Capítulo 62

Na manhã seguinte, eles partiram bem cedo, logo depois de um café da manhã substancial e com o dia ainda clareando. A manhã era cinzenta e fria, a tempestade do dia anterior tornou o Vale do Meio cheio de neve alta e fofa, mas os cavalos venceram o caminho sem problemas e eles chegaram a Hallanon II pouco depois das 14 horas.

Lanches e bebidas quentes foram levados para a fria cavalgada, mas, quando chegaram a fazenda, estavam famintos. Assim, depois que cada um cuidou de seus cavalos, eles entraram para um almoço tardio. Madrina Yolanda os esperava com um Cocido Madrileño, uma receita de grão-de-bico, com acelga, frango, linguiça, batata, repolho, vagem e caldo. A sopa era quente, bem temperada e com sustância, os aqueceu e encheu de energia. Harry comeu 4 pratos sem constrangimento e ainda teve espaço para alguns churros fritos acompanhados de doce de leite que eram o céu. Ele conversou bastante com Yolanda e Rodrigo sobre a culinária espanhola, pois estava mais do que encantado com os sabores.

Antes de partirem, eles foram ver os animais mágicos da fazenda. Serafina, que estava muito cansada, decidiu ficar relaxando e se esquentando na casa do Martíns.

— Eu não estou em tão boa forma como pensei, meus músculos estão me matando depois de passar tanto tempo em cima do cavalo e fico muito feliz que voltaremos por aparatação. — Disse ela se acomodando em uma poltrona com uma xícara de chá.

Falc foi porque Adam e Ayana estavam excitadíssimos e precisavam ser observados. Assim, eles entraram na floresta e caminharam por mais de meia hora até chegarem a uma grande clareira, onde encontraram um segundo estábulo.

— Eles ficam aqui no inverno. — Disse Trissie suavemente. — No resto do tempo, eles gostam de viver livremente pela floresta. — Ela parou na porta e os encarou. — Os animais não ficarão à vontade por ter tantas pessoas os visitando de uma vez, assim, mostrem respeito e só se aproximem quando eu autorizar.

O estábulo era muito diferente do outro, primeiro porque, ao em vez de baias, ele tinha cercados separados onde ficavam os animais de espécies diferentes. Segundo, porque o teto era muito alto e janelas gigantescas se abriam na parede, próximo ao telhado, onde eles podiam sair voando, supôs Harry. Sorrindo, todos olharam para os cavalos alados, hipogrifos e unicórnios que se mantinham em seus próprios cercados, comiam, cochilavam e se aconchegavam em seus companheiros.

— Oh! Posso tacá-los, Sra. Trissie? — Disse Adam com os olhos arregalados e Ayana parecia sem voz, apenas acenava freneticamente.

— Conheceremos um grupo de cada vez, todos serão calmos e respeitosos. — Reforçou ela e todos acenaram. — Vamos começar com os unicórnios, eles são mais dóceis e os outros irão se acostumando com nossa presença.

Eles se aproximaram do cercado e o chefe do grupo de 18 unicórnios se adiantou com a intenção de proteger sua família, mas, Trissie estendeu sua mão e deixou claro a boa intenção com a visita. Aos poucos o unicórnio relaxou ao reconhecê-la, Rodrigo e Scheyla, e os outros se aproximaram. Adam e Ayana, encantados, foram colocados dentro do cercado e tocaram nos unicórnios, Hermione parecia sentir falta de uma pena e pergaminho para anotar todas as informações que os Martíns lhes passaram. Neville e Harry foram aceitos sem problemas, mas os adultos foram tratados com indiferença ou, no caso de Remus, com clara desconfiança.

— Os cavalos alados e os hipogrifos voam pelas janelas, mas, como os unicórnios saem? — Perguntou Hermione curiosa.

— Nós temos dois guardiões dos cavalos, Porlocks, que os alimenta, os trata e protege. — Disse ela apontando para dois pequenos seres de uns 60 centímetros de altura, peludos, com braços curtos e mãos de quatro dedos. Eles estavam em lados opostos do estábulo, os encaravam com desconfiança e mantinham seus olhos amarelados atentos a tudo que faziam.

— Eu não os tinha visto ali. — Disse Sirius surpreso.

— Porlocks se misturam muito bem com o ambiente e são discretos, muito desconfiados dos humanos, seu principal objetivo é proteger os cavalos. — Disse Trissie os olhando com carinho. — Nós temos um acordo, ele e sua companheira ficam aqui com os alados e nós cuidamos dos cavalos que estão perto de nós, mas, se vamos para a Espanha, eles vigiam os dois estábulos.

— Onde está sua companheira? — Ayana perguntou e Trissie apontou para a Porlock fêmea que estava bem camuflada.

— Eles se separam para proteger melhor, mas já sabem que nossas intenções são boas e não farão nada.

— Eles são tão inteligentes que sabem alimentar os cavalos? — Hermione perguntou baixinho.

— Os Porlocks são os guardiões dos cavalos, estão aqui para protegê-los e ajudá-los. — Explicou Scheyla suavemente. — Mas podem ser muito adaptáveis as diferentes situações, por exemplo, cuidar dos unicórnios e hipogrifos também e, diante do fato de que os cavalos não estão em perigo, eles podem provê-los do que precisam.

— Nós trazemos os feno, frutas e carne, os Porlocks apenas os alimentam e ajudam os unicórnios a entrarem ou deixarem o abrigo quando querem. — Concluiu Trisse gentilmente.

Harry entrou no cercado e acariciou um dos unicórnios que parecia gostar dele.

— Hum, você é muito doce, como meu amigo, Savage, eu não consegui me despedir dele, mas soube que ele estava com a família, então, acho que deve estar bem. Não é? — Sussurrou Harry suavemente e o unicórnio gesticulou afirmativamente. — Sim, foi o que eu pensei, mas, quando voltar para a escola, tentarei encontrá-lo para uma visita e meu amigo, Firenze. O que você acha? É uma boa ideia? — O unicórnio acenou outra vez e tocou seu rosto com carinho antes de se afastar.

No próximo cercado, tinha testrálios e, para aqueles que não viram a morte, parecia vazio.

— Onde estão as criaturas deste cercado, Sra. Trissie? — Perguntou Ayana confusa.

— Elas estão bem ali. — Ela disse com um sorriso. — Acredito que a maioria de vocês não pode ver, mas os testrálios estão aqui. — Trissie acenou com a varinha e um pedaço de carne flutuou de uma caixa fria até o chão, alguns segundos depois, a carne foi mordida e as crianças soltaram exclamações de surpresa.

— Sempre me surpreende também. — Disse Rodrigo sorrindo encantado. — Não sei o que mais me chocou, saber que minha esposa e filha eram bruxas ou que unicórnios e cavalos alados existiam. E, cavalos alados invisíveis.

— Eu também não posso vê-los. — Disse Scheyla, mas sem medo estendeu a mão e acariciou alguma coisa.

— Todos sabem porque alguns podem ver os testrálios e outros não? — Trissie perguntou, apenas Adam e Ayana não sabiam. — Bem, aqueles que podem ver, já viram a morte, ou seja, viram alguém morrer e aceitaram isso. Eu não podia vê-los até que, a alguns anos, estive ao lado do meu pai quando ele faleceu. — Seus olhos estavam tristes. — Quem consegue vê-los?

Trissie olhou na direção dos adultos, sabendo que eles poderiam ter visto a morte tendo estado em guerra, mas, para a sua surpresa, quem levantou a mão foram os adolescentes e Sirius. Falc e Remus acenaram negativamente, além de Adam e Ayana, claro.

— Vocês podem vê-los? — Scheyla parecia quase invejosa.

— Podemos. — Harry disse suavemente e entrando no cercado, tocou o bonito cavalo. — Eles são muito bonitos, diferentes e especiais. Vem, Adam, Ayana, não precisam ter medo, pois os testrálios são muito gentis e eles levam a carruagem com os alunos em Hogwarts.

— Sim, todo mundo pensa que a carruagem anda com magia, sabe, sem nada a conduzindo, mas, na verdade, são os testrálios. — Disse Hermione tocando em um dos mais jovens. — Eles são tão lindos.

Os testrálios eram muito gentis e todos puderam tocá-los sem problemas, ainda que, para aqueles que não podiam vê-los, era muito estranho.

— Eu gostaria de entender como três adolescentes podem já ter visto a morte. — Disse Trissie tentando absorver essa nova informação. — Quando os adultos não ou será que Serafina pode?

— Não, Serafina também não pode ver os testrálios. — Disse Falc e seu rosto tinha uma expressão incômoda. — Mas Terry pode, infelizmente.

— Eu vi meu avô morrer quando era mais jovem, antes de ir a Hogwarts. — Disse Neville timidamente.

— Ok. Sinto muito, Neville. — Trissie disse suavemente e Nev deu de ombros. — E vocês dois? E Terry?

— Hum, é uma longa história, tia Trissie, para outro momento, acredito. — Disse Harry sem jeito e olhando de soslaio para Adam e Ayana.

— Porque será que tenho a sensação que você tem muitas longas histórias, hein? — Disse Trissie o encarando preocupada. — Ok, deixemos para um outro momento, mas não pretendo me esquecer.

Harry apenas acenou e eles seguiram para o próximo cavalo alado.

— Além dos testrálios, existem mais 3 raças de cavalos alados conhecidas e que não estão extintas, claro. Aqui na fazenda, temos duas, os Abraxans e os Antonianos, os Granianos são mais raros e difíceis de domesticar. — Informou Trissie em tom professoral. — Os Abraxans também são bem temperamentais, mas, os Antonianos, além de mais comuns, são mais dóceis. Mas não se enganem, eles não são nada como os testrálios, que apesar de erroneamente temidos, são impossíveis de violência.

Eles conheceram os Antonianos primeiro, eram de pelagem marrom escura e estatura mediana. Haviam 13 deles e eram muito bonitos e amigáveis, Harry estava verdadeiramente encantado e deixou que eles soubessem disso com seus elogios e afagos.

— Tia Trissie, o que ainda não entendi é de onde vem os cavalos mágicos exatamente. — Apontou Harry curioso.

Trissie sorriu com aprovação para sua pergunta.

— Essa é uma questão interessante e a resposta são os cavalos alados.

— Como? — Hermione a olhou ansiosa por aprender algo novo.

— Os cavalos alados procriam entre si, mas eles são espertos o suficiente para não discriminarem quando se ligam a um parceiro. — Disse ela e todos a ouviram com atenção. — No mundo trouxa, a criação de cavalos se baseia em conseguir os melhores potros, assim, há o cruzamento dos melhores cavalos com as melhores éguas. No mundo mágico, os cavalos alados são tão inteligentes e.…, bem, mágicos, que eles procuram seus parceiros e não se importam se eles são cavalos comuns.

— Oh! Então, eles procriaram com cavalos ou éguas trouxas e, assim, criaram uma raça de cavalos mágicos, mesmo que não sejam alados. — Hermione tinha um sorriso enorme e seus olhos brilhavam. — Que incrível!

— Exato. Os cavalos mágicos têm magia, são mais inteligentes, resistentes e vivem mais que os cavalos trouxas. — Trissie explicou animada também. — E, assim como os alados, se acasalam pela vida com seu parceiro.

— E os trouxas não tem acesso aos cavalos mágicos? — Remus perguntou interessado.

— Não. Bem, talvez antigamente quando haviam mais cavalos alados soltos pelo mundo. — Trissie acariciou uma fêmea antoniana. — Nos dias de hoje, o número foi muito reduzido, infelizmente, e existe um maior controle devido ao Estatuto de Sigilo, assim, você precisa de autorização do Ministério do seu país para criar cavalos alados. Ou, eles estão protegidos em Reservas Mágicas espalhadas pelo mundo.

— E, quando um cavalo alado procria com um cavalo normal, só nasce potros mágicos? — Harry questionou. — Não pode nascer potros alados?

— Exato, mas, se o cavalo alado procria com um cavalo mágico, as chances aumentam, ainda que não aconteça com muita frequência. — Disse ela e apontou para um Abraxan, de pelo marrom claro. — Aquele ali, é filho de uma égua alada e um cavalo mágico, mas eles são muito raros.

— Porque os cavalos parceiros dos alados não ficam aqui? — Neville perguntou.

— Nós temos alguns parceiros dos alados no primeiro estábulo, mas, os Abraxan são muito territoriais e não aceitam outros machos alados perto de suas companheiras. — Trissie explicou. — Nós não somos um risco, eles aceitam nossos cuidados com suas parceiras e os Porlocks lhes garantem que elas estão bem, assim, eles aceitam a separação quando é necessária. Mas, isso é só no inverno, no resto do ano, eles ficam juntos e montam seus territórios na floresta.

— O ideal era termos uma área protegida do frio para os parceiros, assim, eles não precisariam se separar, mas isso custaria muito caro. — Disse Scheyla incomodada.

— Não quer dizer que não poderemos no futuro, hija. — Disse Rodrigo sorrindo. — Temos alguns potros jovens bens treinados e, no verão, os venderemos e podemos começar a pensar na construção.

— Sim, mas isso não resolve o problema dos unicórnios. — Disse ela com irritação.

— Que problema? — Harry perguntou sem entender, eles pareciam muito bem.

— Os cavalos alados são animais próprios para o adestramento, Harry, mesmo os hipogrifos podem ser mantidos em semi cativeiros e treinados. — Trissie explicou. — Mas os unicórnios não, eles não prosperam presos, suas personalidades e instintos estão profundamente conectados com a natureza e morreriam se fossem aprisionados. Bruxos tentaram domesticá-los e mantê-los presos, mas, apenas acompanharam eles definharem lentamente até morrerem.

— Isso é horrível. — Ayana disse olhando com preocupação para os unicórnios.

— Eles estão aqui apenas no mais duro do inverno ou quando uma fêmea está para dar à luz, o resto do tempo, são livres para viverem na floresta. — Continuou Trissie. — Mas, ainda não é o ideal e infelizmente não temos como lhes dar uma proteção natural.

— Que seria? — Hermione perguntou ansiosa.

— Cavernas. — Scheyla disse e apontou para as montanhas. — Nas montanhas, tem cavernas onde podem se proteger e viverem nos momentos de clima extremo, mas nós não temos cavernas em nossas terras.

— Eles também não podiam passar pelas alas? — Harry estava completamente abismado.

— Não, Harry, alas criadas em propriedades com animais mágicos impedem que outros animais mágicos tenham acesso. — Trissie explicou. — Quando tentávamos entrar com nossos cavalos, eles se agitavam e recuavam, sentindo a magia das alas.

— Mas, porquê? — Neville perguntou com o rosto franzido.

— Por questão territorial e de segurança, mas também para que animais de outras fazendas não usufruam dos benefícios da sua fazenda. — Trissie disse e apontou para os testrálios. — Eles são meus e, se entrassem à vontade em Hallanon e comecem a comida dos seus testrálios, isso traria prejuízo a você.

— Isso acontece nas fazendas trouxas também, sem magia, claro. — Explicou Rodrigo. — Imagine que um cavalo entra na sua fazenda e come a ração dos seus animais ou pior, cobre uma das suas éguas premiadas e você perde muito dinheiro com um potro inferior ou mesmo a fertilidade da égua, o que significaria uma perda financeira incalculável. Existe também a possibilidade de haver uma disputa territorial, um cavalo macho não aceitará a presença de outro macho perto de sua companheira ou de seu filhote. Uma luta entre machos poderia significar a morte dos dois animais e mais prejuízos financeiros.

Harry acenou entendendo melhor e olhou para os unicórnios com preocupação.

— Bem, mas, agora que eu liberei a entrada, eles poderão procurar cavernas e ficar seguros. Certo? — Harry perguntou.

— Não, Harry, as alas ainda estão em funcionamento, naquele momento, você autorizou a nossa entrada e, na verdade, acredito que não poderíamos voltar a entrar sem a sua presença. — Disse Trissie e Falc acenou confirmando.

— Se cada vez que você autoriza um convidado, ele pode voltar e entrar a hora que quiser, isso seria um risco muito grande para a segurança, Harry e as alas não funcionam assim. — Explicou Falc suavemente. — Ou você muda as alas para permitir a entrada de pessoas específicas ou você convida as pessoas para entrar diante da sua presença. E, Serafina, Sirius e eu, podemos entrar e autorizar a entrada de estranhos, pois somos seus guardiões e tutores. Entende?

— Sim, mas acredito que preciso começar a estudar mais sobre alas. — Disse ele levemente incomodado com sua ignorância.

— Eu também. — Hermione parecia ansiosa para começar. — Podemos incluir em nossos estudos extras.

Harry acenou enquanto Neville gemeu levemente.

— Ok, hum... podemos mudar as alas ou levar os unicórnios para as montanhas... — Harry viu suas expressões negativas. — Não?

— Harry, você pretende reativar Hallanon e permitir a entrada dos meus animais vai de encontro a todos os problemas que listamos e tenho certeza que o seu administrador não gostará. — Apontou Trissie e, suspirando, continuou. — E, não posso enviar os unicórnios para viver em definitivo em Hallanon porque precisamos dos materiais mágicos que eles fornecem para poções e varinhas. Na verdade, uma boa parte da nossa renda vem desses materiais. Entende?

— Nós colhemos tudo o que eles deixam para traz ou nos dotam de boa vontade, fios do rabo e da crina, chifres quando tem a troca, as vezes conseguimos salivas e pelos. — Disse Scheyla sorrindo. — Valem uma fortuna por que têm que ser colhidos sem violência com os unicórnios e eles não confiam facilmente, como vocês viram.

Harry acenou, mas não olhou para Trissie, ela sabia qual era a solução para todos esses problemas e ele acreditava que tudo isso pesaria em sua decisão final.

Depois dos antonianos, eles foram conhecer os abraxans que eram na cor marrom claro e muito mais altos, incrivelmente musculosos e mantinham uma postura orgulhosa e expressão desconfiada.

Trissie foi muito mais cautelosa com eles e os deixou se aproximar apenas do líder do grupo que se colocou a frente protegendo os outros. Haviam apenas 8 abraxans, mas, por serem maiores, ocupavam uma área maior.

— Será que poderíamos montá-los? — Perguntou Harry suavemente enquanto acariciava seu pescoço com carinho.

— Eles dificilmente o deixariam, são muito orgulhosos e, se bem adestrados, podem conduzir uma carruagem, mas, jamais aceitariam ser montados pelo homem como um cavalo comum. — Disse Trissie tocando seu focinho. — Testrálios são os alados que lhe deixariam montá-los e um antoniano, se pedir com gentileza e for por extrema necessidade. Os granianos apenas se for seu amigo e os abraxans, nunca.

— Eles têm nomes como os cavalos? — Adam perguntou se aproximando devagar.

— Sim, mas são seus pais que escolhem e se perguntarmos com educação e gentileza, eles nos contam. — Explicou Scheyla olhando para os animais com grande amor.

— Eles escolhem e comunicam os nomes dos potros? Não pensei que fossem tão inteligentes... — Hermione começou a dizer, mas o líder Abraxan se ofendeu e corcoveou para traz erguendo a cabeça com orgulho e relinchou indignado. — Quer dizer... — Ela parecia entre constrangida e apavorada.

— Ele não são sencientes como os centauros ou sereias, Hermione, mas, com certeza, são muito inteligentes. — Disse Trissie e os afastou do cercado. — Além disso, são mágicos e se comunicam com suas magias, basta aprender a ouvir.

Os hipogrifos eram o próximo e Trissie os ensinou a se curvar, sem deixar de olhar nos olhos do lindo animal. Harry ficou com uma fêmea, Sonata, era seu nome, alta, bonita e orgulhosa, de pelagem branca e cinzenta. Ele se inclinou mostrando seu respeito e sem desviar o olhar, até que ela se curvou também e fez um som suave de aprovação. Harry a acariciou e sussurrou palavras de afeto, ela abriu as asas e depois se agachou, fazendo um barulho de incentivo e gesticulado com a cabeça.

— O que? — Harry hesitou e ela repetiu o gesto. — Você quer que eu te monte? Tem certeza? — Seu olhar e tom foi de indignação e Harry acariciou seu bico com carinho. — Desculpa, apenas não queria te ofender... — Mas Sonata piou como se dissesse algo e Harry conectou sua magia com ela tentando entender. — Oh! Entendi, você quer que eu saiba que você não é um cavalo alado e que quer ser minha amiga para voarmos juntos. Que garota esperta, também quero ser seu amigo, Sonata, muito obrigado.

E, sem hesitar mais, ele a montou e se acomodou em suas costas segurando o pelo mais grosso da parte traseira do seu pescoço e apertando as pernas. Quando Sonata abriu as longas asas, roçou em suas pernas, então, Harry se inclinou tentando ajustá-la para não se desiquilibrar e conseguiu posicioná-la em cima das asas.

— Harry, o que está fazendo? — Sirius o viu primeiro e tentou se aproximar, mas Sonata empinou irritada o afastando.

— Tudo bem, Sonata quer voar. — Disse Harry e agarrou em seu pescoço com força. — Vamos lá, garota. — Disse em um sussurro suave.

— Harry! — Falc gritou.

— Harry, isso não é uma boa ideia... — Trissie protestou, mas Harry os ignorou e, em segundos, Sonata correu pelo paddock ganhando impulso, abriu as longas asas e voou pela grande janela.

— UHHHuuhhh! — Harry gritou e riu quando o vento frio o atingiu com força. Foi só então que lhe ocorreu que alguma magia mantinha o estábulo quente ao impedir que o frio entrasse pelas janelas abertas.

Tirando a varinha, Harry lançou um feitiço de aquecimento forte em si mesmo e, suspirando de alívio, olhou em volta sem fôlego com tanta beleza. A floresta e as montanhas nevadas, a casa dos Martíns e, quando ele incitou Sonata a voar mais alto, perto das nuvens acinzentadas, conseguiu ver Hallanon.

— Veja lá, Sonata, pode ser que as montanhas e florestas de Hallanon seja o seu novo lar em breve. — A hipogrifo trilhou de interesse e Harry a orientou para a montanha. — Não tenha medo se ouvir algum som estranho, são as pedras da mina. Vamos lá, quero conhecer o Monte Ken e quem sabe encontro algumas Hecatitas.

Sonata estava mais do que disposta e, quando atravessaram as alas, pareceu ainda mais interessada, olhando em volta e trilhando de animação.

— Eu sei, eu sei, imagine, tudo isso para explorar... Isso porque você não conhece Hogwarts, querida, tem uma cadeia de montanhas e uma floresta mágica de tirar o fôlego. — Harry acariciou seu pescoço. — E, tem hipogrifos também, novos amigos e quem sabe você encontra um companheiro, hein? Eu fiz amizade com um carinha muito legal e orgulhoso, como você, o nome dele é Bicuço, mas, ele não me deixou montá-lo ainda.

Sonata trilhou e estufou o peito fazendo Harry rir.

— Sim, você é uma amiga melhor, muito especial. — Harry sentiu uma magia estranha quando se aproximaram mais da montanha. — Fique calma agora, garota, se for muito difícil, vamos embora. Ok?

Sonata assentiu e parecia se fortalecer, não querendo decepcioná-lo. Harry viu a área da mina e lhe indicou para pousar lá, quanto mais perto, mais agitada e incomodada a hipogrifo ficava.

— Tudo bem, não são sons reais, apenas a pedra que ressoa o som, fique tranquila. — Harry sussurrou, tentando acalmá-la.

A área era uma plataforma de madeira que se projetava na encosta da montanha. Ela ficava suspensa no ar, bem em frente à entrada de uma caverna que era protegida por uma porta de ferro e madeira muito bonita que continha símbolos rúnicos desenhados. Sonata pousou na plataforma, longe do precipício, felizmente, Harry desceu e a acariciou percebendo seu desconforto. Em cima da plataforma havia um chalé e um galpão, nenhum deles muito grandes, mas, quando Harry entrou, percebeu que a magia os tornava maiores por dentro. Sr. Falc estava certo, o galpão era um alojamento simples e desconfortável com camas estreitas de colchões finos, uma ao lado da outra e Harry fez uma careta. Sua cama nos Dursleys costumava ser assim também e o alojamento parecia um armário onde se jogava o fardo sem importância. O escritório era um pouco melhor, mais conservado, mas também sem conforto e sombrio. Harry suspirou, a verdade é que não entendia nada de mineração e teria que contratar pessoas de confiança, mas, uma coisa ele tinha certeza, aumentaria ou melhoraria as instalações, pois elas pareciam ter sido projetadas para servos e não empregados.

Vasculhando o escritório rapidamente, Harry se decepcionou por não encontrar nenhuma pedra. A porta da mina parecia bem trancada, mesmo assim, ele tentou abri-la com um Alohomora e nada aconteceu.

— Merda. — Harry suspirou, estava tão concentrado em aprender maldições de duelos que negligenciou aprender mais sobre encantos complexos e alas. — Aprenderei mais e você abrirá para mim da próxima... — Um barulho alto, como um rugido, ressoou e Harry arregalou os olhos de surpresa.

Sonata se agitou e parecia apavorada.

— O que é, Sonata? O que tem lá dentro? — Harry se aproximou e tentou entender seu pânico, mas ela só conseguia comunicar que queria partir, assim, ele a montou. — Acalme-se, está preso, seja o que for, não nos fará mal. Vamos lá, vamos voltar. — Ele não precisava dizer duas vezes e a hipogrifo acelerou pela plataforma e saltou no precipício, planando sobre as árvores, antes de voar em direção a Hallanon II.

No estábulo, todos ficaram um pouco paralisados pelo choque ao verem a hipogrifo alçar voo pela janela com Harry no lombo.

— OHHHHHH! — Gritou Ayana e começou a pular de entusiasmo. — Eu também quero voar no hipogrifo, papai, por favorzinho! Deixa, papai, deixa!

— Merlin, Serafina ficará furiosa. — Disse Falc tentando ver Harry, mas ele desapareceu entre as nuvens junto com o hipogrifo.

— Papai! Por favorzinho! — Gritou Ayana saltitando a sua volta.

— Ayana! Sua mãe me mataria lentamente se deixasse você fazer algo tão arriscado. — Disse ele em tom que não admitia discussão.

— Isso não é justo! Harry sempre faz as coisas perigosas e divertidas! — Ayana se afastou furiosa e de braços cruzados para bem longe do seu pai, que suspirou.

— E, em um minuto, me tornei o papai mau. — Disse Falc e olhando para Sirius disse. — Isso é culpa de James, que passou esse gene para a imprudência e perigo para o Harry.

Sirius e Remus riram divertidos e despreocupados.

— Vocês parecem muito tranquilos. — Disse Trissie com um olhar agudo. — Isso é muito comum? Harry fazendo algo perigoso e sem se preocupar em pedir permissão?

Sirius e Falc a encaram e engoliram seco, eles estavam preocupados com Serafina, mas tinha esquecido de Trissie. No entanto, antes que pudessem responder, Hermione Neville riram de suas perguntas.

— Harry? Correr para uma situação perigosa e nem piscar? — Neville acenou com indiferença e ironia. — Imagine.

— E fazer o que lhe vem à mente sem consultar os adultos? Ora, Harry nunca faria isso. — Disse Hermione, os dois se olharam e riram ainda mais.

Sirius se juntou a eles, mas ao ver a expressão zangada de Trissie ficou sério na hora.

— Olha, não se preocupe tanto, Patrice. — Disse ele tentando acalmá-la. — Harry sabe o que faz, ele é muito independente e inteligente, além de saber voar como um passarinho. Se o tivesse visto em uma vassoura, saberia disso.

— Isso tudo pode ser verdade, mas, além dele, Harry pode colocar a Sonata em perigo também. — Disse ela olhando para o céu, mais preocupada do que zangada.

— Harry disse que ela queria voar, mamãe e ele é muito cuidadoso com os animais. — Disse Scheyla e acariciando o bico de outro hipogrifo, suspirou. — Se não tivesse tão frio, adoraria segui-lo... Talvez possamos voar no verão? — Disse ela olhando animada para Neville e Hermione que empalideceram.

— Nem pensar. — Disse Neville se afastando.

— Você nunca me colocará em um animal mais alto que um cavalo, Schey, assim, pode esquecer. — Hermione cruzou os braços.

— Vocês não são nada divertidos. — Disse ela com um bico.

— Eu voo com você e o Harry! — Disse Ayana se aproximando com os olhos arregalados de empolgação. — Eu sou muito boa voando na vassoura, o Harry me ensinou! E, sei que posso voar no hipogrifo com vocês!

— Ayana... — Falc falou em tom de aviso.

— É no verão, papai! E, eu estarei perto de fazer 11 anos! Assim, serei grande o suficiente para andar em um Hipogrifo! — Protestou ela com veemência.

— Vocês não acham que o Harry está demorando? — Perguntou Rodrigo olhando para o céu preocupado.

Mas, neste momento, um ponto surgiu e em seguida, Sonata pousou no cercado dos Hipogrifos e Harry desceu do seu lombo com uma expressão séria.

— Harry, como você aguentou o frio? — Scheyla se aproximou ansiosa com Ayana bem de perto.

— Foi legal voar com a hipogrifo, Harry? Você me ensina a voar no verão? — Ayana perguntou sorridente e olhar pidão.

— Bem, eu sou um bruxo, assim, feitiço de aquecimento. — Respondeu ele para Scheyla que franziu a testa e tentou perguntar, mas Harry continuou olhando para a irmã. — Foi incrível. E, é o mesmo que na outra vez, te ajudo ou ensino se o seus pais deixarem, Ayana.

— Como assim feitiço de aquecimento? E o rastro do Ministério? — Perguntou Scheyla, finalmente.

— Ok, Harry, até o verão tentarei convencer a mamãe. — Disse Ayana determinada.

— Em uma propriedade mágica e cercado de bruxos adultos, eles não podem diferenciar a magia feita por nós ou por eles, assim, sem rastro. — Informou Harry e acenou para Ayana. — Boa sorte em sua missão.

Scheyla e Ayana pareciam que diriam algo mais, mas Trissie se adiantou.

— Chega, estou tentando falar algo importante...

— Porque nunca me disse que não tinha o rastro aqui? Eu poderia estar fazendo todas as minhas tarefas com magia há anos! — Interrompeu Scheyla cruzando os braços irritada.

— Scheyla! Se me interromper de novo, lhe tiro sua varinha! — Trissie disse zangada e Scheyla se afastou vermelha de humilhação. — E, você, o que fez foi muito perigoso e sem permissão minha ou dos seus guardiões! Espero que tenha uma boa justificativa para simplesmente sair voando com Sonata!

— Sonata queria voar comigo, ora. — Disse Harry e sorriu para a hipogrifo acariciando seu pescoço. — Ela queria me mostrar e aos alados como se faz amizade e que não tem nada demais em nos deixar voar com eles. Certo, querida?

Sonata estufou o peito e bateu as asas, trilhou feliz e olhou com orgulho para os abraxans que resfolegaram com desprezo.

— O que? — Trissie olhou para a dinâmica com curiosidade.

— Sim, ela queria mostrar que, se os alados não querem ser meus amigos e me deixarem voar em seus lombos, bem, problema deles. — Harry olhou para os abraxans e depois lhe deu as costas. — Não precisamos deles, não é, minha amiga?

Sonata trilhou e sapateou com as garras e cascos, parecia dançar e ergueu o bico com orgulho, zombando dos alados que responderam com um relincho irritado.

— Merlin, isso só pode ser brincadeira. — Disse Trissie surpresa.

— Não é. E, como a senhora disse para sempre ouvir e respeitar os animais, na verdade, tia Trissie, acredito que ela teria me bicado se dissesse não, assim... — Harry se aproximou dela e continuou em um sussurro. — Por falar em sempre ouvir os animais, eu levei a Sonata para voar por Hallanon e ela se mostrou muito feliz e interessada em explorar todo aquele espaço. Aposto que todos eles se sentiriam felizes se fizéssemos aquilo que discutimos, sabe. — Harry lhe deu uma piscadela e um sorriso antes de seguir Neville e Hermione, que deixaram o estábulo atrás da Scheyla.

— Mas... o que? — Trissie parou ao perceber que seu plano de lhe dar uma bronca foi para o espaço.

— É quase impossível castigá-lo, acredite, Serafina e eu bem que tentamos, mas... — Falc suspirou quase divertido.

— Eu não consigo nem lhe dar uma bronca, Harry sempre tem os melhores argumentos, mas, pelo menos, conseguimos dizer não e colocar limites. — Sirius disse e depois sorriu divertido. — Ele pode ter puxado do James essa atração para o perigo, mas essa inteligência para sair das enrascadas, acredito que foi da Sra. Euphemia, porque a Lily também não era boa nisso.

— Sim, isso não me surpreenderia nada. — Disse Trissie pensativa, pois já percebera que Harry era mais Slytherin do que deixava transparecer a todos, afinal, precisava ser um para reconhecer outro.

Logo depois, eles se despediram dos Martíns e Hallanon II. Harry abraçou Dominic e Dulce com carinho e coração apertado por saber que não os encontraria até a páscoa, pelo menos. Serafina e Trissie estavam fazendo planos para um jantar em breve e de um grande churrasco na páscoa para reunir a família toda. Assim, Harry tentou se consolar no fato de que apesar de estarem longe, eles ainda eram família e isso, por si só, era algo incrível. A menos de dois anos, quando entrou no expresso de Hogwarts pela primeira vez, ele não tinha ninguém.

— Ok, então nos despedimos por enquanto. — Disse Trissie à sua frente. — Pensarei com carinho em tudo que conversamos e pedirei a Scheyla que cuide de você, assim, deixe-a bancar a irmã mais velha, ela sente muita falta dos gêmeos.

Harry apenas acenou engasgado de emoção e a abraçou forte. Madrina Yolanda também o apertou com força, mostrando que, ao contrário dos Dursleys, seu medo de magia não tinha espaço para a intolerância. Rodrigo lhe deu um abraço viril, se dispondo a ajudar no que precisasse, oferecimento que o Harry devolveu com sinceridade.

Eles aparataram para Hallanon, todos resmungando sobre descansarem antes de irem conhecer Kenmare, onde pretendiam jantar, mas Harry seguiu para a biblioteca, pois tinha uma conversa importante que não podia esperar.

— Descansamos depois. Sra. Serafina, Sirius, preciso conversar com Patrick O'Hallahan. — Harry disse com firmeza.

— O que? — Alguém perguntou, mas Harry ignorou e parou em frente ao quadro na biblioteca, onde um homem de barba e cabelos brancos desgrenhados cochilava.

— A senhora pode despertá-lo, por favor? Garanto que é importante. — Pediu Harry quando Serafina e os outros entraram, Adam e Ayana foram enviados para descansarem e se banharem.

— Ok. — Disse ela e acenou com a varinha, acordando o quadro.

— Olá, tio Patrick. — Disse Harry com um sorriso divertido.

— O que... quem é você? Quem são todos vocês e o que fazem na minha casa!? — Gritou ele furioso e se levantando de sua poltrona luxuosa.

Harry teve a sensação que ele não era muito são, mas podia ser só uma impressão, talvez, por sua aparência desgrenhada e olhar enlouquecido.

— Sou seu sobrinho neto, Harry Potter e precisamos conversar. — Disse ele e recebeu um olhar enojado e possesso de seu tio, acostumado com isso, Harry nem piscou.

— Não tenho nada para falar com você, garoto ou com qualquer invasor da minha Hallanon. Ponham-se fora daqui! — Berrou ele e seu rosto ficou meio arroxeado.

Harry não se aguentou e riu, para surpresa dos outros, que estavam chocados com o quadro.

— Ora, que interessante, quando acho que me livrei de vez de um tio maníaco, descubro que tenho outro. Ou quase isso. — Harry sorriu com ironia. — Incrível como família pode ser um pé no saco. Não concorda?

— Foi criado por babuínos, garoto? Eles esqueceram de lhe dar educação? Não sabe que deve respeitar os mais velhos? — Patrick disse com sua voz grosseira, que ao vivo deveria ter sido assustadora, no quadro, nem tanto.

Harry riu de novo, divertido.

— Desculpe, esse foi engraçado de verdade, espero que não se importe se eu usar com meus inimigos um dia. Imagine isso. Voldemort, você foi criado por babuínos? — Harry gargalhou só de pensar e recebeu alguns olhares desconfiados de sua sanidade.

Sirius riu também, Remus tentou disfarçar seu riso com uma tosse.

— Cale-se, seu energúmeno! — Berrou Patrick enfurecido.

— Ok, eu me calo, na verdade, estarei partindo em algumas horas e posso ou não lhe deixar acordado. Depende se o senhor responderá algumas das minhas perguntas ou não. — Disse Harry, muito sério agora.

— Não lhe responderei nada! Não sou obrigado! — Disse ele e se sentou na poltrona cruzando os braços.

— Pode ser, mas acredito que podemos chegar a um acordo, tio Patrick. — Harry o encarou tentando imaginar como poderia forçá-lo. — O senhor sabe que sou o dono de Hallanon e neto de sua irmã mais velha, Euphemia.

— Ela me roubou! Hallanon era minha por direito e aquela...

— Cale-se! — Harry se aproximou do quadro e apontou sua varinha. — Juro que se ousar ofender minha avó, queimo essa maldita casa com seu quadro e todas essas obras de artes caríssimas dentro!

— Você não ousaria! — Patrick voltou a se levantar e parecia querer sair do quadro para estrangulá-lo.

— Eu fui criado por babuínos, lembra-se? Acredite quando eu digo que faria isso ou até pior..., hum, quem sabe transformar Hallanon em um orfanato cheio de abortos e sangues ruins. Colocaria seu quadro mudo e acordado bem na sala de brincadeiras e jogos deles. Acho essa uma ideia bem melhor que fogo. O que vocês acham? — Harry olhou para os amigos e Sirius com um sorriso perverso.

— Com certeza, imagine se dermos umas canetas, gizes de cera e tintas para desenharem nas paredes. — Disse Hermione entrando no jogo, pois percebeu que seu amigo estava em uma de suas missões importantes.

— Oh! Poderíamos colocar algumas plantas com terras em cima dos tapetes persas, para lhes ensinar a replantar e cuidar delas com conforto. — Disse Neville com um sorriso divertido.

— E música! — Disse Sirius e bateu palmas. — Rock, baby! Muita música, o som bem alto e as crianças pulando, subindo nos móveis, rabiscando e quebrando os vasos. Será pura diversão!

— Você... — Patrick parecia engasgado com as próprias palavras e, se não estivesse morto, morreria com certeza.

— Sim, sim, já sei, eu sou o pior e mais terrível, blá, blá, blá... Mas o fato é que Hallanon é minha, tio Patrick e posso fazer o que quiser com ela. E, sabe porquê? — Harry disse erguendo as sobrancelhas. — Porque essa casa é toda luxuosa, com móveis, tapetes, quadros, livros caríssimos e aposto que o senhor adorava gastar em festas, roupas, bebidas e comidas caras, para se exibir com seus amigos puros. Aposto que minha avó lhe aconselhou para conter os gastos e se dedicar a fazenda...

— Ela sempre foi uma invejosa, queria o que era meu, sempre quis! Nunca aceitou sua insignificância de ser apenas uma mulher! — Berrou ele com escárnio e desprezo, o que provocou exclamações indignadas de Serafina e Hermione.

— O senhor é que era um tolo! Incompetente! Perdulário! E não podia admitir que minha avó era mil vezes melhor como mulher do que o senhor jamais foi como homem! — Harry gritou furioso. — Ela era tão, mas tão especial, que ainda lhe deu uma parte de suas terras, de bom coração, sem pedir nada em troca e só recebeu desprezo. Por anos, tentou se reconciliar com o senhor e com seu filho, mas vocês preferiram se esconder atrás desse orgulho masculino estúpido. Bem, parabéns, a família O'Hallahan praticamente acabou por sua causa e, agora, essa fazenda pertence a um Potter. Talvez, eu devesse mudar o nome, o que o senhor acha de Potterrer?

O silêncio na sala se manteve enquanto os dois se encaravam com fúria.

— O que você quer, garoto? — Cuspiu Patrick, finalmente.

— Eu estive na mina agora a pouco e quando tentei abrir a porta, ouvi um rugido, a hipogrifo não conseguiu me explicar, mas estava apavorada o suficiente para me fazer pensar. — Harry o encarou com atenção procurando ler sua expressão. — Pensar em como os O'Hallahans são paranoicos e mesquinhos, como não permitiriam que ninguém tivesse acesso aos seus tesouros. Ocorreu-me que quando a fazenda e a mina foram fechadas, alguns encantos de segurança podem ter sido acionados para manter qualquer ladrão de roubar suas pedras preciosas.

Patrick sorriu debochadamente e cruzou os braços.

— Bem, bem, parece que a cria de Euphemia não é tão sem cérebro assim, afinal.

— Harry, o que você está pensando? — Falc perguntou, parecendo entender para onde a conversa estava indo.

— O que tem lá na mina, tio Patrick? Por um acaso é um dragão? — Harry perguntou sem tirar os olhos de seu rosto. A tensão na sala pareceu duplicar em um segundo.

— Não seja tolo, garoto, a montanha está cheia de Hecatitas e o som constante afasta todos os animais, seria impossível prender um dragão lá, por mais amigável que ele fosse. — Disse Patrick rabugento.

— Ok. Eu pensei assim também, mas, o rugido pareceu muito real...

— As pedras, garoto! As pedras! Quando a mina foi paralisada, a porta foi selada com um selo mágico muito poderoso. — Informou Patrick impaciente. — As alas e encantos só podem ser quebrados pelo senhor de Hallanon e, se alguém tentar abrir a porta, aciona várias medidas de segurança. A primeira delas é o som gravado em Hecatitas de um dragão rugindo em fúria.

— Ok, mas eu sou o senhor de Hallanon e a porta não se abriu... — Harry se interrompeu quando o velho no quadro começou a rir.

— O que você usou, senhor de Hallanon? O Alohomora? — Ao ver, em sua expressão, que acertara em sua suposição, Patrick riu ainda mais debochado.

— Acredito que colocar fogo só no quadro não é uma má ideia. — Disse Sirius irritado.

— Ok. Eu usei o Alohomora, tenho 12 anos e não sei tantos feitiços, além disso, pensei que por ser o dono de Hallanon, a mina se abriria sem problemas. — Disse Harry em um tom razoável. — Porque não deu certo?

— Encantos eram a nossa especialidade, garoto. Os O'Hallahans inventaram alguns feitiços e encantos de proteção que precisam ser desfeitos pelo senhor de Hallanon. — Patrick gesticulou e voltou a se sentar entediado. — Um feitiço do 2º ano de Hogwarts jamais funcionaria.

— Onde encontramos os contrafeitiços? — Perguntou Serafina suavemente.

— No Grimoire da minha família, é claro. — Disse Patrick sem se dignar a olhá-la.

— E, onde ele está? — Harry perguntou ao ver sua falsa indiferença.

— Atrás daquele quadro, mas, sugiro que apenas você o toque garoto, qualquer outro e uma morte lenta e dolorosa os alcançará. — Debochou Patrick e Harry foi até o quadro abrindo-o.

Ele olhou com atenção para o livro antigo e grosso, depois, voltou a olhar para Patrick.

— Tem algo errado aqui. Porque colocar um livro dessa importância em tão fácil acesso? — Harry questionou. — Se eles têm tanto feitiços poderosos e importantes, se, esses feitiços, permitem que a mina, tão protegida, seja aberta.

— Não é óbvio? Apenas o senhor de Hallanon pode tocá-lo sem morrer, essa é a proteção. — Ele disse com desprezo, mas Harry viu algo em seus olhos.

— Ok, vamos supor que isso seja verdade. Outra questão, onde estão as pedras?

— Que pedras? As Hecatitas? Nas minas, é claro. Onde mais estariam? — Disse ele e seu tom defensivo alertou a todos na sala, mas ninguém interrompeu o interrogatório.

— Sim, a montanha está cheia de pedras, sabemos disso, mas estou falando das pedras que são mineradas e guardadas antes de serem vendidas. — Harry se aproximou do quadro outra vez. — Porque, não tem um depósito lá em cima, assim, existe algum lugar secreto onde vocês as mantinham. E, mais interessante, onde estão as pedras que foram modificadas e transformadas em gravadores para o treinamento e estudos dos animais?

— Provavelmente roubadas, garoto, quando a fazenda foi desativada e os animais vendidos. — Disse ele tentando parecer zangado. — Os funcionários devem ter levado todas com eles, é claro.

— Hum, o senhor não é um mentiroso muito bom, não é? — Harry falou com um sorriso irônico.

— Provavelmente, sempre perdia no pôquer. — Disse Sirius com uma expressão de deboche.

— Tio Patrick, eu duvido muito que as pedras poderiam deixar Hallanon tão facilmente ou, então, já teriam sido roubadas em algum momento dos últimos séculos. —Harry afirmou erguendo as sobrancelhas. — Além disso, o senhor não respondeu onde era o depósito das pedras mineiradas.

— Huff... — Disse ele cruzando os braços. — Não sou obrigado a responder e, por mim, nunca terão acesso aquela mina ou as pedras. Imagine se eu ajudarei um Potter de bom grado.

— O senhor não precisa ajudar, eu não quero ou preciso das pedras, tio Patrick. — Harry deu de ombros. — Deixarei a mina como está, não preciso de mais dinheiro do que já tenho, mas, bem, eu tinha planos de trazer os animais de volta para Hallanon. Eles não foram vendidos, sabe, apenas enviados para a minha Reserva na África do Sul e, eu até tinha encontrado a pessoa ideal para administrar Hallanon.

Harry esperou por alguns segundos de suspense, Patrick tentou mostrar indiferença, mas acabou cedendo.

— Todos os animais voltarão? — Harry acenou e o velho continuou com escárnio. — E, quem é essa pessoa que você acredita ser tão perfeita para cuidar da minha fazenda?

— Sua neta, Patrice O'Hallahan. — Disse Harry e escondeu o sorriso de triunfo ao ver seus olhos se arregalarem. — Eu ofereci sociedade para tia Patrice, unir as duas Hallanons e, claro, ela e sua família viveriam aqui, na mansão.

— Minha neta? Eu tenho uma neta? — Ele parecia chocado e meio sem fôlego. — Quando este quadro foi pintado, minha nora inútil não conseguia segurar uma criança, aborto atrás de aborto.

Harry engoliu o gosto amargo que surgiu em sua boca.

— Hum, imagino que ser uma mulher de família pura, onde a endogamia é apenas um detalhe sem importância tenha algo a ver com isso. — Disse ele com desprezo, mas Patrick o ignorou.

— Eu tenho um neto também? — Perguntou ansioso.

— Não, apenas uma neta, sua nora faleceu em seguida. — Harry não sabia se ela morrera no parto ou depois, mas sabia que Trissie crescera sem mãe. — Mas o senhor tem duas bisnetas e... um bisneto, Dominic, é o seu nome.

— Um bisneto... — Seus olhos brilharam meio maníacos. — Ele poderia comandar Hallanon, um verdadeiro bruxo, um O'Hallahan. Quem... quem é o seu pai? Qual a família que meu filho escolheu para se unir a nossa?

— Os Selwyns. — Disse Harry sem piscar, afinal, era verdade. — Seu filho escolheu bem, Seymour Selwyn é ótimo e ele administra Hallanon II muito bem.

— Os Selwyn! — Patrick exclamou empolgado, estava tão concentrado no Harry que perdeu a confusão no rosto de Hermione e Neville. — Eles são uma família muito antiga, membros dos Sagrados 28!

— E muito ricos, ainda que tio Seymour seja o segundo filho, a família Selwyn é uma das mais ricas do nosso mundo. E, Dominic é um garoto incrível, está aprendendo com o pai a ser um verdadeiro bruxo, mas não falarei mais, tio Patrick, quando a tia Patrice se mudar para cá, poderá lhe contar tudo. — Harry disse e dando de ombros, continuou. — Quer dizer, se pudermos reativar a fazenda e, para isso, precisamos das pedras, assim, devolvemos todos os animais para onde eles pertencem. Imagine isso, Hallanon de volta em todo o seu esplendor e seus descendentes administrando tudo.

Patrick olhava como se alguém tivesse lhe prometido a ressurreição, mas, depois, o encarou desconfiado.

— E, como saberei se pretende mesmo fazer isso?

— Não saberá, mas lhe garanto que já fiz a proposta para eles e nada me faria mais feliz do que se a aceitassem. — Harry disse com toda a sua sinceridade.

— Hum... você é o único neto de minha irmã? — Seu olhar era interessado, quase demais, pensou Harry.

— Sim, infelizmente. — Ele respondeu suavemente.

— A fazenda foi desativada depois da morte de Euphemia, eu imagino, assim, onde estão seus pais? — Ele especulou mais um pouco e Harry segurou a careta.

— Mortos. — Respondeu secamente. — Mas, se está planejando me enviar para o mesmo destino com a esperança de que Hallanon fique para a sua linha, deixe-me acabar com suas ideias. Eu já tenho um testamento muito bem assegurado e, os meus guardiões aqui, cuidarão para que Hallanon se torne o maior orfanato do Reino Unido.

A expressão desapontada revelou que Harry estava certo em sua suposição e isso causou exclamações de protestos indignados de todos. Remus se manteve mais calmo e decidiu dar a última estocada.

— Seria incrível, aposto que as crianças escocesas e inglesas adorariam viver em uma casa tão grande e luxuosa. Posso vê-los nadando na praia e brincando na areia, depois, entrando e correndo pela casa cheios de animação.

— Gritando. — Harry insistiu.

— Oh, sim, muitos e muitos gritos. — Reafirmou Remus.

— Ok! Eu direi onde está, mas nem pense em trazer aqueles monstros escoceses a minha casa! — Gritou ele furioso.

— Muito bem, então, onde estão as pedras? — Harry perguntou sem lhe dar tempo para reconsiderar.

— Embaixo da casa. — Patrick apontou para o chão e voltou a cruzar os braços mal-humorado.

— Em um porão? — Harry perguntou surpreso.

— Não tem porão na casa. — Disse Falc convicto.

— Não é um porão... — Patrick parecia não querer falar, mas, finalmente, suspirou irritadiço. — É uma caverna.

— O que? — Todos se mostraram surpresos.

— Tem uma caverna embaixo da Mansão?

— Sim, ela já existia quando a Mansão foi construída. — Patrick apontou para um quadro que retratava a falecia, quem a pintou deveria ter estado no mar, pois a pintou de frente. Era mágico, assim, além da Mansão ao fundo, eles podiam ver as ondas batendo nas pedras lá embaixo. — Um dos meus descendentes pintou o quadro a partir de um barco no mar e encontrou a entrada da caverna que era cumprida e estreita. Mas, depois de quase dois quilômetros por esse corredor de pedras, a caverna se abre para uma grande câmara com teto alto e uma lagoa.

— Uau!

— Sim, é belíssimo e o lugar ideal para ser um depósito de pedras tão preciosas e muitos segredos. No entanto, acessá-la por sua abertura na falecia era impraticável, além de muito arriscado, pois qualquer um poderia ver a família entrando e saindo do local constantemente. — Patrick parecia muito orgulhoso de sua família e Harry poderia entendê-lo. — Assim, criou-se um acesso pela casa, uma escada de pedra que desse ao coração da caverna, onde está a lagoa, as pedras e...

— E? — Harry insistiu.

— Um dragão. — Encerrou ele e o silêncio persistiu por alguns segundos tensos, até que...

— Existe um dragão embaixo da casa!? — Serafina foi a primeira a exclamar abismada.

— Ora, porque estão tão surpresos? Como disse o garoto, com razoável inteligência, minha família sempre se preocupou e utilizou de muita astúcia para proteger nossos tesouros dos ladrões. Uma pena que não fizemos o mesmo com os usurpadores. — Resmungou ele no fim.

Harry o ignorou tentando absorver que havia um dragão a poucos metros de profundidade, mas algo não se encaixava.

— Isso não faz sentido. — Hermione disse lhe tirando as palavras da boca e Harry acenou. — Como um dragão pode estar preso na caverna sem que ninguém o alimente por mais de 10 anos?

— Ninguém esteve aqui desde que a fazenda foi desativada. — Harry disse e seu coração se apertou. — Ele pode ter morrido de fome? Ou dragões hibernam?

— Eles não hibernam. — Afirmou Remus e estava tão pálido como todos os outros.

— É claro que não, mas, mesmo quando eu comandava a fazenda, não precisava alimentar o animal ou confiava a alguém o conhecimento de sua existência e o que ele protegia. — Disse Patrick petulante. — Não lhes disse que a caverna tem uma lagoa? E não estamos perto do mar? Quando ele quer se alimentar, tudo o que tem que fazer é mergulhar profundamente na lagoa que tem uma abertura...

— Oh! — Hermione exclamou e parecia aliviada.

— A lagoa está conectado com o mar, assim o dragão pode sair e caçar. — Harry também suspirou de alívio.

— Mas, isso não explica porque ele não vai embora. Porque volta para a caverna e protege os tesouros de sua família se não está preso? — Remus questionou com inteligência.

— Quem disse que ele não está preso? — Patrick sorriu e parecia ainda mais insano. — Existem maneiras de se prender alguém ou algo, que apenas um bruxo inteligente poderia conhecer.

— Magia negra. — Sirius arregalou os olhos, pois essa era uma prática antiga dos Blacks e das famílias puras antigas. — O dragão está preso magicamente? Vocês o escravizaram?

— O que? — Harry arregalou os olhos. — Isso é possível?

— Sim, é magia negra, claro, mas é possível sim. — Sirius disse com o estômago embrulhado.

— Não é apenas magia negra que é utilizado em casos assim, existem magias de sangue e rituais antigos. — Patrick disse sem o menor constrangimento. — Minha família queria um ser poderoso e mágico para proteger nossos tesouros, assim, convocaram uma criatura mágica antiga, um dragão das águas. Ele respondeu e concordou em viver para proteger Hallanon, não apenas as pedras e a mina, mas os animais e a família também.

— Ele simplesmente concordou? Assim? — Remus não parecia acreditar ou qualquer um na sala.

— Bem, não, é claro. — Patrick riu divertido. — O ritual de convocação foi acompanhado por um de ligação de sangue, um vínculo mágico eterno com o sangue O'Hallahan.

— Eu nem sabia que algo assim poderia ser feito e com uma criatura mágica. — Disse Serafina pálida.

— E, como vocês acham que os elfos domésticos se vinculam com seus donos? — Perguntou Patrick impaciente com tanta estupidez. — O dragão e seus descendentes pertencerão aos O'Hallahans eternamente ou até serem dispensados, o que eu não recomendo. Ele é muito dócil e obediente, mas, sem o vínculo, poderia se tornar selvagem e querer vingança.

— Isso é horrível! O senhor deveria se envergonhar! — Hermione exclamou com os olhos brilhando de lágrimas.

Harry concordava, mas, não conseguia dizer nada, tão enojado estava. Como podiam fazer tamanha crueldade com uma criatura mágica! Talvez, ele pudesse ajudar o dragão...

— Como acesso a caverna? — Perguntou ele em tom de urgência.

— Harry! — Era Serafina.

— Harry, precisamos de alguém que saiba lidar com dragões, irmos a caverna sozinhos é muito perigoso. — Falc expôs.

— Isso sem falar no que mais poderemos encontrar. Provavelmente, haverá mais armadilhas e devemos ter um quebrador de maldições, apenas no caso. — Disse Sirius, mas Harry negou e continuou a encarar o quadro.

— O dragão é dócil ao senhor de Hallanon, além disso, tio Patrick não me enviará para lá sem nos alertar de qualquer armadilha. Ele não quer que eu morra, não é mesmo, titio? — Harry o questionou com sarcasmo.

— Hupf, lhe garanto que o que eu quero tem pouco a ver com isso, garoto tolo. — Disse Patrick o encarando com desprezo. — Primeiro de tudo, aquele livro não é o Grimoire O'Hallahan.

— Não? — Sirius olhou espantado para o livro antigo. — Mas ele tem dezenas de magias poderosas, eu mesmo o examinei.

— Sim, mas é apenas um livro antigo, com muitas maldições e somente um encanto verdadeiro escrito, o resto são apenas palavras sem sentido ou páginas em branco. Apenas você, Potter, pode pegar o livro e ler o encanto que, se recitado corretamente, abrirá a porta que leva a caverna. — Explicou Patrick sucintamente. — Lá, você encontrará as pedras, o dragão e o verdadeiro Grimoire, que contém os encantos que abrirão a mina.

— Isso é um sistema interessante. — Harry disse pensativo e trocou um olhar com Hermione.

— Sim, para acessar um local ou tesouro, precisa entrar em outro locar protegido, quase impossível sem as informações certas... É uma ótima contramedida de segurança. — Ela considerou pensativa.

— Ok, mas, e quanto as armadilhas? — Sirius perguntou tenso.

— Além do livro amaldiçoado e o dragão, você quer dizer? — Patrick o encarou com petulância. — Por favor, até a pouco, você acreditava que aquele livro era o verdadeiro Grimoire, assim, jamais descobririam a verdade se eu não lhes explicasse. Nem vocês ou qualquer um, além disso, a segurança está na sutileza, portanto, acrescentar armadilhas mágicas chamaria a atenção e poderia trazer riscos desnecessários aos membros da família. Então, não, sem armadilhas.

Harry acreditou nele, assim, foi até o livro e o pegou.

— Harry! — Sirius e Serafina gritaram, mas ele apenas o abriu se deparando com o encanto de abertura escrito em gaélico irlandês. — Ele poderia estar mentindo! — Continuou Serafina se aproximando.

— Ele não está porque sabe que nós não estamos blefando. — Disse ele e, analisando o texto do encanto, percebeu que não conseguia traduzir todas as palavras. — O meu galês é melhor do que o meu irlandês, mas, acredito que posso recitar.

— Você realmente entrará em uma caverna onde tem um dragão? — Neville estava pálido e os outros não muito melhores.

— Um dragão que pode entrar e sair da caverna a vontade, assim, se quisesse nos atacar, já teria. — Disse Harry simplesmente. — Alguém sabe gaélico irlandês?

— Eu sei um pouco, tive uma avó irlandesa. — Remus se aproximou e Harry o questionou sobre algumas palavras que ainda não conhecia.

Demorou quase meia hora para o Harry se sentir seguro com o pronunciamento das palavras e realização do encanto de abertura da porta. Os adultos não estavam muito confortáveis e decidiram levar as crianças para Hallanon II e trazer Trissie e Scheyla, por precaução.

— O que está aprontando, garoto? — Perguntou Trissie e seu tom carinhoso ao chamá-lo de garoto fazia toda a diferença.

Em outra sala, Harry explicou o que descobriram e como conseguiram as informações.

— Agora só preciso pronunciar certo o encanto de abertura para podermos entrar na caverna. — Disse ele empolgado.

— Ok, muito engenhoso ao dizer a ele que me casei com um Selwyn. — Trissie disse e olhou para a filha. — Mantenha o engodo caso precisemos de mais informações. O que não entendo, Harry, é o fato de que tia Euphemia foi dona de Hallanon por mais de 50 anos. Você acredita que ela não descobriu a caverna?

Harry parou pensativo, tentando encontrar a resposta.

— Ela deve ter, vovó cresceu aqui e teria conhecimento sobre a caverna a vida toda, talvez... — Seus olhos brilharam com um novo pensamento. — Me ajude com a pronúncia, Tia Trissie, assim podemos acessar a caverna e saber tudo.

Com as palavras traduzidas e pronunciadas corretamente, Harry voltou para a biblioteca com Trissie e Scheyla.

— Tio Patrick, estas são sua neta e bisneta, tia Patrice e Scheyla. —Apresentou-as com mais formalidade que o necessário.

— Vovô Patrick, um prazer te conhecer. — Disse Trissie com um tom aristocrata e formal.

— Bisavô Patrick, muito prazer. — Disse Scheyla acompanhando a mãe.

— Olá, minhas netas, tenho grande prazer em conhecê-las. — Ele estava sentado em sua poltrona, pernas cruzadas elegantemente e expressão severa. — Espero que tenham autorização do seu senhor para estarem aqui. E, onde estão o meu genro e bisneto?

Era muito óbvio como ele pouco ou nada se interessava pelas duas, no entanto, seus olhos brilharam ao perguntar sobre o seu descendente masculino. Trissie, que crescera com um pai igualmente sexista e indiferente, apenas sorriu docemente, mas Scheyla arregalou os olhos e teve que ser cutucada pela mãe.

— Meu marido e Dominic estão visitando meu sogro neste fim de semana, vovô, uma reunião só de homens. Tenho certeza que ele entenderia que estou atendendo o chamado de meu primo e ajudando a cuidar de Hallanon. — Trissie falou em tom submisso e Scheyla abaixou a cabeça para não mostrar sua expressão horrorizada, mas isso pareceu agradar a Patrick que acenou e as dispensou, voltando sua atenção para Harry.

— Muito bem. E quanto a você, garoto? Acredita que consegue realizar o encanto? — Seu tom era de menosprezo, mas Harry não se abalou.

— Tenho certeza que posso. — Respondeu ele e se colocou em frente ao nicho que estava atrás do quadro.

Harry estava confiante porque era bom em encantos e sabia o que fazer. Assim, ergueu a varinha e fechou os olhos se concentrado no encanto em irlandês que decorou e em conduzir sua magia para realizar o seu desejo.

"Cosúil le tiarna Hallanon agus a chuid draíochta, ordaím duit an bealach a réiteach don taisce. "

"Go raibh maith agat as do chosaint. "

"Cealaigh an charm dúnta. "

"Go ndéanfadh tiarna Hallanon é."

"Agus mar sin de. "

Remus e Serafina lhe disseram para repetir o encanto se ele tentasse resistir e Harry fez isso. O encanto de fechamento da porta o reconheceu como o senhor de Hallanon, mas parecia querer brincar resistindo e saltitando sobre sua magia como um jogo de pega. Harry não se impacientou e continuou a conduzir sua magia de maneira calma e gentil ao mesmo tempo em que exigia que sua vontade fosse cumprida.

— Ele não conseguirá. — Disse Patrick satisfeito e, um segundo, depois a parede estremeceu e se deslocou com um barulho de pedra arrastando.

Harry abriu os olhos e observou o nicho recuar para dentro da parede e do chão, desaparecendo, até que uma abertura do tamanho de uma porta comum apareceu no lugar.

— A magia quis brincar um pouco, acredito que era da minha avó... — Harry sorriu emocionado. — Ela foi a última a realizar o encanto de fechamento.

Pigarreando, ele olhou para Trissie que apertou seu ombro com carinho.

— Isso não me surpreende, James herdou sua veia brincalhona da Sra. Euphemia. — Disse Sirius com um sorriso saudoso.

— Hum, ela não passava de uma moleca atrevida que não sabia o próprio lugar...

— Incendio! — Disse Harry e manteve o fogo a centímetros da pintura.

— Quê!? — Patrick recuou e acabou na pintura seguinte onde tinha uma mulher, sua esposa, dormindo. — Eu lhe dei as informações que me pediu! Você não pode!

— Eu lhe disse para não ofender minha avó! — Harry falou com raiva, acabara de sentir sua magia e desfazê-la com delicadeza, não permitiria que ninguém a diminuísse. — Esse é o último aviso que lhe dou, se voltar a depreciá-la...

— Ok! Ok! Não falarei mais nada, afaste esse fogo do meu quadro e das cortinas, poderia queimar o tapete persa que ganhei do Grande Faquir Azus Abudallah. — Disse ele e sua expressão de pavor o fazia parecer fraco e mesquinho.

Harry percebeu que Trissie e Scheyla disfarçaram seu desapontamento com dificuldade.

— Vamos entrar, então? — Disse Harry olhando em volta e mostrando em seus olhos brilhantes o prazer pela aventura.

— Eu irei a frente. — Disse Serafina, mas todos acenaram negativamente.

— Tem que ser o Harry, querida e, se ele sentir qualquer magia hostil, tem que liberar caminho nos convidando a entrar. — Falc objetou na hora.

— É provável que ninguém que não tivesse o sangue O'Hallahan já tenha entrado na caverna. — Sirius disse e olhando para a abertura escura sinalizou para o Harry. — Você vai primeiro, luz acesa e atenção ao ambiente, se sentir que devemos voltar, não hesite. Ok?

Harry apenas acenou e, acendendo sua varinha, adentrou pela porta que, imediatamente se tornava uma escada de pedra.

— Existem tochas na escada. — Disse ele e a pessoa logo atrás dele, Sirius, acende-os um a um enquanto desciam os degraus lentamente.

Parecia não ter fim e Harry desistiu de contar quantos degraus foram ou se preocupar em subi-los depois. A escada se manteve um corredor estreito, escuro e úmido por, talvez, quilômetros abaixo da casa e, então, abruptamente uma luz surgiu a frente. Concentrado e com sua magia conectado ao ambiente, Harry sentiu a magia que protegia os tesouros na caverna, mas, ela o reconheceu e aceitou sua presença e dos seus convidados sem resistência.

A luz azulada se tornou mais e mais próxima, até que Harry viu a caverna e parou, chocado com tanta beleza.

— O que foi? — Sirius sussurrou e sinalizou para que todos se detivessem.

Harry olhou para cima e viu o caminho, agora iluminado, com uma fila indiana de rosto preocupados, os últimos eram de Scheyla, Hermione e Neville.

— A luz azulada é da lagoa, chegamos a caverna e o melhor é ficarem em silêncio para não assustar o dragão. Não tem magias hostis, mas não toquem em nada, ela reagirá a um possível ladrão dos tesouros. — Disse ele e todos acenaram entendendo.

Harry continuou a descida, a escada surgia do teto da caverna e não tinha paredes que a ladeavam, apenas um corrimão de ferro. A câmara da caverna parecia tão grande quanto o Grande Salão de Hogwarts e, em seu centro, havia uma lagoa grande, translúcida e azulada com praias de areia e cascalho que arrancou exclamações de choque e prazer do grupo. Os degraus terminavam a 40 metros do lago e Harry olhou em volta, os adultos cercaram sua retaguarda e seguiram sua postura cautelosa quando ele se aproximou da área de armazenamento.

E, foi onde todos pararam abruptamente, chocados com o que viram.

— Merlin... — Alguém sussurrou e Harry acenou sem conseguir falar.

Havia milhares de pedras e não eram apenas Hecatitas, o quartzo purpura se destacava em grande quantidade, mas também haviam pedras de diversas outras cores. Elas eram mantidas em prateleiras encrustadas na pedra da caverna e baús, Harry percebeu a diferença rapidamente, nas prateleiras haviam Hecatitas, além de Hecatitas transformadas, mas, nos baús, haviam safiras, cristais, jades, diamantes, rubis, esmeraldas e algumas outras pedras de cores que Harry não tinha conhecimento do que eram exatamente.

— O que raios? Eles encontraram tudo isso no Monte Ken? — Harry soltou abruptamente.

— Não tudo, jovem mestre. — Uma voz cristalina e doce falou da água e Harry se virou abruptamente com a varinha erguida.

Uma cabeça azul, quase da cor da lagoa, se projetou para fora do lago e lentamente se ergueu, mais e mais alto até que seu corpo azulado e serpentino pairasse a uns bons 20 metros de altura acima deles. Hermione gritou e os adultos se colocaram a frente dela, Neville e Scheyla, enquanto levantavam suas varinhas, mas o imenso, azul e molhado dragão nem piscou seus olhos negros ou os desviou de Harry.

— Olá. — Disse ele disfarçando o medo e se inclinando com respeito. — Sou Harry Potter, o novo senhor de Hallanon. Como se chama?

— Interessante. — A voz era tão leve e suave, lembrava um sino tocando. — Apenas uma vez antes, o Senhor de Hallanon se interessou por meu nome, normalmente, sou apenas o dragão. Eles nem ao menos descobriram que sou um dragão fêmea.

— Bem, considerando que você é tão educada e pode se comunicar comigo em inglês, saber seu nome é o mínimo de cortesia que devo lhe prestar. — Disse Harry suavemente.

— Não falo em inglês, jovem Mestre, falo a antiga língua dragonica, me surpreende que possa entendê-lo e pronunciá-lo tão bem. — Disse ela parecendo se divertir.

Harry olhou em volta e percebeu que ninguém entendia o que estava dizendo, eles continuavam tensos.

— Está tudo bem. — Assegurou ele gentilmente e depois olhou para o Dragão fêmea, ela parecia uma imensa cobra, não tinha patas dianteiras, apenas traseiras e uma longa calda que se movia preguiçosamente na superfície do lago.

— Eu posso falar com cobras, talvez seja isso. — Considerou ele lentamente.

— Talvez. — Disse a dragão divertida e curiosa.

— Eu soube de sua existência a pouco e lamento que meus antepassados a tenham escravizado. Se minha avó não te libertou, gostaria de fazer isso agora... Desculpe, você tem um nome? — Harry questionou gentilmente.

— Sim, neto de Euphemia, me chamo Dionach, a Protetora. — Disse ela e finalmente olhou para os outros. — Sua avó me chamava de Diona e fomos amigas antes de sua viagem para o Reino dos Mortos. Porque trouxe tantos humanos que não são o seu sangue? Os O'Hallahans têm proteções cruéis contra ladrões.

— Eles são todos amigos e família, Diona. — Harry garantiu. — Não estão aqui para roubar e sim para me apoiar, assim, pode confiar neles, pois eu confio.

— Você tem muita família, jovem mestre. Um abençoado. — Disse ela o cumprimentando e Harry acenou agradecendo.

— Eu sei, é assim que me sinto também. — Harry sorriu para todos e aos poucos eles foram ficando mais tranquilos. — Diona? Minha avó te libertou, não é mesmo?

— Sim. Há mais 50 anos, Mia Potter esteve aqui e me libertou de minha escravidão. — Contou Diona em tom etéreo. — Ela sempre me quis livre, mas seu pai me temia e seu irmão desejava minha servidão. Quando se tornou a Senhora de Hallanon, minha querida amiga me libertou imediatamente.

— Eu sabia! — Harry sorriu eufórico e rapidamente resumiu em inglês o que descobrira até agora.

— Quer dizer que ela não está vinculada a você? — Sirius perguntou alarmado e olhou para Remus. — O que a impede de nos devorar?

— E porque ainda está aqui? — Trissie acrescentou interessadíssima na linda dragão.

— Perguntarei a ela. — Disse Harry e fez exatamente isso.

— Esse é o meu lar a mais de 400 anos e Mia me deu permissão para continuar a viver aqui. — Disse ela. — Sou uma protetora dos animais, não de pedras, assim, ficar aqui e cuidar das lindas criaturas mágicas era minha missão e escolha.

Harry repetiu aos outros e Remus franziu o cenho muito confuso, Trissie parecia ainda mais chocada.

— Merlin santo! — Exclamou ela. — Harry, pergunte se ela é uma Kelpie?

— O que? — Harry estava confuso e quando Diona riu suavemente encarando Trissie, todos ficaram perdidos.

— Vejo que além da aparência, herdou da sua tia a astúcia e inteligência, jovem. — Enquanto falava, dessa vez em inglês, sua aparência oscilou, se encolheu e mudou até que, caminhando sobre a água da lagoa, havia uma linda mulher de cabelos compridos e azuis, olhos negros nebulosos, pele branca, rosto pequeno e bonito, usando um vestido azul claro.

Harry se surpreendeu mais agora do que quando o dragão surgira e abriu a boca abobalhado.

— Senhora, é uma grande honra. — Disse Trissie se ajoelhando e curvando a cabeça respeitosamente.

— Isso não é necessário. — Disse Diona, quase timidamente e sorriu acolhedora. — Por favor, não se curvem, isso é constrangedor.

Trissie se levantou e a encarou assombrada.

— Nunca pensei... quer dizer, sempre acreditei em sua existência, mas, nunca pensei que um dia conheceria um Espirito Protetor. — Disse um pouco gaguejante.

— É um prazer conhecê-los também, descendentes de minha amiga e vejo em seus olhos a mesma bondade que havia nos dela. — Disse Diona e, finalmente, pisando na praia da lagoa ela continuou a andar, parecendo flutuar até estar a 2 metros de distância do grupo.

— Eu estou completamente perdido. — Disse Sirius e expressou o que todos sentiam.

— Eu não entendo. — Harry olhou para Trissie e Diona. — Você é uma mulher ou um dragão?

— Nem uma coisa, nem outra, jovem mestre. — Respondeu Diona com sua voz cristalina. — Sou um Espirito Protetor, criado pela magia para proteger as criaturas mágicas. Não sou a única que existe e Kelpie é o nome que o povo dessas ilhas me deu, os que se chamam irlandeses e escoceses.

— Sempre pensei que era uma lenda, quer dizer... —Remus a encarava com olhos brilhantes e arregalados. — Minha avó me contava a história do cavalo-dragão que se transformava em uma linda mulher ou homem e atraia suas vítimas para o fundo do mar, as afogava e devorava. Era uma lenda, parte do folclore Irlandês e Escocês, até mesmo os trouxas sabem sobre essa história.

— Bem, eu não me transformo em homem, mas o cavalo-dragão é uma das minhas formas e, em minha defesa, só matei homens e mulheres que machucavam as lindas criaturas mágicas e jamais os devorei. — Disse ela e seu rosto corou um pouco, talvez de timidez, quando assegurou. — Eu juro.

Todos a encaravam entre chocados, encantados e divertidos.

— Ok, hum... — Serafina olhou em volta e não vendo medo em Trissie, continuou. — Talvez pudesse nos contar a sua história. Como se tornou presa aos O'Hallahans?

— Talvez, antes, pudessem se apresentar, jovens. — Disse ela sorrindo e Harry teve a impressão que estava ansiosa por conhecê-los e fazer amizade.

— Claro! Desculpe, que indelicadeza. Sou Serafina Boot. — Serafina, então, apresentou cada um deles que acenaram e sorriram para Diona que manteve seu grande sorriso e olhar interessado.

— Nunca vi tantas pessoas ao mesmo tempo em meu lar e vocês parecem todas almas tão boas. — Disse ela suavemente. — Bem, contar a minha história não demora muito, sou um Espirito Protetor criado pela magia, vivo no mar a maior parte do tempo ou nas terras a beira da água. Um Espirito Protetor é criado quando a magia sente que há um desequilíbrio e somos necessários para proteger as lindas criaturas mágicas, seus habitats e modo de subsistências. Eu nasci a quase 500 anos, quando o senhor de Hallanon, Mylor criou uma magia que lhe permitia atrair, capturar e controlar os animais mágicos usando as pedras que falam. Quando o abordei, ele me disse que suas intenções eram proteger, estudar e cuidar dos animais mágicos e não os explorar ou ferir.

— Ele estava sendo sincero? — Trissie perguntou baixinho.

— Sim, ele era um bom homem e amava os animais, seus estudos lhe permitiram compreender e cuidar melhor dos animais. Ele conquistou suas amizades e lealdades, aprendeu seus hábitos alimentares e de acasalamento, usou seu aprendizado para cuidar melhor dos seus cavalos e vendê-los por um preço mais alto. Seu objetivo não era só lucro, mas também tornar seus cavalos mais felizes e vendê-los para bruxos que os tratariam com o mesmo respeito. — Diona suspirou. — Eu era jovem, então, acreditei nele e não pensei no futuro, em seus descendentes.

— As coisas mudaram quando Mylor morreu. — Entendeu Remus.

— Sim, seu filho e neto eram ambiciosos e a prioridade era o lucro, não o conhecimento ou os cuidados com as criaturas. Eu sabia que teria que interferir caso não mudassem e, como aviso, matei o filho de Mylor, Kaynan e esperava que o neto, Sylas, entendesse e voltasse para o caminho do avô, mas, ao em vez...

— Ele a escravizou. — Disse Harry com amargura.

— Sim, ele me convocou, pedindo minha ajuda, mas junto ao ritual havia uma maldição... Magia negra, magia de sangue que me prendia ao sangue da Família O'Hallahan. — Seus olhos brilharam de raiva. — Apenas tinha revelado a minha forma de dragão com a intenção de lhes provocar medo, assim, ele acreditava que eu era um dragão das águas ao seu comando. Nenhum deles sabia que, na verdade, eu era um Espírito Protetor e podia tomar outras formas.

— E o que o impediu de lhe utilizar para realizar coisas terríveis? — Remus perguntou.

— Primeiro, porque a sua convocação foi de proteção e isso me obrigava a apenas proteger a linha O'Hallahan e seus tesouros, o que incluía os animais, claro. — Explicou ela com um sorriso sutil. — Além disso, minha criação e poder tem como principal objetivo proteger as criaturas mágicas e isso nunca poderia ficar em segundo plano, não importa a magia negra que ele utilizasse. Por fim, Mylor, para provar sua boa intenção, jurou um juramento mágico que ele e sua linha jamais utilizariam o poder das pedras para fazer o mal ou permitiria que seu poder fosse parar nas mãos de alguém que traria prejuízos a algum ser vivo.

— Aposto que Sylas não gostou nada disso. — Harry disse com um sorriso divertido.

— Oh, não. — Diona riu e foi como se sinos reverberassem pela caverna. — Ele me ordenou que matasse o seu rival e ficou furioso quando eu não lhe obedeci. — Todos riram divertidos. — Ainda fui obrigada a protegê-lo, seus descendentes e tesouros por séculos. Com o tempo, a história foi contada e recontada aos descendentes e me tornei o dragão que pertencia aos O'Hallahans para proteger suas pedras.

Diona gesticulou para a imensa quantidade de Hecatitas e outros tesouros presentes.

— Até minha avó. — Disse Harry pensativo.

— Mia. — Diona tinha um sorriso afetuoso. — Eu a conheci quando era uma criança, mais jovem que você, jovem mestre. Ela vinha me visitar e contava da sua ansiedade para ir a Hogwarts e seu desejo que aprender magia. Mia descobriu que eu era um Espírito Protetor e manteve segredo, costumava me dizer que se tornaria uma grande bruxa e me libertaria. — Seus olhos brilharam de emoção. — Então, um dia, ela entrou aqui e disse que eu estava livre, era a nova senhora de Hallanon, um presente de seu amado marido. Temíamos que, apesar de ser a dona da fazenda, Mia não conseguisse me libertar, afinal, ela não era a herdeira masculina da linha, mas sua avó insistiu em tentar.

— Eu tinha certeza, quando percebi que minha avó era a dona de Hallanon por todo esse tempo, não tinha dúvida que ela a libertaria se pudesse. — Disse Harry sorrindo com orgulho.

— Sua avó foi minha única amiga, a vida aqui poderia ser bem solitária, apenas deixava a caverna para me alimentar ou proteger os animais. — Diona sorriu com saudades. — Quando Mia descobriu o que eu era de verdade, revelei minha forma humana, assim podíamos conversar, ao contrário de você, jovem mestre, Mia não falava a língua antiga.

— Por favor, me chame de Harry, não sou seu mestre. — Disse Harry, aliviado por essa verdade. — A senhora ficou, mesmo depois que minha avó faleceu?

— Sim, me entristeceu o dia em que senti a partida de Mia para o Reino dos Mortos, minha única e querida amiga, mas os animais precisavam de mim e essa caverna era o meu lar. Assim, fiquei e esperei que o jovem James viesse, mas, ouvi os trabalhadores falando sobre uma guerra terrível e, em seguida, ele partiu também. — Diona estava triste.

— A senhora conheceu meu pai? —Harry sussurrou assombrado.

— Sim, ele sempre vinha com a mãe, um menino muito doce e brincalhão, tinha um espírito bondoso e alegre como o de Mia. Depois que terminou a escola, o vi apenas duas vezes antes de sua partida. — Contou ela e olhou para Harry. — Agora você é o novo senhor de Hallanon e espero que devolva os animais ao seu lar.

— Essa é a nossa intenção, a senhora sabe se eles estão bem? — Harry perguntou ansioso e trocou um olhar com Trissie.

— Sim, eu os acompanhei até a Reserva distante, fica em um lugar chamado África e eles estão protegidos e cuidados, mas sentem falta de casa. — Explicou Diona e Harry assentiu.

— Os trarei todos de volta, Diona, todos que quiserem retornar, claro. Nunca quis que a fazenda se fechasse, mas, não tinha como fazer nada naquele momento. — Harry disse com sinceridade e recebeu um sorriso.

— Você ficará aqui, em Hallanon, quando os animais voltarem? — Trissie perguntou ansiosa.

— Sim, se o senhor de Hallanon me permitir. — Diona olhou para Harry timidamente.

— Claro! Diona, esse é o seu lar e pode ficar aqui para sempre. Isso me deixaria muito feliz e, se precisar de qualquer coisa, se não estiver confortável, basta dizer. — Disse ele rapidamente.

Diona riu e parecia feliz.

— Obrigada. Tenho tudo o que preciso aqui nesta caverna e, talvez, possa ter alguns amigos outra vez. Mia me ensinou a ser uma boa amiga. — Disse ela sorridente.

— Eu ficaria muito feliz. — Harry respondeu e todos acenaram.

— Seria uma honra. — Trissie disse emocionada e Harry pode ver o seu anseio por viver em Hallanon aumentar.

— Bem, a senhora sabe a história por traz dessas pedras preciosas? Quer dizer, pensei que haviam apenas Hecatitas no Monte Ken? — Harry olhou para os inúmeros baús de onde transbordavam pedras e mais pedras de cores diferentes.

— Sua avó era uma mulher muito inteligente, Harry. — Diona sorriu com carinho. — Mia sugeriu primeiro ao avô, depois ao pai e, finalmente, ao irmão que fizessem uma segunda mina na montanha da Reserva e que explorassem o Monte Ken para outras pedras além das purpuras. Sua avó tinha certeza que encontrariam outros quartzos, talvez cristais, pedras coloridas preciosas, pois acreditava que essa terra era muito rica.

— Ela estava certa. — Harry olhou para o tesouro assombrado.

— Sim. Quando ela assumiu Hallanon, imediatamente passou a cuidar dos animais com mais carinho e atenção. E, com o apoio do Sr. Fleamont, pediu aos funcionários da mina que investigassem a possibilidade de ter outras pedras coloridas e preciosas nas montanhas. — Diona apontou para os cristais e pedras de quartzos azuis e vermelhas. — Os cristais e quartzos azuis e vermelhos estão profundamente no Monte Ken. Mia explicou que eles parecem sofrer uma fusão mágica e, então, se tornam as pedras purpuras que falam. Mas, na Reserva, os mineiros encontraram uma mina de pedras coloridas que sua avó disse serem muito preciosas. Mia passou muito tempo aqui na caverna, estudando as pedras e lapidando-as, sentia um grande prazer com esse trabalho, até que ficou grávida do jovem James e passou a se dedicar apenas a ele.

— Então, quem lapidou todas essas outras pedras? — Perguntou Harry curioso ao erguer um grande jade em sua mão.

— Eu, jovem Harry, sua avó me ensinou e, assim, realizei a lapidação das pedras coloridas sob sua supervisão. — Diona apontou para os baús. — Eram muitas e, a cada ano, o número de baús aumentava, mas, então, a mina foi desativada e não haviam mais pedras.

— O que não entendo é como as pedras eram enviadas para cá das montanhas ou como as Hecatitas transformadas eram utilizadas e depois voltavam para a caverna e de volta para a Reserva todos os dias. Tudo isso sem que ninguém soubesse desse lugar ou da sua existência. — Harry expressou sua confusão.

— Bem, o administrador sabia da minha existência e acredito que ele poderia lhe dar algumas respostas. Xavier Erwood, se tornou o administrador de Hallanon quando sua avó assumiu a fazenda e Mia lhe confiava completamente, inclusive com a existência desta caverna. — Disse Diona e não percebeu o olhar confuso dos mais jovens. — Ele era o único que sabia sobre mim, o dragão, claro, mas, acredito que Xavier sabia que eu tinha algo diferente, pois me tratava com grande respeito. Xavier é meio elfo, tem uma grande conexão com os animais, com a magia da floresta e da montanha. Sua avó confiava nele para cuidar das criaturas mágicas que tinham na Reserva e também, para gerenciar os funcionários e controlar o uso das pedras, as Hecatitas Especiais, como Mia as chamava. Acredito que também havia um chefe de sua confiança gerenciando as minas e as pedras eram enviadas magicamente para a caverna quando encontradas.

— Espere, Erwood? — Harry olhou confuso e pensativo.

— Como o avô de Zane? — Scheyla arregalou os olhos. — Eles moram em uma cabana na floresta mais ao norte, no Parque Nacional Killarney.

— Oh! — Harry arregalou os olhos ao entender melhor seu colega de time. Escondendo suas origens, não compareceu as reuniões com nascidos trouxas e mestiços, mas também não era puro-sangue porque, na verdade, era meio... quer dizer, um quarto elfo. — Sr. Falc, Sirius, ele poderia voltar a administrar a fazenda ou auxiliar alguém a administrar. — Disse ele olhando de soslaio para Trissie. — Aposto que o Sr. Erwood sabe tudo sobre Hallanon e por onde começamos a reativar as minas, trazer os animais de volta.

— Bem, podemos procurá-lo depois do ano novo e descobrir se ele tem interesse em voltar, Harry. — Falc concordou.

— Estamos com mais informações do que antes, mas, no mapa da propriedade não tinha a localização da mina na Reserva e, quando voamos pela área onde os animais ficavam, não vimos nada. — Sirius disse e depois suspirou. — Teremos que investigar mais os documentos e livros lá do escritório, Falc.

— Talvez o escritório de Mia contenha algumas informações extras. — Sugeriu Diona com um sorriso doce.

— Minha avó tinha um escritório? — Harry perguntou surpreso.

— Sim. Mia sempre me dizia que era impossível trabalhar com o quadro do irmão no escritório lá em cima, além disso, ela gostava mais da minha companhia e a vista para a lagoa. — Diona caminhou alguns passos até uma parede de pedra sem prateleiras e tocou-a com a mão aberta. — Apenas eu, um O'Hallahan ou Potter pode abrir. — Enquanto ela falava, a parede desapareceu, com as pedras suavemente recuando até que uma sala incrustrada na caverna apareceu.

A sala era pequena e tinha uma mesa de madeira de carvalho branco, a cadeira verde Slytherin ficava bem de frente para o lago. Havia também armários e uma estante com livros e um quadro com um cavalo-dragão azul celeste com olhos negros.

— Mia me pintou quando estava em minha forma mais conhecida e atrás do quadro está o Grimoire da família. — Informou Diona. — Ela achava irônico que uma imagem minha escondia um dos maiores tesouros de Hallanon.

Harry olhou para o espaço que era bem feminino e claro, apesar de estar em uma caverna. A luz azul que refletia da lagoa iluminava e tornava a sala ainda mais bonita e etérea. Ele entendia porque sua avó gostava tanto... Fotos! Novas fotos que nunca tinha visto! Se aproximando da mesa, sentiu seus olhos se encherem de lágrimas ao vê-los todos juntos nas fotos. Havia uma do seu pai quando criança e outra dele adolescente, abraçando sua avó Euphemia. Uma do casamento dos seus pais, onde pareciam muito apaixonados e felizes. E, uma da sua avó ao lado de Diona, era possível ver a amizade e afeto que sentiam uma pela outra. A última era de todos eles, seus avós e seus pais, ali mesmo na caverna, acenando e sorrindo, tão felizes que lhe tirou o fôlego de amor e saudades.

— Eles parecem tão felizes... — Sussurrou engasgado.

— Oh sim, eles estavam. — Diona olhou para a foto com carinho. — Seus pais lhes contaram que estavam te esperando, Mia e Sr. Fleamont estavam nas nuvens ao saber que seriam avós. Eles todos vieram me visitar e contaram as novidades, Lily brilhava mais que a lagoa.

— Eu não sabia que eles ainda estavam vivos quando minha mãe engravidou de mim ou que a senhora a conhecia também. — Disse Harry surpreso.

— Sua mãe estava de 5 meses quando eles faleceram, Harry. — Sirius disse suavemente. — Você e sua mãe ajudaram seu pai a enfrentar a morte deles, que aconteceu tão abruptamente.

— Eu conheci a jovem Lily depois do casamento, pois sua avó jamais permitiu que James contasse sobre a minha existência para alguém que não fosse um Potter ou um O'Hallahan. — Diona olhou levemente preocupada em volta. — Ela temia que eu pudesse ser ferida ou escravizada outra vez.

— Bem, isso explica porque James nunca nos contou que tinha amizade com um dragão. — Disse Sirius divertido ao olhar para o Remus, que assentiu.

— James era muito cuidadoso com questões de família, segredos e magias, era o seu jeito protetor. Diona, você não deve temer nenhum de nós, todos somos amigos e jamais a colocaríamos em perigo. — Remus disse gentilmente. — Se quiser, podemos fazer um juramento.

— Não é necessário, se o jovem Harry os chama de família e confia em todos, eu também confio. — Disse Diona sorrindo com sinceridade.

— Eu e minha família vivemos em Hallanon II, Diona. — Trissie disse apertando os ombros de Scheyla. — Sempre que quiser nos visitar é muito bem-vinda e, sempre que pudermos, a visitaremos também. Não queremos que se sinta solitária nunca mais.

— Sim! — Scheyla concordou animada.

— Nós visitaremos também, Diona, principalmente quando os animais voltarem e a fazenda for reativada. — Serafina disse e Falc concordou.

— Nós viremos sempre que o Harry nos convidar, mas, podemos ser amigas de cartas se quiser. — Disse Hermione ansiosa.

— Eu... estou emocionada. — Diona parecia assim, seus olhos negros brilhavam com lágrimas. — Obrigada por me acolherem e por suas amizades.

— Diona, quero que Hallanon seja para sempre o seu lar, assim, no futuro, cuidarei para que nenhum dos meus descendentes possa ferir, aprisionar ou expulsar você daqui. — Harry disse em tom de promessa.

— Nada me faria mais feliz, neto de Mia. — Sua voz se embargou e Diona curvou a cabeça em agradecimento.

Enquanto Sirius, Falc e Trissie exploravam os documentos, mapas, livros de contabilidade e diários de sua avó, Scheyla, Hermione e Neville faziam perguntas a Diona, Harry abriu o quadro e encontrou o verdadeiro Grimoire da família O'Hallahan repousando no nicho de pedra.

— Você pretende levá-lo? — Remus perguntou e Harry acenou pegando o livro.

— Sim. Tenho pouco tempo para aprender o que preciso, assim, ele vem comigo. — Disse Harry que tinha uma mochila mágica própria para colocá-lo bem protegido.

— O que quer dizer com aprender o que você precisa? — Remus perguntou preocupado.

— Voldemort está vivo, Remus, lutei com ele a seis meses e sobrevivi. — Harry o viu empalidecer. — Ele retornará, cedo ou tarde, e preciso estar preparado para matá-lo.

— Harry..., mas, você... Não é o seu trabalho... — Ele parecia sem palavras e Harry sorriu ao apertar seu braço.

— Sei que não estou sozinho, Remus, por isso entendo a emoção de Diona, é maravilhoso saber que tenho amigos e família. Sou verdadeiramente abençoado, mas, destruir Voldemort de uma vez, é meu trabalho. — Sua afirmação foi mais dura do que deveria, mas a verdade era assim, dura de se ouvir.

Harry, Neville e Hermione passaram um tempo selecionando as pedras, eles não as tocaram, para levarem para Hogwarts.

— Como vamos pesquisá-las se não a pudermos tocar? — Hermione parecia frustrada.

— Não se preocupem, vamos descobrir como tirar os encantos para ladrões, mas precisamos ser cuidadosos. Eu confio nos gêmeos, mas, eles precisam entender que as pedras são para as pesquisas da MagiTec e não para seus projetos pessoais. — Harry disse sabendo que não podia correr o risco de algo tão poderoso cair nas mãos erradas.

— No que está pensando? — Neville entendia bem o perigo de uma pedra que poderia emitir um som que atrairia animais que poderiam ser caçados, controlados ou mortos.

— Acredito que o ideal é pedir que vocês dois, mais Fred e George assinem um contrato que garanta o segredo, a utilização da pedra para objetivos específicos e que não passem a informação para terceiros. — Harry disse pensativo.

— Eu concordo, não quero que ninguém tenha acesso a algo tão perigoso para as criaturas magicas por minha causa, mesmo que sem querer. — Disse Neville e Hermione acenou concordando. — O problema é que se vamos utilizar uma ferramenta exclusiva, não poderemos melhorar a produção dos alimentos e plantas em todo o mundo como pensamos, Harry, porque a pedra só poderá ser utilizada em suas fazendas.

— Mas o Harry pode patentear os feitiços e runas, a Hecatita Especial e arrendar o seu uso para produtores de todo o mundo. — Sugeriu Hermione e Harry acenou.

— Isso é uma boa ideia, arrendar é melhor do que vender, pois fica claro que as pedras me pertencem, assim como os feitiços e runas. E, estipulo no contrato mágico que eles não podem tentar copiar, alterar ou usar a Hecatita Especial para outros fins. — Disse ele empolgado.

Depois de um fim de tarde excitante, todos estavam exaustos, mas ainda queriam conhecer e jantar em Kenmare. Eles se despediram de Diona, que entrou na lagoa azulada e se transformou em um lindo cavalo-dragão azul, seus olhos negros nebulosos eram meios assustadores, mas, quando ela mergulhou, espirrou água neles e seu riso divertido reverberou pela caverna como sinos.

Trissie e Scheyla voltaram a se despedir e Harry pode falar rapidamente com a tia antes de partirem.

— Espero que decida vir, tia Trissie, a cada momento me parece mais errado essa casa estar vazia ou habitada por alguém que não seja um O'Hallahan.

— Sim, sinto o mesmo, mas... — Ela parou pensativa e olhou para o quadro do avô. — Essa sociedade, quanto está pensando exatamente.

— O que for justo, não farei caridade ou serei mesquinho. — Disse Harry com firmeza e viu seus olhos brilharem de aprovação. — Falc pode conseguir os valores e fará isso com honestidade, a senhora pode contratar seu próprio advogado se quiser uma segunda avaliação.

— Ok, conversarei com Rodrigo o mais rápido possível e lhe enviarei uma resposta em... 2 semanas? — Trissie disse e Harry pode ver como estava ansiosamente empolgada.

— Isso é perfeito, mas, se precisar de mais tempo, tudo bem também. Além disso, conversar com o Sr. Erwood me parece uma boa ideia. — Disse ele e Trissie assentiu. — E, quero que faça uma coisa por mim quando se mudar.

— O que? — Trissie perguntou surpresa.

— Quero que esteja presente e conte com muita satisfação ao tio Patrick que tem um trouxa vivendo em sua preciosa casa e depois me envie a memória. — Harry sussurrou e sorriu com malícia.

Trissie sorriu suavemente e olhou para o seu avô com um brilho de diversão.

— Este será um grande momento, não tenha dúvida.

Elas partiram e, logo depois, com o retorno de Ayana e Adam, eles foram de carro para Kenmare. A viagem na estrada escorregadia durou quase duas horas, mas, valeu a pena. A cidade era linda e ainda estava toda iluminada com as luzes de Natal. A praça tinha uma grande e iluminada árvore de Natal e depois que o Sr. Falc devolveu o carro para a locadora, eles foram a um restaurante de comida típica irlandesa para o jantar.

Harry escolheu um ensopado de carne, batata, cebola e cenouras, chamado Irish Stew que o esquentou afastando o frio do inverno. Sua mesa estava estranhamente silenciosa, com exceção das crianças e Harry entendeu o motivo. A verdade é que era muito estranho, depois de passarem um tempo em uma caverna com um ser mágico, poderoso, bondoso e que podia se transformar em um dragão, estarem aqui, horas depois, cercados por trouxas e agindo normalmente. Parecia que a distância entre os mundos se ampliara, como se estivessem em dimensões diferentes e fosse mais difícil do que era normalmente se reajustarem ao mundo trouxa. Eles se entreolharam, com olhos brilhantes, compartilhando um segredo que não deveria ser contado, mencionado, discutido. E, de certa forma, isso os aproximavam e os tornavam especiais, pois não eram apenas guardiões de um segredo, eles eram os protetores de Diona.

— Sei que é difícil não falarmos de algo tão incrível e especial. — Disse Sirius suavemente. — Mas, um segredo tão importante, não deve ser discutido nem mesmo entre nós, pois o risco é grande demais.

Todos acenaram e prometeram internamente que não fariam nada que colocasse Diona em risco.

Na manhã seguinte, Harry, com a ajuda de Sirius, Serafina e Remus, conseguiu mudar o encanto da porta para permitir que seus guardiões e Trissie entrassem na caverna, assim poderiam visitar Diona sempre que possível. Adam e Ayana foram explicados sobre o segredo e conheceram o dragão azul que se transformou em Diona para conversar com eles.

— Olá, pequenos, sou Diona, como se chamam? — Perguntou ela com os olhos brilhantes de alegria por fazer mais amigos.

— Adam, senhora Diona. — Ele respondeu de olhos arregalados.

— Sou Ayana. — Disse ela estendendo a mão em cumprimento, foi a primeira a tocá-la até agora e não parecia ter qualquer medo.

— Bem, me contem sobre vocês, pequenos. — Disse ela sorridente e se sentaram em cadeiras conjuradas por Serafina.

Harry também conseguiu tirar os encantamentos das pedras que estava levando com ele para Hogwarts, assim, Hermione e Neville conseguiram tocá-las. O mais complicado foi decidir o que fazer com as pedras preciosas nos baús, pois parecia errado deixá-las ali, Harry não queria pedir a Diona que continuasse a proteger os tesouros.

— O que está pensando, Harry? — Falc perguntou curioso.

— Bem, eu vejo duas soluções, ou fazemos um cofre seguro na caverna ou enviamos tudo para Gringotes. — Ele disse pensativo. — A caverna é o lar de Diona e, se continuarmos a utilizá-la para guardar as pedras, ela sempre se sentirá na obrigação de protegê-los e essa não é sua função. Nunca deveria ter sido, aliás.

— Bem, as Hecatitas, me parece podem ser vendidas... — Sirius começou a falar, mas Harry sinalizou negativamente. — O que?

— Não quero vendê-las e sim alugá-las. — Disse Harry satisfeito. — Vamos usar as magias e runas inventadas por Mylor, aliás, temos que patentear imediatamente e não apenas aqui no Reino Unido, mas no mundo todo. Neville e eu provaremos que, com música ecoando das Hecatitas Especiais, as plantas e alimentos crescem mais rápido e fortes. Arrendaremos as pedras para fazendeiros do mundo todo e baratearemos os alimentos, talvez, um dia possamos até vender para o mercado trouxa. — Harry viu seus rostos espantados. — Conversaremos sobre isso no futuro, mas, por enquanto, deixe as Hecatitas onde estão. Elas têm encantamentos que a impedem de serem retiradas de Hallanon e Diona não precisa protegê-las, ainda que sei que não se importará de se manter atenta. No entanto, as outras pedras preciosas não estão encantadas e o que impede que sejam roubadas é a dificuldade de entrar na caverna e Diona.

— Talvez a solução seja vendê-las. — Serafina sugeriu. — Podemos vendê-las para os goblins que as usarão em armaduras, espadas, adagas, ou revenderão para quem a utiliza, como a Ferraria Longbottom. Eles compram pedras preciosas dos goblins, assim como as joalherias do mundo mágico.

— Claro. — Harry acenou. — A Artem Pretiosum e outras lojas do Beco podem comprar nossos estoques, a Ferraria do Neville também. Vender para os goblins, para eles revenderem a essas pessoas por uma fortuna, não me interessa. O que faremos é vender diretamente a eles por um preço justo.

— Isso nos colocaria como concorrentes dos Goblins e eles não gostarão disso. — Falc disse com um sorriso.

— Bom, se eles estão praticando preços abusivos, os faremos ser justos ou perderem seus clientes. — Harry disse com firmeza. — Abriremos uma casa de vendas de pedras preciosas, temos algum imóvel pequeno que podemos utilizar no Beco?

— Sim, claro. — Falc olhou pensativo para os baús. — Bem, precisamos olhar os livros da Sra. Euphemia com atenção, saber quanto foi custo para a mineração, já sabemos que a lapidação não trouxe despesas extras. Depois disso, estabelecemos o preço das pedras, de acordo com seus valores individuais no mercado, pois algumas serão mais valiosas que outras. — Falc olhou em volta da caverna. — O ideal é não termos todas essas pedras na loja, muito perigoso, mas, poderemos ter catálogos e caixas mágicas de pedido. Montamos um lugar aqui, para analise, separação e lapidação das pedras e o vendedor na loja apenas mostra nosso mostruário e solicita o pedido do cliente que é enviado por uma caixa mágica.

— Assim como a senhora Serafina me envia os sanduíches. — Harry acenou entendendo. — Mas não podemos fazer aqui na caverna, é o lar da Diona e não quero que seja invadido. A mina está na Reserva, muito perto de onde estarão os animais e também não quero incomodá-los, assim, devemos construir em alguma área da fazenda, acredito que longe da Mansão e do estábulo dos cavalos também.

— Parece o ideal, mas, Diona pode querer continuar a lapidar as pedras, Harry, parece ser algo que ela fez com muito talento. E, deveríamos considerar lhe dar algum tipo de pagamento por todas essas pedras lapidadas. Talvez? — Serafina considerou e Harry olhou para o Espirito Protetor que ria de algo dito por Adam, eles pareciam encantados um com o outro.

— Ok, se ela quiser continuar a fazer esse trabalho, podemos lhe oferecer, ainda que se a intenção é mantê-la em segredo, isso se perderá se estiver no meio dos outros funcionários. — Disse Harry pensativo e suspirou. — Sobre pagamento, me parece que galeões não tem nenhum significado em sua vida. Sinceramente, não sei o que fazer.

— Olha, não precisamos decidir ou fazer nada agora, devemos ir devagar e nos concentrar no que sabemos. — Falc disse tentando ser objetivo. — Esperamos uma resposta de Trissie, encontramos mais informações com o Sr. Erwood, protegemos Diona e respeitamos seus desejos. Depois que passarmos por isso, vem a fase de organizar tudo o necessário para a reabertura das minas e a volta dos animais.

— Acredito que o melhor seria esperar a reativação de Hallanon antes da abertura da loja de pedras preciosas no Beco. — Considerou Serafina. — Ou poderemos vender o estoque antes de ter mais disponível para os clientes. Ainda que não tenhamos ideia da quantidade de pedras que estão armazenadas nos baús.

— Porque estão armazenadas? Quer dizer, meus avós poderiam ter vendido tudo a muitos anos. — Harry olhou para as dezenas de baús onde transbordavam pedras preciosas.

— Porque é um tesouro, Harry, muitos trocam galeões por pedras preciosas e assim mantêm suas fortunas mais seguras e longe dos goblins. — Remus considerou. — Galeões podem se desvalorizar, mas, pedras preciosas, mesmo daqui a mil anos valerão uma fortuna ou duas.

— Mas isso é dinheiro parado e se acumulando, como disse Sr. Chester. — Harry olhou para as pedras coloridas sem interesse. — Não preciso desses baús juntando poeira e ocupando espaço, precisamos utilizar essa riqueza para trazer mais benefícios a todos. Melhorar Hallanon, cuidar melhor e de mais criaturas mágicas, gerar mais empregos e assim por diante.

— Isso é muito sábio, jovem Harry. — Diona disse se aproximando em seu andar flutuante. — Quero ajudar no que precisar em seu desejo de realizar grandes feitos.

— Obrigado, Diona. — Harry sorriu suavemente. — Quero lhe dizer que desocuparei a sua casa, assim, não precisará mais proteger pedras.

— Oh! — Ela olhou em volta um pouco confusa — Isso quer dizer que não me visitarão mais?

— Não, pelo contrário, a visitaremos sempre, mas por você e não por qualquer outro motivo e... — Harry hesitou. — Bem, as minas e a fazenda se reabrirão, assim, se quiser trabalhar em Hallanon, será bem-vinda.

— Trabalhar? Hum..., mas meu trabalho é proteger as criaturas e vigiar o uso das pedras purpuras, foi por isso que fui criada. — Disse ela suavemente.

— Sim, mas, você pode passar o seu tempo, não o tempo todo, ajudando com os animais ou lapidando as pedras, o que quiser. Assim, não precisará ficar presa aqui o tempo todo, pode andar pela fazenda, fazer amizades e conversar. — Disse Harry e Diona se mostrou pensativa. — A não ser que ser a Protetora lhe tome muito tempo ou que você seja proibida de conviver com os bruxos.

— Não sou proibida, ainda que seja algo incomum para os Espíritos Protetores porque, normalmente, não estamos presos em um só lugar. — Diona caminhou pensativa. — Em meu primeiro século de vida, eu vigiava os animais de Hallanon e a utilização da Hecatita Especial. Quando estava tudo bem, nadava pelo mar e o tempo passava, era vazio e solitário, mas eu não sabia disso, porque não conhecia diferente. Então, prisioneira dos O'Hallahans, apenas podia nadar para caçar e voltava para a caverna, de onde não podia sair. Por séculos, senti falta da liberdade de antes, de poder nadar pelos mares do mundo, senti falta de ser livre. Depois, Mia me libertou e descobri que sua amizade era mais importante do que estar livre para ir onde quisesse e, quando a perdi, eu estava de volta ao começo. Eu era livre para nadar e ir para o mundo todo, mas, desta vez, entendi como essa vida era vazia e solitária. Agora, estou diante de novas possibilidades, uma vida diferente, mas, não sei o que quero, apenas sei que não quero mais ser solitária.

Todos ficaram em silêncio absorvendo suas palavras e Remus deu um passo à frente.

— Se você não quer ter uma vida vazia e solitária, deixar a caverna e ajudar com a fazenda é um bom começo. O trabalho nos torna mais, mais fortes, úteis, felizes, possíveis. — Ele disse em seu tom gentil. — E, isso lhe dará um sentindo, além da possibilidade de novas relações, mas, você não precisa mudar e deixar de ser Diona, A Protetora, apenas poderá ser mais.

— Oh! Acredito que... — Sua expressão era de profunda reflexão. — Eu quero ser mais. — Disse ela suavemente e depois sorriu para o Harry com os olhos brilhando. — Se você me deixar, adoraria aprender a cuidar dos animais, além de protegê-los, claro.

— Claro. — Harry sorriu animado. — O que quiser e pode mudar a caverna como quiser, para que fique do seu gosto.

— Obrigada, mas, minha casa é perfeita. — Disse ela sorridente.

Harry considerou que, talvez, fosse perfeita porque Diona não conhecia um jeito diferente.

Depois de fazer uma cópia das fotos e diários de sua avó, se despedir de Diona e pegar suas malas, o grupo se reuniu em volta da chave do portal e, em segundos, chegaram a St. Albans onde encontraram Terry sentado no sofá da sala de estar, lendo um livro enquanto os esperava.

— Finalmente. — Disse ele se levantando e ajudando os irmãos a se erguerem do chão. — Cheguei da Abadia a horas porque disseram que voltariam bem cedo e já está mais perto da hora do almoço. Então, como foi? Se divertiram? Viram algo interessante?

O grupo o encarou por alguns segundos antes de caírem na gargalhada. Demorou um bom tempo para conseguirem parar de rir e contar a ele sobre a incrível aventura que viveram em Hallanon.

O dia de Harry estava atrasado, por umas duas horas, mas isso não o preocupou e depois de deixar suas malas e se despedir de Neville e Hermione que voltaram para suas casas, ele partiu para a Mansão Potter com Sirius. Harry convidou Remus, mas o lobisomem declinou, queria voltar ao trabalho, além disso...

— Acredito que você precisa conhecer o seu lar sem um monte de testemunhas, Harry. — Ele disse antes de lhe dar um abraço e aparatar.

Essas eram as mesmas palavras de Neville e Harry achou melhor não insistir. Terry decidiu não vir também e passar um tempo com os irmãos e pais, pois sentira suas faltas.

— Foi muito bom estar com a vovó. Dragões a parte, não me arrependo de ficar, mas, percebo que logo estaremos voltando e mal estive com eles. — Disse Terry. — Você as vezes tem a sensação que o tempo está se escoando sem que possamos detê-lo, Harry?

Harry olhou para o amigo tentando entender o que o atormentava ultimamente, mas não encontrou resposta.

— Não exatamente. — Respondeu, pois para ele, nunca houve tempo algum para se agarrar. — Sua avó passou o fim de semana lúcida?

— Sim, apenas hoje de manhã ela se agitou, me tratou como se eu fosse meu pai e procurou por tia Carole. — Terry deu de ombros. — Pelo menos eu já estava de saída e aproveitei o fim de semana todo.

— Acredito que isso é importante, não é? Aproveitar o momento e tentar ser feliz, pois tudo pode mudar rapidamente. — Harry pensou em Diona. — Depois olhamos para traz e percebemos que tínhamos coisas boas e ruins, mas não soubemos viver da melhor forma possível.

— E, isso é suficiente? — Terry perguntou ansioso. — Viver da melhor forma possível, é o suficiente? E, se decepcionarmos as pessoas?

— Eu... acho que tem que ser. — Harry pensou em seus pais e avós, nunca queria decepcioná-los, mas, isso valia a sua felicidade? Não tinha uma resposta. — Não sei, Terry, quando eu souber a resposta, te aviso.

Sirius os aparatou na pequena cidade de Chepstow, era a mais próxima da Floresta Stone Waterfall e ficava no lado de Gales da fronteira. Enquanto Godric's Hollow ficava mais ao Norte, perto de Hereford, a Mansão Potter ficava mais a sudoeste, perto do Rio Wye que desembocava no Tio Sevem antes de chegar ao Atlântico. Eles caminharam pela cidade pequena, que tinha muitas igrejas e castelos antigos, pequenos chalés e florestas por todos lados. O inverno e o número pequeno de habitantes tornavam a cidade vazia e silenciosa, como uma vila antiga medieval. Harry achou muito bonita e que lembrava Godric's, mas, sem a aura de tristeza e terror que sempre sentia quando estava naquela cidade.

— Tem bruxos aqui também? — Harry perguntou enquanto se afastavam cada vez mais das casas em direção a leste.

— Sim com certeza, mas são discretos, claro, ou vivem em chalés e casas de campo fora da cidade. — Disse Sirius suavemente e apontou para a grande ponte a frente. — Quando atravessarmos a ponte, estaremos na Inglaterra, o rio marca a fronteira. Caminharemos mais pouco antes de entrarmos na sua propriedade e, se quiser, quando estivermos sob as alas, aparataremos direto para a casa.

— Ok. — Harry olhou pensativo para a floresta e neve branca que os cercava. — Porque não aparatamos direto na Mansão?

— Alas antigas e muito poderosas, não sabemos como foram configuradas depois da morte de James. — Respondeu Sirius com expressão sombria. — Escrevi a Dumbledore e ele me disse que, mesmo como seu tutor mágico, não conseguiu acesso a Mansão.

— Uau! — Harry ficou impressionado.

— Sim. A Mansão Black é o mesmo, a magia sente que o herdeiro e senhor não está disponível e sela a casa. — Sirius e Harry atravessaram a imensa e alta ponte, lá embaixo o Rio Wye se movia suavemente. — Se quiser, podemos tornar as alas mais flexíveis, mas, não vejo necessidade, nenhum de nós visitaremos a Mansão sem você até o verão.

— Ok. — Harry hesitou. — Se as alas são tão poderosas, porque meus pais não ficaram lá, você sabe, para se esconder de Voldemort.

— Acredito que só eles poderiam responder completamente, mas, posso adivinhar que houveram diversas razões. — Sirius o olhou de soslaio e seus olhos cinzas estavam tristes. — A casa deles era o Chalé Iolanthe e não deveriam se mudar para a Mansão até a morte dos seus avós e quando isso aconteceu tão abruptamente... James mal conseguia pensar em viver lá. Então, Voldemort os estava perseguindo e ficar em uma casa segura era o mais inteligente, a Mansão Potter foi palco de inúmeras festas e bailes, do casamento dos seus pais e sua localização não era segredo.

— E, Voldemort poderia destruir as alas. — Harry acenou entendendo.

— Sim, ele era poderoso o suficiente, poderia levar dias, mas Voldemort acabaria por passar pelas alas. — Sirius suspirou e parou no meio da ponte olhando a linda paisagem. — Esse era um temor de James, que ele atacasse e destruísse a casa de seus pais ou qualquer propriedade de sua família, assim eles nunca se esconderam em Hallanon ou qualquer fazenda, pois isso também colocaria os trabalhadores em perigo.

— Então, eles se esconderam em casas estranhas em lugares desconhecidos. — Harry disse pensativo.

— Sim, mas, sempre recebíamos a informação de que Voldemort descobriu a localização da casa segura. — Sirius voltou a andar e sua voz expressou sua raiva. — Hoje, sabemos que era culpa de Rabicho e que Snape era o espião que nos avisava do vazamento da informação.

— Então, a ideia do Fidelis surgiu. — Disse Harry quando chegaram ao fim da ponte e viu seu padrinho empalidecer.

— Sim, foi ideia de Dumbledore, ele se ofereceu para ser o fiel do segredo, mas... seus pais recusaram e me escolheram... — Seus olhos pareciam assombrado e sua pele acinzentada. — Um erro tão tolo, se tivesse aceitado...

— Não há como saber o que teria acontecido. — Harry disse com firmeza. — Podemos só especular e isso não nos leva a lugar nenhum, Sirius, vocês fizeram o que acreditaram ser o melhor e, às vezes, não tem como fazer mais isso... hum, suponho que isso meio que responde ao Terry. — Ao ver sua expressão confusa acenou. — Nada.

— Você talvez esteja certo, mas isso não muda o fato de que foi um erro, Harry, que custou caro demais a todos nós. — Sirius disse sombrio.

Harry apenas acenou porque não podia discordar disso.

— Queria te perguntar se meus avós tinham quadros também? — Harry perguntou timidamente.

— Oh..., não, Harry, eles não tinham. — Sirius viu seu desapontamento e apertou seu ombro com carinho. — Sinto muito. Se houvessem quadros deles, nada impediria o James de viver na Mansão, era a completa ausência que o entristecia profundamente.

— Eles não quiseram ter um? — Harry perguntou tentando engolir a tristeza que pesava em seu peito, tivera tanta esperança.

— Não, acredito que eles queriam e planejavam ter um, mas, seus avós eram jovens, Harry e muito felizes, alegres e cheios de vida. A varíola de dragão os levou rapidamente, dias depois dos primeiros sintomas. — Sirius disse com tristeza.

— Mas... eles estavam em guerra. — Harry estava confuso.

— Sim, mas eles não participavam da luta direta. — Ao ver sua expressão, continuou. — Não por covardia, eles eram muito corajosos e envolvidos em ajudar os nascidos trouxas e trouxas. Dumbledore os convidou para a Ordem da Fênix, mas Fleamont não concordava com seus métodos. Ele era um duelista talentoso e premiado, acreditava que, em uma guerra, os duelos deveriam ser mortais ou seu inimigo viveria para matá-lo em outro dia. — Sirius riu saudoso. —Seu pai e ele discutiram sobre isso depois de Hogwarts, éramos idealistas, acreditávamos em Dumbledore e em seu discurso de segundas chances e bondade. Nos juntamos a Ordem no dia seguinte a nossa graduação e seus avós nos chamaram de tolos por nos prendermos sob o polegar de um filósofo pacifista.

— Uau. — Harry sorriu incrivelmente feliz ao perceber que seus avós também não gostavam de Dumbledore. — Então, eles ajudaram na guerra?

— Sim, principalmente protegendo as casas com alas, fornecendo dinheiro para fugas, mantendo as fazendas produtivas e assegurando alimento, emprego e proteção aos trabalhadores. — Sirius o encarou e sorriu. — Uma guerra não tem apenas o aspecto da batalha, Harry e perder seus avós em um duelo teria sido um despropósito.

Harry acenou entendendo e se sentiu melhor.

— Compreendo.

— De qualquer forma, Fleamont lutou em alguns duelos e venceu, mas, ele não era jovem ou poderoso o suficiente para vencer os comensais da morte mais poderosos ou o próprio Voldemort. Ele não temia apenas Dumbledore sem uma razão, Harry, não havia nenhum outro bruxo que poderia enfrentá-lo. — Sirius parou e Harry sentiu a ala mágica, além de ver o enorme portão de ferro fundido que ele também viu no cofre de sua família em Gringotes. — Então, um dia, sua avó tricotava sapatinhos e casaquinhos de lã para você e fazia planos de lhe comprar um pônei. Fleamont e James planejavam lhe dar uma vassoura na maternidade e discutiam em qual posição jogaria quadribol. Sua mãe apenas cozinhava e comia sem parar, com mudanças de humor assustadoras e eu... — Sua voz se perdeu e seus olhos se encheram de lágrimas. — Estava apavorado e sem saber como ser um padrinho, então... Eles adoeceram em uma sexta-feira à tarde, no sábado pioraram muito e, ao fim do dia, Fleamont estava inconsciente. O curandeiro queria levá-los para o St. Mungus e isolá-los, mas, Euphemia não permitiu e, em um último fôlego de teimosia, insistiu que os dois morreriam aqui. Lily foi enviada para longe, pois a doença seria fatal para você e ela também correria perigo. James não saiu do lado deles por um minuto, no domingo à tarde, sua avó também ficou inconsciente, ela era tão forte e houve momentos em que pensei que conseguiria sobreviver. Fleamont morreu na terça-feira de manhã, mas ela resistiu até a sexta-feira, delirava e parecia saber que seu amor tinha partido. James ficou dividido entre implorar para ela ficar ou deixar que partisse com o marido, pois ele sabia o quanto Euphemia sofreria sem Fleamont. Nunca houve um sem o outro, sabe, eles eram uma dupla e se amavam muito, assim, seu pai apenas disse que a amava, agradeceu, segurou sua mão e esperou... — Sirius fechou os olhos e suspirou. — Eles foram enterrados no domingo de manhã, lado a lado, como James e Lily.

Harry ouviu em silêncio, com lágrimas escorrendo pelo rosto e agradeceu que eles vieram sozinhos. Sentia que esse era um momento que eles tinham que viver juntos e sozinhos, pois seria muito doloroso.

— Vamos entrar, Sirius. — Disse ele e, pegando sua mão, atravessou as alas que pareceram acolhê-lo suavemente.

Se a magia da sua avó era alegre e brincalhona, a de seu avô era gentil e amorosa, o reconheceu e pareceu suspirar de alívio com sua chegada. Harry ainda não vira a Mansão, mas, assim que se conectou com a magia que a cercava, foi como chegar em casa.