Capitulo 3 – O contador de histórias!

O resplandecente sol, que reinava no límpido céu, despontava os seus cintilantes raios sobre um mar calmo e cristalino. Ao se deparar com a ténue luz que entrava sorrateiramente pelas frinchas traçadas na madeira do porão negro, Perla despertava. Após esfregar os olhos dormentes, a jovem olhou em volta e relembrou-se que estava fechada num compartimento do Pérola Negra, depois de várias horas a gritar em cima de um monte de trapo malcheirosos para que a soltassem.

-Ele nem pense que vou ficar aqui a viagem toda. – remoeu ao cruzar os braços sobre o peito.

Bufou pausadamente ao observar o local. Tinha de arranjar uma maneira prática de sair daquele buraco empestado, mas como? Seus olhos marcaram a porta. Esse era o único local que poderia sair. Ao se apoiar na parede, a jovem colocou-se, então, de pé e subiu um pouco o vestido enegrecido pela sujidade. De lá, tirou um pequeno punhal e avançou sobre a porta, enfiando a lâmina nas dobradiças e desencaixando todas. Por fim, ao sentir a porta bamboar, deu um encontrão a esta, que tombou num pequeno estampido no chão.

Com um sorriso enviesado, satisfeita com o trabalho exercido, Perla voltou a colocar o punhal no seu local de repouso e moveu-se até às escadas mais próximas, subindo-as precipitadamente. Ao vê-la aparecer no convés e espreguiçando-se desajeitadamente, Jack arregalou os olhos e tratou de se mover até Perla, ainda abismado. Ou das duas uma: ou alguém a tinha soltado, ou então ela era uma feiticeira e arrombado a porta num simples passo de magia. A segunda hipótese era bastante plausível, já que tinha observado de tudo neste mundo incerto.

Jack, que se dirigia para o convés inferior a modos de saber o que se tinha passado, ficou petrificado ao vê-la aparecer no convés. Arregalou os olhos, abrindo e fechando várias vezes a boca em busca das palavras exactas para exprimir qualquer tipo de som.

-Ahh não, você é pior que praga da avó. – Conseguiu, por fim, articular. - A senhorita devia estar no seu quinto sono de beleza e fechada. Bem fechada, por sinal. – Jack dobrou-se um pouco para a frente e com os olhos estreitos, tentou não supor as inúmeras ideias que lhe tinham passado pela cabeça sobre o facto de ela estar agora ali. – O que está pensando? Arruinar o meu navio até eu ceder aos seus caprichos?

-O capitão acha que eu iria perder a viagem mais excitante que jamais, em tempo algum, fiz? – Ela sorriu-lhe de volta ao caminhar até a amurada. – Estou em alto mar, senhor Sparrow, e isso para mim é um sonho tornado realidade. – As suas mãos depositaram-se sobre a madeira fresca. – E que fique claro que não será um capitão preconceituoso que me irá impedir de apreciá-la. – Jack ficou atónico com a audácia da jovem.

-Acho que preciso de um anti depressivo antes que dê em louco. Onde está o rum quando é preciso? – esbracejou, indo até à escotilha.

-Os estragos que ela fez são reparáveis, contudo se ela continuar assim irá demolir todo o meu navio – advertiu Barbossa apreciando o entusiasmo de Perla; Jack deteve-se e rodopiou nos calcanhares para observar o pirata.

-Acho que temos aqui um pequeno problemazinho, caro Hector, pois este navio é MEU, e o senhor só está aqui devido aos seus préstimos na tripulação. Mais tarde ponderarei se o farei governador de algum ilhéu esquecido por Deus. – ponderou Jack com a mão no queixo, fingindo pensar em algo sério.

-Que fique bem claro, Sparrow – Barbossa aproximou-se perigosamente de Jack, o que o fez recuar uma passada para trás. – Eu só permiti que você fosse novamente o capitão do Pérola, pois prometeu-me as Cartas de Navegação. Se eu não fosse tão bondoso, você ainda estaria naquele barquinho, perdido no mapa que o Diabo traçou. – Recompôs-se e cruzou os braços. - E por incrível que pareça, eu ainda não vi você cumprindo sua promessa. Eu quero as Cartas…

-Você as terá um dia, quem sabe, brevemente – intercalou Jack com ironia, dando uma palmada suave nas costas de Barbossa. - Não queira pôr a carroça à frente dos bois, caro Barbossa. Matéria-prima mais plausível nos chama. – E com o dedo indicador concluiu: - Pense nisso.

-Vá para o inferno Jack! – Remoeu ao dar costas.

-Com certeza você, melhor do que ninguém, conhece esse lugar, não é verdade? – Jack soltou um sorriso sarcástico. - Agora com licença, tenho um encontro inadiável com uma indispensável garrafa de rum.

Barbossa revirou os olhos ao ver Jack dirigir-se para a escotilha e descer as escadas, onde o ouviu resmungar em bom som algum tipo de impropério, pela porta caída sobre o tabuado de madeira do navio.

Com seu jeito peculiar, moveu-se até à cave para pegar uma garrafa de rum. Quando a alcançou, limitou-se a arrancar a rolha com os dentes e a entornar o líquido em direcção aos seus lábios. Bebeu com satisfação o seu bálsamo divino; por momentos, tudo o que o atormentava até há bem pouco tempo não passava de meros detalhes, coisas do ofício. Todavia precisava tomar medidas, pois nem sempre teria a sua companheira para o acalmar sempre que necessitasse.

Com este pensamento, Jack caminhou de retorno para o convés, sem se separar da sua nova companhia. Dirigiu-se até ao leme, desprendendo-o e, quando finalmente pensava que teria um pouco de paz, viu que tinha sido seguido pela pessoa que menos queria falar naquele momento.

-Tem a certeza que…

-Sim, já fizemos este caminho várias vezes, alteza. – interpôs ao dar um breve gole à garrafa, sem desviar o seu olhar para as esmeraldas que o fitavam.

Perla respirou fundo e fez um meneio de cabeça para incidir a sua coragem de continuar:

-Ouça…

-Não, não há outro caminho possível.

-Mas…

-E sim, tem a minha permissão para ficar calada e ter uma lição grátis de como velejar um navio.

A irritação começava a fervelhar nas veias de Perla, que suspirou brandamente após ter sido interrompida inúmeras vezes. Era certo que aquele pirata não lhe ia facilitar a sua peripécia naquela aventura, porém Perla não se renderia tão facilmente, voltando a alfinetar:

-Poderei acabar uma única frase, ou será preciso marcar uma audiência para falar com vossa senhoria? – Ele desenhou nos lábios um sorriso saciado ao se aperceber da irritação camuflada na voz dela.

-Prefiro optar pela terceira opção, que é ver você com mordaça e de preferência calada. Agora, dê meia volta… – Jack fez um rodopio com o dedo indicador - e vá brincar de princesa lá para baixo. Deixe trabalhar quem sabe. – Perla cerrou os punhos, pensando dizer o que achava dele e da sua lição. – Ainda aqui está?

-Você é tão, tão…

-Atraente, irresistível, charmoso? – Chocada, Perla ficou sem palavras perante tamanhos absurdos. – Eu sei disso, darling, tenho um espelho que me diz isso todas as manhãs.

-Com o tempo, senhor Sparrow, você verá que não sou mulher de desistir dos meus intentos. – Bufou irritada ao passo que virava costas, ainda com os punhos cerrados.

Desceu as escadas da ponte da popa, sem desanuviar a sua expressão marcada pela fúria. Gibbs intersectou-a, fazendo-a parar do seu propósito.

-Vossa alteza precisa de alguma coisa? – indagou Gibbs ao vê-la fechar os olhos e bufar.

-Não senhor Gibbs, obrigada. – ela inclinou a cabeça para o castelo da poupa e berrou: – Eu é que me fartei da arrogância de um certo capitão.

Ao se aperceber que Jack continuava impassível e silencioso quanto ao comentário dela, fitando o horizonte claro com aquele sorriso idiota, ela grunhiu interiormente. Cruzou os braços junto ao peito e encostou-se ao mastro principal.

-Não se preocupe, Jack às vezes consegue ser um pirata indolente, mas no fundo é um bom homem –Retrucou honestamente; Perla olhou-o de esgueira descrente.

-Sim, só se for mesmo lá no fundo. – Gibbs riu-se descontraidamente, conseguindo arrancar um sorrido dela. – Será que o senhor me poderá dizer para onde nos dirigimos?

-Singapura, alteza – Retrucou ao tirar o cantil do seu bolso.

-Isso é muito longe daqui? – Ao fitá-lo de relance, uma centelha de preocupação marcou-lhe as faces

-Em menos de uma semana, certamente, estaremos lá. – E, após levar o cantil à boca para degustar do sabor amargo, murmurou: - Não se esqueça que está no navio mais veloz do Caribe.

Perla não sabia o que pensar. Estariam eles a ser sinceros? Poderiam mesmo ajudá-la? As dúvidas começavam agora a eclodir dentro da sua mente baralhada. E era agora que via quão precipitada tinha sido em aceitar a ajuda de piratas. Fosse como fosse, tinha dois meses para analisar tudo e verificar se Jack tinha realmente intenções de a ajudar. Caso não tivesse, teria de partir noutro navio mal aportasse.

-É aí que se encontra a pessoa que me pode ajudar? – Arriscou ao engolir em seco.

-Aye, alteza.

-E quem é ela, senhor Gibbs? - Perla estreitou o cenho, impaciente pela resposta.

-Capitã Elizabeth Turner. – Retrucou ao aflorar um sorriso.

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Numa praia desolada, na areia fofa de uma formosa ilha, Elizabeth sentia o mar se desfazer numa espessa espuma branca em seus pés, enquanto observava o longínquo horizonte. Sempre presa às suas recordações, ela fitava atentamente o ondeado mar, deixando-se seduzir pela calma que aquele ambiente lhe proporcionava. Sem sombra de dúvidas que depois de ter sido nomeada Capitã do The Empres, rainha da Corte da irmandade e de ter vivido o fatídico dia que a marcara para sempre, a vida da jovem pirata havia mudado radicalmente, tendo de aprender a viver do vazio que a ausência que Will lhe causava, mesmo que não propositadamente, visto que nenhum dos dois tinha planeado tal destino. Sentia saudades do seu marido, mas ela não estava totalmente só. Em seus braços, ela balançava um bebé de três meses que dormia sossegado. Cada vez mais atenta, Elizabeth continuou a fitar o horizonte, até aparecer um navio das profundezas do mar, comandado por um capitão que a olhava a beira-mar, como quem contempla e venera uma deusa intocável.

-Não acha pior tormento que isso Will? – indagou Bill ao aproximar-se do filho, que se dobrava na amurada para apreciar a sua esposa.

-Eu prometi que a vinha ver mal fizesse um ano da minha partida, após ela ter organizado a sua vida. – E com um arfo apreensivo, concluiu: - Eu só queria ver se ela estava bem, depois do que aconteceu com o Black Dog.

-Mesmo assim meu filho, não é péssimo para você vê-la de longe sem poder tocá-la ou beijá-la? – Bill afagou-lhe as costas.

-Se quer saber, é isso que me dá mais força para esta tarefa amaldiçoada. Pai, mais vale contemplá-la por mais uns segundos, do que uma eternidade sem a ver, apenas tendo a sua imagem nítida nos meus pensamentos. – arrematou Will, com o confiante olhar preso em seu pai. - Só faltam mais nove anos. Eu tenho fé que passem a voar.

-Está certo. – o velho homem fitou a costa, apercebendo-se que a jovem pirata balançava algo em seus braços e com um sorriso radiante, murmurou: Parece que ela não será a única a te esperar? – Com o cenho franzido, Will relanceou os olhos para Elizabeth, reparando no pequeno ser que ela sustinha em seus braços.

-É o meu filho, pai, é o meu filho. – suspirou ele com uma voz quase inaudível, abrindo um grandioso sorriso, á medida que seus olhos cintilavam de alegria.

Passos cortaram o contacto do olhar fixo que Elizabeth e Will haviam criado naquele momento, fazendo-a voltear-se para trás. Uma mulher ruiva, com sua idade avançada, aproximava-se lentamente, com um ar cordial em suas feições. Elizabeth retribuiu a Esperanza aquela serenidade com um franco sorriso. Aquela mulher que tão bondosamente a tinha recebido em Port Royal, quando Elizabeth partiu da ilha em que Will a tinha deixado, determinada a voltar á sua cidade para recuperar alguns bens e economias que seu pai lhe teria deixado, a modos de poder sobreviver sozinha.

Depois de ter tratado dos assuntos que a tinham levado àquela cidade, e sempre na agradável companhia de Esperanza, na qual tinha criado uma gratificante amizade, Elizabeth resolveu cortar definitivamente os laços com Port Royal, que tantas recordações lhe traziam, e partir para Singapura, onde comprou uma casa na pequena e discreta povoação. Lá poderia ficar a par de tudo o que se passava no mundo dos piratas, sendo sempre informada pelo seu conselheiro: Tai huang.

-Precisa de alguma coisa Elizabeth? – apurou a velha mulher com uma breve reverência. – Ahhh, ele sempre veio ver você e conhecer o seu filho, embora que de longe.

-É, como prometeu, ele veio. – Ela suspirou, desviando sua atenção para o filho. – Se você soubesse a saudade que eu sustento, quando imponho meus olhos sobre o horizonte e não o encontro mais navegando sobre estes mares. Nada apaga as recordações gravadas em cada viagem, cada loucura ou fantasia centrada em cada aventura vivida. – e numa voz quase extinta, concluiu: -Tantas coisas se passaram, tanto que lutamos para ficarmos juntos e o destino acabou por nos separar.

-Vocês ainda são jovens, têm muita vida pela frente. Eu tenho a certeza que o destino de vocês sempre foi o de ficarem juntos, mesmo debaixo dessas controvérsias que me vem contando sobre o vosso passado. – Ela aflorou um leve sorriso que ficou suspenso nos lábios.

-Às vezes gostava de estar certa disso…

-Você mesmo me contou que a maldição que seu marido carrega pode ter um fim…

-Isso se não passar de mais uma lenda do Caribe. – Sentiu uma angústia apoderar-se dela, o que deixou os seus olhos vítreos. – Como diz o velho Capitão Teague: lendas do mar.

-Não deixe que suas esperanças caiam por terra. Futuras páginas em branco do vosso destino ainda serão ocupadas por longas linhas pretas - interveio a mulher meigamente.

-Eu perdi quase tudo o que tinha nesta vida, Esperanza. Perdi meu pai, que foi morto por Beckett, perdi James Norrington, que me ajudou quando mais precisei, mas em compensação ganhei a coisa mais preciosa que tenho, resultado do meu amor por Will.

-Se não for muito inconveniente, o que dirá ao jovem menino quando ele crescer e perguntar pelo pai? – Esperanza viu Elizabeth enrijecer o corpo com a abordagem, mortificando-a mais uma vez. – Peço perdão pela ousadia. - acrescentou como se precisasse enfatizar a questão.

-Direi a William a verdade que ele precisará saber. – Elizabeth maneou o intenso olhar castanho marejado para a mulher ao seu lado. – Que seu pai é um homem honrado e corajoso, que enfrenta sem medo o lado tenebroso da morte e que… – sua voz faltou-lhe ao engolir em seco seu resignado soluço -, luta diariamente para poder passar mais um dia em terra, junto da sua família.

-Tenho certeza que o jovem William sentirá orgulho do pai – e colocando a mão sobre o ombro de Elizabeth, num gesto reconfortante, completou: - e da mãe também, pela força que ela teve para suportar os devaneios e contrariedades da vida.

-Você e suas belas palavras confortantes. – Elizabeth passou docemente a mão pelo rosto do menino que tentou agarrá-la.

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Perla mantinha os olhos arregalados, sem perder o fio à meada sobre o que Gibbs lhe relatava com tanto entusiasmo. Cada som, cada gesto, era como se Perla pudesse visualizar cada pormenor diante dos seus olhos, tão palpáveis, como se os tivesse vivido. Era deveras impressionante ouvi-lo contar os seus contos, especialmente quando estes envolviam Jack e as suas últimas peripécias.

-Então é verdade, quando dizem que ele foi engolido por um monstro mitológico chamado Kraken? – inquiriu Perla com os olhos esbugalhados sobre a figura notável de Gibbs.

-Claro que é – Entusiasmado, Gibbs desencostou-se da amurada e continuou a contar aquilo que poderia ter sido uma magnífica história. - Ele lutou durante várias noites e vários dias na barriga do monstro e mesmo tendo perdido a sua espada, ele enfrentou muitos perigos lá dentro até conseguir sair. Jack sempre foi um pirata engenhoso.

-E o que ele usou para sair da barriga do monstro? – Gibbs ficou pensativo em busca de uma resposta plausível e sensata, até uma voz quebrar o silêncio:

-Unhas humanas, arrancadas das minhas próprias mãos. Cravei-as no estômago da besta, para fazer com que me vomitasse para fora. – retrucou Jack ao tapar os raios de sol que Perla tão prontamente recebia. – Gibbs, você não devia estar a orientar o trabalho desses preguiçosos?

-Aye, capitão. – Murmurou Gibbs, aborrecido.

-Espere. – Perla levantou-se do chão e colocou-se entre os dois homens, voltando-se para Jack. - Se não fosse a sua amável recepção da noite anterior eu poderia estar a fazer alguma coisa…. – relembrou ela, fazendo Jack erguer a sobrancelha.

-Ora, está com vontade de trabalhar, é? – Perla apenas encarou-o emudecida, provocadora. - Então espere só um pouco que eu volto já. – E, tal como fumaça, desapareceu do campo de visão dos dois.

-Onde é que ele foi? – averiguou ela de cenho franzido, cruzando os braços ao nível do peito.

-Se prepare, pois ele irá aprontar alguma. – Após terminar a frase, Jack apareceu por entre a escotilha, transportando um balde e um pano velho em ambas as mãos. – Eu não disse. – Gibbs apenas enterrou a cabeça na mão e abanou-a, reprovador.

-O que pretende com isto? – indagou Perla impaciente à espera de uma resposta brusca.

-Isto, darling, é para você atirar água aos peixinhos e o pano é para você se limpar, caso tenha o infortúnio de se molhar. – debochou Jack, vendo Gibbs sacudir a cabeça. – Estava com vontade de trabalhar? Então aqui tem, pode começar.

-Não quer que eu…

-Eu posso ajudar em qualquer coisa, limpar o convés, coser a roupa da tripulação, ensinar a ler e a escrever se for preciso. – a voz fina dele foi acompanhada pelo elevar dos calcanhares, numa copia quase perfeita de Perla. – Darling, eu quero ver este navio brilhando ao sol. – Brusco, atirou as coisas para o chão, sempre com os olhos impostos na reacção dela.

-Seu grosso, antipático, egoísta…-rosnou ao morder o lábio inferior ao fitar o balde, respirando fundo num meneio de cabeça. – Muito bem, você terá o seu Pérola brilhando como uma joia.

Num gesto rápido, a jovem elevou o vestido até à coxa, o que fez com que a sobrancelha de Jack arqueasse momentaneamente. De seguida, tirou o punhal que lá regia e lançou um olhar feroz ao capitão. De esgueira, Jack colocou-se atrás de Gibbs. Por fim, elevou as mãos e esbracejou-as no ar.

-O que vai fazer com isso?

Sem obter resposta, Jack viu-a pegar numa ponta do vestido e cravar o punhal nela. Num suspiro, a jovem começou a rasga-lo com as lágrimas no canto do olho, especialmente depois de se ter recordado que prometera a Amelita que não o estragaria. Deu, então, a volta completa com o punhal deixando o comprimento do vestido à medida do joelho. De um momento para o outro, sentiu vários pares de olhos depositados no seu corpo, todavia não se importou minimamente, sobretudo quando encarou um incomodado capitão. Do pano que sobrou, ela fez uma espécie de bandana para a proteger do sol, tirando a valiosa tiara que até agora permanecia na cabeça.

-Tome, fique com ela – voltou a rosnar, seca. - Combina com o monte de adereços que tem na cabeça.

Ao gesticular os dedos, Jack tomou posse da tiara e observou de seguida cada diamante valiosos, porém voltou a concentrar o seu olhar ambicioso nas pernas delgadas da princesa. Arregalou os olhos, voltou seu olhar ao seu redor, apercebendo-se que toda a tripulação assobiava para Perla, que sorria maliciosamente, como se testasse os nervos de Jack.

"Oh bugger" pensou, engasgado.

-Hey, eu estou ouvindo isso. – resmoneou ele em alto e bom tom para todos ouvirem.

Em passadas largas, notoriamente apoquentado, moveu-se até Perla e agarrou desajeitadamente o braço dela, empurrando-a para longe do campo de visão da tripulação. Ao se aperceber que estava razoavelmente bem escondido, aproximou-se do ouvido dela e murmurou:

-Dá para colocar novamente o pano no sítio que tirou?

-Porquê? Minhas pernas estão lhe incomodando? – provocou ao continuar com aquele sorriso malicioso.

-Somente não conseguirei impedir que algum dos meus marujos te toque, se é que me entende. – Retrucou com o dedo indicador apontado para as pernas dela.

-Não se preocupe, eu sou crescida o suficiente para tomar conta de mim. – De forma ríspida, a jovem desprendeu o seu braço da mão do capitão e encarou, sisuda: – Agora com licença capitão, tenho um navio para limpar.

Com uma expressão vincada pela exasperação, Perla ajoelhou-se no chão e pegou no pano velho. Sem olhar para o Jack, molhou o pano no balde e começou a esfregar o tabuado sujo do navio. Jack aflorou um sorriso pelo canto da boca e resolveu virar costas, citando num tom de falsa exigência:

-E depois disso, tem um monte de batatas no porão para descascar – Perla cerrou os punhos e cada vez mais irritada, acabou por atirar o pano molhado à cabeça de Jack; burburinhos foram escutados por entre a tripulação. – E com isso ganhou um convite extra para jantar nua com a tripulação. Savvy?

-Insuportável. – bramou ela, apanhando o pano para continuar o serviço.

-Jack, não acha que isto é humilhação a mais? – repreendeu-o Gibbs com pena da jovem.

-Por acaso quer ser cavalheiro e fazer o serviço dela?

-De bom grado o faria – devolveu por fim, vendo Jack escancarar a boca.

-Ela não se queria engajar numa tripulação pirata? Então, eu estou lhe dando a grande chance da vida dela, e mostrar-lhe como a vida de pirata não é fácil – ripostou Jack ao se aperceber que Perla esfregava o chão com bravura, imaginando o que ela faria caso Jack chegasse perto dela naquele momento.

-Jack, esta jovem não é uma aventureira como todas as outras que entraram na sua vida. Ela apenas entrou neste navio em busca de ajuda. – Gibbs deu uma palpada nas costas de Jack a modos de o chamar à razão. – Perla só quer a sua irmã salva…

-E ela terá a sua irmã salva. – Jack olhou de soslaio para Gibbs, que o fitava indignado. – Só porque a madame tem status, ela não será tratada de forma diferente. – Voltou então à sua caminhada.

-Você já lhe perguntou quem são as pessoas que estão fazendo mal á família dela? – insistiu Gibbs; Jack deteve-se ainda que tenha permanecido de costas voltadas para Jack.

-Não – retrucou prontamente.

-E não está interessado?

-Nem um pouco. – rebateu com o seu tom de indiferença.

-Jack, Perla não tem culpa do seu passado tumultuoso com as várias mulheres que passaram na sua vida, por isso tenha um pouco de compaixão. – O tom baixo fez com que Jack volteasse a sua atenção para Gibbs, que mantinha-se de braços cruzados

-Palavras bem formadas para um primeiro imediato barrigudo, porém eu não estou deveras interessado em mulher alguma. Savvy? Agora chispa daqui… – Jack fez um movimento com as mãos, mas Gibbs revirou os olhos à medida que se afastava. – É a tripulação, é o navio é… é a mulher! Deus me odeia mesmo… – resmungava, tirando a garrafa das mãos de Cotton para dar um gole prolongado de rum.

Sozinho, agora em frente ao leme, Jack caiu na tentação de depositar o olhar inusitado em Perla, que torcia violentamente o pano com água suja. Agora que o sol batia sobre a pele clara da princesa, Jack conseguia apreciar cada traço e pormenor dela. Realmente ela era linda, admitiu para si mesmo ao dar outro trago no conteúdo da garrafa, e delicada demais para praticar aquela tarefa grosseira que ele a tinha submetido. E mesmo vestida daquele jeito enfarrapilhado, Perla parecia que em toda a sua vida tinha praticado pirataria, apesar do sangue Real lhe correr nas veias.

-Princesa! - ciciou Jack ao ir ao bolso para tirar a tiara, rodando-a entre seus dedos cheios de anéis, enquanto levava novamente o gargalo de encontro à boca.

Por momentos, lembrou-se das palavras de Gibbs. De facto, Jack tinha curiosidade em saber o que atormentava aquela garota, para se submeter aquilo. Mas a curiosidade já o tinha matado uma vez, não queria arriscar novamente e parar ao cofre de Davy Jones. Também era certo que Perla não tinha culpa de em tempos se ter apaixonado pela mulher errada. Porém, não conseguia deixar de pensar que as mulheres eram todas iguais: traiçoeiras e cheias de artimanhas para concluir os seus objectivos, por mais mesquinhos que fossem. Assim julgava.

Perdido na linha de seus pensamentos, Jack viu ela cravar aquelas duas belas esmeraldas nele e por momentos ficou atrapalhado, como se ela tivesse entrado na sua mente e lido todos os seus pensamentos mais irracionais. Apesar de tudo aquilo, ela riu-se discretamente do jeito abobado dele.

-Porquê que ela faz isso? – perguntou-se quase não mexendo os lábios.

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Alessandro atravessava o corredor do salão, com passadas firmes e ao mesmo tempo incertas. Estava desolado com a recente peça que a vida lhe pregada. Perla havia igualmente sumido, tal como a irmã. Sem deixar um único rasto. Mesmo sem ordem do rei, ele já tinha colocado outro batalhão de soldados atrás de Perla, contudo até agora não havia nenhuma informação dela a não ser que na noite anterior um navio negro partira precipitadamente.

Completamente desesperado com a possibilidade de outro rapto, ele tentava manter o semblante sério e impassível, especialmente quando estava a escassos segundos de divulgar a notícia ao rei. Como iria dar esta notícia a um homem que acabara de ver uma das filhas raptada?

Após atravessar as portas do salão real onde permanecia o rei, o jovem apenas fez uma vénia. Era notório que Hieron não tinha descansado nada, suas olheiras escuras denunciavam uma noite mal passada; talvez tivesse permanecido ali a noite toda à espera de informações de Estella. Todavia, Alessandro espremeu o olhar ao verificar que, junto do rei, estava Silver. Aquele homem que causara tanta desgraça naquele reino, sobretudo a morte de seu pai. Sem nada dizer, o jovem apertou os punhos discretamente, não erguendo o olhar até o rei lhe dirigir a palavra.

Já Hieron, ergueu-se da majestosa poltrona e dirigiu-se a Alessandro com uma voz rouca e cansada, todavia cheia de esperança.

-Finalmente alguma novidade sobre Estela? – Alessandro continuou de rosto baixo, sem ter coragem de encarar o rei perante a notícia que lhe ia dar.

-Majestade, creio ter más notícias para lhe dar. – começou, num tom vacilante, erguendo o rosto demasiado duro.

-Por Deus, o que houve desta vez? – Hieron deu duas passadas para trás.

-A Princesa Perla desapareceu. – declarou, por fim, ao elevar um pouco o olhar apagado de encontro aos olhos do rei.

-O quê? – Exaltado, Hieron passou as mãos pelo rosto, confuso. – Tem a certeza? Procuraram-na por todo o lado?

-Sim, eu tomei os procedimentos necessários para a sua busca, mas nada. Nem Amélita sabe do seu paradeiro. – Ao se aperceber que o rei estava cambaleante, Alessandro perdeu as boas regras e tratou de o segurar.

-Isso quer dizer que foi raptada? – Tentou o rei articular, incrédulo.

-Não, ela não foi raptada… - silvou Silver com a maior das firmezas, crispando os lábios furioso.

-Como pode ter tanta certeza, milord? – Alessandro enrugou o cenho, desconfiado com aquela conclusão.

-Simplesmente acho que eles não arriscariam raptar outro herdeiro. – engendrou Silver, vendo o rei ficar confuso e Alessandro ainda mais intrigado. – Porquê? Está sugerindo que fui eu que raptei a princesa?

-Neste momento são todos suspeitos, inclusive o milord. – Retrucou entre dentes.

-Por favor, não discutam e pelo amor de Deus. – Pediu Hieron ao elevando as mãos para marcar sua ordem.- Alessandro, existe alguma suspeita?

-Os meus homens informaram-me que um navio negro zarpou ontem à noite. – Informou Alessandro, apesar dele e Silver permanecerem ainda com seus olhares presos um no outro, desafiantes.

-Muito bem, agora deixem-me os dois a sós. Preciso pensar numa maneira de achar as minhas filhas, antes que enlouqueça de vez. – Hieron sentou-se, esmaecido pelas circunstâncias.

-Ás suas ordens, Majestade.

Silver fez uma vénia ao rei, voltou a encarar Alessandro e, num meneio de cabeça, saiu da sala num passo acelerado em direcção ao quarto. Lá, tinha Pewal à espera na entrada, como um rato em busca de um pedaço de queijo lá escondido. Contudo, ao ver o seu capitão, o homem endireitou-se e fez uma ridícula continência, o que fez Silver rodopiar os olhos. Ao chegar perto de Pewal, pegou no caschado dele, abriu a porta e atirou-o lá para dentro.

-O que se passou, capitão? – indagou ao massajar o cachaço vermelho.

-Perla fugiu. Deve andar atrás da Mão de Midas, não vejo outra razão. – advertiu Silver com a maior das calmas, entrando na divisão iluminada pelo sol após fechar a porta.

-E o capitão está calmo? Não está pensando ir atrás dela? – indagou Pewal, estranhando a atitude do capitão, que acabava de se sentar na estreita poltrona do seu quarto.

-Eu a encontrarei, Pewal, aqui ou no inferno, até porque eu sei muito bem onde a encontrar …

-Onde, capitão? – Pewal esfregou as mãos, entusiasmado com a conversa.

-Adivinhe. – Enviesou um sorriso matreiro; Pewal deu ombros, completamente alheio. – No Pérola Negra, juntamente com Jack Sparrow. - De repente bateram á porta – Entre.

A porta abriu-se de rompante, dando origem aos contornos bem adornados de Alessandro. Silver manteve-se imóvel na sua poltrona, apenas analisando a expressão do comodoro. Este mantinha uma fisionomia fechada e ponderada, porém após pigarrear, proferiu:

-Milord, vim-lhe solicitar a sua ajuda. – Aquelas palavras pareciam sair com uma certa dificuldade da boca de Alessandro que por boa vontade não estaria ali.

-A minha ajuda? Até há bem pouco tempo estava desconfiado de mim. – retrucou cínico, reconhecendo uma centelha de desprezo do Comodoro. - O que lhe fez mudar de opinião?

-O bem da princesa. Ela pode ter embarcado no navio de algum vagabundo que lhe possa fazer mal. – proferiu o Comodoro, tentando ignorar aqueles olhos observadores. – Só lhe estou pedindo isso, porque você tem a frota mais invejada da costa de Siracusa.

-O que está disposto a fazer para salvar a princesa?

-Eu daria a minha vida por ela, se isso for preciso…- retrucou sem hesitar, vendo um sorriso fluir do canto da boca de Silver, que se levantou num salto.

-Óptimo, isso já é um começo. Mas acha certo navegar com alguém que você desconfia? Eu posso matá-lo e deixá-lo no mar…– Silver e Pewal trocaram olhares comprometedores o que deixou Alex desconfortável.

-Sei que não corro esse risco. – Retrocou, apesar de saber que esse era o risco número um.

-Só acho que você se arrisca demasiado por alguém que não o ama da mesma maneira.

-Isso agora não está em questão, milord! – rebateu, seco -E não lhe interessa esse assunto. Vai-me ajudar ou não?

-Claro que sim, além de tudo é vida da princesa que está em jogo. – concluiu Silver, irónico.

-Prepare ainda hoje o seu navio, partiremos mal possamos. – Alessandro saiu do quarto de Silver.

-Era a oportunidade que precisávamos Pewal. Mande preparar os navios para partimos, algo me fareja…

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Quando a noite começava a pintar o céu de negro, Perla observou Ragetti atirar-se do cimo do mastro mais alto, agarrado a uma corda, para acender as velas apagadas do Pérola Negra, dando-lhe assim um novo brilho àquela negritude. Ao desviar o olhar, ainda abismada, viu um Jack meio trôpego sair da sua cabine. Respirou fundo, e decidida a ir ter com ele, Perla dirigiu-se até Jack, abordando-o desprevenidamente.

-Senhor Sparrow, precisamos falar. – Ele rodou lentamente os calcanhares até se deparar com ela atrás de si.

-Achei que já tínhamos falado tudo, darling. – Ao vê-lo avançar indiferente, Perla agarrou-lhe firmemente o braço, fazendo-o encará-la.

-Escute aqui. – Apontou-lhe rispidamente o dedo ao rosto. - Quando eu disse que estava disposta a fazer tudo para embarcar, não disse que ia obrigatoriamente ser sua escrava pessoal. Eu apenas vim em busca de ajuda. – advertia ela, vendo-o continuar a não lhe prestar atenção. – Está me escutando?

-Claro que sim, alteza, estou escutando perfeitamente. Estava apenas a apreciar um pardal que se encontrava pousado no mastro do meu navio… - Jack olhava atentamente para o mastro, para irritação dela.

-Em alto mar não existem pardais…

-Óptimo, pois num navio pirata não existem princesas. – Ele apenas fez um gesto de conclusão. – A não ser aquelas que não entram de livre e espontânea vontade, se é que me faço entender. Agora com licença. – Jack afastou-se dela, deixando Perla de boca aberta, perplexa no mesmo local.

-Senhor Gibbs, porque ele é assim comigo? – questionou ela por fim, ao ver Gibbs ali perto. O primeiro imediato soltou um agradável sorriso ao apreciar a expressão confusa de Perla.

-Não é só consigo, é com toda a criatura feminina em geral, alteza! – contrapôs ele docemente, coçando desajeitadamente a cabeça – Mas isso é outra história.

-Estou a ver que este capitão tem mais histórias do que livro das 1001 noites. – Gibbs soltou uma boa gargalhada e Perla acompanhou-o – Mas que problema tem ele com as mulheres?

-O problema dele começou há três anos atrás, quando uma mulher a ver dele o traiu, tomando a atitude mais certa. Uma verdadeira atitude pirata. – apercebendo-se que ela estava interessada na história, Gibbs encostou-se à amurada e continuou: – Jack nunca foi homem de uma mulher só, em cada porto ele arranjava uma ou várias mulheres, mas nunca tinha um relacionamento a longo prazo. Digamos que ele nunca se interessou verdadeiramente por elas, a não ser pelo prazer, se é que me faço entender.

-Ohh se entendo, não sou tão ingénua senhor Gibbs. Ele enchia a cabeça dessas mulheres com falsas promessas; tinha uma boa noite de prazer, ou diversão, como queira chamar; roubava-as e no dia seguinte partia no seu navio como se nada fosse, acertei? – indagou Perla com um sorriso triunfante, à medida que Gibbs abria a boca de espanto.

-Como sabe?

-Ora, não é preciso ter uma imaginação fértil para prever o que ele faria. O que não entendo é o que mudou…

-Como dizia, todas essas mulheres nunca mexeram verdadeiramente com ele, até ao dia que conheceu Elizabeth Swann, filha do governador da cidade de Port Royal. Uma garota fina e requintada, mas com um verdadeiro espírito rebelde. Eles se conheceram quando Jack a salvou de se afogar em Port Royal. Nessa época estávamos lutando contra um bando de piratas amotinados…

-A maldição do tesouro Azteca, eu sei dessa história. Para não variar, minha mãe me contou. – murmurou Perla, vendo Gibbs baixar a cabeça e soltar um sorriso amarelo, passando à parte que ele queria contar.

-Pois muito bem. – pigarreou, voltando á historia – No meio dessas controvérsias todas, eles ficaram sozinhos numa ilha abandonada por Deus, onde Barbossa os deixou. O que se passou lá, nunca ninguém soube, mas que Jack ficou diferente, isso ficou. - e tentando despachar o assunto, concluiu: - Todavia, quando a história do ouro Azteca foi resolvida, ambos tomaram os seus rumos.

-Ele nunca mais a viu? – Perla ficava cada vez mais curiosa. – Senhor Gibbs, ele apaixonou-se por ela?

-O que posso dizer é que Elizabeth foi a primeira e única mulher que ele não conseguiu esquecer totalmente, mesmo tendo aquele ar mulherengo. O reencontro deles deu-se em Tortuga, numa época em que todos andavam atrás do Coração de Davy Jones, para concluírem os seus propósitos. Isso causou um certo impacto em Jack, que não demonstrou isso tão claramente. Eles embarcaram no Pérola Negra, indo igualmente atrás do coração, para que ela pudesse salvar Will Turner, que estava aprisionado no Holandês Voador. – Com um ar pensativo, voltou á sua narrativa: - Ela fez tudo premeditado para que ele caísse no seu jogo: a troca de olhares, o motivo que arranjava para se falarem e até mesmo a trocara de frases comprometedoras durante todo o rumo.

-Mas essa moça estava apaixonada por ele? – Aquela pergunta fez Gibbs sorrir.

-Não. – retrucou sem hesitar. – A única coisa que ela fez durante toda viagem, foi simplesmente persuadir Jack aos poucos, para descobrir onde estava Will, o homem que ela realmente amava. Jack apenas caiu no isco dela e Elizabeth foi puxando cada vez mais a corda até… - Gibbs fez uma pausa e suspirou: – Até ao dia em que fomos atacados pelo Kraken. Ao se aperceber que não havia muitas hipóteses para nós, Elizabeth decidiu tomar a atitude mais lógica do momento: chamar o capitão à razão sobre o que se passava á sua volta. Com um beijo, ela conseguiu prendê-lo no mastro e fazê-lo perceber que o melhor seria enfrentar o Kraken do que arriscar a vida dos últimos sobreviventes, levando-os assim a uma morte certa. Foi assim que Elizabeth o deixou no navio, abandonado á própria sorte…

-Admira-me que ele não ter arranjado uma maneira engenhosa de sair do Pérola.

-No fundo, ele sabia que não havia outra solução, e Elizabeth fê-lo ver isso. Mesmo assim, o orgulho pirata de Jack tinha sido ferido por quem menos esperava: a única e possível mulher por quem ele se enamorou. Apesar de ter superado isso, e talvez de a ter perdoado, Jack jurou para si mesmo não confiar em mais nenhuma mulher, nem sequer dar oportunidade de alguma se aproximar, a não ser as mulheres salgadas, claro.

-É por isso que ele tem esse jeito difícil comigo? – Ele anuiu simpaticamente. – E o que é feito dessa mulher? O senhor Gibbs disse que iríamos ao encontro dela.

-Ela casou com Will, ahh e que grande casamento aquele. – relembrou entusiasmado - Estávamos no meio de uma tempestade e em plena batalha contra o Holandês Voador, mas as coisas não correram assim tão bem…

-Porquê, senhor Gibbs?

-Quem apunhalasse o coração de Davy Jones, não só o mataria, como ficaria a ser o capitão desse navio para toda a eternidade. Já com o coração nas mãos, pronto a ter a sua gloriosa imortalidade, Jack viu-se num dilema, quando viu o peito de Will ser trespassado pela espada de Davy. Então, numa atitude humilde, e destroçado por ver o seu amigo quase morto e uma Elizabeth aturdida, Jack ajudou Will no seu último suspiro a apunhalar o coração.

-Ele morreu? – interrogou Perla chocada, com sua respiração afectada – O que aconteceu com ele?

-Will ficou a ser o capitão do Holandês Voador, possuindo a missão que em tempos pertenceu a Davy: levar as almas das pessoas que morriam em pleno alto mar para o seu eterno descanso durante dez anos. Quando ele cumprir essa tarefa, e se Elizabeth ainda o esperar, aparecerá novamente o clarão verde ao pôr-do-sol, sinal que uma alma voltou á vida e aí serão novamente felizes, enquanto Jack continua á procura da sua própria sorte.

-Estou abismada com essa história, não fazia ideia do golpe que o destino pregou ao capitão Sparrow, muito menos a esses dois jovens.

-Agora alteza, está na hora de você descansar. – Aconselhou ele. - Se quiser pode ficar com a minha rede, eu durmo no chão, não seria a primeira

-Obrigada pela simpatia, senhor Gibbs, mas eu vou dormir lá dentro. – Agradeceu num tom meigo. – Você é uma boa pessoa. – Ele sorriu abertamente. – E deixe o Alteza de lado, me chame de Perla.

-Está certo, Perla. – Ambos sorriram, cúmplices. – E não precisa agradecer. Mesmo assim, eu vou ter de me manter acordado durante a noite. Jack desconfia que haverá uma tempestade durante a travessia do Olho do Gigante. Com licença alt…quer dizer, Perla. - Gibbs afastou-se sem olhar para trás.

Perla olhou para o Castelo de Popa, onde estava Jack a manear o leme. Ainda pensava na história que Gibbs lhe contara. Como Jack, um homem inteligente, tinha caído numa cantiga daquelas? Sua mãe lhe contava várias histórias sobre o famoso Jack Sparrow, de como ele era forte, independente, ambicioso e calculista, e um pouco cínico, mas que ao fim do cabo, era um bom homem. Agora que o conhecia pessoalmente, era como se tudo o que sua mãe lhe havia contado não tivesse nada a ver com o homem que estava compartilhando o navio. Talvez ele tivesse mudado por causa de toda essa história, apesar de Perla achar que pirata nunca muda, apenas atravessa fases.

Voltou a observá-lo com atenção e sorriu ao vê-lo resmungar com o leme. Ele era tão lindo e ao mesmo tempo tão insuportável e impossível. Ela acabou por soltar um suspiro que estava preso na sua garganta…queria aproximar-se dele, mostrar que nunca faria o que Elizabeth fez, apesar de como Gibbs tinha dito, ela ter tomado a atitude certa. Porém ele não lhe dava nenhuma hipótese. Ela reconheceu que também não estava sendo fácil, pois ela mesma adorava provocá-lo. Perla tinha esperança de que Jack iria ultrapassar aquele feitio, e que talvez ela conseguisse aproximar-se dele.

Oiii pessoal…

Sei que mais uma vez não cumpri com a palavra e fiquei um montão de tempo sem postar, mas desde que li o Harry Potter e as relíquias da morte, voltei a ter novamente vontade de escrever uma fic sobre Harry Potter, mas não vou abandonar esta…o próximo capítulo já está sendo fabricado.

Sinceramente, espero que tenham gostado deste capitulo que está um pouco maior que o normal e por favor, deixem uma reviews com as vossas opiniões :)

Queria também agradecer às pessoas que me mandaram reviews: Lady Ludmila, Likha Sparrow, Jane, Fini Felton, Kad e Bruno e prometer que para a próxima eu respondo aos vossas reviews sem falta.

Estou vendo que tem muita fic nova e estou morta para pôr a leitura em dia…vou aproveitar esta semana para dar uma olhadela :)

Até ao próximo capítulo

Taty Black