos essa linha de raciocínio. — Harry voltou a se sentar. — Então, se pensarmos que Voldemort falou com seu basilisco meses atrás e disse que outro iria acessar a câmara e ela deveria obedecê-lo, temos que pensar em como isso é possível.

— Como? O que quer dizer?

— Nev, o herdeiro de Slytherin, não é você ou Dumbledore, ou... Ginny, e ele precisa se apresentar ao basilisco e ser identificado como o herdeiro. Como ele fará isso? Como ele se identifica e controla o monstro? Falando com ele, claro. — Harry viu seu amigo entender.

— Merda..., mas, que merda! — Neville ficou irritado por não ver o óbvio. — Voldemort é o herdeiro por ser um ofidioglota! Ele pode controlar o basilisco, alguém que Malfoy controle não poderia fazer isso.

— E mais, o basilisco deveria ter hibernado por séculos até que o herdeiro o encontrasse, se Voldemort falou com ele meses atrás, estaria faminto como está agora, desesperado por uma presa, não ficaria todo esse tempo esperando alguém vir lhe dar um gato. — Harry suspirou sabendo que estava girando em círculo. — Mesmo que Quirrell lhe trouxe uma presa, é possível, mas quando essa pessoa que pode ou não estar sob o controle de Malfoy se aproxima da câmara e não fala ofidioglossia, o que a impede de matá-lo e comê-lo? Como essa pessoa pode controlá-la e impedi-la de matar e comer a Luna? Sem falar com o basilisco? Impossível.

— Você está certo, tem que ser Voldemort. — Neville se inclinou na mesa.

— Ou temos mais um ofidioglota na escola além de mim, me ocorreu... — Harry hesitou, um pensamento o vinha cutucando feito um espinho.

— O que?

— Voldemort não tem um filho?

Neville o olhou com a boca aberta de espanto.

— Filho!?

— Porque não? Ele tem idade para ter até netos, suponho, o que o impede de ter tido um filho? E, se ele está em Hogwarts, Voldemort pode ter lhe mostrado a câmara no ano passado e lhe dito o que fazer. — Harry deu de ombros. — Sei que é só adivinhação, mas, Nev, não pode ser qualquer um. Lembra-se do que eu disse que ouvi o basilisco dizendo?

— Não, desculpe, ontem ainda estava chocado e.., bem, não foi meu melhor momento. — Disse Neville com um sorriso tímido.

— Claro que foi! Você correu por ajuda sozinho apesar do perigo e colocou aquele idiota em seu lugar, eu estava com muita vontade de fazê-lo engolir minha varinha. — Disse Harry veementemente. — Bem, ela disse, deixe-me mestre, deixe-me devorá-la, faminta... tão faminta, todo esse tempo... mestre... por favor...

— "Todo esse tempo", isso nos faz pensar que ela acabou de acordar e... — Neville arregalou os olhos ao entender. — "Mestre"...

— Sim, mestre. A quem ela chamaria de mestre, Nev? Um ofidioglota, claro, mas, mais importante o herdeiro de Salazar e, a ideia que exista mais de um herdeiro de Slytherin e, que ele não tem nada a ver com Voldemort, me parece improvável. Além disso, os comensais da morte chamam ele de mestre e isso não me parece coincidência. — Harry encerrou cansado.

Neville tentou entender como Voldemort poderia estar na Albânia e em Hogwarts ao mesmo tempo, porque Harry estava certo, quem a controla é um ofidioglota e...

— Espere, Harry, e se houver outro herdeiro? Quer dizer, você é um ofidioglota, até onde sabemos poderia ser um tataraneto de Slytherin e é possível que exista outro. Se Voldemort, no ano passado, o encontrou falando com cobras, poderia...

— Nev, ele jamais confiaria a ninguém algo assim, seu filho, talvez, mas um estranho qualquer. — Harry moveu a cabeça e tentou encontrar as palavras. — Voldemort não ama ou se importa com ninguém, são todos servos para ele, Daphne nos contou. Ele os obrigava a se ajoelhar diante dele, exigia que o chamassem de mestre ou Lord da Trevas, você viu a indiferença dele em relação a Quirrell. Lembra? Ele disse: "Quirrell me serviu bem e terá a recompensa que merece".

— E, Voldemort sabia que ele morreria. Ok. — Neville reconsiderou. — Bem, e se Voldemort nunca encontrou a câmara? E, se ele nem sabe sobre ela ou que não é uma lenda? Pode ser que o herdeiro que está controlando o basilisco descobriu sobre ela, pode ser um sétimo ano e pode ter demorado anos para encontrar a entrada.

— Sim, mas onde Malfoy se encaixa nisso? E, a trama que Dobby disse que está sendo planejada a meses? — Harry ergueu a sobrancelha e seu amigo suspirou sem argumentos. — Ok, não é impossível. Algumas dessas famílias puristas podem estar unidas e descobriram um novo ofidioglota, pensam que Voldemort está morto e, estão desesperados por um novo mestre para servir. Sei lá.

— Isso é um absurdo, estou até envergonhado de ter sido quem falou sobre essa possibilidade. — Neville se inclinou meio desanimado.

— Não fique assim, você leu livros policiais trouxas, precisamos investigar, deduzir a partir dos fatos e especular as possibilidades. — Harry se inclinou também. — A verdade, é que sabemos tão pouco que as especulações se tornam absurdas, assim o que precisamos são de mais fatos e os teremos...

— Investigando. — Neville acenou e ergueu os ombros. — Você está certo, precisamos de mais informações, mas quer saber? Pelo menos, me sinto bem porque já sabemos mais do que eles e, se não estão na mesma página que nós, é porque são uns tolos cegos. Eles acusam você, mas são eles que estão sendo arrogantes.

Harry riu com isso e se levantou indo até o adubo que vinham trabalhando, a composição parecia estar indo bem, mas ele estava pensando em outra ideia que teve e queria conversar com seu amigo sobre isso.

— Daqui a pouco, Nev, eles nos alcançarão, mas, se não querem a nossa ajuda, não ficarei implorando para ser ouvido. Quer saber? Dane-se eles, seguiremos nossos caminhos separados e tentaremos deter Voldemort, seu filho ou, seja lá quem está controlando o basilisco. — Disse Harry decidindo controlar a irritação e seguir em frente.

— Ok. Bem, vamos trabalhar, você disse que tinha uma ideia? — Neville perguntou e Harry acenou antes de começar a explicá-la.

O fim de semana foi sombrio e tenso, todos começaram a andar em grupos e se assustavam com qualquer coisa. Harry e Neville mantiveram seus segredos, Terry e Hermione não perceberam, muito aliviados que Harry recuou e concordou em manter a promessa e deixar os adultos agirem por si mesmos. King e Moody olharam por toda a escola, conversaram com todos os funcionários, inclusive um choroso Filch, e com alguns alunos da Ravenclaw, os monitores e seus colegas de ano, mas não obtiveram nenhuma pista, além do que já tinham.

Flitwick fez uma reunião na sala comunal da Ravenclaw e falou sobre o bullying que Luna estava sofrendo, deixou bem claro que isso não seria tolerado e que os responsáveis seriam punidos. Exigiu que quem tinha se apropriado de suas coisas as devolvessem, voluntariamente, ou as punições seriam mais severas. O silêncio na sala enquanto todos esperavam era tenso e constrangedor, finalmente, as meninas do seu ano se levantaram e se acusaram, além de dedurarem Cho Chang e suas amigas. Sue e Evelyn pareciam realmente arrependidas, mas, Harry teve a impressão que Chang e seu grupinho estavam chorando de tristeza por serem pegas e para atrair a pena de Flitwick, e não porque lamentavam suas ações. E, ao ver seu chefe de casa conversando com Trevor, deduziu que a punição da garota asiática incluiria perder o seu lugar no time reserva de quadribol.

Ginny, se sentindo perdida e triste, passou seu tempo entre, visitar Luna e evitar todos que lhe davam olhares de pena e curiosidade ou queriam saber como se sentia, sobre o que acontecera ou, o que os aurores perguntaram. Era como se tudo fosse um grande evento e, foi só então, que ela compreendeu Harry e seu incomodo com sua fama. Não conseguia nem imaginar o que ele passava com todos os olhares ou pessoas lhe perguntando sobre aquela noite como se fosse uma celebração, como se a morte de seus pais fosse um mero detalhe sem importância. Quer dizer, ela era fã daqueles livros mentirosos, mas nunca lhe ocorreu ser tão insensível como, bem... Ron, por exemplo. E, no fim de semana, seus irmãos foram bem doces, Ginny até sentiu como se estivessem de volta a toca, com eles a cercando e cuidando. Ainda assim, ela conseguiu tempo para conversar com Tom e contar tudo o que acontecera e, como sempre, ele foi muito compreensivo e doce. Esquecendo-se do que a Prof.ª lhe aconselhara, Ginny concordou quando Tom lhe escreveu.

Agora sou seu único amigo, Ginny...

Obrigada por seu meu amigo, Tom, sinto tanta falta da Luna...

Não se preocupe, nunca a deixarei sozinha...

Na manhã de segunda-feira, Moody, outros 2 aurores mais jovens, além de Macnair e sua equipe de mais 4 bruxos, retornaram agitados e tensos. Harry os observou com um sorriso sarcástico, sabendo que eles descobriram qual era o monstro da câmara, com algum atraso, claro, e ele trocou um olhar divertido com Neville. Moody conversou com Dumbledore que deixou seu café da manhã inacabado e desceu os degraus, sua expressão era muito séria e Harry decidiu agitar tudo.

— Diretor Dumbledore? — Ele se levantou e chamou pelo diretor bem alto, os alunos que observavam com curiosidade a interação, olharam para Harry com espanto.

Dumbledore e Moody fizeram uma pausa e o encararam impacientes.

— Sim, Sr. Potter?

— Gostaria de saber se existem alguma proteção contra o monstro da câmara de Slytherin? — Harry deu um passo à frente e gesticulou para os alunos. — Para nós, quer dizer, como nós, os alunos, podemos sobreviver a um basilisco?

O grande salão estava silencioso, mas logo exclamações de espanto e choque começaram a pipocar.

— O que?

— Ele disse basilisco?

— Basilisco?

— Ele enlouqueceu?

— O que está brincando, Potter?

— Isso é uma brincadeira, certo?

Harry apenas sorriu e encarou Dumbledore e Moody com sarcasmo, o primeiro o olhava muito contrariado e o outro com um brilho de respeito e.… desconfiança.

— O diretor e o auror Moody estavam prestes a nos informar, com toda a certeza, que o monstro da câmara secreta de Slytherin é um basilisco. — Disse Harry e, retirando algumas folhas de copias da página do livro, começou a espalhar entre os alunos mais próximos. — Estive fazendo algumas pesquisas sobre eles e, isso foi tudo o que encontrei, mas, tenho certeza que os senhores pretendem nos orientar sobre como nos proteger.

— Isso não será necessário, garoto, vamos pegar a fera antes do pôr do sol. — Disse bruscamente o homem que estava vestido com couro marrom e botas pretas, Harry pensou que só faltava a máscara e a guilhotina.

— Eu duvido muito disso, senhor... — Harry se adiantou mais à frente percebendo que os alunos presentes, que eram muitos, acompanhavam tudo com atenção, muitos pálidos e assustados.

— Macnair, sou o carrasco do Departamento de Controle da Criaturas Mágicas, já matei muitas feras perigosas, lhe garanto que uma cobra não será um problema. — Disse ele grosseiramente.

— Interessante como o senhor parece se orgulhar disso. Me chamo Potter, a propósito, imagino que já ouviu falar de mim. — Harry sorriu com sarcasmo. — Bem, se eu tivesse que apostar, lhe diria que encontrar a entrada da câmara secreta levará mais do que um dia e o basilisco deve estar lá agora. A questão é quando ela sair, como sobrevivemos a um olhar mortal de uma cobra gigantesca e venenosa?

O silêncio se seguiu enquanto todos encaravam Dumbledore apavorados, como se esperassem confirmação, negação e orientação, tudo ao mesmo tempo.

— Creio que o melhor é que todos vão para as aulas e...

— Mas, diretor! — Harry se adiantou outra vez o interrompendo, ignorou as exclamações de surpresa ou protesto por sua ousadia. — O auror Moody mesmo disse que devemos saber para podermos nos defender, como nos protegeremos se não sabemos como? Ou mesmo, que isso é necessário?

Dumbledore o encarou, não aprecia com raiva, apenas contrariado.

— O menino está certo, Albus, eles têm que saber. — Disse Moody o olhando como se o reavaliasse, Harry sorriu de volta e lhe deu uma piscadela.

— Potter, está falando besteira, diretor, vou matar o basilisco e fazer um casaco com a pele antes do dia acabar. — Disse Macnair, cuspindo seu nome com desprezo, ao mesmo tempo em que confirmava a existência do basilisco.

Harry quase gargalhou ao ver Dumbledore fechar os olhos exasperado, mas se controlou por causa do medo verdadeiro dos colegas.

— Ok, não queria que vocês, crianças, entrassem em pânico, mas talvez o melhor seja informá-lo e orientá-los o melhor possível. — Dumbledore voltou a subir na área mais alta e ficou atrás do púlpito. — Infelizmente, a lenda da câmara secreta parece não ser uma lenda...

— Que lenda? — Alguém corajoso perguntou.

— Muito bem. — Dumbledore, em poucas palavras, contou a todos sobre a lenda da câmara de Slytherin e confirmou que, exames no resto da gata confirmaram que o monstro era um basilisco. — Estamos providenciando para que a fera seja tratada, a equipe do Departamento de Controle de Criaturas Mágicas a encontrarão e o perigo acabara em pouco dias, tenho certeza. Enquanto isso, andar em duplas ou grupos é o ideal, não desrespeitar o toque de recolher ou andar por partes isoladas do castelo ou no jardim sozinho ou depois do escurecer.

— Aqui diz que um olhar do basilisco é mortal, diretor. — Penny se levantou muito tensa. — Como foi que Luna terminou petrificada?

— Ah, acredito que a Srta. Lovegood não olhou diretamente para os olhos do basilisco, ela deve ter olhado indiretamente, pelo vidro da janela ou a água que estava no chão do banheiro inundado. — Disse ele calmamente. — Se quiserem andar com espelhos e vigiar os cantos, não acredito que seja uma ideia ruim, mas, como disse, acredito que em breve encontraremos a entrada da câmara e lidaremos com a criatura.

Harry percebeu que seu tom calmo e persuasivo parecia convencer muitos dos alunos que estavam acostumados a deixarem os adultos lidarem com tudo sem questionar, principalmente, se esse adulto era Dumbledore.

— Não existe nenhum feitiço? Algo que possamos usar para nos defender em caso de ataque? — Harry perguntou curioso.

— A pele do basilisco é tão firme quanto a dos dragões Potter, suas partes vulneráveis são os olhos e o céu da boca, mas, se chegar perto de qualquer um deles, estará morto, assim, não recomendo. — Disse Moody bruscamente, mas aprovando a pergunta. — No entanto, distrair e fugir é sempre uma opção, sons altos, luzes, conjuração de objetos grandes e pesados podem ferir ou distrair a criatura o suficiente para fugirem. Além disso, todos devem aprender a lançar sinais de socorro, seja por som ou luzes cintilantes, Longbottom foi corajoso, mas não é o ideal correrem sozinho pelo castelo para pedir ajuda.

Todos ouviram o velho auror com atenção e Harry viu alguns alunos anotando como se estivessem em aula. Observando os professores percebeu que Lockhart e Slughorn pareciam muito tensos, meio pálidos e suados, imaginou que eles não esperavam estar em Hogwarts com um basilisco. McGonagall e os outros estavam tentando mostrar calma e coragem para os alunos e pareciam confiar em Dumbledore. Flitwick, o olhava com atenção. Harry percebeu que ele adivinhara que sempre soube qual era a criatura.

— E sobre os galos? — Hermione se levantou preocupada. — Porque não espalhamos galos por toda a escola?

Hagrid se levantou, tenso e pálido, seus olhos pretos estavam tristes e assombrados.

— Na noite do Halloween alguém matou todos os meus galos, estou tentando conseguir mais, só encontrei uns jovens até agora em Hogsmeade e eles não cantam muito ou são tão fortes para matar um basilisco. — Disse ele timidamente.

— O canto do galo tem que ser de um galo real e não conjurado, tem que ser um galo adulto e forte, os mais jovens têm o canto mais fraco. Além disso, você não pode obrigar um galo a cantar, podemos espalhar galos por toda a escola, mas a tendência é que na hora de seu canto, o basilisco esteja escondido. — Dumbledore explicou e Harry viu mais pessoas anotando. — No entanto, estaremos todos, eu, pessoalmente, trabalhando para encontrá-lo, assim fiquem tranquilos e sigam as recomendações.

Depois disso todos foram liberados para as aulas, quando estava saindo pelo corredor, Hermione e Neville alcançaram Harry e Terry.

— Não acredito que não nos disse... — Começou ela parecendo zangada.

— Desde quando você descobriu... — Terry disse ao mesmo tempo.

— Ei! — A voz de Malfoy lhes chamou a atenção, eles não eram os únicos alunos que estavam no corredor e, ao parar a frente deles, Draco atraiu a atenção de todos que diminuíram o passo para acompanhar o confronto. — Eu lhes disse que Hogwarts seria especial este ano, é melhor fugirem enquanto podem. — Draco tinha um grande sorriso no rosto e seus olhos claros brilhavam, encarando Hermione disse. — Espero que você seja a próxima, sua sangue ruim.

A expressão de choque e raiva no rosto de quem acompanhava, além das exclamações de protesto não apagou o sorriso de Draco, até que Hermione se adiantou.

— Eu sou inimiga do herdeiro de Salazar, mas não sou eu que está petrificada naquela enfermaria e sim uma puro-sangue, Malfoy, portanto, eu não ficaria tão tranquilo assim. — Hermione olhou com desprezo. — Talvez, seu pai não seja tão esperto...

— Hermione! — Harry falou alto e fingiu estar preocupado com o professor que entrou no corredor. — O professor! — Seu tom se abaixou e todos olharam e viram Slughorn se aproximando.

— O que está acontecendo aqui? Vocês deveriam estar indo para as aulas, não estão brigando, eu espero. — Disse ele, seu rosto gordo estava pálido e macilento, na verdade, Harry teve a impressão de que iria vomitar a qualquer momento e lhe ocorreu que voltar para a aposentadoria era seu único pensamento nesta manhã.

— Professor, Malfoy chamou a Hermione de sangue ruim e disse que espera que o basilisco pegue ela no próximo ataque. — Disse Ron que ouvira tudo e esteve muito perto de usar sua varinha no loiro azedo, Harry e os amigos não tinham lhe notado.

— Isso é verdade? — Slughorn parecia horrorizado e ao ver dezenas de rostos acenando em confirmação, encarou Draco, muito zangado. — Não haverá outro ataque, Dumbledore me garantiu que cuidará do basilisco, pessoalmente, mas, sair do seu caminho para dizer algo tão absurdo... Estou profundamente envergonhado que alguém da minha casa faria algo assim e, se pensa que não o punirei porque sou seu chefe de casa, está muito enganado, Sr. Malfoy.

— Mas... — Draco o encarou espantado e olhou com raiva para eles e Ron que tinha um sorriso presunçoso. — É o herdeiro de Salazar...

— O herdeiro de um louco que deve ser igualmente louco e, ainda assim, tinha dezenas de servos que se ajoelhavam e o chamavam de mestre. — Disse Harry rispidamente. — O que fará, Draco, quando Voldemort voltar? — Os suspiros foram agudos e muitos se encolheram. — Se curvará e servirá um louco que ataca e mata sem se preocupar com nada? Acredita que Voldemort matou meus pais e tantos outros por status de sangue? Acredita que os Potters foram as únicas famílias bruxas atacadas por ele?

— E, ele fez isso por poder, porque foi desafiado ou porque percebeu bruxos mais poderosos que ele, não tinha nada a ver com sangue. — Terry afirmou e Harry percebeu que todos, inclusive Draco, ouvia.

— É assim que ditadores agem, Draco, Hitler era assim, se fosse desafiado, irritado, matava seus próprios soldados, seu próprio povo puro. — Encerrou Hermione desafiadora. — Sou uma sangue ruim como vocês dizem e não me envergonho da minha origem, vocês é que deviam se envergonhar, não de seus sangues, mas de terem corações tão cruéis e cérebros tão pequenos.

Um silêncio estranho ficou até que Slughorn pigarreou, ele parecia impressionado com os três, mas olhou para Draco com desaprovação.

— 50 Pontos da Slytherin, Sr. Malfoy e um mês de detenção comigo todo as noites... — Isso causou exclamações de espanto de todos, não importava qual casa, porque nunca viram um chefe da Slytherin punir seu próprio aluno. — E que isso sirva de aviso, não hesitarei em punir minha própria casa se for necessário. Agora, todos para as suas aulas, já estão atrasados, vamos.

Harry e Terry obedeceram, ele pode ver Hermione lhe lançando um olhar de quem pretendia interrogá-lo mais tarde, antes de seguir seu caminho com Neville que acenou. Eles foram para as masmorras e Terry parecia tenso.

— A quanto tempo você sabe que é um basilisco? — Terry perguntou e Harry o olhou tentando ler sua expressão.

— Eu percebi que era uma cobra logo depois do ataque, no escritório do diretor, mas não quis falar sobre a.… você sabe. — Seu amigo acenou e Harry, abaixou ainda mais a voz quando entraram na sala e se acomodaram na mesa. — No sábado, eu pesquisei e descobri o que era exatamente, qual tipo de cobra, pretendia contar ao King e os outros, mas... — Harry deu de ombros. — Nenhum deles estava interessado em me ouvir e como eu sabia que eles descobririam em breve, decidi esquecer isso e manter a promessa, mas quando percebi que o Dumbledore não tinha a intenção de contar a todos a verdade e permitir que nos preparemos de alguma maneira, bem, decidi interferir.

— Você ainda acha que eles não encontrarão a entrada da câmara secreta? — Perguntou ele pouco antes de Slughorn entrar na sala.

— Ora, eu não acho nada, eu tenho certeza que eles não a encontrarão. — Disse ele com convicção.