Oi! O que dizer sobre esse capítulo? Ah! Senti vontade de gritar umas 100 vezes! E, gritei em algumas delas! Eu tinha algumas ideias e planejamentos, linhas de tempo e tal, mas, como sempre, o Harry decidiu tomar as rédeas da história, literal e ironicamente, e seguir o seu caminho. Isso me deixou completamente perdida, me levou a ter que fazer dezenas de pesquisas, me atrasou para caramba e me enfureceu algumas vezes. No fim, Era O Caminho Certo e o Harry esfregou isso na minha cara! Ooooo, garoto inteligente!
Tive muita ajuda de um amigo leitor que tb me ajuda muito na composição dos feitiços novos, rituais e, no caso deste capítulo, em conhecimento mitológico, além de ler o que escrevi e me dizer que não estava tudo horrível. Assim, MUITO OBRIGADA, RUAN! Ainda que esteja um pouco atrasada.
Por fim, (me desculpem por uma nota tão longa) gostaria de enviar um recado ao Dan Black Potter, ou Daniel, não consigo responder as suas revisões, porque vc não está cadastrado no FF e sua conta sumiu do grupo do Facebook. Assim, se puder voltar ou se inscrever, adoraria voltar a falar com vc.
Outro recadinho ao Gaius Black Potter, estou sentindo falta de suas lindas e longas revisões, espero que esteja bem ou que se estiver com raiva de mim, isso passe logo e vc me perdoe.
Agora o capítulo, revisem, por favor, Tania
Capítulo 66
Quando Terry se acalmou e conversava baixinho com seu pai, Harry e Neville se aproximaram lhe dando um grande abraço. Falc também os abraçou e o clima era de muita tristeza.
— Como estão todos, Sr. Falc? — Harry perguntou preocupado. — Adam e Ayana? O Sr. Boot?
— Todos arrasados, Harry. — Falc respondeu e, sem constrangimento, limpou mais algumas lágrimas do rosto. — Papai está tentando ser forte, mas, parece muito perdido, as crianças estão tristes e confusas. — Ele pigarreou tentando tirar a rouquidão da voz. — Serafina está com eles e Sirius também, nós o chamamos e ele deixou o treinamento mais cedo. Seus avós estão vindo de Oxford também e eu vim buscar vocês dois. Preciso apenas organizar tudo com Dumbledore e poderemos partir.
Harry ficou tenso imediatamente, porque não podia sair de Hogwarts agora ou deixar Neville sozinho, além de Hermione...
— Não podemos ir, papai. — Disse Terry tendo os mesmos pensamentos.
— O que? — Falc o encarou confuso. — O que é isso? Porque parecem tão exaustos e vestidos assim? Onde está a Hermione
— Houve outro ataque, Sr. Falc. — Contou Harry e se sentou no sofá porque sabia que essa conversa poderia ser longa. — Estávamos na Caverna quando o basilisco apareceu, nós lutamos o quanto pudemos, mas Hermione e a Prof.ª Charlie foram petrificadas.
— Merlin! — Falc ficou ainda mais pálido e apertou o ombro do filho com força. — Poderíamos ter perdido vocês também... O que? Como estão vivos?
— Harry, papai. — Terry disse com um sorriso suave e Neville acenou. — Ele foi incrível, lutou com a basilisco e nos salvou.
Harry corou quando o olhar do Sr. Falc se tornou uma mistura de surpresa, admiração e gratidão.
— Obrigado, Harry... Eu nem sei o que pensar se o pior tivesse acontecido... — Ele suspirou e fechou os olhos tentando afastar os pensamentos sombrios. — Mas, quando isso aconteceu? Dumbledore não nos informou de nada e... A Hermione e a professora ficarão bem?
— Imagino que as cartas estão a caminho para a Diretora da AP e os membros do Conselho. — Disse Terry pensativo. — Os aurores e o Ministro estão aqui, mas, foram avisados com mais urgência e, talvez, o diretor acredite que o senhor está aqui por causa do ataque.
— E, o ataque aconteceu hoje pela manhã, às 5:30. — Neville contou. — Hermione está apenas petrificada, mas, Charlie foi ferida e está sendo encaminhada para a Clínica Relive, estão tentando salvar sua mão.
— O que? Mas... — Falc bagunçou os cabelos. — Ok, me deem um resumo de tudo o que aconteceu, o ataque e tudo mais.
Harry acenou e explicou o ataque, sem entrar em todos os detalhes da luta, mas, contando como Charlie se feriu e os amigos o ajudaram. Contou também sobre a discussão com os aurores e Dumbledore, a chegada do Ministro. Terry finalizou, explicando os problemas de Charlie e como ele ajudou o Joe a levá-la para a clínica clandestina em busca de um tratamento melhor.
— Ok, vocês tiveram uma manhã e tanto. — Falc disse chocado e Harry se perguntou o que ele diria se lhe contasse a discussão que tiveram entre si. —Ainda bem que Charlie poderá ter melhores chances na Relive. Sua mãe precisa saber disso, ela quererá comunicar os pais da Associação. E, seu avô, como presidente do Conselho de Governadores, tem que ser informado também e... esse é um péssimo momento para tudo isso... — Seus olhos brilharam com novas lágrimas, mas elas não caíram. — Eu me sentiria melhor se vocês viessem para casa, meninos.
— Não posso deixar o Neville ou os outros alunos, Sr. Falc, mesmo se eles encontrarem o basilisco, posso ser o único que poderia ajudar, o senhor sabe, falando com ela. — Disse Harry preocupado.
— E, eu não posso deixá-los ou Hermione sozinhos, Harry precisa da minha ajuda, papai. Quando... quando será o... enterro... — Terry sussurrou com dificuldades.
— No sábado, mas... Terry... — Seu pai o olhou confuso, pois seu filho parecia diferente. — Seus irmãos precisam de você e, com esse novo ataque, sua mãe e eu ficaríamos mais tranquilos se vocês estivessem em casa.
— Ninguém ficará tranquilo até isso acabar, papai e, ir embora por uns dias, não mudará isso. — Terry falou com firmeza. — Iremos na sexta-feira depois das últimas aulas e poderemos passar o fim de semana. Neville também, você deve escrever a sua avó e pedir permissão. Estarei com meus irmãos, então, e não ficaremos atrasados com as aulas ou deixaremos Hermione sozinha por muitos dias.
Harry ficou surpreso com a determinação do amigo e percebeu que Neville se sentia da mesma maneira. Mas, como concordava com tudo que foi dito, apenas acenou com firmeza.
— Ok. Se vocês estão certos... — Falc passou as mãos pelos cabelos muito tenso. — Preciso conversar com Dumbledore e os aurores, saber se têm alguma pista ou estão mais perto de encontrarem o basilisco.
Todos ficaram tensos, esperando que o Sr. Falc fizesse perguntas ou insistisse em saber o que eles sabiam. Seria um teste forte a Terry, que teria que mentir ao pai em um momento tão difícil, mas, o Sr. Falc estava tão distraído e impactado, que não se lembrou que o Harry tinha informações secretas. Eles se despediram, pois era claro que os meninos estavam exaustos, e seguiram caminhos opostos.
Harry e Terry acompanharam Neville até a entrada da Torre Gryffindor e depois seguiram para a Ravenclaw, cuja sala comunal, estava abarrotada de alunos tensos. Assim que os viram, alguns dos alunos mais velhos começaram a fazer perguntas, mas, eles ignoraram e subiram as escadas rapidamente.
— Esperem. — Quem falou com firmeza foi Penny e eles se detiveram em frente as suas portas. — Não quero fazer perguntas tolas, quero apenas saber se estão bem ou se precisam de alguma coisa. — Ela perguntou suavemente e Scheyla apareceu um segundo depois, abraçando o Harry com força.
— Estava aflita de preocupação com você. — Disse ela muito emocionada. — O Sr. T disse que estava bem, mas, você demorou muito para aparecer e não podíamos sair.
— Sinto muito. — Ele disse sincero, retribuindo o seu abraço e o de Penny. — Mas tivemos que conversar com os aurores e Dumbledore, depois o Ministro apareceu. Passamos um tempo com a Hermione e, quando estávamos voltando... — Harry hesitou e olhou para Terry que suspirou quando seus olhos se encheram de lágrimas.
— Meu pai apareceu de repente, ele... veio nos contar que minha avó Honora..., bem, ela se foi esta manhã. — Disse ele e, imediatamente, Scheyla e Penny o abraçaram.
— Vocês precisam descansar e se alimentar, já almoçaram? — Penny perguntou ao vê-los tão pálidos e abatidos.
— Não estou com fome... — Terry tentou dizer, mas Penny não quis ouvir e, em poucos minutos, ela e Scheyla desceram e voltaram com pratos de sanduíches e sucos.
Eles se sentaram na mesa do quarto do Harry e comeram em silêncio, as meninas apenas lhes fazendo companhias e sem perguntas. Mas, Harry sabia que elas queriam saber o que tinha acontecido ou, ao menos, como estavam Hermione e Charlie, assim, ele fez um resumo ainda mais curto do ataque do que fizera ao Sr. Falc. Terry explicou sobre Charlie e disse que Joe a levaria para um hospital em Londres para a realização de uma cirurgia.
— Isso é bom, poderei contar aos outros e ninguém ficará fazendo perguntas a vocês. — Disse Penny suspirando e se abraçou muito ansiosa. — Espero que eles encontrem o basilisco agora ou o próximo passo será fechar a escola.
— Você acha mesmo? — Scheyla perguntou preocupada.
— Sim, quer dizer, ninguém morreu, mas, depois dessa dupla petrificação e, sendo uma delas, um professor... Não sei, mas, acredito que a pressão será grande se não houver um avanço. — Disse ela tensamente.
Depois que elas partiram, Harry e Terry ficaram em silêncio tentando compreender tudo o que acontecera nas ultimas horas.
— O que faremos a partir de agora? — Perguntou Terry tentando se focar em uma crise de cada vez. No fim de semana, se concentraria em sua avó e em sua família.
— Contarei a você e Flitwick tudo o que descobri, vigiaremos ainda mais do que antes, precisaremos treinar o máximo que conseguirmos e estarmos muito atentos. — Harry pensou na preocupação de Voldemort com o fato da menina estar acordando. Talvez, isso fosse o que eles precisavam, se a garota percebeu que algo estava acontecendo, poderia procurar ajuda ou mostrar aflição e Harry estaria muito atento. — Seremos 4 pares de olhos agora e podemos ter sorte. No fim de semana, nos despediremos de sua avó e depois nos concentraremos em acabar com isso de uma vez.
— Você já sabe como fazer isso? Como mataremos a basilisco? — Terry perguntou, pois sentia que essa era a coisa mais difícil que fariam em suas vidas.
— Sim. Eu sei sim, apenas... preciso de alguns conselhos e acho que sei para quem pedir. — Disse Harry muito seriamente.
Terry foi para o seu quarto logo depois e Harry estreou sua grande e agradável banheira. Seu corpo estava todo dolorido, desgastado e a água quente o ajudou muito, pois a poção lhe tirara a dor de cabeça, mas, a exaustão e sensação de vazio não diminuíra. Na água quente e cheirosa, Harry reviu cada aspecto da luta e todos os erros que eles cometeram, incluindo os seus e esboçou algumas ideias para o treinamento deles como uma equipe. Decidiu escrever para a Denver e pedir conselhos sobre exercícios que os tornassem mais unidos e entrosados.
Antes de dormir, Harry meditou e percebeu que sua magia parecia cansada e... baixa, talvez fosse a descrição, como se ela estivesse precisando dormir, comer e repousar por um tempo. Suspirando, ele decidiu respeitá-la, pois, sua magia era quem lhe salvara a vida e de seus amigos hoje e ela fora muito além do que Harry poderia sonhar.
Depois de meditar e proteger os acontecimentos do dia com seu exército, Harry teve um sono profundo e era o que precisava, seu corpo, sua alma, sua magia e sua mente. Ele não acordou mesmo quando Terry veio verificá-lo ou chamá-lo para descer para jantar na sala comunal. Finalmente, quase 18 horas depois, ao amanhecer, Harry despertou com tanta fome que poderia ter ido direto para a cozinha e comido o café da manhã de toda a escola.
Antes de descer, ele foi ao quarto de Terry e o encontrou já acordado e olhando pela janela.
— Estou querendo ir à cozinha tomar café da manhã se tiverem liberado a nossa saída. Estou faminto. — Disse ele suavemente. Terry acenou e suspirou olhando para o Harry com seus olhos castanhos muito tristes.
— Sonhei com a minha avó... — Seus olhos brilharam de lágrimas e uma escorreu por seu rosto. — Ela me disse que está bem, segura e feliz com tia Carole e... que está muito orgulhosa de mim. Vovó disse que fui o melhor neto que ela poderia pedir... — Sua voz falhou e ele escondeu o rosto nas mãos enquanto soluçava.
Harry se aproximou e apertou seu ombro deixando que ele chorasse.
— Ela está certa, você a amava e sempre mostrou esse amor... Você me perguntou se fazer o melhor possível era o suficiente, Terry e, penso que quando damos todo o nosso amor a alguém... acho que isso é o melhor que podemos fazer. — Disse ele suavemente. — É o melhor de nós e, quer saber, você é muito bom nisso.
Terry enxugou o rosto e assentiu.
— Eu... sabia que ia perdê-la, aceitei e me preparei para isso, sabe, tentei passar o máximo de tempo possível com ela e aprender tudo o que podia, além de amá-la... Mas, eu pensei que a perderia para a memória, pensei que... um dia, chegaria em casa e vovó não se lembraria mais de mim, eu seria um estranho... não... não imaginei, por um segundo, que ela morreria tão cedo. — Ele olhou para o Harry perdido. — Não sei como me despedir dela, Harry, eu... como... Como você diz adeus?
Harry sentiu seu coração se apertar e seus olhos se encherem de lágrimas.
— Eu acho que não é um adeus de verdade, sabe, por isso você consegue, porque ainda podemos senti-los. — Harry suspirou e pediu. — Feche os olhos, Terry. Respire fundo e tente conectar-se com a magia do ambiente, pense em sua avó e deixe sua magia alcançá-la, seu amor... Eu nunca me sinto sozinho, não desde que entendi que meus pais me amavam, posso senti-los, seu amor... todos os dias... então, não é um adeus... não completamente...
Harry sorriu ao sentir o amor deles se conectar com sua magia, a sensação de orgulho e de fazer parte, seus pais, seus avós, o amor deles o percorria e era tão real quanto respirar.
— Oh... — Terry suspirou e sorriu levemente. — Posso sentir, eu entendo agora... Não estamos sem eles, não é?
— Eu acho que não, eles são magia, nós somos magia, o mundo é magia e estamos todos unidos pelo amor que sentimos. — Harry abriu os olhos e sorriu. — Dói, mas não sentir nada é pior, acredite em mim.
— Acredito. — Terry respirou fundou e suspirou. — Vamos lá, vamos pegar o Nev e ir para a cozinha, talvez, consigamos visitar a Hermione antes das aulas.
O aviso era de que as aulas recomeçariam hoje, o basilisco não fora encontrado, mas a escola estava cheia de aurores e caçadores do Ministério. Eles ficariam até que a basilisco e o responsável pelos ataques fosse encontrado. Penny lhes informou que, na tarde anterior, uma reunião de emergência acontecera, sem o Sr. Boot, mas com Falc e Serafina, outros membros da AP e do Conselho de Governadores. A decisão a que chegaram era de não fechar a escola, por enquanto, e sim, colocar 5 aurores e 10 recrutas aurores por toda a parte, vigiando e investigando.
Harry e Terry suspiraram aliviados e foram a torre Gryffindor onde combinaram de encontrar com Neville. Os gêmeos não estavam por perto e seu amigo disse que eles já tinham saído bem cedo.
— Estão aproveitando cada segundo para a pesquisa da pedra, deveríamos fazer isso também, mas, confesso que não consigo pensar em adubos no momento. — Disse ele cabisbaixo e Harry teve que concordar.
— Bem, pensei em nos reunirmos com o Flitwick depois das aulas, preciso preenchê-lo e Terry sobre tudo o que sabemos, depois, podemos acertar nossa agenda. — Disse Harry enquanto examinava o mapa para ter certeza que tudo estava ok. — Precisamos de mais tempo de treino, mas, ainda quero tentar avançar com as duas pesquisas o máximo que pudermos, apesar de tudo.
— Sem Hermione, com certeza, nos atrasaremos. — Disse Terry enquanto desciam as escadas para a cozinha. — Mas, você está certo, precisamos nos concentrar em acabar com isso e, depois, podemos compensar.
Harry acenou, ainda um pouco surpreso com a determinação que Terry demonstrava. Enquanto desciam, ele viu os aurores espalhados por todos os lados, assim como a equipe de caça.
— Como vamos investigar com eles espalhados por toda a escola? — Neville perguntou tenso.
— Usaremos a capa e o mapa, além de nossos cérebros. — Harry respondeu. — Quer saber, vamos para o Salão Principal, quero olhar com atenção para todas as garotas e ver se alguma parece mais aflita que o normal ou estranha.
— Estranha como? — Terry perguntou curioso.
— Não faço ideia, mas, suponho que perceberemos se alguma coisa se sobressair. — Harry respondeu pensativo.
Acontece que, ir para tomar o café da manhã no Salão Principal, foi uma péssima ideia e completamente inútil porque todos pareciam muito tensos e aflitos. As meninas estavam chorosas e agarradas umas nas outras, além disso, a quantidade de olhares que eles receberam quando se sentaram na mesa Ravenclaw, fez Harry se arrepender de sua decisão imediatamente. Além de serem irritantes, todos os olhares atentos, tornou impossível observarem as meninas como queriam, assim, os três ficaram aliviados em poderem ir para as aulas.
— Acho que nunca te vi comer tanto. — Terry observou no corredor, depois que deixaram o Neville com outros Gryffs, não queriam que ele andasse sozinho.
— Estou me sentindo vazio, sabe, como se precisasse recarregar... — Harry suspirou. — Quando meditei ontem e me conectei com minha magia, senti que ela estava, não fraca, mas, ausente, gasta, cansada...
— Isso não me surpreende, além de todos os feitiços, que 2º anos não devem fazer com tanto talento ou poder, você aparatou, Harry. — Terry baixou a voz quando entraram na sala de aula. — Isso é algo considerado impossível na nossa idade, agora, fazer isso em Hogwarts, seria considerado impossível para quaisquer adultos também.
— Eu sei, foi por isso que não mencionei nada para King e Moody... — Harry suspirou e pegou seu livro de Transfiguração. — De qualquer forma, eu sinto a minha magia, ela apenas precisa de repouso, tranquilidade e tempo para recarregar... na verdade, acho que sei uma maneira de ajudar com isso. — Harry ficou pensativo quando teve uma ideia.
— O que está pensado? — Terry sussurrou, mas McGonagall entrou, o que tornou a conversa impossível.
Harry não podia fazer magia e os professores foram compreensíveis e discretos. Depois da última aula de Feitiços, eles foram visitar a Hermione e tiveram sorte porque Madame Pomfrey tinha notícias de Charlie.
— Prof. Joe me manteve informada como lhe pedi e as notícias são promissoras. — Disse ela suavemente. — Acabei de receber uma carta dele e Charlie passou por uma cirurgia extensiva de reconstituição dos nervos da mão e braço. O próximo passo é reconstruírem os ossos com o Esquelesce, por fim, eles ajustarão os nervos em seus devidos lugares, em cada osso e articulação. Serão vários procedimentos e demorará bastante, além disso, depois que acordar, Charlie fará fisioterapia por um tempo até recuperar toda a mobilidade da mão, mas, o mais importante, é que a amputação não será necessária.
Os três ficaram emocionados de tanto alívio e Harry aproveitou para conversar com Madame Pomfrey sobre a sua ideia. A curandeira ficou intrigada, mas, concordou que poderia dar certo, ainda que ela insistiu que Harry não deveria deixar a escola sozinho, pois era perigoso. Ele prometeu que chamaria Flitwick para acompanhá-lo.
Assim que deixaram a enfermaria, eles foram ao escritório do professor de Feitiços, que os recebeu com chás e sanduíches. Harry contou tudo o que descobrira com Dobby, o que de verdade aconteceu no ataque ao Colin, tudo o que ele ouviu e suas teorias. Ele acrescentou o que ouviu no dia anterior e a aparatação, que deixara de fora de seu depoimento.
— Incrível! — Flitwick exclamou com sua voz esganiçada. — Os aurores não têm metade dessas informações e, estão tão longe da verdade, se pudéssemos confiar-lhes com esses fatos...
— Depois de ontem, sinto ainda menos confiança, professor. — Harry foi sincero. — Antes era só... bem, a verdade é que não sei explicar exatamente o que ou porque sentia que não devia lhes contar nada. É como se minha alma, minha magia, todos os meus instintos me alertassem que não devo deixar os aurores saberem todas essas informações. Fiquei com receio de estar errado ao confiar neste sentimento, que estava sendo orgulhoso e desconfiado. Ao mesmo tempo, comentei com Neville do meu temor de que eles não fariam de salvá-la a principal prioridade da investigação, mas, depois do que ouvi ontem... Eu tenho certeza que ela não será a prioridade e que eles irão sacrificá-la, sem pensar duas vezes, assim, temos que resolver tudo nós mesmos.
— Nós apoiamos o Harry, professor e precisamos nos unir para tentar acabar com isso de uma vez. — Disse Terry e Neville acenou fervorosamente.
— Eu concordo com tudo o que foi dito. — Flitwick suspirou e fez uma prece para estar certo. — Você tem um plano, Harry?
— Sim, senhor, pelo menos, um esboço de um. — Harry se inclinou a frente. — Acredito que temos que pensar por etapas, nos preparar e agir em cada uma delas. Primeiro, temos que identificar quem é a menina que está com esse objeto amaldiçoado, temos que ser discretos, atentos e investigar o que considerarmos uma anomalia. Comportamentos estranhos, fora do normal, notas ruins nas aulas e coisas assim. — Harry disse e todos acenaram. — Se encontrarmos algo assim, investigamos com mais atenção, temos minha capa e o mapa, além da ajuda do senhor, professor, que sabe feitiços que podem nos ajudar a identificar um objeto amaldiçoado.
— Ok. Imagino que você não considere que posso ir nos quartos de cada aluna e procurar, discretamente. — Disse Flitwick pensativo.
— Isso seria bom, se soubéssemos o que estamos procurando... Quer dizer, se for uma joia, estará no corpo da pessoa, que o usará o tempo todo, certo? — Harry expôs seus pensamentos. — Acredito que as chances de ela o deixar no quarto durante as aulas são poucas e o senhor ainda poderia ser pego por alguém, mesmo um dos professores, entrando nos quartos das meninas das outras casas.
— Isso seria muito problemático. — Disse Flitwick com uma careta. — E, se tentasse ir à noite, quando estiverem dormindo, o risco fica muito maior porque muitas meninas podem usar feitiços de alertas. Não teria como explicar algo assim sem deixar de contar a verdade... Ok, entendi. Examiná-las em minha sala de aula também não é uma opção, pois não seria nada discreto.
— Sim. Inicialmente, o meu temor era esse, sabe, que os aurores saíssem revistando os quartos das meninas ou cada uma delas, sem a menor sutileza. — Harry bagunçou os cabelos. — Tremo só de imaginar o que Voldemort faria se algo assim acontecesse.
— Quais são as outras etapas, Harry. — Terry perguntou suavemente.
— Nos proteger. Desde que Colin foi petrificado, eu praticamente só deixo a Torre para as aulas e refeições. Quando precisamos ir para a estufa de adubos ou laboratório, uso a capa e o mapa. Evitei o Covil e outros lugares comuns, com exceção da Caverna, mas, tinha a esperança de que, com todos vocês juntos, mais a Prof.ª Charlie, Voldemort não atacaria. No dia da petrificação do Colin, ficou claro que o seu interesse era ser discreto porque não quer que fechem a escola ou que me levem embora se perceberem que sou o alvo. — Harry suspirou. — Estava contando com isso, que ele seria paciente e isso me daria tempo de encontrar a menina, mas...
— Ele cometeu um erro, não é mesmo? — Flitwick apontou e Harry acenou concordando.
— Como assim? — Neville perguntou curioso.
— Primeiro, a menina estar acordando me leva a crer que ela está lutando. — Disse Flitwick pensativo. — Ela está sendo possuída, controlada de alguma maneira e, assim como quando somos vítimas do Imperius, nossa magia começa a lutar para se defender do invasor. É instintivo e natural que comecemos a resistir, o que me leva a pensar que ela é muito forte magicamente para conseguir combater uma magia negra feita por um bruxo tão poderoso quanto Vol... demort. — Flitwick hesitou no nome, mas Harry sorriu por sua tentativa que não o chamar mais de você-sabe-quem. — Segundo, ele arriscou tudo tentando usar o elemento surpresa para pegar o Harry, mas, sua missão falhou, e isso me faz pensar que sua ação precipitada foi um grande erro.
— Eu concordo. Ainda poderia ter tido consequências terríveis, mas... Isso me deixa ainda mais confuso, sabe, porque, o Voldemort do ano passado, foi extremamente paciente ao esperar pelo melhor momento para agir. Ele planejou com cuidado e só tentou roubar a pedra no fim do ano, tirou Dumbledore do caminho e esperou que os professores estivessem distraídos ou ocupados. Esse parece impulsivo, impaciente e quando o ouço falar com a Freya... — Harry tentou explicar a sensação. — Ele ainda é cruel e mal, mas também parece quase infantil, como uma criança brincando com seu animal de estimação. Uma criança mimada que faz birra quando seus planos não vão na direção esperada e Voldemort... Vocês viram a lembrança da luta, puderam observar como ele era elegante e sinuoso, persuasivo, perceptivo e extremamente inteligente.
— Como isso é possível? Como pode haver dois Voldemort? — Terry perguntou e, claro, ninguém tinha uma resposta.
— Professor? — Neville estava pensativo. — O senhor disse que o fato da garota estar resistindo a essa magia negra desconhecida, significa que ela é forte magicamente, então, isso quer dizer que deve ser uma das meninas mais velhas. Certo?
— Sim, acredito que 4º ano ou acima, talvez uma aluna do 3º ano poderosa, mas, seria muito improvável essa menina ser mais nova que isso. — Disse ele e suspirou. — Ainda que não devemos descartar nada porque, quando se trata de magia, tudo é possível. Quais são suas outras ideias além de investigação e proteção, Harry?
— Treinamento. Precisamos treinar e, é por isso que quero ir para a Floresta, me conectar com a magia natural poderá recarregar a minha magia mais rapidamente, pois não tenho tempo para esperar dois ou três dias para que aconteça naturalmente. — Harry bagunçou os cabelos. — Ainda que gostaria que houvesse algo que me ajudasse na hora da luta, juro que pensei que não conseguiria no fim, mas, de repente, me veio à mente que vocês poderiam lançar feitiços, mesmo com os olhos fechados.
— Nunca ouvi falar sobre nada que possa ser usado para recarregar a magia em um duelo e, se existe, não seria permitido em competições. — Disse Flitwick e sorriu. — Ainda que em uma situação de vida ou morte, suponho que seria útil.
— Com certeza. Bem, por fim, a última etapa é salvarmos a garota, destruir esse objeto amaldiçoado e matar a basilisco. — Harry disse e os viu ficar tenso. — Eu tenho um plano, mas precisarei da ajuda de vocês.
— Vamos ajudá-lo, Harry. — Disse Neville preocupado.
— Podemos fazer isso, como uma equipe, teremos mais chances. — Disse Terry convicto.
— Qual o seu plano? — Flitwick se inclinou para frente interessado.
Harry sorriu e se sentiu mais otimista agora que não estava sozinho. Sim, pensou, era muito bom fazer parte de uma equipe.
Ao fim da reunião, eles desceram para o jantar para mais observações, mas, nada lhes chamou a atenção. Harry percebeu que os gêmeos não estavam por perto e, depois do jantar, os três se enfiaram sob a capa e foram até o laboratório.
— Olá, não vi muito vocês esses dias. — Disse Harry ao encontrá-los debruçados em anotações e cercados por Hecatitas. — Vocês têm que ir as refeições ou alguém perceberá, não se esqueçam que a escola está cheia de aurores agora.
—Nós sabemos e estamos aproveitando que todo mundo está ocupado ou distraído para ganhar vantagem. — Disse Fred levantando os olhos de suas anotações.
— Sim, semana que vem, tudo deve voltar ao normal e, então, teremos que fazer um horário mais normal. — Disse George suavemente. — Vocês vão ajudar?
— Eu irei, mas, o Harry precisa estar em outro lugar. — Disse Terry e Harry acenou tirando o mapa da bolsa.
— Fiquem com o mapa e caminhem sempre juntos, ninguém andando sozinho e não passem do toque de recolher. Ok? — Ele falou com firmeza e todos concordaram, ainda que Fred fez uma careta contrariado.
Harry deixou o laboratório, vestiu a capa e caminhou invisível pela escola até chegar ao escritório de Flitwick, que o esperava, assim, ao bater na porta, seu pequeno professor saiu.
— Aqui, professor. — Disse Harry em um sussurrou e o deixou entrar sob a capa.
— Ok, isso é muito interessante. Você disse que ela pertenceu ao seu pai? — Sussurrou Flitwick enquanto caminhavam para fora da escola.
— Sim. Dumbledore me enviou no Natal em meu primeiro ano e Sirius confirmou que ele e papai, além de Remus e Peter, se divertiram muito andando pela escola invisíveis. — Disse ele e parou quando a porta de entrada se abriu para a entrada de dois aurores. Ágil, Harry segurou Flitwick pelos ombros e deu a volta nos dois bruxos, saindo pela porta antes que ela se fechasse.
— Pode me soltar agora. — Disse ele e Harry percebeu que tirara seus pés do chão e carregara o diminuto professor.
— Desculpe. — Disse ele corando um pouco.
— Tudo bem. — Disse Flitwick rindo divertidamente. — Acredito que já passamos dessa fase, principalmente depois da última vez que você me carregou.
Harry acenou se lembrando muito bem daquele dia. Os dois caminharam apressadamente pelos jardins, passaram pelo chalé de Hagrid e se aproximaram do Lago Negro.
— Espero que minha ideia de certo. — Disse Harry quando se aproximaram das árvores da Floresta Proibida.
— Mal não fará. — Flitwick disse e olhou em volta ansioso quanto mais avançavam, mesmo que estivessem se mantendo na beira da Floresta. — Tem certeza que ele virá?
— Sim. Firenze sentirá que preciso dele ou terá lido nos movimentos dos planetas que nos encontraríamos hoje. — Disse Harry enquanto se aproximavam do jardim que plantara para sua família no ano anterior. — Não duvidaria que já estivesse nos esperando... Ah, veja, lá está ele.
— Que curioso! — Exclamou Flitwick muito surpreso.
Harry lhes tirou a capa, a guardou em sua braçadeira e avançou pelo jardim que estava completamente nevado.
— Firenze. Que bom ver você, meu amigo, obrigado por vir. — Disse Harry estendendo o braço em um cumprimento formal e respeitoso.
— Meu amigo. — Firenze retribuiu o cumprimento em um aperto firme. — Fiquei feliz quando vi o nosso encontro nos planetas. É sempre bom reencontrar um bom amigo.
— Digo o mesmo. — Harry apontou para Flitwick. — Este é Filius Flitwick, meu Professor e Meistr, além de um amigo confiável. Professor, este é meu amigo, Firenze.
— Uma grande honra, Firenze. — Disse Flitwick empolgado, se inclinou levemente e levou o punho fechado ao peito.
— A honra é minha, nobre Meistr. — Disse Firenze suavemente e apoiou o punho sobre o coração. — Fico feliz em conhecer um amigo de meu amigo.
— Eu também. — Flitwick olhou com orgulho para Harry. — Harry me falou muito bem de você e sei que posso lhe confiar sua segurança, Firenze. Amanhã, retornarei para buscá-lo. Até mais, meus queridos. — Flitwick se inclinou respeitosamente e partiu, se desiludindo e desaparecendo em segundos.
— Senti que precisava de mim, meu amigo, e minhas visões me mostraram que está em grande perigo. — Disse Firenze e Harry acenou dando de ombros.
— Até que Voldemort esteja morto, sempre estarei em grande perigo, mas, o momento, é dos mais tensos, Firenze, porque todos estamos em grande risco. — Ele disse seriamente. — Eu pedi a Hagrid que lhes avisassem sobre a basilisco, para que fossem mais cuidadosos, ainda que acredito que ela não consegue deixar a Câmara para a Floresta.
— Hagrid me procurou e deu o seu aviso, Harry. Agradeço muito por se lembrar de nós. — Disse Firenze curvando a cabeça em gratidão. — Não estamos acostumados a ser lembrados ou protegidos por bruxos.
— De nada. — Harry suspirou e bagunçou os cabelos — Ainda que prefiro que os agradecimentos venham depois que tudo acabar. Por isso vim lhe pedir ajuda, ontem sofremos um ataque brutal, eu enfraqueci minha magia lutando com a basilisco e uma amiga e professora foram petrificadas. Tive a ideia de vir passar a noite na Floresta e me conectar com sua forte magia, talvez isso me fortaleça mais rapidamente. Não posso ter minha magia enfraquecida em um momento como esse.
— Sua magia não está fraca, Harry, ela é forte como sempre, mas, posso sentir que está precisando de repouso e alimentação. — Disse Firenze suavemente. — Sua ideia foi muito boa, porque não se recarrega a magia apenas alimentando o seu corpo físico, mas, também se alimentando com a magia do ambiente. Não existe lugar mais mágico do que a Floresta Proibida, assim, acredito que ela o ajudará a se recuperar. O melhor seria que ficasse por alguns dias em profunda meditação, mas, uma noite poderá ser o suficiente, sendo você tão jovem.
— Isso é ótimo. — Harry suspirou aliviado de que estava certo em sua ideia. — Queria lhe perguntar outra coisa. Lembra-se quando me disse que eu era um guerreiro e que, às vezes, precisarei matar, mesmo que não aprecie isso? Como o caçador?
— Sim. Espero que nossa conversa tenha lhe dado a paz que precisava. — Disse Firenze seriamente.
— Sim, muito mesmo. E, o ritual na montanha... foi incrível, Firenze, muito obrigado por sugerir a purificação e nos guiar aquele dia. — Harry sorriu sincero. — Nunca me senti tão... limpo e conectado com a magia, com o amor dos meus pais e, desde então, me sinto cada vez mais forte e seguro. Antes, parecia que algo sempre me fazia ter pensamentos pessimistas, sabe, como se não devesse acreditar em mim mesmo ou em coisas boas, mas, depois do ritual... É difícil explicar completamente, mas, não me sinto mais tão solitário ou pessimista e isso é muito bom.
— Fico feliz, Harry. Posso sentir que sua alma está mais forte e sua mente mais segura, seu coração encontrou a paz que a culpa lhe roubava. — Disse Firenze o encarando com seus surpreendentes olhos azuis como se lesse sua alma. — O que quer me perguntar sobre o caçador?
— Preciso caçar a basilisco e quero saber como fazer isso como os antigos faziam, quero a benção da magia para matá-la e entregá-la como oferenda. — Harry disse suavemente. — Estive lendo sobre os meus antepassados, os Druidas, sobre os Alto Elfos e como eles faziam seus rituais, respeitavam a natureza e a magia acima de tudo. Não preciso da caça e não quero que uma criatura mágica de mais de mil anos apodreça depois que eu a matar, quero entregá-la de volta para a natureza. Sinto que preciso respeitá-la e devolver sua essência ao início de tudo.
— Isso é muito nobre de você, Harry, mas, para fazer algo assim, você precisaria de uma arma feita por elfos ou goblins, uma arma mágica poderosa, com runas específicas... — Firenze se deteve quando Harry se agachou e retirou a adaga do coldre da perna. — O que tens?
— Aqui. Encontrei este Athame cerimonial em meu cofre durante o verão e ela chamou por mim, senti que precisava trazê-la e mantê-la comigo o tempo todo. — Disse Harry a estendendo lateralmente. — Descobri que um Alto Elfo presentou um dos meus antepassados em agradecimento por uma dívida de vida.
— Um Athame tão poderoso... — Firenze o encarou surpreso. — Posso sentir seu poder e história... Harry, se um Altammer dotou o seu antepassado com esse Athame, um presente por uma dívida tão honrosa, isso significa que ele também o presenteou com seu poder e a seus descendentes. — Harry ainda o estendia e sua mão se aproximou, mas se deteve antes de tocá-la. — Não devo tocar a adaga e nem ela o quer. Este Athame é poderoso, Harry e já entregou sua lealdade a você, o reconhece como o seu portador.
— Eu sinto isso também, Firenze. — Harry a segurou habilmente. — Na verdade, quando lutei com a basilisco ontem, a adaga pareceu ficar mais pesada, como se quisesse chamar minha atenção, mas, eu não estava pronto para matar a basilisco. Eu queria, mas, fui pego de surpresa e essa emboscada quase custou a vida dos meus amigos e a minha. Foi por isso que decidi vir hoje, Firenze, não posso esperar mais e preciso que me ensine como caçá-la e honrar a sua morte.
Firenze o encarou sombrio e acenou, pois, pareceu entender o que Harry precisava.
— Se você só tem uma noite, meu amigo, não devemos perder tempo. Monte e partiremos, no caminho, conte-me tudo sobre o perigo em que se encontra. — Disse ele apressado e Harry, com mais prática, saltou e o montou.
Firenze partiu em um galope veloz e, durante a viagem para dentro da Floresta, Harry lhe contou tudo o que acontecera desde o primeiro ataque. Eles foram cada vez mais e mais profundamente, Harry se conectou com a magia da Floresta, sentindo o seu poder e acolhimento quanto mais avançavam e como sua própria magia sussurrava animada com essa conexão. Era como se ela estivesse se recarregando e se fortalecendo, Harry se sentiu feliz com sua decisão de vir.
Finalmente, depois de percorrerem um longo trajeto em pouco menos de 1 hora, graças a rapidez de Firenze, eles se aproximaram de um vale que tinha dezenas de cabanas de madeira e teto de palha. As cabanas eram muito grandes, altas, bonitas e coloridas, Harry sentiu seu coração se acelerar quando percebeu onde estava.
— Esse é o seu lar? — Sussurrou ele reverente.
— Sim. Enquanto eu poderia te aconselhar, meu Capitão é o mais indicado para lhe ensinar o que você precisa. — Disse Firenze quando começou a descer para o vale.
Harry imediatamente saltou do seu lombo porque sabia que seria considerado um desrespeito montá-lo, mesmo que os dois fossem amigos.
— Como se chama? — Ele perguntou curioso, não podia imaginar que fosse tão grande.
— Nós apenas chamamos de Pago, que quer dizer vilarejo em latim. Nossas cabanas individuais chamamos de Domum que quer dizer...
— Lar. — Disse Harry interessado. — As cabanas são bem grandes, muito bonitas e coloridas, Firenze, mas, não pensei que a vila fosse tão grande.
— Somos o maior Clã do Norte, deste lado do oceano. — Firenze explicou com orgulho e diminuiu o ritmo para Harry acompanhá-lo.
— Eles não ficarão zangados por me trazer até aqui, Firenze? Não quero lhe trazer problemas. — Disse Harry preocupado quanto mais se aproximavam das primeiras cabanas.
— O Chefe do Clã é um centauro sábio, ainda que cauteloso, e acredito que respeitará minha decisão. Mas, sim, muitos ficarão zangados, incluindo o meu Capitão, mas, a decisão de ajudá-lo não será dele. — Firenze respondeu calmamente enquanto adentravam no Pago e, imediatamente, começaram a atrair olhares dos centauros que estavam fora de suas cabanas.
Harry sentiu o ar mudar sutilmente quando uma tensão se instalou e, instintivamente, seus olhos observaram o ambiente em busca de perigo. Ele se surpreendeu quando viu que, atrás deles, 2 centauros o seguiam com expressões severas. Eles eram altos e musculosos, um deles segurava uma lança e, o outro, um bonito arco e flecha.
— São guardas avançados, nos viram quando nos aproximamos do vale e já enviaram o aviso para os Guerreiros Protetores. — Explicou Firenze em tom baixo.
Harry acenou e escondeu a surpresa por eles o seguirem tão silenciosamente que não ouvira os cascos no chão. Ele era silencioso, mas, esse era outro nível, pensou Harry.
Quando se aproximaram mais do centro do Pago, onde havia uma gigantesca cabana, Harry percebeu um grupo maior de centauros esperando a aproximação deles. Eles se posicionavam protetoramente em frente as grandes portas da cabana. Pelas frestas das janelas dos domums, Harry notou olhares curiosos espiando e percebeu que eram centauros jovens, crianças ou adolescentes e, em alguns casos, mulheres.
— O que é a grande cabana? — Sussurrou ele para Firenze.
— A Sala de Guerra. — Respondeu no mesmo tom suave. — É onde o Chefe se reúne com o Conselho de Guerreiros para organizar, discutir e decidir tudo sobre o Clã ou estabelecer estratégias de defesa e ataque em caso de guerra. Lá também acontecem as Audiências dos Sábios.
— Interessante. — Disse Harry sincero e se controlando para não perguntar o que era o Conselho de Guerreiros ou Audiências dos Sábios.
A caminhada pelo Pago parecia não ter fim e Harry sentiu a tensão aumentar cada vez mais, enquanto se aproximavam. Quando estavam a 20 metros de distância, ele reconheceu entre os primeiros centauros do grupo, que estava à frente da Sala de Guerra, os dois centauros que conhecera no ano anterior quando Voldemort atacara o unicórnio.
— O que você fez, Firenze!? — Bane questionou agressivamente e Harry pode ver que mesmo Ronan, não parecia muito feliz.
Eles agora estavam a menos de 10 metros e Harry sentiu uma grande vontade de sacar sua varinha, mas, se forçou a agir serenamente e com uma postura falsamente relaxada.
— Vim em busca de Gunan, não de você, Bane e não lhe devo explicações sobre minhas ações. — Firenze respondeu friamente, mas sem elevar o tom de sua voz.
Harry ficou surpreso, pois lhe parecia que Firenze estava mais agressivo com Bane do que conciliatório como fora a meses atrás.
— Você ousa trazer um bruxo para nosso lar e acredita que não me deve explicações? Sua mente se perdeu em suas crenças tolas! — Gritou Bane empinando as patas dianteiras agressivamente.
— Minhas crenças são minhas e tenho certeza que Chefe Agouro e Gunan estão a minha espera, assim, se puder se afastar da porta. — Firenze continuou mantendo a expressão fria.
Harry respeitou seu sangue frio, seu amigo não entraria em uma briga sem sentido.
— Você não pode ter marcado com antecedência esse encontro ou teríamos sido avisados. — Disse Ronan e outros centauros acenaram com suas expressões desconfiadas e posturas rígidas.
— Tem razão, eu não marquei esse encontro, mas, nosso Chefe e Capitão sabem ler os movimentos dos planetas melhor do que todos nós juntos, assim, tenho certeza que estão a nossa espera. — Disse Firenze com segurança e Harry se perguntou se era só bravata.
— Só porque o Capitão é seu pai, isso não lhe dá o direito de presumir ou decidir por todo o Clã, Firenze! — Bane gritou enfurecido. — Não temos privilégios aqui!
— Nunca houve privilégios neste Clã e chamais tratei meu filho diferente de qualquer outro. Está me acusando do contrário, Bane? — Disse uma voz grave e fria as costas de Bane e dos outros centauros.
Eles se agastaram e dois centauros apareceram no corredor que se formou. Um era tão alto e musculoso que Harry pensou que parecia um halterofilista, ele era ruivo e seus cabelos compridos estavam presos por um laço de couro marrom. Sua barba vermelha era farta e desgrenhada, o que tornava seu rosto severo, ainda mais intimidante. Seus olhos azuis, como os de Firenze, eram frios como gelo e encaravam Bane, aguardando uma resposta. Harry viu o centauro mais jovem engolir em seco e recuar.
— Não, Gunan, não estou o acusando de nada, apenas lembrando a seu filho que, você ser o seu pai, não lhe dá privilégios ou o direito de tomar decisões que envolvem todo o Clã. — Disse Bane corajosamente. Harry foi obrigado a reconhecer sua coragem, pois o centauro ruivo era assustador.
Gunan apenas acenou ainda o encarando com frieza e depois olhou na direção do filho, ignorando Harry completamente. Harry tentou encontrar semelhanças entre Firenze e seu pai, mas, com exceção dos olhos, não haviam. Seu amigo era muito mais delgado, não apenas parecia mais jovem, também era menor em altura e com muito menos músculos. Seu lombo era Palomino, com pelos amarelados que combinavam com seus longos cabelos loiros-brancos. Gunan tinha a pelagem marrom avermelhada e era muito mais alto, mesmo seus olhos azuis duros e frios, não eram nada semelhantes aos de Firenze, apesar de serem da mesma cor.
Ao lado dele, outro centauro alto e forte, acompanhava tudo com muita seriedade e era o mais velho de todos os centauros presentes. Harry não sabia o que o tornava claramente o mais velho, porque os pelos negros azulados do seu lombo ou seus compridos cabelos negros com reflexos azuis, não tinham um único fio branco. E, sua pele negra como chocolate amargo não tinha uma única ruga, no entanto, seus olhos incrivelmente prateados, pareciam passar uma sabedoria e conhecimento de tempos antigos. Sua postura régia mostrava claramente a Harry que, este, era o Chefe Agouro.
— Firenze? Porque está em minha presença e do Chefe do nosso Clã, com um humano? — Gunan disse e seu olhar para o filho não era amigável. — Não sabe que nós não temos amigos entre eles? E, muito menos abrimos nosso Pago para suas presenças? Não lhe ensinei nada?
— Gunan, Chefe Agouro. — Firenze os cumprimentou respeitosamente curvando a cabeça. Harry não sabia se deveria estar surpreso com o fato de seu amigo não parecer estar intimidado ou por ele chamar seu pai pelo nome. — Uma situação urgente se apresentou e trouxe meu amigo em busca de conselhos dos mais sábios do nosso Clã.
— Você se sentiu no direito de descumprir uma lei do nosso Clã para ajudar um humano? — Gunan perguntou com frieza.
— Sim. — Firenze disse simplesmente. — Este é Harry Potter e todos nós vimos nos planetas sua importância para o nosso futuro. Nos últimos meses, minha amizade com Harry me permitiu conhecer o grande bruxo que ele está se tornando e, por isso, lhe ofereci o meu apoio.
— Nós não interferimos no que dizem os planetas! Você sabe disso! Muito menos para ajudar um humano! — Disse Bane agressivamente e encarou Harry com desprezo.
— Os planetas me disseram que mudanças estão vindo para o nosso Clã e nem todas elas serão positivas. Eles também me dizem que os humanos estão prestes a enfrentar tempos tão sombrios como nunca visto antes. — Agouro disse e olhou para o céu que hoje estava completamente nublado. — Você vê o que eu vejo, mas interpreta a sua própria maneira, ignora a sabedoria dos seus líderes e insiste em desobedecer. Suas ações podem trazer a destruição para o nosso povo ou para você, meu filho. Está disposto a se sacrificar por um humano? — Suas palavras pairaram na tensão da noite fria.
Harry olhou para Firenze e refletiu sobre quais riscos seu amigo estava correndo por ele. Não era essa a sua intenção, ele apenas queria conselhos de como fazer o certo por Freya, porque matá-la era inevitável, mas, não queria tornar sua morte indigna.
— Meu amigo, Harry, não apenas merece minha lealdade e confiança, mas também o meu sacrifício, pois sei que faria o mesmo por mim. Além disso, estamos em dívida de gratidão para com ele. — Disse Firenze com segurança.
— O que? — Bane se adiantou furioso e outros exclamaram indignados.
Gunan ergueu a mão e todos se calaram.
— O que o filhote fez que faria o nosso Clã em dívida com um humano, Firenze? — Perguntou ele curioso.
Harry ainda não recebeu a honra de um olhar de Gunan, mas sentiu muitos outros o encarando com desprezo ou fúria.
— Harry, assim que descobriu sobre a existência da basilisco e o perigo que representa, enviou Hagrid para nos alertar. — Disse Firenze seriamente. — Ele sabe que é seu destino destruí-la, mas veio até mim pedir orientação sobre como tornar sua morte digna. Por isso, eu o trouxe, porque sabia que o senhor, Gunan, é a pessoa ideal para ajudar meu amigo guerreiro a realizar este importante feito.
Suas palavras pairaram e Harry sentiu novos olhares curiosos em sua direção, um deles era do Chefe Agouro. Apesar de todo negro, seus olhos eram incrivelmente prateados e Harry o encarou de volta sem hesitação, mesmo quando parecia ler sua alma.
— Sinto o peso que carrega em seus ombros, filhote. — Disse ele serenamente. — Seu povo desceu tanto que um de seus filhotes tem que caçar a besta? Antigamente, meus antepassados e os seus, eram amigos e, além da amizade, compartilhavam a caçada e a presa. Cresci ouvindo as histórias de grandes heróis, guerreiros e caçadores, que nunca temeram a morte. O dia em que os humanos se viraram contra nós e outros seres mágicos, foi o dia mais sombrio que os deuses antigos da magia presenciaram. No entanto, aqui estamos, em uma nova encruzilhada. O que me impede de virar as costas a você e seu povo agora? Porque devo ouvi-lo ou atender ao seu pedido?
Harry sabia que esse era um momento importante e se esforçou para não olhar para Firenze em busca de orientação e, ao mesmo tempo, aparentar segurança.
— Os humanos são terrivelmente falhos, Chefe Agouro, sei disso tanto quanto qualquer um de vocês aqui. Um humano matou meus pais, os tirou de mim, junto com seu amor, proteção e conhecimento. Nunca poderei recuperar isso, assim como vocês nunca poderão mudar o passado e nem é meu objetivo justificar ou minimizar os erros cometidos por meu povo. — Harry respondeu suavemente. — Desde que descobri que era um bruxo, estive diante de muitas encruzilhadas, Chefe Agouro e a primeira delas foi o meu desejo de ser normal e ter uma vida comum. Ainda me lembro de estar sentado no Expresso em minha primeira viagem e ter que decidir se, ignorava os problemas, a realidade terrível do mundo mágico ou pedia a meu companheiro de compartimento que me contasse toda a verdade. A escolha que fiz me trouxe aqui hoje, Chefe Agouro e sei, em meu coração, com minha alma e magia, que é aqui que devo estar.
— Chama de "erro" a discriminação, colonização e assassinatos cometidos por seu povo contra o meu povo? — Gunan perguntou com desprezo.
— O que o senhor chamaria, Capitão Gunan? — Harry devolveu na mesma hora, respeitosamente. — Importa o nome? Ainda foi errado e continua sendo errado.
— Por isso está aqui, filhote? Com promessas de mudanças? — Agouro perguntou e moveu sua cabeça como se olhasse para algo curiosamente interessante.
— Não. — Harry respondeu sincero. — Não vim oferecer nada, fazer acordos ou promessas. Não preciso saber ler os planetas para entender que este dia chegará, mas, não é hoje. Vim em busca de conhecimento. — Ele hesitou tentando passar a sua necessidade principal. — Não tenho avôs ou pai, o meu ancião é o mais falho dos homens e não tem minha confiança. Preciso de orientação dos sábios sobre os caminhos antigos, sobre como tornar a passagem de Freya digna. Preciso da benção da magia para esta caçada, pois não quero desonrar meu nome e magia. Por isso estou aqui.
— Freya? — Gunan perguntou curioso.
— A basilisco se chama Freya. Ela é cruel como uma predadora mortal deve ser, mas está faminta e solitária, presa em uma câmara no subsolo, controlada e escravizada por Voldemort. — Harry explicou e viu os centauros de agitarem, incômodos por tal crueldade. — Preciso de ajuda para tornar a sua morte, o que sua vida nunca pode ser.
— Quer nossa ajuda para caçá-la? — Gunan perguntou e Harry pode ver o desejo por traz de sua frieza.
— Não hoje, Capitão. — Harry respondeu respeitosamente. — Essa besta em particular caçarei com minha equipe, mas, espero que um dia, possamos caçar juntos.
— Sua equipe? — Agouro mostrou curiosidade. — Mais crianças? Onde estão os guerreiros do seu povo?
Harry percebeu que ele parecia realmente interessado e decidiu lhes confiar a verdade.
— É uma longa história, se puder dispor de seu tempo, Chefe Agouro, gostaria de compartilhá-la com o senhor. — Disse ele sabendo que era agora ou nunca.
Harry esperou que os dois, Agouro e Gunan trocassem olhares ou palavras para decidirem, mas, eles olharam para o céu e o Capitão se mostrou levemente abalado com o que viu, enquanto Agouro franziu o cenho.
— Interessante. Leo e Aquarius estão muito brilhantes, o Sol e a Lua, os arqueiros do céu, o Justiceiro e a Caçadora. No entanto, Marte brilha com igual força e isso me mostra que a decisão já está tomada para o bem ou para o mal. — Disse Agouro gravemente.
Gunan olhou para o filho zangado e em choque.
— Você sabia disso? Sabia o que poderia causar ao seu Clã ao escolher trazê-lo até aqui?
— Sim, Gunan. — Firenze respondeu estoicamente. — A muito lhes digo que nossas inações são os nossos erros na história que será contada daqui a séculos. E, apesar de envergonhá-lo, a muito lhe digo que não deixarei de me guiar por meu coração.
— O que te guia não é seu coração e sim, sua mente fraca. — Gunan respondeu duramente e Harry viu pela primeira vez seu amigo mostrar-se abalado, mas disfarçou rapidamente. Não mostrava fraqueza para os abutres, percebeu Harry, ao ver Bane sorrir com satisfação.
— Não considero fraqueza ajudar um amigo que tem o coração mais nobre e puro que já conheci. — Firenze respondeu e apoiou a mão no ombro de Harry. — Os planetas me disseram o que já lhe disseram, Gunan, nosso futuro reside sobre seus ombros e não me acovardarei da missão que me proponho. Ajudá-lo a carregar o peso, apenas um pouco dele.
Gunan ainda olhava o filho com desprezo, mas não disse mais nada e Harry sentiu seu coração se apertar ao entender que seu amigo tinha uma relação muito difícil com seu pai, mas o admirou por sua coragem em enfrentá-lo.
— Os movimentos celestes me dizem que ouvirei o filhote, assim, é o que farei. — Disse Agouro e Harry se perguntou como eles podiam ver os planetas e estrelas, se o céu de inverno estava nublado, mas, decidiu não testar sua boa sorte com perguntas curiosas.
A decisão de Agouro não agradou ninguém, mas não houve nem ao menos uma expressão de protesto. Gunan esperou que o Chefe entrasse antes de segui-lo para a Sala de Guerra. Firenze caminhou a frente e Harry instintivamente acompanhou seu passo.
A Sala de Guerra era bem ampla e tinha uma mesa circular alta, mas o seu meio era um espaço vazio e não haviam cadeiras. Uma abertura na mesa mostrou a Harry que o círculo do meio era usado, talvez, para que aquele que quisesse falar, se posicionasse a frente de todos em uma visão de 360°. Firenze seguiu naquela direção e Harry o acompanhou enquanto os centauros se posicionavam a frente da mesa alta. O lugar central e de maior destaque era o de Agouro, Gunan ficava a sua direita e Bane a sua esquerda. Apesar de não entender a dinâmica do Clã, Harry não gostou que o mal-humorado Bane tivesse uma posição de aparente poder.
Aos poucos, todo o círculo da mesa alta foi preenchido e Harry se sentiu meio que um animal exposto no meio do picadeiro.
— Fale, filhote. — Gunan disse bruscamente.
Harry ignorou sua brusquidão e claro desrespeito. Olhando para Agouro, contou sobre os ataques e os problemas que vinha enfrentando com o guerreiros humanos. Seu conto incluiu o Dobby, a língua de cobra, ele ser um alvo de Voldemort, a última luta e a discussão com os aurores. Apesar de não necessariamente confiar neles mais do que nos aurores, sentiu que mentir era a decisão errada e seguiu seus instintos.
— Seu guerreiro humano está certo. — Disse Gunan quando Harry terminou seu conto. — A menina já está morta, ela não sobreviverá a magia negra.
— Isso não é uma opção. — Harry disse com firmeza, mais do que cansado de ter que defender a vida de uma inocente para todos. — O unicórnio sobreviveu a magia negra de Voldemort no ano passado, assim, não desistirei dela tão facilmente.
— Isso é uma guerra, filhote e inocentes morrem em guerras, é inevitável. — Disse Agouro com sabedoria e Harry acenou respeitosamente.
— Sei muito bem disso, Chefe Agouro, assim como sei que, na maioria das vezes, os sacrifícios dos inocentes acontecem porque ninguém faz nada para mudar seus destinos. — Ele respondeu firme.
— Acredita que lutar contra o destino é sábio? Não sabe que não se deve interferir no que dizem os planetas? É tão ignorante quanto parece? — Bane disse e Harry ergueu a sobrancelha.
— Acredito que não ouviu tudo o que acabei de dizer, Bane. — Harry mostrou certo desprezo por sua falta de inteligência. — O destino não é meu inimigo, na verdade, acredito que ele é meu aliado.
— Esta é uma afirmação arrogante, filhote. — Disse Gunan com muito mais desprezo ao usar a palavra filhote do que Agouro. — Assim como é arrogante acreditar que poderá derrotar o monstro sozinho, sem ajuda dos guerreiros humanos.
Harry riu levemente dessa afirmação absurda. Ora, o cara não tinha espelho em casa?
— Capitão Gunan, somos todos homens nesta sala. — Harry gesticulou com o braço pelo círculo. — Não uma única mulher, assim, acredito que o nível de arrogância presente ultrapassa o considerado saudável, tenho certeza. Se tem algo que aprendi é que as mulheres têm o poder de controlar nossa arrogância natural e como não existe nenhuma fêmea presente, me permito o direito de ultrapassar o limite aceitável.
Seu comentário provocou algumas expressões de humor, mas ninguém riu.
— O que o faz pensar que o destino está ao seu lado? — Perguntou Agouro.
— O senhor sabe porque, Chefe. — Harry disse suavemente. — Eu sobrevivi ao impossível e, graças ao amor de minha mãe, estou aqui, pronto para aprender como derrotar de vez o nosso inimigo.
— Nosso inimigo? — Gunan perguntou ironicamente. — Sabia que sua intenção era nos chamar para sua guerra e, provavelmente, nos sacrificar no processo. Não lutaremos por humanos, filhote.
— Não. Eu lutarei por eles, os senhores lutarão por si mesmos. — Harry disse com frieza. — Quer aceitem isso ou não, nossos destinos estão entrelaçados e, se perdemos, seu Clã perde também. Todo o mundo mágico e até o não mágico estão em risco, mas, hoje não vim aqui chamá-los para a batalha. Hoje, vim em busca de conselhos e ensinamentos. — Harry não deixou que ninguém respondesse e, encarando Agouro, continuou. — Magia antiga... poderosa e antiga, me permitiu viver a 11 anos, Chefe Agouro e desde que voltei ao mundo mágico senti a magia natural me acolher e incentivar. Não estou sozinho, não mais, seja aqui ou em minha caçada, tenho ajuda e uma boa equipe. Acredito que posso caçar o monstro e solicito sua ajuda para me presentear com o conhecimento que preciso.
Agouro olhou para o céu e, mais uma vez, Harry ficou confuso sobre como ele via os planetas com o telhado de palha a frente. Todos ficaram em silêncio respeitoso enquanto o Chefe buscava orientação nos movimentos celestes.
— A resposta a seu pedido não é minha para entregar, Libra brilha exigindo a sabedoria e justiça da balança, duas são as escolhas para se alcançar o caminho certo. Gunan é nosso maior guerreiro e o melhor caçador que já conheci. — Disse Agouro suavemente. — Como meu Capitão, confio em seu julgamento. Como seu líder, respeito suas decisões. Temos duas escolhas a nossa frente e, para ser justo, deixarei que decida o que quer escolher, meu amigo. — Agouro olhou para Gunan que acenou respeitosamente. — Sob a balança da Deusa da Sabedoria, você escolhe se quer ou não ajudar o arrogante filhote humano ou escolhe a punição para seu filho, por quebrar as leis do Clã?
Harry ficou tenso na mesma hora, mas percebeu que Firenze manteve a calma, como se já esperasse por uma punição. Maldição! Não devia ter ido procurá-lo...
— Escolho poder decidir a punição do meu filho, Agouro. — Gunan respondeu e lançou um olhar furioso a Firenze.
— Muito bem. Eu decido que você ajudará o filhote humano a enviar a besta para o seu fim como antigos e honrados caçadores nos ensinaram. — Disse Agouro e Gunan acenou, apesar de não parecer muito feliz.
— Bane, Ronan, Piato, peguem ele e o levem para a arena. — Disse Gunan e, por um segundo, Harry achou que estava falando dele, até que viu o sorriso animado e maldoso de Bane na direção de Firenze. — Hoje, você receberá minha punição na arena e mostrarei ao seu amigo, como vencer um tolo fraco e covarde.
Harry não sabia muito bem o que fazer ou porque fez o que fez, mas, em um segundo, se colocou à frente de Firenze.
— Não mesmo. — Ele disse e sentiu sua magia se agitar, ela estava fraca e o alertou disso, parecendo tensa com o perigo. — Não deixarei que o puna, Firenze não fez nada de errado em ajudar um amigo!
— Arrogância deveria ser o seu nome, filhote, para acreditar que pode entrar em nossa casa e nos dizer o que fazer, o que é ou não errado. — Trovejou Gunan e Harry sentiu Firenze tocar seu ombro.
— Está tudo bem, Harry. É como as coisas são feitas aqui, faz parte do nosso modo de vida. — Disse ele serenamente.
— Você sabia que seria punido? — Harry se virou e olhou para o amigo que acenou. — Porque me trouxe? Não deveria...
— Existem coisas mais importantes, Harry, ajudar você é uma delas. — Firenze se agachou a sua frente para que seus rostos ficassem na mesma altura. Os outros centauros se agitaram por ele conceder tal honra a um humano. — Os planetas me disseram que meu tempo neste Clã está no fim, meu amigo. Meu destino não está aqui e ele se entrelaça com o coração do guerreiro. Você é o guerreiro, Harry e apoiá-lo em seu destino será uma honra. — Ele falou suavemente, para apenas os dois ouvirem, e Harry engoliu em seco.
— Não o abandonarei nunca, meu amigo. — Prometeu ele e, num impulso, o abraçou fortemente. O abraço durou um segundo, mas, foi fraternal e verdadeiro, o que fez os centauros se agitarem e sussurrarem em confusão.
Harry ignorou isso e se virou para Gunan mostrando um fogo frio que apenas Voldemort viu antes.
— Se você o machucar, eu o matarei. Entendeu bem? — Suas palavras foram fortes, como uma promessa e a tensão no ar se ampliou.
Gunan riu jogando a cabeça para traz em diversão e alguns outros o acompanharam, mas Harry percebeu que Agouro e muitos outros continuaram sérios e o examinaram com atenção.
— Como se um inseto como você poderia causar um único arranhão em um verdadeiro Guerreiro, humano tolo. — Disse ele debochado.
Isso fez Harry sorrir friamente.
— Inseto. Interessante, Freya me chama assim também, Capitão Gunan, parece que as bestas gostam de subestimar os seus inimigos. — Provocou ele e recebeu um olhar furioso, mas Gunan decidiu não responder.
— Para a arena! — Gritou Gunan e os centauros repetiram altos e empolgados.
— Para a arena! Para a Arena!
Os centauros deixaram a sala de guerra rapidamente enquanto Bane, Ronan e outro centauro vieram na direção de Firenze. Ele tentou se afastar do Harry, que não entendeu porque os três centauros tinham que levá-lo para a arena, afinal, Firenze não pretendia fugir e poderia ir sozinho. Então, com um movimento brusco e satisfatório, Bane lhe deu um soco no rosto que estalou assustadoramente. Piato corcoveou e acertou os cascos traseiros no lombo de Firenze, que se desequilibrou e caiu de joelhos. Ronan ao acertou nas costelas com as patas dianteiras com menos força que os outros, mas, ainda assim, Firenze arfou de dor.
Chocado com a violência, o barulho e também a passividade de Firenze que não tentou se defender, Harry saltou sobre a mesa e pulou em pé nas costas de seu amigo com a adaga já empunhada porque sabia que, com sua magia enfraquecida, a varinha não era a melhor opção. Ele foi tão rápido que os três centauros não o perceberam até que ele cortou a mão de Bane, que a estendia para agarrar os cabelos loiros de Firenze.
— Ahhh! — Ele saltou para traz e Harry rugiu ferozmente.
— Tente tocá-lo outra vez que arranco seus dedos! — Gritou ele e, então, olhou para Gunan. — Quem é o covarde aqui? Precisa que eles o machuquem para poder vencê-lo na arena? Ninguém vai tocá-lo! Firenze pode ir para a arena por si mesmo!
— Seu humano tolo! — Gritou Bane segurando a mão que sangrava. — Isso não é uma batalha de honra! Isso é uma punição por sua desonra para com este Clã! O castigo começa enquanto o arrastamos por todo o Pago, na frente do Clã, até a arena! Isso faz de Firenze um exemplo para os mais jovens!
— Isso pouco me importa! E tolos são vocês! — Harry empalideceu em fúria ao ver como seu amigo parecia aceitar tal humilhação. — Tolos por acreditarem que punir, humilhar e machucar um dos seus é aceitável!
— É assim que é feito, Harry. — Disse Firenze serenamente, mas Harry identificou a dor em sua voz.
— Bem! Então, mudem! O mundo mágico tem tantas coisas erradas e ninguém faz nada! Mesmo vocês, ficam aqui se preocupando com suas próprias bundas! — Harry disse com veemência. — Vocês deveriam agir com seus corações, com seus cérebros e não com seus músculos!
— Nós somos guerreiros, filhote! — Gritou Gunan. — Não intelectuais fracos como meu filho e você não deve desrespeitar nossas tradições.
— Tradições! — Harry cuspiu a palavra com desprezo. — Abusos! Agressões! Violências! Humilhações! Como os puros que discriminam os sangues ruins!? Como os ricos que desprezam os pobres!? Ou os fortes que machucam os mais fracos!? Apenas porque podem!? Porque se sentem superiores! — Suas palavras pairaram no ar carregado. — Ou, como Voldemort que mata mulheres e crianças para manter-se no poder? Sabe a quanto tempo essas tradições existem? A quanto tempo os bruxos perseguem mestiços? Ou trouxas? Ou apenas aqueles a quem eles consideram inferiores? Tradições! Essas são as desculpas deles! Porque, minha família é a mais antiga! Porque, eu sou puro! Porque, eu sou mais forte! Porque, eu sou normal! — Harry olhou para Firenze. — Levante-se! Vamos! — Seu amigo o atendeu e Harry continuou em pé em seu lombo. — Firenze não é um covarde, ele é uma das melhores almas que conheço e não será arrastado pelo Pago como um animal! Ou aceitam que ele irá por si mesmo ou lutaremos e não hesitarei em matar se for necessário!
A Sala de Guerra estava parcialmente vazia, porque a maioria dos centauros saíram. A reunião tinha sido encerrada e parecia que Marte não se alegraria naquela noite, mas, em um instante, a influência do brilho de Libra, que busca a justiça acima de tudo, mudou tudo. Harry não aceitaria passivamente que um amigo fosse cruelmente injustiçado e punido. Os poucos centauros presentes e os que estavam na porta, assistiam tudo com atenção, chocados pela coragem do filhote humano em enfrentar Gunan, que era o Guerreiro mais temido e respeitado por todos. Também se surpreendiam que um humano lutaria para proteger um centauro.
O ar era sufocante de tão tenso e Harry sentiu sua magia se agitar, como se buscasse uma maneira de protegê-lo. Instintivamente, Harry deixou que ela se conectasse com a magia da Floresta que os cercavam e se sentiu inundado de energia. Era como estar vazio e, de repente, estar repleto de poder, um poder tão forte que ele teve que fechar os olhos e segurar no ombro de Firenze para se estabilizar. A magia natural parecia querer ajudá-lo, protegê-lo e lhe dar o poder que precisava para lutar.
Os centauros, seres mágicos conectados a magia natural da Floresta, sentiram o que aconteceu e olharam chocados para o menino guerreiro que recebia o seu favor. Agouro fechou os olhos e ouviu a magia, que se mostrou zangada com ele e seu Clã, envergonhado, abaixou a cabeça e, silenciosamente, implorou perdão e sabedoria para fazer melhor.
— Harry? Está bem? — Sussurrou Firenze preocupado que tivessem que lutar para fugir dali e seu amigo não estivesse pronto.
— Sim... apenas... tanto poder, posso sentir... — Harry suspirou e se sentou em seu lombo com as duas pernas para as laterais. — A magia está do nosso lado, Firenze, assim, acredito que não morreremos hoje.
— Isso não me surpreende, meu amigo. — Firenze falou suavemente. — Sua vinda aqui estava predita, mas a arrogância deles está impedindo a vontade da magia.
Antes que Harry pudesse responder, Agouro se moveu a frente e calou os centauros que sussurravam entre si, surpresos com o que sentiam acontecer.
— O filhote humano está dizendo a verdade, a magia e o destino lhe favorecem. — Ele disse suavemente. — Eu vi as mudanças que se aproximam do nosso Clã e não a acolhi por causa dos preconceitos antigos que chamamos de tradições.
— Não podemos apoiar os humanos, Agouro! — Protestou Gunan indignado.
— Não, pelo menos, não hoje. No entanto, chegará o dia em que precisaremos responder ao chamado dos deuses ou seremos desfavorecidos pelo destino. — Respondeu ele sabiamente, depois, encarou Harry seriamente. — Hoje não é o dia em nos tornamos aliados e lutamos juntos, nem o dia em que batalhamos até a morte. A linha que existe entre esses dois destinos é muito fina, filhote e me entristece perceber que meu povo, sob minha liderança, decepcionou a magia ao não acolher sua vontade. Você fala com sabedoria, jovem guerreiro, pois, mesmo entre meu povo, temos diferenças que deveriam ser respeitadas e acolhidas. Firenze é um chiron, um sábio e estudioso, que respeita a paz, a vida e o conhecimento. Em nosso Clã, os sábios são respeitados por suas visões e interpretações, mas são considerados fracos quando se trata de batalhar para proteger o nosso povo.
— E, isso torna inferiores? Ou aceitável que sejam abusados? — Harry perguntou com o estômago se agitando de fúria. — Eu fui abusado por meu tio trouxa porque era considerado um anormal! Apenas porque tinha magia! Fui trancado em um armário e punido sem refeições por dias seguidos, até aprender a escapar e roubar comida. Dumbledore, meu ancião e líder, negligenciou seus deveres e quase morri por causa disso. O mundo mágico está doente porque os adultos não fazem nada para mudar toda a discriminação cruel que todos os mestiços sofrem! E, vocês se comportam como selvagens, usam as antigas tradições como justificativa para violência! Se querem mudanças, devem começar por aqui! Se querem um novo mundo mágico, onde são respeitados e aceitos, devem começar a respeitar as diferenças em seu Clã.
— Você fala como um jovem que não sabe nada da vida, filhote humano e não tem o direito de nos dizer como viver. — Disse Bane o encarando com ódio.
— Pode ser, mas é triste o dia em que aqueles que deveriam dar o exemplo de civilidade, serem guerreiros honrados, bondosos e sábios, não passam de selvagens covardes que gostam de machucar os mais fracos. — Harry disse e se inclinou em sua direção. — Como se sente, Bane? Quando machuca alguém mais fraco? Quando o faz sangrar e chorar? Se sente melhor consigo mesmo? Se sente mais poderoso? Se sente mais macho? Aposto que era assim que os comensais da morte se sentiam por traz de suas máscaras. Devo conseguir uma para você?
— Com ousa!? — Bane perdeu o pouco controle que tinha e avançou na sua direção, mas Firenze estava pronto e lhe devolveu o soco com violência. Um segundo depois, empinou as patas dianteiras e o acertou no peito com os cascos.
Harry se segurou e, sabendo que sua magia estava mais forte agora, sacou a varinha junto com a adaga pronto para lutar até a morte, mas...
Um vento furioso adentrou a Sala de Guerra e se agitou em volta de todos, abrindo as janelas e batendo-as violentamente. As toras rangeram sinistramente e Harry percebeu que o teto estava desabando.
— Para fora! — Gritou Agouro.
Todos se moveram e, em segundos, estavam do lado de fora e observaram a ventania que atingia o vale. As árvores se dobravam e se agitavam furiosamente, mas, as outras cabanas pareciam estar bem, apenas a Sala de Guerra recebeu o pior do vento mágico e seu telhado e paredes se desmancharam como se fossem uma estrutura frágil. Quando estava tudo no chão, o vento parou e foi embora, deixando todos olhando para a destruição em choque.
— Os deuses da magia estão zangados. — Agouro disse e olhou para o seu povo. — A vontade da magia está clara e seremos malditos se não a ouvirmos e atendermos. O jovem humano tem nossos destinos em seus ombros e o carrega com sabedoria e força. — Ele olhou para o Harry com atenção. — Você precisa de conhecimento e lhe daremos, assim como sua visita nos ensinou algo. Preciso de tempo para compreender qual é o nosso papel nos movimentos dos planetas. Tudo o que eu sabia, se desfaz sob o vento furioso. Me retiro para refletir. Nos separemos em paz.
Agouro colocou o punho sobre o peito e se inclinou sutilmente, Harry desceu de Firenze e retribuiu o gesto.
— Nos separamos em paz. — Disse Harry respeitosamente. — Obrigado, por atender meu pedido, Chefe Agouro.
— De nada, jovem guerreiro. — Respondeu ele e depois partiu para o seu domum.
— Vamos terminar com isso. — Gunan disse severamente. — Primeiro lhe ensinarei o que precisa para enviar o monstro a uma morte digna e libertadora. Depois, terei a punição do meu filho na arena como é meu direito, não importa o que diga, filhote. Quem sabe isso o ensinará a ser mais forte ou, finalmente, a obedecer aos seus superiores. — Ele disse com leve desprezo ao filho chiron. — Todos que quiserem assistir, nos esperem na arena!
Em segundos, os centauros se afastaram na direção da arena que devia ficar na Floresta, mais ao norte, apenas Gunan, Firenze e Harry ficaram para traz. Harry ouviu os conselhos e ensinamentos do Capitão centauro com atenção, até que acenou em entendimento.
— Ok, entendi. Obrigado, Sr. Gunan. — Disse Harry não conseguindo chamá-lo de Capitão, pois não sentia que o centauro merecia esse respeito.
— Não me agradeça porque, se dependesse de mim, não sairia daqui com vida para matar besta alguma. — Disse ele com frieza.
— Ainda bem que você não é o cérebro aqui, então, não é? E, sorte sua ter tantos músculos, ou teria muita pouca utilidade. — Disse Harry com sarcasmo.
— Humano atrevido e desrespeitoso, deveria aprender a se colocar em seu lugar. — Gunan disse furioso.
— Engraçado, ano passado, Voldemort me disse quase a mesma coisa antes de eu esfregar sua cara feia contra a parede. — Disse ele sorrindo sarcasticamente.
Gunan apenas lhes lançou um olhar de desprezo e depois se virou na direção da arena. Harry e Firenze seguiram, em um passo mais lento.
— Ok, quais são as regras dessa punição idiota? — Harry perguntou tentando entender e, talvez, encontrar uma saída.
— Eu posso reagir se quiser, para me defender, mas, o mais honrado é aceitar a surra. — Disse Firenze e Harry fez um som de desprezo. — De qualquer forma, não tenho como me defender dele, Harry. Eu sou um bom caçador, mas, não sou um guerreiro como meu pai.
— Graças a Merlin por isso. — Harry respondeu e Firenze sorriu sutilmente.
— A punição termina quando eu cair no chão. — Concluiu Firenze serenamente e parecia resignado com o que o esperava.
— Oh! Verdade? — Harry riu divertido. — Que interessante. Acredito que já sei o que fazer e como mostrar a esses tolos que ter um cérebro é muito melhor do que uma montanha de músculos.
Firenze achou o plano um pouco dúbio, pois alegou que seria considerado um covarde.
— De onde eu vejo, se você apanhar até desmaiar e acabar todo quebrado, será considerado fraco, se lutar de volta, será chamado de covarde e ainda estará todo quebrado. Assim, meu plano impede só o pior das consequências. — Harry considerou inteligentemente.
Firenze o olhou por um segundo antes de sorrir suavemente.
— Você está certo, meu amigo. Apanhar até desmaiar não os levarão a pensar diferente sobre mim.
Assim, eles chegaram a arena no meio na Floresta, que era apenas um cercado de madeira que se encontraria em uma fazenda de cavalos. Harry fez uma careta ao perceber que eles não queriam ser considerados bestas, mas se comportavam como elas. Os gritos de incentivo para a luta..., ou melhor, para a surra, eram ensurdecedores e os centauros corcoveavam selvagemente. A eletricidade e animação lembrou a Harry do ritual do Alban Arthan, quando os movimentos dos corpos pareciam energizar o ambiente.
A arena, Harry tentou não pensar na palavra curral, não tinha abertura, assim, Firenze e Gunan pularam a cerca. Harry subiu e se sentou na cerca para poder assistir, enquanto um centauro mais velho, de cabelos castanhos escuros e cavanhaque, se moveu para o centro e os lembrou das regras da punição.
— O centauro a ser punido pode se defender ou assumir a surra com honra, para se redimir de seu erro para com nosso Clã. A punição termina quando o centauro cair no chão.
Depois que ele pulou para fora do cercado, Gunan e Firenze ficaram frente a frente. Harry viu a expressão concentrada de Gunan e se surpreendeu por ele não parecer enfurecido como antes. O contraste entre eles era surpreendente, um ruivo gigante e musculoso, enquanto Firenze era loiro, mais baixo e delgado. Harry sempre pensou que seu amigo alto e forte, era um adulto, mas percebeu que no Clã dos Centauros, ele era considerado bem jovem e, como um chiron, seu papel era de um sábio estudioso e não de um guerreiro.
Como sempre, Firenze tinha uma expressão e postura serena, quase etérea e não mostrou medo quando seu pai se aproximou. Gunan empinou e o acertou com os cascos dianteiros no peito, Firenze foi empurrado para traz e, antes de poder recuperar o fôlego, recebeu um soco no rosto. Harry fez uma careta ao ouvir o estalo e fechou os punhos de raiva quando Gunan agarrou os cabelos loiros compridos e socou o estômago do seu amigo. Firenze se soltou e se afastou, mas, Gunan se virou e escoiceou, acertando seu lombo. O gemido de dor quase não foi ouvido diante do barulho ensurdecedor dos gritos de ovação e incentivo a violência, mas, em um segundo, se fez silêncio.
Harry sorriu ao ver que Firenze seguiu o plano e depois do último golpe, caiu no chão onde ficou deitado.
— Levante-se, covarde! — Gunan gritou furioso e, quando Firenze o desafiou com um olhar petulante, se adiantou para bater-lhe de novo, mas Harry saltou e flutuou magicamente se colocando a frente do amigo caído.
— Regras são regras! Ele caiu e a punição acabou! Ou você mostrará sua covardia descumprindo suas próprias leis? — Disse Harry fortemente.
Gunan o encarou furioso e os outros centauros começaram a protestar, alguns chamando Firenze de covarde por cair muito cedo. Outros xingavam o Harry por ousar interferir e, outros, defendiam que se cumprisse a regra. Por fim, o centauro de cavanhaque entrou na arena e falou com voz forte:
— A punição acabou! O centauro está no chão!
Os gritos voltaram com força, protestos furiosos e ensurdecedores. Firenze se levantou e Harry pousou ao seu lado, os dois encaravam Gunan que estava meio avermelhado de tanta fúria.
— Você é uma vergonha! — Gritou ele e Harry sentiu a dor de seu amigo por essa afirmação terrível. — Queria que não fosse meu filho!
— E, eu queria que você não fosse meu sangue, Gunan, porque meu pai, você nunca foi realmente. — Firenze disse suavemente e, sem hesitar, pegou Harry e o ergueu em seu lombo.
Harry entendeu que ele queria partir rapidamente e se segurou firmemente, antes do amigo saltar a cerca e galopar para as árvores.
O galope foi rápido, mas curto e eles chegaram à beira de um rio que deveria descer a montanha e seguir até o Lago Negro. Mesmo na noite escura de inverno, era muito bonito e, quando viu uma cabana solitária, Harry entendeu que era o lar de seu amigo.
— Você vive aqui? — Harry perguntou quando eles pararam e desceu de seu lombo.
— Sim. Antes, tinha uma cabana com meus pais, mas, quando atingi a maturidade, deveria ter meu próprio domum. Eu escolhi construir aqui e ter mais solidão. — Disse Firenze e olhou para o céu nublado. — Tenho uma visão perfeita do céu daqui e não sou distraído com tantas conversas e tolices em meus estudos.
Harry acenou entendendo e percebendo que isso combinava com Firenze, mas não pode deixar de se perguntar se ele não tinha amigos entre o seu povo. Eles entraram na cabana que tinha um teto muito alto, o espaço era simples e acolhedor com uma mesa alta com pergaminhos e penas, uma pequena prateleira com alguns poucos livros. Em um dos cantos, mantas peludas de peles de animais estavam estendidas no chão, formando o que Harry supôs, fosse sua cama. E, uma pequena prateleira tinha alguns utensílios de cozinha básico e, como não tinha fogão ou torneira, ele chegou à conclusão que o amigo cozinhava sua caça em uma fogueira do lado de fora.
— Um ótimo lugar, Firenze. — Disse Harry e seu amigo acenou silenciosamente.
— Eu tenho algumas frutas e comida conservada se estiver com fome. — Disse ele e, pegando uma colcha feita de pelos marrons, improvisou uma rede. — Pode dormir aqui, partiremos ao amanhecer.
Harry o observou trabalhar tentando entender o seu silêncio e percebeu que seu amigo estava triste.
— Não entendo uma coisa. — Disse ele suavemente e recebeu um olhar sereno do centauro. — Você não deve ser o único chiron do seu Clã, mas, eu não vi nenhum deles hoje, apenas os músculos.
— Agouro é um chiron. — Firenze disse suavemente. — É tradição que os mais sábios sejam os Chefes e os mais fortes os Capitães.
Harry abriu a boca de espanto e lembrou-se que, apesar de alto, Agouro não era tão musculoso quanto Gunan, por exemplo.
— Mas...
— E, existem outros chirons no Clã, eles estavam em seus domums, onde é o seu lugar. — Explicou Firenze. — Os chirons não interferem nos assuntos do Clã de maneira direta, Harry. Quando algo como o que aconteceu hoje se apresenta, eles não são ouvidos ou questionados, as decisões e ações pertencem ao Chefe, Capitão e Conselho de Guerreiros.
— Ok. Imagino que Conselho de Guerreiros são todos os Guerreiros e guardas que estavam presentes na Sala de Guerra? — Harry perguntou tentando entender.
— Sim, todos os Guerreiros Protetores, que são os Guerreiros mais antigos e poderosos, fazem parte do Conselho de Guerreiros. Os outros Guerreiros são os mais jovens e exercem a função de guardas, vigias ou protetores dos caçadores. — Explicou Firenze.
— E, quais as funções dos chirons? — Harry não entendia porque os sábios não eram ouvidos.
— As funções dos chirons são ensinar os mais jovens, caçar, cozinhar e outras tarefas mais simples. Os homens chirons são bons caçadores e as mulheres cozinham a caça, mas, são os guerreiros que protegem o Clã e, ao formarem o Conselho de Guerreiros, são eles que participam diretamente das decisões.
— Se um chiron é o Chefe, porque não muda isso? E, porque os outros chirons não deixaram suas cabanas, mesmo quando a maldita Sala de Guerra desabou? — Harry questionou espantado.
— Porque é assim desde que o primeiro centauro existe e todo o Clã respeita e aceita as tradições. — Disse ele quando terminou de pendurar a rede e seguiu para uma pequena caixa fria que estava na prateleira alta, de onde tirou uma tigela com carne assada e outra com nozes.
— Por isso, você vive aqui. — Harry disse suavemente. — Porque você é diferente, questiona essas tradições tolas e eles não o aceitam.
Firenze arrumou a comida na mesa alta, depois de desocupá-la dos pergaminhos, e sinalizou ao Harry que se sentasse sobre ela, para poder alcançar a comida. Ele acenou com a varinha, flutuou até se sentar na mesa e, assim, ficou quase na mesma altura que o Firenze. O centauro dividiu a carne assada com as mãos e a entregou ao Harry que a pegou em suas próprias mãos e a mordeu sem hesitar. Decidiu que deveria estar com muita fome porque a carne lhe parecia muito saborosa e suculenta.
— O que você precisa entender, Harry, é que os chirons ou sábios, são respeitados por suas predições. Todos os centauros podem ler os movimentos dos planetas, mas apenas os estudiosos podem interpretá-los com sabedoria. — Firenze lhe entregou um pouco de nozes que Harry descobriu, combinavam com a carne. — O chefe ouve os sábios e, junto as suas próprias interpretações, discute com o Conselho de Guerreiros e eles decidem. Ainda que a palavra final seja do Chefe, claro. No entanto, as interpretações dos chirons, muitas vezes, podem não ser tão sábias, pois estão influenciadas por suas crenças, preconceitos, medos ou desejos. O verdadeiro sábio é aquele que interpreta os movimentos celestes e vê a verdadeira mensagem do universo, não aquilo que quer ver.
— Entendo. — Harry acenou compreendendo. — Você viu a verdade, os tempos sombrios e como os centauros deveriam ajudar a mudar esse futuro.
— Sim. No entanto, eu não sou perfeito. Meu coração sempre desejou mais, mais conhecimento do mundo, dos mundos, dos livros e seres. Meu desejo sempre foi viajar, me relacionar com outros seres mágicos, ler livros e aprender mais. — Firenze fez uma pausa. — Meus desejos me influenciaram e aceitei que, talvez, as minhas interpretações não eram tão puras, mas, então... Um dia, quando senti o perigo na Floresta, a magia negra machucando a pureza do unicórnio, me deparei com o guerreiro das minhas visões.
— Eu. — Harry sussurrou surpreso.
— Sim. As mensagens das minhas visões não estão escritas em pedra, Harry, novas decisões levam a novos caminhos. Algo que nunca se alterou, são os tempos sombrios em nossos futuros, dos humanos e centauros. — Firenze explicou suavemente. — Por muito anos, em algumas das minhas interpretações, eu via um jovem bruxo carregando um grande peso sobre os ombros, quase demais para ele suportar. Seu futuro era o mais sombrio de todos e sua coragem, talento e determinação o levariam para a própria destruição.
— Espere... eu iria para a minha destruição por ser, bem, corajoso e determinado? — Harry estava confuso.
— Essa era a minha interpretação, mas, visões não veem claras e simples, Harry. Lembre-se disso. — Disse Firenze e Harry acenou. — Eu também vi que meu futuro não era no Clã que nasci, meu tempo aqui está próximo do fim e se entrelaçava com o destino do jovem bruxo. Eu contei sobre as minhas interpretações ao Agouro, mas, nenhum dos outros chiron interpretaram desta maneira os movimentos dos planetas. Assim, fui ignorado e, quando insisti que deveríamos nos preparar para ajudá-lo, Agouro me baniu das Audiências dos Sábios, que é onde ele ouve os conselhos dos chirons.
— Era por isso que você via apenas o seu futuro entrelaçado ao meu e não de todo o Clã. — Disse Harry suavemente.
— Sim. Meu banimento da Audiência dos Sábios fez o resto do Clã se afastar de mim, pois ser visto comigo dava a entender que eles me apoiavam. — Firenze guardou a comida que sobrou na pequena caixa fria e depois se sentou em suas mantas, dobrando as longas pernas de pelos amarelados.
Harry se sentou em sua rede improvisada e ficou de frente para o centauro.
— Isso quer dizer que além de não acreditarem em você, eles pararam de lhe falar? — Ele perguntou inconformado. — Foi por isso que você se mudou do Pago?
— Não. Eu me mudei do Pago para cá, há muitos anos. Quando atingi a maturidade e deveria construir meu domum, já vislumbrava em minhas visões essas mudanças, mas... estava hesitante. — Firenze parecia envergonhado. — Eu temia que meu desejo e juventude estivessem a interferir em minhas interpretações, que elas poderiam estar erradas, assim, pedi sabedoria para encontrar a verdade e aceitá-la. E, a resposta me veio em uma visão, quando entendi, ao olhar para meu futuro, que meu destino era solitário e longe do meu Clã. Por isso, decidi fazer o meu domum aqui, buscando, na solidão e silêncio, o entendimento e a coragem para aceitar o que via. Quando tive a segurança, me apresentei na Audiência dos Sábios, diante do Chefe Agouro e expus minhas interpretações.
— Então, ele o baniu. — Harry entendeu agora.
— Sim, mas, eu fui banido apenas das Audiências, não do Clã, assim, todos ainda falam comigo, apenas não com frequência ou longamente. Eu ainda caço com eles e fazemos outras atividades normais do Clã. — Explicou Firenze serenamente e Harry sentiu seu coração se apertar porque essa discrição parecia significar que seu amigo tinha muitos colegas de trabalho, não amigos e família.
— Então, essas visões sobre o futuro, elas mudaram? — Harry perguntou, pois lhe parecia que sua presença aqui, nesta noite, parecia significar algo.
— Sim, a 14 luas, um novo caminho surgiu nos movimentos dos planetas, algo, uma decisão diferente se fez e um novo futuro se mostrou em minhas interpretações. — Firenze disse e Harry arregalou os olhos pensando que esse tempo coincidia com sua chegada a Hogwarts.
O que poderia ter sido? Talvez, sua decisão de saber a verdade sobre o mundo mágico e não se alienar? Era possível que sua conversa com Terry trouxera tantas mudanças para o futuro do mundo mágico?
— Como é esse novo futuro? — Harry sussurrou lentamente.
— Um guerreiro com ombros fortes e mente afiada, carregará o peso dos nossos destinos e afastará a escuridão. No entanto, ele precisa ser amado e apoiado ou se perderá na escuridão. — Firenze sussurrou suavemente. — Meu futuro também mudou, agora, ele não se entrelaça com o jovem bruxo e, sim, com o coração do guerreiro. Quando vi esses novos movimentos, busquei Agouro por orientação e ele me disse que estava vendo o que meu desejo me levava a ver. Comecei a duvidar de mim mesmo e a pensar que, talvez, eles sempre estiveram certos, até o dia do nosso primeiro encontro. Naquele dia, encontrei o guerreiro, cujo coração é tão grande, a alma tão pura e a magia tão forte, que será amado por todos os seres mágicos e não mágicos que existirem neste mundo.
Harry abriu a boca chocado e, depois, engoliu em seco, emocionado.
— Não temo meu destino, Firenze, eu o aceitei, o acolhi, mas não sei se mereço a sua crença de que posso vencer. — Harry sussurrou angustiado. — Não quero que sofra um destino terrível por depositar em mim sua confiança. Não quero que seja punido ou banido de seu Clã, que fique solitário ou não tenha uma família.
— Eu também aceitei e acolhi meu destino, Harry Potter, não abandonarei o guerreiro e é ao seu lado que encontrarei meu verdadeiro lugar, seja ele onde for. — Firenze disse suavemente. — Há muito tempo aceitei que, o Clã onde nasci, não faz parte do meu futuro, mas, como tudo neste mundo, o futuro está em constante mudança, Harry. Nossos destinos estão escritos nos movimentos dos céus, meu amigo, e esses movimentos são perpétuos. Sua vinda a Floresta em busca de minha ajuda e nossa visita ao Clã, terá repercussões e, talvez, mais mudanças estejam previstas em nosso futuro.
Harry acenou entendendo que, suas palavras a Agouro e o entendimento do Chefe de que ele tinha o apoio do destino e da magia, poderia levá-lo a aceitar as interpretações de Firenze.
— A magia ficou tão zangada... nunca vi algo assim, quando a Sala de Guerra desabou. — Harry disse e se esticou, bocejando.
— Naquele momento, estivemos muito perto de uma batalha e a queda da Sala de Guerra foi extremamente simbólica. A magia exigia que permitissem a sua partida em paz e com o conhecimento que você honrosamente justificou e solicitou. — Firenze disse serenamente. — A partir deste ponto, cabe a Agouro e aos outros sábios interpretarem corretamente a mensagem. Por hoje, devemos dormir, meu amigo, partiremos ao amanhecer e ele chegará em breve.
Harry acenou e se deitou na rede se sentindo sonolento, mas, não cansado. Deveria ser por causa de toda a magia que o cercava, suspirando, ele deixou sua própria magia se estender e se conectar com a magia natural da Floresta Proibida.
— Boa Noite, Firenze. — Falou suavemente antes de dormir, ouvindo os sussurros das árvores mágicas que embalaram seus sonhos.
— Boa noite, Guerreiro. — Disse Firenze antes de se ajeitar em suas mantas. Era a primeira vez em anos que dormia com outro ser tão próximo, na verdade, apenas sua mãe já o visitou na cabana. Era estranho, mas, ainda, incrivelmente bom não se sentir tão solitário.
A manhã chegou muito rápido, como disse Firenze, mas, Harry se sentiu tão recarregado de magia e animado como em todas as manhãs. Eles comeram o que sobrou da carne assada e mais algumas nozes, com Firenze explicando que no caminho de volta, ele caçaria. O arco e flecha de madeira de carvalho, que o centauro sempre carregava chamou a atenção do Harry, que desejou aprender a usá-lo.
— Você comprou a caixa fria em Hogsmeade? — Ele perguntou curioso.
— Sim. Meu povo não aceita fazer negócios com os humanos, mas, depois que me mudei para cá, visitei Hogsmeade algumas poucas vezes. — Firenze parecia um pouco envergonhado por seu atrevimento. — Estive em um bar que está sempre vazio e um homem barbudo é o dono, seu nome é Aberforth. Ele não me expulsou ou me tratou mal, na verdade, foi acolhedor, do seu jeito mal-humorado. E, quando o vi tirando comida e bebida da caixa fria, fiquei curioso e perguntei o que era. Aberforth me explicou e fiquei muito interessado nesta engenhosidade incrível dos humanos. Perguntei a ele se poderia trocar por um porco do mato e Aberforth concordou, assim, saí e cacei um porco bem gordo. Agora, minha caça fica conservada por muitos dias, mas, fico feliz que Gunan nunca veio aqui, porque ele odiaria que tenho algo humano em meu domum.
Harry acenou pensando que Firenze era muito inteligente e corajoso por sair de seu mundo e tentar explorar novos modos de vida.
— Seu domum é muito legal, Firenze, mas falta uma coisa importante. — Disse Harry divertido.
— O que seria? — Ele perguntou curioso ao olhar em volta, depois se deteve na comida em suas mãos. — Seria talheres? Imagino que comer com as mãos não seja muito agradável!
Harry riu e acenou negativamente.
— Não, meu amigo. Os humanos comem com as mãos o tempo todo, um suculento hambúrguer duplo com bacon ou uma deliciosa pizza, ficam muito mais gostosos quando comemos com as mãos. — Harry disse e, para provar, deu uma grande mordida na carne, depois de engolir, continuou. — O que falta em seu lar são mais livros. Onde conseguiu aqueles poucos?
— Ah! Bem, são livros do meu povo sobre os movimentos dos planetas, as interpretações desses movimentos. — Disse Firenze olhando para eles com orgulho. — Eu herdei estes de minha avó, que era uma grande sábia do Clã.
— Isso é incrível. — Harry se controlou para não pedir para lê-los, pois sabia que seria rude pedir que ele compartilhasse os segredos do seu povo. — Você disse que tem interesse em ler mais livros. Algo em particular?
— Meus maiores interesses estão o que os humanos chamam de Astronomia e, claro, sobre os estudos da interpretação dos movimentos dos planetas, as influências da lua e estrelas em nossas vidas. — Firenze explicou e eles deixaram a cabana para a manhã acinzentada de inverno.
— Os trouxas chamam de Astrologia e os bruxos de Adivinhação. — Harry disse e agilmente cavalgou em seu lombo. — Tem até uma aula em Hogwarts sobre com esse nome, Adivinhação. Eu não tinha pretendido escolhê-la como uma das minhas eletivas no ano que vem, mas, com tudo o que aprendi com você, fiquei interessado.
— Adivinhação... Este nome é incorreto, nossas predições não podem ser uma adivinhação. Ela tem que ser estudada, refletida, interpretada, até que encontremos uma resposta e, ainda, essa resposta não pode ser utilizada como uma verdade absoluta. — Disse Firenze parecendo contrariado com o nome da aula, Harry acenou.
— Porque estamos todos em perpétuo movimento e são nossas escolhas que causam a movimentações dos planetas, precisamos apenas aprender a interpretar... Ah! Algo me deixou curioso ontem, Firenze. Como o Chefe Agouro podia ver os planetas, se o céu estava e ainda está nublado? — Harry se sentiu mais seguro para perguntar.
— Porque não vemos com nossos olhos, Harry e, sim, com nossas almas e magia. — Explicou Firenze.
— Eu também vejo com minha magia! Foi assim que consegui lutar com a Freya! — Harry exclamou entusiasmado.
— Sim, você é muito talentoso e poderia se tornar um bom vidente com muita dedicação aos estudos, mas, acredito que seu tempo pode ser melhor gasto ao se concentrar em se tornar um grande guerreiro. — Firenze observou suavemente. — No entanto, eu poderia lhe ensinar algumas coisas, se estiver interessado.
Harry arregalou os olhos de surpresa.
— Você compartilharia o conhecimento do seu povo comigo? — Perguntou em um sussurro.
— Conhecimento não deve pertencer a apenas um povo, Harry, ele deve ser compartilhado e, assim, se manter vivo e em movimento. Como o conhecimento antigo que Gunan lhe ensinou, que o ajudará em sua caçada e a tornar o combate justo e a morte da besta honrada. — Firenze disse serenamente.
— Mesmo assim, obrigado, de verdade. Eu... você está certo, preciso me concentrar em ser o guerreiro forte que afastará a escuridão, mesmo que aprender a ler os planetas seria muito interessante também. — Harry disse pensativo. — Eu gostaria de aprender a caçar, atirar o arco e flecha seria muito legal. — Ele hesitou antes de continuar. — Eu também gostaria de compartilhar meus conhecimentos com você, Firenze, seja o que quiser aprender e lhe enviarei alguns livros. Pedirei a Edwiges que lhe entregue livros de diversos assuntos, principalmente Astronomia e estudos da vidência.
— Eu agradeço, Harry Potter, por sua generosidade e acredito que, em breve, quando terminar sua missão, nos reencontraremos para suas primeiras lições de arco e flecha. — Firenze disse serenamente e Harry sorriu animado.
Eles seguiram mais um pouco em silêncio. Harry pensou em tudo o que acontecera nas últimas horas, sobre tudo o que aprendera e como Firenze se tornou mais real, além de ainda mais, seu amigo.
— Firenze? — Harry perguntou suavemente.
— Sim?
— Se você pudesse fazer algo, quer dizer, trabalhar em uma coisa, dedicar o seu tempo ao que lhe dá maior satisfação. O que você faria? — Ele questionou interessado.
— Eu seria um professor. — Firenze sorriu serenamente. — Nada me dá mais alegria do que ensinar aos pequenos do meu Clã.
— Oh... — Harry o encarou lateralmente e se lembrou de um outro momento em que ouviu uma resposta semelhante de um outro amigo e sorriu. — Você está certo, sabe, minha vinda aqui esta noite causará muitos movimentos. Firenze, acho que sei onde está o seu destino.
— Pensei que o vidente fosse eu, Harry Potter. — Firenze disse ironicamente e Harry jogou a cabeça para traz ao gargalhar em pura diversão.
Seu amigo fez uma pausa no trote e o encarou com um sorriso bem largo e alegre, que Harry jamais vira antes. Pela primeira vez, a expressão serena, quase triste de Firenze desapareceu, ele parecia verdadeiramente feliz e Harry se sentiu emocionado com isso.
— Se você quiser ser mesmo um professor, vou lhe apresentar a um amigo muito especial. — Disse Harry sorridente.
— Quem? — Firenze se mostrou interessado.
— Remus Lupin.
Durante o resto da viagem, Harry contou sobre a Fortaleza dos Lobos e a nova Escola de Magia que eles fundariam. Firenze fez muitas perguntas, mas, Harry foi sincero ao explicar que tudo ainda era um projeto no papel, porque tinham que contatar os lobisomens, reconstruir a vila e a estruturar a escola.
— Enquanto isso, você pode estudar mais, aprender e se preparar, precisaremos de professores para muitos assuntos. Você poderia ensinar... hum, A Arte da Vidência, Arco e Flecha, talvez, bem, o que mais lhe interessar. — Harry disse hesitante.
Firenze ficou em silêncio refletindo e Harry percebeu que estavam mais perto de Hogwarts e do completo amanhecer.
— Uma ilha, para proteger os seres mágicos perseguidos, com um Pago construído por eles mesmos e uma escola para terem o conhecimento que os lideres humanos lhes negam. — Ele disse suavemente.
— Sim. Um lar de verdade, sem perseguições e perigos... ainda que o ideal seria que todos pudéssemos conviver juntos sem discriminação. Talvez, um dia... — Harry riu ironicamente. — Gunan e Moody me chamariam de tolo idealista, mas, não perco a esperança de que, um dia, nosso mundo possa ser assim. Enquanto isso, sinto em meu coração que, lhes proporcionar uma vida digna, é o caminho que devemos seguir.
— A ilha poderá ter outros seres mágicos além dos lobisomens? — Firenze perguntou o olhando intensamente.
— Não vejo porque não. — Harry disse sincero. — Não aceitarei discriminações ou exclusões, não importa o ser mágico, se ele precisar de um lar, Stronghold estará aberta para acolhê-lo.
— Acredito que entendo melhor minha visão agora, Harry. — Firenze diminuiu o passo quando se aproximaram do lugar onde Harry plantou as flores no ano anterior.
— Como assim? — Ele perguntou curioso.
— Meu destino se entrelaça ao coração do guerreiro e, esta ilha dos lobos, é um feito do seu bom coração. Você percebe? Seu grande amor por todos, sua grande bondade, o inspirou a esta incrível missão de proteger, ajudar e acolher os seres perseguidos. — Firenze parou no jardim e encarou Harry. — E, meu destino é ajudá-lo a realizar este feito do seu coração.
Harry acenou entendendo também outras coisas e, que o tempo de Firenze em seu Clã, estava mesmo chegando ao fim. Descendo do seu lombo, ele se colocou a sua frente e sorriu suavemente.
— Tenho muitos outros projetos do meu coração, Firenze e, parece-me, que você não é apenas um ajudante ou futuro professor. Acredito que, quando diz que seu futuro se entrelaça ao meu coração, isso quer dizer que você faz parte dele, como um verdadeiro amigo, como família. — Harry colocou o punho sobre o seu coração e se inclinou. — Como meu irmão de coração.
Isso pareceu desconcertar o centauro que corcoveou, muito emocionado. Pigarreando, Firenze se inclinou e apoiou o punho sobre o seu coração.
— Você muito me honra, meu irmão guerreiro. — Disse ele com voz sufocada.
— Bom dia! — Uma voz esganiçada e animada surgiu atrás do Harry que se virou para Flitwick. — Espero que tudo tenha corrido bem.
Harry riu, pensando que parecia fazer dias que se despedira de seu professor e, não apenas algumas horas.
— Na verdade, foi um inferno. — Respondeu ele e, sorrindo para Firenze, acrescentou. — Mas, no fim, era o caminho certo.
