Nota: Peço desculpa pelo tempo a traduzir o cap 2. A qualidade deste fic, que antes gostava bastante, agora irrita-me muito. Mas também não quero reescrever tudo.
Nota pt-pt para pt-br:
- 'biscates' é o mesmo que 'bico', mas a expressão 'bico' em pt-pt é usada num contexto muito diferente.
- 'rapariga' é o mesmo que 'moça' não tem a conotação negativa que tem em pt-bt
- 'gozar' é o mesmo que 'xingar', 'troçar', não o mesmo que em pt-br
- 'nódoa negra' é o mesmo que 'pisadura'
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Passaram-se cinco dias sem nenhuma notícia de Kenny. Levi não teve dificuldade em se safar; estava bem treinado para se aguentar bem sozinho, Kenny certificara-se disso. Só roubou uma vez, de resto recebeu pagamento legítimo nuns biscates (e uma boa soma das apostas de bebida). Entretanto, voltou à casa da rapariga adolescente a quem estragara o lençol e a água e devolveu-lhe dois baldes de água e um conjunto de lençóis. Ela achou que ele estava a roubar-lhe algo quando o reconheceu, mas parou de gritar quando Levi ameaçou despejar-lhe a porra dos baldes pela cabeça abaixo.
Quanto ao Kenny, ele que se fodesse. Não havia de se meter em problemas facilmente, e se sim, então ele que se desenrascásse das merdas dele sozinho.
As noites continuavam a ser, vergonhosamente, o pior de tudo. Levi já não gostava de ficar quieto em quartos escuros, à espera de algum tipo de cansaço mágico que lhe apagasse o cérebro e o levasse a alguma terra de conto de fadas num sono imperturbável. Estar sozinho com certeza não ajudava. Mas tentou pôr alguma lógica na própria cabeça; não era a primeira vez que Kenny desaparecia durante vários dias. O Kenny o Estripador não matava só MPs no Submundo. Ficaria aborrecido se só matasse os poucos que haviam aqui em baixo. Desaparecia alguns dias - nunca mais do que três, é certo - mas normalmente dáva a entender que o ia fazer antes. Fosse como fosse, Levi já não era um miúdinho. Kenny podia fazer e faria o que bem lhe apetecesse, independentemente do que um fedelhozito preferisse ou não. Isso não ia mudar. Portanto cabia a Levi mudar. Neste caso, aprender a descansar sem ser assombrado por coisas e medos que nem ele compreendia. Ou talvez aprender a simplesmente não dormir.
Na sexta noite, estava particularmente cansado pelo trabalho que arranjara naquele dia, e pela briga em que se metera por causa de uns idiotas que tinham gozado com ele. Não comeu nada quando regressou ao esconderijo, uma nódoa negra irritante no ombro a incomodá-lo. O facto de nem sequer ter considerado tentar limpar o sítio para relaxar devia dizer alguma coisa quanto ao seu estado. Só se enrolou no canto do colchão no chão, a sua cama, sem se deitar nem tirar os sapatos - algo de que se iria arrepender de manhã, toda a sujeira que o iria deixar enojado. Levi apoiou as costas contra a parede em vez disso, com o cobertor enrolado à sua volta.
Sozinho, cansado e sem ninguém para quem ter de se fazer forte, permitiu-se abraçar o cobertor com força, uma sensação demasiado familiar crescendo dentro de si. Tinha saudades de ser aconchegado na cama, receber alguma forma de carinho, os miminhos que só a sua mãe lhe dava, um sinal de amor. Uma segurança tão simples que era suficiente. Kenny estava longe disso, era o oposto da mãe, mas a companhia era reconfortante, mesmo nos dias em que se fartava tanto do homem que só lhe apetecia dar um murro naquela cara alta, ou pelo menos dar-lhe um murro no queixo para fechar aquela boca. Quando achava que Levi estava a dormir profundamente, Kenny costumava puxar o cobertor sobre Levi, ou certificava-se de que ele estava tapado, mais vezes do que o homem provavelmente iria admitir. Levi não exigia ou esperava amor de alguém além da mãe, mas esses momentos com Kenny eram um sinal silencioso dignos de nota e ele apreciava-los.
Agora aquele otário estava sabe-se lá onde sem sequer ter dito uma palavra. Levi permitiu, com bastante satisfação, que a anterior tristeza se afogasse em irritação com Kenny. Quando ele voltasse, Levi não iria dar qualquer sinal de que sentira falta daquele idiota, nunca. Iria perguntar-lhe: 'Então levaste uma tareia muito grande? Ainda te dói o couro?', e Kenny sendo Kenny iria resfolegar irritantemente, segurá-lo pela nuca e atira-lo para o lado 'Ah, como se isso fosse acontecer! Gostavas tu de saíres d'uma luta tão impecável como eu. Olha porra, agora pareço tu a falar! Ah! Maluquinho das limpezas.', 'Não, estou mesmo curioso. Estás com muitas nódoas negras? Porque eu vou encher-te de porrada, seu cabrão.' Kenny haveria de tentar agarrá-lo de novo, e agora Levi iria desviar-se sem problema uma e outra vez até o velho desistir contrariado, provavelmente tentando vencê-lo numa competição de cerveja em vez disso; e perdendo de forma igualmente humilhante.
O rosto de Levi escureceu por vontade própria e ele grunhiu silenciosamente. Por enquanto, pousou o queixo nos braços, embrulhado no cobertores, e desejou não estar sozinho.
...
Passou pelas brasas, claramente, porque os olhos estavam pesados e ensonados quando os abriu. O lado da cabeça estava ligeiramente dorido por ter ficado pressionado contra a parede, e a nódoa negra no ombro ainda estava a pressionar a pele ligeiramente, mas tirando isso estava confortável. Pestanejou devagar e preparou-se para se aconchegar contra a parede, mal ouvindo um movimento bem perto. Fadiga e preguiça fizeram-no voltar a pestanejar, um novo ruído provocando outro pestanejar. Um ligeiro estalido, peso a mover-se. Por meio segundo, o seu pensamento foi 'Kenny', mas de imediato o seu instinto disparou e dissolveu o cansaço.
O esconderijo estava embrenhado em escuridão, excepto uma luz ténue que vinha do exterior. Não devia haver luz nenhuma, porque a porta não devia estar aberta.
Levi disparou pelo chão mais depressa que uma cobra, desembaraçando-se do cobertor. Não puxou a faca, não sabia quantos eram, só rolou para a passagem que o tiraria dali, mas apesar da rapidez, parecia ser um rato encurralado. Um peso caiu sobre si quando um homem atirou uma mão contra as suas costas, abrandando-o o suficiente para prender outra mão no seu cabelo e puxar com força. Levi conteve a dor num grunhido zangado e tentou alcançar a faca no bolso de trás, agora com um objectivo claro, mas um novo par de mãos prendeu-lhe o pulso e torceu-o com força antes de conseguir enterrar a lâmina no homem atrás de si.
- Filho da puta - atirou sem pensar. O homem atrás de si soltou-lhe o cabelo e enlaçou braços fortes em torno do seu peito em vez disso, prendendo os de Levi contra o corpo. Usou isso para sua vantagem em vez disso, elevando as pernas e chutando em reflexo, sustentando o seu peso no captor e tentando acertar no outro, mas falhou e mal tocou no tipo que roubara a faca. Quantos é que eles eram?
- Calminha - disse o que estava à sua frente num tom de brincadeira, ganhando outro pontapé que só atingiu ar.
- A porra do puto tem pêlo na venta - sibilou o homem que o prendia, e a raiva de Levi voltou-se para ele então, levantando as pernas de novo e atirando todo o seu peso contra os joelhos do homem. O porte do homem era duas vezes, talvez umas três, o de Levi; apesar do grunhido audível, não foi suficiente para se libertar, e em vez disso o homem esmurrou Levi no rim, diminuindo a sua resistência momentaneamente.
- Isso é que é coragem - cuspiu Levi por entre dentes cerrados. - Ia estar bem na puta da vida se atacasse as pessoas enquanto dormem.
- Tu nem és uma 'pessoa', puto, olha só p'a ti - notou o que tinha a faca.
- Tens medo de atacar pessoas do teu tamanho?
- Sieg, as minhas mãos 'tão um bocado atadas agora, vais só ficar aí parado? - perguntou o homem que o prendia, levantando Levi no ar agora, mais por causa da diferença de alturas do que por outra coisa; não fez com que Levi parasse de o tentar atacar e ao outro tipo, Sieg.
- Eu gosto dos que dão luta, Albert.
Se havia uma coisa que Levi era, era persistente. Apesar da força dos oponentes, ambos os homens a esmurrá-lo, Levi ignorou os hematomas e continuou a pontapeá-los e atirou a cabeça para trás violentamente, acertando no homem em cheio. Por entre gritos e palavrões, Albert soltou-o só para lhe conseguir prender o braço em torno do pescoço e o voltar a levantar, fazendo-o deixar de sentir o chão sob os pés. Levi cerrou os dentes e tentou afrouxar o aperto, mas não valia a pena, nem conseguia mexer a cabeça. O coração começou a bombear-lhe nos ouvidos e ensurdecedeu-o, mas contra os sinais do corpo que lhe diziam que tinha de parar de resistir, sentir-se ficar sem ar tão depressa deixou-o zangado em vez de derrotado. Atirou o cotovelo para trás com força, não conseguindo bem ouvir o grunhido de dor por entre os seus próprios arquejos e batimento cardíaco. Estava a sufocar e sabia que não se ia conseguir soltar desta forma, o que apesar disso instigou um último ataque que saiu muito fraco, os pés pendurados contra as pernas do homem. Não conseguia acreditar que ia ser tão fácil desmaiar.
O braço à sua volta largou-o de repente e Levi caiu de joelhos e depois para a frente, tossindo e arquejando.
- Ele não desiste, hã? Tenho de admitir, puto, acertaste-me bem. 'Tou a sangrar muito, Sieg?
- Porra, o qu'ê que há d'errado com ele, meu? Isto é teimosia a outro nível.
- Ele é vivaço, lá isso é - concordou uma voz familiar, lançando mais um choque de pura raiva por Levi. - Odeio fedelhos assim.
Kenny ia dar-lhe tanto na cabeça, e desta vez ia ter razão para isso.
- Devia ter-te aberto a garganta - disse por entre tossidelas, quer para o porco desdentado quer para si.
- Andas a aprender com o Kenny o Estripador? - gozou o chulo, de forma demasiado irónica. Kenny era conhecido no Submundo, mas só a um número relativamente pequeno de pessoas; e nem todas elas sabiam que o Estripador era o espertalhão de chapéu e casaco branco. A voz do chulo gordo soava nasalada, o nariz tornado numa batata inchada pela fúria de Levi em frente do pub há dias atrás. - Vais arrepender-te de me ter humilhado daquela forma, seu fedelho nojento.
Num flash de raiva, sem nenhuma arma ou plano real, tentou atirar-se contra o chulo gordo, mas Albert voltou a prendê-lo pelo cabelo e puxou-o para trás, mantendo-o de joelhos no chão.
- Não preciso do Kenny para te matar - cuspiu de volta. As nódoas negras estavam a começar a latejar por todo o lado, a sua garganta a doer também e sabia que estava a sangrar da cara, mas decidiu ignorar a dor. - Tu é que precisas de dois gajos para bater num miúdo. Nem consegues cagar sozinho.
O chulo gordo rosnou e avançou, puxando o braço atrás e atirando-o a voar contra a cara de Levi. A dor explodiu e ele teria caído se Albert não lhe tivesse puxado o cabelo e segurado pelo ombro magoado para o manter de joelhos.
- 'Tavas a dizer?
- Como é que acharam este sítio, porra? - Levi cuspiu sangue, o lábio inferior a arder e a latejar. Cerrou a mão em torno do punho de Albert para tentar aliviar algum do puxão, estava a irritá-lo.
- Não és tão esperto como pensas que és. Foges a correr p'á tua lixeira assim que gozam contigo, como um bebézinho.
Apontado.
Os olhos ajustaram-se ao ambiente escuro, a luz fraca vinda do exterior já suficiente para distinguir os vultos dos que estavam à sua frente. Sieg era um homem magricelas que usava um colete aberto. A cara não estava muito visível, mas o suficiente para perceber que a sua maneira convencida de falar estava reflectida na expressão. Tudo o que precisava de saber sobre Albert, o que o estava a prender, era que ele era alto e mais forte do que Levi. Quanto ao chulo, Levi desejou poder confirmar se lhe partira dentes suficientes.
Sieg girou a faca que tirara a Levi e entregou-a ao chulo, apoiando-se contra a parede onde Levi estivera, as botas sobre o colchão. Irritou-o ter um gajo qualquer sujar o seu espaço, mas isso fê-lo lembrar-se de uma coisa. Quem diria que dormir com os sapatos haveria de lhe dar jeito? Tinha uma fina lâmina escondida na sola.
- Pela tua berraria no outro dia, suponho que sejas filho d'uma das putas.
Levi tentou acertar em Albert de novo com o cotovelo, sentindo a nódoa negra no ombro latejar dolorosamente. Como esperado, o homem alto bateu-lhe em resposta e Levi deixou o braço cair de propósito como se estivesse finalmente a admitir derrota. Dessa forma, não chamaria a atenção quando se movesse para mais perto do pé esquerdo.
- Agora foste tu que me tiraste uma coisa a mim, e vais ma pagar. Ninguém me ataca no meio da porra da rua, que tipo de imagem é que isso passa?
- Que és um porco inútil.
O chulo voltou a aproximar-se, bloqueando a maior parte da luz do exterior com a sua forma gorda. Pelo cheiro, estava provavelmente a usar a mesma camisa do outro dia.
- Na minha opinião, só há três maneiras de resolver isto - disse o homem gordo, perdigotos a saltar pelo espaço do seu dente em falta. Levi focou-se em voltar a mão lentamente na direcção do sapato. - Primeira, damos-te um enxerto de porrada, partimos-te os braços e as pernas e deixamos-te aqui com a lição aprendida. Quero lá saber se morres ou não.
Se estava mesmo à espera de o ver assustado e a tremer, Levi nem sequer pestanejou.
- Segunda, pagas-me o que já fizeste trabalhando p'a mim. Segues o negócio de família, 'tás a ver. - Albert riu e beliscou-o com força na bochecha. Levi afastou a cara. - Putos violentos têm procura, acredita, e tende a passar por te encher de porrada dia e noite até ficares calminho. Quanto mais teimoso melhor, na verdade.
Mostrou a lâmina a Levi, girando-a na mão.
- Terceira, acabamos com isto aqui e agora e despachamos o assunto, depois de teres a tua dose saudável de espancamento. Como podes ver, as três opções têm uma coisa em comum.
Levi considerou a situação e quão perto estava do fino punho da lâmina escondida, movendo-se de forma irritantemente lenta para que não reparassem. Encolher-se como um miúdinho poderia na verdade ajudar a fazê-los baixar a guarda, por isso fez isso mesmo. Albert riu, dando-lhe uma palmadinha na cabeça.
- Assim é que é, puto.
O homem gordo inclinou a cabeça para o lado, os olhinhos fixos nele. Todos já estavam ajustados à pouca luz, já se conseguiam distinguir uns aos outros.
- Oh - murmurou ele finalmente, os lábios abertos. - Oh... Olympia.
O seu plano parou de imediato, Levi não conseguiu impedir que o seu rosto escurecesse e mostrasse demasiado bem quantas mais vezes queria espezinhar aquela boca sem dentes.
- Olympia... Kuchel, não era? Yá, eu comi-a umas quantas vezes. - O homem gordo estava a tentar provocá-lo, até os outros dois cabrões sabiam disso com os seus sorrisos e risinhos crescentes, mas Levi queria mesmo partir-lhe a cara. - Tens o focinho dela, lá isso tens. Não ia saber que ela tinha morrido se aquele anormal com o chapéu não tivesse lá ido e te tivesse roubado. O que na verdade... - pausou, esfregando o nariz partido com um ar pensativo estúpido. - O que na verdade significa que já és meu p'a começar, n'é? Acho que isto resolve a questão. Por quanto é que acham que o consigo vender?
- Vais ter mais sorte se lhe quebrares o espírito um bocado antes de o venderes - sugeriu Sieg do seu canto. - Mostra-lhe como é que o mundo real trata meninos bonitinhos abandonados.
- Yá, porque se este foge do comprador, vem atrás de ti - concordou Albert.
- Bem, é suposto as minhas putas trabalharem antes de serem vendidas. Já que vocês os dois são tão boas pessoas, faço-vos um preço especial. Albert, Sieg?
- Ná - Albert voltou a beliscá-lo, mas noutras circunstâncias, quase poderia ser na brincadeira. - Ele é um miúdo, e um rapaz. Não é o meu tipo.
- Tenho suficiente p'a quatro cervejas - Sieg deu palmadinhas no bolso, algumas moedas tilintaram quando as retirou e avançou.
- Bah, pode ser. - O chulo ficou com o dinheiro e antes de Levi puxar a faca, um novo soco pesado voou contra a sua cara. De novo, só permaneceu de joelhos por causa de Albert. O homem desembaraçou a mão do cabelo de Levi, fazendo-o perder o equilíbrio quando um segundo murro lhe acertou de lado na cabeça. Levi caiu dolorosamente, nem querendo admitir o quanto os seus ouvidos zumbiam e quão enjoado se sentiu. Conseguiu puxar os joelhos contra o peito, parecendo-se com um bebé encolhido. Conseguia ouvir as gargalhadas deles, mas não estava para desperdiçar mais uma oportunidade.
O chulo agarrou-o rudemente, prendendo-o pelo pescoço para o forçar de joelhos de novo e cerrou uma mão gorda sobre a sua boca.
...Mais uma vez, a natureza não dera senso comum àquele homem.
O chulo soltou um urro quando Levi enterrou os dentes com força na carne do homem, fazendo os outros dois capangas saltarem de susto. Levi puxou a faca do seu compartimento e moveu-a num arco, e naquele instante não houve nem dor nem medo ou preocupação. Se pudesse parar para pensar sobre isso, poderia ter sido quase um choque, uma noção clara de si próprio, de ser acordado pela primeira vez. Resumiu-se tudo àquele movimento que treinara tantas vezes, e ainda assim foi diferente de qualquer outra.
Girou a lâmina e enterrou-a na garganta do homem, sangue jorrando e cobrindo-os aos dois quando a arrancou e a voltou a enterrar uma segunda vez na carne tenra.
Não foi nada como o rapazinho trémulo de olhos esbugalhados e aterrorizado que fora há anos atrás quando tivera de matar um MP pela primeira vez e recebera risos de superioridade de Kenny. Não foi nada como ele próprio, há três semanas, escondendo as mãos trémulas e disfarçando o seu medo não só de Kenny. Não foi como ele próprio há seis dias atrás, quando apesar do seu ódio, não sentira a necessidade de matar.
Ele conseguia matar, e naquele momento, queria fazê-lo. Enquanto o chulo desdentado tossia e se afogava no sangue que jorrava da boca, Levi sentiu aquele choque e foi uma sensação boa - por ele, para ele. Tinha esta capacidade e ia usá-la. Poder.
Enquanto Sieg recuara contra a parede, Albert investira. Levi arrancou a faca da carne e saltou para o homem alto, falhando o pescoço pelos reflexos rápidos de Albert e enterrando-a na clavícula em vez disso. O homem rugiu de dor, e Levi girou a lâmina num piscar de olhos e cortou ar e depois osso.
Sieg ficou colado à parede, demasiado petrificado para pensar em fugir. Também parecia estar a sufocar, incapaz de forçar oxigénio nos pulmões e bombear-lhe os sangue. Levi saltou de cima de Albert quando o homem caiu como um castelo de cartas e mal dispensou um olhar a Sieg. Conseguia sentir o medo do homem, conseguia sentir o seu próprio poder. Quer o homem ficasse ou fugisse, Levi haveria de o apanhar.
Portanto, em vez disso, voltou-se novamente para o chulo quando o corpo do homem teve uns espasmos e ficou imóvel. A faca que lhe fora roubada foi devolvida ao seu lugar no bolso de trás escondido pela blusa da mãe, e remexeu nos bolsos do homem, encontrando as moedas. Levi olhou finalmente para Sieg então, e o homem soltou um gemido baixinho e ridículo enquanto ele girava uma moeda nos dedos.
- Suponho que isto seja meu.
- Isso... i-isso é- isso foi só-
- Oh yá, eu sei que era só uma piada.
- E-Eu não-
Levi moveu-se contra ele e enterrou a faca no estômago, puxando-a para fora e vendo o seu colchão e cobertor ficarem ensopados em sangue. A imagem conseguiu causar-lhe irritação enquanto o corpo caia sobre o lugar onde ele costumava dormir. Ia ter de roubar tudo aquilo de novo agora.
Não olhou para trás para nada. Não havia nada para resgatar, só queria sair dali e ir para outro lugar, qualquer um.
Isso não mudava o facto de estar literalmente coberto de sangue. Não mudava o facto de apesar de ser de noite, pessoas deambulavam pela rua. Aqueles que apanhavam relances dele rapidamente trocavam palavras entre si e mudavam o percurso para ruas diferentes, e naquele momento Levi ficou agradecido por isso.
Agora que a adrenalina estava a desaparecer, era como se tudo estivesse lentamente a drená-lo e apesar disso não ia parar de andar. Cada passo trazia uma pergunta, para onde ir, quão imundo estava, como é que ia tirar o sangue da blusa da mãe, se algum dos ferimentos precisava de tratamento decente, como encontrar tratamento, será que conseguiria lavar todo aquele sangue e onde se iria lavar, quanto tempo demorariam as nódoas negras que se alastravam a sarar, será que comer o faria sentir-se melhor, quanto tempo é que Kenny ia demorar a voltar, como é que se iriam reunir. Porque é que se sentira tão diferente a matar quando antes sempre ficara desconfortável. O que fora aquilo?
- Ei! Miúdo, estás bem?
Levi estivera a olhar em frente o tempo todo, só não vira nada. Quando focou os olhos e pestanejou, reconheceu as cores de um uniforme militar, uma arma pronta a ser apontada.
- Merda.
- Quieto! - Mas antes que o MP acabasse de gritar, Levi já saltara para uma rua lateral e saíra disparado, ouvindo o eco dos passos a começar a perseguição, mas sem abrir fogo. Um dos novos recrutas, claramente, ainda assim Levi não estava disposto a ser apanhado e ter de ser resgatado ou abandonado por Kenny.
Levi escapuliu-se por janelas e fugiu por edifícios abandonados até despistar o seu perseguidor. Encontrou uns órfãos num dos apartamentos abandonados, dois miúdos que olharam para ele com medo. Levi deixou-os em paz, mas vê-los fê-lo pensar em quantas pessoas estariam naquele prédio e se poderia ou não misturar-se entre elas e encontrar um lugar seguro para passar a noite. Correu escadas acima e achou uma porta aberta que o levou a uma divisão que fora suposto ser um quarto, há algum tempo. Estava milagrosamente vazio, mas também sem qualquer mobília. Tinha uma janela voltada para a rua, que Levi inspeccionou antes de se permitir expirar e cair contra a parede, deslizando até ao chão e tentando ignorar tanto quanto possível a quantidade de sujidade que tinha sobre si, sob si e à sua volta.
Mas que dia. O corpo estava a finalmente a tentar forçá-lo a parar, tinha de abrandar. Da dor, do esforço, e daquele choque que o percorrera e o fizera cravar a faca com precisão e implacável.
Fora em legítima defesa. Levi estivera a salvar-se, haviam poucas dúvidas nesse aspecto. Mas parecera ter sido diferente. Estava coberto de sangue, as mãos estavam cheias dele, agora seco e a estalar em finas camadas e a repuxar a pele sob elas. Isto era normal? Ou correcto?
Mas onde estava Kenny, porra? Não tinha mais ninguém a quem pudesse fazer qualquer uma daquelas perguntas. Mesmo se tudo o que recebesse fosse uma gargalhada e um empurrão, Kenny haveria de saber o suficiente sobre matar para lhe dar alguma coisa eventualmente, algum comentário. Era suposto isto significar que se estava a tornar como Kenny? Ia começar a matar pessoas como modo de vida?
Sozinho, tinha de tentar achar alguma forma de resposta para tudo aquilo. Legítima defesa era muito diferente de matar a sangue frio como Kenny. Fora um choque de poder provocado pela adrenalina, pelo medo que provavelmente tivera sentido... só que não.
Não se sentira assustado. De todo. Nem sequer quando o chulo o ameaçara, ou quando fora espancado ou vendido. Muito menos quando os matara, embrenhado naquela sensação estranha. Levi sempre tivera um conflito interno acerca de ajudar Kenny, tentara controlar o seu medo. Então era suposto isto significar que estava a ficar melhor naquilo? Kenny haveria de o chamar evolução, de facto estar a ficar melhor. Começando e acabando com brigas sozinho, sobrevivendo contra as espectativas. Era poder, tal como ele sempre dissera ser a única coisa-
Os olhos de Levi arregalaram-se. Moveu-os da parede para o chão, sem ver coisa nenhuma.
Kenny não podia saber o que acabara de acontecer, mas acompanhara uma evolução de muitas formas. O próprio Levi sentira-se particularmente orgulhoso quando encontrara e espancara o chulo gordo e desdentado há seis dias. Fizera-o sozinho, com os seus próprios meios, contra mais oponentes e maiores do que ele. Tomara a sua própria decisão de não matar o homem na altura, e com isso, as consequências eram também da sua responsabilidade.
Mas a questão era, tudo aquilo acontecera durante um dos passeios de Kenny em que o seguia. Será que ele estivera mesmo a avaliá-lo? A ver quão bem ele se conseguia aguentar? O quão forte se tornara sozinho?
Levi estendeu as mãos ensanguentadas, o sangue de três pessoas e o dele próprio combinados. Fosse como fosse que tentasse olhar para aquilo, certo ou errado, aquilo era um sinal de poder. Não teria sido capaz de fazer aquilo antes, nem teria tido a necessidade de lutar sozinho naquela situação complicada. E ainda assim ele tivera tudo o que fora preciso, de acordo com os critérios de Kenny. Situações complicadas resolvidas com o seu próprio poder, sozinho.
E ele estava sozinho por um motivo.
Kenny não estava desaparecido. Fora-se embora.
Pela primeira vez nesta noite, por fim, o seu coração falhou uma batida e afundou-se. Esqueceu-se de como respirar, até eventualmente os seus lábios se abrirem.
A mãe fora levada por doença, contra sua vontade e contra os maiores esforços de Levi. Mas agora, nada forçara isto. Fora deliberado, e planeado. Não importavam os seus desejos, ou seus medos, ou ele. Não importava.
Kenny fora-se embora. Deixara-o.
Kenny abandonara-o.
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fim
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Obrigado por lerem, se acharem erros por favor digam.
Este fic faz parte de uma série chamada 'Uma família disfuncional', dito kid!Levi, histórias independentes mas que formam uma continuidade se as lerem por ordem. Podem usar ctrlf no meu perfil para as achar e ler os sumários e avisos. Aqui está a lista:
1 - Palavras de despedida (Kenny, Kuchel)
2 - Mudança (Kuchel, Levi)
3 - Um dia (Kuchel, Levi)
4 - A Janela para o Céu (Kuchel, Levi)
5 - Algo importante (Kuchel, Levi)
6 - Escolha (Kenny, Levi)
7 - Primeira (Kenny, Levi)
8 - Dor (Kenny, Levi)
9 - Lembranças e destroços (Levi, Kenny)
10 - A Conversa (Kenny, Levi)
11 - Palavras (Levi, Kenny)
12 - Perda (Kenny, Levi)
13 - Decisão -estão aqui-
14 - Pai com outro nome (Kenny)
15 - Sozinho (Levi)
