Capítulo 65
Ginny Weasley teve as melhores férias, bem, depois do começo complicado e com a ausência sentida de seu irmão favorito. Mas, não se pode ter tudo, não é mesmo?
O Natal foi o mais divertido e saboroso, o presente de Harry, que se tornou um presente para toda a família e não apenas para os gêmeos, foi um grande sucesso. O trabalho novo do seu pai, que lhe rendia algumas boas gorjetas, além de um ótimo salário, trouxe um grande sorriso ao rosto dele e um ar de tranquilidade para sua mãe que parecia estar com os ombros mais leves.
A família foi apenas duas vezes ao renovado Beco e puderam se divertir, comer e comprar pequenas coisas, o que tornou todos mais felizes e animados. Ginny pediu a seu pai uma nova varinha, mas, sua mãe pisou firme e disse que no próximo verão, se as coisas continuassem boas, eles lhe atenderiam esse pedido. Isso não a deixou completamente feliz, mas lhe deu esperança, assim, se contentou com novas penas e um novo sapato.
Ginny também passou um bom tempo com os gêmeos, eles não estavam tão secretos, pois queriam despistar a Sra. Weasley, que os observava com olhos de falcão.
— O melhor é não fazermos nada misterioso, vamos apenas terminar nossos deveres de casa e estudar, pois não quero que ela descubra o que estamos fazendo. — Disse George, incentivando um rabugento Fred a se comportar.
— Vocês não me contarão o que não querem que ela descubra? Eu posso manter segredo, sabe. — Disse ela fazendo o seu dever ao lado deles, Ron ainda nem pegara os seus e Percy os terminara antes de deixar a escola.
— Nós sabemos, Ginnypop, mas não podemos falar nada, estamos sob contrato. — Disse George distraidamente. — Não é uma questão de confiança, sabe.
Ginny acenou e se sentiu melhor sobre o afastamento deles nos últimos meses ao saber disso.
— Tem a ver com o Harry? — Sussurrou ela curiosa e seus irmãos acenaram.
— Ainda está apaixonada por ele, Ginnybaby? — Fred perguntou provocante.
— Nunca fui apaixonada por ele, seu tolo, apenas gostava dos seus livros, as histórias e agora sei que é tudo mentira. — Disse ela e corou um pouco apesar das palavras. — Apenas, Harry foi muito legal comigo e eu... não muito com ele.
— Bem, não se preocupe com isso, Harry é muito legal e não guarda rancor nem nada. — Disse George pensativo e olhou para a irmã. — Ele estava preocupado com você depois do ataque a Luna e até pediu para ficarmos de olho, ter certeza que você estava bem, sabe.
— Ele... disse isso? — Ginny gaguejou assombrada.
— Sim, ele tem essa ideia boba que você poderia ser um alvo. Dissemos a ele para não se preocupar. — Disse Fred distraído ao revisar seu dever de Transfiguração.
Saber disso a fez se sentir tão bem que era indescritível a sensação. Quer dizer, ele não estava com raiva dela, como disse Tom, ele não a esqueceu depois da petrificação da Luna, como disse Tom. E, Tom também disse que o Harry só conversou com ela porque a Luna estava por perto, o que quer dizer que ele gostava da Luna e não dela, mas, isso não era verdade também.
Foi como se, de repente, os últimos meses que estavam meio nebulosos e confusos, entremeados de medo, insegurança e ansiedade, ficassem claros e Ginny estava completamente confusa com suas atitudes. Ela não era assim! Não era hesitante e insegura, não era um ser gaguejante e covarde, mas, foi assim que esteve agindo e não conseguia entende o porquê. Ela sentia que devia conversar com alguém, mas, o medo que seus pais a considerassem fraca, a calou, o medo de estar enlouquecendo, a calou, o medo de que eles acreditassem que não estava pronta para Hogwarts, a calou. No entanto, tudo isso a assombrou porque ela não era fraca! Ela não estava louca! E, ela estava pronta! Então, porque?
Ginny sentia que algo não estava certo, mas, não conseguia entender o que poderia ser. Ela pensou em falar com os gêmeos, pois sabia que eles manteriam segredo, mas, a verdade, é que ela não tinha o que falar. Os sentimentos estranhos desapareceram, ela se sentia bem, forte, descansada e feliz. Além disso, tinha receio de que se tentasse explicar isso a eles, os dois zombariam dela, afinal, seus dois irmãos não gostariam de falar de sentimentos. Fred, com certeza, a chamaria de menininha ou bebê!
No entanto, sua mente inconsciente parecia querer lhe dizer alguma coisa, porque Ginny começou a ter pesadelos. Eles eram aterrorizantes e confusos, ela estava no escuro e perdida, com algo a puxando para o fundo e o ar faltando, sufocando, até acordar ofegante. Quando Ginny foi pela segunda vez ao Beco, ela tocou o Portal Adler e ouviu com atenção as suas palavras.
"Afaste-se da escuridão e confie nas chamas do seu coração, Guerreira. "
Ginny não sabia muito bem o que queria dizer essas palavras. Escuridão? Ela nunca iria para a escuridão, quer dizer, ela nunca seria má, no entanto, Ginny sentiu que era algo importante e seus pesadelos mudaram. Agora, quando a escuridão ameaçava sufocá-la, ela procurava as chamas em seu coração, uma determinação incansável para emergir e respirar.
Ela também decidiu mudar de atitude em relação ao Harry, pediria desculpas e conversaria com ele quando voltasse a Hogwarts. Ginny pretendia retribuir sua gentileza e tentaria se tornar sua amiga, sua intenção era deixar o que passou para traz e se concentrar no futuro. Sentindo-se mais forte e decidida, Ginny parecia quase a mesma pessoa que era antes de ir a Hogwarts e seus pais se sentiram muito mais tranquilos. Molly e Arthur a enviaram para a escola sem preocupações e muito aliviados.
E, assim, o dia do embarque para Hogwarts chegou e, dessa vez, Ginny não estava com medo, pelo contrário, estava animada e esperançosa. Ela se sentou com Demelza e Abla, perguntou sobre suas férias, o mundo trouxa, falou do presente incrível do Harry, das visitas ao Beco e se divertiu muito. Ao fim da viagem, não entendia como ou porque não se tornara suas amigas antes ou pensara que elas não gostavam dela.
Depois do jantar, em seu quarto, Ginny arrumou suas coisas e encontrou o diário. Estava cansada e ansiosa para o início das aulas, mas, decidiu falar brevemente com Tom e contar que estava de volta.
Olá, Tom! Voltei! As férias foram incríveis! Tenho muito o que lhe contar!
Ginevra... Finalmente, estive te esperando... Porque não me escreveu por tanto tempo?
Oh! Não te levei comigo, Tom! Eu te disse que teria muito o que fazer, se te levasse, não teria tempo para escrever no diário.
Mas, Ginevra... um diário é algo que se escreve diariamente, eu estive esperando, ansioso, esquecido...
Pare de me chamar de Ginevra! Você sabe que não gosto! Posso ver que está com raiva, posso sentir, mas eu não quis levá-lo. Não me desculparei! Eu decido sobre a minha vida, Tom!
Alguns segundos se passaram e nenhuma resposta surgiu, Ginny pensou em desistir e ir dormir, mas...
Tem razão, minha querida. Eu, que tenho que me desculpar, você é muito especial para mim e queria ter acompanhado toda a sua diversão nas ultimas semanas.
Ok. Bem, estou com sono, amanhã conversamos...
Não, menina. Agora que me deixou tão curioso, me conte um pouco sobre suas férias. Você me parece tão bem, tão forte e recarregada...
Sim, é exatamente assim que me sinto! Forte e eu mesma, todos aqueles sentimentos horríveis passaram, Tom! Estar com meus pais, minha família, foi incrível e estou muito feliz.
Você não contou a eles sobre sua doença, não é mesmo?
Eu não estou doente! Mas... não, não contei a eles nada sobre aquilo, meus apagões... Eu deveria ter contado, mas, fiquei com medo que me internassem no St. Mungus ou me tirasse de Hogwarts.
Você fez bem, é muito inteligente e intuitiva, minha querida. Agora, me conte tudo o que fez e que a deixou tão feliz.
E, ela fez, apesar de cansada e sonolenta, Ginny não conseguiu parar, mas também não percebeu que algo, magia, a impulsionava a continuar.
Bem, é por isso que quero dormir cedo, Tom, quero começar a treinar também, mesmo que os gêmeos achem que é loucura. Preciso ir dormir agora... estou com muito sono.
Espere. Você está me dizendo que Harry e os amigos treinam nesta tal de Caverna todos os dias pela manhã e você pretende ir treinar também para se aproximar dele?
Sim. George me contou que eles vão treinar as 5:30 da manhã e ainda está bem escuro, mas eu não vou ir treinar no mesmo horário. Não quero incomodá-los ou que ele pense que o estou perseguindo, começarei a treinar, mas, vou mais tarde, umas 6:30, assim, posso nadar! Desde que a Luna foi petrificada, eu não nadei mais e, talvez, se o Harry ainda estiver por lá, eu posso me desculpar e tentar ser sua amiga. Entende?
Sim, entendo muito bem. Mas, você não estava com medo que ele lhe perguntasse onde estava no dia do ataque a Luna e a culpasse por ter ficado dormindo?
Oh! Eu conversei com o papai sobre isso e ele me disse que não devo me culpar e que a Luna ou qualquer um não me culpariam. Eu estava doente e dormi, poderia acontecer com qualquer um, Luna sabe como a adoro e, que se tivesse estado lá, a defenderia a todo custo.
Ele lhe disse isso? Hum... curioso e irônico...
Irônico? Não entendi.
Não é nada, minha querida. Que horas são, acredito que está na hora de dormir...
Sim, estou exausta e é bem tarde, não sei se consigo acordar para treinar amanhã... Boa noite, Tom.
Boa noite, Ginevra...
Sonolenta, Ginny caminhou para a cama vestida com a roupa de viagem, pois ainda não se preparara para dormir e deitou-se de bruços segurando o diário, mas ela não percebeu nada disso, pois, em segundos, estava dormindo profundamente.
Alguns minutos se passaram e seu corpo se agitou, se levantou e olhou em volta com raiva.
— Maldita! Maldita garota! — A voz que saiu de sua boca era masculina e tão fria que causaria arrepios. — Se tivesse me levado com você... Agora está forte, cheia de bons sentimentos, mas, não será por muito tempo... — Tom segurou o diário, sua ancora com força. — Foi muito mais difícil assumir, mesmo com você dormindo e cansada, quase não consegui convencê-la a escrever no diário, pois sua magia está resistindo, mas, a enfraquecerei outra vez e a matarei lentamente. No entanto, antes...
Se desiludindo e mantendo o diário na mão, Tom deixou a torre rapidamente e foi até a câmara buscar sua amiga, Freya. Ele sabia que não tinha muito tempo, talvez, algumas horas, mas seria o suficiente para matar Potter e todos os seus amigos. Depois de explicar a Freya o que fariam e lhe ordenar que usasse os canos para entrar no vestiário, Tom, se posicionou na porta da tal Caverna dos Marotos. Que nome deprimente! Mas não importava, decidiu determinado, a verdade é que, por ser uma espécie de caverna, ele cercaria o seu inimigo e criaria a armadilha perfeita! Não havia como escapar e Dumbledore não estaria esperando um ataque tão brusco, na manhã do retorno dos alunos. Era por isso que não esperaria até ter dominado e enfraquecido mais a garota, um ataque rápido e inesperado com as informações que ela lhe dera, era o ideal para finalmente se vingar deste maldito garoto!
Desiludido, Tom os viu passar a sua frente e entrar na caverna, conversando sonolentos, menos Potter que mantinha um grande sorriso e caminhar animado. Como ele estava tão alegre e cheio de energia a essa hora? Os amigos, lhe lançavam olhares irritados enquanto Potter os incentivava e falava sobre tudo o que fariam no treinamento. Talvez o irmão de Ginevra estivesse certo, pensou Tom, e Potter fosse louco.
Bem, em breve, seria um louco morto, pensou com um sorriso sádico, enquanto os esperava correrem apavorados até as escadas para, então, acenar com a varinha e selar a porta com o mais avançado dos feitiços que conhecia. Alguns segundos depois, um grito de dor o alcançou e Tom riu friamente, esperava de Freya acabasse com tudo em poucos minutos, teria tempo de sobra para retornar a Torre Gryffindor antes da garota acordar.
Então, o instante de silêncio foi interrompido por berros altos, mas, Tom não se preocupou porque acreditou que era sua basilisco devorando alguma das crianças e, mesmo que alguém ouvisse, a ajuda não chegaria a tempo.
BOOOMMM!
— O que... raios...
BOOOMMM!
— ... é isso? — Tom estava chocado com o barulho das explosões, então...
Ahhhh... me feriu...
Com isso era possível!? Como alguém pode ferir sua Freya!?
BOOOMMM!
— Não! — Exclamou enfurecido e rapidamente usou a varinha da garota e lançou um feitiço para isolar o som.
Infelizmente, esse tipo de feitiço exigia muita força mágica que nem Tom ou Ginny tinham e com magias de explosões acontecendo, o feitiço não resistia por muito tempo. Enfurecido, Tom usou tudo o que conseguiu da energia mágica da garota para manter o som contido, mas, sua magia parecia resistir e quando isso aconteceu, algo se levantou e Tom sentiu algo quente, como chamas, tentando afastá-lo. Era como se... Ela estava acordando! Como? Ela não deveria poder resistir ou acordar, essa garota maldita não poderia expulsá-lo! Mas era isso que acontecia e, de repente, ele percebeu que tinha poucos minutos ou ela descobriria tudo e seus planos estavam perdidos. Sua ancora poderia ser descoberta e destruída! Não permitiria isso!
Sem ouvir o que acontecia lá dentro, Tom decidiu rapidamente e soltou o feitiço de contenção do som.
— HERMIONE! PEGUE-A!
E, sabendo que seu tempo se esgotara, Tom correu e lançou o feitiço Sonorus especial em si mesmo, enquanto ouvia os pedidos de ajuda se espalharem pelo castelo.
AJUDA! ATAQUE NA CAVERNA! AJUDA! AJUDA!
Furioso por aqueles malditos ainda estarem vivos, só lhe restou avisar sua Freya, enquanto se afastava.
— Mate-os! Mate todos eles, Freya! Estou sem tempo! A menina está acordando! Não poderei mais impedir que os professores escutem os sons, terei que partir! Mate-os e volte para a câmara!
Tom gritou sem se preocupar se alguém o ouviria, pois ninguém entenderia a língua das cobras. Ele subiu as escadas desiludido, mas, muito em breve, se sentiu enfraquecer. Não! Tudo girou e ele tropeçou, precisava chegar ao quarto! A Torre! No entanto, a chama ficava mais forte e mais forte tentando afastá-lo, expulsá-lo, queimá-lo, e Tom percebeu o que tinha que fazer. Entrando no corredor do segundo andar, ele correu até o banheiro familiar onde estava a entrada da câmara e se encolheu atrás da porta. Seu último pensamento foi que esperava que a garota estúpida acreditasse ter sofrido de sonambulismo outra vez.
Ginny acordou do pesadelo mais uma vez, com determinação buscou as chamas quentes que a impulsionavam para longe da escuridão, mas, desta vez, ela não estava quente em sua cama. Ela estava fria, fraca, cansada, doente... Olhou em volta confusa e percebeu que estava em um banheiro, em Hogwarts..., mas... seus pensamentos eram confusos e nebulosos... seu estômago embrulhado...
Se levantando, Ginny correu até um dos vasos e vomitou o jantar sentindo a acidez do seu estômago queimar sua garganta. Esgotada, ela caminhou até uma das pias e, foi só então, que percebeu que segurava o diário de Tom fortemente em sua mão.
— O que...? — Sua voz saiu crua e estranha. O que estava fazendo ali? Porque estava se sentindo tão mal? Como antes... antes de deixar Hogwarts, mas... Como? Porque? Estava na escola a algumas horas e voltara a se sentir estranha e ter sonambulismo, mas...
Ginny se encaminhou para a porta, confusa e fraca, tentando pensar, precisava pensar. Não era sonambula! Sua mãe lhe disse que ela nunca...
— Ahhh! — Gritou apavorada ao sair do banheiro e perceber que era o lugar em que Luna foi atacada. Não tinha vindo ali, pois era assustador, terrível o que fizeram com ela, sua amiga, sua Luna! Soluçando, levou a mão ao rosto e mais uma vez percebeu o diário. Porque o estava segurando? Ela escreveu nele e, então... ficou cansada... queria ir dormir... levantar cedo... treinar... nadar..., mas Tom queria conversar, conversar e Ginny estava tão cansada! Mas, ela não dormiria segurando o diário e... Chocada, olhou para si mesma e percebeu que ainda usava as roupas da viagem no Expresso. O que? Porque não tomou banho depois da longa viagem? Não colocou o pijama? Porque...
E, então, foi como se tudo se movesse lentamente.
— Ahrf! — Ginny ofegou e soluçou de surpresa quando seu mundo despencou em imagens da verdade.
Aqui, Ginny, encontrei esse diário nas minhas coisas, mas acho que a mamãe comprou para você. É coisa de menina...
Olá, querido diário...
Olá, meu nome é Tom, quem é você?
Frio, insegurança, medo, tantas dúvidas. Tanta ansiedade para ir a Hogwarts! Harry a odiaria! Não teria amigos!
Então...
Vocês podem se visitar nas Torres, não é proibido...
Sim! Luna! Tanta luz e diversão, muitos risos e afeto.
Não tenho tempo agora, Tom
Sinto tanto a sua falta, Ginny, anseio por você...
Você me abandonou, não somos mais amigos?
Não! Tom, desculpa, serei uma amiga melhor!
Luna! Atacada! Ferida! Petrificada! Sua amiga! Sua Luna! Não!
Agonia! Medo! Culpa! Desespero!
Estou enlouquecendo, Tom!
Não conte a ninguém ou te levarão de Hogwarts e a internarão no St. Mungus...
Não, não contarei, Tom...
Ainda bem que tenho você, Tom...
Você é meu único amigo, Tom...
O diário fica, sem tempo, família, diversão...
Estar em casa, seus pais, tão quente e seguro. Sem medo! Forte! Corajosa! Algo acontecia! O que!? O que!? O que!?
Paralisada, Ginny olhou para o diário pelo que pareceram horas, enquanto lembrava e entendia a verdade. Não, não, não, não, não, não, não...
Sua mente tentava negar, mas, era tão claro e, então...
"Querida, nunca confie em nada que é capaz de pensar se você não pode ver onde fica o seu cérebro"
"Afaste-se da escuridão..."
A escuridão, magia negra, os ataques, Colin, Luna...
E, enquanto parte de sua mente compreendia, outra parte negava em agonia.
Não, não, não, por favor, não, não, não, não...
Trôpega, ela se apoiou na porta e entrou no banheiro, recuando e tentando se afastar da verdade. Porque doía demais! Era injusto demais! Ofegante e soluçando sem ar, Ginny olhou para o diário e se enojou, seu estômago se torceu e ela gritou:
— NÃOOOOOO! — Jogando-o para longe dela, Ginny não percebeu que acertara a fantasma Murta, que saiu indignada para ver quem estava gritando e atrapalhando seu lamento da morte, mas, não viu ninguém.
Isso porque Ginny jogou o diário e correu, se afastando dele e da verdade, ela correu e correu. Seu corpo a levou aos tropeções e ela mal sabia para onde, até que se encontrou em seu quarto. Parou, ofegante e soluçando, olhou em volta e depois correu para o banheiro onde vomitou mais bile amarga, os engasgos dolorosos se misturando com os soluços. Se arrastando para a ducha, abriu o chuveiro sem se preocupar em se despir e se encolheu no chão abraçando os seus joelhos contra o peito. Muito tempo depois, fria e entorpecida, ela saiu da ducha, se despiu, se enxugou, colocou o pijama e deitou-se na cama sem perceber que o dia estava amanhecendo lentamente.
Quem a acordou foi George que sacudiu seus ombros até que ela finalmente despertou.
— Até que enfim! Até parece o Ron! — Disse ele impaciente.
— O que? O que? — Disse ela entorpecida pelo sono.
— Nada, pode voltar a dormir, não teremos aulas hoje, apenas vim te verificar quando não apareceu lá embaixo. Fiquei preocupado. — Disse ele, sem acrescentar o sentimento estranho e retorcido em seu estômago quando não a encontrou com os 1º anos. — Se tivéssemos aulas, você estaria atrasada, Ginny. — Disse ele, olhando distraído para a bagunça de roupas molhadas no chão do banheiro que estava com a porta aberta. — Não devia ficar até tarde conversando com suas amigas quando tem aula... Merlin, estou parecendo a mãe, ainda bem que o Fred não está aqui ou nunca me deixaria esquecer.
— Porque... — Sua voz ainda estava rouca e crua, mas George achou que era de sono, seu rosto inchado e vermelho, mas ele também pensou que era por dormir pouco. — Porque não tem aula?
— Ah! — Seu rosto caiu de preocupação e, talvez, tristeza. — Houve outro ataque do basilisco.
— O que!? — Seu terror se mostrou claramente em seu rosto, mas, George não entendeu sua origem.
— Ei, não precisa ter medo, ninguém morreu, graças a Merlin. — Disse ele suavemente e apertou seu ombro tentando acalmá-la. — E, os aurores descobriram como o basilisco se desloca pela escola, assim, estão muito otimistas de que encontrarão a entrada da tal Câmara Secreta e matarão o basilisco.
Ginny acenou de olhos arregalados e com medo de perguntar, mas, sua boca se moveu mesmo assim.
— Quem...? — E foi suficiente, George entendeu.
— Na Caverna dos Marotos. — Disse George com rosto sério. — Pelo que eu entendi, a pessoa que controla o basilisco criou uma armadilha, trancou a porta de entrada e o basilisco apareceu pelos canos do vestiário do outro lado. Harry, Neville, Terry e Hermione estavam lá com a Prof.ª Charlie... Lembra-se que eu lhe disse que eles treinavam bem cedo? — George perguntou e ao ver o terror e palidez se acentuar em seu rosto, interpretou errado mais uma vez. — Não se preocupe que o Harry está bem, todos estão vivos, felizmente, mas Hermione e a Charlie estão petrificadas.
Ginny abriu a boca, mas nenhum som saiu quando a realidade e culpa pareciam querer sufocá-la.
— George... — O som estrangulado de profundo desespero levou seu irmão a apertar seu ombro outra vez.
— Ginnypop, não se preocupe, a pessoa que fez isso, seja quem for, será pega logo e acabará em Azkaban ou pelo menos expulsa. — Disse ela tentando tranquilizá-la. — Bem, eu voto pela prisão, é o que ela merece por atacar meus amigos.
— Azkaban? — Um novo terror a envolveu e seu coração disparou.
— Sim, porque...
— George! — Fred apareceu impaciente na porta entreaberta. — Porque está demorando tanto!? Combinamos de aproveitar a folga para começar com as pesquisas, lembra?
— Ah! Sim. Estava apenas verificando a Ginny, ela dormiu demais... — Disse ele saltando da cama apressado agora. — Escute, os professores disseram que nenhum aluno deve deixar a Torre e vagar pela escola, muito menos sozinho, assim, pode aproveitar e voltar a dormir, Ginnygirl.
E, um segundo depois, os dois deixaram o quarto e Ginny, paralisada de pavor. Azkaban! Expulsa de Hogwarts! Um frio de terror a fez tremer e se encolher na cama embaixo dos cobertores. Não! Não podia ser verdade... não, não..., mas, a realidade voltou a atacá-la...
Espere. Você está me dizendo que Harry e os amigos treinam nesta tal de Caverna todos os dias pela manhã...
Sim, às 5:30...
Harry e os amigos foram tacados na Caverna dos Marotos
Harry e os amigos foram tacados na Caverna dos Marotos
Harry e os amigos foram tacados na Caverna dos Marotos
Harry e os amigos foram tacados na Caverna dos Marotos
"Fui eu! Minha culpa! Oh, Luna, sinto muito! Sinto tanto! "
A dor e terror a engolfaram e tudo o que restou foram as lágrimas e os soluços sentidos que a sacudiram incontrolavelmente. Então, um sono pesado, pesadelos, escuridão, sufocante... "Não consigo respirar! Me ajudem! Por favor, alguém me ajude! "
Você nos atacou! — Em seus sonhos eles vieram, furiosos, magoados, Luna, Colin, Harry. — Eu quase morri por sua causa! Você não é minha amiga! — Disse Luna com olhos arregalados de magoa.
— Você é uma péssima pessoa! Fique longe de mim! — Gritou Colin com raiva.
— Você machucou a minha amiga! Nunca vou te perdoar! O seu lugar é em Azkaban! — Harry a empurrou para longe.
— Azkaban! — Gritaram o três e Ginny se encolheu.
— Não, por favor, eu não queria... me perdoem, não, não. Azkaban não, por favor, não, não, não...
— NÃO! — Ginny acordou arfando e trêmula, suada e enjoada.
Mais uma vez vomitou o ácido do estômago vazio e entrou no chuveiro quente tentando se aquecer, mas não conseguiu, porque o frio vinha de dentro de si, a partir de sua alma e envolvia o seu coração. Quando se vestiu e secou os cabelos, olhou para o espelho e percebeu que lágrimas escorriam por seu rosto sem parar. Fungando, tentou enxugá-las, mas, mais caíram e mais e mais, soluçando dolorosamente, Ginny se abraçou tentando se aquecer.
"O que faria!? Tinha que contar a alguém! Mas quem? " Em sua mente o rosto amigável e bondoso da Prof.ª Vector brilhou e Ginny se encheu de esperança. "Sim! Explicaria a ela, mostraria o diário e a Chefe da Casa Gryffindor a ajudaria... O diário! " Horror absoluto a envolveu quando se lembrou de jogar o diário no banheiro. "Ninguém acreditaria nela sem o diário! Iriam culpá-la por tudo e jogá-la em Azkaban! Precisava ir pegar o diário e mostrar a Vector, contar tudo e pedir ajuda. "
Decidida e estranhamente mais calma ao perceber o que tinha que fazer, Ginny terminou de se arrumar e desceu para a sala comunal, onde o almoço estava sendo servido. O espaço estava abarrotado de alunos e havia um zunzunzum, mas o clima era sombrio e tenso. Era possível ver que todos estavam amedrontados ou ansiosos e Ginny sentiu a culpa voltar com força. Engolindo em seco, ela se aproximou da mesa, pegou um suco e um sanduíche porque se sentia fraca e trêmula. Precisava se fortalecer para o que viria, decidiu, se eles quisessem expulsá-la, bem... seus olhos voltaram a se encher de lágrimas, ela aguentaria! Mas, talvez, não a mandassem para Azkaban ao verem o diário e que ela não se lembrava de nada, explicaria sobre os apagões e tudo o mais. Prof.ª Vector a ajudaria e seus pais... Ginny engoliu o pedaço de sanduíche com um gole de suco quando ele ameaçou parar na garganta ao pensar em seus pais. "Eles estariam tão envergonhados! Mas, não tinha jeito, ela tinha que fazer isso! " Fortalecida e esperançosa de que tudo se resolveria, Ginny deixou a Torre discretamente, ninguém a notou porque haviam muitas pessoas e ela era muito pequena.
Apressadamente, ela meio andou e correu pelas sombras, até chegar ao segundo andar e seguir pelo corredor na direção da enfermaria, mas, parou antes, no banheiro em frente ao qual, Luna foi encontrada no Halloween. Ignorando seu estômago embrulhado que queria jogar fora o sanduíche que comera, Ginny abriu a porta e foi na direção onde jogou o diário, mas...
— Não! Onde!? — Apavorada, ela procurou por cada canto e em cada lugar, mas o diário tinha desaparecido. — Não, não, não... Oh! Merlin, me ajude!
Depois de 15 minutos, era claro que o diário tinha sido encontrado e levado por alguém. "Quem!? Quem estava com o diário? E se ele escrevesse e Tom o fizesse fazer coisas? Machucar alguém? Não devia tê-lo jogado! O que faria!?" Seus pensamentos eram frenéticos e desesperado enquanto deixava o banheiro, pensando se devia procurar Vector mesmo assim ou...
— Ginevra! — Seu nome sendo chamado com força e repreensão foi um susto tão grande que Ginny gritou e pulou apavorada. — O que pensa que está fazendo? — Era Percy e ele parecia indignado.
— Percy... — Sua voz saiu angustiada e seu irmão a olhou desapontado.
— O próprio diretor ordenou que os alunos ficassem em suas Salas Comunais enquanto o basilisco é caçado! Você não deveria estar zanzando por aí e, muito menos aqui, onde ocorreu o primeiro ataque, Ginevra. — Ele a pegou pelo braço e a conduziu na direção das escadas. — Isso poderia ser considerado suspeito, você não percebe? Mesmo com Luna sendo sua amiga, o melhor é ficar na Torre e ser discreta. O próprio Ministro está em Hogwarts e decidido a fazer uma prisão hoje, assim que o culpado for descoberto, portanto, não chame a atenção para nós visitando os lugares em que ocorreram os ataques. Isso seria péssimo para o papai no Ministério e para minhas chances de ser o Monitor Chefe. Agora, suba e, se te ver fora da Torre, lhe tirarei pontos. — Disse ele pomposamente e, ao ver sua expressão chocada, acrescentou. — Sim, acredite, tirarei pontos da minha própria casa. Agora seja uma menina obediente e fique na Torre.
Aterrorizada, Ginny voltou para a Torre e se trancou em seu quarto. "O Ministro! Aqui, para fazer uma prisão! Não podia contar o que sabia, sem o diário para provar, eles a culpariam por tudo e a jogariam em Azkaban! Estava perdida! " Seu terror e culpa pareciam querer engolfá-la, aprisioná-la e o ar estava faltando, sem conseguir respirar, abriu a janela e o vento frio de janeiro a envolveu, mas Ginny não sentiu. Respirando fundo várias vezes, tentou pensar com mais calma e, aos poucos, sua mente começou a clarear, até que ela decidiu o que fazer. No fim, só havia uma saída, ela observaria com atenção, encontraria quem estava com o diário e o pegaria de volta. Aí, ela o destruiria, algo que deveria ter feito ontem quando percebeu toda a verdade e não contaria a ninguém. Os ataques parariam, os alunos estariam seguros e ela, a salvo de Azkaban.
Harry observou como um expectador tudo o que acontecia a sua volta. Uma parte dele sabia que estava meio em choque e, outra, simplesmente, não estava interessado nas pessoas a sua volta, suas expressões angustiadas e aterrorizadas, suas palavras de conforto ou perguntas bem-intencionadas. Flitwick se colocou ao lado dos três, silencioso e forte, mostrando apoio e afeto apenas com sua presença. Dumbledore chamou os aurores e examinou pessoalmente o vestiário por onde o basilisco entrou, sussurrando sobre a engenhosidade de Salazar Slytherin. Os alunos da Hufflepuff, que foram acordados pelos gritos aterrorizados por ajuda de Neville e as explosões ensurdecedoras, foram enviados para sua Toca. Apenas os monitores foram direcionados para ficarem na porta, como guardas, para impedir a entrada dos curiosos. Os Chefes foram enviados para as suas Casas, para informar os alunos e decretar que não haveriam aulas, que ninguém deveria deixar as Salas Comunais e que as refeições seriam servidas por lá mesmo. Os zeladores foram enviados por caminhos distintos, Bob até a Torre Ravenclaw, pois Flitwick não deixaria seus alunos e Neville. Trudy foi enviada a cozinha para comunicar as mudanças aos elfos domésticos.
Enquanto todos se moviam em direções diferentes, Hermione e Charlie, com o marido Joe segurando sua mão esquerda com força, foram levados por Madame Pomfrey para a enfermaria.
— Quero os três na enfermaria em 5 minutos, preciso examiná-los. Entenderão? — Disse ela com firmeza e eles acenaram.
Mas, ainda não se moveram, pois Dumbledore pediu que aguardassem até sua volta, o que aconteceu logo depois.
— Quero que me contem em detalhes tudo o que aconteceu, mas, o melhor é esperarmos os aurores, assim, vocês falam apenas uma vez. — Disse ele cansadamente e com expressão sombria.
— Os levarei para a enfermaria, então, Albus e quando forem liberados, os acompanharei ao seu escritório se estiver tudo bem. — Disse Flitwick seriamente.
— Perfeito. — Dumbledore concordou suavemente.
E, assim, eles caminharam lentamente o caminho para a enfermaria. O silêncio era opressivo e Harry o preencheu com algo que não saia da sua mente.
— Eles podem concertar sua mão, professor? — Ele perguntou. — Charlie, quero dizer, os curandeiros podem crescer de volta a mão estraçalhada?
— Não é impossível, mas a magia não pode concertar tudo e confesso que, nesse caso, o meu conhecimento é mínimo. — Respondeu ele muito sombrio.
— Depende de quantos nervos foram perdidos. — Terry respondeu muito calmo. — Os ossos, eles podem crescer novos, será doloroso... quer dizer, seria doloroso se Charlie não estivesse petrificada, mas, os nervos que se conectam ao cérebro é outra história. Eles podem até crescer o braço, mas ela não teria movimento e, neste caso, a amputação é mais recomendada.
Harry, Neville e Flitwick acenaram sem questionar o seu conhecimento e com os rostos mais preocupados com a terrível possibilidade de que Charlie perdesse o braço.
Na enfermaria, a movimentação era intensa. Pomfrey solicitara ajuda dos curandeiros do St. Mungus que tratavam de Charlie freneticamente e discutiam o melhor curso de ação e se deviam transferi-la ou não. Por fim, Joe disse que preferiria que ela ficasse em Hogwarts e seu pedido, como o marido, foi acatado. Hermione estava em sua própria cama com um cortinado a sua volta, tinha sido examinada e estava bem, apesar da petrificação.
Harry foi dada uma poção de nutrientes, um grande prato de comida e muito líquidos por causa da exaustão mágica. A poção energética apenas lhe mantinha em pé, mas não recarregava a sua magia, isso levaria mais tempo.
— Nada de usar magia pelas próximas 48 horas, a não ser que seja uma emergência, mas, cuidaremos para que isso não seja necessário. Certo, Filius? — Disse Madame Pomfrey severamente.
— Com certeza, Poppy. — Disse Flitwick em tom de promessa.
Terry e Neville foram alimentados, hidratados e liberados também. Flitwick os encaminhou pelo corredor e deveriam subir um andar para o escritório do diretor, mas, antes de chegarem lá, o professor gesticulou para uma sala. Todos entraram e eles selou a porta, lançando um feitiço de silêncio.
— Professor? — Harry perguntou confuso ao ver sua expressão carregada.
— A quanto tempo você sabe que era o alvo do atacante, Harry? — Perguntou ele, direto ao ponto.
— O que? — Harry recuou tentando pensar no que responder. — Eu...
— A verdade, por favor. Mesmo que seja um bom oclumente, não aceitarei mentiras, acredito que nossa relação já passou deste ponto. — Ele disse com firmeza e Harry engoliu em seco.
— Desde o ataque a Colin. — Respondeu suavemente.
— O que? — Terry o encarou pálido. — Você sabia que, seja quem for, está tentando te matar? Era isso que estava escondendo?
— Sim. E, é Voldemort que está controlando a basilisco. — Disse ele encarando Terry nos olhos.
— Porque não me disse isso, Harry? — Flitwick estava muito zangado. — Pensei ter lhe dito que o apoiaria quando obtivesse informações importantes e que ajudaria no que fosse preciso. Pedi que me chamasse e não corresse riscos sozinhos.
— Sim, eu sei, senhor e concordei, na verdade... — Harry suspirou e bagunçou ainda mais os cabelos. — O senhor estava certo ao dizer que eu estaria sendo tolamente orgulhoso se não informasse aos aurores se descobrisse alguma coisa. Eu refleti sobre isso e percebi que estava errado, mas o problema é que fiquei com receio de que me tirassem de Hogwarts se soubesse que sou o alvo.
— Mas isso seria bom, não é? — Terry questionou com voz sombria. — Você estaria seguro e o resto de nós também.
— Ah, sim! Voldemort vai simplesmente tirar um cochilo já que o seu principal alvo não está disponível. — Disse Harry com sarcasmo. — É claro que não! Ninguém está seguro! Provavelmente, ele começaria a matar nascidos trouxas que não tem como se defenderem! Eu não podia arriscar que seus pais, Sirius e Dumbledore decidissem me tirar da escola, assim, guardei a informação e treinei ainda mais forte. Também me tornei muito mais cuidadoso ao andar pela escola...
— Sim e isso deu muito certo. — Disse Terry mordaz.
— O que quer dizer? — Harry perguntou confuso.
— Quero dizer que você escondeu informações, de nós, do professor e aurores porque você acha que é a coisa certa a fazer e agora Hermione está petrificada! — Exclamou Terry com raiva. — Por sua culpa!
Harry se engasgou de choque e, em um segundo, uma fúria imensa o envolveu.
— Isso não é verdade! — Gritou dando um passo à frente.
— Sim! É sim! Quaisquer grandes e inteligentes planos que você tenha tido, falharam! Você se colocou em primeiro lugar e foi arrogante, convencido de que só você tem razão, só você é inteligente. — Terry disse com sarcasmo. — Bem, veja o que resultou isso! Ou você não previu a possibilidade de sermos todos atacados? O que? Você achou que só você estava em perigo? Ou que é tão poderoso que poderia nos proteger de um basilisco!?
— Eu não sei onde você estava, mas, eu os protegi de um basilisco! — Harry gritou de volta. — E, eu quis dar informações! Mas ninguém quis me ouvir ou aceitar minha ajuda! Passei semanas depois do ataque ao Colin treinando e protegendo vocês da melhor maneira que pude, com medo e evitando andar pela escola. Praticamente não deixei a Torre Ravenclaw se não fosse acompanhado e, sim, temia que Voldemort se impacientasse e tentasse um ataque mesmo quando eu não estivesse sozinho. Tive pesadelos sobre isso! Mal conseguia dormir com medo de um ataque a nossa Torre durante a noite e tudo o que eu ouvi de você e Hermione foi que não queriam saber! Vocês não queriam saber! — Harry berrou em fúria. — Eu precisava do apoio de vocês, eu precisava de ajuda, de seus cérebros, de suas ideias e motivação! E, tudo o que recebi foi: vamos seguir as regras, deixe os adultos resolverem, vamos ficar seguros. Bem, não existe isso de segurança, não existe ninguém nesta escola seguro! Entendeu, agora?
— Talvez, se tivesse nos escutado e deixado os adultos resolverem, tudo já teria terminado! — Terry parecia desesperado.
— Sim, eles fizeram muita coisa até agora. — Harry voltou com acidez.
— Porque você está escondendo informações! Você tem que contar aos aurores tudo o que você sabe! Não importa o seu orgulho! — Terry respondeu indignado.
— Ok. Chega vocês dois. — Flitwick olhou para o relógio. — Não temos tempo para isso, vocês continuam essa discussão depois. Também não temos tempo para você me dizer o que sabe, Harry, e decidirmos juntos o que devemos ou não contar e como contar aos aurores. Problema que teria sido evitado se tivesse me confiado antes, Harry. — Ele suspirou cansado. — Agora, cabe a você dar as informações que achar melhor e da maneira que achar melhor, mas, acredito que realmente chegou o momento de lhes informar o que sabe. Talvez seja o avanço que eles precisam para pôr fim a todo esse mistério terrível.
— Ok. — Harry engoliu a raiva e tentou usar sua oclumência para se acalmar e organizar os pensamentos. — Não falarei sobre ser um alvo, pois ainda tenho receio que meus guardiões queiram me tirar de Hogwarts e, como disse, não acredito que essa é uma boa solução.
— Concordo. — Flitwick acenou. — Essa não é a solução, mas o perigo em que está é imenso, Harry, temos que pensar bem em como atuar a partir deste ponto para mantê-lo seguro.
— Ok. — Harry suspirou um pouco aliviado por ter o apoio do seu professor e chefe. — Existem alguns pontos que envolvem Dobby, que só falarei se tiver certeza que ele estará seguro e, outros em relação a pessoa que sendo usada por Voldemort, que quero que sejam prioridades. Não aceitarei que eles não priorizem salvá-la.
— Muito bem, o apoiarei sobre esses pontos. — Disse Flitwick olhando para o relógio mais uma vez. — Algo mais?
— Não, apenas que insisto que minha ofidioglossia seja mantida em segredo absoluto e que gostaria que me deixassem ajudar, ainda que essa última parte seja apenas uma esperança. — Acrescentou Harry e Flitwick concordou.
Os 4 retomaram o caminho para o terceiro andar e o clima estava ainda mais sombrio do que antes. Em poucos minutos, eles passaram pela gárgula e subiram ao escritório do diretor que estava vazio. O silêncio se prolongou, pesado, tenso, até que, finalmente, Dumbledore entrou acompanhado de Moody, King e outro auror que foi apresentado como John Dawlish. O clima na sala mudou mais uma vez com a presença de um completo estranho, a desconfiança e tensão se duplicaram.
— Auror Dawlish estará participando das buscas pela basilisco com a equipe do Departamento de Controle das Criaturas Mágicas. — Explicou King com sua voz profunda. — E, está aqui para saber se vocês têm quaisquer novas informações, depois deste ataque, que possa ajudar a encontrar a entrada da Câmara Secreta.
Os três garotos acenaram negativamente, Harry tinha muito o que falar, mas, com certeza, não falaria na frente de um estranho. E, se soubesse onde era a entrada da câmara, não a revelaria para aqueles trogloditas da equipe de caça do Ministério. Será que ninguém entendia que precisavam agir com discrição e sutiliza? Sua irritação de mais cedo voltou com força e ele se esforçou para controlar o temperamento.
— E, você, Potter? — Perguntou Moody do seu jeito brusco. — Ouviu algo que poderia ajudar a equipe de caça?
— Não. — Disse ele mordendo a palavra com força. — E, não sei como poderia ouvir qualquer coisa útil quando fomos atacados por uma cobra gigantesca.
— E, como sobreviveram ao ataque do basilisco exatamente? — Perguntou Dawlish em tom desconfiado.
— Pensei que estava em busca de informações sobre a câmara, auror Dawlish. — Disse Flitwick em tom de dispensa.
O homem ficou indignado, mas, como seus superiores apenas o encararam esperando sua saída, ele corou e deixou o escritório murmurando sobre algo que ninguém se preocupou em ouvir.
— Bem, a pergunta é bem válida, garoto. — Disse Moody olhando para o Harry com intensa atenção. — Como raios vocês estão vivos?
— Nós lutamos, Auror Moody, até que parecia que não íamos conseguir, mas, nunca desistimos e, de alguma forma, estamos aqui. — Respondeu Harry relaxando agora que estavam com pessoas confiáveis.
—E, você quer que eu acredite nisso, Potter? — Disse Moody com desconfiança.
— O que quer dizer? — Harry ficou tenso de novo e olhou para King e Dumbledore. — Como acha que afastamos a basilisco?
— Talvez falando com ela? Hum? — Moody deu um passo à frente o encarando um seu olho bom enquanto o outro girava loucamente entre Terry e Neville. — Porque tudo isso me parece bem estranho, Potter, muito estranho mesmo. Você e seus amigos estão sempre no meio de tudo em cada um dos ataques e, em minha experiência como auror, das duas, uma. Ou estão escondendo informações ou são os culpados!
— Culpados! — Terry falou indignado. — Nós quase morremos uma dúzia de vez em menos de 15 minutos, nossa melhor amiga e professora estão petrificadas! Charlie pode perder a mão e estávamos lá quando...
— Pensei que estivéssemos aqui como testemunhas. — Disse Neville muito confuso quando Terry se calou emocionado. — E, não como suspeitos.
— Porque se estiverem, acredito que chamar um advogado seria o ideal. — Disse Flitwick irritado. — Meus alunos acabaram de passar por um grande choque e não os deixarei interrogá-los sem suporte legal.
— Isso não é necessário, professor. — Disse King tranquilamente. — Moody está sendo Moody e... exagerando, meu amigo. — Seu tom era um aviso sutil. — Nem ao menos ouvimos os seus relatos do que aconteceu e acusá-los não nos levará a lugar algum.
— Ok. Muito bem, mas, me permito o direito de desconfiar de todos. Vigilância constante! — Berrou Moody e Harry considerou que seu apelido lhe caia muito bem.
— Meninos, lamento pelo que aconteceu hoje e por não termos ainda descoberto o atacante ou a entrada da câmara que nos levará ao basilisco. — Disse King suavemente. — Sei que confiaram em nós e não era justo que passassem por esse terrível ataque ou vissem outra amiga ser ferida.
Todos acenaram, ainda que Harry se mantivesse um pouco rígido.
— Porque não nos sentamos todos e ouvimos o relato dos eventos desta manhã. — Disse Dumbledore acenando com a varinha e conjurando confortáveis poltronas.
— Ok. Relato do ataque acontecido em Hogwarts no dia 04 de janeiro de 1993. Presentes neste depoimento formal estão... — King acionou e formalizou o depoimento que estava sendo registrado com a pena oficial.
Harry, então, descreveu o que aconteceu a partir do momento em que ouviu a basilisco no vestiário. Ninguém o interrompeu e ele ignorou as expressões de espanto ou exclamações de choque e aflição que vieram principalmente do Flitwick. Ele deixou de fora a aparatação por que sabia que seria inacreditável, e o que ouviu Voldemort dizer sobre a menina estar acordando, até ter certeza que eles fariam dela a prioridade. Terry e Neville contaram seus pontos de vista de tudo o que aconteceu, o que era bem menos, por não terem, efetivamente, visto nada ou participado da luta direta.
— Fenomenal. — Dumbledore o olhou orgulhoso, Harry se controlou para não lhe fazer uma careta. — Apenas posso enaltecer sua coragem, sangue frio e inteligência diante de um perigo tão extremo.
— Hum... uma carga de bolotas se quiser minha opinião. — Moody disse com aspereza.
— Alastor. — Disse Dumbledore impaciente.
— O que? O garoto é ofidioglota, Albus! O que lhe parece mais provável! Que tudo isso que ele descreveu aconteceu ou que ele esteja controlando o basilisco esse tempo todo!? Hã!? — Moody lhe lançou um olhar desconfiado e paranoico. — Ver com sua magia? Sentir o ambiente? Lançar inúmeros feitiços avançados que pararam e feririam um basilisco de mais de mil anos? Sabe quanto poder aquele animal tem? Nem mesmo todos os meus recrutas juntos sobreviveriam com apenas duas petrificações e o garoto quer que eu acredite que ele, sozinho, fez isso?
— Eu não estava sozinho...
— Besteira! Você vai sentar aqui e olhar na minha cara sem admitir que fez tudo sozinho? Hum? A professora entrou em pânico! A garota fez dois feitiços e então perdeu a cabeça! Esse daqui! — Apontou para o Neville. — Fez um feitiço com os olhos fechados. Grande coisa! E, esse? — Apontou para Terry sem olhá-lo. — Mais te atrapalhou do que ajudou e você sabe disso, Potter!
— Eu sei muito bem. — Harry disse ainda olhando Moody com serenidade fingida. — Eu estava lá e sei o que aconteceu, na verdade, jamais vou me esquecer, mas não estava sozinho, Auror Moody. Mesmo que pouco, todos ajudaram e, sim, o que aconteceu é verdade e o senhor sabe disso. Não estou controlando o basilisco e, se estivesse, não mataria alunos, na verdade, estaria tentando descobrir o endereço de Malfoy e seus amigos.
— Hum! — Moody o olhou meio divertido. — Gosto de como pensa, garoto e gosto ainda mais do que faz com essa varinha. Assim, espero que esteja em minha turma de treinamento auror em alguns anos. E, sem desculpas!
— Se estiver vivo até lá, velho, varrerei o chão com você. — Harry respondeu no mesmo tom.
Isso fez Alastor Moody rir rouco e engasgado, como se não o fizesse com muita frequência e ganhar olhares assombrados de King e Dumbledore que nunca o viram fazer isso.
— Muito bem, garoto, vou viver só para ver você tentar. — Disse ele debochado.
— Bem, se pararam de se divertirem, podemos continuar? — Disse King com um olhar divertido. — Porque estava falando sobre Harry estar controlando o basilisco, se nós sabemos que não acredita nisso, Alastor?
— Ora, não é óbvio? Eu sou só um auror, não mando em nada, na verdade, há 11 anos também fiquei confuso com a ideia de Black ser o traidor e disse isso aos meus superiores, mas fui dispensado como um recruta ingênuo. — Disse ele mal-humorado.
— Está preocupado que o mesmo aconteça com Harry, Alastor? — Dumbledore perguntou preocupado.
— Você seria um tolo se também não estivesse, Albus. — Ele resmungou e apontou para a lareira. — Daqui a pouco o Ministro e membros do Conselho de Governadores entrarão por aquele flu, a notícia estará nos jornais antes que possamos piscar e cartas desesperadas dos pais começarão a chegar. Quando descobrirem que, pela terceira vez, em três ataques, Harry Potter estava envolvido e que ele é um ofidioglota, o que acha que acontecerá? Acredita que acreditarão nessa luta absurda ou apenas pularão para a conclusão mais fácil? Hum?
— Sabendo o que sabemos sobre o Ministro e o que as pessoas podem fazer quando estão com medo, sim... — Albus suspirou preocupado. — Você está certo, Harry será julgado o culpado antes do meio dia.
— Isso é uma piada? — Harry falou tentando se controlar. — Julgado o culpado? Com que provas? E os testemunhos de Terry, Neville e Hermione?
— Eles estão falando de um julgamento público, Harry e não judicial. — Flitwick explicou ansioso. — Querem dizer que, quando esses fatos chegarem até as pessoas, sejam os pais, o Ministro, a imprensa e seus leitores, será muito mais fácil acreditarem que você controla o basilisco, do que na ideia de que um garoto de 12 anos lutou contra um e venceu.
— Eu não venci. — Harry disse exasperado e bagunçando seus cabelos. — Ela está bem viva, então, eu não venci. Bem, e sobre o porquê? O que? As pessoas acreditariam neste absurdo e pensariam que eu faria algo assim porque razão? E, como fiz isso?
— Pense, Potter. Você é o único ofidioglota nesta escola, assim, poderia ser o herdeiro e controlar o basilisco facilmente. — Disse Moody impaciente. — Alguns diriam que você quer chamar a atenção, brincar de herói ou que é simplesmente mal. Aposto que alguns idiotas diriam que é por isso que você derrotou Voldemort, por ser maligno desde que nasceu. — Ele bufou antes de continuar. — Então, você combina com a basilisco o que fazer e, depois, corre com seus amigos por aí bancando o herói e com ela seguindo as suas ordens, afinal, eles não compreendem coisa nenhuma do que vocês conversam. Entende?
— Sim, eu entendo. — Harry se levantou irritado e caminhou pelo escritório. — Entendo que só as pessoas idiotas e sem cérebros deste mundo louco poderiam acreditar neste absurdo, assim como acreditaram que uma criança de 15 meses derrotou um bruxo adulto e extremamente poderoso! Ou que ele passou a infância lutando contra dragões e quimeras!
Harry parou de andar e apontou para Dumbledore.
— Isso é sua culpa! — Disse irritado.
— Minha? — O diretor o olhou espantado e curioso.
— Sim! Essa escola! Ela não ensina aos alunos a pensarem por si mesmo! A terem um mínimo de senso crítico ou noção da realidade! — Harry ergueu os braços exasperado. — E, nada nunca muda! Todas essas tradições de séculos e séculos, sem pensamento inovador, sem incentivo a criatividade, forma um monte de adultos alienados e sem noção! — Harry apontou para Flitwick e para os quadros. — Vou lhes dizer uma coisa! Se essa merda de escola não mudar, meus filhos não estudarão aqui! Abrirei minha própria escola de magia e Hogwarts será esquecida, desabitada como são os cérebros da maioria dos bruxos do Reino Unido!
Um silêncio chocado caiu no escritório quando Harry terminou seu desabafo e foi interrompido por um som rouco e engasgado que lembrava um triturador. Eles olharam na direção do Moody que não estava rindo e sim, gargalhando loucamente segurando a barriga e arfando desesperadamente.
— Cérebros desabitados! Ah!Ah!Ah!Ah!
— O que raios! Eu nunca nem o vi sorrir e agora está rindo feito um louco. — Disse King chocado.
— Bem, ele é louco, não é? — Harry disse e olhou para Neville que escondeu o sorriso. — De qualquer forma, eu entendo a sua preocupação, Auror Moody e, por isso, não quero que minha ofidioglossia seja divulgada e prefiro que o que aconteceu hoje de manhã fique entre nós. Na verdade, podemos dizer que a Prof.ª Charlie nos salvou e nos orientou a agir, ela pode ficar com os créditos.
— Harry, podemos manter segredo das pessoas comuns, mas, do Ministro? — King falou e trocou um olhar com Dumbledore. — Não me surpreenderia que ele tentasse encontrar um bode expiatório para essa bagunça toda, não é como se isso já não tivesse acontecido antes.
— O que quer dizer? — Harry perguntou voltando a se sentar.
— Harry, não mencionamos antes, mas a câmara secreta foi aberta antes, há quase 50 anos, na verdade. — Disse Dumbledore e observou as sobrancelhas de Harry se levantarem de surpresa por informações estarem sendo dadas tão facilmente. — Na época, um aluno, que tinha uma grande afinidade com criaturas consideradas perigosas, foi acusado e expulso de Hogwarts. Não lhe direi seu nome, porque sei que ele não gostaria que isso se espalhasse. De qualquer forma, ele teria sido preso se eu não tivesse convencido o Ministro e a Suprema Corte, que não haviam provas reais disso, mas, por muito pouco, ele não teve o mesmo destino de Sirius.
— Ok. — Harry sentiu sua mente se envolver com essa nova informação e como tudo parecia estranhamente familiar. — Vocês temem que isso aconteça comigo, mas, acredito que, enquanto não podemos conter uma condenação pública, caso todos esses fatos vazassem ao público, o mesmo não acontece com o Ministro.
— Harry está certo. — Terry disse pensativo. — Existem muitos fatos que podemos ou, no caso, os adultos podem mostrar ao Ministro, que o influencie a aceitar a verdade. Por exemplo, nós ouvimos uma voz falando hoje e não era o Harry, ele jamais falou com a cobra. No ataque da Luna, o Harry esteve conosco o tempo todo, nossa amiga e a gata tinham acabado de serem feridas quando as encontramos. Além disso, ele é Harry Potter e o povo o adora, principalmente depois que deu empregos para centenas de pessoas em suas fazendas. Em último caso, podemos envolver os sobrenomes Boots, Longbottoms, Potters e Blacks para influenciar e lutar por qualquer calúnia ou acusações absurdas, isso sem falar de outros bons amigos.
— Sr. Boot está certo. — Flitwick disse muito sério. — Todos esses pontos, além do meu testemunho de que o Harry tem capacidade para se defender do basilisco, me leva a acreditar que o Ministro Fudge não se atreveria a ir por esse caminho.
— Podemos expor tudo isso e deixar claro o quanto ele seria prejudicado por tentar atacar o Harry. — Disse Dumbledore pensativo. — Cornelius teme mais do que tudo ter sua imagem manchada e perder seu cargo.
— Pode ser que dê certo, mas ele quererá culpar alguém e o Conselho de Governadores não será uma moleza também. — Disse Moody asperamente. — Se a pessoa responsável por isso for descoberta a tempo, será muito bom, porque aposto que eles virão atrás do seu cargo, Albus.
— Eu não me preocupo com isso no momento, Alastor, o Conselho tem algumas pessoas mais sensatas agora e minha prioridade é manter os alunos seguros. — Respondeu Dumbledore gravemente.
— Espere um segundo. — Harry os encarou quando um mal pressentimento lhe apertou o estômago. — O responsável por isso é Voldemort e sabemos disso!
— Sabemos? — Moody perguntou com as sobrancelhas arqueadas. — Tudo o que sabemos é o que você disse, Potter e um boato de que Voldemort se declarou o herdeiro de Salazar Slytherin para seus estúpidos seguidores. Onde está a prova?
— Nos esbarramos no fato de que todo o mundo mágico acredita que Voldemort está morto, Harry e, assim como no ano passado, depois do que aconteceu com Quirrell, as chances de termos provas da verdade são mínimas. — King foi realista. — Acredito que seria mais fácil provarmos o envolvimento do Malfoy do que de seu antigo Mestre.
Harry acenou e fechou os olhos, apoiando a testa na mão e refletiu sobre isso tudo e o que significava, qual a solução.
— Ok. Entendi. O melhor a fazermos, será abafarmos tudo, como foi feito comigo no ano passado. — Ele apontou para Flitwick. — O Prof. Flitwick ficou com os créditos e o público em geral acredita que a morte de Quirrell foi um acidente, eu não gosto de mentiras, mas, neste momento, isso não é o mais importante.
— Sim, mas, você se esqueceu de algo importante, Potter. — Disse Moody mal-humorado. — Nós somos aurores e temos chefes! Quando descobrirmos quem está atacando os estudantes teremos que informá-los e, sem termos como provar a influência de Malfoy ou Voldemort, quem você acha que pagará por isso? Hein?
— Não! — Harry se levantou na hora. — Vocês não podem fazer isso!
— Harry, acalme-se. — Disse Dumbledore suavemente. — King, Moody, entendo suas colocações, mas, sabendo que esse meu aluno é inocente e está sendo usado, acredito que podemos tentar minimizar a situação.
— Nós faremos o possível, Diretor, mas, a verdade é que a cada momento, a pressão aumenta e, se alguém morrer... — King estava tenso e suspirou. — Depois do ataque ao Beco, o clima no Ministério ficou ainda mais tenso e volátil. Exige-se uma punição justa aos responsáveis e dentro da lei, sem mentiras ou desvios de conduta como as que foram feitas no caso de Sirius. Temos dezenas de novos protocolos que não nos permitem mentir para os nossos superiores ou nos relatórios. O público não tem acesso e as informações são filtradas por questão de segurança, é claro, mas, o Ministro, o Chefe Auror e Madame Bones não aceitarão menos do que o responsável. Se tivermos provas de que culpado é Malfoy ou Voldemort, talvez, o seu aluno não sofra punições, mas, ainda assim, se a informação vazasse, ele sofreria com a condenação pública. Imagine os pais dos outros alunos, eles não aceitarão que seus filhos estudem com esse garoto.
— Entendo. — Dumbledore estava muito tenso. — Esses cenários me parecem terríveis e precisamos pensar em formas de minimizar. Não divulgação, por exemplo, sendo um menor, podemos exigir que os dados da investigação e do processo devam permanecer em absoluto sigilo. Caso seja necessária uma punição, a expulsão de Hogwarts é preferível do que tempo em Azkaban.
Harry abriu a boca absolutamente horrorizado com o que ouvia. Eles enlouqueceram? Olhando para Neville, o viu encará-lo parecendo tão pálido e angustiado como quando viram Hermione petrificada. Flitwick também encarava o diretor e os aurores meio enojado e Terry estava muito tenso.
— Isso, talvez possa ser possível, Albus, se ninguém for morto até lá, mas, caso isso aconteça, dificilmente ele se livrará de Azkaban. — Moody disse pessimista. — Ainda não temos provas de que esse aluno não está, voluntariamente, participando disse tudo, mas, mesmo se for considerado algo acidental, se conseguirmos provar manipulação mágica mental ou magia negra, não podemos garantir que não haja alguma punição se alguém morrer.
— E, de qualquer forma, apenas o julgamento, causaria muito sofrimento...
— Julgamento? — Quem interrompeu Dumbledore foi Neville furioso. — O mesmo julgamento que Malfoy e seus companheiros tiveram quando alegaram estarem sob Imperius? Nunca houve ao menos uma investigação! E, agora estão pretendendo prender, julgar e enviar para Azkaban um adolescente que está sendo usado por Voldemort?
— As coisas mudaram desde então, Sr. Longbottom. — Dumbledore respondeu serenamente. — Os casos de Sirius e Crouch Jr, obrigaram o Departamento de Leis a rever seus protocolos, mudar regras e leis internas.
— É por isso que você não queria chamar os aurores? — Harry perguntou tensamente.
— Sim. Eu queria manter o controle de danos, mas, agora, isso não está mais em minhas mãos. — Respondeu o diretor abrindo as mãos suavemente.
— Albus, essa criança, porque não importa a sua idade, ela é uma criança, precisa do nosso apoio e proteção. Lavar as mãos é imperdoável. — Disse Flitwick desapontado.
— Não lavarei as mãos, Filius, pelo contrário, mas não vejo como impedir o trabalho dos aurores e o processo que se seguirá. — Dumbledore se mostrou sincero. — Mas, ele ou ela terá todo o meu apoio, defesa e proteção. Não permitirei que vá para Azkaban e, para isso, é imprescindível que resolvamos todo esse mistério antes que alguém acabe morto.
— Sim. — Moody olhou para Harry com desconfiança. — E ajudaria se o garoto maravilha aqui dissesse o que está escondendo de nós. Desembucha, Potter!
Harry se tencionou ainda mais e trocou um olhar com Neville que parecia tão conflituoso quanto ele mesmo.
— Harry, sei que continuou as investigações apesar do nosso pedido em contrário e, tudo bem, entendemos. — Disse King em tom persuasivo. — Você é muito curioso e inteligente para não fazer isso, mas, precisamos saber o que você sabe para encontrar a pessoa que pode estar sendo usada por Voldemort e detê-la, Harry.
— Detê-la, pará-la, aprisioná-la. — Harry disse suavemente e todo o seu ser, sua magia, sua alma gritaram "Não". — Vocês nem ao menos pensam em salvá-la, mas, eu deveria saber disso e não estar tão chocado. — Harry olhou para Dumbledore com frieza. — O senhor não aprendeu nada depois do que fez comigo?
— Harry...
— Não tente esse tom de conciliação comigo! — Harry se levantou e sua magia se agitou furiosa. — Nós temos uma história bem feia, diretor, o conheço muito bem e suas maneiras de agir... ou melhor, de não agir! Há alguns meses, eu lhe dei inúmeras maneiras diferentes em que poderia ter decido agir sobre a minha infância e o senhor escolheu a pior delas. A omissão! E, agora, bem aqui, tem a coragem de dizer que não vê outra maneira? Que não está em suas mãos? — Harry respirou fundo tentando se acalmar, porque isso não era sobre ele, era sobre ela. — Bem, não se preocupe mais, porque a partir de agora, está em minhas mãos e vou salvá-la de Voldemort e protegê-la de vocês também.
— Harry... —Dumbledore parecia confusamente magoado.
— Ela? — King disse suavemente.
— Eu sabia que estava escondendo alguma coisa, garoto. Fale logo! — Disse Moody com aspereza.
Harry riu sem qualquer humor e se afastou em direção a porta.
— Vocês podem estar fazendo os seus trabalhos, Aurores, mas, a partir deste ponto, estamos em lados opostos e o que eu sei ou deixo de saber pouco importa. — Harry disse com frieza. — E, sim, King, ela. Uma garotinha, está a meses, meses... — Harry se engasgou só de pensar. — Sofrendo sabe-se lá o que nas mãos de Voldemort. No ano passado, ele era terrivelmente cruel com seu servo fiel, imagine o que não estará fazendo com essa menina inocente. Nesses dois meses, eu descobri algumas coisas sim, continuei a investigação e pretendia lhes avisar assim que tivesse a identidade dela, pois confiava que vocês a salvariam! — Harry os olhou com decepção e suspirou. — Ela está morrendo... — Seus olhos se encheram de lágrimas. — Voldemort está tentando recuperar seu corpo e ela morrerá se não impedirmos, pensei... — Ele respirou fundo. — Pensei que tinham entendido isso, o horrível desperdício de sua vida inocente, mas, todos vocês estão mais interessados em sacrificá-la porque é o caminho mais fácil! Basta disso! — King e Moody se levantaram indignados com a intenção de se defenderem, mas, Harry os ignorou. — Não venham com desculpas esfarrapadas! Se, antes, Malfoy pagar para não ser preso por seus crimes e meu padrinho inocente ser encarcerado sem um julgamento, era errado, agora, enviar uma inocente para Azkaban também é! Se o Ministério está mudando, está indo para pior e não melhor, mas, sabe o que não muda? — Harry sorriu mordaz e gesticulou para os três. — O que não muda é que os bruxos adultos deste mundo não fazem nada!
— Menino! — Moody gritou repreensivo e furioso pela afronta. — Não sabe nada sobre nós!
— Sei, que o senhor tem a coragem de dizer na minha cara... — Harry bateu no próprio rosto em fúria. — Que não acreditava que meu padrinho, minha única família, era o culpado e que se sentou em sua bunda por 10 anos! E, não fez nada! Por dez anos, nós dois estivemos no inferno, porque era o caminho mais fácil inventar desculpas sobre ser um simples auror sem poder... — Harry debochou com sarcasmo. — Do que escolher agir. Se acham que permitirei que a sacrifiquem... — Ele fechou os olhos tentando controlar a raiva só de pensar.
— Vocês deveriam se envergonhar. — Disse Flitwick que tinha se levantando e se colocado, com Neville e Terry, ao lado do Harry. — Vocês três, deveriam se olhar no espelho e terem vergonha de si mesmos, senhores.
— Fácil julgar, principalmente quando se é uma criança cega por ideais absurdos. — Disse Moody para Harry com certo desprezo. — Você ainda não viveu nada, garoto e não sabe nada da vida ou como lutamos pelo mundo mágico. Perdemos tanto quanto você, posso lhe garantir.
Quem respondeu com frieza e igual desprezo, foi Neville.
— Acredita mesmo nisso? Acredita que nunca poder olhar para os olhos dos seus pais e receber todo o seu amor, cuidado e proteção é o mesmo que perder uma perna, ou uma namorada? — A tensão se dobrou quando Moody empalideceu com a menção de sua perda. — E, no fim, isso não importa porque não existe uma competição sobre quem sofreu mais, porque todos sofremos. E, essa menina, é outra vítima de Voldemort e está sendo descartada como se fosse... qual foi a expressão? Controle de danos? — Neville encarou Dumbledore com decepção. — Ela não é apenas um dano a ser controlado e é terrível que o senhor, de todas as pessoas, não veja isso.
O silêncio pesado que se seguiu enquanto os dois lados se analisavam, foi interrompido inesperadamente pelo funcionamento do flu e a chegada de Cornelius Fudge.
— Ah! Albus! Auror King, Moody, já pegaram o criminoso? — Disse ele agitado e ansioso, torcia o seu chapéu coco verde limão freneticamente com a mãos. — Em breve, a imprensa descobrirá o que houve... Que coisa horrível, mais duas pessoas petrificações e um deles é um professor! O Profeta ganhará o dia hoje falando da incompetência do Ministério. E, os pais estarão furiosos, afinal, se nem um professor está seguro em Hogwarts, como seus filhos estarão, não é mesmo?
— Bom dia, Cornelius. — Disse Albus muito sombrio. — Infelizmente, ainda não descobrimos o responsável ou como ele está agindo, apenas sabemos que o basilisco está utilizando os canos para se mover pela escola.
— Oh, que pena... Tinha esperança de poder apresentar o facínora a imprensa junto com o comunicado do novo ataque. — Sua expressão era ansiosa e tensa ao olhar em volta em busca de uma solução. — Ah! Quem são esses, Albus? Algum suspeito? Creio que a imprensa se contentaria com isso.
Harry engoliu o ácido que subiu para sua garganta ao se adiantar para cumprimentar o homem vil.
— Não se apresse em julgar, senhor, isso não é muito... humano, para um Ministro. — Harry disse com sarcasmo ao lembrá-lo dos crimes contra os Direitos Humanos descobertos a um ano. — Harry Potter, prazer em conhecê-lo, Ministro Fudge. — Muito formal, ele apertou sua mão enquanto o homem arregalava os olhos e corava de entusiasmo e constrangimento.
— Sr. Potter! Um grande prazer conhecê-lo! —Exclamou ele se decidindo pela empolgação e agitando sua mão sem parar. — Um grande prazer! Realmente!
— Obrigado, Ministro. — Disse Harry se esforçando para pegar a sua mão de volta. — Deixe-me lhe apresentar meus dois melhores amigos, Neville Longbottom e Terrence Boot. Além do meu Chefe de Casa, Prof. Flitwick que, talvez, o senhor já conheça. — Disse Harry com toda a formalidade que cabe ao Senhor Potter.
— Sim, sim, claro. — Fudge sorriu de maneira magnânima. — Prazer em revê-lo, Filius.
— Digo o mesmo, Ministro Fudge. — Disse Flitwick com cordialidade.
— Prazer em conhecê-lo, Ministro. — Disse Terry apertando sua mão com um sorriso falso. — Meu avô sempre fala sobre o senhor. — Acrescentou ele, sem dizer que o Sr. Boot sempre falava mal de Fudge.
— Ora, sim, Juiz Boot, grande homem, o melhor. Prazer em conhecê-lo, Sr. Boot. — Sorriu Fudge educadamente. — Sr. Longbottom, prazer em revê-lo, espero que o senhor e sua querida avó tenham tido maravilhosas Festas.
— Tivemos sim, Ministro Fudge, obrigado. Enviarei seus cumprimentos a minha avó. — Neville respondeu com segurança e formalidade. — E, espero que o senhor e sua família tenham passado bem também.
— Obrigado, Sr. Longbottom. — Ele, então olhou para como eles estão vestidos, com as roupas de ginásticas, bagunçadas e com marcas de sangue. — Vocês parecem que passaram por alguns transtornos... Não me digam que foram vocês as vítimas deste terrível ataque!
Sua expressão era de choque e preocupação enquanto pensava no que a imprensa diria quando soubesse que Harry Potter foi atacado. Pior! O que diria Augusta Longbottom!
— Infelizmente, Ministro. — Disse Neville sombrio. — E, uma das nossas amigas foi petrificada, assim como nossa professora de educação física.
— Oh! Sim, sim, Albus me contou em sua carta. Trágico, realmente, e um verdadeiro milagre que vocês estejam bem. — Fudge disse meio perguntando, meio constatando.
— Graças a Prof.ª Charlie, Ministro Fudge. — Disse Harry rapidamente. — Nossa professora foi incrivelmente corajosa e arriscou a vida para nos salvar.
— Incrível! Ela lutou sozinha com um basilisco!? — Fudge parecia chocado.
— Ela nos disse o que fazer para ajudá-la, Ministro Fudge, e não estaríamos vivos se não fosse pela Prof.ª Charlie. Sabe, acredito que o Profeta adoraria publicar a história de sua heroica coragem. — Harry explicou com um sorriso sarcástico. — Se ela perder o braço, então...
Fudge arregalou os olhos avidamente como um abutre cheirando a carniça.
— Claro! Eles amarão isso! — Exclamou ele apertando seu chapéu e dando uns saltinhos alegres.
— Sim e, talvez, diante do seu feito, uma homenagem seria esperada, Ministro Fudge. — Disse Neville com ar pomposo. — Minha avó esperará, pelo menos, uma Ordem de Merlin 3ª Classe, afinal, a vida de seu neto e herdeiro foi salva.
— Sim! Sim, sim, claro, Ordem de Merlin, 3ª, talvez, 2ª Classe, afinal, ela salvou a vida de Harry Potter! — Seus olhos arregalados brilhavam de entusiasmo. — Faremos um grande evento, com os jornalistas e...
— Cornelius, ainda não chegou o momento para comemorações, Charlotte está sendo tratada de um grave ferimento e o basilisco não foi capturado. — Disse Dumbledore exasperado.
— Ora, Albus, isso não importa, tudo o que precisamos é de algo que distaria o povo e os jornalistas cuidarão disso escrevendo sobre a professora heroína. — Fudge estava convencido e muito animado.
— Ministro, meus amigos e eu estávamos de saída quando o senhor chegou, precisamos nos trocar e ainda não conseguimos visitar nossa amiga depois de tudo o que aconteceu. — Harry disse apressadamente e aparentando o cansaço que sentia. — Assim, se o senhor nos der licença...
— Claro, claro, Harry, posso te chamar de Harry? — Disse ele de maneira familiar e deselegante.
— Com certeza. — Harry sorriu falsamente. — Prazer em conhecê-lo, senhor. Com licença. — Acrescentou ele olhando com frieza para King, Moody e Dumbledore.
Harry deixou apressadamente o escritório com Neville e Terry o seguindo de perto, Flitwick escolheu ficar, provavelmente, para descobrir o que pretendiam contar ao Ministro.
— Para onde vamos? — Neville perguntou alcançado o ritmo de Harry.
— Temos uma discussão para terminar e, depois, podemos ir ver Hermione. — Disse ele e, sem precisarem falar, caminharam para o Covil.
A tensão era enorme quando entraram e fecharam a porta do Covil, lançando o feitiço de imperturbabilidade.
— Ainda acredita que devo confiar neles? — Harry perguntou com dureza. — Ainda pensa que escondi o que descobri por capricho ou orgulho?
— O que penso é que você parece estar mais preocupado com essa garota do que com seus amigos. — Terry disse irritado. — Hermione acabou de ser petrificada por causa dela, mesmo que indiretamente, e pessoas podem ser mortas a qualquer momento e sua única preocupação é salvá-la.
— Merlin... — Neville olhou para o amigo assombrado. — Depois de tudo o que ouvimos os adultos dizerem com tanta indiferença, você ainda acrescenta mais isso? Harry quase morreu umas 10 vezes hoje para tentar nos salvar e aquela garota está sozinha, sendo usada e manipulado por um assassino! Pense por um segundo se fosse Ayana! Você gostaria que todos lavassem as mãos e a sacrificassem como alguém desimportante!
— Neville... — Terry empalideceu ao ver a raiva do amigo.
— Não! — Neville estava furioso. — Todos são importantes! Todos! Hermione, você, eu, essa garota ou qualquer aluno em Hogwarts são igualmente importantes. Agora pare de agir como um egoísta mimado, como se fosse o único aqui que teve a melhor amiga petrificada!
Terry abaixou a cabeça, envergonhado.
— Tem razão, me desculpe. — Ele engoliu em seco abalado.
— Harry passou os últimos meses respeitando vocês dois, o desejo de não se envolverem nas investigações, mesmo nas nossas discussões sobre o tema. E, nem por um segundo, ele deixou de pensar em maneiras de nos proteger, com a capa, o diário, tenso, sem dormir, com pesadelos e nem podia conversar com dois dos seus melhores amigos sobre isso, porque eles decidiram que preferem ser dois alienados. — Neville abriu os braços exasperado. — Ele é o alvo! E, mesmo assim, não quer deixar Hogwarts porque sabe que pode nos proteger e salvar essa garota! E, depois do ataque a Caverna e essa absurda reunião, nem você pode ficar aqui em pé e dizer que ele está sendo arrogante e convencido!
Neville terminou ofegante e cansado, Harry jamais o viu tão zangado e sua leal amizade, como sempre, o desconcertou.
— Você está certo. — Terry segurou a cabeça com as mãos. — Estou tão furioso... — Sua voz se embargou. — Com o que aconteceu com a Hermione, por ser tão inútil, mas, também estou furioso com os segredos. Eu sei, eu sei que não queria saber, sei que disse que não estava pronto para me envolver ou mentir para os meus pais...
— E, eu lhe disse que estava tudo bem, não quero que se obrigue a fazer nada que não queira. — Disse Harry duramente. — Mas, não é justo me cobrar por informações agora.
— Mas também não é justo que, como seu melhor amigo, seu irmão, parte da sua família, eu não saiba que você é o alvo! — Terry parecia magoado. — De todas as coisas que você descobriu, isso não poderia ter ficado em segredo! Eu pensei que confiasse em mim!
Harry riu assombrado.
— Confiança!? Você quer falar de confiança!? Eu não lhe contei porque você não podia me garantir que manteria segredo dos seus pais. Eu perguntei especificamente e você hesitou! — Harry esfregou a testa porque sua cabeça pulsava de dor. — Se tivesse me prometido que não contaria a ninguém, eu lhe diria tudo o que descobri, mas, bem, se você quer falar de confiança, vamos falar. O que eu lhe disse para fazer hoje? Eu lhe pedi uma coisa, Terry! Uma coisa! Se concentre! De a volta na piscina! Pegue a Hermione, os espelhos, exploda a parede! Eu disse para não pegar a Charlie, que não poderíamos ajudá-la naquele momento e o que você fez?
— Eu não podia deixá-la para traz! — Terry gritou de volta. — Eu jamais poderia deixar alguém ferido para traz! Ela teria morrido, sangrado até morrer lá no chão, sozinha! Você agiu como se não se importasse, como se não houvesse como salvá-la e, assim, deveríamos apenas nos salvar. Eu não concordo com isso.
— Porque é um idiota! Cego! — Harry tentou não ficar com mais raiva quando sua cabeça pulsou. — Eu nunca descartei ajudar a Charlie! Eu desci correndo na direção dela e lancei o feitiço para conter a hemorragia e quando os enviei com aquelas diretrizes, eu estava pensando nela também! Pense! Se vocês atravessassem rapidamente a Caverna e entrassem no vestiário, estariam seguros e poderiam ter estourado as paredes se unissem as três varinhas em um feitiço de explosão! Nós não sabíamos que ninguém estava nos ouvindo, assim, eu pensei que a ajuda poderia chegar em breve e um dos professores abriria a porta como fez Dumbledore. E, Charlie estaria ali, aos pés da escada, pronta para ser levada para a enfermaria! Vocês estariam seguros fora da Caverna ou trancados no vestiário! Eu não tinha como explicar tudo em poucos segundos, por isso eu lhes disse! Concentrem-se!
— Mas... —Terry estava tão pálido que parecia que vomitaria. — Ninguém ouviu...
— Sim. — Harry disse e bagunçou os cabelos. — Me deixou desconcertado quando continuei lutando e a ajuda não chegou, mas, isso só tornava o meu plano o melhor caminho porque vocês poderiam ter deixado a Caverna em busca de ajuda. Ao em vez disso, eu tive que me virar em 10 de um lado para o outro tentando salvá-los! Vocês estavam lentos demais por terem que carregar a Charlie e estiveram a dois segundos de serem mortos! Foi praticamente um milagre o fato de eu ter aparatado até vocês do outro lado da Caverna. — Harry ignorou seus olhares de espanto, porque ele deixou essa informação de fora do depoimento e, na hora do ataque, não tinham como perceber. — Você entende isso? Eu te pedi uma coisa, uma! E, o que você faz!? Se coloca, Neville, Charlie e Hermione como alvos!
— Eu... não pensei... — Terry puxou os cabelos desesperado. — Eu queria salvá-la... não sabia que você ia parar o sangramento...
— Terry... — Harry o olhou decepcionado. — Se a Charlie ia sangrar até morrer lá no chão, carregá-la, lentamente, todo aquele caminho com olhos fechados, mudaria o que? Ela ainda sangraria e morreria. Eu disse, não podemos fazer nada por ela agora, porque o que podíamos fazer era sobreviver e buscar ajuda. E, no meu caso, distrair o basilisco para vocês terem tempo de fazerem isso. Quanto tempo você acha que eu poderia segurar a basilisco, enquanto você se arrastava pela caverna carregando-a? — Ele suspirou exausto e muito chateado. — Você disse que não pensou, tudo bem, porque eu fiz isso. Eu respirei fundo, analisei a armadilha em que estávamos e, então, eu sabia o que fazer e lhe disse! Você só tinha que confiar em mim! Você ousa... — Sua voz se perdeu de emoção. — Me cobrar confiança, mas, quem não confia em mim é você e isso quase nos matou a todos hoje!
O silêncio na sala era ainda pior do que antes, o que parecia impossível.
— Merda... — Terry tinha uma expressão atormentada. — Se Charlie estivesse sangrando mesmo, o único jeito de salvá-la era ir buscar ajuda o mais rapidamente possível... Meu Deus! Se não fosse o feitiço da sua família, eu teria matado ela! — Seus olhos se encheram de lágrimas que transbordaram por seu rosto pálido. — Hermione poderia ter morrido e, ela estar petrificada agora, é minha culpa!
— Temos que parar com isso! — Neville exclamou angustiado. — Olha o que estamos fazendo! Brigando uns com os outros, nos acusando, nos culpando e, aposto que se aquele maldito pudesse nos ver, estaria rindo muito feliz por isso.
— Neville está certo... — Harry sentiu a cabeça pulsar. — Voldemort é o único culpado, não nós ou essa garota e precisamos nos controlar para podermos salvá-la. Mas... não sei como faremos isso porque... — Harry encarou Terry com dureza. — Não podemos confiar nos adultos e, hoje, percebi que não somos uma equipe, porque uma equipe confia uns nos outros. Você não confia em mim, Terry e, quer saber, eu também não confio em você.
Cansado demais para continuar essa discussão que não os levaria a lugar algum, Harry saiu do Covil.
— O que eu fiz? — Sussurrou Terry olhando para a porta aberta por onde Harry passou.
— Terry...
— Não, Neville, não adianta tentar me fazer sentir melhor... Eu fui um idiota cego, como ele disse, e não apenas hoje... — Terry se sentou e segurou a cabeça. — Eu o decepcionei, o magoei... você está certo, ele precisou de mim todos esses meses e eu sabia disso... — Ele olhou para Neville arrasado. — Eu vi sua tensão, sabia que algo estava acontecendo e ele me disse que não precisava da minha varinha e, sim, do seu melhor amigo o apoiando, mas, eu fui covarde... — Sua voz se embargou. — Eu... estou acostumado a deixar os adultos resolverem tudo e, depois do ataque a Luna, estava tão apavorado que fiquei aliviado que os aurores assumiriam, pensei... Mas, Harry viu além, não é? E, eu devia ter confiado nele, em sua intuição e julgamento, assim como deveria tê-lo seguido hoje sem questionamento... — Terry parou e olhou para o amigo com atenção. — Você viu também, não só o apoiou em sua desconfiança aos adultos, como tentou me convencer a deixar Charlie hoje.
— Você acha que eu vi tudo isso que o Harry descreveu ser seu plano? — Neville riu sem qualquer humor. — Merlin, não, eu não sou ele, Terry, nenhum de nós é, e não vi nada além de correr, chegar ao vestiário e explodir a parede. Que foi o que ele pensou e nos mandou fazer aliás e, por isso, eu não quis levar a Charlie, só o fiz porque você disse que a arrastaria sozinho. — Neville o encarou com sinceridade. — Quando ficou claro que estávamos presos, minha primeira reação não foi pensar no que fazer e sim perguntar ao Harry, "o que fazemos agora? " Porque, de todos nós, ele é o melhor nesses momentos, em encontrar o caminho para sobreviver e resolver um problema após outro, sem nunca desistir. Isso não me faz um covarde, Terry, me faz inteligente por seguir o melhor líder presente. Além disso, ele também era o único ali que poderia lutar com a maldita cobra, assim, o melhor que eu podia fazer para ajudá-lo, era seguir sua liderança e sair do caminho.
Eles ficaram em silêncio quando a verdade afundava em Terry lentamente.
— Jesus Cristo... ele realmente lutou com um basilisco... — Terry disse meio assombrado e ao encarar Neville, nenhum deles pode se conter e começaram a rir histericamente. — Eu, o julgando arrogante por dizer que poderia ajudar os aurores e o que ele faz? Aparata em Hogwarts e luta contra um maldito basilisco de mil anos... — Disse ele gargalhando descontroladamente.
— Sim... — Neville disse rindo tanto que seu estômago doía. — E, ele eletrificou a água...
— Ah!Ah!Ah! Eu pensei... juro que pensei que estava morto quando cai na piscina, mas a eletricidade só me fez cocegas... Ah!Ah!Ah! — Terry se dobrou no sofá sem conseguir controlar o riso.
Demorou um pouco, mas, quando eles finalmente se acalmaram, Terry suspirou tristemente, porque não havia nada de divertido em toda essa bagunça.
— Obrigado, Nev, você é um bom amigo.
— Você também é... não, me escuta. — Neville não o deixou se autodepreciar. — Harry está chateado agora, até mesmo magoado, mas, isso logo vai passar e ele compreende porque você e Hermione não quiseram se envolver. Muitas vezes, quando eu disse que não os compreendia ou concordava, Harry me dizia que vocês não estavam prontos, que estávamos em tempos diferentes porque somos pessoas com histórias diferentes. E, sobre hoje, como eu disse, nós não somos o Harry e, bem, se você acha que ele te deu uma boa esculachada por seu erro, imagine o que acontecerá com a Hermione quando ela for despetrificada? — Disse Neville divertido.
— Oh! — Terry arregalou os olhos ao lembrar o erro da Hermione e imaginar a cena. — Merlin a salve! — E, não aguentando, começaram a rir tudo de novo. Quando conseguiram parar, Terry se levantou e lhes serviu um copo de água da mesinha do canto tentando acalmar a histeria absurda. — Você está certo, Nev, nós não somos o Harry, mas somos seus amigos e, sabe, ele está certo também, eu não estava pronto e nós não somos uma equipe de verdade. E, é isso que Harry Potter precisa, Nev, tanto quanto precisa da nossa amizade e apoio, ele precisa de uma equipe que siga sua liderança com confiança, que proteja suas costas, que não o questione, o atrase ou atrapalhe. — Terry passou as mãos pelos cabelos. — Eu estive tão cego, pensei que entendia... Ele me disse, sabe, Harry disse que eu não entendia o que o futuro nos reserva.
— Até Voldemort estar morto, nossa luta não é apenas com livros, Terry. — Disse Neville com firmeza se levantando também.
— E, não podemos, Hermione e eu, nos alienarmos da verdade. — Acrescentou Terry.
— Mesmo os adultos confiáveis falharão e precisaremos estar preparados. — Neville afirmou.
— Estamos em guerra... — Disse Terry engolindo em seco. — Quer dizer, eu já sabia disso, mas agora, percebo que somos os soldados nesta guerra, Nev, não somos crianças, não podemos ser.
— Sim. — Neville suspirou muito cansado. — Mas, quer saber, a batalha de hoje terminou e... na verdade, é quase um milagre não termos perdido ninguém e isso me faz acreditar que, de certa forma, nós vencemos. Vamos lá, vamos ver a Hermione antes de descansar e, talvez, exista alguma novidade sobre Charlie também.
Eles chegaram a enfermaria rapidamente e Harry não estava lá como esperavam, mas, antes que pudessem se preocupar, a agitação do Prof. Joe lhes chamou a atenção.
— Não importa o que me diga! Não permitirei que corte o braço dela, deve haver outra maneira! — Joe estava dizendo ao curandeiro de cabelos brancos, alto e magro feito um caniço.
— Sr. Price, eu sou curandeiro a mais de 50 anos que é pelo menos uns 15 a mais do que você tem de vida, assim, acredite quando eu digo que a amputação é a única solução para a paciente. — Disse o Curandeiro entre entediado e arrogante.
— Isso pouco me importa! — Joe gritou furioso. — Sou formado em Educação Física e no meio do meu Mestrado em Anatomia e Fisiologia do Corpo Humano, portanto, sei o suficiente para lhe dizer que não aceito esse diagnóstico! Os ossos foram estraçalhados, mas existe uma preservação dos nervos e tendões que me fazem acreditar que seu braço pode ser salvo.
— Não entendo metade do que disso, Sr. Price e seus estudos trouxas pouco me importam. — O Curandeiro gesticulou com desprezo. — Sejam quais forem os seus supostos conhecimentos ou os métodos de tratamentos trouxas, com certeza, eles serão inferiores aos mágicos, portanto, estou lhe dizendo que precisamos transferi-la agora mesmo para o St. Mungus e realizar a amputação.
— Me recuso! O mundo trouxa tem uma medicina incrivelmente avançada e a cada dia avança mais, Curandeiro Lintner! Ou encontra uma maneira de curá-la ou a levarei a um hospital trouxa para uma cirurgia! — Gritou Joe furioso.
— O senhor não pode fazer isso! Com a petrificação, o Estatuto de Sigilo estaria seriamente ameaçado! — Curandeiro Lintner se indignou. — Se o senhor não ceder, terei que chamar os aurores e mandar prendê-lo por ameaçar o Estatuto e a vida da Sra. Price com sua atitude absurda.
— Droga, onde está o Harry? — Neville sussurrou preocupado. — Ele sempre sabe o que fazer nessas horas.
— Sim, mas... — Terry olhou para o amigo e disse um pouco acanhado e surpreso. — Eu sei o que fazer também.
— Sabe? Então faça, Terry. — Neville o incentivou.
— Ok. — Terry se adiantou até onde os dois homens estavam se encarando ao lado da cortina que deveria esconder a cama de Charlie. — Com licença.
— Se está procurando a Madame Pomfrey, garoto, ela já deve estar voltando, apenas teve que sair por um momento. — Respondeu o Curandeiro Lintner impaciente.
— Não, quero falar com o Joe. — Disse Terry um pouco tímido, não estava acostumado a se impor entre os adultos. — Professor, eu tenho dois tios que são médicos trouxas, se o senhor quiser, podemos levar a Charlie para a clínica deles e conseguir uma cirurgia para o seu braço, sem que o Estatuto seja ameaçado.
— Realmente? — Joe o olhou com esperança. — Eu conheço muitos médicos, mas eles não sabem sobre magia.
— Meus tios sabem, Joe e sei que estarão mais do que dispostos a ajudar. — Terry disse com mais firmeza e sua mente já começava a pensar em como contatá-los o mais rápido possível. — Quando olhei o braço da Charlie, me pareceu que era possível salvá-lo...
— E, o que um garoto de 12 anos sabe? — Interromper o curandeiro com desdém. — Sr. Price, os ossos do braço poderiam ser reconstruídos, mas os tendões e nervos que se conectam ao cérebro não, pois foram rompidos! Alguns tão esmagados e destruídos que é impossível refazê-los!
— No mundo mágico, talvez, mas, os cirurgiões trouxas tem técnicas que lhes permitem reconstituir os tendões e nervos, existem até mesmo a possibilidade de emprestar de outra parte do corpo e fazer um enxerto. — Disse Joe com convicção.
— Isso é impossível! — Lintner exclamou assombrado.
— O senhor é que não passa de um retrógado ignorante. — Disse Joe e o dispensando se aproximou de Terry. — Terry, qualquer coisa que puder fazer para entrar em contato com seus tios, por favor, é urgente.
— Ok. Vem comigo. — Terry o levou para fora da enfermaria e o direcionou para o jardim. — O jeito mais rápido que fazermos isso é o senhor aparatar na clínica dos meus tios em Londres, explicar a situação em detalhes e, que eu o enviei. — Terry deu o endereço e os nomes de Martin e Elizabeth. — Agora, meus tios não são cirurgiões, mas, eles conhecem alguns médicos e curandeiros nascidos trouxas que trabalham na Clínica Relive, que é uma clínica clandestina que utiliza métodos trouxas e mágicos.
— O que? Isso existe? — Joe perguntou chocado.
— Sim, mas, eles são muito discretos por causa do Ministério e meu tio tem trabalhado com eles na área de saúde mental, pois ele é psiquiatra. — Terry caminhava na direção do portão de Hogwarts tentando se manter com a pernas compridas de Joe. — Essa é uma longa história para outro dia, mas, o fato é que meu tio poderá conseguir um dos médicos da clínica para voltar com o senhor e examinar, transferir e tratar de Charlie rapidamente. Na Clínica Relive, eles terão todas as técnicas, trouxas e mágicas para salvar seu braço, mas o senhor tem que dizer que ela está indo para a clínica dos meus tios. Entendeu tudo?
— Sim, com certeza. — Eles chegaram ao portão e Joe o abraçou com força e brevemente. — Obrigado!
E, um segundo depois, ele saiu pelo portão e aparatou.
Terry ficou parado e respirou fundo sentido a adrenalina baixar lentamente enquanto uma grande autossatisfação o envolvia.
— Talvez seja assim que o Harry se sinta depois de uma luta. — Sussurrou ele e erguendo os ombros, voltou para o castelo.
Harry, deixou o covil pelo caminho menos óbvio e o mais longo, ou seja, pelo longo e estreito corredor que o levou até o terceiro andar onde, no ano anterior, Fofo estava sendo mantido. Sua cabeça pulsando o lembrou da bolsa com poções, o que o fez se lembrar de todas as suas coisas que ficaram no vestiário meio destruído da Caverna e, ao pensar no mapa do seu pai, ele mudou de direção. Ao chegar a Caverna, viu que os caçadores do Ministério já tinham deixado o lugar e, agora, deveriam estar seguindo os canos para tentarem encontrar a entrada da Câmara Secreta. Satisfeito, ele entrou rapidamente sem se preocupar em colocar a capa e não percebeu que Lockhart estava no corredor, escondido em um nicho, esperando que Fudge aparecesse para poder lhe cumprimentar e puxar o seu saco.
Gilderoy olhou surpreso e desconfiado para Harry, que andava furtivamente e entrou na Caverna ao ver que estava vazia. Ele mesmo ficou tentado a entrar e verificar se encontrava algo interessante que pudesse usar em algum novo e lucrativo golpe, mas, as ordens eram para que ninguém acessasse a Caverna e Gilderoy ficou com receio de ser pego pelos aurores e que estes fizessem muitas perguntas ou o investigassem.
Harry entrou e pegou sua mochila onde estavam seus livros e a roupa que pretendia colocar para as aulas. Para ganharem tempo e treinarem mais, eles se habituaram a tomar banho ali na Caverna e irem direto para o café da manhã e aulas, assim, não tinham que subir para as Torres. Olhando com atenção, ficou aliviado ao ver que o mapa estava bem ali e, voltando para a área onde a viu pela última vez, procurou e não encontrou a bolsa personalizada de poções que JJ fez para ele.
— Mas... que merda! — Sussurrou irritado. Investira uma fortuna em todas aquelas poções e as lágrimas da fênix! Eram elas que o salvariam se a basilisco o mordesse.
Sabendo que ficar ali e ser pego não era uma boa ideia, Harry deixou a Caverna rapidamente e se mantendo nas sombras. Lockhart hesitou, mas, depois se desiludiu e decidiu segui-lo, pois Potter lhe parecia muito suspeito.
Harry seguiu para a enfermaria para ver a Hermione e, enquanto caminhava, sua mente voltou para a conversa com Terry. Se sentia arrependido, pois fora muito duro com seu irmão e, na verdade, a culpa por essa bagunça era toda dele. Harry reconhecia isso, ele era um péssimo líder porque, quando um membro da sua equipe não confiava em você, era sua culpa, pois alguma coisa você fez, ou não fez, para não lhe passar a confiança que ele precisava para segui-lo. E, Denver estava certa, se ele não resolvesse esse problema, se não confiasse neles e eles em seu líder, acabariam por se matarem.
Distraído, Harry não percebeu que estava sendo seguido ou que seus passos o levavam para a enfermaria pelo corredor onde Luna foi atacada. Desde o Halloween, sempre que precisava ir ver a Madame Pomfrey, ele ia por outro caminho, pois não gostava de se lembrar de como encontraram a Luna pendurada daquela maneira horrível. Infelizmente, quando percebeu, Harry já estava a poucos metros de distância e não valia a pena voltar, assim, ele prosseguiu e, quando passou em frente a porta do banheiro feminino onde vomitara no ano anterior, depois da aula do Snape, ouviu uma menina chorando. Franzindo o cenho, Harry parou, preocupado, pois sabia que todos os alunos deveriam estar em suas salas comunais. Seus pensamentos foram para a menina que estava sendo possuída por Voldemort e, decidido, Harry entrou no banheiro.
— Olá? — Disse gentilmente. — Eu te escutei chorar lá de fora... entrei apenas para ver se está tudo bem... — O choro parou e tentando não a assustar, acrescentou. — Eu sou um menino, mas, posso chamar uma professora se você precisar?
De repente, um fantasma atravessou uma das portas do reservado. Era uma garota muito jovem, cabelos pretos presos em um rabo em cada lado da cabeça, usava óculos grandes e redondos, também era claro ver que era a fonte do choro pelas lágrimas em seu rosto.
— Você não deveria estar aqui, esse é um banheiro de meninas. — Disse em tom de repreensão.
— Me desculpa, apenas, eu a ouvi chorar e fiquei preocupado. — Harry suspirou, sentindo o cansaço envolvê-lo, a verdade é que seria muita sorte encontrar alguma pista ou mesmo a garota que procurava no banheiro. — Não vou mais incomodá-la...
— É claro que não se preocupa comigo, a pobre fantasma que não para de chorar, Murta-que-geme, é como eles me chamam. — Ela se esbugalhou em soluços dramáticos.
— Sinto muito. — Harry disse sincero. — Como é o seu nome?
A fantasma parou de chorar e o encarou surpresa.
— Você quer saber meu nome? O de verdade? — Sussurrou ela roucamente.
— Sim... quer dizer, se o apelido não te agrada, não seria gentil te chamar por ele, não é? — Disse Harry um pouco confuso.
— Quando era viva, me chamava Myrtle Warren. — Disse ela tristemente e Harry sentiu seu coração se apertar, ao mesmo tempo, sua cabeça dolorida o lembrou que precisava de uma poção.
— Eu me chamo Harry, Myrtle, prazer em conhecê-la. — Disse suavemente e, indo até a pia circular, Harry abriu uma das torneiras para jogar uma água fresca no rosto. — Porque estava chorando?
— Oh! Eu estava aqui cuidando da minha vida e alguém achou que é engraçado jogar um livro em mim...
— Sinto muito, talvez a pessoa não te viu ou teve a intenção de te acertar. — Disse Harry enfiando a cabeça sob a torneira e molhando a nuca para tentar aliviar a tensão.
— Não, os alunos gostam de zombar da pobre Murta. — Disse ela um pouco agudamente e Harry sentiu sua cabeça pulsar. — Aposto que era algum jogo para ver se acertavam minha cabeça
— Você viu quem jogou o livro? — Harry perguntou acenando a varinha para secar os cabelos.
– Eu não vi... Eu estava apenas sentada em bem ali, pensando em minha morte e, então, alguém abriu a porta e jogou o livro. — Disse ela chateada. — Está lá, foi levado pela água...
Harry olhou para o chão um pouco surpreso ao perceber que estava inundado de água, mas, como queria muito ir embora logo e tomar sua poção para dor de cabeça, decidiu não perguntar o porquê. Espiando embaixo da pia para onde Myrtle apontava, viu um livro pequeno e fino caído ali, ele tinha uma capa preta e gasta, estava todo molhado como tudo o mais naquele banheiro. Harry estendeu a mão e o pegou, a água escorreu e o livro se secou mostrando que tinha magias de preservação. Rapidamente, Harry percebeu que era um diário e o ano meio desbotado na capa lhe informou que tinha cinquenta anos de idade. Abrindo-o encontrou na primeira página o nome "T. S. Riddle", em tinta borrada e quase ilegível. Folheando, percebeu que estava todo em branco, provavelmente, tinha magias que escondiam o que o seu dono escrevia nele, afinal, o seu próprio diário era assim. E, deveria ser antigo, um presente de um avô, talvez, considerou Harry e se perguntou como veio parar aqui, jogado desta maneira displicente.
Em sua mente brilhou a imagem da Luna e de como seus colegas estavam roubando e escondendo suas coisas por toda a escola. Sim, isso seria algo que algum bullying idiota consideraria engraçado, pensou, pegar o diário e jogar em algum lugar qualquer bem no momento em que esse Riddle não poderia sair para procurar. O garoto ou garota deveria estar desesperado que alguém encontrasse e descobrisse como ler o que escreveu e, se era um presente especial, ficaria arrasado se perdesse.
— Escute, Myrtle, vou guardar e tentar encontrar o dono, pois é um diário e pode ser importante para alguém. — Disse Harry e rapidamente o guardou em sua mochila. — Sinto muito que fizeram isso, se descobrir quem foi, o denunciarei para o meu Chefe. Ok?
— Você é muito gentil... para um menino. — Disse ela o olhando de soslaio.
— Obrigado, acho. — Harry sorriu e acenou. — Até outro dia, Myrtle.
— Tchauzinho. — Disse ela acenando com um suspiro dramático.
Harry deixou rapidamente o banheiro e apertou o passo para a enfermaria sem perceber que sua sombra se deteve quando o viu passar pelas imensas portas duplas.
Lockhart parou pensativamente, pois sentia que tinha feito uma grande descoberta e precisava decidir como usar isso para sua vantagem. Era óbvio o que estava acontecendo bem debaixo dos narizes do diretor e dos aurores. Agora, imagine isso! Ele, Gilderoy Lockhart descobriu tudo sozinho! Seu sorriso arrogante se ampliou ao pensar em como sua fama duplicaria quando revelasse ao mundo que Harry Potter era o herdeiro de Slytherin! "Duplicaria? Ora, o que estava pensando? Sua fama alçaria aos céus nunca antes explorados! " Enquanto voltava para o corredor da Caverna para ficar de tocaia à espera do Ministro, Lockhart pensou no plano fabuloso de Harry. Não entendia como nunca pensou, ele mesmo, em fazer algo assim, imagine se... Um novo pensamento lhe ocorreu e Lockhart se deteve com o pé no alto e olhos esbugalhados. Claro! Sim! Era isso que faria! Seria perfeito!
Desistindo de ir encontrar Fudge, ele decidiu ir para o seu quarto realizar um delicioso tratamento facial enquanto tomava um banho de banheira. Não precisava puxar o saco do Ministro, pois, quando concluísse seu plano, ele seria eleito o próximo Ministro da Magia!
Harry entrou na enfermaria e descobriu por Neville o que estava acontecendo com Charlie e que Terry estava ajudando. Madame Pomfrey não estava por perto e Harry desistiu de pegar sua poção para dor de cabeça, decidindo que o melhor era ir descansar e pronto. Sentando-se ao lado de Hermione, suspirou ao apertar sua mão com carinho.
— Sua boba, custava ter corrido para o vestiário quando eu pedi? Hum? E, porque não usou a varinha para carregá-la? — Harry olhou para Neville. — Não lhes ensinei nada? Porque a estavam carregando nos braços e não com suas varinhas?
Neville abaixou a cabeça e corou envergonhado.
— Desculpe, na hora do pânico, parece que nenhuma ideia vem à tona, não sei como faz isso, pensa tão friamente e vê todos os caminhos, os certos e os errados. — Disse ele cabisbaixo.
— Tudo bem. — Harry suspirou cansado. — Eu também cometi erros e tenho que resolver isso, ainda estou analisando tudo na minha mente, mas, depois que a Hermione acordar, quero que sentemos e analisemos cada uma das nossas decisões e erros. — Harry esfregou a testa.
— Eu gostaria disso. — Terry se aproximou lentamente enquanto ouvia o Harry. — Gostaria que compreendêssemos os nossos erros para assim aprendermos a ser uma equipe de verdade.
Harry o olhou com atenção e viu sua expressão e postura determinada.
— Finalmente está pronto? — Perguntou suavemente para ter certeza e ouvir a confirmação de sua boca.
— Eu estou pronto. — Terry endireitou ainda mais sua postura e afirmou com convicção.
— Bom, porque somos péssimos, teremos muito o que treinar e não serei bonzinho. — Disse Harry com dureza e emoção ao mesmo tempo.
— Ok. — Terry e Neville acenaram concordando.
— Você sabe da Pomfrey? — Harry perguntou mudando de assunto e era como se tudo estivesse bem outra vez ou, quase isso. — Queria uma poção para dor de cabeça.
— Ela acompanhou a Prof.ª McGonagall até a casa dos Grangers para explicar sobre a Hermione. — Disse Flitwick entrando na enfermaria. — Vocês não deveriam ir para seus quartos descansarem? Não imaginei que os encontraria aqui ainda.
— Pretendíamos apenas passar um tempo com a Hermione antes de ir, professor. — Disse Terry e pegou do bolso do agasalho esportivo que usava a bolsa de poções do Harry. — Estou louco por um banho, mesmo que o senhor me secou mais cedo... Aqui.
— Você a pegou! — Harry sorriu aliviado, estava com medo que os aurores a tinham confiscado. — Obrigado.
— Tem algumas poções aí que os aurores fariam perguntas se te vissem com elas, assim, achei melhor escondê-la em meu bolso. — Disse Terry com um sorriso suave.
Harry devolveu o sorriso e bebeu a poção. Neville suspirou ao perceber que as coisas estavam voltando ao normal.
— Porque a Madame Pomfrey teve que ir com a McGonagall, senhor? — Neville perguntou curioso. — E porque a Vector não foi avisá-los?
— Vector estava controlando os Gryffs e Minerva achou que, como vice-diretora e a pessoa que entregou a carta de Hermione, seria mais fácil se ela fizesse isso. — Flitwick fez uma careta e Harry sorriu ironicamente.
— Isso não deve ter ido muito bem, não é? — Perguntou ele, pois sabia que os Grangers não gostavam de McGonagall depois das mentiras sobre o mundo mágico que ela contou.
— Não, na verdade, não poderia ter sido pior e, além de expulsá-la, exigiram a presença do curador para lhes informar do estado de saúde de Hermione. — Flitwick olhou para Hermione. — Assim, Poppy foi pessoalmente tranquilizá-los, afinal, com o curandeiro Lintner aqui, não haveria perigo em deixar Hogwarts por um momento.
— Bem, depende do ponto de vista, porque as coisas ficaram bem complicadas a meia hora atrás, professor. — Disse Terry e em tom baixo contou o que aconteceu entre Joe e o Curandeiro e sobre suas ideias para ajudar.
— Isso foi muito inteligente de você, Terry, pensou rápido e agiu corretamente. — Elogiou Flitwick e Terry corou, enquanto Harry e Neville sorriram orgulhosos. — E, você está certo, Poppy ficará muito chateada e daqui a pouco o curandeiro da clínica chegará para realizar a transferência, assim, poderemos ter mais confusão. O melhor que fazem é irem descansar e, por favor, respeitem a ordem de não deixarem as Torres. Ok?
Os três acenaram e deixaram a enfermaria depois de se despedirem da Hermione. Eles se arrastaram pelos corredores do castelo, em silêncio, sentindo um misto de tristeza e alívio. Era incrível pensar em tudo o que aconteceu naquelas últimas horas, ainda não eram 11 horas e a sensação era que se passaram dias. Subindo as escadas, lentamente, se surpreenderam ao ouvirem passos apressados atrás deles e, ao se virarem, se depararam com Falc subindo a grande escadaria de mármore. Sua expressão era sombria e Harry supôs que Dumbledore já avisara os Boots sobre o ataque, afinal, eles eram membros da AP. O que o surpreendia era o fato de a Sra. Serafina não estar com ele.
— Papai? — Terry perguntou do alto da escadaria que se moveu enquanto ficavam parados, elas não gostavam muito disso.
Sr. Falc levantou o rosto e pareceu surpreso ao vê-los, depois aliviado e continuou a subir até que finalmente as escadas pararam e eles se encontraram no mesmo corredor.
— Que bom encontrá-los, estive tentando contado pelo espelho e pelo flu de Dumbledore e Flitwick, mas ninguém respondeu. — Disse Falc muito sério e quando os olhou com atenção, franziu o cenho. — Porque ainda estão com as roupas do treino? E, porque não estão na aula? — Ele olhou para o relógio para ter certeza do horário. — Pensei que os pegaria assim que terminassem as aulas da manhã... — Ele suspirou parecendo cansado ou triste.
Harry não entendeu nada porque, se ele não sabia do ataque, o que estava fazendo ali? E, ao olhar para os amigos viu a mesma confusão.
— Sr. Falc...
— Papai, o que...
Falc olhou para o filho com mais intensidade e seus olhos azuis pareciam muito tristes o que os calou, mas então...
— Terry, você tem sangue em sua roupa... O que... — ele olhou para os três e finalmente percebeu que algo grave aconteceu. — O que aconteceu?
— Podemos explicar depois, o que eu não entendo é porque o senhor está aqui se não sabe o que aconteceu está manhã? — Terry parecia preocupado e seu pai olhou em volta como se quisesse ganhar tempo.
— Sim... Ok, precisamos de um lugar privado para conversar. O escritório de Flitwick ou Dumbledore serve... — Harry sentiu seu estômago se afundar ao ver seu ar triste e perdido.
— Podemos ir ao Covil, teremos privacidade lá. — Harry disse e eles começaram a subir as escadas para o quinto andar. — Neville, é melhor vir também, não quero que ande sozinho.
— Ok. — Seu amigo lhe lançou um olhar preocupado e ele apenas acenou respondendo a sua pergunta silenciosamente. "Sim, estou preocupado com Terry e, talvez, ele precise do nosso apoio".
Quando entraram no Covil, a tensão tinha voltado e Harry pode ver, pelas expressões cansadas de Terry e Neville que, assim como ele, tudo o que queriam eram descansar, mas, parecia que o dia difícil ainda não tinha acabado.
— Como o senhor entrou, Sr. Falc? — Perguntou Harry também tentando ganhar tempo e lhe dando a chance de organizar seus pensamentos.
— Ah! Eu, finalmente enviei um patrono a Dumbledore pedindo que me autorizasse a entrar pelo portão e ele respondeu da mesma maneira, assim, aparatei em Hogsmeade. — Disse ele e passou as mãos pelos cabelos que não estavam bem penteados como habitualmente. — Pretendia encontrar com ele e pedir que os chamassem depois que terminassem as últimas aulas da manhã, mas vocês não estão nas aulas...
— Papai. — Terry o interrompeu, pois Falc estava protelando. — Porque está aqui? O que aconteceu?
Falc o encarou outra vez com o mesmo olhar intenso, como se tentasse passar alguma mensagem importante. Harry nunca viu isso, mas imaginou que deveria ser uma mistura de intenso amor, cuidado e segurança.
— Sua avó Honora partiu esta manhã. — Disse em um sussurro tão suave que era difícil de ouvir e seus olhos brilharam com lágrimas de tristeza.
— O que? Partiu para onde? — Terry se mostrou perdido.
Harry se aproximou e apertou seu ombro, entendendo muito bem o que o Sr. Falc queria dizer.
— Ela se foi, filho. — Falc suspirou como se fosse doloroso dizer as palavras. — Vovó morreu esta manhã...
— Não! — Terry gritou, saltou para traz abruptamente e ergueu os braços como se tentasse se defender da verdade dolorosa. — Não! Não!
— Terry... — Falc falou suavemente.
— Não... isso é mentira! — Quando o pai se aproximou, Terry se afastou e se desvencilhou de Harry também.
— Filho, eu sinto muito...
— Porque está mentido!? — Gritou ele furioso e os olhos castanhos cheios de lágrimas e raiva. — Eu a vi ontem! Me despedi dela, minha avó está bem! Ela está bem!
— Terry! — Falc o alcançou finalmente e o segurou contra o peito. — Sinto muito, sinto muito.
— Não, papai... não... — Terry tentou se afastar como se ser consolado significasse admitir a verdade. — Ela não pode... Eu a vi ontem, eu a vi, eu a vi... Ela estava bem...
— Eu sei, eu sei... — Falc sussurrou enquanto o abraçava. — Sinto muito, filho, sinto tanto... — Sua voz se embargou e ele soluçou enquanto o apertava mais forte. E, isso, mais do que qualquer coisa, fez Terry compreender que era verdade. A dor e lágrimas de seu pai pela morte da mãe tornou tudo real e só lhe restou desmoronar em soluços dolorosos contra seu peito.
Harry se afastou para a janela e deixou que tivessem esse momento com privacidade. Encarando as montanhas nevadas e o vento furioso de inverno, enxugou as lágrimas do rosto e se lembrou do seu primeiro encontro com a Sra. Honora há um ano, quando ela o confundiu com seu pai. Fora um momento assustador, mas doce e, depois, ela lhe contara inúmeras histórias sobre sua avó e o encantara com sua gentileza e carinho. Ouvindo a dor de seu amigo, sentiu seu coração se apertar por ele e todos os Boots, pois sabia que o Sr. Boot, Adam, Ayana e Serafina também estariam arrasados.
Neville deixou a sala e se sentou na escada, lembrando-se da tristeza que sentiu quando seu avô falecera a quase 3 anos. Ao contrário de sua avó, ele costumava ser um avô compreensivo e amigo, perdê-lo deixara um grande vazio em sua vida. Suspirando, Neville pensou no dia horrível que tiveram e percebeu que estivera errado antes porque, afinal, eles perderam alguém hoje.
Honora acordou de repente sentindo seu coração bater num ritmo estranho. Olhando em volta, procurou o que a acordara, mas, o quarto, que clareava com a luz cinzenta da manhã de inverno, estava como sempre, assim como a respiração de seu Áquila ao seu lado. Ela o olhou e sorriu pensando que ainda era tão bonito como quando o conhecera. Se levantando, ela olhou pela janela, viu toda a neve branca que cobria o imenso jardim e fez uma careta. Detestava o inverno, a neve, o frio, sua estação preferida era a primavera, o calor, as flores os cheiros... Sim, a primavera era perfeita.
Seu coração fez outro tumtumtum estranho e ela suspirou colocando a mão sobre o peito confusa. Fechando os olhos, respirou fundo e sentiu sua magia se mover lentamente como se deixasse a si mesma e se movesse para o ar, para longe e, então, ela entendeu.
— Oh... — Seus olhos se encheram de lágrimas e, depois sorriu serenamente, porque era hora e ela estava pronta.
Era o que Honora queria, sempre que esteve lúcida, ela pedia a deusa, a magia, que a levassem quando ainda estivesse forte e não tão vazia de si mesma, tão debilitada e retorcida que não poderia se reconhecer ou viver com dignidade. Seu pedido foi atendido e, enquanto lhe doía deixar sua família, sentia que era o momento. Honora não era tola, sabia que eles estavam envolvidos com mil complicações importantes, enredados com a vida, cheios de energia e batalhas em seus futuros. Cuidar dela, seria um custo que eles estavam mais do que dispostos a dar, mas ela não queria que esses cuidados se prolongassem infinitamente. E, se esse era o momento, então, significava que eles estavam prontos também, pensou e, em sua mente, os rostos de seus netos brilharam. Não, eles ainda não estavam, eram jovens e protegidos demais para compreenderem a dor da morte, mas, seus pais e avós o ajudariam, Honora tinha certeza disso.
Sabendo o que queria fazer, Honora trocou sua camisola por vestes amarelas com bordado rosa escuro, ela lhe lembrava a primavera e eram as ideais para hoje. Depois, voltou ao quarto e acordou Áquila que abriu os olhos confusos.
— Querida? Já está vestida? — Ele olhou pela janela e o dia que surgia lentamente.
— Sim, quero que me leve ao Chalé. — Disse ela suavemente lhe beijando o rosto, sentiria falta disse, de poder tocá-lo.
— Ao Chalé? — Ele se sentou na cama suspirando e esfregando o sono do rosto.
— Sim, você me disse que quando quisesse ir, eu deveria lhe pedir e não tentar ir sozinha. Você me leva? — Disse ela sorrindo docemente, Áquila retribuiu, como sempre.
— Claro, querida. Você quer ir agora ou depois do café da manhã? — Perguntou enquanto se levantava.
— Agora, querido. — Honora disse ao sentir seu coração fazer outro tumtumtum estranho.
— Ok, vou me trocar em um momento e podemos tomar o café com Falc e Serafina. — Disse ele enquanto ia para o banheiro.
Menos de 10 minutos e eles estavam na estrada com o carro, Honora disse que não queria aparatar ou usar o flu. Na verdade, ela queria olhar a paisagem do seu lar pela última vez no plano físico, mas, suspirou irritada com tanto branco e cinza atrapalhando o verde.
— Detesto o inverno. — Disse ela e Áquila riu divertido.
— Você diz isso todo o inverno, querida e nunca muda, sempre há frio, céu cinzento e neve no chão. — Disse ele.
— Queria que fosse sempre primavera, no mundo todo, aposto que as pessoas seriam mais felizes. — Disse ela e, olhando para ele, que dirigia e sorria calmamente, acrescentou. — Você me fez muito feliz, Áquila.
Áquila a olhou um pouco surpreso e seu sorriso ficou maior.
— Que bom, minha doçura. — Ele estendeu a mão e pegou a dela. — Você me faz muito feliz todos os dias também.
— Nada poderia me deixar mais realizada. — Ela disse sorrindo. — Ser mãe foi minha maior alegria e, vê-los crescer e se tornarem boas pessoas, motivo de muito orgulho, mas, amá-los é fácil, eles são minha carne e sangue. O que faz com que me sinta mais realizada, neste momento, é ter amado e sido amada por você, por quase 50 anos. Isso, é um grande feito, sabe, nos unir a outro ser humano e, mesmo com todas as dificuldades, não desistir do outro, de amá-lo e fazê-lo feliz. Obrigada por isso, Aq, por nunca desistir de me fazer feliz.
Ele voltou a olhá-la ainda mais desconcertado por suas palavras e, ao encontrar o seu olhar de profundo amor, percebeu que ela estava dizendo adeus. Áquila, olhou para a estrada sentindo seu coração se acelerar e apertou sua mão com mais força. Não, ainda não, por favor, é cedo demais...
— Querida, você não tem que me agradecer. É minha maior honra e alegria ser seu marido e amar você... na verdade, amar você sempre foi fácil, minha Honora. — Ele beijou as costas de sua mão suavemente.
— Estou pronta, Aq e preciso que seja forte. — Ela o olhou com orgulho. — Você sempre foi o mais forte, me deu filhos fortes, Falc se casou com uma mulher incrível e, eles me deram os mais maravilhosos netos. Eles precisam de você e, por isso, não quero que lamente minha partida por muito tempo. Ok? Eu estarei bem, manterei um olho nas crianças e esperarei por você, junto com a Carole.
— Eu... — Sua voz falhou enquanto ele tentava ser forte, mas a dor era grande demais. — Eu tentarei ser forte, mas, nunca poderei ser feliz sem você, minha querida, pois, você levará meu coração.
— Bem, então, lhe deixarei o meu e espero que isso o permita um pouco de felicidade, meu amor. — Disse ela e seu sorriso aumentou quando o Chalé apareceu. — Sempre me sinto mais feliz ao voltar para a casa.
Honora esperou que o marido abrisse sua porta e apertou o casaco para se aquecer do frio ao descer do carro.
— Aonde você gostaria de ir? — Perguntou ele com voz trêmula.
— Ao lugar em que mais fui feliz aqui e aonde está a primavera, ou pelo menos a temperatura e as flores, claro. —Disse ela e eles caminharam para a estufa. — Ah, uma vez, James, filho de minha amiga Euphemia, me ajudou a pegar tulipas para a Carole, você acredita? O menino mais gentil de todos.
— Sim, ele é especial. — Sussurrou Áquila e olhou para a janela onde seu filho dormia. — Quer que chame o Falc?
— Não, eu já disse tudo o que precisava a ele e não quero que meu menino me veja partir. — Honora suspirou ao entrar na estufa cheia de lindas e coloridas flores. — Seria muito doloroso, mais do que já será...
Áquila conjurou uma poltrona e a ajudou a sentar. Ela suspirou quando o tumtumtum de seu coração falhou uma batida.
— Ok. — Disse ele e, se ajoelhando a sua frente, pegou suas mãos e beijou as costas, singelamente. — Queria mais 50 anos ao seu lado, meu amor. — Seus olhos derramaram lágrimas que ela limpou docemente.
— Nós nos veremos um dia e não desgrudarei de você por nada, então, prometo. — Ela suspirou sentindo a magia se espalhar ainda mais e deixá-la, ficou feliz com a ideia de que ela se uniria com a magia de seu lar. — Nesta casa, foi onde mais fui feliz e nesta estufa... Merlin, acredita que eu tentei ensinar o Falc a cuidar das flores?
Os dois riram com a lembrança.
— Sim, ele detestou.
— Sim, meu lindo menino, era como ser torturado e, no entanto, às vezes, Falc ficava parado me olhando cuidar das flores. Um dia, perguntei por que, e ele disse, "Acho você mais bonita que todas as flores, mamãe". — Honora sentiu seu coração se apertar pelas saudades que já a tomava. — Carole foi o oposto, ela amava as flores, mexer nas terras, ver as plantas ganharem vida.
— Sim, ela era uma grande Herbologista, estava perto de concluir seu Mestre e tão feliz. — Seus olhos espelharam as saudades e tristeza por sua filha perdida a tanto tempo.
— Quero que se concentre na vida, Aq, me prometa e diga aos outros que eu pedi isso. Chorem, se entristeçam, mas, depois, voltem a vida e aproveitem cada segundo. — Disse ela acariciando seu rosto com carinho. — Diga aos meus netos que lamento não ficar mais e por não ter estado tão presente nestes últimos anos. Esse é meu maior arrependimento, não ser a avó que eles mereciam.
— Não diga isso, eles a amam, você sabe, e não te culpam... — Ele viu a palidez aumentar em seu rosto quando ela suspirou suavemente.
— Sim, mas, eu escolhi a tristeza, Aq, escolhi me concentrar na morte e não na vida que cercava o meu mundo. Mesmo que nem sempre foi uma escolha, eu ainda não lutei tanto quanto poderia, mas... — Seu coração fez outro tumtumtum apressado. — Eu os amos, diga... que eu os amos... Serafina... diga que ela estava certa... — Seus olhos se fecharam e ela suspirou lentamente quando outra vez o tumtumtum falhou. — Te amo, Aq... — E, então o tumtumtum parou para sempre.
Áquila esperou outra respiração, mas não houve, seu peito continuou sem se mover, não havia suspiros ou sua voz doce com palavras de amor.
— Oh... Merlin, por favor, dói demais... — Ele continuou a olhando e esperando. — Por favor... apenas... — Se inclinando Áquila deitou o rosto em seu colo. — Ah! Por favor!
Os soluços o tomaram e ele a apertou com força sentindo que, em seu corpo, não havia mais vida, que não era mais sua Honora e, ainda, tentando compreender como viveria sem seu coração.
Honora caminhou na estufa e sentiu uma presença ao seu lado.
— Oh... senti tanto a sua falta. — Disse e a abraçou fortemente.
— E, eu a sua mamãe. Todos os dias. — Carole a apertou sentindo seu cheiro.
— Precisamos ir. — Outra voz disse suavemente e, ao se virar, Honora se deparou com Louis Davis.
— Louis! — Ela também o abraçou com força.
— Olá, Sra. Honora, é bom vê-la, mas, agora, precisamos ir, nosso tempo está se esgotando. — Disse ele apressado. Parecia tão jovem e bonito!
— Ir? Para onde? — Disse confusa e viu seu querido Áquila chorando, se aproximando tentou tocá-lo, mas, ela era só energia, alma, espírito, magia. — Eu estou bem, meu amor.
— Depois a senhora pode voltar e tentar lhe passar bons sentimentos, mamãe, assim como aos outros, agora, precisamos ir até o Terry, ele precisa de nós. — Ela estendeu a mão. — Vem.
Honora acenou confusa e preocupada, apertou sua mão e desejou estar com Terry, quando abriu os olhos, soube que estava em Hogwarts e porque Terry precisava deles.
— Merlin! — Disse apavorada ao ver o imenso basilisco perseguindo Terry e seus amigos.
— Não temos poder para interferir, mas podemos lhes passar energias e sentimentos positivos, mamãe. Hoje, isso é mais importante do que nunca e nosso amor sempre os tocam de alguma maneira. — Disse Carole e se aproximou da professora caída e sangrando. — A ajuda virá, seja forte.
— Harry, use o feitiço! Acredite que pode e conseguirá. — Gritou James Potter ao lado do garoto que era muito parecido com ele.
Harry! Honora se lembrou dele e, de repente, percebeu que foi ele quem a ajudou com as flores. Incrível como tudo era claro, pensou, ao ver o menino se deter e acenar a varinha sobre a jovem caída e sangrando sem nem abrir os olhos. Ele correu e atraiu o basilisco gritando e lutando como se pudesse ver, mesmo que seus olhos ainda estivessem bem fechados. Honora viu que James e uma jovem ruiva o acompanharam de perto.
— Não! Terry, você não deve levá-la! Siga o plano do Harry! — Gritou Carole, mas Terry estava determinado.
Honora entendeu, ao ver a lentidão com que andavam, o porquê dessa ideia ser a errada.
— Pelo menos use a varinha! Terry! — Gritou Louis com força.
— Neville! — Um senhor idoso de cabelos brancos e expressão determinada falou ao lado de seu neto. — Use a varinha! Wingardium Leviosa!
Honora tentou ajudar, mas eles não ouviram.
— Estão em pânico. — Carole disse angustiada. — Apenas Harry consegue manter a cabeça fria nesses momentos, é incrivelmente instintivo.
— O que podemos fazer? — Honora perguntou chocada ao perceber que seu neto poderia morrer a qualquer momento.
— Continuar passando nosso amor e energia, mamãe. A senhora sentiu sua magia deixar seu corpo, certo? Bem, ela não se espalha, apenas deixa seu corpo físico, mas continua a fazer parte de sua alma, assim, temos de enviar nosso amor através da nossa. — Explicou sua filha Carole e, então, eles viram a basilisco ir na direção de Terry. — Não!
Harry conseguiu detê-la por um pouco, mas, logo se tornou claro que os três seriam mortos.
— Aparate, Harry! — Lily Potter disse com força. — Está ouvindo, Harry James!
— Você consegue, filho! Vá até eles! — James gritou e, um segundo depois, Harry apareceu em frente aos amigos e professora.
— Impossível! — Honora sussurrou chocada e aliviada.
— Harry tem uma profunda conexão com a magia, mamãe e com seus pais também. Aumentou muito depois do ritual de purificação que ele fez no verão passado, o ritual Yule ajudou ainda mais. — Disse Carole enquanto eles o observavam girar em todas as direções.
Ele eletrizou a água sem precisar de conselhos e saltou na cobra também, mas, quando se cansou, ouviu os pais e pediu ajuda a Terry e Neville.
— Eles podem te ajudar, você não está sozinho, confie neles, amor. — Disse Lily amorosamente.
— Harry tem um grande instinto, não precisa de nós o tempo todo. — Disse James quando, finalmente a basilisco partiu. — Apenas de vez em quando precisamos ajudá-lo e ele sente como se algo ou sua magia estivesse lhe aconselhando.
— E, é verdade, Harry é tão conectado com sua magia e a do ambiente que consegue sentir quando lhe enviamos nosso amor e, às vezes, conselhos, através da nossa própria magia que conectamos a dele. — Disse Lily e olhou com orgulho para o filho que acenou para a bolsa de poções. — Como quando lhe dissemos para não contar a ninguém sobre suas descobertas, será um desastre se os aurores interferirem com seus planos nada sutis.
— Ele está tão perto da verdade. — James abraçou os ombros da esposa. — Ela só pode ser salva, verdadeiramente, por ele e não deixaremos que nosso filho perca sua alma gêmea se pudermos fazer algo sobre isso.
— Eu...não entendo tudo, mas, quero ajudar. — Disse Honora determinada e disposta a ser uma avó melhor agora do que fora em vida.
— Bom, porque acredito que nos próximos anos, teremos muito trabalho. — Disse outra voz que Honora reconheceu muito bem. — Olá, amiga querida.
— Euphemia!
Honora e Euphemia se abraçaram fortemente.
— Ginny? — Lily perguntou preocupada.
— Lutando sua própria batalha. — Respondeu Euphemia. — Cedrella não a deixará sozinha nem por segundo.
— Agora que ela está tão forte, é uma questão de tempo para que tudo termine. Sinto isso. — Disse Fleamont olhando para a porta que voou destruída e Dumbledore que entrou de varinha em punho. — Como sempre, está atrasado, meu velho.
Honora olhou em volta para todas aquelas pessoas e sorriu feliz ao perceber que ainda poderia ajudar a sua família. Sentindo em seu coração, ela suspirou e disse:
— Tenho que ir, Falc precisa de mim.
NA: Olá, apenas um pequeno aviso para quem não gosta. Não pretendo escrever a todo o momento sobre as pessoas que estão mortas, suas interações ou tentativas de ajudar os vivos. Esse, afinal, não é o foco. Queria apenas mostrar, com muita delicadeza, que a morte não precisa, na história, ser o fim. E, voltarei a mostra-los se, e apenas, alguém importante morrer.
Espero que tenham gostado e me digam em suas lindas e longas revisões! Adoro elas!
Até mais, Tania
