Nota do Autor

Olá! Espero que gostem desse capítulo, um dos meus preferidos e que me contem do que gostaram!
Desejo que todos estejam seguros e saudáveis, persistam e não se deixem levar por falsos lideres.
Esta semana, com tudo o que vem acontecendo em nosso país, não pude deixar de colocar um pequena menção ao perigo que enfrentamos com a possibilidade do fim da nossa democracia. Aqueles que descobrirem e entenderem qual cena, me contem sobre isso.
REVISEM, POR FAVOR!
Até mais, Tania

Capítulo 75

Neville caminhou apressadamente pelo corredor depois de sair da aula de Transfiguração. Felizmente, a Prof.ª McGonnagall não passara nada novo e complicado hoje ou ele se mostraria ainda mais abismal do que quando usava a antiga varinha do seu pai, dado o nível de distração nervosa em que ele estava.

Depois que Harry, Denver e Flitwick explicaram o plano de resgate e eles entenderam a simplicidade e brilhantismo do mesmo, a primeira parte das ideias foram colocadas em movimento. Flitwick retornou a Hogwarts e foi até o diretor informar que precisaria se ausentar de Hogwarts inesperadamente por uma emergência familiar. O diretor não fizera perguntas, felizmente, por puro choque, segundo Flitwick, afinal, não era sempre que a sua família goblin era mencionada.

Depois disso, o professor de Feitiços retornou ao Chalé e partiu com Remus para encontrar os lobisomens. Como Terry e Harry tinham aulas diferentes, puderam ficar no escritório do professor discutindo os detalhes do plano com Denver e Sirius, pois suas primeiras aulas da manhã eram Feitiços, que foram canceladas, obviamente. Neville teve que ir para as suas aulas porque todos concordaram que a ausência inesperada do Flitwick já chamaria a atenção o suficiente. Seus amigos também consideraram mais inteligente irem para o quarto do Harry, afinal, seria estranho se fossem pegos no escritório do Flitwick quando o professor estava ausente. Agora, com suas aulas de Feitiços canceladas, Neville se encontraria com eles e se manteria atento ao espelho e a possível chegado da mensagem de Greyback, enquanto seus amigos compareciam a aula de Herbologia.

— Acho que a Leda Pig não entendeu a mensagem do diretor de que a aulas de Feitiços foram canceladas. — Uma voz debochada soou pelo corredor do quarto andar, que levava a sala de aula de Feitiços.

Neville hesitou na escada ao ouvir o nome conhecido. Poderia ser?

— O que você está resmungando, Pig? — Outra voz perguntou e fez um som de porco roncando, o que provocou risos altos.

Neville entrou no corredor pensando no que fazer, pois tinha certeza que essa menina, Leda, era a menina do mapa, que Riddle escolheu para entregar o diário naquele dia. Harry e ele conversaram sobre encontrá-la e entender porque se tornou alvo de Riddle, talvez, ela estivesse com algum problema, solitária e precisasse de amigos. No entanto, a semana passou voando e, agora, Harry não estava aqui para ajudá-lo a pensar em uma maneira de auxiliar a garota, que parecia estar com sérios problemas.

— Me deixa em paz! — Uma voz frágil e meio desesperada chegou até Neville, que se endireitou determinado.

Harry sempre disse que todos tinham que tomar a iniciativa e resolver os problemas por si mesmos. Essa era a sua chance e ele não ficaria de braços cruzados enquanto a menina estava sendo maltratada!

— Já lhe disse para não me responder assim, Pig Pilnner! Você se esqueceu quem eu sou? — Uma voz arrogante e maliciosa soou.

— Desculpe... apenas, me deixa sozinha, por favor. — A voz embargada soou tristemente.

— Ah, agora está melhor. Tem que se lembrar do seu lugar e como se dirigir aos seus superiores, Pig Pig. — Disse a voz arrogantemente debochada.

Neville finalmente chegou a sala de aula de Feitiços, que estava com a porta aberta, e viu três garotos cercando uma menina sentada em uma das primeiras carteiras. Seu material escolar fora jogado ao chão e a menina mantinha a cabeça baixa e encarava a mesa com expressão desesperada. Neville não precisou observar muito para entender que os meninos a perseguiam por causa do seu peso e sentiu a raiva tomá-lo. Respirando fundo para se acalmar, decidiu usar a estratégia do cordeiro em pele de lobo... não, do lobo em pele de cordeiro ou seria... Confuso, Neville entrou na sala com uma expressão tímida e inofensiva.

— Tudo bem por aqui? — Ele perguntou com voz suave e atraiu todos os olhos da sala sobre si. Engolindo em seco, Neville se concentrou na garota. — Oi, Leda, como está?

A menina o encarou com olhos arregalados e confusos, enquanto o garoto mais alto, de ombros largos e cabelos loiros se adiantou um passo. Porque tinha que ser sempre os loiros? E, andando em trios, pensou Neville exasperado.

— Isso não é da sua conta, Longbottom, se manda daqui. — Ele disse em tom de ordem e lhe deu as costas convicto que seria obedecido.

— Hum, tem certeza disso? — Neville perguntou ainda em tom suave. — Porque, tenho a impressão de que a Leda pode pensar diferente. Aposto que se eu lhe perguntar, ela me dirá que é da minha conta sim. Na verdade. — Ele andou mais à frente na sala, inofensivamente. — Deveria ser da conta de toda a escola quando alguém maltrata outra pessoa sem lhe dar a chance de se defender, sabe. Porque é isso que vocês estão fazendo, certo? Agindo covardemente, três contra um, e maltratando uma garota que está apenas tentando estudar em paz.

O garoto loiro o encarou surpreso e se aproximou em toda a sua altura tentando intimidá-lo, mas, não sacou a varinha, pois não via o Neville como um perigo real.

— O que quer, Longzinha? Que maltratemos você no lugar da Pig gorda? — Ele perguntou debochado. — Pensei que por ser amigo do Potter, fosse mais inteligente.

— Ora, mas, eu sou. — Neville disse e sorriu gostando da sensação de enfrentar o idiota covarde. — Não que vocês saberiam a diferença entre ser inteligente e corajoso. Loiros, trios, músculos, líder purista que se considera superior ao resto da escola, acho que deve ter tipos como vocês em todos os anos e casas, eu suponho.

— Acho que o tampinha aqui, está querendo levar uma surra. — Disse o loiro com expressão irritada. — Se manda, se não quiser que te enviemos para a enfermaria, Longzinha.

— Devíamos lhe bater por atrapalhar a nossa diversão, Kit. — Disse um dos outros garotos.

— É, e por ser tão atrevido. — Acrescentou o terceiro com expressão rabugenta. — Ele deve aprender o seu lugar.

— Eu tenho uma proposta diferente. — Neville deu um passo para traz e se preparou. — Minha amiga Leda e eu sairemos daqui tranquilamente, com seus materiais escolares recolhidos por quem os jogou no chão e vocês não terminarão suas manhãs caídos e olhando para o teto.

O loiro riu grosseiramente e olhou para seus amigos, que riram divertidamente. Sua desatenção era o que Neville precisava para sacar a varinha e apontar para o seu peito.

— Vocês acreditam nesse...

Petrificus Totalus. — Disse ele firmemente e observou o garoto loiro cair no chão como uma estátua. — Entenderei o seu riso como um não. Petrificus Totalus. Petrificus Totalus. — Rapidamente, Neville petrificou os outros dois, que olhavam surpresos e abobalhados para o amigo e líder no chão, sem a mínima iniciativa de sacarem suas varinhas.

— Eu fiz uma oferta justa. — Neville disse passando por cima das estátuas que encaravam o teto com olhares chocados e furiosos. — E, ainda fui muito gentil, pois vocês não mereciam uma chance, já que são três idiotas covardes fazendo bullying.

Leda ainda o encarava e aos três garotos petrificados sem acreditar no que via. Neville se abaixou e começou a recolher os livros, penas e pergaminhos da garota e colocar em sua mesa.

— Aqui está tudo, Leda. — Ele disse suavemente. — Porque não deixamos as três estátuas curtindo suas manhãs e vamos para a biblioteca? Aposto que não tem muita gente neste horário e você poderia estudar com mais tranquilidade.

Leda acenou timidamente e, se levantando, guardou suas coisas em sua mochila e caminhou lentamente na direção da porta se desviando uma grande distância das estátuas.

— Você deveria aproveitar a oportunidade de se vingar deles. — Sugeriu Neville, mas ela acenou negativamente, parecendo assustada.

— Eles transformariam a minha vida em um inferno... mais do que já fazem, se eu... — Leda sussurrou como se não quisesse ser ouvida.

— Bem, então, não pode ficar pior, não é? — Neville disse e subindo em cima de um dos garotos, propositalmente e com todo o seu peso, pisou em suas bolas duras, sabendo que quando o feitiço desgastasse, ele sentiria toda a dor. — Se eles já fazem o pior, tudo o que nos resta é mostrar a eles... — Neville subiu nas bolas do outro garoto. — O que acontecerá se continuarem a te atormentar.

Neville pegou sua varinha e conjurou água, molhando suas roupas e, depois, pisou nas bolas do loiro, Kit.

— Kit, nome de rato. — Ele disse e saltou pulando no estômago da estátua Kit. — Imagine se, ao em vez de água, eu usasse fogo ou aranhas... Eu conheço umas aranhas bem grandes, juro. — Neville riu divertido. — Aqui, vamos cuidar desses cabelos loiros sem graça, Leda. — Ele apontou para os cabelos e, com sua varinha, começou a picotá-los, mas, Leda, meio assustada, não se aproximou. — Hum... acho que me empolguei... — Neville foi até as janelas e as abriu, deixando o frio entrar na sala. — Um pouco de ar fresco para vocês, não quero que sufoquem, afinal. Acho que agora podemos ir, Leda, meus amigos estão me esperando... — Neville deu a volta e olhou mais uma vez para os garotos estátuas carecas, molhados e de bolas programadas para causarem insuportável dor em algumas horas. — Só um aviso justo, pois sou uma cara legal e tal. Se o Harry tivesse lhes encontrado maltratando a Leda ou qualquer um, na verdade, ele faria muito pior e vocês provavelmente acabariam na enfermaria, onde nem seus pais os reconheceriam. Também quero lhes dizer que os gêmeos Weasleys são dois dos meus melhores amigos e podem desaparecer com vocês sem deixar vestígios. A partir de hoje, Leda também é amiga de Harry Potter e dos gêmeos, assim, se chegarem perto dela... Bem, tenho pena de vocês se não tiverem cérebro para entender a sorte que tiveram hoje ao me encontrarem. Na verdade, espero que no futuro, vocês me agradeçam. — Neville saiu para o corredor e Leda o seguiu com os olhos esbugalhados. — Ah, e isso vale para todos os outros alunos. A partir de agora, Hogwarts não terá bullying e, se eu tiver que avisá-los de novo, lhes apresentarei a Aragogue, a acromântula de estimação do Hagrid. — Neville fechou a porta da sala e suspirou. — Vamos lhes dar privacidade para refletirem sobre seus erros, certo?

Eles caminharam na direção das escadas com Leda o encarando ainda abobalhada.

— Isso foi divertido, certo? Aposto que o Harry se sente assim quando luta com o...

— Você é louco? — Leda perguntou subitamente, depois arregalou os olhos e recuou contra a parede como se temesse sua reação.

Neville riu divertido e ignorou o seu movimento defensivo ou expressão ansiosa.

— Não, apenas não gosto de idiotas covardes. — Ele deu de ombros. — Talvez, eu tenha exagerado, mas fiquei com muita raiva com o que eles faziam, Leda.

— Como sabe o meu nome? — Ela sussurrou confusa.

— Eles disseram bem alto, deu para ouvir pelo corredor. — Neville respondeu.

— Oh! — Leda hesitou antes de começar a descer as escadas. — Eles estarão muito zangados, Long...

— Neville. Me chame de Neville. — Ele disse enquanto a seguia, percebendo que precisava tentar se aproximar dela, para ajudá-la e, ao mesmo tempo, preocupado com sua vigília do espelho. — Não se preocupe comigo, Leda, posso me cuidar e tenho bons amigos que cobrem as minhas costas. O mais importante é impedir que eles voltem a te atormentar.

— Porque você se importa? — Ela perguntou e depois abaixou a cabeça, novamente receosa.

— Porque sou uma boa pessoa e se importar faz parte de ser bom e gentil. — Neville respondeu dando de ombros, porque não acreditava estar fazendo nada demais.

— Muitas pessoas boas não se importam. — Leda disse olhando para o chão quando entraram no corredor da biblioteca.

— Bem, talvez, seja porque eu também já sofri bullying. — Neville disse pensativo. — Eu pensei até em ir embora e desistir de Hogwarts.

O olhar incrédulo de Leda revelou que ela também já tinha pensado nisso.

— Quem... — Ela desistiu de perguntar e voltou a olhar para o chão.

— Malfoy e seus amigos. — Neville suspirou. — Eles me atormentaram por causa do meu peso, minha memória ruim e minha magia fraca.

— Mas, você não é gordo e tem uma magia forte. — Protestou ela parecendo não acreditar.

— Isso porque eu emagreci, você não deve se lembrar de mim no ano passado. — Neville disse. — Eu comecei a me exercitar e comer mais saudável, além disso, troquei a minha varinha antiga por uma nova que pertence a mim... — Ele mostrou sua varinha com carinho. — Minha avó me obrigava a usar a varinha do meu pai e isso foi péssimo, além de me fazer acreditar que eu era um aborto.

— Eu tenho uma varinha minha, mas, não sou muito boa com ela... quer dizer, em Feitiços, eu não sou tão ruim, por isso estava na sala do professor, queria treinar um pouco antes da aula da tarde... Não sabia que tinha sido cancelada... — Leda falou meio gaguejante. — E, a professora Charlie prometeu me ajudar a emagrecer... treinaríamos longe de todo mundo, assim ninguém zombaria de mim, mas...

Leda falou tudo muito rápido e entrecortado, Neville apenas acenou imaginando o que poderia fazer para ajudá-la.

— Bem, mesmo com a minha nova varinha, eu preciso treinar muito e acho que nunca serei bom em Transfiguração, o que deixa a minha avó bem decepcionada. — Ele disse meio chateado. — E, sobre treinar fisicamente, porque não vem bem cedo? Meus amigos e eu começamos às 6 da manhã, todos os dias e prometo que ninguém vai zombar de você. — Leda pareceu hesitante, receosa e Neville acrescentou rapidamente. — Pelo menos até a Charlie voltar, Joe estará lá e poderá ajudar também.

Leda não respondeu e Neville decidiu não pressionar. Eles chegaram a biblioteca e Neville identificou uma mesa segura para deixar sua nova amiga.

— Ei, Ginny, podemos nos sentar com vocês?

— Claro, Neville. — Ginny respondeu sorrindo para os dois, apesar de seus olhos encararem Leda com seriedade.

— Esta é uma amiga, Leda Pilnner, estávamos falando sobre os treinos na Caverna. — Neville introduziu ao se sentar. — Leda, esta é a Ginny Weasley, Abla Faraji e Demelza Robins. Ginny treina conosco pela manhã, todos os dias.

— Porque? Você é tão magra... — Leda perguntou abruptamente e depois olhou para a mesa receosa. — Desculpa...

— Oh, não precisa se desculpar, Leda. — Ginny disse sorrindo. — As meninas aqui, já me chamaram de insana, mas, eu treino para ficar mais forte, sabe. Quero ter força física e muscular para jogar quadribol ou bater em qualquer garoto estúpido que tentar se meter comigo.

— Bem, o que posso fazer se acho a ideia de acordar às 5 horas da manhã para fazer exercícios físicos, uma tremenda insanidade? Principalmente por um motivo tão tolo como quadribol. — Disse Abla divertida e exasperada.

— Eu discordo só da parte do quadribol ser tolo, Abla, e acrescento que aqui não tem meninos estúpidos que se meteriam com as meninas assim. — Demelza, que gostava muito de quadribol, opinou. — Estamos em uma escola, afinal.

— Você está errada. — Leda disse a encarando. — Tem muitos meninos estúpidos aqui em Hogwarts.

— Bem... — Demelza hesitou desconcertada. — Sim, mas, o que quero dizer, é que nenhum deles tentaria atacar uma menina, portanto, a Ginny não tem porque aprender a se defender.

— Bem, eu concordo com a Leda. — Neville disse e a observou arregalar os olhos de surpresa. — Nunca podemos ter certeza, Voldemort estudou aqui um dia e aposto que ninguém imaginou que ele seria o que foi.

— Isso é meio sinistro, Neville. — Disse Abla brincalhona.

— Não importa se existe ou não meninos maus aqui, o fato é que quero aprender a me defender. — Ginny disse com determinação. — Harry disse que preciso ganhar força muscular antes de aprender a lutar e, depois, se algum garoto tentar alguma coisa, chuto as bolas deles.

Ginny tinha um brilho malicioso nos olhos e deu uma piscadela para Leda que bufou e depois tossiu tentando disfarçar a vontade de rir.

— Eu sou bom nisso, chutar bolas, quero dizer. — Neville disse e, enquanto as três meninas do primeiro ano riam, ele se levantou. — Não estou vendo o Terry e o Harry aqui, acabei de me lembrar que combinei de me encontrar com eles em outro lugar. Nos vemos depois, garotas.

Ele acenou e deixou a biblioteca apressado, mas Ginny o alcançou no corredor.

— Neville, algo aconteceu? — Ela perguntou perceptiva.

— O que? Não, apenas estou com pressa para encontrar...

— O meninos estão na aula de Herbologia agora. — Ginny disse. — Eu sempre cumprimento os dois quando deixo as estufas, depois das minhas próprias aulas. E, você está estranho e a garota... — Sua voz caiu em um sussurro. — É ela, certo?

— Sim. — Neville disse e nada mais precisou ser explicado. — Eu a encontrei sendo atormentada por uns alunos do quinto ano da Hufflepuff e lhes dei uma lição, mas, ela não precisa de heróis, Ginny, acredito que Leda precise de amigos.

— Pode deixar, eu posso ajudar com isso. — Ginny falou com voz suave. — Harry está encrencado, não é?

— Não, mas, temos um grande problema e não posso lhe contar... — Neville suspirou ao ver sua expressão feroz e meio magoada. — Não é uma questão de confiança, apenas, precisamos agir como se nada estivesse acontecendo e, agora, não tenho tempo para lhe explicar nada. Prometo que depois, o Harry ou eu...

— Tudo bem, entendi. — Ginny disse compreendendo a situação. — Apenas, se eu puder ajudar...

— Se você ajudar a Leda, já será incrível, Ginny, porque, neste momento, eu não posso lhe dedicar o tempo que ela merece e precisa. — Neville disse e, apressadamente, se afastou. — Cuide dela.

— Combinado. — Ginny acenou e voltou para a biblioteca para cumprir a sua parte da missão e, tão importante, ganhar uma nova amiga.

Neville encontrou o quarto do Harry vazio e pegou o espelho que estava deligado.

— Sirius Black. — A imagem do rosto do Sr. Boot apareceu e ele lhe sorriu carinhosamente.

— Você quase não me pega, acabei de retornar de Oxford. — Ele disse suavemente.

— Onde está todo mundo? — Neville perguntou.

— Sirius está providenciando as vassouras e espelhos, Denver precisou ir para a ICW justificar a sua ausência e chamar a Tonks oficialmente para um "projeto", assim, ela pode deixar o treinamento dos aurores no Ministério. Acredito que ela tentará obter alguma inteligência sobre Moody e King, ainda que desconfio que os dois estarão muito ocupados depois do que os seus Chefes leram no Profeta esta manhã.

— Sim. Sirius não foi sutil, certo? — Neville disse levemente divertido. — Nenhuma mensagem?

— Não, mas, ainda é cedo e se o nosso plano está dando certo, Greyback deverá estar observando os lobisomens agora. Precisamos ser pacientes. — Ele disse serenamente e Neville acenou, admirando a sua calma e lucidez.

O plano começou com Remus e Flitwick aparatando onde o grupo dos lobisomens mais velhos viviam. Eles caminharam pela floresta até que Remus se deteve em uma árvore, onde tinha um cachecol vermelho amarrado.

— Isso quer dizer que continuam por aqui. — Remus disse. — Se tivessem partido, teriam levado o cachecol.

— Como os encontraríamos, então? — Flitwick perguntou curioso quando continuaram a caminhada.

— Eles não vão muito longe ou têm muitos pontos diferentes para acamparem nesta época, pois, no inverno, preferem ficar mais ao sul. — Remus disse e assoviou em um tom cantante específico, sinalizando ser um amigo. A resposta veio imediatamente, sinalizando que era seguro se aproximar do acampamento. — Vamos, o acampamento está livre.

Em poucos minutos, depois de um trote apressado, eles chegaram até uma pequena clareira onde várias barracas estavam montadas. Uma fogueira no meio e o cheiro de carne, mostrava que alguém tinha caçado e preparava o café da manhã.

— Remus! — Theo Goldman se aproximou ansioso. — Não o esperávamos!

— Olá, Theo. — Remus sorriu gentilmente ao lhe apertar a mão estendida.

Os outros lobisomens do grupo se aproximaram, alguns deixaram suas barracas curiosos ou preocupados.

— Ainda não falamos com toda a comunidade, Remus. — Simon disse um pouco rabugento. — Precisamos de mais tempo antes de termos uma resposta.

— Simon! — Alice protestou chateada. — Remus pode nos visitar sempre que quiser, não apenas por respostas... Oh! Filius! — Ela olhou espantada para o professor. — Meu amigo, Filius! O que...

— Alice! — Filius exclamou sorridente. — Quanto tempo não nos vemos! Se soubesse onde estava, teria lhe visitado muito antes!

Os dois se aproximaram e se abraçaram carinhosamente.

— Quem é este, Alice? — Bridget se aproximou sorrindo.

— Um grande amigo do tempo de Hogwarts, Britty. — Alice sorriu parecendo muito alegre. — Estudamos juntos e fomos companheiros na Ravenclaw há quase 40 anos. Filius é o atual professor de Feitiços e Chefe da Casa Ravenclaw... pelo menos, eu espero que ainda seja, meu amigo.

— Sim, Ally, ainda estou em Hogwarts. — Flitwick encarou a todos com seu sorriso característico. — Filius Flitwick, a seu dispor e muito prazer em conhecer a todos.

— Ficamos felizes em conhecer um amigo de Alice, mas, estamos curiosos sobre essa visita inesperada. — Theo disse. — Sou Theo Goldman e esta é minha esposa, Bridget. Algo aconteceu, Remus?

— Sim. — Remus olhou em volta. — Algo ruim e preciso de ajuda... Precisamos encontrar os outros lobisomens e alertá-los.

— Alertar? — Bridget perguntou confusa.

— Quem está em perigo? — Alice se mostrou preocupada.

— E, quem está nos ameaçando? —Theo questionou muito sério.

— Greyback. — Remus disse e o clima se tornou ainda mais tenso, expressões ansiosas e apavoradas surgiram no grupo. — Se puderem me ouvir, explicarei tudo.

Todos acenaram e se sentaram em volta da fogueira onde Remus e Flitwick contaram sobre o sequestro, o perigo que Gun e Teagan corriam, além dos aurores vigiando os acampamentos.

— Não sabemos onde Gun e Teagan estão se escondendo, mas, fomos informados que os aurores visitaram as matilhas de Elfort e de Tennison. — Theo disse preocupado. — Eles visitaram outros grupos ou matilhas menores, mas, passaram mais tempo nessas duas.

— Pobre menino. — Bridget sussurrou e Fennah chorava baixinho. — As chances deles são poucas, Greyback é implacável e cruel, Remus.

— Eu sei, mas, precisamos tentar, até o fim. — Remus disse. — Quero alertar as matilhas, para que avisem Gun e Teagan do perigo e que estejam todos atentos as crianças. Sei que é na matilha do Gun que estão os pequenos.

— Também não sabemos aonde eles se esconderam. — Simon disse e parecia desconfiado. — Porque quer saber isso? E, porque quer encontrar as matilhas pessoalmente? Nós podemos avisá-los.

— Não quero saber onde estão Gun, T ou suas pessoas, mas, como dissemos, descobrimos por um contato do Sirius no Ministério, que existem aurores vigiando os acampamentos e esperando que alguém se mova até eles para prendê-los. — Remus explicou e viu suas expressões de alarme.

— Mas, como eles os avisarão sobre Greyback, se não podem se mover? — Theo perguntou angustiado.

— E, é por isso que estou aqui, Theo. — Flitwick disse com sua voz esganiçada, alguns pularam de surpresa, pois tinham se esquecido de sua presença. — Mais cedo, nós arrumamos um encontro com o auror chefe da investigação. Uma pequena conversa, que me deu o tempo que eu precisava, para lhe colocar um feitiço de rastreamento.

— Sabíamos que ele pretendia visitar os aurores que estão na vigilância das matilhas, assim, poderemos rastreá-los e o pessoal pode se movimentar sem serem vistos. — Remus continuou. — Por isso precisamos ir aos acampamentos de Elfort e Tennison.

— Também seria bom se pudéssemos, discretamente, acompanhar alguns dos arautos apenas para termos certeza que eles não serão vistos e seguidos. — Flitwick disse gentilmente.

— Apenas nos acampamentos onde os aurores estiveram, não todos os esconderijos ou novos acampamentos. — Remus se apressou em explicar. — Não adianta mostrarmos o auror que observa a matilha do Tennison e, quando chegar a outro acampamento, o arauto acabar sendo visto e seguido por outro auror.

— Nós entendemos, Remus e confiamos em você. — Theo disse e houve vários acenos de cabeça. — Normalmente, nós teríamos que pedir permissão para levar estranhos, mas, dada a urgência, acredito que se abre uma exceção.

— O Alfas não gostarão ou entenderão assim, Theo, principalmente por causa de uma criança que já deve estar morta. — Disse Simon sensato.

— Não podemos ajudar o Adam até a mensagem de Greyback chegar, mas, podemos alertá-los. — Remus disse com voz mais dura, o que era incomum para o grupo. — E, isso foi ideia do Harry, Sirius e dos pais do Adam, que não querem que nada de ruim aconteça a uma das crianças da matilha ou mesmo a Gun e Teagan.

— Vocês poderiam ir e avisarem por si mesmos, mas isso apenas protegerá esses dois de Greyback e os jogarão nos braços dos aurores. — Flitwick pressionou. — Soubemos que Fudge está muito interessado em fazer sua campanha de reeleição em cima da prisão dos lobisomens. Aqui, talvez vocês se interessem em ler isso. — Ele estendeu o Profeta com a entrevista bombástica de Sirius na primeira página.

Alice leu a entrevista em voz alta e todos arregalaram mais e mais os olhos a cada palavra.

— Ele realmente fará isso? — Mark perguntou chocado. — Contratará um advogado para aqueles rapazes?

— Sim. — Remus disse sincero. — Vocês conheceram o Sirius e o Harry, sabem que estão sendo sinceros. Eles querem oferecer uma oportunidade para todos que estiverem interessados e manter Gun e Teagan fora da cadeia é apenas o certo, pois eles não o atacaram.

— Nenhum daqueles dois é inocente, Remus. — Simon disse contrariado. — Eles escolheram se unir a Greyback e seu novo animal de estimação, Egan, além de viverem do lucro de crimes. No que pensaram que isso terminaria? Morte ou Azkaban é o mínimo para esses tolos.

— Pode ser, eu não os conheço e concordo que suas ações foram completamente erradas, mas, as pessoas podem mudar, se arrepender e se houver uma chance... — Remus disse suavemente.

— Remus está certo. — Alice disse firme. — Não podemos virar as costas para o nosso povo.

— Eles estavam tentando sobreviver, Simon e precisam de orientação, pois são jovens e tolos. — Theo disse pensativo. — Somos mais velhos e experientes, precisamos tentar aconselhá-los e, talvez, eles aproveitem essa nova chance.

Houve mais acenos e, finalmente, Simon concordou relutantemente.

— Ok. É melhor comermos nosso café da manhã e partimos, então. — Simon disse se levantando e se aproximando do coelho assado na fogueira.

— Não devemos ir todos, isso atrairá muita atenção. — Theo disse e, em poucos minutos ficou decidido que ele, Simon e Alice acompanhariam Remus e Flitwick.

Eles aparataram direto para uma floresta densa na região de Swanage no extremo Sul da Inglaterra. Caminharam silenciosamente e sem cheiros, com Flitwick acionando a varinha até que ela sinalizou a localização do auror que estava vigiando a matilha de Elfort. Se desviando, eles deram a volta no acampamento e encontraram mais dois aurores, um deles dormia, sem se preocupar em observar, como fora ordenado por Moody.

— Harry está certo. — Sussurrou Flitwick com o cenho franzido. — Alguns desses caras são uma vergonha.

O Matilha Elfort tinha 233 lobisomens e seu Alfa era Harvey Elfort, um bruxo de 49 anos que fora mordido aos 14. O acampamento estava começando a acordar, assim, não haviam muitos bruxos fora das barracas e, os que estavam, acendiam as fogueiras e conversavam entre si em tom suave. A presença deles atraiu olhares, mas, Theo sinalizou que estavam visitando em paz e, rapidamente, foram até barraca do Alfa, que apesar da aparência comum, era magicamente ampliada por dentro.

Eles entraram sem serem convidados e a simplicidade do lugar combinava com o homem sentado a uma mesa pequena de madeira e que lia o Profeta Diário. Harvey Elfort parecia um fazendeiro escocês robusto, barbudo e com bochechas rosadas pelo frio e não por uma boa alimentação. Sua expressão mostrou alarme ao vê-los entrar, mas, se tranquilizou quando viu quem eles eram.

— Se é sobre a história da ilha, ainda estamos conversando. — Ele disse com voz rouca e sem se preocupar em se levantar ou deixar de ler o jornal. — Assim que decidirmos, vocês serão os primeiros a saberem.

— Harvey. — Theo falou em tom urgente. — Viemos avisá-los sobre um novo perigo.

— E, espero que estejam mesmo conversando sobre a ilha, Harvy, ou roubo a sua matilha. — Simon provocou com um sorriso meio desdentado.

— Ah! — Harvey, finalmente se levantou com um grande sorriso e olhos azuis alegres. — Minha vida seria mais fácil, velho, assim, fique à vontade. Qual o perigo, Theo? E, porque trouxe estranhos?

Theo, com a ajuda de Remus contou os fatos rapidamente e Harvey franziu o cenho irritado.

— Percebemos que tinha um auror vigiando, mas três? — Ele disse um palavrão, inconformado. — O espertinho deve ter se deixado ver para pensarmos que era o único e que sabíamos onde ele estava. Esse maldito feitiço que tira o cheiro e o som é um problema sério.

— Moody é muito esperto. — Remus disse. — Podemos ajudar o seu homem a atravessar os acampamentos.

— Tennison não gostará nada disso. — Harvey disse com uma careta divertida. — Quase dá vontade de ir junto só para ver sua reação. — Depois apontou para o jornal, antes de olhar para o Remus. — Um dos meus rapazes conseguiu isso para mim, eu gosto de saber das notícias. Seu amigo, Black, está sendo sincero sobre ajudar os homens de Gun que estão presos?

— Sim. — Remus confirmou. — E, sobre a ilha também, Elfort. Espero que depois que toda essa confusão passar, consigamos nos reunir e avançar nesta direção.

— Hum... se vamos avançar, eu não sei, Lupim, mas quererei encarar o menino Potter por mim mesmo e ouvir da sua boca essas suas ideias. — Harvey disse e parecia esperar com atenção a resposta de Remus.

— Prometo, assim que salvarmos o Adam, marcaremos um encontro, Harry ficará feliz em conhecê-los. — Remus afirmou com convicção.

Harvey pareceu meio surpreso e deu de ombros, não completamente convencido.

— Você quer nossa ajuda para salvar o menino? — Ele suspirou cansadamente.

— Não, pelo menos, não diretamente, Elfort. — Remus disse. — Se vocês tiverem qualquer possível localização sobre os esconderijos de Greyback ou Egan, agradecemos a informação. O mais importante agora, é que todos estejam avisados e se mantenham seguros, pois se não conseguirmos... — Sua expressão mostrou a tristeza do pensamento terrível. — Temos certeza que ele direcionará sua vingança para Gun e Teagan.

— Estamos esperançosos de que Greyback enviará a mensagem para Sirius e tentaremos salvá-los a todo custo. — Flitwick disse ansiosamente. — Somos uma boa equipe e, se puder avisar as outras matilhas, já será de grande ajuda, Sr. Elfort.

— Podem me chamar de Elfort, eu não gosto de Harvey, só me chamam assim quem quer me irritar. — Disse Elfort encarando Simon com um olhar afiado. — Ok. Faremos o seguinte, então, enviarei vocês até a matilha de Tennison com um dos meus homens e espero que ele o receba, no mínimo. Também enviarei um dos meus garotos até o esconderijo de Gun. — Diante do olhar surpreso dos visitantes, ele acenou confirmando. — Sei onde o Gun está e, apenas ele sabe onde está o Teagan, é mais seguro assim. A matilha dele se espalhou, um pouco em cada acampamento pelo país, pois se fossem encontrados e reconhecidos como a sua matilha, Gun temia que todos acabassem presos.

— Isso foi inteligente. — Theo disse. — Precisamos nos ajudar uns aos outros e, talvez, possamos todos ter um lar em breve.

— Tem alguém doente, Elfort? — Alice perguntou preocupada.

— Pedirei que Shila te mostre os que estão meio adoentados enquanto resolvemos tudo por aqui, Alice. — Elfort deixou a barraca e assoviou, em poucos minutos, 4 pessoas entraram na barraca com ele. — Shila, a Sra. Alice quer ver os doentes, por favor.

— Claro. — Shila, uma jovem de uns 25 anos, sorriu e pegou a mão de Alice. — Nós agradecemos, venha comigo, Sra. Alice.

— Bom, agora, vamos dividir e conquistar. — Elfort disse sabiamente.

— Porque três? — Simon perguntou confuso.

— Ah! Bem, nós sabemos os grupos e matilhas que não receberam visitas dos aurores, assim, eles não devem estar sendo vigiados. — Elfort disse com um olhar inteligente. — Enviarei um terceiro homem para avisá-los e colher qualquer informação sobre o paradeiro de Greyback ou Egan.

— Boa ideia. — Flitwick disse sorrindo. — Imagino que era um Ravenclaw em Hogwarts.

— Sim, até ser mordido por um lobisomem antes de começar o meu quarto ano. — Elfort disse com uma careta. — Fui expulso da escola e de casa, acabei nas florestas e sem uma varinha, claro, pois eles quebraram a minha. Aprendi a aparatar com outro lobisomem e fico feliz que não precisamos de varinhas para isso.

— Não tem ninguém com varinhas no acampamento? — Flitwick perguntou confuso.

— Apenas os bruxos que foram mordidos como adultos ou já tinham prestado suas OWLs em Hogwarts, professor. — Remus explicou gentilmente. — Se você é mordido antes de concluir o quinto ano, você tem sua varinha quebrada ou nunca a recebe.

— Isso é lei. — Elfort explicou com uma careta. — Se os aurores me pegassem com uma varinha, me mandariam para Azkaban.

— Ainda, Dolores Umbridge quer endurecer o projeto de lei Anti-Lobisomem e, quebrar a varinha de todos os bruxos que são ou se tornarem lobisomens no futuro, isso está entre os novos adendos. — Remus disse severamente. — Espero que Sirius consiga deter essa mulher.

— Bem, mas, um problema de cada vez. — Elfort disse energicamente. — Vocês repitam tudo para os meus rapazes aqui, e vocês três prestem bem atenção, pois precisam passar a mensagem em detalhes. Ouviram?

Os três lobisomens, que tinham entre 20 e 40 anos, concordaram. Remus e Flitwick voltaram a contar tudo que que aconteceu em detalhes e Elfort decidiu onde cada um iria.

— Ben, você irá até Gun. — Elfort disse tenso. — É a missão mais perigosa e quero que o acompanhe até Teagan, não confie em deixá-lo ir sozinha passar a mensagem, seria muito perigoso. Além de tudo o que foi dito, informe ao Gun que o seu pessoal, que se moveu para o nosso acampamento, está seguro e, que em breve, marcaremos uma reunião pessoalmente para falarmos da tal ilha. — O bruxo, Ben, acenou muito sério. — Carl, você irá até as matilhas e grupos que não foram visitados pelos aurores, farei uma lista e onde poderá encontrar os seus acampamentos. Agora, preste atenção, se estivermos mal informados sobre algum desses acampamentos e você for abordado por um auror, diga que está indo visitar uma namorada ou algo assim. Bico fechado sobre tudo isso, entendeu?

— Sim, senhor. — Carl, que era o mais jovem, acenou ansioso.

— Sean, você seguirá com eles pelos outros acampamentos, pois já sabe quais receberam a visita dos aurores, assim, ouvirá o professor aqui e chegará em segurança a cada um deles. — Elfort encarou os visitantes com seriedade. — Tennison é quem mais causará problemas, mas, mesmo nos outros acampamentos, por segurança, é melhor que vocês tenham um dos meus homens com vocês. Sem ofensa, Theo, mas todos andam muito tensos com a questão da Travessa e os aurores pressionando em busca informações.

— Sem ofensa tomada, toda ajuda é bem-vinda. — Disse Theo com um sorriso gentil.

— Se qualquer informação sobre o paradeiro desses dois chegar até mim, levarei pessoalmente a você, Theo, que pode dar um jeito de chegar até o Lupim aqui. Bom, vamos repassar. — Elfort apontou para seus garotos. — Escutem até memorizarem, não quero saber de erros por desatenção.

— Sim, senhor. — Todos os três responderam juntos.

Elfort era muito detalhista e um bom planejador. Depois que repassaram tudo mais duas vezes, o grupo se afastou silenciosamente pelas árvores, se desviando dos dois aurores e passando perto do que estava roncando sonoramente. Ben e Carl foram os primeiros a aparatarem para as suas missões e, depois, Sean os orientou sobre a nova localização da matilha de Tennison, que mudou de lugar depois da visita dos aurores. A Floresta costeira ficava perto de Walberswick e os ventos frios eram mais fortes ali.

— Porque ele decidiu vir para a costa leste? O Mar do Norte tem ventos muito frios nesta época do ano. — Remus sussurrou.

— Tennison acredita que os aurores esperam que eles fiquem no Sul ou Sudoeste, assim, quer despistá-los. — Informou Sean esfregando as mãos para se aquecer.

— Bem, ele não conseguiu. — Disse Flitwick ao mover a varinha e sinalizar para a área onde um auror sentava-se escondido entre as folhagens.

— Merda. Tennison ficará furioso. — Disse Sean preocupado. — Tem mais?

Haviam mais dois, como na matilha de Elfort e nenhum deles dormia, assim, o grupo teve que dar uma grande volta até conseguir passar por um caminho onde não poderiam ser vistos. O acampamento de Tennison era mais barulhento, fogueiras e o cheiro de carne da caça assando por todos os lados. A manhã avançara e ninguém mais estavam dormindo em suas barracas, apenas esperavam em longas filas para pegarem o café da manhã magro que era fornecido pelos cozinheiros das fogueiras. A matilha de Tennison tinha 416 lobisomens, e ainda estavam hospedando alguns membros escondidos da matilha de Gun. A filas de bruxos magros, com roupas finas e puídas, se espremiam entre as barracas que ficavam muito mais perto umas das outras do que as barracas da matilha de Elfort.

— Tem quase o dobro aqui. — Sean disse suavemente. — Depois do café, todos partem para seus trabalhos temporários ou bicos, os que não tem procuram ou caçam pela floresta.

— Porque as barracas ficam tão perto uma das outras? — Flitwick perguntou curioso. — Mesmo com a quantidade, uma simples magia de expansão na área e você dobra o tamanho da clareira e eles não precisam ficar amontoados. Seria temporário, precisariam de Runas para tornar definitivo... — Flitwick parou quando viu o garoto interromper a caminhada e lhe escutar com atenção.

— O senhor sabe fazer essas coisas? — Sean perguntou. — Temos muitos que se formaram em Hogwarts e só depois foram mordidos, mas, eles dizem que esses feitiços são complicados. Eu fui mordido quando tinha 10 anos, nunca recebi minha varinha. — Ele olhou com saudades para a varinha de Flitwick.

— Sim, eu sei e um aluno formado em Hogwarts deveria saber se foi o meu aluno. — Flitwick disse chateado com toda a precariedade com que todos esses bruxos viviam. — Vamos ao Tennison?

— O que esses invasores fazem em minha matilha!? — Berrou uma voz furiosa. — E, vocês aí na fila? Apenas esperando por comida e não fazem nada!?

Os bruxos nas filas mais próximas olharam para o grupo com expressões mistas de preocupação, tensão, apatia e cansaço. Era claro que, apesar de tensos com suas presenças, estavam sem energia para se importarem e fazerem algo sobre isso. O conformismo, a fome, a desesperança era visível em suas posturas e expressões.

— Sr. Tennison. — Sean se adiantou ansioso. — Sr. Elfort me enviou...

— Cala a boca! — Berrou Tennison e fez Sean pular de susto e alguns bruxos das filas se afastarem, desviando o olhar, pois não queriam se envolver. — Você é apenas o menino de recado do Harvy, quero saber como ousam vir ao meu acampamento quando estamos tentando não chamar a atenção dos aurores idiotas! Espero que tenha uma boa explicação, Theo Goldman!

— Nós temos, mas, se não parar de gritar feito uma gralha, os aurores saberão que está recebendo visitas, apesar dos nossos cuidados, seu palermão. — Disse Simon em tom igualmente rabugento.

— Eu te perguntei alguma coisa!? — Berrou Tennison furioso.

— Porque está gritando tão cedo, Tenny? — Uma mulher se aproximou com expressão cansada e severa. — Todos só querem comer e sair para trabalhar, mas, com você berrando, estão partindo antes, por receio de seus desmandos sem sentido.

— Bom, sobra mais comida para o café da manhã de amanhã. — Respondeu Kevin Tenny Tennison, um homem bem velho, talvez 80 ou 90 anos, cabelos e barbas brancas e desgrenhadas. Ele era baixo, talvez, 1,60 de altura, os ombros curvados e corpo magrelo o faziam parecer ainda menor. Além de muito velho, ele tinha poucos dentes, estava ficando cego e surdo, pior, estava sempre com a dor do reumatismo por todo o corpo e era muito mal-humorado. — Temos invasores, Becky.

Becky, era Rebeca Young, uma mulher de 44 anos, negra, cabelos raspados, olhos castanho doces e cansados, que verdadeiramente comandava a matilha, apesar de Tenny ainda não saber disso.

— Não somos invasores. — Theo se apressou em dizer com um sorriso gentil. — Apenas visitando e avisando de um grave perigo, se puderem nos dar um pouco de atenção.

— Claro. — Becky respondeu e indicou uma barraca bem velha. — Essa a barraca do Alfa, podemos conversar lá, certo, Tenny?

— Bem, que escolha eu tenho? Ninguém mais me escuta! — Ele voltou a gritar e caminhou dolorosamente até a barraca.

Assim que todos entraram no espaço pobre e frio, Flitwick usou sua varinha para aquecer o ambiente.

— Ah! — Tenny olhou em volta surpreso e encarou Flitwick com seus olhos azuis atacados pela catarata. — Tem um anão em minha matilha? Estamos sendo atacados por anões, Becky!

— Eu não sou um anão, Sr. Tennison. — Flitwick respondeu levemente ofendido. — Sou um professor, meio bruxo, meio goblin e trabalho em Hogwarts.

— Rá! Vocês são todos iguais! — Berrou ele estridentemente.

— Como está sua saúde, Tenny? Sua visão e audição pioraram? — Alice disse em tom suave.

— Isso não é da sua conta! É? — Disse Tenny irritado. — Digam logo porque invadiram meu acampamento e partam! Estamos tentando nos esconder dos aurores, assim, não queremos visitantes!

— Bem, enquanto eles explicam, eu poderia examinar qualquer doente da matilha. — Ofereceu Alice desistindo de tentar examinar Tenny, que sempre dizia não.

— Não precisamos de caridade! — Berrou Tenny apontando o dedo. — Cuido muito bem do meu pessoal! Não quero saber das suas tolices de curas, mulher!

— Tenny! — Becky protestou irritada. — Temos algumas crianças gripadas e qualquer coisa que puder fazer para ajudar, é bem-vindo, senhora. Pode vir comigo, por favor.

Alice acompanhou Becky e o silêncio da barraca era opressivo.

— Então! Vieram aqui para brincarem de mímica! Falem de uma vez! — Berrou Tenny subitamente e Sean pulou outra vez.

— Senhor, meu Alfa pediu para lhe dizer que ouça com atenção os visitantes, pois... — Becky voltou para a barraca e o garoto recomeçou. — Elfort pediu que ouçam com atenção os visitantes, pois as matilhas estão em perigo.

— Os lobisomens estão sempre em perigo, seu idiota! — Berrou Tenny irritado. — Vá e diga isso ao seu alfa!

— Tenny! — Becky lhe chamou a atenção antes de se voltar para Theo. — Por favor, nos contêm o que aconteceu e desculpe por não ter onde sentarem...

— Ora, eu resolvo isso em um instante, senhorita. — — Flitwick acenou a varinha e conjurou algumas cadeiras confortáveis.

Sean e Beck arregalaram os olhos surpresos, Tenny sorriu e se sentou em uma delas.

— Rá! Eu me lembro de saber fazer isso. — Disse ele animado. — Infelizmente, roubaram a minha varinha a muitas décadas, sabe.

Todos se sentaram e Remus contou os acontecimentos.

— Elfort disse para não se preocuparem, ele já enviou alguém para avisar Gun e Teagan, além de outro arauto para avisar os acampamentos que não receberam a visita do aurores. — Encerrou Remus suavemente.

— Você quer dizer que esses bostas dos aurores nos seguiram até aqui e estão vigiando o meu acampamento!? — Berrou Tenny se levantando com dificuldade. — Eu irei até eles e os expulsarei daqui! Nos mudamos porque não quero ser perseguido e vigiado como um bandido! Meu povo não é bandido!

— Acalme-se, Tenny! Você não ouviu o que foi dito? Uma criança, sequestrada por Greyback e depois ele virá atrás de Gun e seu povo! — Becky disse preocupada. — Que uma parte está escondido aqui, conosco.

— Ah! Sim... O que isso quer dizer? — Tenny perguntou meio confuso.

— Quer dizer que nossa matilha está em perigo, Tenny. — Disse Becky carinhosamente. — Precisamos avisar a matilha e sermos cautelosos.

— Ok. Podemos fazer isso. — Tenny disse irritado. — Não precisava trazer estranhos ao meu acampamento, garoto! Agora teremos que nos mudar de novo!

— Não! Nós acabamos de chegar aqui e os aurores nos seguiram, Tenny. — Becky disse chateada. — Nos mudar não resolve nada!

— Quem é o Alfa aqui, garota? Se eu disser que temos que nos mudar, é porque temos! — Ele berrou furioso.

— Não façam isso por nós, Sr. Tennison. — Flitwick disse ansioso. — Não oferecemos perigo a vocês, pelo contrário, queremos ajudar no que pudermos.

— Depois que salvarmos o Adam e lidarmos com Greyback, podemos começar a nos reunir para discutirmos sobre a ilha. — Remus disse suavemente. — Sei que Theo já lhes falou sobre isso.

— Você é o cara da ilha!? — Tenny gritou e o encarou com olhos afiados. — Eu já disse que não acredito nessa bobagem! É tudo armação, aposto que pretendem nos prender lá e nos usar como escravos ou algo assim!

— Merlin, você está a cada dia mais caduco. — Simon disse exasperado. — Tenny! Presta atenção! Não estamos mentindo! Nem o Potter está.

— Quando encontrarem com ele, entenderão que é tudo verdade. — Theo disse esperançoso.

— Você acredita... — Becky hesitou ansiosa e cansada. — Que poderemos ir logo para lá? Para a ilha, quero dizer?

— Não vejo porque não. — Remus disse sincero. — Com um acordo feito, vocês podem se colocar em segurança enquanto reconstruímos a ilha. Haverá muito trabalho com as cabanas, a fazenda e a escola, talvez, sem setembro, possamos ter aulas acontecendo ou quem sabe antes.

— Ainda acho que é tudo bobagem. — Disse Tenny com uma careta.

— Precisamos seguir agora. — Theo disse se levantando. — Se algum dos seus souber ou descobrir qualquer coisa que ajude a salvar o menino...

— Nós enviaremos alguém até Elfort, prometo. — Disse Becky sincera.

— Ok, então, a invasão de vocês não foi tão ruim, mas não ousem roubar minhas novas cadeiras e, você, pode voltar. — Disse Tenny apontando para Flitwick e lhe dando um sorriso desdentado. — Eu gosto de anões.

Flitwick fez uma careta e se controlou para não enfeitiçar o homem.

Durante o resto da manhã, o grupo visitou os acampamentos e, aos poucos, a comunidade começou a se movimentar. Pequenos grupos se reuniram para conversarem, trocarem informações, comentarem a entrevista de Sirius Black e descobrirem com os homens de Gun ou T, se um deles ouviu sobre um possível esconderijo de Greyback ou Egan. A notícia sobre a ilha e a possibilidade de se mudarem o mais rápido possível se espalhou e encheu muitos de esperança e ansiedade. Alguns perguntaram diretamente ao Remus se a ilha seria cancelada caso o garoto morresse ou eles não ajudassem.

— Por favor. — Remus disse cansado. — Eu fui mordido por Greyback quando tinha 4 anos, sei o monstro que ele é e todos, os Boots, Sirius e Harry também entendem isso. Eles sabem que nada disso é culpa suas ou minha e não existem condições e nunca haverá condições para vocês viverem na ilha. Desde que queiram viver uma vida honesta, justa e digna. Ok?

Então, essa garantia se espalhou entre a comunidade trazendo um grande alívio, mas, a vontade de ajudar a encontrar o garoto não diminuiu. As matilhas começaram a se planejar, mais lobisomens vigiando os perímetros, reuniões, visitas, uma agitação de um lado a outro dos acampamentos. Todos decididos a se protegerem de Greyback e colherem quaisquer informações sobre seu paradeiro.

Uma pessoa acabou percebendo o que acontecia, ele vigiava a matilha de Blythe, um galês muito amigo de Gun e, próximo ao fim da manhã, decidiu avisar o seu chefe.

Egan estava em seu Chalé de luxo, que ele chamava de Montmartre em homenagem as muitas noites de diversão que ele teve no bairro parisiense boêmio de mesmo nome. Seus pensamentos naquela manhã, depois de ler o Profeta, giravam em torno do passado e do seu antigo desejo de se vingar das famílias puras e ricas do mundo mágico. Famílias que tinham lhe virado as costas cruelmente, amigos que nunca perderam um dia de sono se preocupando com o seu destino ou ofereceram uma única migalha de ajuda. Egan tinha que admitir para si mesmo que nos últimos 16 anos, desde que fora mordido, sua vida se resumiu a tentar sobreviver e, depois da guerra, aproveitar os prazeres da vida, graças a renda do Chiqueiro.

Tudo perdido agora, pensou amargo, pois, naquela noite, na Travessa, Egan se viu escorraçado com apenas quatro dos seus homens e sem o prazer de ter matado Black ou Malfoy, o que era uma grande pena, em sua opinião. Desde então, ele se manteve escondido em seu Chalé, nem um pouco preocupado ou lamentoso sobre os lobisomens da sua gangue que foram presos ou mortos. Não, seus pensamentos se concentraram apenas em como faria para continuar a ter a vida de luxo que ele amava. No entanto, Egan não era um homem de ação, ele gostava da boa vida, por isso, se juntar a Greyback, há 11 anos, fora a sua melhor jogada.

Greyback lhe prometera que, depois que acabasse com Black, Gun e T, eles encontrariam uma maneira de ganhar muitos galeões e, Egan esperava que seu amigo também concordasse em ajudá-lo com seu atrasado acerto de contas, pois ele não podia deixar de sentir o desejo de vingança voltar, principalmente depois de ler a entrevista de Sirius.

Egan considerava que Greyback teve uma boa ideia ao sequestrar o garoto Boot, mas ele desperdiçava a chance de pedir um polpudo resgate em galeões. Black era imensamente rico e pagaria facilmente, mas, quando Egan sugeriu isso ao amigo, este descartou a possibilidade, como sempre, pouco preocupado com questões menores como dinheiro. Menores para Greyback, pensou Egan, ironicamente, pois, para ele, ter muito dinheiro era muito importante. Afinal, sem galeões, como ele teria todas as suas diversões indispensáveis?

Egan concordou em adiar seus próprios problemas e deixar um dos seus homens vigiando a matilha de Blythe. O lobisomem galês era um grande amigo de Gun e Greyback tinha certeza que, cedo ou tarde, o gigante lobisomem apareceria em busca de ajuda. E, se encontrassem Gun, este saberia como encontrar T, que deveria estar dentro de alguma toca de rato ou esgoto de Londres. Um tempo sob a tortura de Greyback, e Egan estava convicto que Gun contaria a localização exata.

No entanto, Greyback insistiu em pegar Sirius primeiro, pois, segundo lhe disse, seu primo era o mais perigoso de todos e precisava ser eliminado rapidamente. Egan não se importava, enquanto adoraria o prazer de matar um Black, não tinha nada contra Sirius, particularmente. Agora, Malfoy, era outra história e nada lhe daria mais prazer do que...

— Chefe! — A entrada de Cuttler tirou Egan de seus pensamentos profundos. Colocando o seu caro charuto de lado, Egan se espreguiçou lenta e elegantemente antes de responder.

— Sim? Gun apareceu? Conseguiu segui-lo? — Perguntou suavemente.

— Não, senhor, mas achei melhor vim avisá-lo do que está acontecendo nas matilhas. — Cuttler disse ansioso. — Eu chamei Jim para me substituir na vigilância da matilha de Blythe e dei uma olhada nas matilhas de Elfort e McGregor, todas estão se comportando estranhamente, senhor.

— Verdade? Que interessante. Conte-me, tudo, Cuttler. — Egan pediu preguiçosamente.

Em outro ponto do Reino Unido, Greyback se sentou em uma pedra cinzenta e afiou uma de suas facas, enquanto mantinha os olhos sob o seu lindo prêmio. Ele era realmente uma gracinha, tinha que reconhecer, quase bonito demais para ser comido, pensou Greyback, maliciosamente. Um pequeno anjo que deveria ser apreciado com tempo e cuidado, assim, Greyback sabia que tinha que se controlar, usar o seu sequestro para atrair Black e, depois, sem pressa, aproveitar o seu anjinho.

Pegá-lo fora muito fácil, ele tinha que reconhecer, talvez um pouco fácil e chato demais. Greyback preferiria um pouco mais de emoção em suas caçadas, nada o divertia mais do que perseguir e assustar suas vítimas, além de tirar do caminho os seus inimigos. Neste momento, o seu adversário era Black, e Greyback sabia que o animagus já estaria informado sobre o sequestro do pequeno. Podia imaginar que ele estava desesperado, esperando sua mensagem, ansioso para se entregar e trocar de lugar com o garoto, mas, Greyback não tinha pressa alguma. Sua intenção era deixá-los tão desesperados que concordariam com qualquer coisa que ele pedisse, e Greyback queria Black, enredado em sua armadilha. Ele também gostava da ideia de provocar dor e desespero nos pais do garoto, claro.

Uma fungada despertou sua atenção e Greyback olhou para o garoto, que estava sentado no chão e recostado contra uma árvore bem grande e grossa. Algumas lágrimas rolavam por seu rostinho de anjo e, se Greyback tivesse um coração, teria se penalizado.

— Porque chora, pequeno? — Ele se aproximou e se colocou bem à frente do garoto, que se espantou e se encolheu assustado. — Não, não, o velho Greyback não lhe fará mal, não precisa ter medo.

Adam olhou para o homem mal de rosto assustador, mas não respondeu nada, como não fizera desde que chegaram nesse lugar estranho e frio. A clareira ficava na beira de um penhasco e o chão era cheio de pedras cinzas escuras, de tamanhos e formatos diferentes. As árvores que cercavam a pequena clareira pareciam velhas, com seus troncos grossos e raízes grandes com musgos úmidos, que saltavam por cima da terra fria e dura de neve rala. Para Adam, a floresta parecia muito mais sombria e assustadora que o bosque de sua casa, mas, ainda, lhe dava menos medo do que o homem com face de monstro.

Assim que chegaram, o homem lhe disse para sentar e não tentar fugir ou ele o caçaria e comeria como um lobo come um coelho. Apavorado, Adam o obedeceu e ficou encolhido tentando parecer invisível e implorando mentalmente que seu papai ou sua mamãe viessem buscá-lo. O homem mau fez uma fogueira que o manteve aquecido e depois se sentou, por muito, muito tempo, afiando as unhas compridas como garras e depois as facas grandes e assustadoras. O tempo todo, não parava de encará-lo e Adam deve a bizarra sensação que estava sendo apreciado, de um jeito não muito bom.

— Porque chora, anjinho? Pode contar para o velho Greyback e prometo que te ajudarei. — Sua voz era rouca e assustadora, ainda que as palavras fossem persuasivas. Ainda, Adam não conseguiu falar de puro terror e porque sentia que o velho mau estava mentindo. — Vamos lá, como posso te ajudar se não me contar? Fale com o velho Greyback...

Adam o viu se aproximar o cheirando e usando os dedos longos para pegar as lágrimas do seu rosto e as lamber nos lábios com presas. Se encolhendo ainda mais contra a árvore, Adam desejou desaparecer e ir para casa, mas, nada aconteceu. O dedo longo ergueu o seu queixo e o fez encará-lo, seus rostos muito próximos, olhos nos olhos, ônix vazio contra âmbar quente. Adam sentiu o estômago se embrulhar com o cheiro do seu hálito fétido que lembrava... sangue e algo pior, que o fez pensar no cheiro do cemitério onde enterraram sua avó Honora, semanas atrás.

— Diga-me pequenino... — O tom de sussurro era uma ordem e Adam sentiu seus dedos apertarem o seu queixo, as unhas enfiar-se em sua pele dolorosamente.

— Quero ir para casa, senhor, estou com frio e com fome... — Ele falou bem baixinho em tom implorante, ainda que soubesse que o homem era muito mal para lhe devolver para a sua casa, afinal, fora ele quem o roubara.

— Ah! — Greyback se afastou meio surpreso pela coragem do menino em lhe responder, sem precisar ser machucado. Isso nunca acontecia. — Entendo, entendo. Infelizmente, não posso lhe deixar ir, mas, posso resolver os outros dois problemas.

Greyback apontou sua varinha para a fogueira e aumentou as chamas, colocando mais troncos e, rapidamente, o calor aumentou em volta deles.

— Pronto. Agora, sobre a comida, estive aguardando esse momento, por isso lhe pedi que o segurasse para mim e não o deixasse fugir. — Disse Greyback com um sorriso malicioso. — Também estou com fome e podemos dividi-lo. — Acrescentou ele ao se aproximar e pegar o filhote de cachorro, branco e marrom, do colo de Adam.

Em um segundo, Adam entendeu o que o homem mau falava e, instintivamente, tentou segurar com mais força o seu aperto sobre o filhote, que dormira tranquilamente em seu colo na última hora e meia, mas, Greyback era mais forte e o levou embora.

— Não... por favor... — Adam sussurrou apavorado.

— Não se preocupe, anjinho, ele não sentirá nada. — Greyback disse e ergueu o filhote pelo cangote até a altura do seu rosto, o examinando com atenção. — Um pouco pequeno e magro para nós dois, mas, quando se está com fome, não se deve reclamar.

O filhote acordou e ganiu apavorado quando se viu perto do lobo, suas pernas minúsculas se agitaram como se quisesse correr, mas, ele não tinha escapatória. Greyback segurou sua cabeça e torceu o seu pescoço em um crack audível e calou seu choro assustado e parou seus movimentos frenéticos.

Adam abriu a boca tentando gritar para impedi-lo, mas, não houve tempo e ele pulou de choque diante do barulho assustador e nauseante do osso se quebrando. Ele arfou e engoliu o grito, arregalou os olhos e ficou gelado, quando viu Greyback sorrir prazerosamente.

— Prontinho. Agora, vamos comer. — Disse Greyback ao puxar a cabeça e separá-la do corpo, espirrando sangue grosseiramente no chão.

Adam sentiu o estômago vazio se encher de bile amarga, se virou de lado e vomitou.

— O que? Prefere sua carne assada? — Greyback perguntou sorridente. — Eu prefiro a minha crua... — Ele puxou a pele e mordeu a carne ainda quente do filhote. — Mas posso assar na fogueira para você, anjinho. Quer?

Adam não conseguiu encontrar a voz para responder, assim, apenas acenou que não freneticamente e fechou os olhos, pois não queria ver.

— Bem, você é quem sabe. — Greyback disse com a boca cheia. — Sobra mais e estou com muita fome. Esse filhote é um bom petisco antes do prato principal.

O homem mau riu maldosamente e continuou comendo enquanto Adam se manteve encolhido, com os olhos bem fechados e tentando ignorar os sons de mastigação grosseira ou da pele sendo puxada do corpo do filhote.

O tempo passou e Adam sentiu-se mergulhar em sua própria mente, tentando fingir que estava em casa, em seu bosque e que sua mamãe iria chamá-lo para ir jantar daqui a pouco. Então, seu papai jogaria um jogo com ele, xadrez era o seu preferido e seu papai era quase tão bom quanto ele. Ayana lhe falaria da escola e como estava ansiosa para ir para Hogwarts e, depois, sua mamãe lhe contaria uma história para dormir. Adam estava tão envolvido em sua imaginação que começou a cochilar e sentiu uma mão suave acariciando seus cabelos e um cheiro de flores o envolveu, fazendo com que se lembrasse da sua vovó Honora e da estufa de flores no Chalé.

Depois de se alimentar, Greyback voltou a afiar suas facas, pensando que teria que caçar em breve, pois o filhote não o sustentou, ainda estava com fome. Seu olhar pousou sobre seu pequeno prêmio e Greyback sacudiu a cabeça irritado, não deveria pensar nisso, tinha que se manter no plano. Black só viria ao seu encontro se o garoto estivesse vivo, ele quereria garantias, assim, o pequeno anjinho tinha que continuar respirando. Além disso, Greyback não queria comer o menino com pressa, esse momento especial tinha um ritual específico que ele pretendia seguir. Greyback até já escolhera o seu troféu, pretendia guardar os cachinhos dos cabelos do seu anjinho. Maldito Black! Ele o faria pagar! Se não fosse tão importante matá-lo para se proteger, Greyback poderia curtir seu novo brinquedo sem problemas.

Mais uma hora se seguiu em que Adam cochilou e Greyback o cobiçou, seus pensamentos indo em todas as direções entre sim e não. Porque sim, porque não, talvez, melhor esperar, quem sabe, apenas um pedacinho... Sim, ele decidiu finalmente e se aproximou do garoto, sem dar atenção a agitação das árvores ou, ao vento que se tornou mais forte e crepitante. Apenas uma mãozinha minúscula para sentir o seu sabor, poderia conter o sangramento e o garoto estaria vivo até a hora de atrair Black.

Não! Sua mente tentou conter os seus instintos. Não poderia fazer isso ou seus planos estariam todos perdidos! Teria que acelerar tudo e Black não sofreria ao esperar a sua mensagem!

E qual o problema? Era melhor assim! Então, você teria sua vingança e seu pequeno anjo para sua degustação e diversão! Porque esperar!? Talvez, pudesse até provar uma parte mais carnuda que a mão e, então...

Não! Black não viria se o menino estivesse morto e ele precisava eliminá-lo! Aquele maldito! Ousou acreditar que poderia vencê-lo! Que poderia estalar os dedos e seus sócios se voltariam contra ele! Greyback o faria pagar e, depois que acabasse com Gun e T, todos saberiam que ele era invencível! E, ele seria tão temido quanto o próprio Lord das Trevas!

Enquanto sua mente se concentrava em seu conflito, Greyback, sem perceber, se aproximou de Adam. Tão perto, que o cheiro dele se tornou o único cheiro que Greyback parecia sentir.

— Apenas um gosto... — Sussurrou e, com a ponta da sua faca, ele riscou a bochecha caramelo.

Adam acordou do seu sonho na mesma hora, arregalou os olhos de medo e tentou se rastejar para mais longe, mas Greyback agarrou seus cabelos cacheados dolorosamente e prendeu sua cabeça contra o tronco da árvore.

— Quieto, eu quero apenas um gosto, meu anjinho, não me faça te machucar, ainda não é hora de brincarmos de verdade. — Greyback levou a outra mão ao seu queixo e virou sua cabeça, angulando sua bochecha e, se inclinando, ele lambeu o sangue que escorria do corte.

O gosto perfeito do sangue, o cheiro do medo, o coração pulsando foi demais e, Greyback, sem controle, se inclinou para o pequeno pescoço pronto para dar uma grande dentada...

— Greyback! — A voz ecoou logo depois do estalo de aparatação, que Greyback não ouviu, mas, o seu nome gritado pela voz conhecida foi o suficiente para que ele saísse da fissura por carne e sangue em que estava.

Voltando-se, Greyback se levantou e soltou Adam que se encolheu e limpou o rosto lambido freneticamente com a manga do casaco.

— Egan? — Greyback se afastou e olhou com surpresa o colega que se aproximava. — O que houve?

— Uma movimentação bem estranha das matilhas. — Egan disse lançando um olhar indiferente para o garoto antes de voltar a encarar Greyback. — Cuttler percebeu que, depois das 9 horas, os lobisomens começaram a se visitar e aparecer de todos os lados, grupos se reunindo e conversando em sussurros. Eles viajam em grupos de mais de dois, se reúnem com o Alfa, passam ou colhem informações e seguem em frente.

— Que informações? — Greyback perguntou curioso.

— Impossível ouvir, se chegassem muito mais perto, ele seria cheirado, além disso, as conversas são sempre em sussurros, como se soubessem que estão sendo observados. — Egan disse e parecia ansioso. — Cuttler chamou Jim para revezarem e visitou as matilhas de Elfort e McGregor, estão do mesmo jeito que a de Blythe.

— Algum sinal de Gun? Ou T? — Greyback questionou, pois isso era o que mais lhe interessava.

— Não, mas, eu decidi ir até lá e ver com meus próprios olhos, Greyback e a situação parece bem estranha. — Egan disse sombrio. — A maneira que eles estão agindo, parecem que estão se organizando, marcando encontros, passando informação.

— E, o que? Você acha que eles estão se organizando por algum motivo? Que pretendem agir sobre alguma missão? — Greyback não entendia a ansiedade do outro.

— Para nos caçar. — Egan disse e ao ver a expressão de Greyback, continuou. — Foi Cuttler quem sugeriu, ele disse que, mais cedo, tem certeza de ter visto o amigo de Sirius, aquele Lupim, no acampamento de Blythe e, se ele esteve lá pedindo ajuda para encontrar o garoto...

— Eles não sabem onde o garoto está e, não saberão, porque só nós dois conhecemos essa localização. — Disse Greyback indiferente. — Eles podem se reunir o quanto quiserem...

— Mas, Greyback! Os homens do T e do Gun saberão algo sobre nós! Sempre é possível que eles nos ouviram falar sobre esse lugar. — Egan disse preocupado. — E, mesmo que essa clareira e a cabana estejam protegidas, eles ainda fuçarão por toda parte. Imagine, se todas as matilhas começarem a nos procurar? São milhares de lobisomens, Greyback, quanto tempo você acha que eles demorarão para sentir o nosso cheiro? Hum?

Greyback parou para pensar nisso com mais calma. Sim, considerou, os lobisomens tinham um bom olfato e audição, além de visão. O lugar em que estava era bem escondido e isolado, ficava no Condado de Yorkshire, uma floresta antiga com árvores velhas. Ele escolheu uma área mais alta e ventosa, nesta época do ano as matilhas acampavam em áreas mais quentes, vales ao Sul ou Sudoeste. No entanto, se centenas de grupos se espalhassem por todos os lados em uma busca criteriosa e intensa, bem coordenada...

— Maldito! — Greyback disse furioso. — Aquele maldito Black! Estragando os meus planos outra vez! Você deveria tê-lo matado quando teve a chance!

Egan não tentou se defender ou provocar Greyback quando ele estava tão enraivecido.

— O que faremos? — Ele perguntou em tom calmo.

Isso fez Greyback respirar fundo e pensar com mais frieza.

— Quero observar por mim mesmo e ter certeza..., talvez, eu consiga ouvir algo de útil. — Greyback disse e olhou para Adam que ouvia tudo com olhos arregalados de pavor. — Você fica aqui e olha o garoto.

— Nem pensar! Eu não sou babá, Greyback! — Egan disse e olhou para Adam com desprezo. — Amarre ele ou algo assim, eu irei com você.

Greyback pensou em discutir ou pedir um de seus homens, mas, imediatamente reconsiderou. Não queria outro lobisomem perto do seu anjinho, caso se sentissem tentados a pegar o que era dele.

— Ok. — Greyback apontou a varinha para Adam e cordas envolveram o seu peito e a árvore, o amarrando ao tronco, com o menino ainda sentado ao chão. — Não se mova, pequeno anjo, voltarei em breve.

Adam os observou aparatarem e imediatamente começou a se mover tentando se soltar das cordas, mas elas estavam muito apertadas e pareciam se apertar mais quanto mais ele se movia. Cansado e respirando pesadamente, Adam se recostou na árvore e fechou os olhos, tentando ignorar as manchas de sangue no chão... o cheiro... não queria pensar...

Soluçando, Adam abriu os olhos e os moveu por todos os lados tentando encontrar uma solução. Seus dois braços estavam presos, talvez, conseguisse soltar um deles ou os dois e mover as cordas. Foi trabalhoso, levou muito tempo e, enquanto Adam se esforçava para soltar um dos braços, o fogo lentamente se apagou e o vento se tornou mais frio. Ele estava recostado em uma árvore, sentado entre suas raízes e de frente para o penhasco, assim, a temperatura do seu corpo logo baixou perigosamente. Quando, finalmente, Adam conseguiu soltar o braço esquerdo, seu corpo tremia de frio e um grande cansaço o fazia respirar ofegante, com o corpo dolorido e a cabeça cansada.

Muito frio, pensou e muito demorado. O homem mau voltaria em breve e ele não conseguiria se soltar das cordas a tempo. Talvez, as árvores pudessem ajudá-lo e, se pedisse, elas soltariam as cordas, refletiu Adam, que tentou se conectar com a floresta mais cedo, mas não conseguiu. O medo e a ansiedade, toda a tensão, manteve sua magia agitada e sua mente confusa. Ele decidiu tentar mais uma vez e, lembrando-se de tudo o que Harry lhe ensinou, Adam fechou os olhos e respirou fundo várias vezes, até sentir sua mente vazia de pensamentos ruins e conseguir alcançar sua própria magia, que continuava agitada, pois queria muito protegê-lo. Adam nunca tinha precisado controlar a sua magia, mas percebeu, instintivamente, que isso era necessário ou nunca conseguiria a conexão.

"Lembre-se, você controla a sua magia e não ela te controla, Ayana". A voz do Harry soou em sua mente, palavras que o ouviu dizer quando ensinou a sua irmã a voar, naquele dia de verão quente e distante.

Respirando fundo, Adam tentou acalmar sua magia, controlá-la. Preciso de você, ele sussurrou mentalmente. Aos poucos ela se acalmou e um tranquilidade estranha pareceu envolvê-lo, seu rosto serenou e seu coração se desacelerou. Até mesmo o medo pareceu se distanciar e Adam suspirou aliviado, sem perceber que seu corpo tremia, sua temperatura caía e seu coração morria lentamente.

Adam estendeu sua magia para a magia das árvores e arfou quando a energia imensa se conectou a ele. Era muito maior e mais forte que a magia do bosque e Adam entendeu que essas não eram arvorezinhas, como a do seu bosque, por isso os troncos eram tão grossos e as raízes tão grandes.

"Olá, senhora árvore, poderia me ajudar". Adam sussurrou mentalmente e sentiu a magia cantarolar em acordo. Aliviado, ele voltou a dizer mentalmente, "Poderia soltar as cordas, por favor? ". A magia cantarolou negativamente e Adam suspirou, "Porque? ". A magia se agitou como se tentasse explicar e sua agitação formou palavras na mente de Adam, que a entendeu mais claramente do que nunca.

"Se correr pela floresta, o lobo o caçará, jovem e o matará. A ajuda virá em breve para salvá-lo, não tema e aguarde onde está. "

"Oh! " Adam acenou entendendo e aliviado ao saber que a ajuda viria.

"Jovem, não devo soltá-lo, mas, posso protegê-lo. "

A magia se agitou outra vez e Adam ficou confuso.

"Me proteger? Do homem mau? "

"O lobo será detido pela leoa. Mas, você está morrendo, jovem e precisa de proteção contra o frio. "

"Frio? "

Confuso, Adam abriu os olhos e percebeu a fogueira apagada. A pequena clareira de pedras cinzas estava na beira de um penhasco virado para leste e recebia o vento frio do Mar do Norte. O sol fraco de inverno, que se movia para oeste, não chegava mais até Adam, pois estava escondido pelas árvores grandiosas. Ao mesmo tempo, Adam percebeu seu corpo endurecido de frio e entendeu que estava congelando lentamente. Suspirando, o ar saiu cheio de nevoa e de maneira entrecortada. Seu corpo pequeno não tremia mais, apenas se encolhia rigidamente e Adam gemeu dolorosamente quando tentou se mexer.

"A fogueira apagou! Você pode acendê-la, senhora árvore? Está muito frio! "

"A fogueira não o salvará, jovem, seu corpo precisa ser aquecido. Enviarei o seu espirito irmão e, ele o protegerá. "

Adam não entendeu o que ela quis dizer, mas imediatamente, ouviu passos suaves vindo do meio das árvores. Temeroso, ele arregalou os olhos e, quando os passos se tornaram mais pesados e próximos, Adam teve certeza que o homem mau voltara. No entanto, um segundo depois, um grande cachorro apareceu na sua frente. Ele era enorme, alto, encorpado e bem peludo. Era uma raça diferente do filhote, que Adam pensou ser um labrador, esse tinha um monte de cores diferentes, marrom claro e escuro, patas amarelas e costas negras. Adam tinha certeza que nunca viu um cachorro tão bonito e, talvez, só não fosse tão grande quanto Almofadinhas. Seus olhos castanhos eram familiares e sua força passava segurança, Adam sentiu que não precisava mais sentir medo, pois tudo ficaria bem.

"Olá, irmão. " A voz masculina era forte e serena. "Magia me enviou para te proteger".

"Oi, senhor cachorro". Adam disse mentalmente, sem tentar falar.

"Magia me enviou, mas, eu julgo se você merece minha proteção, mesmo que sejamos espíritos irmãos. " O cachorro moveu a cabeça e o observou atentamente.

Adam não entendeu muito bem, mas sabia que o lindo cachorro não deveria ficar ali, pois não era seguro.

"Ok. Mas, você deve ir embora, cachorro bonito, não é seguro aqui. " Adam engoliu em seco ao olhar em volta e apontar para o sangue endurecido na neve rala. "O homem mau matou o filhotinho, você deve se proteger e partir antes que ele volte. " Adam fungou quando seus olhos se encheram de lágrimas e elas escorreram por seu rosto frio. "Não quero que você morra também. "

O cachorro se aproximou e era muito mais alto que Adam, que estendeu o braço esquerdo solto e acariciou seu pelo grosso e abundante.

"Eu o protegerei, irmão. Hoje, para que viva e, um dia, nos reencontraremos. "

Adam o encarou surpreso e arregalou os olhos quando o enorme cachorro se deitou contra o seu peito. Ele o protegeu do vento e apoiou o focinho em seu ombro, seu corpo grande e peludo passava o seu calor para Adam, que o abraçou com o braço esquerdo e afundou o rosto em seus pelos macios.

"Hum... quentinho, tão bom. " Adam sussurrou apreciando o delicioso calor. "Obrigado, senhor cachorro, mas, quando o homem mau voltar, você deve partir e ficar seguro. "

"Descanse, irmão, você não está mais sozinho. "

Adam apenas acenou e dormiu em segundos, embalado no calor e segurança do cachorro bonito.

No Ministério da Magia, a manhã de Fudge começou normalmente, enquanto caminhava pelo saguão em direção aos elevadores. Mas, isso não duraria muito, pois, aos poucos, ele começou a sentir que algo não estava tão normal assim, ao perceber olhares furtivos e recriminadores em sua direção.

Um pouco confuso, Fudge entrou no elevador e cumprimentou os ocupantes alegremente, como sempre, mas recebeu apenas algumas respostas curtas e constrangidas de volta. Finalmente, em seu andar, ele caminhou para a sua sala e encontrou sua secretária com o rosto enfiado entre as páginas do Profeta Diário.

— Lulu, todos estão agindo estranhamente. — Disse ele e a viu encará-lo com dois grandes olhos violetas arregaladas por de trás dos óculos tartaruga. — Você sabe o que está acontecendo?

— O senhor não leu o jornal? — Ela perguntou espantada.

— Não, minha esposa disse que ele estava atrasado... — Fudge tentou pegar o exemplar de Lulu, mas, ela o puxou para longe do seu alcance. — Ora! Lulu! Me dê o jornal!

— Talvez seja melhor o senhor não ler, Sr. Ministro. — Disse ela se levantando e se afastando para trás quando Fudge deu a volta na mesa para pegar o jornal das suas mãos.

— Que tolice. — Fudge a encurralou contra a parede e os dois iniciarem uma luta absurda pelo jornal. Lulu era mais alta que o ministro e ergueu o jornal para o alto, mudou de uma mão para a outra e, quando o Ministro deu um pulinho e, finalmente conseguiu agarrá-lo, ela se recusou a soltá-lo e eles iniciaram uma espécie de cabo de guerra com o jornal. — Mas o que... você... pensa... Solte isso imediatamente, mulher!

Ele finalmente venceu a disputa, se apropriou do jornal e entrou em sua sala se perguntando se todo mundo estava enlouquecendo. Logo na primeira página, Fudge recebeu sua resposta e soltou um grito de susto.

"SIRIUS BLACK CONTA A VERDADE SOBRE ACONTECIMENTOS DA TREVESSA DO TRANCO" Pag. 2 a 4.

"O MINITÉRIO DA MAGIA MENTE PARA A POPULAÇÃO" Pag. 5 a 7.

"MINISTRO FUDGE: INCOMPETENTE, MENTIROSO E DESUMANO". Pag. 8 a 9.

"OS LOBISOMENS: OPRIMIDOS E VÍTIMAS DAS LEIS DO MINISTÉRIO". Pag. 10 a 12.

"FAMÍLIAS ANTIGAS E SEUS CRIMES HEDIONDOS CONTRA CRIANÇAS INOCENTES". Pag. 13 a 16.

"SIRIUS BLACK PROMETE AJUDAR OS LOBISOMENS CONTRA A PERSEGUIÇÃO DO MINISTÉRIO". Pag. 17 a 18.

"SIRIUS BLACK ANUNCIA A ABERTURA DO PRIMEIRO NITGHCLUB DO MUNDO MÁGICO: A BOATE BLACK". Pag. 19 a 20.

— Lulu! — Fudge berrou histericamente, abriu o jornal na segunda página e começou a ler.

Lulu entrou carregando uma bandeja com água e chá, além de uma poção calmante, apenas por precaução, e encontrou o Ministro na metade do jornal com o rosto purpura de ódio e fúria.

— Aqui, Ministro, tome uma água e depois um chá, isso o ajudará a se acalmar. — Disse ela em tom suave.

— Eu... — A voz de Fudge saiu esganiçada e falhou, pois não havia palavras.

Lulu insistiu e, com mãos trêmulas, ele bebeu um pouco da água e do chá enquanto terminava de ler aquelas atrocidades. Seu rosto continuou ficando cada vez mais púrpura e parecia meio engasgado ou sufocado, tentando falar e não encontrando a voz ou as palavras. Quando terminou de ler tudo, estava pálido, suando frio e muito perto de desmaiar de profundo desespero. Lulu, inclinada sobre ele, começou a abaná-lo e insistir que respirasse, pois temia que o Ministro sufocasse na sua frente.

— Respire, Ministro, respire. Oh! Aposto que foi por isso que sua mulher escondeu o jornal, assim, eu teria que lidar com o senhor. Respire! — Lulu, desesperada, pegou o copo com água e o jogou em seu rosto tentando reanimá-lo. — Não ouse morrer na minha frente! Eu não quero ver testrálios! Eles são horrorosos, pelo que me disseram! Respire!

— Cornelius! — Umbridge entrou no escritório como um sapo com fogo no traseiro. — Cornelius! O Profeta, Cornelius! — Berrou ela tão alto que Fudge se levantou assustado e bateu sua cabeça na cabeça de Lulu.

— Ai! — Os dois gritaram segurando suas cabeças.

— Cornelius, mentiras infam... — Umbridge parou e, em sua confusão, seu rosto fez o bico de sapo perfeito. — Porque está todo molhado?

— Ministro... — Madame Bones entrou na sala com sua expressão mais severa. — Precisamos decidir como responderemos ao... Porque o senhor está todo molhado?

— Ele estava prestes a desmaiar e eu não sabia mais o que fazer! — Lulu disse ansiosa. Todos a encararam com olhares reprovadores e ela caiu em prantos. — Eu não sou paga para isso! — E, saiu correndo do escritório.

— Madame Bones... — Fudge usou um lenço para enxugar o rosto. — Quero que prenda esse Sirius Black imediatamente! E mande fechar o Profeta Diário!

— Isso é impossível, Ministro e o senhor sabe disso. — Madame Bones respondeu.

— Eles não podem se safar com todas essas mentiras absurdas! Tem que haver algo que a senhora possa fazer! — Berrou Fudge com o rosto se avermelhando outra vez.

— Acredito que a primeira coisa a se fazer é respiramos fundo e nos acalmarmos. — Ela respondeu em tom reprovador. — Ataques histéricos não nos levarão a lugar algum. Depois, nos sentaremos e decidiremos o que fazer, começando sobre o que dizer a imprensa.

— A imprensa? — Fudge questionou indignado. — Depois de todas essas mentiras, você ainda quer que eu dê uma entrevista a esses abutres!

— Não é com à imprensa que o senhor falará, Ministro e sim, com o público. — Madame Bones tentou explicar. — O Profeta tem apenas a função de levar as informações a população, que devem conhecer a sua versão dos fatos.

— Hem, hem. — Pigarreou Umbridge. — A senhora está insinuando que o Ministro da Magia deve se defender como se fosse um reles marginal? Ou estou entendendo errado?

— Não se trata de se defender, como se fosse um ataque pessoal e sim, explicar as ações do Ministério...

— Mas, é um ataque pessoal! — Berrou Fudge furioso. — Black me chama de mentiroso, incompetente, fraco, desumano!

— Ele deveria ser preso por tais ataques caluniosos! — Umbridge disse zangada. — E por ousar acreditar que pode defender aquelas bestas...

— Não só ele pode, como um bom advogado e o testemunho do Sr. Black, manterão os lobisomens presos por muito pouco tempo. — Disse Bones com frieza. — E, Black não pode ser preso, porque todos temos a liberdade de nos expressar, portanto, dizer o que ele disse na entrevista, não é crime.

— Como!? — Fudge questionou em fúria. — Como, ele levantar todas essas calúnias sobre mim, o chefe supremo desse país, pode não ser crime!?

— Ministro, o senhor não é o chefe supremo e é comum um político ser criticado por suas ações, pois nem sempre, todos concordam com elas. — Bones disse em tom professoral. — Não é crime criticar uma figura pública ou suas ações. Claro, inventar histórias mentirosas, sem provas, poderia levar a um processo civil por calúnia e difamação...

— Então! — Interrompeu Fudge como um menino mimado. — Foi exatamente o que aquele... sacripanta fez! Inventou mentiras absurdas sobre minha pessoa!

— Sr. Ministro, o senhor deve se acalmar e reler o que foi dito pelo Sr. Black. — Bones disse irritada. — Ele não inventou nada, apenas deu o seu testemunho do que observou e sua interpretação dos fatos. Opinar não é crime neste país.

— Bem, pois então devemos mudar isso! — Fudge disse e bateu o pé furiosamente. — Exijo que todos sejam proibidos de me criticar publicamente e que o Profeta ou as rádios não possam falar mal de mim ou de minhas ações.

— Isso é impossível...

— Hem, hem. — Interrompeu Umbridge com uma expressão irônica. — Parece que a senhora, como Chefe do Departamento de Leis, não quer ajudar o nosso Comandante Supremo a se proteger contra essas injustas ofensas, Madame Bones. Ou talvez concorde com elas.

— Madame Bones! — Fudge protestou chocado.

— Como eu estava dizendo, antes de ser interrompida. — Madame Bones olhou para os dois com extrema frieza e eles desviaram os olhares. — É impossível fazer o que o senhor quer, porque vivemos em uma democracia e, portanto, nossa imprensa e o povo são livres. A liberdade de expressão é uma das ferramentas mais imprescindíveis de um povo livre, liderado por um governo justo e democrático. Assim, isso que me pede é impossível, mas, o senhor já sabe disso, Ministro, portanto, o que devemos fazer é nos sentar e pensar como defenderemos o Ministério dessas graves acusações.

— O Ministério? Mas, e quanto a mim? Eu sou o Ministério! E não serei reeleito no ano que vem se permitir que esses tipos de calúnias sejam divulgados, Madame Bones. — Fudge disse chateado.

— E, é por isso que precisamos fazer uma declaração refutando e justificando as decisões que o senhor tomou em relação aos acontecimentos da Travessa do Tranco. — Madame Bones disse impaciente. — E, não se engane Ministro, o senhor não é o cargo que ocupa, ou seja, não é o Ministério ou Comandante Supremo, assim, precisamos defender o Ministério e nossas ações. Defendê-lo, é uma consequência disso, entende?

— Sim, sim, claro. — Fudge disse falsamente. — Vamos fazer uma declaração e dizer toda a verdade, Madame Bones. Diremos que Sirius Black é um mentiroso e sua presença na Travessa foi...

— Ministro Fudge! — Madame Bones o interrompeu furiosa. — Isso é confidencial! E, nem o senhor ou qualquer um falará sobre isso a ninguém, muito menos a imprensa! Entendeu?

Seu tom foi tão severo e duro que Fudge empalideceu meio amedrontado e acenou rapidamente.

— Desculpe, Madame Bones, eu tinha me esquecido. — Ele enxugou o suor do rosto com o lenço úmido. — Apenas estou tão desesperado com tudo o que foi escrito sobre mim e o que o povo deve estar pensado. O que faremos?

— Acredito que devemos nos acalmar, reler com atenção toda a entrevista e decidir se faremos uma coletiva, uma entrevista ou uma declaração. E, claro, o que diremos, como refutaremos e explicaremos cada declaração dada pelo Sr. Black. — Madame Bones disse seriamente. — Acredito que devemos ter o apoio de Scrimgeour, King e Moody, pois não podemos errar no tom ou nas palavras, muito menos divulgar informações confidenciais.

— Sim, isso me parece uma boa ideia. — Fudge disse suspirando.

— Creio que seria bom se eu participasse dessa reunião, querido Cornelius, assim, posso lhe auxiliar a encontrar as palavras certas. — Se insinuou Umbridge. — Além disso, devemos tentar encontrar uma maneira de impedir Black de ajudar os lobisomens e, como a autora do projeto de lei Anti-Lobisomem...

— Isso não é possível, Madame Umbridge. — Madame Bones a cortou com frieza. — A senhora não tem nível de acesso para essa reunião, que tratará de assuntos sigilosos. Além disso, não cabe a senhora se envolver com questões jurídicas referentes as prisões feitas no dia 13 de fevereiro, portanto, sugiro que se atenha ao que lhe concerne.

Umbridge fez uma careta sapoíde e pareceu engolir um gordo sapo antes de acenar rigidamente e concordar com Madame Bones.

— Muito bem. — Ela disse com rispidez.

— Ministro, convocarei os citados para a sala de reuniões, o que me diz de, em uma hora, darmos início? — Madame Bones sugeriu e Fudge acenou meio desconcertado e receoso demais para contrariá-la. — Ok, nos vemos, então.

Fudge e Umbridge ficaram a sós e relaxaram visivelmente depois da saída da mulher intimidadora.

— Estou perdido, Dolores, completamente perdido. — Fudge se afundou em sua cadeira derrotado.

— Ministro, se me permite, tenho uma ideia diferente sobre como podemos abordar toda essa questão da imprensa e nos livrarmos dos críticos de uma vez por todas. — Disse Umbridge com um sorriso malicioso.

— Uma ideia? — Fudge levantou os olhos esperançoso.

— Enquanto Bones estava falando sobre a liberdade da imprensa e que o senhor não pode proibir o Profeta de publicar críticas contra a sua pessoa ou contra o Ministério, me ocorreu que não precisamos proibir e sim, influenciar. — Umbridge disse com um sorriso açucarado.

— O que? — Fudge mostrou sua expressão mais apalermada.

— Influenciar, Cornelius. O senhor conhece e é amigo do dono do Profeta, o Sr. Birdwhistle, certo? — Ela sussurrou suavemente.

— Sim... bem, não somos grandes amigos, exatamente. Eu diria que conhecidos amigáveis e respeitosos. — Fudge disse lentamente. — Sr. Birdwhistle tem uma das maiores fortunas do mundo mágico. Além do Profeta, ele é dono das revistas Qual Vassoura, Witch Weekly e de uma emissora de rádio.

— E uma figura frequente nas festas e bailes da alta sociedade, além de receber com muita frequência em sua mansão em Londres. Sua esposa é uma das mulheres mais elegantes e importantes da nossa sociedade, tudo o que ela faz ou diz ou veste, é imitado pelas outras. — Umbridge disse sem esconder a inveja e amargura por não fazer parte desse grupo. — Acredito que, o que o senhor deve fazer é se aproximar do Sr. Birdwhistle e convencê-lo de que o melhor para ele, é escrever o que o senhor quer. Afinal, Cornelius, você é o Ministro e tem grande influência.

— Isso me parece uma grande ideia! — Fudge disse com os olhos brilhantes. — Mas, Conan quererá algo em troca, Dolores, o que devo oferecer para ele?

— O que ele quiser, Cornelius. — Umbridge disse objetiva. — Pagar menos impostos, um maior número de entrevistas e declarações... Talvez, autorização para que um repórter possa acompanhar algumas audiências da Suprema Corte. Bem, não sei, o que o Sr. Birdwhistle possa considerar mais vantajoso.

— Sim, sim, eu posso fazer isso. — Fudge caminhou pelo escritório ansiosamente. — Eu posso dar quantas entrevistas ele quiser e isso aumentará suas vendas, afinal, todo mundo quer saber o que o Ministro tem a dizer! Isso será bom para aumentar a minha popularidade também. E, politicamente, Conan tem interesse que eu permaneça no cargo, pois ele apoia o Partido Conservador. — Ele agora tinha um grande sorriso. — Dolores! Isso é um plano brilhante! Devemos colocá-lo em prática imediatamente!

— E a reunião com Bones? — Umbridge perguntou, muito feliz com suas palavras elogiosas.

— Oh! Sim, verdade. — Fudge ficou pensativo por alguns segundos. — Entre em contato com Conan Birdwhistle, Dolores, marque um almoço com ele, em sua casa ou aqui mesmo em meu escritório. Diga que é de seu interesse e muito urgente. Não devo pedir a Lulu, ela bagunçará tudo, assim, só me resta você, Dolores.

— Eu farei isso com prazer, Cornelius, marcarei para às 13 horas, caso sua reunião se estenda por muito tempo. — Dolores disse solícita.

— Não sei o que faria sem você, minha querida Dolores. — Fudge disse sorridente. — Preciso me preparar para a reunião, reler essa entrevista mentirosa e absurda, mas, estou bem mais calmo, pois sei que esse plano dará certo. Obrigado, Dolores.

— De nada, Cornelius. — Disse Umbridge em tom açucarado e com as bochechas rosadas.

Depois que ela saiu do escritório, Fudge voltou a se sentar, com a certeza de que seu plano teria sucesso e que ninguém o tiraria daquela cadeira.

Em outro ponto da Inglaterra, mais precisamente em Wiltshire, a agradável manhã também terminou com a leitura do Profeta Diário. Lucius Malfoy, à cabeceira da grande mesa, leu a entrevista bombástica de Sirius Black, ao lado de sua esposa, que enviou um dos elfos em busca de outro exemplar para que ela pudesse ler sem demora.

Por mais de 15 minutos, o chá esfriou, a comida ficou esquecida e o silêncio predominou na imensa sala de jantar. Um silêncio que se moveu de estupefato, para sombrio e furioso durante o tempo em que os dois leram todas as 20 páginas. Por fim, Lucius se levantou e jogou toda a louça de porcelana no chão, com a comida, toalha e vasos de flores. Seu acesso de fúria o fez pegar um vaso extra, que estava sobre uma prateleira lateral, e jogá-lo contra a parede.

Respirando pesadamente, ele ajeitou o cabelo que se desarrumara e olhou para a esposa, que continuava lendo o jornal com sua sempre presente passividade.

— Terminou? — Ele perguntou irritado, pois, às vezes, o seu sangue frio era difícil de aturar.

— Eu que lhe pergunto. — Disse ela com frieza e deixou o jornal ao lado quando o encarou. — Terminou com sua birra deselegante?

— Você terminou de ler tudo o que aquele seu primo maldito disse? — Ele ignorou a provocação ao repetir a questão.

— Sim, apenas me detive na parte final, quando ele anuncia com tanta alegria a abertura desse tal nightclub. — Disse ela serenamente ao se levantar. — Um nome interessante, não é mesmo?

— Cissy... — Malfoy disse em tom de aviso e, ao mesmo tempo de súplica, mas ela o interrompeu levantando a mão.

— Dobby! — Disse firme e o pequeno elfo aparatou imediatamente com os olhos arregalados de medo ao estar na presença do seu mestre quando ele estava com tanta raiva. — Limpe toda essa bagunça, concerte a minha louça e colha mais flores nas estufas.

— Sim, mestra. — Dobby se inclinou servilmente e começou a trabalhar.

— Vamos conversar no escritório. — Sugeriu Narcisa delicadamente.

Lucius a seguiu tentando pensar em uma maneira de acalmá-la e, ao mesmo tempo, resolver toda essa maldita bagunça. Quando a porta do escritório se fechou, ele tomou a iniciativa.

— Cissy, lamento profundamente o que minhas ações causaram indiretamente, mas tenho certeza que se nós dois nos unirmos, encontraremos uma solução. — Ele disse em tom persuasivo, mas sua esposa nem piscou.

— Boate Black... — Ela disse em tom sereno. — Sim, me parece um nome adorável, ainda que, provavelmente essa tal boate será uma vergonha para um verdadeiro Black.

— Com certeza. — Lucius concordou, ainda que estivesse pouco interessado nessa tolice. — Seus pais, tios e avós, morreriam de vergonha por Sirius manchar desta maneira o nome da sua Família.

— Minha Família. — Narcisa disse pensativa. — Você sabe que a Família Black é uma das mais antigas do mundo mágico, cuja linha ainda se mantem viva? Somos quase tão antigos quanto os Peverell e Slytherin, e mais antigos do que os Potter e Gryffindor.

— Eu sei disso, Cissy. — Lucius disse em tom impaciente.

— Você diz que devemos nos unir e encontrar uma solução, Lucius, mas, a duas semanas, você se enredou em um plano absurdo, fez acordos com lobisomens asquerosos e, em nenhum momento, pediu a minha opinião ou ajuda. — Narcisa disse com dureza, mas sem levantar a voz. — E, quando lhe disse da temeridade do seu plano, você mentiu para mim e me ignorou.

— Cissy...

— E, agora, em retaliação por seus erros estúpidos, eu e meu filho perderemos o amparo do nome Black! — Ela exclamou verdadeiramente furiosa. — Teremos que enfrentar a vergonha de sermos expulsos, descartados como lixo!

— Narcisa, podemos reverter isso, precisamos encontrar...

— Cale-se! — Narcisa disse em tom mais alto que o habitual, depois respirou fundo e seu rosto voltou a frieza de sempre. — Está tentando apenas aplacar a minha raiva, não meu julgue por uma tola, Lucius. — Ele não respondeu, porque não havia o que dizer. — Não existe solução para isso, você tentou matá-lo e, não apenas falhou miseravelmente, como se deixou ser identificado. Sirius praticamente deixou explícito que você é comensal da morte que tentou assassiná-lo! E deixa implícito que você está sendo investigado pelos aurores.

— Isso é impossível. — Lucius respondeu arrogantemente. — Eu ainda tenho contatos e sou amigo do Ministro, se estivesse sendo investigado, já teria sido informado ou Fudge empurraria para baixo do tapete.

— Tem certeza disso? — Ela perguntou ironicamente. — Como tinha que seu brilhante plano terminaria com Sirius morto e nós dois no controle da fortuna Black?

— Era um bom plano! — Lucius gritou defensivamente.

— Seu tolo! Você se envolveu com a corja da sarjeta! Se arriscou a dever a eles quando não tinha intenção de pagar! Greyback não é conhecido por ser um monstro vingativo por nada! — Ela disse friamente. — Pior! Foi traído e esteve muito perto de ser morto naquela Travessa! Se não fosse o erro de Sirius...

— Eu tinha certeza que ele estava morto! — Lucius exclamou. — Egan o atravessou com a espada!

— Egan! Lucius! Todd Egan! — Narcisa disse desapontada.

— Eu não sabia que ele era um dos sócios de Greyback, acredite, me surpreendi também. — Lucius disse levemente envergonhado.

— Aposto que ele planejava matar você, independente do Sirius aceitar ou não a proposta. Ele o odeia. — Narcisa disse cansadamente.

— Egan ou Greyback não me preocupam, eles não cumpriram a sua parte no acordo, não tem porque quererem nada comigo. — Lucius disse e ao ver seu olhar incrédulo acrescentou. — Todd teve todos esses anos para retaliar e não fez nada, sempre foi um preguiçoso e mulherengo, aposto que tentará ganhar dinheiro de alguma outra maneira para manter a sua boa vida.

— Bom, então, os lobisomens não te preocupam, as possíveis investigações não são um problema, em sua opinião, elas nem existem. — Narcisa enumerou friamente. — Isso quer dizer que a única consequência desse grande fiasco é a desonra que meu filho e eu viveremos por sermos expulsos da Família Black. Incrível! Seremos Draco e eu que sofremos por seus erros!

— Isso não é verdade! — Lucius disse com veemência. — Eu estarei ao lado de vocês dois e também viverei essa vergonha, pior, o dinheiro da sua herança como uma Black, deixará de vir para nós.

— O que? — Narcisa ficou meio pálida.

— Sim, Cissy e é por isso que temos que pensar em algo que possa reverter isso. — Lucius disse preocupado. — Eu perdi todos os negócios da Travessa e não consegui vender os prédios que foram desapropriados pelo Ministério. Não recebo mais o dinheiro que desviava do Conselho de Governadores ou das Fábricas Blacks. Agora, com você sendo expulsa da Família, a porcentagem anual a qual tem direito, cessará.

— Isso era tanto assim? — Narcisa disse tensa.

— Uma pequena fortuna, todos os anos. — Lucius disse irritado. — Os negócios da sua família são incrivelmente lucrativos, pois fabricam produtos finos e de alto padrão para os mais ricos bruxos do Reino Unido. E, esse dinheiro, junto com o resto que mencionei, era o que nos permitia ter uma vida com tantos luxos e privilégios, Cissy.

— Mas... você deve ter outros negócios, certo? E, nosso cofre está cheio de galeões. — Ela disse meio desconcertada por falar ou se preocupar com dinheiro, nunca, em toda a sua vida, isso acontecera.

— Tenho alguns negócios legítimos, nada muito rendoso ou que cubram os nossos gostos caros. — Lucius disse e caminhou pelo escritório. — Temos alguns milhões de galeões em nossos cofres, claro, mas, nada que não possa desaparecer em poucos anos, se não cortarmos alguns luxos. Pior, eu pago propina para muitos informantes, dentre eles, o Ministro, apenas esses gastos poderiam nos levar a falência.

— Merlin... O que você fez, Lucius? — Narcisa perguntou verdadeiramente abalada. — Você poderia ter vendido os prédios por uma fortuna ao meu primo, poderia ter recomeçado os bordéis em outro lugar e ainda teríamos a minha herança entrando todos os anos. Você jogou tudo fora! E, porquê? Para quê!? Por uma birra tola contra o meu primo!

— Chega! — Lucius gritou furioso. — Chega de me contestar! De me recriminar! De menosprezar minhas ações! Eu sou o seu marido! Sou o senhor desta casa! E quero que se cale e se coloque em seu lugar!

Ele se posicionou bem diante dela e impôs sua altura de maneira intimidante. Narcisa o encarou com frieza e queixo erguido, depois, baixou o rosto submissamente e encarou o tapete.

— Como queira, meu marido, acatarei o seu desejo. — Ela disse em tom passivo. — Me calarei e a meus pensamentos, o deixarei como quer estar e esperarei em meu lugar enquanto resolve tudo. Com licença, sei que deseja estar sozinho.

Narcisa deixou o escritório com passos suaves e subiu ao seu quarto. Ela caminhou pensativa e observou o jardim pela janela, refletindo sobre tudo o que aprendera e entendera. Lucius tentaria encontrar uma solução, mas, Narcisa sabia que só havia uma coisa a fazer.

Sentando-se em sua escrivaninha, ela pegou pena, pergaminho e iniciou a carta mais difícil que escrevera em muitos e muitos anos.

Trepado quase no topo de uma árvore, Greyback observou a estranha movimentação da matilha de Elfort e tentou ouvir o que diziam, mas, eles falavam em sussurros e a distância era muito grande.

— Preciso me aproximar mais... — Ele disse para Egan, que estava no chão, recostado preguiçosamente contra o tronco da árvore.

— Você corre o risco de eles te cheirarem mesmo estando contra o vento, afinal, eles são lobisomens, Greyback. — Egan o alertou.

— Maldição! — Greyback sussurrou furioso e observou quando um pequeno grupo de lobisomens chegou pelas árvores sem alertarem os aurores. Como eles se desviavam dos aurores com tanta precisão?

Os quatro lobisomens foram até Elfort que parecia ansioso por notícias. As palavras chegaram como impressões trazidas pelo vento.

... ajudaremos... o menino... Black prometeu... unidos... grande reunião... promessas... informações...

Quando o grupo partiu, Elfort reuniu dois de seus garotos e deixou o acampamento junto com eles.

— Elfort acabou de sair com dois homens. — Greyback disse e saltou no chão.

— Verdade? Isso é ainda mais incomum, se o Alfa deixou a matilha, foi para uma missão importante. — Egan disse pensativo. — Conseguiu ouvir algo útil?

— Apenas palavras soltas, que me fazem pensar que... — Greyback se interrompeu contrariado.

— O que?

— Não, não deve ser isso. O melhor jeito de descobrirmos o que está acontecendo é encontrando algum infeliz e o forçando a falar. — Greyback disse com um olhar cruel. — Vamos.

Os dois caminharam silenciosamente até se depararem com um lobisomem caçando sozinho, apesar das recomendações. Era um garoto jovem, 17 ou 18 anos, que empalideceu quando os viu.

— Hum, vejo que tem bons instintos, garoto. — Greyback disse quando o rodeou. — Não fugirá, pois sabe que o caçarei e estará bem morto em segundos. Também não se negará a dizer o que quero saber ou, então, o torturarei até que implore por sua morte. E, se me disser tudo o que preciso, posso até lhe recompensar, garoto.

— Dispenso as suas recompensas. — O garoto o enfrentou lhe encarando com desprezo. — E, pode me matar ou torturar que não lhe direi nada. Você está acabado, Greyback.

Egan riu divertido e encostou a ponta da sua espada em seu coração.

— O garoto parece que tem uma personalidade suicida, Greyback. — Ele disse debochadamente, mas Greyback não riu, pois, nunca fora desafiado desta maneira pelos outros lobisomens, que tremiam de pavor a sua presença.

— O que está acontecendo, garoto? Porque as matilhas estão se movimentando? Se visitando? Para onde o seu Alfa foi? — Greyback perguntou em tom ameaçador.

O garoto engoliu em seco, mas não disse nada e pareceu se resignar com a própria morte.

— Porque não o levamos e o torturamos? — Egan disse com malícia. — Aposto que em uma hora, conseguimos que ele fale tudo.

— Você não quer isso, não é mesmo? Como é o seu nome? — Greyback perguntou em tom suave, mas pareceu ainda mais assustador em sua tentativa de ser gentil.

No entanto, quando Greyback se aproximou, afastou a espada de Egan, tentando parecer menos ameaçador e o garoto, Robbie, se aproveitou da oportunidade e disparou em uma corrida na direção do acampamento.

— Garoto estúpido. — Disse Egan antes de disparar atrás dele, Greyback se moveu ainda mais rápido e foi pela direita para poder cercá-lo.

Robbie sabia que tinha apenas uma chance e decidiu usá-la.

— Greyback! Greyback está aqui! Greyback! — Seus gritos ecoaram alto pela floresta e chegaram ao acampamento facilmente, mais importante, os lobisomens extras que protegiam o perímetro da clareira e os aurores ouviram, até o dorminhoco acordou e todos correram na direção dos gritos.

Em poucos minutos, dezenas de lobisomens corriam na direção dos três e Robbie se esforçava para correr mais rápido e não ser alcançado. Apesar de jovem, ele sabia que se o levassem por aparatação, seria seu fim.

— Socorro! Greyback! Ajuda! — Ele gritou mais alto e quase chorou de alívio quando seus companheiros de matilha surgiram entre as árvores e o cercaram.

O mais velho deles apontou sua varinha para Greyback e Egan, que perceberam que estavam em desvantagem numérica significativa.

— Você não quer arrumar problemas comigo, Sheridan. — Greyback disse ameaçador.

— Não? — Sheridan engoliu o medo e olhou para os seus companheiros que acenaram em apoio. — E como você pretende derrotar todos nós juntos? — Os sons dos aurores, que eram mais lentos, correndo na direção deles, ficou mais alto. — E, os aurores que estão chegando? Sugiro que vá e nos deixe em paz, porque se tentar prejudicar apenas um de nós, todos lutaremos contra você, Greyback.

Greyback hesitou e isso foi o tempo que os aurores precisaram para se aproximar mais e, ao verem dois fugitivos da justiça, um deles foi esperto o suficiente para lançar a ala anti aparatação.

— Vocês estão presos, Fenrir Greyback e Todd Egan! Soltem suas varinhas e entreguem-se! — Gritou o auror esperto.

— Tentem me alcançar! — Greyback disse e disparou em fuga, com Egan seguindo em outra direção.

Dividir-se era a atitude mais inteligente, pois, assim, os aurores também se separariam, mas, o que eles não esperavam, era que os lobisomens da matilha de Elfort decidiriam por caçá-los também.

— Aposto que pegamos Egan e o convencemos a dizer onde está o menino Boot. — Um deles disse ansioso.

— Se matarmos Greyback, ele não morderá mais ninguém. — Outro disse com sede de vingança.

Sheridan hesitou apenas um segundo antes de acenar e separar o grupo. Em pouco tempo, Greyback se viu caçado por dois aurores e duas dezenas de lobisomens sedentos por matá-lo. E, Egan se viu com o mesmo problema, apenas, ele era mais lento e, rapidamente a sua situação piorou. O auror dorminhoco era muito mais lento que os lobisomens, que avançaram em uma formação em Y para cercá-lo e, em poucos quilômetros de corrida, Egan se viu preso em um círculo de bruxos lobisomens ferozes.

— Diga onde está o menino! — Um deles disse o encarando ferozmente, mesmo sem uma varinha.

Egan ergueu sua varinha pronto para lutar e sair daquele inferno.

— Vocês não conseguirão me pegar e matarei quem tentar, assim, desistam. — Ele disse suavemente. — Ao contrário de vocês, eu não me importo de usar a maldição da morte.

— Sim, mas, você não pode acertar todos ao mesmo tempo. — Disse um dos lobisomens, que saltou sobre Egan.

Ele tentou cumprir a sua ameaça de matá-lo, mas, outro lobisomem, a suas costas, lhe lançou um Incarcerous, as cordas o prenderam das coxas até o peito, pressionando seu braço esquerdo contra o corpo. No instante seguinte, o lobisomem que saltara, o derrubou no chão com um baque que o fez perder o ar e sua varinha voou para longe.

— Agora, você dirá onde está o menino, se não quiser que arranquemos os seus olhos. — Disse ele em tom ameaçador.

— Vamos levá-lo conosco, Elfort gostará de interrogá-lo. — Disse o lobisomem que lançou o feitiço.

Eles o levantaram do chão e começaram a arrastá-lo de volta para o acampamento quando o auror dorminhoco apareceu ofegante e de varinha em riste.

— O que pensam que estão fazendo? — Ele perguntou com voz fraca.

— Levando-o de volta ao acampamento. — Disse um deles. — Ele tem informações que precisamos para salvar alguém que foi sequestrado.

— Besteira. — Disse o dorminhoco respirando melhor. — Estão querendo ajudá-lo a fugir.

— Se quiséssemos fazer isso, não o teríamos perseguido porque, com certeza, você nunca alcançaria. — Respondeu o lobisomem ironicamente.

— Vocês irão entregá-lo para mim, ele é um dos procurados pelo Departamento por envolvimento no que aconteceu na Travessa e, pegá-lo, me ajudará a subir na hierarquia. — Disse o auror com os olhos brilhando de ambição.

— Você pode levá-lo, depois que o nosso Alfa o interrogar e obtiver a localização do menino sequestrado. — Disse o lobisomem firme.

— Não tem menino sequestrado nenhum, seus animais! Eu sou um auror e saberia se houvesse, não vocês! — Disse o auror irritado. — Se não o entregarem, teremos que lutar e, se atacarem um auror, estarão ferrados, pois lhes garanto que voltarei aqui com um esquadrão e enviarei todos vocês para Azkaban em um piscar de olhos.

Isso fez os lobisomens hesitarem, pois sabiam que a ameaça era bem verdadeira e possível. O auror assumiu a hesitação como concordância e se adiantou, puxando Egan pela manga do casaco para o seu lado. E, teve a brilhante ideia de soltá-lo das cordas e prendê-lo com as algemas mágicas que os aurores são ensinados a usar no treinamento. Era o protocolo e Egan estava desarmado, o que lhe deu confiança, mas, inesperadamente, todos sentiram as alas anti aparatação caírem. Isso só podia significar duas coisas, Greyback foi capturado ou o auror que lançou as alas estava morto. Enquanto o lento e dorminhoco auror refletia sobre o que poderia ter acontecido, Egan entendeu muito bem e lhe deu uma cotovelada violenta no estômago se soltando do seu aperto. Os lobisomens saltaram para agarrá-lo, mas, no momento seguinte, Egan aparatou para bem longe.

— Não! — O lobisomem que saltara em Egan, ergueu o auror do chão e o chocalhou furioso. — Seu imbecil! Ele era a melhor chance de salvar o menino!

— Não tem menino sequestrado...

— Tem sim! Greyback o levou! — Ele disse soltando o idiota. — Está querendo subir na hierarquia! Espero que esteja preparado para descer, pois contaremos isso para o Moody, vamos ver o que ele fala.

— Moody não acreditará em um bando de bestas imundas! — Disse o dorminhoco, apesar de sentir as estranhas se revirarem de apreensão. — E, se Greyback roubou uma das suas crianças, espero que ele a mate, um animal a menos para me preocupar.

As palavras cruéis irritaram os lobisomens, mas o homem mais velho, que o sacudira, levantou a mão impedindo que os outros avançassem sobre o dorminhoco.

— Ele não vale a pena, rapazes. — Ele disse com desprezo. — Depois de dizer algo assim, podemos ver quem realmente é o animal aqui.

Eles se afastaram na direção do acampamento e deixaram o dorminhoco sozinho.

No outro ponto da floresta, Greyback se mantinha a frente dos seus perseguidores, mas os lobisomens se aproximavam e se moviam a sua direita e esquerda com a intenção de interceptá-lo. Sua intenção era correr até deixar a ala anti aparatação, mas, o auror era experiente e, correndo razoavelmente perto, movia a ala com ele para que Greyback não conseguisse escapar.

Quando Greyback percebeu a situação, sua mente formulou rapidamente um plano, pois não vivera e matara livremente por tantos anos sem um instinto natural e cruel de sobrevivência. Em um salto, ele escalou uma árvore até os galhos mais altos e esperou.

Em poucos segundos, o grupo de lobisomens cercaram Greyback e, aqueles que a tinham, apontaram suas varinhas para o alto.

— Desista, Greyback. — Sheridan disse. — Você não tem para onde correr e está em grande desvantagem.

— Ok. Eu me entregarei para os aurores. — Greyback disse tentando ganhar tempo.

— Não! — Outro lobisomem falou corajosamente. — Chegou a hora de acabar com você de uma vez! E vingar todos aqueles que você matou e infectou!

— Não teremos mais medo de você, Greyback, sabe porquê? — Sheridan questionou se preparando para saltar e rasgar seu algoz.

— Porque são tolos! — Greyback disse possesso por esse atrevimento. — E pagarão caro por ousarem!

— Não. É porque percebemos que somos a maioria e você um só! — Sheridan saltou e Greyback se desviou para outra árvore, mas, outro lobisomem saltou e lhe deu um tranco tão forte que o enviou até outra árvore, onde Greyback bateu no tronco violentamente. Lascas do tronco voaram em todas as direções e Greyback saltou para um galho mais alto tentando recuperar o fôlego. — E, estamos cansados de temê-lo!

— Se me matarem, o garoto morre. — Disse Greyback ao avaliá-los atentamente e perceber que eles não tinham hesitação em suas intenções de matá-lo.

— Tenho certeza que Egan abrirá o bico, assim que o colocarmos diante do Alfa. — Disse Sheridan se preparando para outro ataque.

— Parem! — O auror que colocou a ala anti aparatação finalmente chegou e se colocou à frente dos lobisomens. — Seja o que for isso, parem imediatamente. Entregue-se, Greyback, ninguém morrerá hoje.

— Você está errado. — Greyback disse sorrindo e se deixou cair do galho em direção do chão, como se estivesse desistindo, mas, apontou sua varinha para o auror e gritou. — Avada Kedrava!

O raio verde brilhante voou rapidamente e ninguém teve reação ou compreenderam totalmente o que estava acontecendo, até o auror cair morto, a ala se desfazer e Greyback aparatar, antes de terminar sua queda e atingir o chão.

Em segundos, tudo mudou e todos ficaram paralisados pelo choque, inclusive o seu colega auror, que estava chegando a cena.

— Gawain! — O auror gritou ao correr até o colega. — Merda! — Ele puxou os cabelos desesperado ao ver os olhos vazios e mortos de Gawain Robards.

Greyback aparatou algumas vezes antes de ir para o Chalé de Egan. Poucos segundos depois, o próprio chegou e suspirou aliviado.

— Obrigado. A ala caiu na hora certa. — Egan disse e foi até o bar se servir de um scotch escocês caríssimo, que bebeu de uma vez. — Filhos da puta! Essa foi por pouco, cara e ainda perdi minha varinha. — Greyback não respondeu, olhando pensativamente pela janela. — Quer um pouco? Acalma o coração, amigo.

— Não. — Greyback disse desinteressado. — Estou calmo, preciso estar para decidir o que devo fazer.

— O que foi aquilo? Eles sempre cagaram de medo de você e, de repente, se sentiram corajosos para tentar te matar e eu ainda entrei na conta. — Egan disse sentando-se em uma poltrona confortável com mais uma dose da sua bebida favorita.

— Eles se sentem corajosos porque são maioria. — Greyback disse. — Isso nunca tinha acontecido antes e algo deve ter mudado.

— O que? — Egan questionou curioso.

— Não sei. — Greyback caminhou até uma escrivaninha onde pegou pena e pergaminho. — Não sei o que ou como, mas algo está acontecendo nas matilhas. Alguém está conseguindo uni-los como nunca antes aconteceu e eles decidiram se reunir contra mim. Estão planejando me destruir...

— Dever ser isso toda essa movimentação! — Egan disse de olhos arregalados. — Foi o que Cuttler sugeriu, eles devem estar seguindo Black, talvez, ou simplesmente decidiram ajudar a salvar o garoto. Mas porque fariam isso do nada? E de graça?

— Não sei e são muitas coisas que não sei. Pior, o que eu ouvi sobre uma grande reunião em breve ou algo assim, aposto que estão planejando fazer o que você disse. Varrer o país em minha procura para salvar o garoto. — Greyback disse e dobrou a carta.

— Eu concordo. — Egan disse pensativo. — Sirius foi inteligente, ao em vez de chamar os aurores, ele chamou os lobisomens. Não me surpreende, cara, meu primo sempre foi muito esperto, para um Gryffindor, claro, e já lhe avisei para não o subestimar, Greyback. Para quem a carta? — Perguntou Egan ao vê-lo amarrar a carta na perna de Orfeu, sua coruja.

— Black. — Greyback abriu a janela e enviou a coruja orientando-a. — Viaje rápido e espere a resposta. — Depois fechou a janela e se sentou em uma das poltronas. — Não esperarei esses malditos me encontrarem. Queria que Black e os Boots sofressem por mais um tempo, mas, o melhor é acabar logo com isso. Depois que seu primo estiver bem morto, lido com as matilhas.

— Como fará isso? Porque a verdade é que eles são a maioria, amigo. — Egan disse saboreando um gole de sua rica bebida.

— Mas, eu posso mudar isso facilmente. — Greyback disse com um sorriso malicioso. — Nós podemos, aliás.

— Nós? — Egan ergueu as sobrancelhas curioso.

— Sim, seu pequeno grupo está bem desfalcado e precisará de mais homens. — Greyback disse lentamente. — E, talvez, eu também precise que alguns homens leais a mim.

— Pensei que não tivesse interesse em ser o Alfa de uma matilha. — Observou Egan curioso.

— Matilha não, apenas um grupo, como o seu e o de T, uma gangue. Para isso, temos que encontrar alguns bruxos sacanas, desonestos e mordê-los na lua cheia. — Greyback disse com um sorriso maldoso. — Depois que tivermos um grupo decente, atacaremos as matilhas. Sim, isso será divertido e, aposto que depois de matarmos algumas centenas deles, o resto ficará bem quietinho em seus lugares.

— Hum... isso realmente parece divertido. Eu estou dentro. — Egan disse com um brilho no olhar. — Talvez, depois, possamos realizar a minha vingança?

— Os Egan? — Greyback perguntou curioso.

— É sempre bom começar pela família, suponho, mas depois, alguns amigos antigos e queridos. — Egan sorriu malicioso.

— Bom, vou adorar quebrar a arrogância de Malfoy. — Greyback se levantou. — Irei caçar antes de verificar o garoto, ele é muito tentador. Depois, esperarei a resposta de Black em outro lugar, apenas no caso de ele tentar me localizar pela carta.

— Boa ideia, não o subestime. — Egan disse sorrindo. — Sugiro que leve a edição de hoje do Profeta com você, uma leitura bem única, que lhe interessará, meu amigo.

Greyback acenou e pegou o jornal, antes de aparatar. Depois de caçar e se alimentar, ele voltou para a clareira na beira do penhasco e percebeu o fogo apagado. Rapidamente, Greyback se aproximou do menino dormindo, temendo que estivesse morto, mas, o coração batendo lhe aliviou da preocupação. Ainda assim, ele acendeu rapidamente a fogueira, pois o garoto deveria estar com muito frio. Com o fogo alto e forte, Greyback se aproximou e tocou Adam, confuso ao encontrar o seu corpo quente e não frio como esperava. Pensativo, supôs que o garoto fez magia acidental para se manter aquecido.

Decidiu não o acordar e sim, se posicionar mais perto de St. Albans para esperar a resposta de Black. Ele aparatou em outra clareira, na floresta que cercava a Abadia Boot e se sentou para ler o que havia de tão único e interessante no Profeta Diário.

Em St. Albans, o dia se moveu lentamente, com Serafina e Falc vivenciando suas angústias de maneiras diferentes. Os Madakis de Londres, Elizabeth e Martin chegaram antes do almoço, depois de serem avisados sobre o sequestro por telefone pela Sra. Madaki. Elizabeth assumiu a cozinha preparando comida para todos e Martin, como psiquiatra, tentou dar conforto e acalmar os ânimos.

Serafina era a mais exaltada, cheia de adrenalina e pronta para fazer o necessário para resgatar seu filho. Sua ânsia por fazer algo era um contraste gritante com Falc, que parecia prostrado em um estado de desespero e luto. Mantê-los longe foi a melhor solução, pois o pessimismo e inação de Falc irritaram Serafina, que parecia pronta para começar uma briga e lutar com qualquer um, já que o seu alvo, Greyback, estava inacessível.

Falc se sentou na estufa por horas, olhando as flores e pensando em sua irmã Carole. Eles eram muito unidos, idades próximas, com personalidades diferentes, mas não opostas. Carole era uma Hufflepuff leal e inteligente, apaixonada pela vida, enquanto ele fora um Gryffindor ambicioso e focado, com uma veia por aventuras e diversão. Quando adolescentes, tiveram muitos amigos em comum e Carole se apaixonara por Louis, irmão gêmeo de Anton, quando tinha uns 14 anos e fora Falc quem percebera primeiro, antes mesmo dela.

Depois que todos terminaram Hogwarts, a relação dos dois progrediu rapidamente e, eles adiaram o casamento apenas porque, naquele ano, Falc e Serafina se casaram. Então, a guerra ficou muito pior e eles nunca tiveram a chance de subirem ao altar. Relembrando daqueles momentos, Falc mal viu o tempo passar ou percebeu a entrada de Elizabeth, que lhe trouxe comida e depois o deixou sozinho com o passado.

Serafina estava no escritório, ouvindo com atenção todo o planejamento que o grupo fazia depois de suas respectivas missões. Remus e Flitwick chegaram com a boa notícia de que o plano estava dando certo, os lobisomens estavam se movimentando e criando a distração que, todos esperavam, seria o suficiente para tirar Greyback de perto de Adam. Sirius foi até a Mansão Potter e voltou com as vassouras necessárias para a missão e que estavam no depósito de vassouras a mais de 15 anos. Eram antigas, mas, praticamente novas e seriam muito úteis para o plano de resgate. Assim como os espelhos, que Sirius conseguiu com o Sr. Brand, antes de ir para a sua fábrica têxtil e solicitar urgentemente a costura de casacos curtos, negros e cheios de bolsos.

— Ainda não entendo porque não colocar um feitiço de extensão nos dois bolsos. — Disse Sirius incomodado.

— Porque serão muitos espelhos e a questão não é caber nos bolsos e sim, pegá-los e acioná-los ou atendê-los rapidamente. — Disse Denver, que teve essa ideia. — Imagine se você sentir vibrar e tiver que procurar entre 5 espelhos diferentes? Se reduzirmos isso, colocando os espelhos em outros bolsos, será melhor ou, pelo menos, maiores serão as chances de ações mais efetivas.

— E, neste plano, cada ação tem que ser bem cronometrada e realizada com rapidez. — Disse Flitwick ao encantar os espelhos e colocar os nomes. — Aqui estão os seus Denver.

Denver acenou e pegou seus espelhos. Em cada um, havia um nome, Sirius, Moody, King, Remus, Tonks, Flitwick e Sr. Boot. Este último era o espelho que ficaria em casa, para comunicar o que aconteceu na missão ou se precisavam de algo urgentemente. Cada um dos outros, receberia o outro par e, assim por diante, até que todos pudessem se comunicar com todos durante a missão.

Denver os separou, guardando-os nos bolsos separadamente e gravou na memória onde estava cada nome, para que no momento da comunicação, não houvesse hesitação.

— Memorizem onde estão cada espelho e não ousem esquecer ou derrubá-los. — Disse Denver em seu tom de líder.

— Você acha que Moody e King conseguirão? — Tonks perguntou ansiosa ao pegar seus espelhos. Ela chegara com Denver, que teve a missão de convocá-la oficialmente para a ICW, alegando uma missão onde sua metamorfomagia seria útil. Tonks fora liberada do dia de treinamento, colocada a par da missão perigosa e, assim que ela soube que o doce Adam estava em perigo, não hesitou em aceitar e manter segredo de tudo.

— Acredito que sim. — Denver disse tensamente. — Eu tentei contato com eles e me informaram que estavam em uma reunião com o seus Chefes e o Ministro, mas, acredito que não trabalharão além dos seus turnos. E, se estivermos certo e Greyback adiantar seu objetivo final, os dois estarão aqui a tempo.

— A reunião deve ser por causa da minha entrevista. — Sirius disse pensativamente. — Não sei se ela sair justo hoje não será pior para a nossa missão.

— Acredito, pelas ações dos lobisomens, que será melhor. — Remus disse e guardou cada um dos seus espelhos nos bolsos. — Eles ficaram impressionados com a sua disposição em ajudar os lobisomens do Gun, que estão presos, e mais crentes de que a ilha é real. Automaticamente, pareciam mais dispostos a ajudar a salvar o Adam, alguns até disseram que se precisássemos de mais varinhas, era só chamarmos.

— E não precisamos? Não seria melhor chamar por mais ajuda? — Serafina perguntou caminhando tensamente de um lado para o outro do escritório.

— Nessa missão, mais é pior, temos os números certos e precisamos apenas de muita precisão. — Disse Denver objetivamente.

— E, essa a única possibilidade? — Serafina perguntou duramente. Quando todos a olharam confusamente ou constrangidos, acrescentou. — Quero dizer, esse é único plano que têm? Não existe outros? Talvez, melhores que esses?

— Serafina... — Sr. Boot disse suavemente.

— Não! É o meu filho lá e tenho o direito de contestar o plano que saiu da mente de um menino de 12 anos e que todos vocês, inclusive uma experiente agente, acataram sem questionar ou tentar encontrar algo melhor. — Disse Serafina com a voz aguda.

Todos ficaram em silêncio, até que a voz do Harry veio pelo espelho.

— Sra. Serafina, talvez não se lembre, mas houve muitos questionamentos e reajustes na minha ideia original. — Harry disse com voz serena e todos se surpreenderam, pois ainda pensavam que ele estava em aula. — Tivemos um intenso debate, novas ideias veio a mesa acrescentados por Denver, Flitwick, Remus, Sirius. Este não é o meu plano, é o nosso plano, dessa equipe, que está empenhada em um só objetivo, trazer Adam para casa vivo. E, não podemos sentir o que a senhora sente, mas todos o queremos de volta, nunca duvide disso.

— Eu não duvido... — Serafina olhou para Harry no espelho sobre a mesa. — Me desculpa, desculpem...

— Está tudo bem. — Harry disse sincero e o momento de constrangimento passou. — Vamos repassar tudo de novo, em detalhes. Gostaria de saber o que vocês já fizeram, por favor.

Harry já sabia do plano, mas o dia de aulas, necessário para manter a normalidade, o tirou dos acontecimentos do dia, assim como Terry e Neville, mas, agora, as aulas da tarde chegaram ao fim e todos poderiam ouvir e acompanhar a preparação.

— Ok. — Denver disse pensativa quando terminaram. — Acredito que temos tudo, mas, agora, temos que trabalhar com as possibilidades de erros acontecerem.

— Não seria melhor esperarmos Moody e King? Assim, eles podem acompanhar? — Perguntou Remus tomando um gole de chá.

— Quando eles chegarem, repassaremos tudo outra vez, desde o começo e de novo até podermos repetir enquanto dormimos. — Denver disse séria.

— Acho que sei de onde o Harry tirou a ideia de repetir o plano 100 vezes. — Disse Neville divertido.

— Sim, sempre repita o plano, 100 vezes e... — Disse Harry sabiamente.

— Mais uma. — Completou Denver. — Bem, o nosso maior problema, que não podemos prever, é o comportamento de Greyback, assim, precisamos nos preparar para algumas situações específicas. Por exemplo, se o alvo 2 estiver em grande perigo ou ferido gravemente, como atuaremos?

— Apenas, um adendo. — Terry disse cansadamente. — Meu tio Martin está aí e pode nos ajudar a prever o comportamento de Greyback ou até mesmo influenciá-lo.

— Achei que ele era um médico. — Denver perguntou confusa.

— Psiquiatra. — Terry respondeu e Denver acenou.

— Claro, seria uma grande ajuda. — Ela disse e Martin foi trazido e informado sobre a personalidade psicopática sádica de Greyback.

— Não estamos apenas falando de falta de empatia que caracteriza um psicopata ou o prazer de ferir que o identifica como sádico. — Martin disse lentamente. — O fato de ele ser um canibal nos fala muito sobre ele também.

— Isso é importante? — Sirius perguntou curioso.

— Tudo é importante quando temos que prever ações de personalidades tão fora do nosso "normal". Estudos estão avançando na área do Behaviorismo, da psiquiatria forense e investigativa. Por exemplo, o FBI, nos EUA, tem uma unidade apenas para montar perfis de assassinos em série. — Martin explicou. — Basicamente, montar um perfil nos ajuda a prever como cada tipo de assassino em série agirá em determinadas situações, pois, o comportamento humano segue padrões e estímulos comuns. Todo o conhecimento que vocês têm de Greyback, nos ajuda a compreender seu desejo territorial de vencer o inimigo, ao mesmo tempo, causar dor e desespero em sua vingança. Ele tem uma importante mensagem a passar, mas o seu lado animal deve ser considerado.

— Como assim? — Denver questionou.

— Acredito que devemos considerar a possibilidade do Greyback não apenas ver o Sirius como um Alfa rival, que ele precisa derrotar ou tirar do seu caminho. — Martin disse sombrio. — Existe a possibilidade que seu lado mais animalesco, o veja como um predador e não como um adversário igual.

— E o que isso significaria? — Serafina perguntou confusa.

— Bem, vocês supuseram que Greyback racionalizou e planejou toda essa situação para montar uma armadilha para Sirius e vencer esse jogo, mas, se ele se sentir acuado, se passar a ver o Sirius como o seu predador, ele poderia mudar de ideia — Martin viu suas expressões ansiosas e confusa. — O que faz um animal quando o seu predador o está caçado?

— Foge ou se esconde. — Respondeu Denver pensativa. — Isso quer dizer que o nosso plano poderia se virar contra nós. Ao em vez de se apressar para chegar ao Sirius e concluir a sua vingança, Greyback pode recuar, desistir e se esconder.

— Sim. Mais uma vez, essa é uma possibilidade com as poucas informações que temos e suas suposições são mais do que possíveis, mas precisam considerar o seu lado não racional. — Martin disse. — Um psicopata como Greyback vive muito em função dos seus impulsos, e o que o impulsiona são suas satisfações, seus momentos de prazer. Sabemos, por seu sadismo, que além de matar, ele aprecia o prazer de ferir suas vítimas, de provocar dor, medo e desespero. Como um lobisomem, ele sentiria isso ainda mais intensamente, pois pode sentir o cheiro do medo, do sangue, ouvir o coração batendo forte ou parando de vez. Ele vivência a morte muito intensamente e tenho certeza que mantem troféus para reviver cada morte.

— Troféus? — Harry perguntou pelo espelho.

— Algo que guardou que representa sua vítima... Não, não a vítima em sim, mas a morte daquela vítima, morte que ele causou. Isso é o que lhe importa, então, ele guarda algo, um objeto, que lhe recorde daquele momento especial de grande satisfação e prazer. — Martin explicou. — São como troféus e ele os guarda por dois motivos, porque são a representação da sua vitória e poder, como qualquer outro troféu e, principalmente, porque eles o levam de volta para o momento das mortes.

— Literalmente? — Perguntou Terry pelo espelho. — Quer dizer, ele vivência os sentimentos que as mortes lhe proporcionaram apenas por tocar o objeto?

— Sim, e com incrível intensidade. — Martin disse positivamente. — Na maioria das vezes, esse perfil de psicopata não tem interesse sexual em suas vítimas, podem inclusive, serem impotentes. Ou terem uma ereção quando torturam e matam, mesmo sem o desejo pelo ato sexual em si, ainda assim, vivenciam uma grande excitação e prazer. Quando estão com seus troféus, todos esses sentimentos voltam com muita força e muitos conseguem conter o impulso de matar com muita frequência. Como é um impulso, as vezes incontrolável, eles se utilizam disse para obter controle, pois, cada assassinato tem que ser bem planejado.

— Greyback não tem porque se preocupar que será pego. — Remus disse pensativo. — O Ministério nunca conseguiu chegar perto dele depois que se tornou um lobisomem.

— O planejamento tem mais a ver com o controle e o ritual dos assassinatos. Psicopatas gostam de estar no controle da situação, para não serem pegos pela polícia ou perder o seu alvo, mas também pelo poder que isso lhes proporciona. E, eles têm um ritual, um perfil de vítimas, uma maneira de sequestrá-las, onde e como mantê-las. Como torturá-las, como matá-las e aposto que Greyback sempre age do mesmo jeito. — Martin podia ver o olhar interessado de todos. — Vocês têm informação sobre o perfil de vítimas deles?

— Mulheres e crianças em sua maioria, pensamos que ele gosta de alguém fisicamente mais fraco, para se sentir mais poderoso. — Remus disse.

— Uma boa explicação, mas temos que considerar que muitos psicopatas, Greyback mais do que qualquer um, é um caçador. Na floresta, um predador caça os filhotes ou as presas mais frágeis, não por uma questão de poder apenas, mas também porque ele tem mais chance de sucesso. No caso de Greyback, vencer é tão importante quanto o jogo, porque seus instintos animais de sobrevivência devem ser altamente desenvolvidos. — Disse Martin suavemente.

— Por isso ele tira os seus rivais do caminho ou os amedronta para que recuem. — Harry disse suavemente. — Ele mata ou morde a criança de um inimigo e, pronto, está seguro para continuar.

— Entendemos errado isso, então, quer dizer, Greyback quer eliminar o Sirius, mas, o seu instinto de sobrevivência não o fará se colocar em uma situação que ele não pode vencer. — Considerou Denver. — Se for necessário, ele recua, se esconde e planeja com mais cuidado até ter uma situação de vantagem sobre Sirius.

— Mas o que isso significa para o Adam? Porque ele o pegaria? — Serafina questionou no limite.

— E, isso não lhe dá a vantagem que quer? — Sr. Boot perguntou. — Quer dizer, Sirius irá onde ele mandar e fará o que ele disser, para conseguir que o meu neto esteja a salvo. Greyback deve saber disso ou nunca teria pegado Adam.

— Ele não pegou o Adam por causa do Sirius. — Martin disse e seus olhos mostraram sua tristeza. — Talvez, ele ainda não saiba, mas, Greyback não o sequestrou por isso.

— O que? — Serafina perguntou desesperada. — Eu não entendo... O que quer dizer?

Harry falou um palavrão pelo espelho e Denver se tencionou ao compreender a situação.

— Não consideramos o seu perfil de vítima. — Disse ela ao se levantar irritada.

— Ou o fato de que esse plano de sequestro não é uma vantagem. — Harry disse irritado. — Você acha que ele pode não saber ainda, Sr. Martin?

— É possível e se recebermos sua carta, confirmaremos isso, mas, a qualquer momento, Greyback pode se dar conta da situação desvantajosa em que está. — Martin disse preocupado.

— Eu não acompanhei, me desculpem. — Disse Sr. Boot cansado.

— Greyback usar o Adam para atrair o Sirius não é uma vantagem, tanto que montamos um plano muito bom para o resgate e poderíamos nos sentar e pensar em mais alguns. — Denver disse andando pelo escritório. — Ele observou o Sirius, tentando encontrar uma vulnerabilidade, alguma maneira de chegar até ele e matá-lo.

— Ele deve ter observado as fábricas, a Abadia, mesmo o Chalé. — Harry acrescentou. — Deve ter percebido que as alas não o deixariam entrar para emboscar o Sirius e que ele quase nunca está nas fábricas.

— E, quando visito as fábricas, estou cercado por funcionários. — Sirius apontou entendendo.

— Aposto que Greyback percebeu que o melhor lugar para te pegar era o seu escritório no Beco Diagonal, menos funcionários, fácil acesso pelo telhado, você trabalha a noite e, muitas vezes, fica sozinho em seu escritório. — Denver parou pensativa. — Esse era o melhor plano, mas, ele escolheu o caminho que dá a você horas e horas para planejar, se movimentar e revidar, de uma maneira ou de outra.

— No entanto, Greyback tem um bom instinto de sobrevivência, é um planejador, controlado, até certo ponto, e não tinha porque ter pressa em matar o Sirius, afinal, ele não oferece um perigo iminente, assim, poderia esperar até o momento certo. — Terry disse entendendo o raciocínio. — Então, o que mudou?

— Ele viu o Adam. — Martin disse suavemente. — Não se esqueçam do ponto principal do seu perfil de psicopata, Greyback é um canibal e, apesar de ter algum controle, na verdade, é extremamente impulsivo e guiado por isso. O desejo e instinto de matar é quase incontrolável e alguns psicopatas não conseguem ficar muito tempo sem, como um vício. Por isso, a ideia de distraí-lo foi muito boa, tirá-lo de perto do Adam, para que não cedesse ao impulso incontrolável, envolvê-lo com outros problemas, manter sua mente racional funcionando mais do que seus instintos animais. Tudo isso deu a Adam tempo, mas...

— Se Greyback perceber que está em grande perigo, em grande desvantagem, ele pode recuar e fugir, esperar por um momento melhor. — Disse Denver.

— Sr. Martin, eu não entendo como ele não percebeu ainda? Quer dizer, tudo o que ele fez até agora, sequestrar o Adam, deixar evidente que o pegou, nos leva a pensar que o seu objetivo é chegar ao Sirius. — Harry observou confuso.

— Sim, mas, em muitos momentos nossas ações, principalmente as mais impulsivas, não são as melhores decisões e nós racionalizamos uma justificativa para satisfazer o nosso prazer. — Martin explicou. — Como um alcóolico que consegue encontrar uma razão justa, em sua mente, para ir ao um bar, mesmo que saiba que não resistirá a beber. Greyback devia estar observando o Sirius e, como a Agente Denver disse, percebeu que nunca conseguiria pegá-lo aqui.

— Aposto que ele considerou recuar, talvez, ir atrás de Gun e Teagan primeiro. — Denver observou.

— Bem possível. — Martin concordou. — Então, em algum momento, ele viu o Adam, provavelmente o seu perfil ideal ou perto disso. O impulso, o desejo, foi maior e nublou o seu raciocínio e Greyback formulou um plano rapidamente, não o melhor plano para pegar Sirius, pois isso se tornou secundário para seus instintos.

— Greyback racionalizou que sequestrar o Adam lhe daria o que ele queria mais, Sirius, mas, no fundo, o que ele mais quer, ele já tem. Ele está apenas se enganando. — Harry disse. — Isso quer dizer que resistir será muito mais difícil para Greyback? E, que desistir é uma possibilidade ainda maior?

— Sim. — Martin disse com um suspiro. — Não sabemos o seu ritual ou qual o impulso que tornou o Adam tão irresistível. Na década de 20, um serial killer canibal, Albert Fish, fingia contratar adolescentes para trabalhar em sua fazenda no interior. Ele colocava anúncios nos jornais oferecendo emprego para jovens adolescentes, trocava cartas com famílias pobres e enviava passagens de trem para os garotos, que esperavam por uma oportunidade de trabalho, mas acabavam mortos. Um dia, ele foi pessoalmente buscar um desses garotos, pois a família quis conhecê-lo, antes de liberar o adolescente de 15 anos para viajar a uma fazenda desconhecida no interior do estado. — Martin contou o caso real lentamente. — A família vivia em New York e, quando Fish chegou na casa, descobriu que o filho de um vizinho também iria, se houvesse mais uma vaga de trabalho, pois, essa outra família também tinha um adolescente e precisava da renda. A primeira família simpatizou com Fish facilmente, bem vestido, distinto, muito educado, branco, o que naquela época, era muito importante. Enquanto o garoto ia avisar o vizinho que havia mais uma vaga e que deveriam partir naquela tarde, sua mãe serviu o chá para Fish, e manteve uma conversa educada. Então, uma menina entrou na sala, uma garotinha de 10 anos, Grace, usando um vestido branco, com um rosto angelical, cachos, pele bem branquinha e muito linda.

— Merlin... — Sr. Boot sussurrou entendendo o que acontecera.

— Fish tinha a chance de levar dois adolescentes, dois, e muito maiores que Grace, ou seja, mais carne. — Martin disse um pouco enojado. — Mas, assim que ele a viu, o impulso falou mais alto. Ele descreveu o seu desejo imediato em provar a sua carne, sua inocência, em um sentido espiritual e não sexual, e decidiu levá-la. Inventou uma desculpa rapidamente, que iria a uma festa de aniversário na casa de sua irmã antes de voltar e pegar os garotos para a viagem de trem à fazenda. Fish pediu à mãe, que o deixasse levar Grace à festa de sua sobrinha, ele a traria de volta à tarde, quando viesse pegar os garotos. Tudo no impulso, correndo muitos riscos, abrindo mãos de dois adolescentes, apenas porque o desejo pela menina era incontrolável.

— A mãe deixou? — Serafina perguntou chocada. — Ela deixou ele levar sua garotinha?

— Sim, ela simpatizou com ele e não conseguiu recusar o seu pedido. — Martin contou. — Fish a levou, a matou e comeu, depois... anos depois, ele escreveu uma carta para a mãe, contando sobre o imenso prazer que Grace lhe proporcionou.

Todos tinhas expressões meio chocadas, Denver tentava manter a compostura e frieza com dificuldade.

— Um trouxa fez isso? — Neville perguntou pelo espelho.

— Sim, existem psicopatas nos dois mundos, infelizmente. — Martin disse. — Fish, como Greyback, seguiu o seu impulso, pois Adam se tornou irresistível, não duvidaria que, neste momento, esse desejo seja maior que o seu instinto de sobrevivência, pois, até onde sabemos, Greyback não percebeu que suas ações levarão ele para uma armadilha e, não o Sirius.

— Se ele perceber... — Harry disse fechando os olhos.

— Nunca encontraremos o Adam vivo. — Terry sussurrou meio apavorado.

— Essa é uma possibilidade, mas existe outra que devem considerar. — Martin disse tentando ser objetivo. — Neste momento, Greyback está ocupado, distraído, preocupado, a movimentação das matilhas causou isso e, talvez, ganhamos tempo para o Adam. Talvez, como vocês esperam, ele decida agir rapidamente e escrever para o Sirius, marcando um encontro. E, então, depois de fazer isso, ele poderá se concentrar no Adam e, poderá conseguir manter o controle do seu impulso, afinal, está tão perto a sua vingança. Talvez, ele mate outra coisa para satisfazer o seu desejo, cace e se alimente, mas, em algum momento, ele se concentrará no Adam.

— Mas, se ele estiver no controle, porque caçou e se alimentou, Adam estaria seguro, certo? — Tonks perguntou fascinada com tudo o que estava aprendendo.

— Em teoria sim, mas esse não é o problema. — Martin disse. — Adam provocou, por suas expressões, aparência, cheiro, olhares, voz, ou uma combinação de tudo isso, esse impulso incontrolável e, quanto mais tempo Greyback estiver com Adam, mais obcecado ele ficará. O desejo e possessividade aumentará...

— Possessividade? — Serafina questionou confusa.

— Sim, para Greyback, Adam é dele e, como qualquer outro animal, defenderá a fonte dos seus impulsos, ou sua presa, de qualquer um. —Martin disse objetivamente.

— Isso quer dizer que se tiver que escolher entre se vingar do Sirius ou ficar com o Adam, ele escolherá o Adam. — Disse Denver. — Precisamos de outro plano...

— Não precisamos não. — Harry disse na mesma hora. — Tonks, você vê um problema com a sua parte?

— Não. Estou pronta e sei o que fazer. — Tonks disse convicta.

— Não temos como prever o comportamento de Greyback, Harry, além de colocar o Sirius em grande risco, colocaremos a Tonks também. — Denver disse muito séria.

— Denver, toda essa explicação do Sr. Martin só me fez perceber que o plano é exatamente o certo. — Harry defendeu pelo espelho. — Ofereceremos o poder que Greyback precisa para se sentir seguro, assim, não alertaremos o seu instinto de sobrevivência. Manteremos Adam em seu poder e, quando Greyback descobrir o engodo, perderá o controle, o fracasso da realização do seu impulso o fará irracional e, é quando você o pegará.

— Ele não perceberá o perigo, até ser tarde demais, pois estará focado em Adam. — Denver disse e parecia se ajustar. — Ok, posso ver isso acontecer. Como o conduzimos até o ponto em que precisamos e mantemos Sirius seguro? Como manipulamos ele?

— Dar o controle e poder é uma boa ideia e ele quererá se gabar, mas, não se convençam de que Greyback tentará matar o Adam na frente do Sirius. — Martin disse. — Lembre-se, ele tem o seu ritual e fazer isso na frente de outra pessoa poderia estragar o seu maior momento de satisfação.

— Precisamos nos preparar para essa possibilidade, interferir antes, se tivermos tempo. — Harry disse pensativo. — E, improvisar, mas, sinceramente, o que me preocupa não é o plano e sim, a possibilidade de não o colocarmos em prática.

— Você teme que Greyback perceba sua desvantagem e recue levando a nossa chance de salvar o Adam com ele. — Flitwick observou pensativo. — Acho que sei como podemos agir neste caso, sem garantias, mas...

— Qual a ideia? — Sirius perguntou ansioso.

— Os lobisomens foram incrivelmente receptivos, a ilha lhes dá esperança, sua entrevista é como um sopro de justiça, duas coisas que eles nunca tiveram em suas vidas, depois de transformados. — Flitwick disse lentamente. — Muitos se ofereceram para ajudar, mesmo depois que Remus garantiu que a ilha não está condicionada a sobrevivência do Adam.

— Você acredita que eles concordariam em ajudar a procurar por Adam? — Sr. Boot perguntou esperançoso.

— Sim, sinceramente, sim. — Flitwick olhou para Remus que acenou.

— Não todos, existem muitos ressentimentos, mas a maioria, acredito que aceitariam ajudar. — Remus falou convicto.

— Se tivermos milhares de lobisomens procurando por cada centímetro da Inglaterra, com seus olfatos, audições e visões mais desenvolvidos, talvez consigamos encontrar o Adam, mesmo que Greyback decida não enviar a mensagem para o Sirius. — Harry disse com a voz mais leve. — Pode ser nossa única chance...

O clock clock dos passos de Moody foram ouvidos por todos e, um segundo depois, ele entrou no escritório com uma expressão feroz.

— Garoto! Onde está aquele garoto? — Ele gritou furioso.

— Estou bem aqui, Moody. — Harry disse sabendo que ele era o garoto, pois conhecia muito bem a expressão.

— O seu plano brilhante! Não é assim, que todos te chamam? Um cérebro que cria planos brilhantes? — Moody disse ao se aproximar bem do espelho e encarar o Harry com seus dois olhos. — Acabou de resultar na morte de um dos meus melhores aurores! O melhor bruxo que já conheci! — Harry não desviou o olhar ou respondeu. — Nada a dizer? Bem, eu falo, então, Gawain Robards era um auror nível três, condecorado, experiente, inteligente e bom caráter. Não como esses recrutas tolos de hoje em dia, ele era da velha guarda e fazia um trabalho de primeira. Meu amigo! Casado! Tinha dois filhos! Dois! E, agora está morto, porque você teve a brilhante ideia de atrair o Greyback para as matilhas, onde os meus homens estavam de guarda! — Ao terminar ofegante, Moody olhou para o Sirius, que o encarava de olhos arregalados como todos os outros na sala. — E você! Se quiser mesmo impedir os lobisomens de irem para Azkaban, sugiro que contrate dez dos melhores advogados, porque recebi ordens para prender toda a maldita matilha de Elfort!

Todos ficaram em um silêncio chocado por alguns instantes até que Harry se moveu rapidamente, desceu as escadas até o escritório de Flitwick e usou o flu para o Chalé. Antes que qualquer um pudesse conseguir reunir palavras, Harry se colocou em frente ao Moody.

— Quem o matou? — Ele perguntou duramente.

— Greyback! O Avada Kedrava... — A voz de Moody se desfez, sufocada pela emoção.

Harry empalideceu e fechou os olhos, antes de respirar fundo e falar com firmeza.

— Nós temos um plano, se tudo for como esperamos, Greyback estará morto antes da meia noite e seu amigo será vingado. Não temos a intenção de deixá-lo viver. Você tem um problema com isso?

— Não. — Moody respondeu friamente.

— Quanto tempo temos até que a matilha seja presa por algo que não fez? — Harry perguntou direto.

— Se Fudge e Umbridge conseguirem uma ordem judicial da Suprema Corte, até amanhã, na hora do almoço, talvez antes. — Moody disse. — E, se eles fugirem, será muito pior, a caçada só ficará mais violenta, meus aurores estão loucos por vingança.

— Não se preocupe com eles, os manteremos seguros. — Harry disse e olhou em volta, pensando no plano e quem poderia deixar para ajudar os lobisomens. — Ok. Precisamos de mais ajuda... Sirius, quem podemos confiar? Edgar? Fiona?

— Para o que? — Sirius perguntou confuso.

— Para levar os lobisomens aonde eles devem estar. — Harry disse e Sirius entendeu.

— Remus sabe onde é, e Fiona poderia ajudar, eu não posso sair daqui. — Ele disse olhando para o amigo.

— Também não posso sair, prometi ao Falc que assumiria o seu lugar. — Remus disse determinado.

— Harry, posso fazer isso, se tiver uma localização, posso ajudá-los. — Flitwick se ofereceu.

— O que está planejando agora, garoto? — Moody perguntou com voz dura.

— Salvar a matilha Elfort e sei que quer isso também, Moody, ou não estaria aqui. — Harry disse seriamente. — Lamento por seu amigo, mas, eu não sou um assassino e me culpar por sua morte, não muda a realidade.

— Muito bem. — Moody disse suspirando profundamente, agora que já descontara sua raiva. — Faça a sua jogada, eu não posso te ajudar com isso. Sobre o resgate, King e eu estaremos atolados no Ministério depois do que aconteceu e, sinceramente, não sei se conseguiremos estar lá, mas, nos chame mesmo assim. Talvez, tenhamos sorte.

O clock clock acompanhou a sua saída e o silêncio no escritório era opressivo.

— Precisaremos de toda a sorte do mundo, pois estamos ficando sem opções. — Disse Denver irritada.

— Daremos um jeito. — Harry disse olhando para todos na sala. — A ideia de os lobisomens ajudarem, acabou de voar pela janela...

— O que? Porque? — Serafina perguntou indignada.

— Os aurores estarão caçando os lobisomens da matilha Elfort e prenderão qualquer um que encontrarem por aí se movimentando. E, será ainda mais suspeito se eles agirem como se caçassem alguma coisa. Isso deixará o Ministério desconfiado e colocaremos ainda mais vidas em risco. — Denver explicou objetivamente. — E, no plano de resgate, precisamos rever tudo, agora sem Flitwick, Moody e King.

— Mas... e se não ajudarmos a matilha a fugir? Assim, não haverá aurores caçando lobisomens, pois, eles já estarão presos! — Serafina sugeriu desesperada.

— Pelo que? — Harry disse com frieza. — Hoje de manhã, nós decidimos usar os lobisomens, sem os seus conhecimentos, para atrair a atenção de Greyback. Deu certo, mas teve consequências, um auror morto e centenas de lobisomens sendo acusados de cumplicidade ou sei lá o que.

— Mas se eles ficarem soltos e seguros, meu filho não será encontrado! — Serafina falou furiosa. — Podemos ajudá-los depois! Agora, o mais importante, é que eles concordem em procurar o Adam!

— Isso não adiantaria, Serafina. — Remus disse cansado. — Depois que Elfort e seus homens forem presos, as outras matilhas estarão com medo de se movimentarem, pois poderiam atrair a atenção do Ministério para eles. Acredite, se centenas de lobisomens inocentes forem enviados para Azkaban, os outros se fecharão, se esconderão e nunca mais confiarão em nós ou qualquer um.

A verdade de suas palavras era dura e todos ficaram profundamente abalados, pois entenderam que a única chance que tinham de salvarem o Adam, era Greyback cair em sua própria armadilha e enviar sua mensagem ao Sirius.

— Eu não... O que faremos... eu... — Serafina gaguejou angustiada.

Neste instante, uma coruja bateu no vidro da janela com seu bico e com uma carta bem visível em sua perna.

— Merlin! — Sirius correu para a janela e a coruja entrou lhe estendendo a carta. — Deve ser...

Sirius se interrompeu ao reconhecer a letra e sentiu seu estômago se embrulhar pelo engano.

— O que ele...

— Sirius...

— Greyback...

Todos falavam ao mesmo tempo enquanto Sirius passou os olhos pelas palavras, mal percebendo a coruja partir sem uma resposta.

— Não é Greyback, é minha prima, Narcisa. — Sirius disse em tom de derrota. — Ela leu sobre minha decisão de expulsá-la da Família Black e quer uma reunião, urgentemente.

O desapontamento foi quase esmagador e pareceu tirar a energia de todos na sala.

— Merlin... — Sr. Boot voltou a se sentar sentindo as pernas bambas.

— Ele não escreverá, não é? — Sussurrou Serafina e pela primeira vez, sua expressão furiosa e tensa se derreteu, quando seus pensamentos encararam a realidade... a possibilidade real do seu filho nunca voltar. Antes, todo o seu ser estava concentrado em procurá-lo, encontrá-lo, lutar por ele, salvar seu garotinho e destruir o seu algoz. — Esse monstro levou me bebê... — Desesperada, Serafina avançou até o Sirius, o segurou pelo casaco e o sacudiu com força. — Você tem que salvá-lo! Isso é sua culpa! Você tem que me trazer o meu filho!

— Eu o trarei... — Sirius sussurrou emocionado.

— Por favor... — Serafina perdeu o último controle e começou a soluçar convulsivamente. — Deus... por favor... Alguém... — Martin se aproximou para abraçá-la. — Martin... me ajuda... meu filho... Por favor!

— Venha comigo. — Ele disse ternamente.

— Não! — Histérica, Serafina se soltou do irmão e bateu no peito do Sirius. — Eu não vou a lugar algum até você me trazer o meu filho! Eu quero ele agora! Me traga meu bebê, agora!

Sirius a abraçou e recebeu seus tapas e socos sem tentar detê-la. Martin se afastou rapidamente e voltou com uma injeção de calmante que aplicou em seu braço habilmente. Os gritos de Serafina aos poucos se acalmaram e ela ficou sonolenta, Sirius continuou a ampará-la e Martin guardou a seringa, antes de voltar para pegá-la.

— Eu a levarei até seu quarto, apliquei uma dose leve e Serafina poderá descansar por algumas horas. — Martin disse suavemente.

— Deixe que eu cuido da minha esposa. — Falc disse entrando no escritório com uma expressão desolada, pálido e olhos vermelhos de chorar. — Eu a levo até o nosso quarto e cuido dela. Obrigado, Martin.

Martin concordou e os acompanhou, quando Falc a pegou no colo e deixou o escritório sem dizer mais nada.

Harry ficou parado olhando para a carta de Narcisa e todos os planos que essa entrevista colocou em andamento. No entanto, tudo se tornava poeira diante do medo, da dor e desespero que o sequestro de Adam trouxe a todos. O dia se arrastara em aulas e colegas que pareciam viver em um mundo paralelo. Terry parecia meio enjoado e, tão ausente, que Harry precisou agitá-lo algumas vezes para fazer uma lição ou, simplesmente, caminhar de um ponto a outro.

Eles precisavam salvá-lo, pensou Harry, não havia outra alternativa. Nunca existiria um mundo onde Adam Boot não estava vivo e feliz. Ou, um mundo, onde Greyback destruiria a sua família.

— Harry... — Neville sussurrou pelo espelho.

— Sim? — Ele disse baixinho.

— Terry não consegue mais. — Seu amigo disse tristemente e Harry pigarreou.

— Tudo bem. Você já aguentou o suficiente, Terry. — Harry disse e sentiu seu coração se apertar ao ouvir seu amigo explodir em um choro doloroso. Neville o abraçou e Harry cortou a ligação, lhes dando privacidade.

— Bem, voltarei a Hogwarts para pegar a minha vassoura. — Harry disse tentando manter a mente no jogo, pois ele não poderia desmoronar.

— O que está pensado? — Denver perguntou com sua expressão neutra e forte.

— Você substitui o King e, depois, assume o seu próprio lugar no plano. — Harry disse. — Eu fico no lugar do Moody e, depois, pego o lugar do professor Flitwick, se ele não voltar a tempo.

— Você não pode usar magia fora da escola, Harry, isso causaria uma grande confusão. — Sirius observou com voz rouca. — E, é muito perigoso...

— Já estamos em uma grande confusão, Sirius e, se fizermos como planejamos, sem erros, não precisarei usar minha varinha. — Harry o interrompeu com firmeza. — Edgar sabe a localização da ilha?

— Sim, ele sabe... hum, Ian e Mac também, acho que são de confiança. Fiona também, mas, ela não foi autorizada a passar pelas alas e não posso fazer isso agora. — Sirius disse tentando raciocinar.

— Ok. — Harry foi até a mesa e escreveu uma carta curta e objetiva. — Assine também, assim, fica mais formal.

Sirius leu e assinou, suspirando.

— Tem certeza? — Perguntou passando a mão pelos cabelos.

— Sim. — Harry levou a carta a Flitwick. — Procure Edgar na GER, aqui tem o nosso pedido para que ele o ajude a retirar a matilha Elfort para a ilha.

— E se a matilha estiver cercada por aurores? — Remus perguntou preocupado.

— Dever ter alguns, mas, não estão cercados ou Moody não teria vindo até aqui. Aposto que ele vai dar uma enrolada no Ministério e ganhar tempo para a matilha fugir. — Denver disse. — Esse não é o problema e sim, como levar mais de 200 lobisomens de um ponto para outro sem deixar vestígios ou serem seguidos magicamente? Os aurores tem recursos, os mais experientes encontrarão rastros de chaves de portais ilegais e não tem como dois ou quatro bruxos aparatarem toda a matilha para a ilha.

Todos pararam por alguns segundos tentando encontrar uma solução e Harry fechou os olhos pensando na melhor maneira de fugir de policiais mágicos, sem deixar vestígios e com o deslocamento de um número tão grande de pessoas. A questão não era a pressa de chegar a ilha, pensou, e sim a cobertura, não serem vistos, encontrados ou interceptados. Neste caso, a magia não era o mais importante.

— Transporte trouxa. — Harry disse abrindo os olhos. — Os aurores nunca os procurarão no mundo trouxa ou em transportes trouxas. Professor, diga ao Sr. Edgar para alugar 6 ônibus em seis cidades diferentes e, quando estiver na matilha, envie grupos de 40 lobisomens para cada uma dessas cidades em um ponto específico, onde poderão ser recolhidos pelos ônibus. Eles demorarão alguns dias para chegar a Edimburgo, a viagem será desconfortável, mas, todos estarão seguros.

— Os ônibus chegarão em tempos diferentes e isso é bom. — Denver disse pensativa. — Diga a esse Edgar para alugar barcos, pois um só para 200 pessoas chamará a atenção. Os aurores mágicos nunca pensarão em uma fuga assim e, sem magia, não haverá vestígio. Dará certo.

— Ok. Irei para a GER e levarei Edgar até a matilha Elfort. — Flitwick disse, depois olhou para Remus. — Você acha que um dos seus amigos do grupo de anciões deveria nos acompanhar?

— Não seria ruim. — Remus disse. — Talvez, Alice? Sua presença os deixaria mais confiantes.

— Pensei o mesmo. Depois de conversar com Edgar, irei até ela e começarei a deslocar os lobisomens. — Flitwick disse e encarou todos. — Espero voltar a tempo, mas, se não conseguir, fiquem seguros e boa sorte.

— Boa sorte, professor. — Harry disse e todos repetiram as despedidas.

O escritório ficou em silêncio por alguns segundos, mais vazio, sem a energia nervosa de Serafina ou a inteligência de Flitwick.

— Vocês acreditam que Greyback enviará a mensagem? — Sr. Boot perguntou em tom suave.

— Foi o meu primeiro instinto e quero acreditar... — Sirius disse suavemente, seus olhos se encheram de lágrimas. — Agora, não sei de mais nada e nunca vou me perdoar...

— Pare com isso! — Denver interrompeu irritada. — Serafina está desesperada e sem raciocinar direito, assim, tem passe livre para dizer essas besteiras, mas, você não. — Ela tocou seu peito com o dedo e disse autoritariamente. — Isso não é sua culpa! Quando entrou para a missão da Travessa, sua intenção era ajudar e levar justiça as pessoas que estavam sendo exploradas, machucadas e mortas. Centenas de pessoas foram salvas e terão uma nova chance, graças a sua dedicação.

— Mas... Greyback... — Sirius disse sem fôlego ao encarar os seus olhos castanhos.

— É um assassino. — Denver disse suavemente. — Você não sabia que cruzaria o seu caminho ou podia prever suas ações depois daquele dia. E, como o doutor disse, o sequestro de Adam pouco tem a ver com você e sim, com quem Greyback é.

— Eu acredito que ele escreverá. — Harry disse convicto. — Como o Sr. Martin disse, Greyback, por seus impulsos assassinos, quer o Adam mais do que quer se vingar ou se proteger do Sirius. Se houvesse a necessidade de uma escolha, ele escolheria o Adam, mas, isso não acontece porque, Greyback já tem o Adam, ele já lhe "pertence" e aposto que aquele filha da puta arrogante nunca perdeu uma vítima.

— Ter o Adam lhe dá segurança, seu maior desejo está em sua posse e reservado para um momento posterior e Greyback não acredita que irá perder, assim, ele se concentra no Sirius. — Denver disse. — Se ele considerou as movimentações dos lobisomens um risco para si, seu próximo movimento será atacá-los, mas, primeiro, ele quer tirar o maior rival ou, predador do caminho.

— Parece muito simplista. — Sr. Boot disse e Sirius concordou.

— Às vezes, é simples. — Disse Denver, andou até a janela e a fechou. — Vamos repassar o plano com as mudanças, precisamos estar preparados.

— Antes... — Harry suspirou e pegou o espelho. — Harry Potter. — O espelho foi acionado e Neville apareceu com seu rosto redondo muito triste. — Precisamos colocar a Penny no jogo, os lobisomens precisarão de apoio na ilha. Diga a ela para enviar tudo o que conseguiu para o Edgar, urgentemente.

— Como ela fará isso? — Neville perguntou confuso.

— Diga que eu falei: "seja criativa". — Harry disse. — Você pode conseguir minha vassoura até a sala do professor? Assim, não preciso subir até o meu quarto outra vez.

— Ok. — Neville disse suavemente.

— Terry? — Ele perguntou preocupado.

— Chorou muito e agora está dormindo, ele estava exausto. — Neville respondeu com a voz engasgada.

Eles desligaram os espelhos e o pessoal do escritório voltou a repassar o plano com as alterações.

— Achei que iria querer matar Greyback. — Disse Sirius para Remus quando fizeram uma pausa no fim da tarde para o chá e alguns sanduíches que Elizabeth lhes trouxe.

— Não. Prometi ao Falc que assumiria o seu luga que farei. — Remus disse lentamente e respirou o cheiro quente do seu chá. — Além disso, sou o mais rápido em uma corrida com o peso extra.

Harry ouviu em silêncio e, depois de comer, foi até Hogwarts buscar sua vassoura que Neville levou ao escritório de Flitwick. Ao voltar, se sentou com Tonks, que se mantinha treinando a sua parte do plano.

Todos estavam prontos, considerou, apenas precisavam que Greyback fizesse a sua parte. No entanto, a falta de controle sobre a situação era terrível e sua mente continuava voltando para a trágica morte de Gawain Robards, auror, marido, pai, filho, amigo... Perdido para sempre. Racionalmente, Harry sabia que não era sua culpa ou de qualquer um, além de Greyback, assim, como o sequestro não era culpa de Sirius. A maldade existia no mundo e, tudo que o que eles poderiam fazer, era se protegerem e lutarem contra ela.

Seu olhar se desviou para a janela e foi atraído para uma coruja cinza e negra que voava na direção do Chalé, com uma carta em sua perna. O alívio que o envolveu lhe tirou o fôlego e, meio trêmulo, Harry caminhou até a janela e a abriu, sentindo a energia e a adrenalina preenchê-lo, pois, hoje, o dia seria de luta.