NA: Olá, esse capítulo ficou muito grande, assim, apenas uma revisão. Por favor, sejam gentis.

Ainda não consegui ir para Hogwarts, mas falta muito pouco, algumas cenas e reuniões, assim, acredito que ocuparei apenas metade do próximo capítulo com as férias e, depois, na outra metade estaremos na escola. Por favor, sejam pacientes e lhes prometo que as próximas semanas serão incríveis e logo depois do dia de São Valentim, o arco do diário chegará ao fim! Sim, estou lhes dando um cronograma e tudo já está pronto em minha mente! Será incrivelmente dramático e mágico!
Por favor, revisem! Se esqueci de mencionar antes, Feliz Ano Novo!
Até mais, Tania

Capítulo 63

Enquanto o fim de semana de Harry era cheio de aventuras e magias, como ele gostava, Petúnia e Dudley planejavam viver dias tranquilos, mas, infelizmente, seus planos não deram muito certo.

No Boxing Day, Dudley se prontificou a ajudar Petúnia com a "faxina". E, eles começaram logo depois de retornarem dos Boots e descarregarem o carro com suas malas e presentes.

— Quero que comece por seu quarto, separe as roupas que precisam ser lavadas para a lavanderia e, as que não usa ou quer mais, coloque na caixa de doação. — Disse ela animada, o feriado de Natal fora um dos melhores dos últimos anos e Petúnia estava cheia de energia. — Isso serve para quaisquer acessórios, sapatos, tênis, brinquedos, móveis ou objetos de decoração. Aqui, Serafina fez esse para mim em segundos, você coloca a etiqueta vermelha em tudo o que é para doação e não cabe nas caixas. — Petúnia lhe entregou algumas fixas redondas. — Laranja será para aqueles que podemos reaproveitar em outro cômodo da casa e o verde para o que queremos que fique.

— Ok. Se tiver dúvida, posso te chamar? — Duda perguntou preocupado.

— Com certeza. Estarei no meu quarto se precisar de mim. — Disse ela e eles se separaram.

Na hora do almoço, eles tinham terminados seus quartos e começaram a fazer planos para redecorá-los, cores novas nas paredes, alguns móveis novos para substituir os doados.

— Harry realmente concordou que doemos todas essas coisas e redecoremos a casa? — Duda perguntou enquanto se servia de um sanduíche.

— Sim. Eu disse a ele que amava viver aqui, mas que as vezes era doloroso ter tudo igualzinho como era no dia em que meus pais morreram. — Explicou Petúnia. — Eu expliquei que quero apenas mudar algumas coisas, pintura nova nas paredes e novos móveis aqui e ali, para dar a nossa cara, para nos sentirmos mais como nosso lar. Não quero sentir que estou vivendo na casa dos meus pais para sempre, quero sentir que estou vivendo em minha casa. Entende?

Dudley acenou, entendia mais ou menos, mas não queria desmotivá-la. Se ela precisava disso para ser mais feliz, era o que importava.

— Bem, agora vamos nos concentrar no térreo e ir subindo. — Disse Petúnia e eles foram para a sala de estar. — Esse sofá, minha mãe trouxe da nossa casa antiga, assim, deve ter uns 40 anos. Está mais do que na hora de trocarmos por algo mais moderno, assim, colocamos a ficha vermelha. Serafina virá na segunda-feira, concertará tudo o que for necessário e levaremos para a ONG. Depois, poderemos ir às compras!

Ela estava muito animada e Dudley tentou se impedir de fazer uma careta com a ideia de ir comprar sofás e cortinas novas. Eles trabalharam diligentemente do térreo para o primeiro andar, apenas deixaram o sótão para quando Harry retornasse, afinal era o seu quarto.

Alguns móveis, tapetes e cortinas mais antiquados foram selecionados para doação, outros separados para decorar outros cômodos da casa, como o sofá da saleta da Sra. Evans que, depois de reformado, ficaria perfeito no quarto de Petúnia.

— Mas, esses móveis que a senhora quer pintar ou trocar os estofados, bem, quem fará isso? — Dudley perguntou confuso.

— Eu mesma! — Petúnia tinha um grande sorriso. — Eu posso comprar panos novos e com bonitos desenhos, reformar as almofadas, os estofados de algumas cadeiras, poltronas e sofás, desde que não pareçam muito antiquados, claro. E, posso lixar e pintar alguns móveis, a mesa da cozinha, por exemplo, com uma nova pintura e a troca dos estofados das cadeiras, ela parecerá nova! — Dudley parecia descrente e sua mãe riu. — O que? Dúvida? Eu aprendi a costurar com a sua avó, na saleta de costura tem tudo o que preciso, mas terei de comprar panos e material de pintura.

— Parece muito trabalho... — Dudley disse um pouco apavorado que ele tivesse que passar as férias costurando e pintando.

— Oh! Não será tanto assim, Duda, afinal, selecionamos a maioria dos móveis para a doação, todos os guarda-roupas e camas, por exemplo, além dos tapetes, cortinas, praticamente todas as poltronas, cadeiras e sofás. — Ela olhou sua lista. — Creio que em uma ou duas semanas, eu termino tudo e, se você gostou de algum móvel, pode me dizer que reformo para você, querido. Hum... qual a sua cor preferida?

— Preta. Porque?

— Oh, essa não é uma boa opção. Estava pensando em pintar a mesa da cozinha em uma cor bem alegre, adorei a cor da mesa do Chalé Boot, o azul... — Petúnia estava pensativa. — Sempre pensei que uma mesa de jantar deveria ser de mogno, marrom, chata e formal, mas isso é tolice. Não quero nada chato e formal em nossa casa.

— Bem, qual é a sua cor favorita? — Dudley devolveu suavemente.

Sua mãe parou um pouco confusa como se sua preferência não fosse normalmente importante.

— Bem..., eu sempre gostei muito de verde, era a cor dos olhos do meu pai e Lily, mas, quando era criança, amava o amarelo. — Petúnia sorriu com a lembrança. — Era a cor do sol, sabe, iluminava tudo e adorava me vestir de amarelo. Eu tinha um vestido, minha mãe o costurou para mim, ele tinha umas margaridas que ela bordou a mão em toda a barra da saia. Eu queria usá-lo o tempo todo, ela tinha que me obrigar a tirá-lo para lavar.

— Amarelo. — Dudley franziu o cenho, jamais a viu vestida de amarelo ou alguma decoração dessa cor no número 4. — Não sabia que gostava dessa cor, acredito que nunca a vi vestindo ou decorando com a cor amarela.

— Bem, seu pai não gostava, achava brega. — Disse ela examinando a mesa pensativa. — Ele sempre preferiu cores pastéis e sóbrias ou branco para parecer mais limpo e elegante... Quer saber, acho que está certo, filho. Essa mesa vai iluminar a cozinha, vou pintá-la de amarelo!

Enquanto trabalhavam, também faziam a lista de tudo o que precisariam comprar e, aos poucos, Dudley ficou mais interessado, porque as ideias de sua mãe eram bem legais.

— Porque deixamos escritório do vovô para traz? — Ele perguntou quando estava acabando.

— Bem, assim como o quarto do Harry e da Lily, acredito que devemos esperar por seu primo. — Petúnia explicou. — Os móveis e tapetes, as cortinas, não lhe interessarão, mas, acredito que existam coisas especiais dos seus avós que devemos manter e dividir entre nós. Mantas que minha mãe costurou, quadros, livros e outros objetos do meu pai, sei que Harry quererá ter alguns destes objetos como lembrança. Nós dois também devemos olhar e escolher o que queremos manter. Ok?

— Ok. — Duda acenou e, no fim do dia, andou pelo escritório do seu avô e tocou com carinho alguns objetos e livros de Brian Evans.

Aprendera mais sobre ele e sua avó nos últimos meses do que em todos os seus 12 anos de vida, mas sabia que ainda tinha muito o que descobrir e, talvez, pudesse começar por aqui.

No café da manhã, no dia seguinte, Petúnia estava um pouco tensa.

— Decidi entrar com você no Centro Esportivo hoje, Dudley, preciso conversar com seu pai, brevemente. — Disse ela quando já estavam no trem a caminho do Centro.

— O que? Porque? — Dudley mal conseguiu esconder o pânico.

— Porque no divórcio, concordamos que eu poderia ficar com algumas coisas, objetos, móveis, porcelanas que juntamos ao longo do nosso casamento. — Petúnia disse suavemente. — Não quis incomodá-lo no último mês e esfregar a separação em sua cara com a proximidade do Natal, sei que ele ficou abalado com a audiência em outubro e a assinatura dos papéis a algumas semanas. Mas, agora, quero ir buscar algumas das minhas coisas que deixei para traz quando saímos tão apressadamente.

Dudley absorveu sua explicação em silêncio, tentando esconder o alívio que sentia por ela não querer voltar a viver no número 4.

— Isso é realmente importante? A senhora não pode comprar tudo novo? — Ele questionou e sua mãe o olhou confusa. — É que não acredito que meu pai gostará disso, sabe.

— Ora, é claro que ele não gostará, mas são minhas coisas, algumas de valor sentimentais e as quero de volta. — Disse ela com firmeza. — Acredito que já esperei tempo suficiente e apenas perguntarei a ele quando quer que eu vá buscar. Pode ser que ele prefira não estar presente, afinal.

— Hum, ok. — Respondeu ele com o cenho franzido.

No Centro Esportivo, Vernon chegou com quase meia hora de atraso, Dudley já estava em sua primeira aula, por isso, Petúnia o reencontrou sozinha. Eles não se viam desde a assinatura do divórcio no início de dezembro, assim, ela ficou um pouco espantada ao perceber que parecia estar mais magro, mesmo depois da comilança do Natal.

— Como vai, Vernon? — Cumprimentou-o educadamente.

— Petúnia, o que faz aqui? — Seus olhos azuis redondos brilharam ao vê-la.

— Queria conversar com você...

— Você decidiu voltar? — Seu tom foi de pura ansiedade.

— O que? Não... Vernon, assinamos o divórcio a três semanas, não há volta. De onde tirou isso? — Ela se sentiu incomodada e olhou em volta, ali não era lugar para esse tipo de conversa.

— Apenas, pensei... Por causa do Natal, pensei que sentiria a minha falta, nunca passamos o Natal separados desde que nos conhecemos. — Vernon se aproximou. — Senti sua falta, Pet, sinto todos os dias, mas, nestas festas tem sido muito pior.

— Sinto muito, Vernon. — E estava sendo sincera porque, na verdade, ela não pensou nele em nenhum momento durante o Natal. — Eu estive muito ocupada... Dudley teve um bom Natal e adorou o seu presente. Sua irmã veio lhe fazer companhia?

— Sim, mas não é o mesmo, e Marge já partiu porque não podia ficar longe dos cachorros por mais do que alguns dias. — Disse ele parecendo desenxabido. — Pet, tenho me sentido tão solitário, se me der uma nova chance...

— Vernon, por favor, não insista, isso nunca acontecerá. — Ela suspirou e apertou a bolsa. — Me entristece que as coisas tenham seguido esse caminho, mas, é o que é. Devemos seguir em frente e sermos civilizados, sempre teremos o Dudley, sempre seremos seus pais e ele é quem importa agora.

— Sim, sim. — Ele abaixou a cabeça e parecia muito triste, Petúnia teve pena dele.

— Você parece muito bem, emagreceu, acredito que foi uma boa ideia praticar exercícios com o Duda. — Disse ela tentando ser civilizada, Vernon ergueu a cabeça com os olhos brilhando e pareceu ficar mais alto por alguns centímetros. — Queria lhe falar sobre ir buscar as minhas coisas em sua casa, como estabelecemos no divórcio. Estou fazendo uma pequena redecoração na casa dos meus... quer dizer, na minha casa e gostaria de ter alguns dos meus objetos.

— Oh! — Ele pareceu murchar um pouco de decepção. — Bem, se é o que quer fazer... hum... quando está pensado?

— Quando for melhor para você, claro, posso ir em um momento em que não estiver na casa. Eu ainda tenho as chaves e aproveito para devolvê-las...

— Mas! Não, eu prefiro estar lá, assim posso lhe ajudar com o que precisar carregar. — Protestou ele estranhamente aflito.

— Tem certeza? — Petúnia tentou disfarçar o incomodo com a ideia de estar de volta aquela casa em sua presença. Em sua opinião, fazer isso sozinha seria menos desgastante. — Não quero que isso seja mais difícil para nós do que precisa ser e, talvez...

— Não, eu faço questão, bem, é o mínimo que posso fazer depois de tudo, suponho... Hum, assim você não precisa contratar ajuda e pode separar o que não couber em seu carro para enviar um caminhão de transporte em outro dia. — Disse ele parecendo solícito e quase humilde.

Petúnia o observou desconcertada porque o Vernon Dursley que conhecia, nunca se ofereceria para ajudar ninguém, muito menos em algo que lhe contrariava a vontade.

— Bem, isso é muito gentil de você e, se está certo, aceitarei seu oferecimento. — Disse ela tentando afastar o desconforto.

— O que você acha de amanhã? Dudley e você poderiam vir logo cedo, aposto que entre nós três, terminaremos antes de o dia acabar. — Ele disse ansioso. — Hum, comprarei alguma coisa para o almoço e poderemos ter um almoço de domingo em família, como nos velhos tempos.

Seu sorriso no fim não agradou a Petúnia, mas ela queria uma convivência positiva, assim, acenou.

— Desde que entenda que nossa situação é irreversível, não vejo porque não podemos ter uma relação amigável. Acredito que isso seria muito bom para o Duda. — Disse ela seriamente.

— Sim, claro, devemos fazer isso pelo nosso garoto. — Disse Vernon sorridente.

Eles se despediram e, muito satisfeito, Vernon foi ao encontro do filho. Dudley soube dos planos na hora do almoço e encarou o pai, completamente chocado.

— E, ela concordou com isso? — Ele perguntou entre chateado e confuso.

— Sim, até pareceu empolgada quando disse que poderíamos almoçar como nos velhos e bons tempos, como uma família de verdade. — Disse Vernon e sua expressão era de triunfo. — Eu te disse, Duda, sua mãe não está feliz, aposto que, lá no fundo, está muito arrependida do divórcio e que gostaria de retomar nosso casamento.

— Eu acho que o senhor está errado. — Disse Duda tomando coragem. — Minha mãe não está infeliz, na verdade, eu nunca a vi tão feliz como agora e o Harry concorda comigo. E, acredito que ela está melhor agora do que antes, quando o senhor a fazia se sentir menos e normal, chata, sem graça e apagada.

— O que aquela aberração andou colocando na sua cabeça, Dudley!? — Ele gritou e chamou a atenção de outros na mesa, um dos professores olhou com cuidado, preparado para intervir.

— Harry não é uma aberração! — Dudley se levantou furioso. — Eu não o deixarei enganar e manipular minha mãe, eu o vejo de verdade agora e não gosto nada do senhor.

— Olha como fala, seu ingrato! Eu sou seu pai! — Vernon se levantou em toda a sua altura e fechou os dois punhos gordos. Isso fez um dos professores e alunos mais velhos se adiantarem imediatamente.

— É melhor o senhor se acalmar ou deixar o Centro, não toleraremos qualquer tipo de abuso aqui. Entendeu? — O professor falou com firmeza, mas ele era negro e com cabelos rastafári compridos, Vernon o olhou com profundo desprezo.

— Como se eu ouvisse tipos como você sobre como agir ou educar meu filho, seu anormal! — Gritou ele com o rosto vermelho e espirrando saliva para todos os lados. — Dudley é meu filho e não ficaremos mais um minuto nesta espelunca! Vamos, Dudley!

— O está acontecendo? — A diretora do Centro se aproximou preocupada.

— Nada, minha senhora, que precise preocupar sua cabecinha. Já estamos resolvendo tudo por aqui, meu filho e eu estamos partindo. — Disse Vernon em tom falsamente doce.

— O senhor não pode retirar o menor do Centro, isso foi estipulado pelo juiz e ainda não recebi nenhuma comunicação de alteração do acordo de custódia. — Disse ela em tom firme. — E o senhor deve conter seu temperamento, não aceitaremos esse tipo de atitude em frente as nossas crianças.

— Pouco me importa o que a senhora aceita ou não aceita e deixarei esse maldito lugar com meu filho, dane-se o juiz! — Gritou ele e olhando para o filho que estava pálido, acrescentou. — Vamos embora, agora, Dudley Dursley!

— Não vou a lugar algum com o senhor e quero que fique bem longe de mim e da minha mãe! — Gritou Dudley que, arrasado e envergonhado, se afastou para bem longe.

Seu pai não foi a sua procura e ele se escondeu no vestiário onde se vestia para a aula de boxe. Quem o encontrou foi King, que soube do problema e conseguiu convencer Vernon a deixar o Centro com algumas ameaças nada agradáveis envolvendo magia, quando a ameaça de chamar a polícia teve pouco efeito no enfurecido homem.

— Dudley? — King o encontrou olhando para as luvas de boxe e se perguntando se devia colocá-las ou não, ainda que estivesse sem uma resposta a mais de 20 minutos.

— Sr. King? — Ele se levantou e endireitou os ombros, o Sr. King não era alguém para quem se mostrava qualquer fraqueza. — Estou muito atrasado para a aula?

— Não, você ainda não tinha terminado o almoço, assim, tem tempo. Está disposto a voltar e terminar sua refeição? — King perguntou com sua voz profunda e serena.

Dudley acenou negativamente engolindo em seco, estava com o estômago embrulhado, além disso, não queria ver seu pai.

— Seu pai já partiu, se é isso que lhe preocupa. — Disse ele e viu a expressão de alívio do menino.

— Eu estou sem fome, senhor. Hum..., não estou com vontade de treinar também, na verdade. — Disse ele olhando envergonhado para as luvas em suas mãos.

— Sinto muito em ouvir sobre isso e, também, pelo que aconteceu. Me contaram que você foi muito corajoso, enfrentou seu pai com firmeza e não se deixou intimidar. — Elogiou King e Dudley deu de ombros sem saber como se sentir sobre isso. — O que o está incomodando, Dudley? Pode falar sobre isso comigo, sua mãe e, temos uma psicóloga aqui no Centro, que o atenderia se preferir.

— Apenas... sabe, Harry... — Duda hesitou tentando se expressar, mas nem sempre as palavras eram fáceis para ele. — Harry me deu um conselho, ele estava tentando me fazer entender algo, mas eu não sou muito inteligente e, às vezes, tenho dificuldades para acompanhar. Mas, bem, ele tem um jeito de explicar que eu entendo, sabe?

— Ok? — King esperou serenamente.

— Ele me disse para olhar para o meu pai como um adversário, por apenas um momento, encará-lo como um outro lutador no ringue ou o jogador rival no xadrez. — Dudley o olhou de soslaio. — Entende?

— Sim. E o que você viu? — King perguntou suavemente.

— Vi que meu pai é manipulador e egoísta, não se importa com ninguém além dele mesmo... — Seus olhos se encheram de lágrimas e ele apertou o punho com força tentando se controlar. — Nunca sei se está dizendo a verdade ou me manipulando para conseguir seja o lá o que quer.

— Por isso o enfrentou? — King perguntou.

— Sim, porque... eu tenho que proteger minha mãe, é meu trabalho cuidar dela e não posso deixar que ele a engane e a magoe. Posso? — Dudley perguntou parecendo muito jovem e perdido. — Mesmo se...

— Se?

Dudley engoliu em seco.

— Mesmo se ele estiver infeliz. — Ele abaixou a cabeça envergonhado. — Eu deveria me importar com ele também, não deveria? Como posso me preocupar e cuidar dos dois, se eles não podem ser felizes ao mesmo tempo? Se, o que o faz feliz, a deixaria infeliz? Estou confuso, Sr. King e não sei o que fazer.

— Nem sempre um problema tem uma solução, Dudley, nem sempre a resposta é clara. — King sinalizou para o banco e eles se sentaram. — Harry lhe deu um bom conselho, observe, analise, descubra as intenções e fraquezas do seu oponente. Bem, a partir daí o que fazer com essas informações? Vencer? Nocauteá-lo? Mas seu pai não é seu adversário, ele é seu pai e, independente dos seus defeitos, ele é alguém que você ama.

Dudley acenou concordando e suspirou.

— Então, eu não faço nada? — Ele perguntou tentando entender.

— Existe muito o que você pode fazer, conversar sobre isso com sua mãe, perdoar o seu pai, talvez, falar mais sobre como se sente com um terapeuta. — King sugeriu suavemente. — Mas, você não pode concertar seus pais ou a vida deles, não é sua responsabilidade fazê-los felizes.

— Mas...

— Dudley, lembra-se quando a alguns meses você estava em dúvida sobre o boxe, com medo de que aprender a lutar o tornasse violento e explosivo como seu pai? — King o interrompeu.

— Sim, você me disse que não eram minhas habilidades e sim minhas escolhas o mais importante. — Disse Dudley o encarando.

— Bem, isso também vale para os seus pais. Assim como você, eles fazem escolhas em suas vidas e, mais importante, escolhem ou não serem boas pessoas, mudar e melhorar quando percebem que estão errados. Entende? — King acompanhou sua mente processar a nova informação.

— Ok, então, o que eu posso fazer? — Duda perguntou ainda um pouco confuso.

— Bem, primeiro, deve compreender que não é sua culpa se eles não estão felizes, Dudley. São suas escolhas, seus erros ou acertos e não está em seu poder decidir ou escolher por eles. — King respondeu e Duda acenou. — Segundo, você pode tentar apoiar, ajudar e amá-los da maneira que for possível, que eles permitirem e que não o prejudique. Sua mãe fez novas escolhas em sua vida e seu pai se mantem nas escolhas antigas, que você acredita estarem erradas. Não é seu trabalho mudá-lo, mas pode tentar ajudá-lo a melhorar, amá-lo, apesar dos seus defeitos e não deixar que ele te use ou magoe. Talvez, com o tempo, ele melhore e faça novas escolhas, mas, se isso não acontecer, bem...

— Não é minha culpa. — Duda levantou os ombros sentindo-os um pouco mais leves.

— Com certeza, não. — King disse com firmeza.

Dudley decidiu ir treinar depois de conversar com King, sentindo-se um pouco melhor e, na verdade, liberar sua raiva socando o saco de areia era exatamente o que precisava. Ele estava um pouco envergonhado, mas seus colegas lhe mostraram apoio e não fizeram perguntas, assim, aos poucos, Duda conseguiu se concentrar nas aulas.

Mas, à noite, durante o jantar, ele voltou a pensar no que aconteceu e olhou para sua mãe algumas vezes em dúvida se devia lhe contar ou não. Ela não teve que ir buscá-lo, porque ele voltou com alguns amigos e seus pais, mas, a Diretora do Centro, solicitou que Dudley lhe comunicasse que eles a esperavam para uma reunião o mais breve possível.

Quando ele ajudava a tirar a louça da mesa, Dudley suspirou pela centésima vez na última hora e sua mãe deu um basta.

— Ok! Se vamos lavar a louça juntos, quero saber porque terei que passar mais uma hora ouvindo suspiros e vendo olhares de soslaio. — Disse Petúnia impaciente. — Pode dizer, seja lá o que você quer, Duda, tentarei ver se posso comprar.

Duda parou o que fazia e olhou em volta da cozinha pensando se deveria inventar alguma coisa ou simplesmente falar de uma vez. Todos o aconselharam a conversar com ela, Duda adiou porque não queria preocupá-la e também não queria saber a verdade, se fosse sincero consigo mesmo. No entanto, diante da reunião com a Diretora do Centro, que contaria o que aconteceu, adiar a conversa parecia tolice.

— Eu... — Dudley olhou para a mãe tentando encontrar as palavras, mas nada saiu.

— O que é isso, querido? — Ela perguntou mais séria ao ver sua expressão.

— Eu não quero ir na casa do meu pai amanhã. — Disse ele com firmeza.

— Ok. — Petúnia o encarou confusa e se perguntou se isso tinha a ver com seu comportamento estranho nos últimos 2 meses. — Porque?

— Eu briguei com ele hoje no Centro. — Dudley deixou escapar e viu sua expressão confusa se tornar preocupada e horrorizada.

— O que? Você está bem? — Sua mãe se aproximou dele preocupada e Duda suspirou quando sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. Ela sempre se preocupava com ele antes de qualquer um ou qualquer coisa, sempre o apoiava, sempre acreditava no melhor dele, nunca lhe ocorreria que a culpa da briga era dele. Seu amor por ele sempre foi algo tão natural quanto respirar e não houvera um dia em que Duda não o sentira, ainda que houvessem momentos em que acreditara ter que ser normal para merecê-lo. — Duda? O que? — Petúnia estava perdida ao ver sua emoção.

— Harry me disse que devo ser sincero com a senhora e acho que tenho que ser, acho que estou pronto agora. — Disse ele tentando tomar coragem.

— Ok, Duda, você pode me contar o que quiser, qualquer coisa. — Afirmou ela convicta.

— Eu sou mais feliz agora, gosto mais da nossa vida agora do que antes, no número 4. — Disse Duda e respirando fundo, continuou. — Gosto mais da mãe que você é agora e da pessoa que sou agora. Acho que estamos melhores e o papai não está, ele ainda é como sempre foi e acho que ele nos deixava pior. Você costumava me mimar e tratar mal o Harry, deixava o papai maltratá-lo e eu achava que aquilo era certo. Ele me dizia que eu poderia pegar o que quisesse, que tinha o direito de fazer qualquer coisa sem me importar com ninguém e eu agia assim porque pensei que tinha que ser assim para vocês me amarem.

— O que? — Petúnia estava tão pálida que poderia ter se passado por um fantasma.

— Harry era anormal e odiado, eu não queria que vocês me odiassem, assim tentava ser normal, mesmo que não entendesse a diferença exatamente. — Duda respirou fundo. — Tentava ser o que vocês queriam que eu fosse para que não deixassem de me amar e, bem, era por isso que eu era mal.

— Duda, você não é mal...

— Eu era, mamãe, eu... — Ele abaixou a cabeça envergonhado. — Harry mentiu naquele dia, ele queria me ajudar, me afastar do Piers e os outros, mas, na verdade, eles nunca me obrigaram a fazer nada. Eu era o líder da nossa gangue, eu roubava, espancava os meninos menores, jogava pedra nos carros e muitas outras coisas. Os outros faziam isso também, mas sob minha liderança, porque eu o mandava fazer.

Petúnia sentiu as pernas perderem as forças e se sentou na cadeira completamente chocada.

— Mas... o que...

— Eu tornei a vida do Harry um inferno na escola e pelo bairro, o perseguia com meus amigos praticamente todos os dias e, se o pegássemos, o socavamos. Fiz o mesmo com outras crianças que me incomodavam ou irritavam por qualquer coisa boba e achava que estava certo, que era isso o que esperavam de mim. — Ele pigarreou tentando afastar o bolo na garganta. — Que isso é o que era ser normal. Não me esforçava na escola ou para aprender, porque o papai disse que não queria um filho cdf e eu queria que ele me quisesse. E, você dizia que minhas notas eram culpa dos professores, assim, parecia que eu não precisava mudar, que era perfeito daquele jeito, mas eu não era. Harry me disse que vocês ficariam horrorizados se soubessem que tinham um filho marginal, um bullying que machucava outras crianças e, que vocês só não diziam nada sobre minhas notas, porque não queriam me magoar. Eu... realmente pensei que se tivesse boas notas, papai me odiaria.

Petúnia soluçou e pôs a mão sobre a boca horrorizada.

— Então, eu vi a verdade, vocês reagiram exatamente como o Harry previu quando souberam o que fazíamos, mas, mais uma vez, não me culparam. Todo mundo é culpado pelos meus erros, menos eu e, pela primeira vez, isso pareceu errado. — Duda suspirou e acenou para a casa. — Desde que viemos para cá, desde que papai machucou o Harry, estou tentando não ser mais como antes, eu não quero mais ser mal e não quero ser como meu pai. Eu não quero ser normal, mamãe.

Ela acenou com um soluço e sem encontrar palavras.

— E, a senhora tem me ajudado a melhorar, agora me corrige quando estou errado, diz não ou me faz realizar tarefas, é como se a senhora se importasse mais comigo. Antes, sentia que se não fosse daquele jeito, não me amaria e, agora, quando me incentiva a aprender mais, a melhorar, sinto que você me ama do jeito que sou, mas, que ainda quer que eu seja mais, porque me quer feliz. Faz sentido? — Disse Duda e ela acenou outra vez. — Então, quando vi o papai pela primeira vez depois do verão, ele me disse que a senhora estava infeliz... — Petúnia fez um som de protesto e seus olhos se arregalaram. — Papai disse que a senhora foi ameaçada e se sentiu obrigada a deixá-lo, por causa da tia Lily, por causa da proteção e do Harry. Ele afirmou que a senhora não queria deixá-lo e que estava infeliz, mas, que eu poderia ajudar. Ele me pediu para convencê-la a voltar, disse que a senhora nunca me negaria nada e, que se te pedisse, a senhora desistiria do divórcio e tudo voltaria a ser como antes.

— Isso... porque não me disse? — Petúnia se levantou e parecia zangada.

— Porque... eu não queria saber... — Ele abaixou os olhos envergonhado. — Eu disse a ele que não o ajudaria, fiz isso porque gosto das coisas como estão agora e, a verdade, é que não queria saber se ele estava certo. Papai disse que eu estava sendo egoísta por pensar só em mim e não me importar que a senhora e ele estavam infelizes.

Uma espécie de urro de protesto saiu de Petúnia e ela poderia socar alguém de tanta raiva.

— Isso não é verdade! Você não é egoísta! Nada disso é sua culpa! — Disse ela e ao ver sua expressão parou.

— A senhora não está infeliz? — Ele perguntou e parecia muito jovem e perdido.

— Não. Eu... me sinto culpada em dizer isso, culpada e envergonhada, mas, jamais me senti tão bem como nos últimos meses. Não feliz, exatamente, mas leve, em paz com minha consciência e esperançosa, mas não estou infeliz ou arrependida com o divórcio. Eu juro. — Ela respirou fundo tentando encontrar como se expressar, mas tinha algo que precisava saber antes. — O que aconteceu hoje? Porque você e Vernon discutiram?

Dudley contou tudo o que aconteceu, desde sua conversa com Harry, a discussão com seu pai e, por fim, a sua conversa com King.

— Ele está certo, nada disso é sua culpa. — Petúnia fechou os olhos tentando absorver tudo o que ouvira e se concentrar no que era mais importante, seu filho. — Sinto muito, que meus erros tenham te magoado e quero deixar algumas coisas claras. Primeiro, eu não estou infeliz pelo fim do meu casamento e não tenho qualquer intenção de voltar, não importa em que tipo de ilusão Vernon esteja vivendo. Segundo, meu objetivo em ter uma relação civilizada com seu pai é para que todas essas mudanças não te perturbem mais do que já fizeram. Quero que conviva com ele, vocês precisam um do outro e jamais quis afastá-los, desde que ele seja bom para você, claro. Por isso, exigi um acordo de guarda tão rígido, por isso, Vernon não tem autorização para levá-lo ou vê-lo em outro lugar que não seja o Centro. Eu tinha esperança que ele aceitasse a situação e se concentrasse em ser um bom pai para você. Pensei que conviverem e compartilharem esse tempo no Centro Esportivo ajudaria, que aos poucos tudo se encaixaria e você poderia até passar o fim de semana no número 4, uma ou duas vezes por mês.

— Eu não acho que ele desistirá e não penso que é só porque nos ama que é tão importante voltarmos. — Duda disse com olhar duro. — Eu fiz o que o Harry disse, mamãe, eu o observei, suas intenções e fraquezas, para mim, o que ele quer mais que tudo é que testemunhemos a seu favor no julgamento de agressão.

Petúnia o encarou pensativa e se lembrou da atitude estranha e solicita de Vernon naquela manhã. Ele claramente pretendia que a conversa fosse mais do que era, assim como sua visita ao número 4, cuja a intenção era encerrar de vez todo o processo de separação. Talvez, considerou com frieza, conhecendo o ex-marido como ela conhecia, sua atitude era manter uma relação amigável até o julgamento. Quem sabe, se não pretendia mentir sobre estar arrependido e assim ter um testemunho favorável dela.

— Ora, claro, aposto... — Ela resmungou ao perceber que estava se deixando ser enganada. Como era tola! — Ele com certeza tem esperança que acreditemos em seu arrependimento ou que mudou e não está com o temperamento tão explosivo. E, se me deixasse enganar e retomasse nosso casamento, praticamente, assinaria sua sentença de não culpado.

Duda apenas acenou decepcionado e triste.

— É assim que eu vejo também e não sei se algum dia ele vai mudar, mamãe. Não sei o que fazer porque estou tentando ser uma pessoa melhor... — Seus olhos se encheram de lágrimas. — No Ritual Yule, eu pude senti, foi algo incrível, nunca pensei... Mas, eu juro que senti o vovô e a vovó, eles fizeram com que me sentisse bem, forte, corajoso, mesmo que não eu seja assim e... Era como se me abraçassem e me senti como quando você me abraça, amado. Parece bobo... — Ele enxugou as lágrimas do rosto corado.

— Não é bobo, me senti assim também e que eles me perdoavam... — Ela soluçou. — Mesmo que, talvez, eu não mereça... — Petúnia respirou fundo. — Olha, sobre o seu pai, mesmo que nunca mude, Vernon sempre será seu pai e não devemos desistir dele, ainda não. Eu conversarei com ele amanhã e tentarei resolver toda essa confusão absurda, deixarei claro que não o permitirei que se encontrem enquanto não mudar de atitude. Sinto muito que ele tenha lhe decepcionado, que eu... tenha lhe decepcionado e magoado, tudo o que fiz ou pensei, era com a intenção de evitar isso. Eu juro.

— Não entendo. E, se não estava infeliz por causa do papai, porque parecia tão triste nos últimos meses? — Dudley perguntou confuso.

— Eu... Talvez..., venha comigo. — Ela pegou sua mão e levou pelas escadas até pararem em frente ao quarto que ainda não tinha entrado desde que retornara a House Evans. — Essa casa, me faz tão feliz e triste ao mesmo tempo. Esse é o quarto da minha irmã e, em todos esses meses, não consegui entrar, não tive coragem, forças, até agora, mas, acho que chegou o momento. Estou pronta. — Petúnia abriu a porta e mal percebeu as lágrimas que escorriam por seu rosto ao ver o quarto de Lily igual à quando eram adolescentes. — Oh! Nossa foto, juntas no parque... — Ela soluçou dolorosamente.

— Mamãe... — Duda disse preocupado ao vê-la chorar.

— Dói, Duda, a dor que sinto com a perda vem acompanhada de arrependimentos, culpas e uma grande tristeza. — Ela apontou uma poltrona. — Sente-se, está na hora de eu te contar uma história, sobre uma garotinha feliz e amada, que tinha uma linda família, pais gentis e amorosos, uma irmã doce e amável. — Petúnia pegou a foto onde ela e Lily estavam sorrindo para a câmara. — Um dia, no jardim da nossa antiga casa, minha irmãzinha fez as flores dançarem. Parecia apenas uma brincadeira, como um faz de conta, estranho e fascinante, mas era real e a cada dia esse encantamento diferenciava nós duas. Um dia, neste parque, Lily voou do balanço e fiquei apavorada, insisti que parasse ou poderia se ferir, mas, na verdade, eu queria que ela fosse como eu, comum, normal. Quando descobrimos a verdade, uma bruxa, imagine isso, meus pais estavam fascinados e, de repente, eu senti algo que nunca tinha antes sentido. Ciúmes, inveja, desejo, todos sentimentos que ninguém imaginaria que uma criança sentiria tão fortemente, mas era tudo o que havia em meu coração. Eu escrevi uma carta ao diretor da escola, Hogwarts, implorando para que me deixasse ir para lá, para que me permitisse ser uma bruxa e cuidar de minha irmã. Sua resposta foi gentil, era impossível, claro, e ele me disse para tornar minha vida igualmente especial, encontrar minha própria magia e realizar grandes feitos. Meus pais tentaram me ajudar, hoje eu vejo, seus esforços para me incluir, para me motivar, me apoiar. Como me disse que faço com você. — Ela o olhou e Dudley acenou. — Papai viu meu talento para seguir seus passos, mamãe me dizia que eu tinha um grande coração, mas, eu o tranquei aqui. — Petúnia colocou a mão no peito e seus olhos verteram mais lágrimas pela dor e arrependimento. — Estava tomada pelo ressentimento, pelo ciúme e queria ser especial também, acreditava que meus pais me amariam mais, se eu fosse uma bruxa. Decidi que eles a amavam mais por ter magia e a odiei por isso, minha doce irmãzinha. Ainda me lembro dos seus olhos verdes magoados quando a chamei de anormal e me forcei a acreditar que ela era errada, uma aberração da natureza. Que eu, a normal, era a certa e, desde então, tentei envolver todos os aspectos da minha vida em uma existência comum e normal. — Suas palavras tinham um tom de desprezo por si e por suas escolhas. — Eu desprezei minha irmã, critiquei e me zanguei com meus pais, todos os dias, eu lutava contra meu amor por eles, desprezei os seus amores por mim e me convenci que não precisava deles em minha vida. Até que, eu estava tão sozinha... pensei que nunca teria ninguém, nunca seria amada, mas, então, um dia, conheci o seu pai. Ele parecia ser exatamente o que eu queria, intolerante com o diferente, preconceituoso, rígido, comum e normal. — Petúnia o encarou e sorriu com tristeza. — Vernon era apenas mais um passo em direção a minha covardia, as escolhas erradas que fiz, mas, tudo o que podia ver, era que agora eu tinha uma família. Um dia, um bebê foi deixado em nossa porta... — Em um sussurro, Petúnia contou sobre seu amor ao sobrinho, as brigas, sua covardia e como ela tentou preservar seu casamento e, mais importante, proteger a ele, Dudley. — Eu nunca quis que se sentisse como eu, que se sentisse menos, menos importante, especial, amado. Queria que soubesse que era querido do jeito que era, não importava suas birras, excesso de peso, queria que se sentisse a criança mais amada desse mundo e que, quando Harry fosse dito ser um bruxo, você não o invejaria e se magoaria por não ser um também.

— Quer dizer... que a senhora o tratou daquele jeito por minha causa? — Sussurrou ele engasgado.

— Não! Não, Duda, não por sua causa, por minha! Eu queria te proteger, mas, a verdade, a dura verdade, é que eu não queria encarar que estava errada. — Petúnia olhou em volta do quarto e seu rosto se desmanchou em dor. — Toda a minha vida, meu casamento, minhas escolhas, foram erradas e eu não conseguia encarar essa realidade. Como!? Como eu poderia admitir que eu tinha fracassado, que eu era uma péssima mãe, uma péssima tia, um péssimo ser humano. Pior, como poderia encarar que desperdicei o amor e tempo com minha família, por nada. Harry me disse... — Ela soluçou desesperada. — Que não era culpa de Lily que o destino não me deu magia, mas, que o destino foi ainda mais cruel com ela, pois minha irmãzinha só viveu até os 21 anos. Eu poderia ter amado ela por 21 anos, mas, joguei nosso tempo no lixo, Duda, perdido para sempre e tudo por nada. Eu estava errada, tão errada... — Ela escondeu o rosto nas mãos. — Fui tão tola, tentei me convencer que fazia o que fazia para te proteger a tudo custo, pois, você é quem eu mais amo, mas, a verdade, é que estava apenas sendo covarde. Harry... me perdoou, nem sei como, mas, ele me ama e é minha última oportunidade de fazer o certo. Para ele, para Lily, para você e para mim. Entende?

Dudley acenou e sua expressão era de mágoa e tristeza.

— Eu ainda não entendo, mamãe, tudo isso que aconteceu, seu afastamento da tia Lily, o tratamento que deram ao Harry... Ele dormia no armário! Vocês me ensinando a odiá-lo, contando todas aquelas mentiras sobre seus pais serem marginais e bêbados. Tudo isso, apenas, porque a senhora não era uma bruxa? — Ele perguntou confuso e Petúnia sentiu seu coração se quebrar ao ver sua decepção.

— Sim. — Ela admitiu simplesmente sem tentar se justificar mais.

— Isso era tão importante? Pensei... que odiasse a magia e os bruxos... — Dudley não entendia nada de nada.

— Eu sei, parece tolo agora, não é? Mas, naquele momento, era tudo o importava, me convenci a odiar para que não doesse tanto não ser uma bruxa. — Seus olhos mostraram seu arrependimento.

— Eu não sinto inveja do Harry, não preciso ser um bruxo para me sentir amado por você. Acho que do jeito errado, a senhora conseguiu fazer o que pretendia, pois não me sinto magoado por não ter magia. — Duda sussurrou cansado. — Mas... o preço foi muito alto, mamãe. O Harry não merecia... ele nos ama e nos perdoou porque é bom, mas poderia ser o oposto. Se fosse tarde demais, ele poderia nos odiar ou não nos querer em sua vida.

— Eu sei. Quando ele caiu daquela escada... Vernon pode tê-lo empurrado acidentalmente, mas era minha culpa, tudo minha culpa. E, se ele me odiasse, seria minha culpa... — Petúnia olhou com arrependimento. — Assim como é minha culpa o que sentiu enquanto crescia, suas dúvidas, seu comportamento, você não é mal, Dudley e sinto tanto. — Ela soluçou e apertou sua mão. — Eu fiz tudo errado e, além do Harry, você foi quem mais sofreu e isso foi muito injusto. Me perdoe?

Dudley acenou engasgado e apertou a mão dela também.

— Sim. — Ele olhou para o quarto de sua tia e pensou em todas as lembranças dos seus avós pela casa. — Se essa casa te deixou tão triste, porque quis ficar aqui?

— Porque... tem tanto amor aqui... — Seus olhos se encheram de mais lágrimas. — É como se nos últimos meses eu estivesse resgatando minhas memórias, revivendo meu tempo com minha família, me lembrando do amor deles, de como era ser amado por eles. E, é tão bom, triste, mas, incrivelmente bom. Em cada cômodo tem uma lembrança, um objeto, uma cena, uma frase, um abraço, um cheiro... — Ela soluçou e se curvou. — Oh, Deus, dói tanto, tenho tantas saudades e queria tanto ter feito diferente, estou tão arrependida.

Dudley não aguentou mais ver sua dor e a abraçou com força.

— Sinto muito, mamãe. Sinto tanto...

Duda chorou com ela, porque ele podia sentir sua dor, entender seu sofrimento e porque, pela primeira vez, lamentou profundamente a morte de seus avós e tia.

Quando as lágrimas diminuíram, Petúnia o beijou na bochecha e suspirou.

— Sinto tanto, que meus erros tenham te ferido, isso era a última coisa que eu queria, Duda. Mas, agora, sinto que é o momento de seguir... Eu senti, no ritual, o amor deles também, apesar de tudo, eles me amam, Harry me ama, eu tenho você e... não posso mudar o passado... — Sua voz se embargou e ela respirou fundo. — Mas posso ser melhor no futuro, me redimir pelos meus erros e, talvez, encontrar o perdão e paz que preciso. Nos últimos meses, eu estive mergulhada no passado, na dor e no arrependimento, acredito... que precisava disso porque, nunca antes, me permiti sofrer e lamentar a perda deles.

— Por isso que você parecia tão triste e... perdida? — Dudley perguntou enxugando o rosto das lágrimas.

— Sim. Mas, é a hora de deixar o passado para traz, eles se foram e... — Seus olhos verteram mais lágrimas e Petúnia se esforçou para detê-las. — Isso não mudará, eu não posso mudar o que fiz de errado no passado, mas posso mudar o futuro. E, fazer novas escolhas, encontrar um sentido em minha vida, fazer minha própria magia, ser quem eu deveria ter sido, seja lá quem... — Seu rosto se tornou pensativo. — Eu não sei quem sou...

— Você é a minha mamãe. — Disse Duda com carinho e Petúnia sorriu.

— Sim. Isso eu sou com certeza e do Harry também, sempre pensei que não poderia amar e cuidar de vocês dois, que tinha que escolher, mas... Deus, como fui tola! O mais fácil da minha vida é amar vocês. Lily... — Sua voz caiu em um sussurro enquanto olhava com carinho em volta. — Ela me pediu para amá-lo, apenas isso, disse que o passado seria esquecido e perdoado se eu lhe desse amor. Depois de tudo o que fiz, pensei que ela me odiasse e me diria para ficar bem longe de seu filho, mas, Lily me pediu para lhe amar. Senti que isso era importante, sabe, a maneira que ela insistiu, como se Harry precisasse urgentemente ser amado.

— Como a senhora disse, isso não é difícil, depois de tudo o que lhe fiz, do quanto o atormentei, Harry ainda me ajudou, mentiu para me proteger e me perdoou. — Duda abaixou a cabeça envergonhado. — Ele me disse que teve ajuda para ser melhor quando chegou a Hogwarts e que queria me ajudar também. Ele temia que eu acabaria por machucar alguém ou na cadeia se não mudasse.

— Oh, querido, eu fui tão cega... — Disse ela triste. — Mas, não foi sua culpa, a maneira como agiu, as atitudes que teve...

— Estavam erradas, mamãe, não pode me desculpar por isso. — Disse ele com firmeza.

— Posso sim, assim como o Harry, eu e qualquer pessoa que sofreu com seu bullying, podemos te desculpar porque, no fim, você era uma criança inocente, vítima dos nossos erros. — Petúnia suspirou e acariciou seu rosto. — E, o mais importante é que decidiu mudar, recomeçou em uma nova escola e está tentando melhorar a cada dia. Eu vejo a sua luta, você quer ser melhor, se redimir e eu também. Por isso que nós dois temos que parar de olhar para o passado e nos concentrarmos no presente e no futuro. Você tem uma nova escola, novos amigos e, para mim, o primeiro passo é renovar a casa, novas cores, móveis, vou transformar essa casa em nosso lar e não terá nada de chato e normal. — Petúnia se levantou e estava cheia daquela energia que Duda já vira, talvez o nome fosse vida. Sua mãe estava cheia de vida. — Depois conseguirei um emprego, quem sabe novos amigos e seguiremos em frente.

— Já temos uma nova família, sabe, com os Boots. — Disse ele timidamente. Gostava muito de todos os Boots.

— Sim. — Petúnia sorriu um pouco espantada também. — Temos uma nova família e podemos aprender muito com eles. Não é?

— Sim, o Prof. Bunmi me ensinou a jogar xadrez e a Sra. Madaki a como ajudar os sem tetos. — Duda disse sorrindo mais. — Ela disse que sou bom nisso.

— É claro que é, mesmo que eu não tenha visto a verdade antes, não me enganei em uma coisa, Duda. Você tem um bom coração. — Ela disse suavemente. — E, isso é o que importa daqui por diante, seguiremos em frente, juntos, tentando ser melhores a cada dia. Ok?

— Ok. — Duda disse e, todo o peso que sentia em seus ombros jovens e fortes, desapareceu.

Se Duda estava aliviado de contar a verdade e compreender porque sua vida fora uma grande mentira, Petúnia ainda não encontrará essa paz. No dia seguinte, ela o deixou na casa de um amigo da escola depois de combinar com a mãe do garoto e partiu para Surrey. A viagem foi feita rapidamente e sua mente estava tão profundamente concentrada em seus pensamentos que até se surpreendeu quando estacionou em frente ao número 4.

Vernon abriu a porta sorridente e pareceu um pouco abalado ao ver sua expressão, um segundo depois, seu sorriso se amarelou quando não viu Duda.

— Duduzinho não quis vir? — Perguntou tentando disfarçar o desconforto.

— Não. Ele não quer vê-lo no momento, Vernon. — Disse Petúnia muito séria.

— Hum... Bem, Pet, sobre o que aconteceu ontem, aquele tal Centro, acredito que não é o lugar certo para o nosso garoto de ouro frequentar. — Disse ele enquanto entravam na sala de estar. — Não confio naquelas pessoas esquisitas e, ontem, só porque perdi um pouco a calma, eles decidiram me expulsar. Ameaçaram até a chamar a polícia, mas, eu não me deixei intimidar, não mesmo. Insisti que levaria o Duda para um lugar seguro e sabe o que aconteceu?

— O que? — Petúnia perguntou interessada em saber como ele se enrolaria ainda mais com suas manipulações.

— Um anormal apareceu, uma aberração igual ao garoto e me ameaçou com sua... anormalidade. — Disse ele indignado. — Eu, sinceramente, temi por minha vida e tive que partir, eles nem deixaram que me despedisse do Duduzinho. Imagine isso, meu próprio filho!

— Talvez se não tivesse explodido o seu temperamento, Vernon. — Considerou ela em tom razoável.

— Ora, sim, eu perdi um pouco a calma, mas, não foi nada demais para que eles agissem daquela maneira. Eu sou um cidadão de bem e não um pank ou marginal, ora. — Disse Vernon estufando o peito.

— Não foi o que o Duda me contou. — Ela disse olhando em volta pensativa.

— Bem, nós discutimos, Duda tem andado muito... rebelde, Pet, por isso que estou preocupado. Eu sei que a nova escola só tem crianças de boas famílias, assim, deve se influência daquele Centro estranho, pois o nosso garoto não é o mesmo e tem sido muito desafiador, sabe. — Disse ele sorrindo com a sensação de que a estava convencendo como sempre. — Sei que você não quer retomar o nosso casamento, eu entendo e respeito a sua decisão, mas acredito que você deveria considerar o que tudo isso causou ao nosso filho.

— Como assim? — Ela se mostrou interessada.

— Bem, sua ideia é nos mantermos civilizados pelo bem do Duda, mas ele tem passado por muitas coisas ao mesmo tempo, sabe. A adolescência, nova escola, nova casa, nosso divórcio, é natural que ele se mostre confuso e rebelde, nos enfrente e desobedeça. — Vernon continuou em tom persuasivo. — Mas, que mais me preocupa é o que ele poderia fazer para nos chamar atenção, sabe, Duda poderia se tornar um punk rebelde ou se envolver com marginais, aberrações ou esquisitos como tem naquele Centro... Petúnia, tinha um com o cabelo ruim comprido e cheio de trança, tenho certeza que é um imigrante. — Disse ele com nojo e baixou o tom para contar um segredo perigoso. — Pode até estar envolvido com drogas.

— E, qual seria a solução, Vernon. — Petúnia perguntou em tom suave.

— Bem, não agora, porque sei que não pode, mas, talvez, poderíamos retomar nosso casamento. Eu te amo e sei que me ama, Pet e amava a nossa vida, podemos ter tudo como era antes, sermos felizes outra vez. — Seus olhos estavam cheios de ansiedade e esperança. — E, cuidaremos do nosso garoto como ele merece, assim, Duda não será mais infeliz.

— Você acha que Duda está infeliz? — Ela perguntou mostrando preocupação.

— Com certeza. Ele não deixa que veja porque não quer preocupá-la, mas, sei que está infeliz, ainda que me disse que gosta da nova escola. — Vernon se aproximou e esfregou as mãos. — É de mim, de estarmos juntos que ele sente falta, Pet, de sermos uma família, assim... Bem, não agora, por causa do garoto, mas, depois que se livrar dele, eu poderia me mudar para Londres com vocês, assim o Duda continuaria a ir para essa nova escola importante. — Ao ver seu rosto se fechar, acrescentou rapidamente. — Eu sei, você está decidida sobre a separação, por causa da aberração, mas, agora é diferente, Pet! Você precisa pensar no que é melhor para o nosso Duda! Lembra? Juramos que ele viria sempre em primeiro lugar, mas, parece que você esqueceu e só pensa naquele... Olha, talvez, eles tenham mexido com a sua cabeça, usaram a anormalidade deles para te obrigar a ir embora ou sei lá.

Petúnia o encarou em silêncio por alguns segundos, até que ergueu as sobrancelhas.

— Acabou? Quer dizer, para suas ideias seguirem nesta direção, tenho a impressão que precisa de algo importante. Algo como, não estar preso por agressão a um menor? — Petúnia expôs em tom doce.

— Oh! Sim, claro, mas isso é simples, Pet. — Disse ele sorridente.

— Mesmo? — Ela expressou seu espanto.

— Sim, quer dizer, se já estivermos morando juntos ou noivos... Imagine isso, Pet! Poderíamos nos casar de novo e fazer uma viagem de lua de mel para Maiorca! — Seus olhos brilharam de animação ou, talvez, insanidade. — Se já tivermos reatado, meu advogado disse que isso será muito positivo no julgamento. O menino estará afastado da nossa família e poderemos falar que tipo de aberração ingrato ele era. Mas, se você ainda não se livrou dele, basta dizer a verdade, Pet, que o que aconteceu não foi minha culpa, que sou um bom pai e que me perdoou. Assim, tudo ficará bem!

Vernon tinha aquela expressão de animação meio insana e Petúnia o observou por alguns segundos.

— Sabe, eu o conheço a mais de 15 anos, Vernon, sei dos seus defeitos e compartilhei muitos deles. Quando nos separamos, meu pensamento era que você alimentou e ampliou esses defeitos. Eu já era intolerante, egoísta, mesquinha, invejosa e, me casar com você, me fez pior, sabe, chegou a um ponto em que não podia ver em mim mais do que essa caricatura. Sua esposa, uma dona de casa, uma péssima mãe e tia, que tentava agradá-lo, ser a esposa que você acreditava ser uma boa esposa, ser a pessoa que você acreditava que eu deveria ser. — Petúnia suspirou e o encarou. — Mas, sabe o que percebi nas últimas 24 horas ao olhar para tudo com mais atenção? O quão manipulador você é, e um muito bom.

— O que!? — Sua expressão era de espanto cômico. — Pet!

— Não me chame assim! — Gritou ela furiosa. — Eu detesto esse apelido! Sempre detestei e lhe disse quando namorávamos, mas as coisas sempre tinham que ser do seu jeito, assim, ora, é só um doce apelido carinhoso, então eu parei de reclamar. — Petúnia o olhou com nojo. — Mas eu sempre o odiei! Fingi como fingi muitas outras coisas, mentindo para mim mesma, mas também sendo manipulada por você. Porque você viu como eu estava perdida, não viu? Você encontrou as minhas fraquezas, inseguranças, autoestima inexistente, sabia como me manipular, dizer o que eu precisava ouvir para ser quem você queria que eu fosse. Eu era uma estudante brilhante, meu pai tinha orgulho de mim, queria que eu seguisse seus passos e ainda não era o suficiente para mim. Eu me lembro como queria que meu pai amasse e se orgulhasse só de mim, que me achasse melhor que Lily, que era apenas uma aberração. — Ela o encarou e sorriu com frieza. — Você alimentou isso, me fez brigar com meus pais em vários momentos, me disse várias vezes como eles eram ingratos por não me valorizarem mais e eu me deixei convencer. Então, um dia, quando estava vulnerável e perdida, confusa sobre o futuro profissional que teria sem meu pai, você me disse que não precisava me preocupar. Que você não era como eles, que me amava e cuidaria de mim, eu não precisava trabalhar ou temer nada, porque você me daria a vida que eu merecia. Eu me deixei acreditar que isso era o que eu queria, me deixei ser manipulada para desistir dos meus sonhos para ser a esposa que você queria.

— Você queria isso! Me disse que o que mais queria era não ficar sozinha! Queria uma família sua e ser amada mais que tudo no mundo! Eu lhe dei isso! Eu me dediquei a você e ao nosso filho. Agora me diz que não era bem o que queria... Ora, eu não tenho culpa se você era confusa e perdida, eu lhe dei a orientação que precisava, a conduzi, a moldei na mulher incrível que é agora. A mulher que eu amo! — Disse ele e parecia sincero.

— Você não me ama! Você quer e ama a caricatura que me tornei para te agradar! Para não te perder! Para não ficar sozinha! Para me sentir amada! — Gritou ela e seus olhos se encheram de lágrimas. — Nós dois vivemos uma mentira, Vernon. Eu, sendo uma coisa artificial e mecânica. Você, amando o que moldou ao seu gosto sem perceber que era falso.

— Querida! Podemos recomeçar! Seja qual foram os meus erros, eu posso melhorar e começaremos uma nova relação. — Ele parecia desesperado. — Namoramos e nos casamos outra vez...

— Por favor! Pare! — Petúnia gritou outra vez e a sala imaculada, decorada com cores sóbrias e chatas, não parecia combinar com a explosão. — Você não me ama ou se importa comigo, infelizmente, percebo agora que nem com seu filho está preocupado. Sua única preocupação aqui, seu único objetivo é se livrar da cadeia, Vernon. — Ela riu de sua expressão de espanto. — Eu vejo você! Seu filho vê você! Nós mudamos, Vernon e não estamos mais cegos, nos recusamos a continuar a ser enganados e manipulados por você.

— Pet, por favor... eu... não mereço ir para a cadeia por causa daquela aberração...

— Não o chame assim! Meu sobrinho não é uma aberração, ele é um bruxo, um grande e poderoso bruxo. Também é um garoto doce e amoroso, inteligente e temperamental, se parece tanto com minha irmã e ao mesmo tempo é tão diferente dela. — Petúnia falou e acompanhou seu rosto arroxear de indignação por ela ousar dizer tudo aquilo em sua casa. — Sabe, Vernon, o amor é algo curioso porque nem sempre sabemos como amar. Às vezes, não o tempo todo como eu fiz, devemos pensar mais no outro do que em nós mesmos. Eu fiz isso em nossa relação e você poderia mostrar que mudou ou que quer mesmo melhorar e retribuir.

— O que? — Ele pareceu desconcertado com a mudança repentina em seu tom e palavras. — Eu... qualquer coisa...

— Bem, porque vou lhe fazer essa oferta aqui e agora, apenas uma vez e quero que responda com sinceridade, Vernon. Sem truques, manipulações, apenas a verdade sobre o que sente, sobre o que está disposto a fazer por mim. — Disse ela sabendo que ele nunca aceitaria sua proposta. — Eu amo o Harry, tanto quanto amo nosso filho e nada me faria mais feliz do que os ver amados e seguros. Terem um futuro brilhante, felizes e fazer parte de suas vidas. Você pode aceitar isso? Pode deixar de lado seus preconceitos, seus medos e intolerância, mudar, melhorar e aceitar o meu sobrinho em nossas vidas? Eu nem lhe peço para amá-lo, apenas para não o odiar ou tratá-lo mal. Consegue vê-lo como parte de nossa família, Vernon?

Seu rosto se fechou na hora e seus olhos expressaram uma mistura de ódio e repulsa.

— Nunca. — Disse firme e sincero.

O silêncio se prolongou por alguns segundos.

— Então, é o que é. Acabou. — Disse ela frisando as silabas. — Nós dois sabemos disso, que no momento em que eu mudei, que enxerguei a verdade, nosso casamento estava acabado. E, quer saber o que mais está claro para mim? Você não me ama ou se importa comigo, tudo o que quer é me manipular para sair da cadeia. Mas, isso não me surpreende, é quem você é, Vernon e, seu instinto de sempre pensar em você em primeiro lugar, o faria agir assim. No entanto, nunca pensei que envolveria nosso filho nisso, manipulando, mentindo, usando suas inseguranças, seus medos, para a sua vantagem! Que tipo de pai faz algo assim com o próprio filho?

— Eu não fiz isso! — Berrou ele acuado.

— Sim, você fez e sabe que fez, assim, não precisa tentar se defender ou justificar. Você disse ao nosso filho que eu estava infeliz e arrependida, acusou-o de ser egoísta por não lhe ajudar e Duda passou os últimos 2 meses se sentindo triste e culpado, preocupado comigo e, ontem, inventou mais mentiras sobre nossa visita a essa casa. Duda o enfrentou porque percebeu suas mentiras e o que você fez? Perdeu a calma, explodiu, gritou com ele, com outras pessoas, tentou tirá-lo do Centro, mesmo sabendo que não tem permissão, e sabe o que mais poderia ter feito com meu filho se estivessem sozinhos.

— Eu nunca machucaria meu filho! Eu perdi meu temperamento, mas não foi minha culpa! Duda está muito rebelde, influência daqueles punks malucos e, quando todos ficaram me dizendo o que fazer, fiquei com mais raiva, mas jamais...

— Não me importa. — Interrompeu ela com frieza. — Mesmo que nunca levante a mão para o meu filho, o que você fez nos últimos meses foi abuso também e sua atitude ontem não passará em branco. Tenho testemunhas e limitarei ainda mais suas visitas, limitarei a sua presença venenosa na vida do meu filho e juro que, se tornar a fazer algo assim, conseguirei que nunca mais o veja. Entendeu!?

— Você... não pode... — Ele estava enfurecido e fechou as mãos em punhos. — Não pode afastar meu filho de mim.

— Foi você quem fez isso, Vernon. Duda não quis vir aqui e não quer te ver, ele está magoado com suas atitudes e manipulações. — Petúnia suspirou. — Eu descobri ainda mais coisas sobre o nosso filho, que duvido que você se importe, assim, não mencionarei, mas ficou claro que ele está decepcionado com nós dois. Ele nos vê, Vernon... — Sua voz se embargou. — E não gosta do que está vendo. Antes mesmo de perceber isso, estava decidida a ser uma pessoa melhor, por mim, uma mãe e tia melhores por eles, mas, agora, quero muito ser alguém de quem meu filho se orgulhe de chamar de mãe. Sugiro que faça o mesmo antes que seja tarde demais. — Disse ela e suspirou cansada. — Se arrependa de suas ações, se desculpe e mude ou o perderá, Vernon, para sempre.

Ele parecia sem palavras, raivoso, teimoso e confuso, como se não entendesse porque precisava mudar. Petúnia decidiu partir e deixar para pegar suas coisas outro dia, assim, se dirigiu a porta.

— Ah, antes de ir, sugiro que converse com seu advogado e diga que não testemunharei a seu favor. — Disse ela em tom firme. — Contarei a verdade, foi um acidente, mas causado por suas ações destemperadas...

— O que você sabe sobre a verdade!? — Berrou ele empalidecendo. — Diga! — Vernon se aproximou dela e pela primeira vez, Petúnia teve medo de ser agredida, mas ele se desviou e foi na direção ao armário. — Aqui! Olha bem! Foi sua ideia se bem me lembro! Você se posa, na minha cara, de mãe perfeita, de tia arrependida, mas estava aqui e me ajudou a tornar a vida do garoto um inferno! Nós dois concordamos que era o que a aberração merecia, que isso sufocaria sua anormalidade. Você nunca protestou, Petúnia. — Ele disse seu nome com deboche e sorriu de satisfação ao ver sua palidez ao olhar para o armário.

— Isso não é verdade, eu nunca... — Ela engoliu em seco. — Eu estava com medo que me deixasse e perdida, sufocada por meu ciúme, minha inveja, mas, eu amava o meu docinho... — Seus olhos se encherem de lágrimas. — Você disse que não aguentaria, ameaçou deixá-lo em um orfanato, ameaçou me deixar sozinha, com duas crianças pequenas. Eu não tinha dinheiro, você perdeu minha herança e deixei a faculdade... — Seus olhos se encheram de dor e raiva. — Você me prendeu! Me manipulou e eu enxerguei quase tarde demais. Você é um monstro!

— Você é igual a mim! Se sou um monstro, você também é! Se Duda se envergonha de mim, também deve se envergonhar de você! Porque você sempre foi péssima! Péssima mãe, amante, esposa, uma mulher medíocre... — Um estalo alto soou quando ela o esbofeteou, seu rosto bochechudo com uma marca bem distinta de sua mão.

Petúnia parecia chocada por seu ato e soluçou dolorosamente.

— Você está certo... — Com lágrimas escorrendo pelo rosto, ela olhou em volta. — Eu era um monstro nessa casa, igual a você... O que eu estava pensando... — Respirando fundo, Petúnia o olhou com frieza. — Eu não quero nada daqui. Eu mudei e estou melhorando, me renovando e não preciso de nada da velha Petúnia. Tenho uma nova casa, uma nova vida, amigos, família e não quero nada da minha antiga vida, nada que me lembre de você, dessa casa ou da caricatura que eu era. — Enxugando as lágrimas do rosto com firmeza, acrescentou. — Pode ficar com tudo! Engula! Queime! Não me importa! Começarei minha renovação deixando você para traz de uma vez por todas e espero que tenha uma vida muito infeliz, Vernon Dursley!

Ela se virou, passou pela porta a fechando com um baque e foi em direção ao carro, nunca se sentindo tão leve e forte, determinada e destemida. No entanto, quando destravou seu carro, a Sra. Marley do número 6 se aproximou em um trote apressado e chamando-a docemente.

— Oiiii, querida! — Disse ela e Petúnia respirou fundo por ter que se deparar com a maior fofoqueira do bairro. —Petúnia! Finalmente voltou de viagem? Senti tanto a sua falta e dos nossos chás!

— Olá, Sra. Marley. — Disse ela tentando ser educada, apesar dos olhos vermelhos e marcas de lágrimas.

— Querida, mas o que foi que aconteceu? — Ela percebeu rapidamente, como um tubarão que sente o cheiro de sangue, que algo estava errado. — Duda está bem? E Vernon? Oh! Não me diga. Sua tia faleceu! Sinto tanto!

— Tia? — Ela perguntou confusa.

— Sim, sim, pobre Vernon nos contou que você viajou para a Escócia... — Sussurrou ela como se o nome fosse um palavrão. — Para cuidar de uma tia, irmã de sua mãe, que estava muito doente. Ele até nos contou que quando ela partisse, vocês herdariam uma pequena herança e comprariam uma casa em Maiorca, imagine isso! — Disse ela sorridente e invejosa. Ela tinha 60 anos, cabelos brancos cortados em estilo chanel e era bem baixinha. — Espero que me convidem!

— Oh... — Petúnia olhou para a casa e depois para a velha fofoqueira. — O que mais o Vernon disse?

— Bem, ele disse que você levou o Duda com você e que, finalmente, se livraram do pequeno marginal. Vernon disse que estava muito feliz e ansioso com sua volta... não que sua tia morrer seja uma coisa boa, é claro. — Disse ela tentando disfarçar o sorriso.

— Ele disse o que aconteceu com meu sobrinho? — Perguntou ela com a voz endurecendo e Sra. Marley entendeu de maneira diferente.

— Sim. — Seu tom baixou para um de conspiração. — Logo que a polícia apareceu, todo o bairro ficou em polvorosa, bando de fofoqueiros. Eu lhes disse para não incomodar o pobre Vernon, mas..., bem, decidi perguntar por mim mesma, afinal, sou uma grande amiga da família.

— E? — Incentivou Petúnia.

— Ele me disse que o garoto foi pego roubando e outras coisas vis, assim, a polícia veio e o levou para um reformatório... hum... St. Brutus para Crianças Irrecuperáveis. Isso! — Ela disse com satisfação. — Esse era o nome, ainda tenho boa memória, veja. Deve ser um grande alívio se livrar do pequeno marginal, não é mesmo, Petúnia querida?

— St. Brutus... — Petúnia encarou a casa tentando imaginar como era possível sua raiva aumentar e seu arrependimento pelo tapa desaparecer. Desgraçado! — Sabe, Sra. Marley, se a senhora tiver tempo, adoraria tomar o seu delicioso chá. Também senti falta desse nossos momentos e deliciosas conversas, além disso, tenho tanto o que lhe contar.

— Claro, querida, venho e me conte tudo! Prometo manter segredo. — Disse ela com uma risada falsa.

— Estou contando com isso. — Disse Petúnia docemente.

Por mais de uma hora, Petúnia contou a verdade, sem mencionar magia, claro, sobre como era sua vida no número 4. Ela não falou de todo o drama emocional, mas se focou nas mentiras sobre Harry e as consequências.

— Não posso acreditar! Todo esse tempo! Oh, pobrezinha, como deve ter sofrido! — Disse Sra. Marley e parecia sincera, o que era incomum. — Se eu soubesse... — Seus olhos se entristeceram. — Meu marido também era abusivo comigo, não com meus filhos, graças a Deus. Quando ele morreu na guerra, senti um grande alívio.

— Eu não sabia disso. — Disse Petúnia ao ver seus olhos entristecidos.

— Nunca falo sobre isso, pois sei que algumas pessoas me julgariam, mesmo que ele tenha morrido a mais de 30 anos. Naquela época, era muito pior, você deveria apanhar e esconder, aguentar e seguir em frente, mas, mesmo nos dias de hoje, as pessoas nos culpam e não percebem como estamos vulneráveis com nossos sentimentos e corpo. — Disse ela e apertou sua mão. — Sinto muito que tenha passado por isso porque, mesmo sem uma marca em seu corpo, olho para você e vejo as marcas emocionais que eu tive um dia.

— Eu posso enfrentar e superar isso, Sra. Marley... — Seus olhos se encheram de lágrimas. — Desculpe..., apenas, meu sobrinho é um menino tão doce e permiti que todos acreditassem naquelas mentiras, deixei que Vernon o maltratasse e, no fim, quase o perdi tragicamente. Estou lhe contando isso porque sei que poderá contar para as outras mães que mantenham seus filhos longe dele. Seu temperamento... — Suspirando, ela usou um lenço para enxugar o rosto. — Ainda que em breve virá o julgamento e Vernon será condenado, espero.

— Eu também. — Disse ela com firmeza e acenou resoluta. — Não se preocupe, querida, avisárei-las sobre seu temperamento, mas manterei o resto em segredo.

Quando entrou no carro alguns minutos depois, Petúnia viu a Sra. Marley bater na porta do número 7, que não tinha crianças, e sorriu com satisfação. E, enquanto retornava para Londres, na Rua dos Alfeneiros e adjacentes, se espalhou, muito rapidamente, a verdade sobre o monstruoso Vernon Dursley e seu doce e espancado sobrinho, Harry Potter.

Harry estava paralisado, olhando para a gigantesca casa ancestral da Família Potter. Ele sabia que era uma Mansão, sabia que deveria ser grande, sabia que sua família era rica, bem, um pouco mais que isso..., na verdade, muito mais que isso, admitiu. Ele também tinha a intuição de que a Mansão Potter seria muito diferente da Mansão Hallanon e, ainda, não estava preparado para tudo isso.

Sirius os aparatou para o jardim da frente, mesmo que Harry alegou que não se importava de caminhar.

— Isso seria muito demorado e já estamos atrasados, Harry. — Disse ele suavemente. — Toda essa floresta faz parte da propriedade e, de carro, seria um trajeto de uma hora até a casa.

— Uau! — Ele disse chocado. — E, está tudo sob as alas? Os trouxas não podem vê-la? — Harry sabia que a Floresta em volta do Chalé Boot não estava sob as alas e os trouxas a viam, isso mudava quando se aproximavam da casa.

— Sim. Eles não veem nada por um lado e, pelo outro, tem um pântano, isso os mantem longe. — Disse ele e, estendendo o braço, acrescentou. — Vamos?

E, assim, aqui estavam, diante da maior casa que o Harry já viu. A Abadia era grande, antiga e sombria, Hallanon era igualmente antiga e grande, mas luxuosa. Agora, a Mansão Potter era...

— Que incrível e... grande. — Sussurrou ele como se não devesse levantar a voz diante de tanta beleza.

— Sim. Você entenderá melhor porque é tão grande quando entrarmos, mas, lembre-se que os Potters sempre tiveram muitos filhos. Seu avô e seu pai foram a exceção. — Disse Sirius com as mãos nos bolsos e olhando para a casa com carinho. —É quase como voltar para casa...

Harry acenou, pois tinha a mesma sensação. A impressionante Mansão ficava em um ponto elevado do terreno e cercado por árvores, na verdade, a impressão era de que a casa brotara no meio da Floresta Stone Waterfall, pois as árvores a envolviam completamente. A estrada, que seguia desde o portão, terminava abruptamente em frente a um pequeno jardim nevado que no verão deveria ter grama. Havia uma fonte no meio, cuja água escorria com um barulho calmante de uma cachoeira de pedras cinzas escuras. A fonte ficava bem em frente a porta de folha dupla e vermelha da entrada da Mansão e, a sua volta, havia um calçamento de pedras acinzentadas formando um grande círculo. Harry poderia ver os carros sendo estacionados ali e as pessoas subindo pelos degraus de pedra branca da escada, até a varanda e, então, alcançando a bonita porta vermelha.

Do lado esquerdo e direito haviam árvores e, ao fundo, um morro se elevava, não tão alto como o Monte Ken, mas a Floresta seguia morro acima, em um cenário incrivelmente bonito e nevado. No entanto, a Mansão em si era o mais impressionante, toda feita com tijolinhos pintados de branco, brilhava refletido pelo sol de inverno, assim como a neve. Detalhes em madeira marrom claro, faia, Harry reconheceu, estavam por toda a parte, contrastando e decorando a fachada da Mansão e tornando-a ainda mais bonita. Mas, o que mais o impressionou foi seu tamanho e sua arquitetura medieval que, com as torres, lhe lembrou um pequeno castelo.

A Mansão formava um U gigantesco, a frente tinha uma grande construção de um andar, de teto alto, cinza e caídas para frente e para os fundos. Em seus cantos, haviam duas torres quadradas e altas, 3 andares, adivinhou Harry, pelas janelas. Do lado direito, a torre quadrada iniciava uma das a pernas do U, onde tinha mais uma grande construção de três andares e duas torres redondas. Do outro lado, na perna esquerda do U, tinha outra construção de 2 andares com um telhado alto e curvo.

— Estou chocado com quão grande... Quantos quartos tem? — Perguntou curioso.

— Não tantos assim. — Ao ver sua expressão incrédula, Sirius riu. — Vamos entrar e você entenderá. Vamos lá!

Sirius parecia incrivelmente animado para lhe mostrar e Harry estava igualmente em ver, assim eles passaram pela linda fonte e subiram os degraus de pedras brancas que brilhavam lindamente.

— É calcário branco e no pátio é calcário cinza. — Disse Sirius ao ver seu olhar encantado. — E, na fonte, calcário verde escuro. São pedras resistentes e muito bonitas.

— Com sabe disso tudo? — Harry perguntou curioso.

— Bem, morei aqui por... mais de um ano, ou dois verões, mais precisamente. Sua avó amava essa casa e me contou uma coisa ou outra, mas, nada comparado ao seu avô. — Sirius riu divertido. — Sr. Fleamont era incrivelmente conhecedor de cada aspecto da casa, quando foi construída, quando foi reformada, quando isso ou aquilo foi acrescentado. Você perceberá que apesar de uma construção medieval, ela recebeu, ao longo dos séculos, pequenas modernizações em sua estrutura, arquitetura e decoração. O maior acréscimo de seus avós, além da decoração, foi a modernização dos banheiros e a construção do campo de quadribol.

Quando terminou de falar, Sirius abriu a porta vermelha, que não estava trancada e parou quando viu o Harry o encarar de boca aberta.

— Tem um campo de quadribol? — Harry sussurrou como se falasse um segredo.

Sirius sorriu divertido.

— Ora, eu não te contei? — E, entrou na Mansão.

— Não! Com certeza, eu me lembraria se... — Harry o seguiu e parou abismado com o que viu. — Merlin!

A porta se abria para uma imensa sala de estar de pé direito alto, vigas de madeira de faias expostas, paredes brancas, móveis simples e cores quentes, aconchegantes. No lado oposto da imensa sala, havia uma parede de vidro que abrangia toda a sala de estar, mais de 20 metros, com certeza e que dava para um imenso jardim florido, o que fez Harry abrir boca de espanto. Era inverno! Como um jardim tão grande, verde, florido e bonito poderia existir no inverno? A resposta veio um segundo depois. Mágica! No meio do grande jardim, além da grama verde, flores, plantas e árvores coloridas, tinha uma gigantesca estufa feita com vidro e faia branca. A visão era linda, florida e enchia a sala de estar de luz e tornava tudo encantado.

Harry caminhou pelo hall aberto na direção da sala que tinha um sofá azul com almofadas brancas e amarelas. O chão era de madeira de faia, como as vigas, os móveis de madeira, mas pintados e não marrom como o chão. Tinha um único tapete xadrez em vermelho e verde escuro, poltronas vermelhas ou azuis. Não tinha cortinas ou obras de artes luxuosas, os candelabros eram meio antigos e rústicos em bronze, mas, combinavam com a decoração colorida, eclética e meio campestre. Harry adorou, não tinha as cores pastéis e chatas do número 4 ou o luxo de veludo vermelho e ouro de Hallanon. Parecia uma mistura de casa de campo, com fazenda e um lar, colorido e aconchegante.

— Bem, pela sua expressão e sorriso, acredito que você gostou. — Disse Sirius.

— Sim... — Disse ainda em um sussurro e olhou para a direita onde tinha uma lareira de mármore rosa na parede. Depois da parede surgia um corredor que levava a uma escadaria imensa de madeira brilhante. — Tão lindo, alegre, colorido e aconchegante, acho que jamais estive em uma casa tão linda.

— Sim, sua avó tinha muito bom gosto e era uma pessoa com personalidade e temperamento fortes, jamais viveria em uma casa onde não tivesse cores alegres. — Sirius sorriu com a lembrança.

— Onde vamos agora? — Harry perguntou ansioso.

— Bem, deixe-me explicar a disposição da casa. — Disse Sirius. — Aqui é uma sala de visitas, claro, e onde a família se reunia entre si e com convidados para conversarem antes do jantar. Do lado direito, que é a Ala Sul, no térreo, existe uma sala de estar mais intima, uma biblioteca, escritório e uma galeria de quadros dos seus antepassados. Ali no canto da torre, ainda no térreo, está um banheiro social e subindo para o primeiro e segundo andares estão os quartos, na casa toda tem um total de 26, mas...

— 26? — Harry arregalou os olhos.

— Sim, no segundo andar tem 8 quartos para hospedes familiares, amigos próximos e, na torre quadrada, uma pequena surpresa. No terceiro andar, são 10 quartos exclusivos para a família que, antigamente, era muito grande, muitos filhos, tios, primos, além disso, na época em que a Mansão foi construída, era comum as pessoas ricas terem Mansões.

— Entendo. — Harry acenou, ainda que não conseguia entender ter tantos quartos. Ele vivera a maior parte de sua vida em um armário!

— Bem, a Ala Sul é a parte mais intima e familiar da casa, mesmo os quartos de hospedes são ocupados só por familiares. Tradicionalmente. — Explicou Sirius e Harry gostou disso. — No lado esquerdo, a Ala Norte, é a área mais social da casa, no térreo da torre quadrada está a cozinha, subindo a torre, primeiro e segundo andares, estão os quartos dos empregados. Seguindo pela perna do U, no térreo, tem uma grande sala de jantar que tem ligação com o Pavilhão de Bailes. — Sirius apontou para a grande estrutura de vidro.

— A estufa? — Harry estava confuso.

— Não é uma estufa, é um solário ou Pavilhão para bailes e festas. O Jardim Encantado, como é chamado, está encantado para ficar florido o ano todo e sua avó dava lindos bailes dentro do Pavilhão com músicas e danças, bebidas e comidas deliciosas. — Sirius apontou e Harry se aproximou mais da parede de vidro da sala e, mesmo à essa distância, conseguiu perceber que o Pavilhão todo de vidro estava vazio.

— De ser grande... — Disse Harry pensativo.

— Muito, cabe umas 400 pessoas, tranquilamente, e as portas se abrem para o jardim, tem o cheiro das flores, as luzes e a música. Verdadeiramente mágico. — Sirius suspirou e pontando para o lado esquerdo, continuou. — A Ala Norte tem apenas mais um andar, onde termina os 26 quartos da casa, esses são os quartos de hospedes para pessoas que não são da família. Associados, amigos, conhecidos ou mesmo inimigos, como dizia a sua avó.

Harry acenou e olhou para o padrinho com um sorriso brilhante.

— Onde está o campo de quadribol?

— Ah! Deveria saber, bem, se quer começar pelo mais legal... Vamos lá! — Disse ele e o levou para a esquerda, na Ala Norte.

Depois da sala de estar, eles seguiram por um corredor, onde tinha uma escada simples para os quartos dos hospedes, mas eles não subiram e, ao fim do corredor, chegarem a sala de jantar que era incrivelmente grande. Harry arregalou os olhos ao contar uma mesa de madeira avermelhada, com 30 cadeiras estofadas em cinza perolado. Talvez fosse o móvel e o cômodo mais formal e luxuoso da casa, ou assim Harry esperava, supôs que isso se devia a jantares de negócios, políticos e formais que seus antepassados realizavam.

— Seu avô disse que um de seus antepassados, o que fundou a madeireira, fez essa mesa de um cedro vermelho. Sua avó não gostava tanto, mas ele adorava a mesa, assim, ela nunca redecorou, com exceção das paredes, claro. — Disse Sirius sorrindo e Harry entendeu sua diversão, pois as paredes eram pintadas em listras pratas, brancas e verdes, com candelabros em bronze. Ele podia ver o contraste com a mesa mais escura, no entanto, Harry teve a sensação que tudo se encaixava porque as cores eram Slytherins e as cobras eram elegantes e formais.

— Eu gosto. — Disse sincero e Sirius acenou para duas gigantescas portas de vidro e ferro branco que ficava de frente para a lateral do Pavilhão.

— Quando se abre para o jardim, fica menos formal e você pode ver que sua avó tirou a madeira do piso. — Sirius apontou para o chão de lajotas branca e vermelha. — Sua avó encontrou essas lajotas portuguesas quando foi atrás de pedras para fazer o pátio da entrada. Sra. Euphemia se apaixonou por elas, me contou seu avô, e quis colocar na sala de jantar e cozinha, como você pode ver, mesmo com a mesa mais escura, Sra. Euphemia conseguiu acrescentar cores por todo o lado.

— E aquela porta, leva para o que? — Harry apontou para uma porta de folhas duplas de madeira branca que ficava do outro lado da sala, depois da mesa de jantar.

— É a sala de jogos ou salão de jogos. — Sirius explicou. — Depois de um jantar formal ou recepção, mesmo uma festa, era organizado jogos de cartas naquela sala. Muito comum no século 19, as mulheres se retiravam para a sala de estar e os homens iriam para o salão. Em uma festa, seria usado como entretenimento, além de dançar, comer, beber, ouvir música e conversar, os convidados poderiam participar de um carteado informal.

— Hum. — Harry disse sem ter muito o que dizer sobre isso, mas imaginou que mesmo os adultos gostavam de se divertir em sua festa.

— Vem? — Sirius o convidou.

Harry o seguiu por outra porta dupla branca que ficava à esquerda, no início da sala de jantar e a frente da grande mesa. E, mais uma vez, perdeu o fôlego. Se as cores e leveza campestre era o tema de decoração preferido de sua avó, a cozinha não era diferente. Era gigantesca, retangular e tinha uma mesa tão grande quanto a mesa da sala de jantar, Harry adivinhou que era como em Hogwarts, a comida era disposta aqui e aparecia magicamente na outra mesa. Inteligente, pensou, com um sorriso, se apaixonando pela cozinha, na verdade, adoraria cozinhar nela.

A mesa era de carvalho branco e ficava em um lado, não ocupando a parte central da cozinha, que tinha as mesmas lajotas portuguesas, mas em branco e azul. Paralelo a mesa, havia uma grande bancada de mármore branca que devia ser usada pelos cozinheiros para a preparação das refeições. A bancada era tão grande quanto a mesa e fazia um lindo contraste com as bancadas que rodeavam a paredes da cozinha em um U. Elas eram de outra pedra, esverdeada e estranha, os armários também eram de um azul cobalto fosco muito bonito, as paredes brancas e janelas azuis.

— Nossa, eu... — Harry suspirou. — Não tenho palavras... — Seus olhos se encheram de lágrimas ao pensa como seria crescer aqui, nesta cozinha, o coração da casa, com seus pais e avós. — Teria sido a melhor de todas as vidas. — Sussurrou se aproximando e tocando a pedra verdade estranha. — Sirius, que pedra é essa?

— Oh, bem, é um pouco chocante, mas, é jade. — Respondeu ele timidamente.

— O que? — Harry o olhou chocado.

— A pedra já estava aqui a séculos, sua avó renovou os armários azuis, ela adorava azul, mas, as pedras das bancadas de jade, já estavam e eles nunca pensaram em tirar, claro. Seu avô disse que quando foi feita, provavelmente, os Potters tinham uma mina de jade e devia ser abundante, além de barata, assim...

— Isso significa que tem milhões de galeões em bancadas de cozinha de jade, bem aqui! — Sussurrou Harry perdido.

— Sim. Pitoresco, não é mesmo. — Sirius deu de ombros divertido e Harry riu, seu padrinho logo o acompanhou.

— Isso nem começa a descrever. E essa bancada, é mármore mesmo?

— Quartzo branco e também foi colocado pela sua avó, antes era uma bancada de madeira. — Sirius apontou para a mesa de carvalho. — A mesa transporta a comida como em Hogwarts em jantares formais, no resto do tempo, é usada pela família nas refeições. A escada ali, leva para o segundo e terceiro andares da torre quadrada da Ala Norte, onde ficam os quartos dos empregados. E, a escada pela qual passamos no corredor leva aos quartos de hospedes. Vamos seguir.

— Espere. — Harry ignorou os fogões e pias antigas que precisariam ser atualizados e apontou para o chão. — Porque os detalhes em vermelho na sala de jantar, se minha avó gostava de azul? Porque não colocou lajotas azuis nos dois lugares.

— Porque seu avô disse que se a decoração seria em sua maioria em azul, verde e prata, tinha que ter um toque Gryffindor aqui ou ali. — Sirius disse sorrindo. — Em alguns poucos cômodos você encontrará vermelho ou dourado, principalmente na biblioteca e laboratório do seu avô, além do quarto deles, claro. Na sala de jantar tem a mesa que é de cedro vermelho, assim, as lajotas banca e vermelha combinavam.

— Ok. Faz sentido. — Disse Harry sorrindo.

Eles seguiram para a porta lateral e Harry viu algumas portas que Sirius explicou que eram a despensa e câmara fria. Isso o impressionou, pois já vira grandes caixas frias, mas, nunca um cômodo inteiro sendo usado como geladeira, depois percebeu que era o mais inteligente para organização. Em uma caixa fria, você poderia ter espaço com magia, mas, tudo ficaria perdido e misturado lá dentro. Seguindo pelo corredor, saíram para uma porta lateral que entrava direto na floresta, eles pegaram uma trilha e, depois de alguns metros, Harry não pode mais ver a porta por causa da grande quantidade de árvores.

A caminhada era de 15 minutos e foi quando uma clareira se abriu e Harry abriu a boca sem fôlego de novo.

— OH! Meu... Deus! Como! Sirius! — Harry gritou maravilhado.

— Seus avós fizeram isso e deram de presente para o seu pai quando ele entrou para o time de quadribol no segundo ano. — Sirius tinha um sorriso de rachar a cara. — Disseram que ele precisaria continuar treinando durante o verão, voando, criando estratégias e quem sabe chamar o time para alguns treinos extras. Nos divertimos muito aqui, acredite.

O estádio era idêntico ao de Hogwarts, até mesmo as arquibancadas e camarotes dos professores, as cores, os aros. Uma estrutura na lateral deveria levar ao vestiário e onde se guardavam as vassouras.

— ISSO É FE-NO-ME-NAL! — Gritou Harry maravilhado. — Mas, porque é idêntico ao de Hogwarts?

— Oh! Isso foi tudo ideia do seu pai. — Sirius contou entusiasmado. — Ele chegou no verão e encontrou essa surpresa, ficou eufórico e começou a trabalhar, chamou o time para treinar e tudo, mas, logo quis fazer essas mudanças. James queria que fosse idêntico ao estádio de Hogwarts por uma questão de referência, pois, quando você monta uma estratégia ou se habitua a jogar com pontos de referências específicos, a tendência é um maior entrosamento do time, das jogadas, mesmo dos lançamentos para os aros. Seu pai era um gênio, Harry, ele dizia que nosso cérebro age institivamente quando jogamos e, se temos algo como referência, por exemplo, aquele ponto amarelo da arquibancada, sabemos a força e direção do lançamento, pois sabemos a distância que estamos do aro, sem precisar pensar. Porque foi treinado e se incorporou ao nosso inconsciente.

— Incrível! — Harry sorriu orgulhoso e olhou para o estádio, seus pensamentos imediatamente foram para como teria sido incrível aprender a voar aqui com seu pai e seu coração se apertou.

Fechando os olhos, ele suspirou, não podia continuar fazendo isso, não podia olhar para cada pedaço da propriedade e imaginar o que poderia ter sido. Tinha que se concentrar no que poderia ser e abrindo os olhos, sorriu ao imaginar o seu time aqui, treinando durante o verão. Oh! Trevor ficaria eufórico! E Scheyla! Sua prima amaria visitá-lo! E, ele podia jogar com a Ayana, lhe ensinar alguns fundamentos e descobrir em qual posição ela era melhor!

— Vamos, eu tenho muito para lhe mostrar, podemos voltar mais tarde e voar. — Sugeriu Sirius e eles retornaram.

Com sua nova disposição, Harry, ao entrar na cozinha, não viu imagens fantasmas e sim o que poderia viver ali. Sorriu ao pensar em cozinhar, assar, ensinaria seus irmãos a fazer mais biscoitos, brownies, cookies e poderia aprender com a Sra. Madaki a preparar bolos de aniversários, talvez, pudesse cozinhar uma deliciosa paella com o Rodrigo. Seu sorriso era tão brilhante que Sirius não interrompeu seu momento de reflexão, enquanto isso, examinou a despensa, câmara fria e subiu rapidamente aos quartos dos empregados, encontrando-os limpos, bonitos e bem conservados.

— Lá em cima tudo está bem, sei que não quer ou precisa ver cada cômodo, mas, preciso verificar se não surgiu nenhum tipo de infestação. — Explicou ele ao descer. — A casa tem magia para protegê-la, mas as vezes... Imagino como deve estar a mansão Black. — Disse com uma careta de desgosto.

— Onde fica?

— Em Londres. — Sirius não queria falar sobre isso, assim, continuou. — Onde quer ir agora?

— Acho que devemos começar de cima e descer. — Harry disse pensativo. — Deste lado tem o salão de jogos, a sala de jantar e cozinha no térreo, assim, vamos olhar os quartos de hóspedes.

Sirius concordou e eles voltaram pelo corredor que os levava para a sala de estar, mas subiram as escadas até os 8 quartos de hóspedes. Eles eram divididos por um corredor, 4 dos quartos e um banheiro tinham as janelas viradas para o campo de quadribol. Enquanto os outros 4 quartos tinham as janelas direcionadas para o Jardim Encantado. Todos os quartos eram grandes e arejados, pintados de branco, camas e armários mais formais e antigos, tapetes simples, cortinas amarelas claras ou brancas. O corredor tinha o mesmo chão de madeira marrom que os quartos, vasos, quadros e papel de parede antiquado com flores amarelas.

— Essa parte da casa precisa de redecoração. — Ele decidiu suavemente.

— Sim, seu pais diminuíram as festas ou reuniões depois do início da guerra e, mesmo antes, eles não gostavam de ter estranhos perto de James. Eram muito protetores. — Disse ele pensativamente. — Quando esse for seu lar, pode redecorar.

Harry riu divertido e olhou na direção do campo de quadribol.

— Consigo pensar em coisas melhores para fazer e não tenho a intenção de ter estranhos em minha casa também. — Harry suspirou ao pensar em um momento no futuro distante em que ele seria protetor com seus filhos. — Vamos manter assim mesmo por enquanto, acho.

Quando voltaram para a sala de estar, o contraste era gritante e muito fácil ver que sua avó não era a decoradora do primeiro andar da Ala Norte.

— Eu amo essa sala, posso sentir a energia da vovó e sua personalidade. — Harry pegou uma foto de Euphemia em um dos aparadores. Toda a sala tinha muitas fotos, a maioria eram do seu pai em diferentes idades. — Essas paredes de vidro já existiam?

— Sim, seu avô tem documentado as reformas, alterações e acréscimos, quando e quem os fez. — Sirius sorriu para uma foto em que sua avó beijava seu avô na boca e ele corava timidamente. — Sua avó era pura energia e animação, alegre e brincalhona, essa sala, a cozinha e parte da Ala Sul mostram isso.

Eles foram para o fim da sala que tinha a parede com a lareira a separando do corredor e pararam aos pés da escadaria ampla. Do lado direito da escada, havia uma porta que levava a um banheiro social, do lado esquerdo, o corredor continuava, bem claro, e mostrava de um lado as portas para os cômodos do térreo e, do outro, as portas de vidro que se abriam para o Jardim Encantado. Harry olhou um pouco confuso ao perceber que os cômodos não tinham janelas para o jardim florido.

— Não entendo, porque não colocaram o corredor do outro lado e, assim, as janelas do escritório e biblioteca, que estão nesta perna no U, teriam a vista deste jardim incrível!? — Harry perguntou.

— Ah! — Sirius sorriu misterioso. — Você verá. Vamos subir?

Harry acenou, subindo os degraus de madeira brilhante e ficou surpreso ao ver que ela se bifurcava para a direita e esquerda.

— Bem, para a direita, seguimos na direção da torre quadrada da frente da casa onde está o laboratório de poções. — Disse Sirius e Harry sorriu de animação.

O laboratório, que ficava a cima do banheiro social, não estava trancado e era tão grande, bonito, arejado e iluminado, que Harry mais uma vez abriu a boca de espanto. A área quadrada e espaçosa tinha imensas janelas na parede lateral e na parede da frente da casa, onde também havia uma sacada. Uma escada levava a um mezanino que rodeava toda a parede e tinha prateleiras cheias de livros e, outra escada, subia do mezanino para uma plataforma de madeira que deveria ter sido um sótão antigamente. Harry pode ver um grande telescópio sobre a plataforma que estava apontado para o céu pela claraboia do telhado. O telhado de quatro águas tinha apenas essa abertura de vidro e Harry adivinhou que servia para observar o céu, mais do que iluminar o ambiente.

— Hum, como se observa o Norte, se a claraboia está direcionada para o Sul? — Perguntou Harry pensativo. Na verdade, o ideal era ter uma claraboia em cada triângulo do telhado para observar todos os lados.

— Ah, quando precisar utilizar o telescópio, apenas aciona algumas magias e o telhado onde está a claraboia se abre e a plataforma se eleva para fora. — Sirius disse como se falasse sobre algo perfeitamente normal e chato. — Mesmo que houvesse claraboias nas quatro caídas, existiram pontos cegos na estrutura do telhado e isso não seria nada inteligente.

Harry apenas acenou achando melhor não comentar sobre quão incrível isso era ou se tornaria repetitivo.

O laboratório em si tinha várias mesas de trabalho, eram espaçosas e com fogareiros. Na parede, abaixo do mezanino, armários com portas de vidro cheios de ingredientes e equipamentos para preparação de poções, além de frascos com poções.

— Esse era o laboratório do vovô? — Sussurrou Harry sentindo que estava invadindo um espaço de trabalho sigiloso.

— Sim, ele era um potioneer incrível, um inventor. — Disse Sirius com carinho. — O telescópio o ajudava a acompanhar os movimentos dos planetas e da lua, importantíssimo na preparação de algumas poções. Ele tinha uma empresa, claro, mas, quando a vendeu, passou a trabalhar em casa. O laboratório, então, era no porão, algo comum de se fazer antigamente, mas, sua avó detestava o lugar, úmido e escuro demais, ela dizia. Também temia que passar muito tempo lá adoeceria o seu avô, assim, eles reformaram a torre e transformaram nisso.

— É fantástico e... acho que me cansarei de tanto elogiar tudo. — Harry suspirou e se forçou a pensar em preparar suas poções ali, ensinar Adam e quem sabe um dia seus filhos, e sorriu com o pensamento. — Esses livros...

— Oh! Não é a biblioteca, são todos livros de poções ou livros relacionado a isso, mesmo alguns sobre a família Potter. Sr. Fleamont gostava de ter esses aqui quando estava trabalhando, era mais fácil do que ter que ir a todo momento para a biblioteca. — Informou Sirius e sorrindo, continuou. — Você me perguntou porque as janelas da Ala Sul estão viradas para a floresta e não para o Jardim Encantado. É possível ver a resposta daqui.

Harry o acompanhou até a janela lateral, que Sirius abriu calmamente e olhou para a floresta nevada até...

— Isso é... um lago congelado? — Ele arregalou os olhos e abriu a boca de espanto e encantamento. — Não acredito...

— Sim, as janelas estão viradas para o lago que, no verão e primavera, é uma vista de tirar o fôlego. No inverno ele congela, mas, no outono, é o meu preferido porque as folhas das árvores ficam todas avermelhadas antes de caírem. — Sirius explicou sonhador. — Seu avô amava, claro, assim como pescar no lago.

— Eu... cada momento, estou mais encantado e não acredito que este é o meu lar. — Harry disse emocionado. — Dá para patinar neste lago? — Perguntou ele meio rindo.

— Sim. — O sorriso de Sirius aumentou.

— Eu tenho uma pista de patinação particular em minha casa! — Harry gargalhou de incredulidade e emoção.

— E, não se esqueça que poderá pescar no verão. — Disse Sirius feliz por ver o afilhado tão alegre.

— E, nadar! Adoro nadar. — Disse Harry pensando em como o Neville amaria vir nadar em um lago na floresta e perdeu o sorriso misterioso de Sirius. — Isso é incrível... quer dizer, sei que encontramos aquela lagoa incrível na caverna em Hallanon, mas, é a casa de Diona e não poderemos nadar quando quisermos. Isso... — Harry apontou para o lago imenso. — Além de maior, é mais especial.

Talvez porque seja mais sua casa do que Hallanon jamais seria, considerou Harry.

— Vamos seguir? — Sirius sugeriu e Harry concordou. — Bem, o primeiro andar são os quartos de hóspedes para familiares e amigos próximos, são 8 quartos.

Harry percebeu que esses quartos tinham mais do toque de sua avó, ainda que os móveis fossem mais antigos do que os que estavam na sala de estar. Cada quarto tinha sua própria cor e ele percebeu que era uma espécie de classificação, fulano ficaria no quarto verde, ciclano no quarto amarelo e assim por diante. Os quartos ali tinham seus próprios banheiros, enquanto que os da Ala Norte não tinham esse conforto, havia apenas um banheiro no corredor para ser dividido entre os hóspedes. Harry entendeu o porquê, a ideia era que, na Ala Norte, se hospedariam conhecidos ou pessoas que a família não queria que ficassem por muito tempo. Assim, quartos simples e impessoais, mas, aqui, havia mais conforto e toques pessoais, ainda que a sensação era de que não eram usados a muito tempo.

O corredor do primeiro andar também tinha janelas para o Jardim Encantado e Harry percebeu outra diferença. Na Ala Norte, o corredor ficava no meio, entre os quartos que tinham janelas viradas para a floresta de um lado e para o jardim do outro.

— Espere... — Ele parou confuso tentando entender a arquitetura. — Na Ala Norte são 8 quartos, a perna do U recebe quatro quartos de cada lado com o corredor no meio. Aqui, são os 8 quartos, um ao lado do outro por toda a lateral, com um único corredor e, esses quartos são claramente maiores, mas, tive a impressão de que as construções terminavam em paralelo.

— Bem observado. A questão é que essa torre quadrada da Ala Sul, que fica à frente da Mansão tem, no térreo, um banheiro, primeiro e segundo andares, o laboratório de poções. — Sirius explicou. — Na torre quadrada da Ala Norte, existe no térreo a cozinha, subindo tem os quartos dos empregados, certo? — Harry acenou acompanhando. — Esses quartos eram pequenos e básicos, ocupavam o primeiro e segundo andares da torre, mas, em algum momento, uma das senhoras Potters decidiu abocanhar uma parte do espaço da perna do U e aumentar a área dos empregados. Agora, cada quarto tem um banheiro e uma pequena saleta para os empregados receberem convidados, também foi adicionado uma cozinha para poderem se reunir e prepararem suas refeições quando estão de folga ou em alguma ocasião especial. Assim, a área de hóspedes diminuiu e a ideia foi manter os 8 quartos, mas, isso os tornou menores, também havia mais de um banheiro no corredor, agora tem apenas um. E, o corredor era na parede oposta, com as janelas dos quartos para o jardim, mas, eles mudaram isso e colocaram no meio, entre os quartos.

Harry acenou e suspirou pensativo.

— Enquanto eu amo a casa, tudo é tão fantástico e especial, me parece muito grande, muitos cômodos sem utilidade. — Disse ele com o cenho franzido.

— Bem, mas as coisas mudam quando somos adultos, Harry. — Disse Sirius dando de ombros.

— Não consigo ver um mundo onde precisarei de 16 quartos de hospedes e não sei quantos mais de empregados. — Disse Harry exasperado.

— São seis suítes para os empregados, a cozinha... Olha. — Sirius falou quando o viu arregalar os olhos. — Você não sabe como será o futuro, talvez nunca seja necessário receber tantos hóspedes, a não ser em ocasiões especiais, mas, essas ocasiões poderão existir. E, mesmo que não precise de 6 empregados, ainda poderá precisar de alguns e a área deles é muito bonita e agradável. Você não viu, mas, sua avó deu o seu toque e criou junto a cozinha uma pequena sala de convivência para os funcionários.

— Bem, me cite uma possibilidade de isso tudo um dia acontecer. — Disse Harry o desafiando e Sirius riu divertido.

— Oh! Vamos ver, você se casará um dia com uma linda garota e vocês poderão ter 5 filhos ou 10...

— 10! — Harry gritou arregalando os olhos. — Quem tem 10 filhos!?

Sirius riu ainda mais e Harry o acompanhou.

— Estou apenas mostrando que, na vida, tudo é possível. Vamos ficar em cinco, então. — Sirius apontou para o segundo andar. — Lá em cima tem os 10 quartos que faltam...

— Nesta sua conta de 26 quartos, você não incluiu os seis dos empregados. — Observou Harry ironicamente.

— Sim, porque não se conta os quartos que não estão disponíveis para o uso da família, obviamente. — Sirius respondeu no mesmo tom. — De qualquer forma, com 5 filhos, mais o seu, sua família ocupará 6 dos 10 quartos, pode usar outro para quartos de jogos e sua esposa pode querer ter um escritório ou saleta pessoal, já que você ocupará o escritório do térreo.

— Ok. — Harry acenou pensativo. — Me parece que a área familiar está com um número correto quartos. Se, eu tiver 5 filhos, veja bem

— Sim, então seus 5 filhos crescem e vão para Hogwarts e cada um terá um ou dois melhores amigos, ou três, como você. — Sirius sorriu ao ver seus olhos se arregalarem. — Neste cenário, existe a possibilidade de que, durante os verões, você e sua esposa terão, não sei, 20, 25 adolescentes entrando e saindo de sua casa, alguns ficarão para dormir. Festa de pijama e outras coisas que adolescentes fazem.

— Oh, nossa! Definitivamente, não terei 5 filhos. — Disse Harry meio apavorado.

Sirius gargalhou e apontou para deixarem o quarto.

— Ok, ainda assim, eles terão amigos, namorados, namoradas. Não se esqueça que seus amigos terão filhos, Terry, Adam, Ayana e Duda também e você os receberá para jantar, passar o fim de semana, jogar quadribol e se divertir no lago. Acompanha?

— Sim. — Harry arregalou os olhos ainda mais, se cada um dos seus amigos, irmãos e primo, tiverem 5 filhos. Merlin o salvasse, a Mansão Potter ficaria pequena!

— Então, um dia seus filhos crescerão e terão filhos. Aposto que o vovô Harry quererá que todos os seus netinhos fiquem bem perto ou até vivam por aqui, como era antigamente. — Sirius sorriu ao ver o Harry ficar meio pálido. — Agora, você entende como os quartos extras e os empregados serão mais do que necessários?

Harry acenou entendendo e percebeu que seus avós devem ter sido muito tristes em terem a casa vazia por tanto tempo, até a chegada do seu pai.

— Sim. — Ele subiu as escadas para o último andar ao lado do seu padrinho. — Mas, isso me faz pensar que as pessoas que receberei aqui serão mais da família, amigos meus ou dos meus filhos, assim, aquela área de hospedes lá é muito impessoal e sem graça.

— Bem, sua esposa pode redecorar... Ah! Esqueci, sua esposa pode ter uma família grande também, sabe, irmãos e, depois, sobrinhos. — Harry gemeu apavorado e Sirius riu. — Acalme-se, talvez você tenha sorte e ela seja filha única.

Os dois riram divertidos e entraram no corredor largo e iluminado pelas janelas que se abriam para o Jardim Encantado. Haviam 10 portas e, se os quartos do andar debaixo eram maiores do que os da Ala Norte, os quartos da família eram ainda maiores. Todos suítes, com varanda que ficavam de frente para o lago, decorações suaves, coloridas e aconchegantes, móveis mais novos, quando comparados aos dos outros quartos.

Eles falaram pouco no quarto dos seus avós que estavam do jeito que eles deixaram quando morreram. Sirius foi na frente e verificou para qualquer infestação, mas, tudo estava limpo, preservado e claro. A suíte principal era quase do mesmo tamanho da imensa sala de estar do térreo, tinha uma pequena saleta com sofás vermelhos e tapete branco. Uma porta dupla de madeira na cor branca que se abria da saleta para o quarto, que tinha uma grande cama de dossel trabalhada e romântica. O chão era de madeira clara e tapetes de pelos brancos ficavam nas laterais da cama e em frente a duas poltronas. E terminava aí as cores mais neutras, pois as poltronas eram verdes e vermelhas, Harry adivinhou que uma era de seu avô e a outra da sua avó. A colcha da cama era em xadrez vermelho e azul escuro, as cortinas em roxo claro e as paredes em verde floresta. Era intenso, como sua avó, pensou Harry quase ouvindo sua risada alta e sentindo sua intensa energia. Então, ele viu uma mesa de madeira igual à da mesa de jantar, alguns objetos, detalhes em vermelho, mais sóbrio, quase tímidos que mostravam a presença do seu avô. Tudo combinava e os descrevia tão bem que Harry sentiu mais saudades e próximo deles do que em qualquer momento de sua vida.

— Eles se foram aqui? — Perguntou suavemente e Sirius pigarreou.

— Sim. — Ele respondeu sem acrescentar mais nada, porque tudo já fora dito.

Harry olhou no closet, encontrou as roupas deles preservadas e suspirou cansado. Quantos quartos fantasmas existiam em sua vida? O quarto de sua mãe em Evans House, de seus avós, provavelmente o de seu pai...

— O que tem naquela porta? — Harry perguntou ao ver mais uma porta, além das portas do banheiro e closet. Ela era de madeira marrom e ferro, arredondada e parecia antiga.

— É a porta que leva a uma das torres arredondas. — Respondeu Sirius suavemente. — A outra está no quarto do seu pai, e a vista é impressionante, mas tenho uma surpresa e quero que veja de perto e não pelas torres. Podemos voltar e subir lá depois, se quiser.

Harry acenou e eles prosseguiram.

O quarto do seu pai foi o próximo e, felizmente, fora reformado depois que seu pai se casou com sua mãe, não era o quarto preservado de um adolescente e sim de um casal adulto. E, eles só dormiam ali de vez em quando, porque sua casa era o Chalé Iolanthe, explicou Sirius, assim, não tinha nada pessoal deles, pois tinham fechado a Mansão depois da morte dos seus avós. No entanto, o quarto era muito Gryffindor, paredes vermelhas, colcha da cama em xadrez vermelho e dourado, cortinas brancas com detalhes vermelhos e assim por diante.

— Você acredita que eles estariam chateados que eu sou um Ravenclaw? — Harry perguntou com um pensamento tardio ao ver o quarto com a decoração da torre Gryffindor.

— Não. — Sirius não riu ou desviou o olhar. — Seu pai reclamaria por você não estar no time de quadribol da sua casa, mas, de resto, os dois estariam orgulhosos de você. Não importa em que casa estivesse, eles esperariam de você exatamente o que está fazendo, se dedicar aos estudos, fazer amigos e se divertir. — Ele suspirou triste. — Tem mais um lugar que quero te mostrar neste andar.

Era um quarto infantil e Harry, imediatamente pensou que era o quarto de bebê do seu pai, mas, então, ele viu um ursinho azul com o nome HARRY bordado em verde em sua blusinha branca. O berço era de madeira pintada de branco, o tapete vermelho, as paredes tinham ursinhos, árvores e estrelas como se ninguém tivesse decidido sobre a decoração e colocaram um pouco de tudo.

— Ainda não estava acabado... — Sirius disse com voz sufocada. — Seu avô queria as estrelas e planetas no alto, assim você aprenderia sobre isso desde pequeno. Sua avó queria os ursinhos, ela achava que tinha que ter um quarto infantil, mas, sua mãe, queria as árvores. Ela dizia que seria como trazer a floresta para perto de você...

Harry pegou almofadas com o seu nome e uma fralda bordada que dizia, "Eu sou o ursinho da vovó". Abrindo uma gaveta, encontrou algumas roupas e havia apenas uma inacabada, era verde escuro e de lá.

— Seus pais levaram tudo o que ela tricotou para você, mas esse, ela... não teve tempo. — Sirius disse suavemente. — As roupas foram compradas no Beco, ela queria ter um quarto preparado para você aqui, para quando visitassem ou seus pais precisassem que eles ficassem de babás.

Harry acenou entendendo e pensando em outro quarto, outro berço onde sua mãe morreu na sua frente e sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Aquele quarto não existia mais, mas este, aqui estava, tão bonito e cheio de amor, de cuidado e atenção, para lembrá-lo do que não poderia ser. E, apesar de não querer se concentrar no passado, neste momento, Harry não conseguiu se impedir. Era impossível não pensar, não imaginar e não sentir o amor e a dor de perdê-los todos, cedo demais e, no caso dos seus pais, tão cruelmente. Afundando o rosto no casaquinho de lã inacabado, Harry tocou o berço que sabia, sua avó pintou para ele, no quarto que ela decorou pensando nele, pois o amou profundamente.

— Porque, Sirius? Não compreendo porque tive que perdê-los tão cedo... — Harry não conseguiu continuar e se inclinou chorando dolorosamente.

Sirius o abraçou e tudo o que existia era a dor imensa que os dois compartilhavam, as lágrimas que pareciam nunca deixariam de cair. Uma parte do Harry sabia que já chorara por seus mortos e encontrara uma certa paz e entendimento. Sirius estava pronto para seguir em frente, se concentrar no futuro, mas, nenhum dos dois podiam deixar de lamentar e se entristecer por um passado que nunca existiu.

— Sabe... — Algum tempo depois, Harry estava parado em frente à janela no quarto de bebê e observava lago congelado. — Desde que entrei nesta casa tentei me concentrar no futuro e, não imaginar cenas em minha mente de uma vida que nunca existiu ou existirá.

— Nós dois fizemos isso. — Sirius disse sentado na poltrona e olhando para o berço que Harry nunca usou.

— Mas, eu estou cercado de fantasmas, Sirius. — Harry suspirou e fechou os olhos. — Na Evans House existe tanto dos meus avós, é doloroso, para mim e minha tia. Por isso disse que poderia redecorar ao seu gosto, renovar tudo, se quisesse. O quarto da minha mãe ainda está lá, exatamente como era quando ela o deixou para se casar com o papai. — Harry se virou e gesticulou. — Tenho os quartos dos meus avós, exatamente como era quando eles morreram e, esse quarto, que jamais pude ocupar como sonhavam. Na Abadia... tem dois cômodos cheios de móveis e objetos, lembranças do Chalé Iolanthe. A vida dos meus pais, encaixotados e me assombrando.

— Não tem que ser assim, você sabe disso. — Sirius o encarou muito triste. — São objetos importantes e que devem ser parte de sua vida, você deve encará-los como parte de você e da sua história. Lembranças de amor, de pessoas amadas... que se foram, mas elas não precisam assombrá-lo.

Harry acenou e enxugou outra lágrima teimosa que escapou de seus olhos.

— Preciso pensar e decidir o que fazer. — Suspirou e olhou em volta. — Mas, sei que não quero viver olhando para o passado, tocando ou olhando para os fantasmas de outra vida.

— Pense, então e, no verão, faremos o que você quiser fazer. Ok? — Sirius disse lhe apoiando e Harry acenou emocionado e feliz por tê-lo.

Eles se abraçaram mais uma vez e depois saíram fechando a porta do quarto de bebê do ursinho Harry.

— Bem, temos uma sala de estar familiar, um escritório, a biblioteca e a galeria de quadros. — Disse Sirius quando chegaram ao térreo. — Onde quer ir agora?

— Estou faminto, podemos comer primeiro? — Sugeriu Harry, cuja barriga roncou no mesmo instante de interesse.

— Claro! Que tolice a minha, vamos. — Eles voltaram para a cozinha e Sirius ampliou uma cesta de sanduíches que tinha no bolso.

Além dos sanduíches, eles tinham suco e leite, para o Harry e rapidamente devoraram a comida sem muita conversa.

— Se não se importa, prefiro não ver a galeria hoje. — Disse Harry olhando para o seu último sanduíche. — Estou exausto, o fim de semana em Hallanon e estar aqui... Não sei como será falar com meus antepassados... quer dizer...

— Harry, está tudo bem. — Sirius sorriu suavemente. — Vamos no seu ritmo e você está certo. Os últimos dias foram cansativos e emocionais, teremos o verão todo para que você conheça os seus bisavôs e outros antepassados.

— Obrigado, Sirius, por me apoiar e estar aqui comigo hoje. — Disse Harry sincero.

— Não tem que agradecer, Harry, estar aqui é uma honra, além de ser exatamente onde quero e devo estar. Vamos lá, veremos o que falta e, como já mencionei, tenho uma última surpresa.

Harry tinha certeza que a surpresa era a biblioteca, mas, mais tarde, descobriu que estava enganado. A primeira sala em que entraram foi uma sala de estar íntima que era muito parecida com a sala de visitas, apenas um pouco menor e mais aconchegante. Em segundos, se tornou um dos seus cômodos favoritos porque tinha mais azul e bronze, com um toque de vermelho. A parede com vista para o lago congelado tinha uma grande porta de vidro com uma sacada que ficava pendurado no morro, sobre as árvores. Harry ficou encantado com a visão da floresta que se inclinava, seguindo para o Sul e, mesmo depois do lago, as árvores continuavam a perder de vista no horizonte. Ele podia se imaginar aqui, conversando e rindo com seus amigos e família.

Em um dos cantos da sala, havia um segundo ambiente que lembrava uma área de jogos e brincadeira, era colorida e divertida. Harry percebeu que haviam materiais de pintura e estudo, franziu o cenho tentando imaginar seu pai aqui, mas, era impossível.

— James tinha tanta energia como sua avó, ele nunca conseguia ficar parado estudando, pintando, desenhando por muito tempo. — Sirius pareceu ler seus pensamentos. — Uma vez perguntei a Sra. Euphemia, brincando, se essa parte da sala já tinha sido usada e ela disse que todos os dias, por duas horas, uma hora de manhã e outra à tarde, James se sentava e fazia uma atividade diferente. Eu fiquei surpreso e sua avó me disse que o segredo era que ela sempre o acompanhava, dedicando seu tempo e amor a ele, pintava, cantava e ensinava, mas, por apenas uma hora. Assim, James não ficava muito tempo sentado e se impacientava querendo fazer outra coisa, além disso, ele associou essas duas horas como "o tempo especial com a mamãe" e isso se tornou algo que James esperava com animação.

Harry entendeu e quase não pode evitar.

— Imagine ter 5 James. — Disse brincalhão e Sirius gargalhou.

No entanto, a biblioteca teve mais um momento "boca aberta", pois era gigantesca.

— Uau! — Disse, então riu. — Se Hermione quase enlouqueceu com a biblioteca de Hallanon, imagine como será quando ver isso?

— Hum... seja cuidadoso, mesmo não sendo o Grimoire Potter, tem alguns livros que a magia Potter não permitirá que ela pegue. — Sirius apontou para a escrivaninha. — Deve ter um livro de classificação, separado por assuntos e se está liberado ou não.

— Porque não estariam? — Harry perguntou curioso.

— Pode ser por seu valor, livros muito antigos e raros são caríssimos e isso impede que sejam roubados. Ou por seu conteúdo perigoso, com magias desagradáveis ou mesmo, magia negra. — Sirius deu de ombros e abriu uma porta na biblioteca que seguia para o escritório do seu avô.

— Porque haveriam magias assim aqui? — Ele estava chocado.

— Existem magias e rituais que foram criados para fazer o mal, Harry, outras que foram usadas para o mal, mas a magia não é má. — Sirius disse o encarando nos olhos. — No caso da sua família, boa parte dos seus antepassados foram curandeiros ou guerreiros, assim, eles precisavam aprender essas magias para combatê-las ou curar suas vítimas. Para cada maldição, mesmo a mais escura, existe uma contra-maldição e, muitas vezes, ela precisa ser criada por alguém para ser combatida.

Harry acenou entendendo e engoliu em seco.

— Acredita que alguém, um dia, encontrará uma contra-maldição para o Avada Kedrava?

Sirius ficou meio pálido e acenou com olhos cansados.

— Eu tenho esperança que sim. — Respondeu sincero. — Um escudo já seria uma grande vitória.

Harry olhou para a imensa coleção de livros que rivalizava com Hogwarts, não era tão grande, mas estava bem perto, percebeu. No entanto, naquele momento, eles eram mais do que apenas livros antigos, eram possibilidades e seu desejo pelo conhecimento se aprofundou. Tinha muito o que aprender e muito pelo que dedicar sua vida, encontrar uma defesa para a maldição da morte, seria apenas mais uma delas.

O escritório do seu avô era muito grande e arejado, mas, claramente, não era um espaço para uso pessoal. No laboratório de Poções havia uma escrivaninha e tudo o mais que ele precisaria para seu trabalho, Harry pode sentir a energia do seu avô lá. Aqui, tudo o que havia eram móveis, uma grande mesa de mogno escuro e brilhante, prateleiras com livros de negócios e contabilidade, diários, relatórios. O chão era de madeira, o tapete cinza e as cortinas vermelhas, a decoração era a mais masculina da casa, mas também antiquada e impessoal.

— Imagino que aqui era usado apenas para reuniões de negócios e verificação de relatórios do administrador ou algo assim. — Disse Harry um pouco decepcionado.

— Sim, na verdade, seu avô só vinha aqui para reuniões de negócios porque todo o seu trabalho, mesmo os relacionados as Fazendas Potters, ele realizava em seu laboratório. — Sirius disse olhando em volta. — Acredito que essa era a sala da família menos utilizada na casa, sinceramente.

— Dá para perceber e não gosto que ele fique quase no fim do corredor. — Harry disse incomodado. — Tem apenas a galeria em seguida e, isso quer dizer, que o visitante tem que entrar no térreo da Ala Sul e passar em frente as portas da sala de estar da família e da biblioteca, antes de alcançar o escritório.

— Tem razão. — Sirius disse pensativo. — Tem portas internas para acessar os três cômodos, assim, da sala intima, você entra na biblioteca e depois no escritório, mas também tem portas no corredor. No fim do corredor, tem uma porta que leva a galeria de retratos que não tem outra porta, assim, é o único acesso.

Harry acenou para a sua explicação e, pensativamente, gesticulou.

— A galeria e a biblioteca teriam mais sentido se ficassem uma ao lado da outra, com uma grande porta, folhas duplas pintadas de branco, as separando. — Ele disse. — O primeiro cômodo depois das escadas, deveria ser o banheiro, discreto e facilmente acessado. Onde está o banheiro agora, no canto da torre quadrada, faria o escritório com uma escada para acessar o laboratório de poções que está acima, assim, posso ter o escritório de trabalho e reuniões, mas, com um acesso direto a qualquer pesquisa ou poções que estiver trabalhando. E, quaisquer visitantes, não precisam ir além da sala de estar quando eu realizar reuniões de negócios.

— Bom. E a sala íntima? — Sirius perguntou suavemente.

— Faria um ambiente de sala de estar na biblioteca que poderia ser usada para conversas sérias em família ou amigos, mesmo para discutir ou ler os livros, mas, a sala de estar íntima, eu faria no andar da família. — Harry apontou para o teto. — No terceiro andar tem quarto suficiente para 5 filhos e ainda sobra, assim, pego um dos quartos e transformo em uma sala de estar para a convivência da família. Como tem nos andares da torre Ravenclaw, as salas de convivência.

— Eu gosto dessas ideias. — Sirius o encarou pensativo. — Acredito que faremos algumas reformas em breve.

— Sim, algumas pequenas coisas que não gosto, mas, não quero mudar a decoração da minha avó, pois adoro isso. No entanto, alguns cômodos são antiquados e sem graça, pouco utilizados, assim, quero tentar utilizar os espaços de forma inteligente e não os deixar vazios e inúteis. — Harry disse, incomodado com tanto desperdício de espaço, haviam pessoas que não tinham onde viver e dormiam nas ruas, ora. — Fazendo o que falei, aumento a biblioteca e ocupo um quarto vazio lá de cima. Exatamente como fez um dos meus antepassados, que reutilizou melhor o espaço da área de hóspedes da Ala Norte ao aumentar e melhorar a ala dos empregados.

— Isso me parece pequenas reformas inteligentes que podemos fazer aos poucos e transformar a Mansão ao seu gosto para quando quiser se mudar. — Sirius disse olhando em volta pensativo. — Ainda que demorará até se casar, acredito.

Distraído, ele não viu a expressão de Harry mudar sutilmente ou seu interesse em mudar de assunto.

— Bem, agora só tem o Pavilhão para ver, certo? — Harry perguntou, quando Sirius abriu uma das portas do corredor para o Jardim Encantado. Ele suspirou surpreso ao perceber que a temperatura era como na primavera, quente e agradável, iluminado como se ali sempre tivesse sol e o inverno lá fora não existisse. — É incrível, o jardim não está apenas com as flores preservadas, mas, parece que aqui... ainda é primavera.

Harry estava impressionado e confuso, pois, na estufa do Chalé Boot as flores estavam magicamente preservadas, a temperatura era agradável, mas também artificial, ou seja, mágica. No entanto, aqui, parecia que eles tinham entrado em um espaço cujo tempo não alcançou, pois ainda era primavera. Olhando para cima no jardim descoberto, encontrou o céu azul e o sol brilhando de verdade, ainda que Harry sabia que lá fora o céu estivesse nublado e cinzento, sem sol forte.

— Estranho, não é? — Sirius olhou em volta encantado. — Sempre me impressionou. Seu avô me contou que antes, o jardim de inverno, como era chamado, tinha as magias de preservação comuns, mas a avó dele, Laura Fleamont mudou isso. — Sirius ergueu as mãos em autodefesa. — Não sei como, segredo de família e acredito que encontrará em seu Grimoire ou no Grimoire Fleamont, mas, ela era Mestra em Runas Antigas e conseguiu preservar a estação que queria neste ponto da propriedade.

— Incrível! — Harry estava chocado. — Preservar a estação com runas e encantamentos, ela deve ter sido tão talentosa. A casa não está incluída?

— Não, lá você controla a temperatura com magias normais ou mais comuns e as lareiras. — Disse Sirius sorrindo. — Apenas aqui, neste jardim e no Salão de Festa, sempre será primavera, isso quer dizer que as flores vivem e morrem, renascem, não estão paralisadas pela magia, é o tempo que está parado.

— Então, não seria necessário um jardineiro? — Harry perguntou tentando absorver esse grande feito mágico.

— Harry, sua trisavó preservou a primavera, acredita que algo como, cuidar do jardim, seria complicado para ela? — Sirius perguntou erguendo as sobrancelhas e Harry acenou meio envergonhado.

— Sirius, poderíamos fazer isso no Jardim da Lily? Quer dizer, ao em vez de preservar todo o jardim com magias, poderíamos preservar a primavera? — Ele podia imaginar quão mais lindo e vivo o Jardim em homenagem a seus pais seria, se estivesse sob essa magia.

— Impossível. — Ao ver seus olhos decepcionado, acrescentou. — Essa é uma magia familiar, ninguém pode tocar no Grimoire além de você, Harry e, só depois que de alcançar a maior de idade, você poderia lançar esse tipo de encantamento, isso se as runas forem algo em que é bom.

— Eu não posso escrever e pedir a alguém para fazer? — Harry estava confuso.

— É um feitiço familiar, Harry, primeiro, não seria tão forte se fosse lançado por outra pessoa e, mais importante, você não iria querer que outras pessoas aprendessem algo tão valioso, um segredo de família. — Sirius disse objetivo.

— Mesmo se tivesse um contrato de sigilo e para alguém de confiança? — Harry questionou, irritado com todas essas restrições, estava começando a entender a Hermione que não gostava nada do fato de os conhecimentos mágicos terem que estar em segredo.

— Sim, poderia dar certo, ainda que seria necessário mais de um bruxo para realizar as runas e encantamentos. A questão final é que, apesar de o Jardim da Lily estar em sua propriedade, será um local público e qualquer um poderia diagnosticar e copiar as runas, os encantamentos e descobrir, se não tudo, boa parte de como eles funcionam. — Sirius disse pensativo. — Teríamos que patentear o encantamento e voltamos ao fato de que não podemos tocar no Grimoire ou qualquer dos funcionários do Ministério.

— Isso parece uma grande bobagem burocrática. — Harry falou cruzando os braços e batendo o pé. — Tem que haver uma solução!

— Sim, provavelmente, essa solução existe, Sr. Potter. — Sirius falou ironicamente para o seu tom, Harry corou levemente. — Conversarei com Falc e o Sr. Boot, eles devem saber mais do que eu sobre isso, mas o Jardim da Lily ficará pronto em abril, portanto, impossível que resolvamos isso antes da inauguração. Assim, o projeto seguirá como foi planejado. Ok? — Sirius usou um tom mais sério que o normal e Harry acenou, sabendo que foi um pouco petulante. — E, respondendo sua pergunta anterior, não tem apenas o Pavilhão para ver ainda. Te prometi uma surpresa, lembra?

— Mas... pensei que era aquela biblioteca enorme... — Harry parou ao ver sua expressão. — Ok, uma biblioteca nunca seria considerada uma surpresa boa para você, entendi. Me mostra, então! — Disse com entusiasmo.

— Vamos ver o Pavilhão e depois seguimos até lá. — Sirius sugeriu e Harry concordou.

Eles caminharam pelo lindo jardim pisando em pedras brancas de calcário, estrategicamente posicionadas na grama verde, até chegarem a porta lateral do Pavilhão. Sirius abriu a porta e Harry mais uma vez arregalou os olhos de espanto.

— É enorme! — Ele disse sem fôlego. — Deve ser do tamanho do Grande Salão de Hogwarts!

— Maior, na verdade, apesar de por fora não parecer. — Disse Sirius divertido.

Harry acenou concordando, por fora, parecia uma grande estufa com paredes e teto de vidro em forma retangular posicionado no centro do Jardim Encantado, mas, por dentro era muito maior, talvez, 5 vezes maior. Haviam duas grandes portas laterais, uma que se acessava pela Ala Sul da casa, o corredor de onde Sirius e ele vierem depois de sair do escritório. Na outra lateral, outra porta e um caminho levava a sala de jantar, na Ala Norte. Dentro do Pavilhão, o chão era de mármore branco e cinza, vasos de cimento pintados de cinza escuro estavam nos cantos com flores que Harry reconheceu como orquídeas. Também, na estrutura do teto de vidro haviam vigas de metal pintado de branco e, entrelaçados por essas vigas, haviam mais orquídeas rosas, brancas, lilases e amarelas. Harry foi obrigado a reconhecer que era o lugar mais luxuoso da casa, parecia um lugar encantado e belo, próprio para um baile ou um casamento...

— Meus pais se casaram aqui? — Sussurrou ele, encantado.

— Sim. — Sirius acenou com um grande sorriso. — Foi um lindo dia, maravilho vê-los tão felizes e seu pai parecia não acreditar que estava se casando com a Lily.

Harry acenou e olhou em volta, lembrando-se das fotos e imaginando como deveriam estar felizes. Pigarreando, tentou se concentrar no presente.

— É muito lindo, mas, porque tão grande? — Harry perguntou enquanto caminhava pelo meio do salão e imaginava a música, luzes, pessoas dançando cercados pelas orquídeas e pelo Jardim Encantado.

— Porque eram grandes festas e bailes, Harry. — Os Potters eram uma família popular, tinham muitos amigos e contatos. Ali. — Sirius apontou para o fundo do Pavilhão. — Se montaria um palco para a banda tocar ou, como era antigamente, a orquestra. No lado oposto, estariam a mesas, dezenas de mesas para os convidados jantarem e conversarem. — Ele apontou o lado do Pavilhão que ficava bem em frente a sala de estar. — E, aqui, no meio e em frente ao palco, seria a área da dança. Em um espaço menor, quando chegasse a hora do baile, você desapareceria as mesas e usaria o mesmo espaço, mas um dos seus antepassados não gostou disso, pois queria que, quem quisesse dançar, dançasse e, quem não, pudessem se sentar, conversar, apreciar a música e assistir os casais dançando.

— Isso é incrivelmente inteligente. — Disse Harry ao perceber que seu antepassado estava preocupado com o conforto de seus convidados, principalmente, dos idosos que, ao não terem onde se sentar, tinham a escolha de ficarem de pé, dançar ou irem embora quando estivessem muito cansados.

— Até porque, com magia, você pode ter todo o espaço que quiser. — Disse Sirius e suspirando olhou para o afilhado. — Lembra-se que falamos sobre voltar a participar da sociedade bruxa? Realizar bailes e festas, nos aproximarmos e fazer contatos com as famílias antigas não apoiadoras de Voldemort?

— Sim. — Harry entendeu o que dizia. — Você acredita que esse é o lugar ideal?

— Sim, a Mansão Black não é uma opção e, enquanto nós dois temos outras propriedades, acredito que nenhuma delas tem um espaço tão perfeito para o que pretendemos. — Sirius apontou.

— Além do fato de que, se a intenção é voltar a sociedade, Blacks e Potters juntos, fazer o baile em meu lar ancestral seria o ideal. — Harry constatou, mas fez uma careta. — Detesto a ideia de encher minha casa com estranhos pomposos e arrogantes, eles podem não ser puristas, mas, nem todos serão agradáveis. E, me preocupa que Voldemort acredite que vivo aqui e ataque a Mansão.

A ideia de tanta beleza ser destruída era assustadora e Harry entendeu porque seus pais não se atreveram a viver aqui.

— Alguns serão puristas também, mesmo que não tenham apoiado Voldemort e, sobre ele... — Sirius apertou seu ombro. — Não podemos parar de viver por causa dele, Harry. Voldemort ainda nem voltou e não pode controlar cada uma das nossas ações.

Harry acenou e esfregou os cabelos exasperado, era difícil não pensar assim, no que aconteceria quando Voldemort retornasse, mas, Sirius estava certo. Não podia deixar que ele o controlasse.

— Ok. Concordo em usar a Mansão Potter, mas, precisamos fazer algumas mudanças. — Disse Harry olhando em volta pensativo.

— O que está pensando? — Sirius perguntou curioso.

— Não quero ninguém estranho acessando as pernas do U, a Ala Norte e a Ala Sul, assim, precisamos criar, mesmo que temporário, um caminho em que os convidados entrem pela porta da frente e sigam direto pela sala de estar, o jardim e o Pavilhão. — Harry apontou a frente do Pavilhão. — Podemos criar uma passagem, um corredor decorado com flores onde os convidados venham diretamente para cá?

— Sim, é possível e uma boa ideia. — Sirius olhou pensativo. — Abrimos as portas laterais para que possam passear pelo Jardim encantado, mas, manteremos as portas de acesso as Alas seladas. O que mais?

— Quero reformar a área de hóspedes, assim, podemos receber toda a família Madaki, Boots, Evans, Longbottom, Grangers e Martíns com conforto e carinho. — Harry disse suavemente. — Essa história de que os quartos da Ala Norte são para hóspedes meio indesejados, associados de negócios ou conhecidos, tem que acabar. Na verdade, prefiro que fique entre nós, não quero que seja mencionado e alguém se magoe por ficarem hospedados naquela Ala. Até porque, eu não pretendo hospedar ninguém dessa categoria, não me importam quem sejam.

— Eu concordo. — Sirius acenou. — Podemos reformar os quartos da Ala Norte sem problemas. Você quer escolher a decoração?

— Não, quero que a Savita se inspire na minha avó, no que ela fez nos outros cômodos, tudo colorido e aconchegante, nada luxuoso ou sem graça. — Disse Harry e fechando os olhos. — Quando o verão chegar, decidirei o que fazer sobre os quartos dos meus avós e meu quarto.

— Parece bom para mim. Quer ver minha surpresa agora? — Sirius disse tentando não voltar ao assunto triste e Harry sorriu agradecido.

Eles saíram do Pavilhão e, no Jardim Encantado, seguiram para o fim do jardim na direção das árvores que ficavam depois da casa. A construção, as duas pernas do U terminavam paralelamente, junto com o jardim e, então, eles entraram na floresta, andando por uma trilha bem marcada. Logo a caminhada se inclinou levemente e Harry percebeu que o morro se tornava mais íngreme e a Mansão podia ser vista mais abaixo. De onde estava, Harry podia ver a floresta e neve que estavam morro acima e emoldurava a Mansão, apenas, nesta trilha, não havia neve porque era primavera e Harry esperou que a qualquer momento o alcance do encantamento acabasse, mas, isso não aconteceu.

Alguns minutos depois de entrarem na floresta verde e cheirosa, um barulho característico alcançou sua audição e Harry parou, confuso.

— Que barulho é esse? — Ele perguntou ao padrinho, que sorriu animado.

— Não lhe ocorreu perguntar porque a Floresta se chama Stone Waterfall ou a Cachoeira de Pedra? — Sirius parecia estar se divertindo muito.

— O que...? — Harry demorou um segundo para entender, então seus olhos se arregalaram de espanto, mais uma vez. — Você quer dizer...

Sirius apenas acenou com o sorriso aumentando e Harry disparou correndo pela trilha até que ela acabou abruptamente em frente a uma piscina natural de água turquesa e tão cristalina que era possível ver o fundo de pedra cinza clara. A piscina era grande, sem um formato distinto, ainda que poderia ser dita arredondada, era tão linda, clara e o sol de primavera batia na água tornando a cor turquesa muito mais brilhante. Do outro lado da piscina, a uns bons 30 metros de onde o Harry estava, havia uma grande cachoeira com pedras cinzas escuras e de onde a água descia preguiçosamente com um barulho relaxante. Na verdade, percebeu Harry, sem conseguir acreditar no que via, a fonte na entrada da Mansão era uma réplica exata da cachoeira a sua frente.

— Incrível, não é mesmo? — Sirius disse ao alcançá-lo. — A primeira vez que vi, não conseguia acreditar... O encantamento chega até acima da cachoeira, assim é possível subir e mergulhar porque a piscina foi magicamente aprofundada e amortecida para prevenir acidentes. No inverno, a água é suave assim porque no morro, o rio está congelado como o lago, mas, nas outras estações, a cachoeira é volumosa e forte, barulhenta também.

Harry ouviu e entendeu, mas uma parte do seu cérebro ainda estava absorvendo que em sua casa havia uma piscina, mas, não qualquer piscina. Uma piscina natural, no meio da floresta e com uma cachoeira...

— Eles construíram a casa em frente a cachoeira! — Harry exclamou chocado. — A Mansão foi projetada assim! Eles encontraram a cachoeira e essa piscina natural e decidiram que ela faria parta da casa, assim, toda essa beleza está literalmente no quintal da Mansão!

Harry não aguentou e riu, riu e riu, até que teve que segurar seu estômago de tanto que doía. Sirius o acompanhou meio espantado com tanto riso.

— Sim, foi assim mesmo e sua trisavó Laura Fleamont tornou possível nadar o ano todo, mesmo com o inverno lá fora, aqui é sempre primavera. — Disse ele e viu os olhos de Harry brilharem de encantamento e emoção. — Ei, sem lágrimas, isso é para ser uma surpresa feliz, sabe. A piscina natural segue por um córrego ali, vem ver.

Harry o seguiu pelas pedras, deram a volta na piscina até chegar ao seu lado Sul, onde havia um córrego estreito com pedras cinzas escuras e esverdeadas. A água descia suave e eles caminharam, acompanhando o córrego até que a estação mudou e o frio os atingiu com força. Fora do encantamento e das runas, a água estava com a superfície congelada, mas Sirius sinalizou para continuarem seguindo e, talvez, 40 metros depois, outra cachoeira surgiu, mas desta vez eles estavam em cima dela. Harry olhou para baixo, a água da cachoeira estava congelada, ainda que um pouco de água chegasse ao rio lá embaixo escorrendo lentamente pelas pedras. Olhando a vista do alto, Harry viu que o rio congelado seguia por entre a floresta até chegar ao lago.

— Depois do lago, o rio continua até chegar ao Rio Wye, por onde passamos mais cedo. — Explicou Sirius e apontando para a cachoeira, disse. — No verão, com as chuvas, a água é abundante e a queda forte.

— Qual a altura até lá embaixo. — Ele espiou outra vez a longa queda, percebendo que a Mansão fora construída em uma elevação, ainda que estivesse mais para baixo de onde estavam agora.

— Uns 60 metros apenas, a casa é menos ainda porque estamos um pouco mais no alto do morro. A outra cachoeira tem 22 metros. — Sirius o levou mais um pouco para a direita seguindo perto do penhasco até que eles puderam ver a Mansão, ou a parte externa da Ala Sul dela. — Essa cachoeira fica à frente da casa, por isso não é possível vê-la, mesmo quando saímos na varanda, mas, se você subir nas torres arredondas, que estão nos quartos principais, pode ver muito bem a outra cachoeira e parte desta.

— Isso tudo é tão incrível, Sirius. — Harry observou o lago congelado e a Mansão, lembrando-se de todas as maravilhas que vira nela. — Me sinto emocionado por minha família ter criado um lar tão lindo para nós. Eles foram tão inteligentes e mantiveram a natureza, a floresta, as cachoeiras, o morro, o lago, praticamente intactos, as magias mantem tudo ainda mais bonito e confortável. Mágico. Em meu coração, antes mesmo de conhecê-la, eu sentia que a Mansão Potter era o meu lar.

— E agora? — Sirius perguntou tocado por sua emoção.

— Eu tenho certeza. Posso sentir, a magia das alas, os encantamentos pela Mansão, elas me reconhecem, me acolhem e aceitam. Sinto a energia, o amor e cuidado dos meus antepassados, minha família e sinto o peso da honra que é fazer parte deste legado, continuar essa história linda. Mas isso não me assusta, sinto como se tivesse nascido para isso, para ser um Potter, para estar aqui e agora. Posso apenas imaginar o vazio e solidão que sentiria se nunca tivesse descoberto sobre minha família ou sobre onde é o meu lugar neste mundo.

— Você é o senhor de Stone Waterfall e sei que seus antepassados estão orgulhosos de o ter como o sucessor deste legado. — Sirius disse e o viu olhar para o lago mais uma vez pensativo. — O que?

— O Chalé Iolanthe era o chalé dos Peverell antes de meu antepassado, Hardwin se casar com Iolanthe, que era a última da linha. Por isso o nome do chalé e por isso se tornou o chalé do filho mais velho, Hardwin era o herdeiro de Linfred. — Harry disse suavemente. — No entanto, essa etapa acabou agora e a propriedade se tornará o Jardim da Lily, mas, um dia, precisarei do chalé do primogênito, espero. — Harry ignorou o medo de morrer antes disso e se concentrou nas coisas boas, não poderia focar em Voldemort e a profecia, não agora.

— Onde está pensando em construir o chalé? — Sirius perguntou e olhou para o lago quando Harry apontou.

— Lá. Protegido pelas alas, perto e ainda com privacidade, faremos um lindo chalé de frente para o lago. Podemos usar durante o verão quando formos nadar e pescar lá embaixo, pelo menos até que o meu primogênito se case. — Harry disse com firmeza e sentindo uma determinação feroz. Realizaria seus planos e viveria para ver seu primogênito ocupar o chalé que construiria especialmente para ele.

Sirius sorriu e acenou, temera que o dia fosse difícil para os dois com tantas lembranças e fantasmas, mas, na verdade, a vontade de viverem intensamente era mais forte que tudo. Os dois sentiam isso e sorriram um para o outro, compartilhando esse momento de verdade absoluta.

Então, Harry sorriu com malícia e saiu correndo e gritando:

— O último a entrar na piscina é a mulher do padre!

— Ei! — Sirius protestou e, para tentar recuperar a vantagem, se transformou em Almofadinhas que, latindo de animação, disparou atrás de Harry que já estava chegando na piscina.

Em segundos, Harry se despiu e de cueca pulou na água refrescantemente gelada. Não era impossível de nadar, mas também não completamente confortável.

— Ganhei! — Gritou e um segundo depois Almofadinhas pulou na piscina e espirrou água em seu rosto.

Sirius submergiu e chocalhou os cabelos encaracolados.

— Isso não foi justo senhor, agora terei que me vingar! — Ele saltou no afilhado e Harry mergulhou se esquivando.

Depois de jogarem pega, os dois subiram e Sirius ensinou o Harry a mergulhar do alto da cacheira que, felizmente, não era tão alta quanto a outra. Ainda assim, os 22 metros de altura eram empolgantes e Harry se viu cheio de adrenalina ao dar seu primeiro mergulho.

— Mais uma vez! — Gritou depois de submergir!

— Você foi bem! — Sirius disse e riu divertido. — Remus deu uma barrigada em sua primeira vez.

Rindo e se divertido, Harry perdeu a noção do tempo enquanto nadavam, até que o sol começou a baixar no horizonte e eles decidiram sair, se secaram e vestiram. Eles foram conhecer os vestiários do campo de quadribol e o armário de vassouras que tinham dezenas delas em boa qualidade e não muito antigas.

— James as substituiu depois que terminamos Hogwarts, pois previa muitos jogos amigáveis por aqui, mas, infelizmente, a guerra não nos permitiu. — Disse Sirius e, então, eles foram voar.

Harry amou o campo e, ao ir bem para o alto, protegido pelas alas, pode ver toda a propriedade, a imensa floresta invernal, o lago congelado, a Mansão, as cachoeiras, o Jardim Encantado. Era como estar vendo uma parte de si mesmo, de seu mundo, sua história, conectado com sua magia e alma como nenhum lugar já esteve e Harry nunca se sentiu mais feliz em sua vida.

— Estou em casa, mamãe, papai, vovó e vovô, finalmente, estou em casa. —Sussurrou e fechou os olhos enviando seu amor e gratidão a eles.

A hora de partir chegou cedo demais e foi a fome, mais do que a escuridão da noite, que os obrigou a partir. Harry sabia que não poderia viver na Mansão, oficialmente, até a maioridade e, se fosse sincero, estava ansioso por esse momento. Mas, quando chegou ao Chalé Boot e foi abraçado por seus irmãos e beijado por Serafina, sentou-se à mesa para o saboroso jantar e ouviu sobre o que fizeram durante todo o dia, ele percebeu algo importante. Por mais que amasse Stone Waterfall e soubesse que a Mansão era o seu verdadeiro lar, só seria um lar feliz se vivesse lá com uma família amorosa.

Naquela noite, seus sonhos foram pontuados por imagens do passado e do futuro, tudo desfocado e distante, como algo que você tenta tocar, mas que te ilude e se afasta. Logo, o fogo o envolveu como seda, o cheiro de flores do campo o embriagou e Harry sorriu enquanto dormia, mas algo tentava afastar o fogo. Harry tentou agarrar, sentindo que era fundamental, importante não deixar o fogo ir embora e se agitou incomodado na cama. Então, o fogo se tornou quente, mais quente, muito quente e ele estava voando por Stone Waterfall, mas, ao em vez da beleza branca e fria que viu antes, ela estava em chamas, ardendo, queimando e sendo destruída por um fogo alto e feroz.

Suando e tremendo, Harry acordou e olhou em volta procurando, desesperado, preocupado, então, percebeu que era um pesadelo. Outro sonho que se tornou pesadelo, pensou cansado, deitou-se e prometeu que analisaria o que viu e sentiu neste novo sonho, mas, como sempre, nos dias seguintes, Harry estava muito ocupado para se lembrar de fazer isso.