Nota: Decidi traduzir a minha série de fics sobre a infância do Levi para pt-pt porque sim. A lista completa vai estar no fim do cap 2.

O Levi tem 11 anos neste fic, e nos eventos é assumido que o tipo que o Levi espanca no capítulo 69 é o chulo da Kuchel.

Nota pt-pt para pt-br:

- 'casa de banho' é o mesmo que 'banheiro'
- 'puto' é gíria para 'moleque'

Avisos: linguagem, violência, família disfuncional, menores a beber álcool, assédio e maltrato de crianças, menções de prostituição infantil mais à frente.

.


.

A lâmina bem podia ser parte da sua mão, uma extensão dele. De muitas maneiras, já era, quer ele gostasse ou não.

Já não se importava com isso. Não sentia stress ou culpa como sentia ao princípio - e se sentisse, aprendera a disfarçá-los o suficiente para não serem usados contra si. O seu punho já não tremia, já não pensava como a mãe se sentiria com o seu progresso - e se pensava, aprendera a sufocá-lo durante as noites sem dormir. Os seus movimentos tornavam-se mais ágeis e fortes todos os dias, até cada truque e modificação que pudesse fazer aos ensinamentos originais funcionarem tão bem ou melhor. Era aquilo que precisava para sobreviver. Não só porque Kenny lhe dizia; porque Levi o experienciava todos os dias.

Ah foda-se, nós somos tão insignificantes, miúdo. Somos menos que vermes, lixo. E eu não suporto isso, caralho. As nossas vidinhas, a lutar só para sobreviver, é tão enfurecedor. Por isso é que eu quero mais, quero tudo. É só isso que precisas, 'tás-me a ouvir Levi? Poder. Poder permite-te viver e ter tudo. Não precisas de mais nada. Continua, vai até ao topo, e depois destrói a porra do mundo todo se não gostares do que vês. Kenny dissera-lhe isso, provavelmente mais embriagado do que achava que estava. Levi registara as palavras porque ele não era tão megalomaníaco. Não queria saber das visões de Kenny. Tinha objectivos mais pequenos que Kenny provavelmente acharia dignos de troça com a sua mentalidade obcecada por poder, mas que eram bons o suficiente para Levi.

E hoje iria alcançar o maior.

Não era como se alguma coisa tivesse acontecido nos últimos dias que provocasse esta decisão em particular; era simplesmente há muito adiada. Não havia razão para adiar mais quando sabia que conseguia fazer isto.

Levi testou a faca novamente, rodopiando-a na mão num flash e atacando um inimigo invisível. Fê-lo mais duas vezes, e depois repetiu, puxando a faca do bolso de trás escondido sob a blusa esfarrapada da mãe, tentando ver quanto isso o atrapalhava. Não atrapalhou.

- Boa - comentou Kenny, regressando da casa de banho e batendo com a porta atrás de si. Levi exigira que tivessem uma casa de banho adequada depois do último buraco em que Kenny os fizera passara a noite. - Não te esqueças de manter o punho firme, mesmo que seja dessa maneira esquisita que fazes. És pequeno, não podes acabar com eles como eu mas-

Levi chutou o oponente imaginário, girou a lâmina e atirou a faca num arco que cortou através de carne invisível com um assobio agudo.

- Consigo safar-me bem se eles estiverem ao meu nível.

- Era isso que eu ia dizer, fedelho. Devias ter-me deixado acabar.

Levi quis voltar treinar sacar a faca novamente, por isso puxou o casaco e a blusa para ajustar devidamente o bolso. Aparentemente, devia ter exposto demasiada pele das costas, porque Kenny achou nisso algo novo para criticar.

- Precisas de ganhar um bocado de peso, porra, ganhar um bocado de músculo. Ou vais sair a voar de cada vez que eu espirrar - repreendeu Kenny, pegando no chapéu e passando por Levi com uma palmadinha no ombro.

- Não é assim tão difícil querer voar quando tu te peidas cada vez que espirras.

- Seu cabrãozinho - Kenny voltou para trás e pegou-o pela nuca, despenteando-lhe o cabelo e atirando-o ao chão, não exactamente para o magoar, só para irritar Levi. Funcionava sempre, e Kenny riu pela carranca na cara do rapaz ao esfregar o pescoço.

- Pára lá com isso.

- Páro quando começares a crescer. Se calhar precisas de beber mais leite, fazer os teus ossos ficarem mais fortes ou assim. - Kenny soltou um tsk que fez Levi revirar os olhos. Lá ia começar a divagação, e como de costume, bloqueou a voz do velho enquanto voltava a guardar a faca em segurança no bolso, endireitando as roupas e arranjando o cabelo.

- 'Tás-me a ouvir? 'Tou aqui a tentar ensinar-te coisas importantes sobre comida.

- Não estou interessado.

- Então pelo menos melhora o teu jeito com a faca.

- Então vê.

Kenny resfolegou e ajustou o chapéu na cabeça. - Tenho coisas melhores p'a fazer com o meu tempo.

Levi encolheu os ombros. Voltou a confirmar a faca uma última vez antes de deslizar para fora do esconderijo de Kenny. Ouviu um farfalhar quando Kenny vestiu o casaco.

Nem a um quarteirão de distância do esconderijo, Levi encontrou um MP, um homem jovem saído da recruta há demasiado pouco tempo para saber naquilo em que se metera, ser enviado para o Submundo após a última onda de ataques de Kenny. Três numa só noite. Levi distraíra o último. Todos sabiam que a Polícia Militar estava particularmente agitada pelas mortes para as quais não conseguiam encontrar um culpado, e estavam a ficar mais agressivos nas suas investigações. Mas este tipo parecia um bebé. Levi nem lhe atirou mais do que um relance, o MP não seria uma ameaça para onde Levi se dirigia e não valia a pena Kenny matá-lo agora. Simplesmente ignorou o MP enquanto o homem tentava parecer profissionalmente estoico ao inspeccionar as ruas de forma inútil. Levi ouviu o cumprimento alegre quando Kenny também viu o MP, acenando-lhe com o chapéu.

Não partilhara com Kenny o que pretendia fazer, ainda não tinham voltado a estar nos melhores termos após os últimos meses terem sido tão duros na sua dinâmica diária, mas era óbvio que o homem mais velho tencionava segui-lo à distância. Levi costumava dizer-lhe alguma coisa que fazia Kenny reclamar-lhe alguma coisa em resposta, mas não desta vez. Se ele queria ver ou avaliar ou o que quer que fosse que ele fazia, ele que fizesse.

Levi já se perguntara se Kenny o seguia desta forma óbvia de propósito para criar uma sensação de liberdade controlada. Se tinha alguma intenção de professor, de observar os seus passos à distância para permitir algum crescimento sob supervisão. Ou para relembrar possíveis perseguidores e inimigos que o miúdo magricela era o seu protegido indesejado, e possivelmente intervir caso alguma situação de merda desencadeasse. Em tempos perguntara-se se Kenny o iria de facto ajudar caso a maré virasse e Levi se encontrasse numa situação complicada. Ou se só iria rir e deixá-lo desenvencilhar-se sozinho, mesmo que tivesse de levar umas pancadas pelo caminho.

Ambas as situações já tinham acontecido, por isso Levi não fazia ideia do que esperar de Kenny. Uma consistência inconstante. Há muito que tinha percebido que não valia a pena tentar e decidir que versão de Kenny iria receber, e com qual ele de facto se sentiria mais seguro.

Se Kenny o quisesse seguir, boa sorte a tentar acompanhar.

- Vais ter um encontro ou assim? Eu só corro assim quando vou ter com uma boazona mamalhuda. 'Tás finalmente a chegar a essa idade, hã?

- Não és tão bom a perseguir pessoas como achas.

- A quem é que 'tás a chamar de perseguidor, minorca?

- Vai chatear outro, Kenny.

- Não te 'tou a seguir, fedelho, 'tou a ir beber uma boa cerveja. Também vens?

Levi virou para a praça, o habitual monte de pessoas que lá encontrava só justificado pela barraca que funcionava de bar a alguns metros de distância. A maioria eram homens, que se erguiam altos sobre Levi, a falarem alto e tresandarem a álcool à distância. A sua repulsa constante alcançou níveis alarmantes por causa do fedor nojento, mas conseguia tolerá-lo em momentos de necessidade. Portanto, este seria um momento desses.

Os MPs não faziam porra nenhuma aqui. Demasiados habitantes do Submundo para uns poucos militares da superfície, que não sabiam quem lhes queria rasgar as gargantas. Portanto não havia nenhum deles à vista.

Deslizou por entre os homens, uma tarefa sem qualquer dificuldade em todos os sentidos da palavra. Um deles vacilou para trás e chocou contra o seu ombro, mas Levi ignorou-o, deslizando em torno do próximo homem para continuar a avançar antes que alguém pudesse realmente reparar nele. Kenny não conseguia navegar tão depressa e sem esforço por uma multidão, por isso ficara para trás, e ficaria à parte. Levi espreitou as caras por quem passou, mas sabia que tinha de se aproximar mais do balcão para achar a pessoa que procurava.

O homem destacava-se como se estivesse realçado em cor e em forma. Quando o encontrara a primeira vez a beber com o dono do sítio, alguns dias antes, Levi lembrava-se de pensar se de facto ele se destacava, ou se o homem apenas registava na mente de Levi de maneira diferente. Fosse como fosse, o homem era notoriamente gordo, mesmo por entre os bêbedos inflados de cerveja. Um feito e tanto, no Submundo. Mas de novo, escumalha como ele tinham pouco trabalho para fazer e dinheiro suficiente para encher as barrigas. Ele estava embrenhado numa conversa estridente com um homem desconhecido, mais novo que ele.

Não seria problema.

Kenny teria ido por um golpe rápido à garganta; o homem nem o veria, afogando-se no próprio sangue em algumas batidas de coração. A multidão iriam funcionar para seu beneficio, caso ele escolhesse este cenário para uma morte. Levi sabia que era assim que se fazia, sabia que era o método de Kenny e que funcionava.

Não era o seu método. Não para um miúdo baixo de onze anos. Enquanto que Kenny se ergueria sobre o homem gordo, Levi nem lhe chegava aos ombros. Não um golpe rápido, mas tal como no seu treino, um golpe estrategicamente planeado que incapacitasse o alvo torná-lo-ia tão eficiente quanto Kenny e acabaria com isto em alguns segundos.

Não era o seu método. Não desta vez.

- Ei.

O homem gordo não o ouviu a princípio. O homem mais novo que o acompanhava, bebendo ao seu lado, olhou de relance para Levi, soltando um riso perante a imagem, como se ele o lembrasse de alguma piada pessoal.

- Alguém quer a tua atenção - palrou ele, despejando cerveja pela boca abaixo.

- Eh? Foda-se, nem se pode beber em paz caralho, vem sempre alguém rastejar...

O gordo virou-se eventualmente, mesmo quando Levi estava prestes a chamá-lo outro a vez. Aparentemente esperava alguém mais alto, porque a linha de visão manteve-se direita, num nível muito mais alto do que os olhos de Levi. O homem pestanejou ao espaço vazio e então baixou o olhar, encontrando o rapaz magro.

- Oh, este rasteja mesmo - troçou ele, os buracos pretos entre os dentes sobressaindo. Provocou uma sensação familiar em Levi que ele imediatamente afastou de si como se fosse sujidade. Tudo considerado, o chulo não mudara assim tanto. - Não és demasiado novo p'a 'táres à procura de uma puta?

Não se lembrava dele? Talvez não devesse ser surpreendente.

- Tiraste-me uma coisa.

O homem mais novo com a cerveja encolheu os ombros.

- Temos pena.

Levi lançou um único olhar ao intrometido, o sobrolho cada vez mais carregado. Tirando isso, a cara não traía as suas emoções. A respiração estava firme. Kenny iria repreendê-lo de outra forma, porque Kenny nunca misturava emoções no trabalho. Mas, de novo, Levi não era Kenny.

Ainda assim, respirou com firmeza.

- Achas que eu preciso de roubar alguma coisa de parasitas? Vai dar uma volta, puto - disse o gordo, resfolegando e voltando as costas ao rapaz.

Já não estava tão firme.

- A natureza não te deu senso comum, pois não.

- Vai dar uma volta!

- Não me vires as costas, seu porco do caralho. - A ameaça não foi levada a sério, apenas fez os dois homens e outros por perto rir.

A mão voou para as costas, e o gesto devia ser familiar suficiente para o homem mais novo porque ele gritou de imediato - Faca! - mas não esperava que Levi girasse sobre os calcanhares e atacasse mais rápido que uma cobra. Não puxou da faca, em vez disso usou-o como distração para criar balanço e aumentar a velocidade. O gordo virou-se pelo grito, e levou imediatamente com um pontapé no estômago, fazendo-o cair de joelhos grunhindo e guinchando como o porco que era, vomitando restos de cerveja e espuma.

O homem mais novo ficou surpreendido com a agressão, mas foi rápido a reagir e a tentar esmurrar Levi antes de ele conseguir atacar o chulo desdentado de novo. Apanhou Levi de lado na cabeça, calculando mal a altura da bochecha. O golpe desequilibrou-o ligeiramente, abrandando-o apenas o suficiente para que o homem gordo se desenrolasse da barriga e atacasse também. Estavam ao mesmo nível agora, por isso o punho do homem colidiu com o nariz e atirou-o para trás, sangue a jorrar em torrentes de dor.

As pessoas à volta afastaram-se às pressas após o primeiro ataque, dando espaço não para evitar serem atingidos mas sim para apreciar o espectáculo. Os urros começaram a ecoar quase de imediato, nenhum deles sabendo o que se passava nem por quem estavam a torcer. Só estavam a torcer pela violência.

Foi então que o homem mais novo saltou para agarrar Levi, gritando ameaças e cantando vitória, e foi então que Levi puxou a faca, girando a lâmina demasiado rápido para ser vista e atirando-a num arco que cortou carne real desta vez, não um assobio vazio mas gritos do homem quando a sua camisa suja ficou molhada, um corte diagonal vertendo sangue pelo seu abdómen. Recuou para longe do alcance de Levi, mais de medo do que devido ao ferimento em si.

A multidão festejou mais alto perante isso, aplaudindo e já começando a trocar algumas apostas entre si.

Levi voltou a rodar, o casaco deslizando por um dos braços mas não o atrapalhando, e viu o homem gordo a começar a levantar-se, olhos gordurosos e o resto dos dentes cerrados de raiva. Com um rugiro que carregava muito mais raiva do que ele alguma vez admitiria, Levi deu um pontapé na cabeça, mas a perna embateu contra um antebraço em vez de um crânio. Ele tentou fazer Levi cair, mas desta vez ele evitou perder o apoio e manteve-se equilibrado. O chulo levantou-se, toda a vantagem agora perdida - era só uma questão de encontrar uma nova vantagem. O chulo não era tão lento quanto o corpo poderia levar a crer, e tentou esmurrar Levi várias vezes antes de puxar de uma faca também.

Um erro e uma vantagem.

A lâmina era parte do seu braço. O gordo podia ameaçar pessoas, podia forçar pessoas a trabalhar para ele e arranjar outros para fazer o seu trabalho sujo, mas empunhara uma faca numa luta a sério umas cinco vezes na vida. Levi estava a ser educado por um assassino em série para se tornar igual a ele.

Mas ele não era Kenny, e nunca seria.

Levi bloqueou o ataque do gordo e fez a outra faca voar pelo ar. Mais gritos ecoaram. Depois de lhe atacar uma das pernas, desta vez o pontapé encontrou uma cabeça, e o homem caiu.

A certa altura, apercebeu-se que alguns dos gritos que ouvia eram dele próprio, mas não se preocupou em torná-los palavras coerentes.

Levi ignorou cada uma das pessoas à volta deles, os seus olhos, a sua mente, a sua raiva focada e colocada em cada pontapé, a força nunca parecia ser suficiente. Simplesmente não era forte o suficiente, o corpo não conseguia libertar-se de toda a raiva que sentia, não importava se o chulo estava esparramado no chão sob si, não importava se Levi saltava literalmente sobre ele uma e outra vez. O pé esmagou o nariz do homem e partiu-o.

Os punhos de Levi cerraram-se em torno do colarinho do homem, os músculos do braço ardendo e tremendo pelo esforço do peso anormal ao puxar o homem para cima, a dor só o deixando mais zangado.

- Já te lembras de mim agora, caralho?! - A cara flácida sob si estava ensanguentada e a começar a inchar, um trilho grosso vermelho rastejando até ao cabelo dele, o nariz não tão desfigurado como deveria, ainda tinha demasiados dentes apesar do esforço. Estava atordoado e a gemer, uma desculpa patética de um porco, tal como Levi queria. Puxou a faca à garganta do homem.

As pessoas à volta festejaram audivelmente, o som ajudando a bombear mais adrenalina no seu sangue e enchendo-o de uma noção de poder que, por uma vez, o fez sentir-se como Kenny. Devia matar esta pessoa que lhe provocara a ele e à mãe tanta dor, não devia hesitar. Kenny ficaria zangado se ele recuasse agora e não terminasse isto; a sua mãe ficaria triste se o visse continuar. Matá-lo ia acabar com aquilo.

Mas já tinha acabado. A mãe estava morta e nenhuma quantidade de mortes iria mudar isso. Os seus desejos podiam ecoar nele, mas cabia-lhe a ele decidir o que fazer.

Levi deixou o homem cair de cabeça no chão, arquejos de ar e sangue saindo da boca dele. Pelo menos provocara-lhe danos sérios, o chulo seria forçado a lembrar-se do fedelho magricela que avaliara mal para o resto dos seus dias.

Levi respirou sem dificuldade pela primeira na vida. Por uma vez, sentiu-se verdadeiramente realizado, e num rasgo de orgulho induzido pela adrenalina, olhou para cima, à procura de Kenny. Levi tinha-o ignorado completamente até aí, nem se lembrando que ele estaria a vê-lo, mas com aqueles urros e incentivos das pessoas à sua volta, não podia evitar querer ver a expressão de Kenny perante uma luta como aquela que ele começara e ganhara, à sua maneira.

Conseguiu apanhar de facto um relance de Kenny após procurar por um momento. O casaco comprido branco de Kenny, de costas viradas para ele e afastando-se da multidão.

Por alguma razão, Levi não pôde evitar sentir uma pontada inesperada e irritante de desilusão. O coração falhou uma batida que não era suposto. Por isso lutou contra ela de imediato com uma fungadela, uma carranca reflectida na cara ensanguentada em vez disso. Do que é que estava à espera, afinal? Que Kenny lhe fosse bater palmas e o elogiasse?

Engolindo o orgulho e sucesso tão depressa quanto eles tinham aparecido, Levi olhou para o gordo, a tossir e engasgado no próprio sangue, e deu-lhe mais um pontapé só porque sim.

Alguns gritos encorajaram-no a acabar com o chulo, mas Levi virou-lhes as costas a todos e foi-se embora, a empunhar a faca ensanguentada na mão afastada do corpo. Não queria sujar a blusa ou o casaco.

A cara estava pegajosa e nojenta com o seu próprio sangue, o cabelo desgrenhado e húmido de suor, e lentamente, a dor do murro estava a regressar aos seus sentidos. Encontrou um lençol pendurado para secar e limpou a faca nele, atirando água contra a cara de um balde ali perto. A dona de ambos depressa apareceu, uma adolescente que o chamou com um berro e que exigiu que ele pagasse pela água que sujara. Levi limitou-se a prometer-lhe que a iria compensar e afastou-se, ignorando o resto dos gritos dela.

Levi regressou ao esconderijo por uma via alternativa para evitar aquele MP jovem de antes, mas devia ter adivinhado que ia estar vazio. Aquela desilusão indesejada voltou a atingi-lo, e receou por um instante que Kenny estivesse desiludido com ele. Afastou o pensamento de imediato. Kenny estava só provavelmente a beber a porra da cerveja de que falara.

Quer ele estivesse chateado ou não, fora uma boa luta, isso ele não podia criticar. Levi iria enfrentar Kenny depois e fazê-lo engolir as palavras.

- Meteste-te numa briga, hã, Levi? - perguntou o dono do pub preferido de Kenny quando Levi entrou, inspeccionando rapidamente as mesas e os poucos ocupantes. Kenny não estava lá.

- O Kenny já cá esteve?

- Não o vi. - Aquela pontada de irritação devia ser mais visível do que ele pensara, porque o dono acrescentou: - Espera um bocado aqui, sabes com'é q'ele é, há-de aparecer. Queres uma cerveja?

Algumas pessoas, Kenny incluído, tentavam embebedá-lo com frequência. Faziam apostas para ver quem conseguia bater o miúdinho magricela, canecas de cerveja acumulavam-se, e continuavam a perder. Levi arranjava dinheiro fácil dessa forma. A sua resistência ao álcool era muito acima do normal, especialmente para a sua idade.

O que podia ser um problema, aparentemente, porque ele não se importava de poder ficar bêbedo.

- Queres uma cerveja, Levi?

- Claro. Queres fazer competição?

.

continua

.