Capitulo 1 – O Casamento interrompido!
Todas as noites, todas as torres e templos de Siracusa eram banhados pelo intenso e prateado luar, que cintilavam perante tal reflexo. Era de facto, uma bela e grandiosa cidade situada na ilha italiana de Sicília, onde a prosperidade e os bons costumes da religião dominadora reinavam em paz. Podia-se dizer que Siracusa era uma das cidades mais bem movimentadas pela alta burguesia, que procuravam negociar suas mercadorias com grandes mercadores ingleses. Estes também exportavam e comercializavam suas mercadorias, para fornecer os agitados mercados do reino. Os únicos capazes de contrariar qualquer regra do mercado comum, eram os famosos contrabandistas de rum. Eles faziam as suas próprias descargas em pleno luar, longe das vistas do povoado e dos Guardas da Marinha, que vigiavam atentamente os portos
E era por isso que a poucos quilómetros de Sicília, propriamente da costa de Siracusa, um navio negro singrava descontraidamente pelo Mar Mediterrâneo, cortando impetuosamente as ondas com o seu casco. Após uma longa e quase interminável jornada, o Perola Negra navegava por outros mares, em busca de novos portos e pilhagens, embora Siracusa não fosse um porto tão desconhecido para o Capitão Jack Sparrow e alguns membros da sua tripulação.
-Uma boa ilha para atracar – murmurou Jack, observando atentamente pela luneta o cais da ilha. – Aqui tem definitivamente o melhor Rum, sobretudo aquele que nos chega em circunstâncias um pouco duvidosas, se é que me faço entender. – Gibbs tinha percebido a ideia, sorrindo. - Atracaremos aqui.
-Tem certeza Jack? Não será precipitado…
-Não meu caro Gibbs, a ideia não é precipitada, muito pelo contrário, até é bem ponderada. Agora faça a gentileza de avisar esse monte de mandrião sobre o meu humilde pedido, isso se não for pedir muito. – Gibbs deu ombros, contrariado, virando-se para a tripulação dispersa no convés.
-Não ouviram o Capitão? Preparem o navio para atracar. – berrou Gibbs para que todos o pudessem ouvir, enquanto os marujos se mexiam como baratas tontas. – Que pensa fazer nesta ilha, Jack?
-Reabastecer o Pérola com os melhores depósitos de rum.
-E pensa ficar aqui até quando? – insistiu o primeiro imediato, apercebendo-se da curta distância que faltava para concluir a viagem.
-Até ao anoitecer. – Jack virou-se para a tripulação. - Por isso, seus cães sarnentos, divirtam-se o bastante para logo depois partimos. E nada de arranjarem sarilhos, se não brevemente poderemos ter uma corda bem apertada para nos deslocar o pescoço do corpo. - fez um trejeito dramático ao entornar o pescoço. - Savvy? – Não aguardando réplica de nenhum marujo, Jack fechou a luneta e então foi até ao convés.
-O capitão não está agindo de forma estranha, ou err, ainda mais estranha? – indagou Marty ao erguer os braços, à medida que encolhia seus ombros.
-Se formos por esse caminho, julgo crer que o capitão terá um bom par de motivos para tal. – Gibbs suspirou e fitou o anão ao seu lado. – Não se esqueça que nestes últimos anos, Jack sofreu uma mutação de aventuras inesperadas, umas seguidas das outras. Comecemos pelo simples facto dele ter sido engolido pelo monstro mitológico e ter sido levado para o cofre de Davy Jones. Ele perdeu um pouco do seu incerto juízo nesse lugar nefasto, contudo conseguiu guardar algum para defrontar Lord Beckett. Todavia, outro golpe lhe é aplicado ao ver o casal Turner ser separado pela ponta impetuosa da espada de Davy Jones. – Um sorriso sereno ampliou em seu rosto. – Além de que, pela segunda vez, viu Barbossa desaparecer com seu precioso tesouro. – Amaciou a amurada como se seus dedos fossem uma pena. – A sorte dele foi ter sido mais perspicaz e lhe ter roubado as Cartas de Navegação mais cedo, se não Barbossa nunca teria voltado à sua procura. Mesmo assim a Água da Vida não ficou nem para Barbossa ou Jack e sim para o pior inimigo da Corte da Irmandade: Black Dog. – Gibbs acabou de contar pelos dedos cada pormenor, pensando se lhe escapava mais alguém. – Se depois disso, Jack estivesse agindo de forma normal, aí sim, eu estranharia
Jack observava cada detalhe do palácio que dominava o centro da cidade. Era sempre uma visão impressionante vê-lo tão majestoso, porém hoje a luz dourada de centenas de velas tornavam-no mais glorioso, o que levou Jack a pensar que haveria um motivo bem especial para tal acontecimento. Ele cruzou os braços, levando a mão direita até suas duas tranças. Apesar de tentar pressupor o que se passaria dentro daquelas paredes bem orçamentadas naquele preciso momento, Jack deixou-se levar pela doce tentação de imaginar as possíveis riquezas que esse acontecimento poderia estar proporcionando.
-Interessante. – murmurou, sorrindo manhoso. – Muito interessante.
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Nesta preciosa noite ia acontecer no palácio o casamento de uma das princesas, como mandava a tradição da terra. Ao povo tinha sido anunciado que Perla Neblon, filha mais velha do rei Hieron, ia se casar com Alessandro Ramirez, um jovem de alta nobreza e de boas posses, possuidor do cargo de Comodoro da Armada Militar de Siracusa. Era igualmente um grande amigo de Perla, já que ambos tinham crescido praticamente juntos, o que facilitou o arranjo daquele casamento.
A única a não compartilhar da mesma felicidade que a corte e do rei era a própria noiva, pois apesar de considerar Alessandro como um irmão, não queria casar com alguém que não amasse.
No seu quarto, já trajada com o seu esbranquiçado e bem adornado vestido de noiva, Perla suspirava a sua angústia, ao mesmo tempo que Amélita, a ama e governanta do palácio, lhe arranjava os últimos pormenores no cabelo.
-Meu doce, você está linda. – elogiou a ama ao findar seu trabalho.
-Obrigada. – murmurou Perla num tom seco, fitando fixamente a janela, como se evitasse que uma torrente de lágrimas desencadeasse de seus olhos verdes.
Da janela, podia obter a magnifica paisagem do Mar Mediterrâneo, que cintilava intensamente com os últimos raios alaranjados do sol. Perla soltou um novo suspiro, melancólica. Nos últimos tempos, nada parecia correr bem, principalmente desde que a sua mãe morrera. Sentia falta das histórias que a faziam sonhar alto e das brincadeiras que ambas participavam ao entardecer. Contudo, neste preciso momento, ela almejava ter um segundo com ela, para não se sentir perdida e sozinha. Necessitava dos seus concelhos, do seu apoio incondicional, ainda para mais neste momento crucial da sua vida. Levou a mão ao decote, puxando um colar em forma de cruz e esboçou um sorriso distante ao apertá-los sob seus dedos. Tinha sido a sua mãe a lhe oferecer horas antes de morrer, e no qual ela apertava vezes sem conta, quando se sentia só.
Desviando a atenção do colar, Perla reparou nas crianças lá fora. Elas brincavam de piratas com suas espadas de madeira, aventurando-se corajosamente e sem medo algum nas novas descobertas.
Por momentos desejou ser como elas, livre pelo menos uma vez na vida sem ter regras ou obrigações a cumprir, disfarçando assim a sua infelicidade com um falso sorriso, só para manter as ridículas aparências. Como queria uma vida de pirata para ela, longe daquela mordomia toda e daquela Nobreza hipócrita que pareciam parasitas em épocas de festa. Bufou.
Das crianças, ela olhou para o porto, onde observou os sumptuosos navios lá ancorados até o seu olhar recair sobre um navio completamente diferente dos outros. Isso chamou a sua atenção, mas não teve tempo de o observar meticulosamente, pois Amélita quebrou sua meditação.
-Você não está feliz, pois não Perla? – a princesa baixou o rosto ao tentar passar despercebida, sentindo seus olhos arderem. – Eu já conheço você o suficiente para afirmar tal coisa, meu bem.
-Eu não amo Alessandro, Amélita. Ele sempre foi como um irmão para mim, mas nunca passou disso. Desde que meu pai meteu essa ideia de casamento na cabeça, que não consigo pensar em mais nada. – confessou a jovem; ergueu o olhar ferido e enraivecido. – Mas se isto é um bem para o reino, então que seja. – Ela respirou fundo, tentando não chorar.
- Alessandro te fará feliz. Ele é um bom moço e ama demasiado você. – Ao se aperceber que aquele assunto incomodava Perla, ela tratou de o mudar: - E sua irmã, onde está?
-Eu não vejo Estella desde ontem. Se calhar deve estar na companhia de Silver, já que ambos não se largam…- Perla foi interrompida por alguém que bateu á porta, abrindo-a lentamente.
-Vim buscar a noiva. – anunciou o Rei com um grande sorriso nos lábios e um entusiasmo notório. – Você está muito preciosa, filha mia. – Ela pegou no buquê mostrando-se impassível. – Estão todos no salão á sua espera e o Comodoro Ramirez está num estado de nervos só visto. – Hieron estendeu o braço a Perla que o fitou firmemente, ponderando se aceitava ou não. – Vamos Perla, seu noivo está ansioso. – Perla desviou o olhar para Amélita que fez sinal para ela reagir.
Rendida por completo, cedeu aos caprichos do pai ao entrelaçar o seu braço no dele. Ambos moveram-se para fora do quarto e atravessaram um longo corredor em direcção a uma grandiosa sala bem adornada. Lá uma multidão animada de pessoas esperava receber a noiva. O caminho foi feito praticamente em silêncio, onde apenas se escutava os tacões de Perla entoarem no corredor vazio do palácio, o que aumentava ainda mais o seu nervosismo. Quando finalmente chegaram á entrada do salão, as portas foram abertas por dois guardas, e lá dentro, uma melodia cerimoniosa soou, misturando-se com os burburinhos incómodos das pessoas.
Perla parou, observando petrificada o interior do salão. Aquilo era real demais. Como desejava que este dia não passasse de um simples sonho. Seu pai incentivou-lhe novamente a marcha. O ritmo da melodia ia de encontro ao compasso das passada desoladas dela, à medida que se aproximava do altar. Perla olhou à sua volta, deparando-se com olhares invejosos sobre si, outros apenas abismados com a beleza de seu vestido rendado. De repente para ela, tudo ficou em pleno silêncio, como se apenas o eco daquela gente murmurando lhe entrasse nos ouvidos e tudo mexesse de uma forma lenta e penosa. O único barulho nítido que ela tão bem conseguia ouvir era o bater de seu coração, que a cada passo que dava para Alessandro, ia acelerando, como se fosse explodir a qualquer momento.
Durante esse tempo, Alessandro aguardava-a maravilhado, especialmente por ver Perla tão linda naquele vestido de noiva, estilo grego. Só agora tinha noção que iria casar com a mulher que amava desde a sua infância. Iria finalmente realizar o seu grande sonho. O que lhe custava ver era o rosto de desânimo dela, que tentava disfarçar a sua tristeza com um puro sorriso. Alessandro foi então buscar a noiva a meio do caminho, vendo o rei conceber a mão da filha a ele. Perla deu o braço ao Comodoro e ambos encaminharam-se para o altar.
-Se me permite tal comentário, alteza, você está linda. – segredou ele vendo ela mover um canto de seus lábios, contrafeita.
-Você também está perfeito.
-Você se tornou numa bela moça Perla, e eu o maior sortudo por casar consigo. – Ela baixou o olhar. Alessandro sabia que Perla fazia aquilo por obrigação e isso partia o seu coração, principalmente vê-la assim, tão infeliz. Quando chegaram ao altar, ele deteve-se e encarou-a seriamente, sussurrando: - Se você não quiser, não nos casamos. Eu não quero vê-la assim, logo no dia em que deveria estar feliz. – Ela apreciou cada traço do homem e passou-lhe a mão pelo rosto.
-Alex, você sabe que eu te adoro, mas… -Ele colocou suavemente dois dedos sobre a boca dela.
-…sou apenas o seu grande amigo, e que você não me ama. Eu sei disso, sempre soube…
-Mesmo assim arriscou casar comigo. – Perla molhou seus lábios para continuar: – Sei que me fará feliz, por isso não há nada como tentar. Eu vou fazer os possíveis para te retribuir tal felicidade. – Ele beijou-lhe o dorso da mão e ambos viraram-se para o Padre que os esperava.
-É com imensa alegria que acolhemos vossas excelências: a Princesa Perla Messina Bonny Neblon e o Comodoro Alessandro Maurizio Salvatore Ramirez, para celebrar o amor que os une… -Aquela conversa parecia nunca mais ter fim, e Perla aproveitava para fitar a janela, começando a ver o sol desaparecer por entre o calmo mar -Comodoro Alessandro Ramirez, aceita a Vossa Graça Perla Neblon como legitima esposa? – Aquela pergunta fez Perla despertar de seu transe e encarar o homem ao seu lado.
-Aceito.
-Alteza Perla Neblon, aceita…
-Vossa majestade. – Amélita entrou de rompante pelas portas entreabertas do salão e desatou a correr pelo meio da cerimónia, gritando em desespero: – Vossa majestade. - Toda a atenção virou-se sobre a mulher chorosa, que transportava em suas mãos um pequeno envelope.
-O que se passa Amélita? – Recriminou o Rei ao se erguer da poltrona. - Espero que tenha um bom motivo para interromper a cerimónia…
-Sua filha, majestade. – A ama deteve-se diante deles, respirando ofegante - A princesa Estella. – ela ajoelhou-se e entregou o envelope ao rei, que o abriu sem demora. Em alguns segundos, caiu quase inanimado sobre a poltrona e deixou cair a carta.
-Que se passa papá? – indagou Perla e assustou-se ao reparar no olhar vidrado que seu pai lhe lançava.
-Filha mia, sua irmã foi raptada. – comunicou o rei angustiado, vendo ela levar as mãos à boca.
Perla sentiu que seu coração tinha sofrido um baque seco ao receber a notícia. Imediatamente foi apoiada por Alessandro que teve a sensação de a ver cambalear para trás, pronta a desmoronar naquele preciso momento. Mas o que mais a entonteceu, foram os murmúrios estupefactos e perplexos dos convidados. Ao se aperceber da reacção da jovem, Alessandro voltou-se para o salão repleto de convidados e proferiu educadamente:
-Como podem vossas excelências observar, já não haverá condições para realizar este casamento. – Estonteada, Perla maneou automaticamente a cabeça. – É melhor cancelá-lo até sua irmã aparecer. – Ela concordou ainda desnorteada com a notícia da irmã. – Por isso, peço com toda a gentileza possível que se retirem para os seus aposentos. – os burburinhos aumentaram sonoramente, talvez contrariados. - Muito obrigado por terem comparecido e peço imensa desculpa pelo sucedido... – Alessandro viu todos saírem daquele salão; os guardas trataram de fechar as portas, deixando apenas os familiares.
-Amélita quem lhe entregou isso?
-Quando eu ia verificar se o salão de jantar estava pronto para receber os convidados, abordaram-me. – Relatou ela, numa voz esganiçada e desvairada. – Um homem, cujo rosto não lhe vi, disse que era portador de más notícias e entregou-me o envelope. Quando ia perguntar o que era aquilo, o homem desaparecera. Vi-me obrigada a ler a carta e… e…
A mulher voltou ao mar de lágrimas ao passo que Perla ganhava coragem para pegar naquela carta tombada no chão. Alessandro desabrochou um pouco o laço de braços que a aparara e deixou-a caminhar pelo seu próprio pé. A jovem aninhou-se, com o pequenas gotículas a deslizar-lhe pela testa, e pegou na carta, desejosa que aquilo fosse uma partida de muito mau gosto. Ou melhor, que fosse um pesadelo. Ao abrir cuidadosamente a carta, apercebeu-se de uma caligrafia perfeita, toda ela bem desenhada num italiano fluente.
-Temos em nossa posse a herdeira mais nova do trono, Estella Beatrice Bonny Neblon. Para recuperarem a vossa maior preciosidade, terão de nos entregar o tesouro supremo. Um tesouro infindável.- Com a voz trémula, tal como os seus membros, Perla fez uma pausa para reflectir: - Um tesouro interminável? Nós não temos esse tesouro infindável.
-Não está em nossa posse – Hieron fez um gesto com a mão para que ela continuasse a leitura.
A jovem trocou um afligido olhar com Alessandro, que a seguia atentamente. Fez uma mesura de encorajamento à noiva. Perla mergulhou novamente a sua atenção sobre aquela caligrafia perfeita.
-Essa riqueza bruta encontra-se perdida nestes sete marés e resume-se apenas a um objecto: A Mão de Midas. O que vos será pedido é que descubram esse artefacto num prazo de dois meses. Sim, terão dois longos meses para acharem-na e nos entregarem. Arranjaremos maneira de efectuar a troca. Caso não nos entreguem nada, ou nos preguem alguma espécie de armadilha, só encontraram o corpo sem vida da princesa, perdido algures nos jardins Reais. – Perla estremeceu ao ler a última frase. – Mas que valor tem esse maldito objecto? Não era mais prático pedir a fortuna do Rei, do que exigir esse maldito objecto que ninguém imagina o que é?
-É isso que não entendo filha mia. – A voz do rei saia moribunda.
-Essa relíquia é muito mais valiosa do que a fortuna do rei. – Pai e filha voltaram sua atenção para Alessandro; este massajava o queixo ainda a considerar tais palavras que Perla proferira.
-O que vamos fazer, papá? – O rei mantinha seus lábios numa linha tensa.
-Irei imediatamente reunir-me com os meus conselheiros e as doze cidades. Pedir-lhe-ei recursos e conselhos para começar essa busca por algo que não sabemos em concreto. – Passou a mão pelo rosto, fatigado. – Alessandro, por favor, peça aos homens que façam primeiramente uma busca pela ilha. Depois reúna-se connosco no salão de reuniões
-É para já, majestade. – Antes de partir, depositou um beijo prolongado na testa de Perla.
-Faça-me outro favor, leve somente Amélita para o quarto. – Ele anuiu e com extremo cuidado, pegou na senhora encolhida no chão.
Em passadas lentas, os dois caminharam em direcção à saída, sendo esta aberta pelos guardas que permaneciam lá de plantão. Após contornarem a porta, os guardas voltaram a fechá-la, deixando pai e filha no salão real.
-Peço perdão pelo seu casamento ter sido cancelado.
Perla não teve tempo de retrucar, pois alguém bateu suavemente á porta. Hieron fez sinal para que os guardas abrissem a porta. De lá, um homem alto e vestes negras, com feições estranhas, porém belas, que o faziam parecer demasiado novo para a idade que aparentava realmente ter. Algumas cicatrizes eram visíveis no seu rosto, perto de seus olhos negros, ofuscados. Esse era Lord Silver, um membro da corte Espanhola, que há uns meses atrás aportara em Siracusa e que fora bem recebido pelo rei. Desde então, ambos criaram uma grande amizade, onde Silver possuía a confiança plena de Hieron, que não fazia algo sem lhe pedir uma sugestão.
Já Perla simplesmente fez um esgar de desagrado ao contemplá-lo. Nunca tinha simpatizado com ele, principalmente pelo jeito estranho e pela sombra de mistério que seus olhos trespassavam. Sua arrogância era um ponto forte, além de ser um homem de ideias fixas. Isso parecia agradar o Hieron. Porém, somente Perla sentia que desde que aquele homem começara a fazer parte das suas vidas, tudo corria mal naquele reino, especialmente desde a morte de Enzo, pai de Alessandro.
Num passo curto e distinto, Lord Silver atravessou o corredor, não tirando os olhos de Perla. Ao chegar perto do rei, ajoelhou-se e baixou a cabeça.
-Majestade, já soube do sucedido com Estella. Os murmúrios dos convidados são um belo rastilho de pólvora para se espalhar tal notícia desagradável. – O seu tom elegante dispunha a delicadeza necessária para aquele momento.
-E suponho que o senhor venha oferecer sua gratificante ajuda. – ironizou ela, cruzando os braços, endurecendo o rosto. – Sobretudo quando a mantinha tanto no seu enlaço.
-Com certeza. – retrucou num tom dissimulado ao erguer o rosto e fitar a princesa com desprezo, virando de seguida sua atenção para o rei. – Sinto-me um pouco culpado, Alteza, especialmente após tê-la deixado sozinha nos jardins para resolver uns problemas com um dos meus homens. Por isso não medirei esforços para encontra-la e, como tal, disponibilizar-lhe-ei os meus homens para tal.
-Muito simpático da sua parte, milord, mas creio que já haja homens suficientes no mar. – intercedeu Perla, antes que o rei pudesse retribuir.
-Mas não em terra – Alfinetou, para irritação de Perla, que espremeu suas mãos.
-Ficarei muito grato, Milord. – Hieron trocou um fulminante olhar com Perla. – Não sabe como almejo encontrar a minha preciosidade.
-Agora se não se importa. – A jovem apontou o caminho da porta.- Preciso de um momento a sós com o meu pai.
-Desculpe alteza, não era minha intenção interromper algo importante. – Silver elevou-se e fez uma breve reverência, não desviando o olhar de desdém da princesa, saindo por fim.
Ao ver que aquele homem desprezível já tinha contornado a saída da sala, Perla suavizou o aperto de seus punhos e encarou o pai estarrecido. Queria atacá-lo sem dó nem piedade, mas sentiu compaixão pela figura desmoronada de seu pai, um homem rijo que nunca se deixava abater.
-Não sei como o papá continua a dar confiança a este maldito homem. – A sua fúria fez o seu tom subir mais do que necessário.
-Eu confio no Lord. – A sua voz saiu-lhe num sopro, cansado. – Depois da morte de Enzo, eu estava a ponderar nomeá-lo para meu prior conselheiro.
-Isso era um insulto à memória do pai de Alessandro, especialmente quando ele não suportava a presença de Silver. – Tal como ela, Enzo não achava Silver boa rés, contudo não conseguira convencer o rei de tal, e agora era tarde demais, já que tinha sido misteriosamente assassinado numa rixa de rua.
-Enzo sempre teve receio que Silver ocupasse o seu lugar, nada mais…
-Você está completamente envenenado pela presença desse homem. – A jovem andava de um lado para o outro, como um animal enjaulado. – Veja até que ponto isso lhe leva. A profanar a honra do seu melhor amigo por algo que não é verdade. Quer que lhe seja franca?
-Mesmo que dissesse que não, você iria ser…
-Ninguém me tira da ideia que foi ele a assassinar Enzo para usurpar o lugar dele, no meio daquela confusão instaurada pelos seus homens. – Ela deteve-se para fitar o pai. – Alessandro compartilha da mesma opinião que eu, e, se me permite, foi um grande erro tê-lo deixado aproximar-se demasiado de Estella…
-Ele confessou-me há menos de uma semana que pretendia casar com ela.- Perla arregalou os olhos e mordeu o lábio, colérica.
-Creio que o papá tenha recusado tal e ideia, certo?
-Não. – Deu ombros, impassível. – Ele é um homem com posses, tem um bom cargo na corte Espanhola e faria sua irmã inteiramente feliz. Não vejo o porquê de não realizar esse casamento.
-Isso é imponderavel. – Rosnou entre dentes, todavia, numa passada curta, a jovem encurtou a distância entre ambos e aninhou-se e agarrou-lhe as mãos. - Papá, você está cometendo outro grande erro, tal como fez ao decidir precipitadamente o meu casamento com Alex. – O rei prestou atenção na sua filha, enrugando seu cenho.
-Por amor de Deus, hoje não é um bom dia para voltarmos a falar sobre isso, Perla. – Ele enterrou a cara na mão.
-Pode não ser o momento mais apropriado, mas o papá sempre soube que nosso sonho era casar com alguém que amassemos…
-Eu só faço isso para vos proteger, sobretudo você já que vai ser minha sucessora. – Suspirou, esmaecido. – E olhe o que aconteceu à sua irmã por ter tanta liberdade. Ela foi raptada e mal sabemos o que lhe podem fazer…
-Volto a reafirmar que Lord Silver está envolvido nisso. – Hieron rodopiou os olhos nas orbitas, completamente saturado de ouvir acusações infundamentadas sobre Silver. - Porque se submete a isto? Você quer mesmo cair no conto dum pirata? – Revoltada por suas palavras não estarem a ter o efeito surtido, ela ergueu-se e encarou o pai, começando a deixar sua raiva trespassar pelos seus olhos cintilantes.
-Lá vem você com a história de que ele é um oportunista e um pirata.
-Mamã sempre me contava histórias de piratas e caracterizava-os tão bem que eu sou capaz de lhes sentir o cheiro. – não era educado de se dizer, ela sabia, porém estava num ponto em que seus nervos a dominavam por completo. - Ele assenta que nem uma luva nessa caracterização…
-Você só pode estar brincando comigo. – retrucou Hieron, massajando à testa ao desprender um sorriso contrafeito. – Ela sabia do que falava por pertencer à raça deles. – concluiu, agora seco e desprovido de sentimentos.
-Sabe o que lhe digo. – Respirou fundo e, num lanço de coragem, proferiu o que sua mente à muito latejava: - Preferia mil vezes pertencer à raça de minha mãe e viver livre de compromissos que nunca quis, do que viver neste palácio e submeter-me a decisões que não me comprazem…
-BASTA! – bramou o rei rispidamente, levantando-se repentinamente da poltrona, o que a fez retrair e intimidar perante tal acto– Basta de insolência. Já não basta a desgraça que se abalou sobe nós e você ainda vem com seu moralismo reprimido? Onde foi que eu errei Perla? Errei em querer o melhor para você? Em te dar a melhor educação? Te amar o bastante para desejar que seu futuro seja promissor?
Perla viu-se desarmada perante tal depoimento. Seu rosto automaticamente se fechou e de seguida apertou seus punhos, revoltada. Apenas queria liberdade de escolha. Ver seu pai ser feito de fantoche nas mãos de Silver a cegavam de tal forma que sua mente a traia.
-O senhor não errou em nada. – Num tom mais complacente, Perla rematou: - Somente me custa ver o papá confiar num homem com Silver.
-E vou continuando a confiar, aceite você ou não.
-Mas ele não me inspira confiança. – continuou Perla secamente; suas células voltavam a estremecer. - O papá sempre foi contra piratas, repugnava-lhe a ideia de eles existirem. O que mudou?
-Nada mudou Perla. É certo que eu odeio piratas, repugnam-me pelo simples facto de sua mãe não ter conseguido resistir a essa maldita vida…
-A culpa não foi dela. Você casou… - E num riso cínico, corrigiu ao salientar a primeira frase: - Você forçou-a a casar consigo, mesmo sabendo que seria impossível domar a natureza pirata de Deanne Bonny. Se ela não aguentou esta vida monótona, é porque amava e prezava demasiado a sua liberdade. – O rei fitou-a, indignado, sentindo as palavras dela como punhais. – Se a mamã estivesse aqui, ela sentiria vergonha pelas atitudes controversas do senhor.
-Sua mamã morreu, não está mais aqui. - retrucou de forma mais seco possível, com uma ponta de magoa a reinar em sua voz.
-Por sua causa … – A troca de olhares foi intensa e dura, fazendo Perla sair a correr da sala, deixando o rei sozinho.
-O que eu fiz a Deus? – Hieron sentou-se novamente, enterrando a cabeça em seus largos dedos.
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Desalentada, a jovem irrompeu pelos corredores vazios do palácio. As lágrimas deslizavam pelo rosto pálido e quase sem vida de Perla, que não sabia para onde se dirigir. Sentia-se desnorteada, cansada. Cada passada que dava era uma dúvida que despontava na sua mente nublada. Depois de ter descarregado anos da sua frustração e raiva em seu pai, sentia-se mais leve de seu fardo, contudo após a discussão, sentia-se como uma criança perdida e sem rumo.
Ao voltar-se numa esquina, foi contra alguém que a aparou. Não se importando de quem se tratava, permaneceu nos braços quentes do seu protector e deixou que a torrente de lágrimas que toldava os seus olhos, quebrasse e lhe limpasse a alma de tal confusão.
-Perla, o que se passou? – indagou Alessandro ao acariciar as costas de uma jovem taciturna.
-Não sei como vou aguentar, Alex. Primeiro a morte de minha mãe, agora o desaparecimento de minha irmã e depois o meu pai não se demove da confiança que tem sobre Silver.
-Você é forte, minha querida. E eu estarei sempre ao seu lado – Alex emudeceu ao vê-la desembaraçar-se gentilmente dos braços dele, com o seu olhar distante dali.
-Alex, desculpe tudo isto. - Alessandro olhou-a com carinho, fazendo uma carícia no rosto dela. – Prometo quando acharem minha irmã, nós nos casaremos, mas desta vez sem interrupções. – Perla viu-o tirar algo do seu bolso uma caixinha pequena.
-Este anel foi de minha mãe. Ela disse para oferecer ao meu amor verdadeiro, alguém que eu realmente amasse. – Ela elevou a cabeça ao encontro dos intensos olhos azuis dele. – Cada dia que passa, eu tenho certeza que essa pessoa é você. – Naquele momento, ela não teve coragem de lhe dizer tudo o que pensava, mesmo que fosse para o bem de ambos.
Perla viu Alessandro tirar um belo anel da caixa, com uma esmeralda em forma de flor. Com delicadeza, ele tomou a mão esquerda dela e colocou-lhe o anel no seu dedo anelar. Ela ficou paralisada ao ver o anel em seu dedo, engolindo as palavras que tanto queria expressar. Embora não tivesse feliz, ela aflorou um falso sorriso só para agradar ao Comodoro que esperava ouvir um único som de sua boca.
-É lindo! – desabafou por fim.
-Perla, eu esperarei o tempo que for necessário para nos casarmos. – Ele viu um guarda fazer-lhe sinal no fundo do corredor. – Bom, tenho que ir, seu pai está pronto para a reunião.
-Descobriu alguma coisa nas suas buscas à cidade? – Ele deixou seu queixo tombar em direcção ao peito e negou com a cabeça.
-Lamento, minha flor, mas estamos a fazer os impossíveis para achá-la, não vamos desistir. – Beijou-lhe o dorso da mão e murmurou: - Agora vá descansar. – Afastou-se, por fim.
Já Perla, no caminho para seu quarto, reparou num homem pequeno e achatado agir de forma estranha. Este entrava á socapa no palácio, longe das vistas de todos, visto que os guardas andavam a fazer as buscas à cidade. Perla encostou-se rapidamente à parede a modos de não ser vista pelo sujeito, e com sua respiração acelerada, verificou se o homem se afastara. Descalçou seus sapatos de salto alto brancos e decidiu segui-lo discretamente até vê-lo entrar numa porta que dava para o quarto de Silver. Sentindo seu coração bater mais forte, ela chegou-se até á porta, onde encostou o ouvido nela para tentar escutar alguma coisa.
-Ninguém te seguiu? – averiguou Silver friamente.
-Não Capitão. – A voz estridente do homem, fez Perla reconhecer o primeiro imediato de Silver: - Foi muito difícil entrar neste palácio sem despertar muita atenção. O que vale é que estão todos preocupados com a irrelevante herdeira, que se esqueceram da vigilância do palácio.
-Pewal, como está ela? – A voz fria com uma pitada de cautela fez Pewal retrucar prontamente:
-Nós levamos a princesa para onde nos pediu, agora é só esperar que achem a Mão de Midas… – o coração de Perla deu um enorme salto ao ouvir o propósito da conversa.
-Eu sabia. - Rosnou entre dentes
-Tal como o Oráculo me disse, ela encontra-se aqui – Silver ergueu-se e abriu os braços, numa menção ao local. – Será a guardiã que, num acto nobre, nos guiará até ao tesouro supremo.
"Guardiã? Mas do que raios está ele a falar?"
Apesar de a raiva lhe borbulhar nas veias, Perla voltou a prestar atenção à conversa, apesar da vontade de invadir aquele compartimento fosse tão tentador, como pegar numa pistola e fazer mira ao peito de Silver.
-Em menos de um mês e meio conseguimos instaurar o caos nesta cidade.– Ele movia-se pausadamente, em passadas curtas, de um canto para o outro, sem esconder a satisfação na sua voz enquanto enumerava pelos dedos: – Encontra-mos a guardiã; fiz com que o rei me admirasse; matei o conselheiro Real para tomar o seu cargo; impedimos o casamento daquela imbecil e, quem sabe, levarei a cabo o casamento com a herdeira do trono para usurpa-lo.
-Sempre vai matar Alessandro?
-Com certeza. – Ele dirigiu-se a um armário velho, de onde tirou uma garrafa e dois copos. – Meu caro, eu serei senhor dos mares e da terra, ninguém ousará me confrontar. – Ao pousar os copos na mesa, retirou a rolha com os dentes e encheu-os. - Só estou à espera que a me tragam a Mão de Midas para concluir tudo o que orquestrei.
-E se o plano falhar e o velho descobrir tudo? E se não acharem a Mão de Midas?
-Tenho certeza que eles vão achar. Ela vai achar Pewal. E vai entregar-me a mim, mais cedo do que você imagina. – Os dois riram agradavelmente ao passo que pegavam nos copos – Agora um brinde ao poder absoluto e à gloriosa vitória do Black Dog.
Oiii!
Quanto ao primeiro capítulo, eu quis dedicá-lo aos personagens que integrarão nesta fic, como tal como uma introdução. Embora o nosso capitão Sparrow não tenha participado muito, eu prometo que no próximo ele terá mais presença.
Queria agradecer às meninas: Skald .K., Likha Sparrow, Fini Felton, Kadzinha, Nikka-Girl, Lady Ludmila, Gabriela Black e Claudia pelas reviews que me mandaram. Espero de coração que tenham gostado deste capítulo. No próximo, eu responderei às vossas reviews.
Obrigada também pelas reviews do meu último capítulo do "Piratas das Caraíbas: o mistério do coração Perdido", e dizer que estou pensando em fazer continuação, já me surgiu uma pequena ideia para a fic.
Fiquem Bem. Beijocas
Até ao próximo capítulo
Taty Black
