Capitulo 9 – Grandes decisões, pequenas incertezas
Os dias foram passando lentamente, sem grandes alterações, enquanto o Pérola Negra navegava calmamente em mar aberto, mantendo a velocidade um pouco mais acelerada. Desde que tinham entrado em pleno Oceano Pacifico, rumo a Singapura, o tempo vinha escurecendo e as nuvens cinzentas rondavam no céu, ameaçando quebrar a qualquer momento.
A viagem em si parecia durar meses sem fim, fazendo crescer um certo nervoso miudinho em Perla, impedindo-a de se alimentar decentemente. O que a vinha enfraquecendo dia após dia embora ela teimasse que estava perfeitamente bem de saúde. Enquanto isso, Jack já tinha se habituado á ausência de Perla no convés superior, visto que agora era raro ela sair de seus aposentos, devido ao mau tempo e aos ventos frígidos que nos últimos dias teimavam em não cessar. Apesar de não mostrar fisicamente, Jack estava realmente preocupado com a súbita enfermidade dela que, desde a última vez que a tinha visto no convés, apresentava sinais de debilidade notórios.
Jack queria estar um pouco sozinho com ela, poder falar e ver como ela estava, mas por mais que ele quisesse, tinha um certo comodoro rondando-a, não desgrudando de Perla. A única oportunidade que tinha para estar com ela era á noite, quando o comodoro se retirava para os seus aposentos. Só que mesmo assim, quando Jack chegava aos aposentos dele, Perla já dormia serenamente sobre os lençóis de linho. Aproveitava então aquele momento da noite para a cobrir melhor e contemplá-la, confessando para si mesmo sentir saudades daquela Perla que tinha conhecido no porto de Siracusa. A feiticeira que vinha dominando seus insanos pensamentos e que agora estava ali, apagada sobre seu próprio feitiço.
Já Alessandro, desde que tinha presenciado a cena do abraço entre Jack e Perla, e dos constantes avisos de Barbossa, resolvera permanecer do lado de Perla para cuidar dela. Assim, não dava espaço para Jack se aproximar da princesa. De facto, ele tinha dúvidas quanto ás verdadeiras intenções de Jack e, por mais que soubesse que Perla não compartilhava do mesmo sentimento, fazia de tudo para que ela não sofresse por causa daquele ambicioso e safado capitão, que estava só jogando-lhe charme para conseguir descobrir a Mão de Midas e depois despachá-la
Por outro lado, Perla estava cansada de que Alessandro se metesse na sua vida, principalmente, dele a querer proteger, não sabendo ela do quê. Sabia que Alex desconfiava de alguma coisa que envolvia Jack, por isso não a queria deixar sozinha, nem por um instante, com o capitão. E estava conseguindo. Raras eram as vezes quer Perla via Jack, e das vezes que colocava o olho nele, Jack entrava em seus aposentos no meio da tarde para buscar algo, evitando sempre olhar para ela, enquanto Alessandro seguia todos os movimentos do capitão, até ele finalmente sair da cabina. Ás vezes, ela chegava a pensar que ambos estavam navegando em navios diferentes, embora soubessem da presença um do outro, e isso deixava-a insana. O facto ali era que Perla começava a sentir saudades do desajeitado Jack e das conversas sem lógica que ambos tinham. Aliás, não era só disso que ela sentia saudade…em suma, não estava querendo menosprezar Alessandro, mas o afastamento de Jack a fazia sentir vazia. Ele sim, era a sua força, o seu porto seguro, quem conseguia acalmá-la nos seus momentos de desespero.
Cansada pelo jeito do qual Alessandro a vinha tratando, e daquele afastamento repentino de Jack, Perla resolveu durante a noite fingir que estava dormindo para que Alex fosse embora mais cedo dos seus aposentos, a modos de a deixar sozinha. Ao ouvir o ranger da porta abrir e dos passos, quase silenciosos de Alessandro, deixando a cabina e batendo suavemente a porta, Perla abriu os olhos para verificar se ele tinha realmente saído. Vendo que o caminho estava livre, levantou-se cuidadosamente da cama, calçando suas botas apressadamente e de seguida pegou num dos casacos de Jack, para poder se deslocar até lá fora e apanhar um pouco daquela brisa fresca que ajudava o navio a navegar pelo calmo mar. Perla abriu a porta vagarosamente e espreitou para ver se não se encontrava ninguém por ali…a passos leves, ela passou pelo convés inferior, onde todos estavam ressonando até finalmente subir as escadas que davam para o convés superior.
Quando chegou lá fora, reparou no céu escuro e terrivelmente nublado, acompanhado de uma chuva miudinha que insistia em cair sobre o corpo trémulo de Perla, enquanto seus cabelos, agora soltos, esvoaçavam livremente em frente ao seu rosto. Ela deslocou rapidamente uma mecha de cabelo que pairava sobre seus os olhos e observou o convés em busca de Jack, até sentir uma mão forte agarrar o seu braço e cautelosamente guiá-la para debaixo do castelo de poupa.
-Jack. – murmurou ela vendo ele pingar algumas gotas de água que teimavam em deslizar sobre seu rosto.
-Que está fazendo aqui? Não devia estar repousando? – perguntou Jack, limpando o rosto molhado dela.
-Não estava aguentando mais ficar naqueles aposentos, estava sufocando lá dentro, por isso resolvi apanhar um pouco de ar. – Perla viu a chuva miudinha começar a parar, ficando apenas uma brisa fria que penetrava na pele até chegar aos ossos de uma maneira tortuosa. Ela andou um pouco até á proa e colocou a mão sobre a borda do navio que estava gelada.
-Como você é mentirosa. – Ela fitou-o com uma expressão peculiar, enquanto ele chegava perto – Confesse que sentiu saudades minhas e, não aguentando tamanho sentimento, veio me ver. Estou certo? – Perla soltou um fraco sorriso
-Quer mesmo que eu afirme esse facto só para aumentar o seu estimado ego, ou prefere repetir isso durante várias vezes até se convencer?
-Será que sou eu mesmo que me tenho de convencer desse facto, darling? – Num tom debochado ele sussurrou no ar, tentando testá-la.
-Como você é tão previsível, meu caro – respondeu, virando sua cabeça ao encontro daqueles olhos negros, ficando frente a frente com Jack. – Fique sabendo, senhor Sparrow, que eu não pretendo cair na sua lábia, savvy? – Ele passou as costas da mão na bochecha dela, mas logo Perla esquivou-se, fazendo-o crispar os lábios com um sorriso maroto.
-Será mesmo que não? Eu diria que você já está na minha mão, minha cara. – Ela soltou uma gargalhada forçada
-Ou será que é você que está na minha mão? – Ele ergueu a sobrancelha, ao vê-la jogar um olhar provocador. – Será que eu não passeio livremente nos seus pensamentos mais insensatos? – Jack olhou a sua volta á procura de uma resposta evidente
-Quem dera a você estar em meus pensamentos, querida… – Perla abanou a cabeça enquanto um sorriso lhe aflorou nos lábios. – Entenda uma coisa pequena, eu sou o Capitão Jack Sparrow. – Ele fez um gesto com as mãos, como se aquilo que acabara de dizer fosse óbvio.
-E esta foi a vida que pediu a Deus, capitão Jack Sparrow? – perguntou, tentando mudar o rumo da conversa.
-Sabe, eu não nasci para estar em terra firme. – respondeu Jack, olhando o horizonte. – E você darling? Apesar das condições que a trazem a este humilde navio, você está gostando de navegar por mar aberto?
-Eu sempre fui fascinada pelo mar, pelos mistérios e maravilhas que ele esconde, e até mesmo a que lugares ele nos pode levar. – Perla fez uma pausa para analisar o céu nublado – Quando era criança, eu queria ser pirata, por isso lia tudo o que achasse sobre eles e, é claro, ouvia as histórias que minha mãe me contava. Ela fazia aquelas meras histórias soarem com tanto entusiasmos, tanta excitação, que eu ousava pensar nelas de uma forma real, ir além da imaginação, você entende?
Perla baixou o olhar para o mar agitado e suspirou, enquanto Jack continuava imóvel.
- Naquela época eu daria qualquer coisa para ter uma vida como aquela das histórias, uma vida de pirata. – Jack podia ver novamente aquele belo brilho nos olhos de Perla, aquele que há muito se tinha extinguido. – Isto tudo é tão bonito – Ela olhou para Jack sorrindo. – Olhe como meu cabelo voa livremente com o vento e os salpicos do mar tocam meu rosto. São coisas que nunca pensei sentir, principalmente o entusiasmo de não saber o que pode acontecer a qualquer momento. Estar num navio, com uma tripulação e um capitão, procurando riquezas, mesmo aquelas que vão para além dos nossos sonhos, e correndo assim o risco, de a qualquer instante, ser atacados por outro navio pirata…
-Você é uma mulher que sabe o que quer, meu bem. Só acho que por causa do seu estilo de vida e pela grande responsabilidade de ser a sucessora de um trono, não se permitiu, até agora, ter o que seu coração mais desejava…
-Eu já tenho o que meu coração mais deseja! Estou vivendo aquilo que há uns anos atrás eu nunca pensaria ser verdade, como disse, apenas imaginava como seria! – Perla aproximou-se de Jack, passando a mão pelo rosto dele. – Além do mais, atrevo-me a dizer que esta viagem está sendo melhor que a dos meus sonhos, pois neles eu nunca inclui você, mas agora é diferente…
-Agora você me inclui neles? – perguntou Jack, pegando na mão da garota
-Perla, o que você faz aí? – interpelou Alessandro, enquanto discretamente Perla desembaraçava-se da mão de Jack -Você não devia estar na cama e dormindo?
-Estava só perguntando ao senhor Sparrow se falta muito para chegar a Singapura! – Mentiu Perla olhando de relance para Jack, que desviou o olhar para Alessandro, que permanecia intacto debaixo do castelo de poupa
-Talvez amanhã, pelo fim da tarde
-È sério Jack? – Entusiasmada, Perla juntou as mãos, colando-as debaixo do queixo.
-Absolutamente darling. – Jack viu o olhar de esperança de Perla. – Agora faça o que o seu querido mais que tudo noivo quer. – Perla viu Jack afastar-se ligeiramente, fazendo um gesto para que Alessandro saísse da frente dele, podendo assim entrar no porão.
Novamente aquele maldito sentimento de culpa se apoderou dela, fazendo-a lançar um olhar fulminante a Alessandro, que não se intimidou com ele, muito pelo contrário, Alex encarou-a durante alguns segundos esperando que ela lhe explicasse o que realmente se passava ali. Perla suspirou discretamente, pensando se aquele era ou não o momento ideal para lhe falar tudo o que tinha guardado, e que nunca tivera coragem para lhe dizer. Dando dois passos á frente, Perla levou a mão fechada á frente boca e pigarreou baixinho, ao tempo que ganhava coragem para ir directa ao ponto que queria
-Alex, quando você veio nesta viagem, eu achei que fosse a melhor solução para nós. Você estaria longe da mira de Silver, e eu estaria mais descansada ao ter um amigo ao meu lado. O meu melhor amigo. – frisou ela, á medida que Alessandro encurtava a distância entre eles – Quando eu escolhi esta vida eu pretendia ser livre, e achei que você fosse compreender isso!
-E compreendo Perla…
-Não, não compreende! – protestou num tom brando. - Você continua me tratando como se eu ainda estivesse no palácio com obrigações a cumprir, longe do povo, que neste caso é a tripulação…você está parecendo meu pai, Alex! – Ele parou diante dela, vendo que o olhar de Perla reluzia toda a sua revolta.
-Perla, você está confusa, precisa de descansar. Você não está em condições de ter uma conversa deste género…
-Eu estou bem e, por mais que queira, eu não posso adiar nem mais um dia esta conversa! – Perla encostou suas costas á borda do navio e de braços cruzados, ela continuou olhando para Alessandro – Por quê Alex? Por quê você faz tanta questão de querer me distanciar do capitão, sem ao menos disfarçar sua opção?
-Eu nunca te quis separar literalmente do capitão. – Ele ficou sério de repente, analisando os traços incógnitos do rosto dela – Só acho que você precisa retornar ás suas origens! Você está ficando igual a eles…
-Você sempre soube que era isso que eu queria – contrapôs Perla, calando Alessandro incivilmente, que olhou para o horizonte a modos de tentar achar paciência – Eu sou filha de uma pirata Alex, tenho o sangue de Deanne Bonny correndo nas minhas veias, quer você queira ou não...
-Mas nas suas veias também corre sangue Real, ou está se esquecendo disso? – Berrou Alessandro não conseguindo mais arranjar paciência, o que fez Perla ficar exaltada com o amigo
-Vinte anos, Alex. Há vinte anos que eu estou dentro de um palácio, durante todos eles tentei disfarçar minha infelicidade com um falso sorriso, na intenção de agradar aquela gente hipócrita que vivia ás custas de meu pai. Há vinte anos que estou prisioneira em minha própria casa, sem conhecer os horizontes que tanto apelavam por mim. – Ela respirou fundo, depositando uma boa quantidade de ar nos pulmões para continuar – Só agora sei o que é realmente viver, posso dizer que em vinte anos só agora soube o verdadeiro significado da palavra liberdade. Cabe a mim decidir que rumo tomar, se quero ou não voltar ás minhas origens, como você mesmo diz e acredite, eu não estou minimamente interessada em voltar para aquela prisão. – completou ela vendo o rosto de decepção de Alessandro.
-Nós estamos comprometidos, tivemos quase nos casando…
-Um casamento que seria o maior erro de nossas vidas. – contestou Perla, baixando a cabeça e contendo as lágrimas que marejavam em seus olhos.
Estava sendo difícil continuar aquela conversa, principalmente olhando para Alessandro que parecia cada vez mais assombrado com o que ouvia.
-Você disse que iria tentar, que estaria disposta a casar. Perla eu amo você…o que mudou? – perguntou ele desesperado com a atitude irredutível da jovem.
-Nós iríamos ser infelizes! – Perla olhou para o leme vazio, sentia sua voz falhar, tendo dificuldade de articular as palavras que precisavam ser ditas naquele momento. – Por mais que você me ame, eu nunca iria conseguir corresponder aquilo que você espera de mim
-Você se apaixonou por ele não foi? – falou Alessandro num tom baixo, pousando as mãos sobre os ombros dela, pedindo silenciosamente por sinceridade
-Nosso casamento foi arranjado, você sempre soube das minhas condições. Esta viagem fez me reflectir sobre tudo na minha vida…eu apenas te considero um amigo, nada mais…
-Você não me respondeu! – intercalou Alessandro, aumentando um pouco a sua voz, enquanto lágrimas lhe toldavam os olhos azuis-escuros - Está ou não apaixonada por ele? – Perla olhou fundo nos olhos de Alex, que estava coberto de lágrima.
-Sinceramente…não sei! – respondeu ela por fim num tom rouco, levando a mão á testa. Ele largou-lhe os ombros e virou costas, passando as mãos pelo rosto, virando-se novamente para Perla, que o encarava com um olhar triste
-Eu sempre soube que iria perder você nesta viagem, mas pensei que tivesse enganado. Agora eu tenho certeza disso – Perla olhou para a sua mão, e passado alguns segundos de fitar o anel que Alex lhe tinha oferecido no dia do casamento interrompido, ela tirou-o
-Você não merece sofrer por causa de uma pessoa que não corresponde ao seu amor…eu lamento muito, mas você merece alguém que realmente te ame – Ela pegou delicadamente na mão de Alex e pousou o anel na mão dele, fechando-a. Ele abanou a cabeça inconformado – Alessandro, apesar de tudo, eu não quero perder a sua amizade.
Ele não disse nada, virando definitivamente costas e indo para a porta do porão, deixando-a finalmente sozinha. Ela pousou os cotovelos na borda do navio e suspirou.
Perla finalmente deixou escapar as lágrimas que até bem pouco tempo tinha retido, e permitiu que a brisa do mar as secasse. Estava sem forças para fazer o que quer que fosse, principalmente depois daquela interminável e dolorosa conversa. Tinha sido o pior momento da sua vida, e custava-lhe tanto magoar o seu melhor amigo, o seu irmão…que parecia que ia explodir. Adorava-o tanto, mas não conseguia amá-lo como ele a amava, e isso doía-lhe mais do que qualquer outra coisa. E o pior era aquele sentimento indefinido pelo capitão, que Perla não conseguia realmente explicar o que estava acontecendo. Apesar disso, sua alma estava em paz, tinha tomado a atitude certa perante Alessandro, não o iria magoar mais com as suas incertezas. Mesmo sabendo que, depois da aventura acabar, teria de voltar a Siracusa, Perla queria desfrutar cada momento naquele maravilhoso mar, incerta do seu futuro. Ela levantou os seus cotovelos da borda do navio e rodopiou para o lado.
-Porquê que custa tanto assim? – murmurou ela indo em direcção ao porão.
-Ora Alteza, está custando porque você sabe que ele é um bom partido. – Alguém apareceu do meio de um canto escuro, mesmo debaixo do castelo de poupa.
-Capitão Barbossa… – Ele soltou um sorriso irónico ao ouvir seu nome ser pronunciado – Eu preferia que o senhor não interferisse neste assunto, por gentileza – Indiferente á presença de Barbossa, Perla caminhou firmemente, encarando-o de uma forma desconfiada.
-Pensa que Jack está apaixonado por você, alteza? – Perla parou mesmo ao lado de Barbossa, olhando-o seriamente depois daquela questão sardónica.
-Não sei o que isso contribui para sua afortunada felicidade capitão – contestou ela friamente – Sinceramente, eu não penso nada a esse respeito e, se me permite uma pequena opinião, eu creio que o senhor devia fazer o mesmo…
-Devo deixar esclarecido, que não estou interessado nos sentimentos retrógrados do capitão, mas devo rebater que, desde o começo, Jack Sparrow só está interessado nessa Mão de Midas, minha cara! – Perla prestou atenção naquelas envenenadas palavras. - Fique ciente que ele fará de tudo para a conseguir, passando por cima de você se for preciso. Jack nunca se ligou a grandes amizades, muito menos a amores sinceros, por isso, não custará nada despachar você depois de obter a famosa Mão. – Barbossa sorriu de desdém ao ver que as palavras dele estavam a causar o efeito que ele queria em Perla. Ela estava apenas confusa, não querendo acreditar naquilo – Por isso o seu querido Comodoro não a quer perto do Capitão, ele já se apercebeu das verdadeiras intenções de Jack sobre vossa excelência, aliás, todos já notamos... só você é que ainda não percebeu.
-Quer mesmo que acredite em você? – Ela soltou um sorriso mordaz. – Logo em você que já traiu um monte de vezes Jack! O que me leva a crer que você não está inventando essa história toda, só para trapacear Jack novamente? - Barbossa soltou uma gargalhada prolongada, o que fez Perla recuar com o sobrolho franzido
-O pior cego é aquele que não quer enxergar – Barbossa deu uma volta lenta em torno de Perla – Você não está num conto de fadas, senhorita Neblon, está num conto pirata, e esses mundos nunca se unem num só…entre piratas e princesas só há um único objectivo: o pomposo resgate que as princesas representam para piratas como nós. Não existem piratas honestos, que ajudam de livre e espontânea vontade uma princesa que do nada aparece.
Perla começou a se aperceber do jogo de palavras que Barbossa estava expondo tão claramente.
– Agora, você acha certo deixar um comodoro apaixonado, fiel e sincero, por um pirata mentiroso, safado e calculista? – Perla permaneceu calada e firme diante daquele olhar concentrado – Pense nisso boneca… – Perla colocou-se em frente de Barbossa e entre dentre respondeu-lhe:
-Para você, é senhorita Neblon! - dito aquilo, Perla retirou-se deixando Barbossa rindo sozinho.
Ela correu em direcção aos seus aposentos para falar com Jack, mas ao abrir a porta de rompante, deparou-se com Jack já adormecido na rede. Não teve coragem de o acordar, o que a fez levar a mão á testa e inconscientemente pensar no que Barbossa tinha-lhe dito:
"Fique ciente que ele fará de tudo para a conseguir, passando por cima de você se for preciso… Jack nunca ligou a grandes amizades, muito menos a amores sinceros, por isso, não custará nada despachar você depois de obter a famosa Mão."
"Tanta gentileza e compreensão junta, vinda de um pirata é para desconfiar!"
Perla que permanecia encostada á porta, deslizou até ao chão, continuando a olhar para Jack.
"Não pode ser, ele não!"
Estava confusa e o cansaço impedia de pensar direito.
"Eu não posso ter sido tão ingénua ao ponto de ter caído nisso?" Ela suspirou "Barbossa tem razão, o mundo de princesas e piratas não combina."
-Mas ele é a minha única ajuda, só Jack me pode ajudar, independente de tudo – murmurou, baixando a cabeça até bater com ela nos joelhos.
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Tal como os dias tinham passado em Tortuga, sobre a lua vacilante que se escondia por entre as nuvens negras, permanecia ainda um navio altivo e bem reestruturado balançando sobre as águas controversas do Caribe, e dentro dele o seu capitão, esperando, embora que não muito importado, por noticias de Alessandro que tinha desaparecido desde que tinham aportado ali.
-Capitão, há uma semana que não temos nenhum sinal do comodoro. – informou o primeiro imediato a Silver que mal pestanejou.
-Onde raios se pôs aquele imbecil? – murmurou para si mesmo, levando a mão ao queixo.
-O que fazemos capitão? – Silver olhou para a tripulação perdido em seus pensamentos.
-Deixaremos o cais de Tortuga. Aportaremos na Jamaica, numa povoação pequena, que de certo nos receberá muito bem. – Silver passou a mão pelo cabo da espada, o que fez a tripulação entender o gesto – Precisaremos aliviar um pouco a tensão dos últimos dias numa ilha bem merecida. Afinal de contas, no fim, teremos desfrutando da maior riqueza de todos os tempos – disse num tom cínico, passando a mão pelos cabelos compridos.
-E o que fazemos com os dois navios dos Guardas Reais de Siracusa?
-Partirão com a gente e, no meio do percurso, afundaremos em pleno mar caribenho esses imbecis, o resto já não é do meu interesse – grunhiu ele, dando passadas largar pelo escuro convés – O que estão á espera cavalheiros? Senhor Jochem, faça a gentileza de pôr esta gente a trabalhar e, quando eu vier do navio dos emproados, quero ver o Adriatic Sea de velas içadas e âncora levantada, fiz-me entender? – O primeiro imediato concordou – Como disse, iremos para o sul da Jamaica, numa povoação chamada Aligattor Pond. E lá, esperamos a Mão de Midas que virá ter ás nossas humildes mãos.
-E como é que a garota saberá que você se encontrará em Aligattor Pond? – Silver olhou de relance para um homem pequeno.
-Eu tive a oportunidade de verificar que o Capitão Jack Sparrow tem uma certa bússola que aponta para o que mais se deseja. E de certo, depois de achar a Mão de Midas, o que a princesa Perla deseja é achar a irmã, não estou certo?
-Mas nós tivemos no Pérola Negra, e não há nenhum sinal da princesa lá…
-Você é mesmo um burro, não sabe analisar a situação – respondeu Silver abanando impacientemente a cabeça. – Ela encontra-se lá, embora vestida ridiculamente de marujo. Pensa que eu não me apercebi? Só não disse ao Comodoro na altura, porque sabia que ganharia mais ao ter a princesa no navio do Sparrow. – Ele olhou concentradamente para a tripulação e grunhiu: – Eu volto mais logo…
-Aye, meu capitão. – Depois disso, o primeiro imediato virou-se para a tripulação – Ouviram o que o capitão disse, quero ver todo o mundo mexendo esses sebos preguiçosos. Abandonaremos Tortuga hoje, depois preparem os canhões para fazer uma pequena abordagem surpresa aos navios da Guarda Real de Siracusa.
-Assim é que eu gosto – murmurou Silver abrindo um sorriso malicioso.
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Na manhã seguinte, Jack que tinha acordado cedo, encontrou Perla adormecida contra a porta dos seus aposentos. Ele estranhou esse facto e chegou a pensar que algo se tinha passado com ela, para estar ali encostada.
-Ei garota, acorde! – Perla abriu lentamente os olhos com alguma dificuldade, vendo a figura alta de Jack diante de si – Já não está tão pálida como nos outros dias, está recuperando a cor…
-Apanhar ar ontem fez-me, de uma certa maneira, muito bem! – ironizou Perla, levantando-se com a ajuda de Jack – Eu não preciso da sua ajuda…
-Óptimo! Estou vendo que também recuperou o seu bom-humor diário, sinal que está melhor – Jack pegou no chapéu e com as duas mãos fez um gesto para Perla sair da porta.
-Não se esqueça Jack – murmurou ela, fazendo ele parar na porta, virando-se para trás e vendo-a de costas para ele –, o que nos une nesta viagem são apenas puros negócios – Jack soltou um sorriso sardónico – Depois cada um para seu lado. – Ele colocou-se atrás dela e sussurrou-lhe:
-Será que você conseguirá se afastar de mim? – Afastou os cabelos dela para trás do ombro.
-Mais fácil do que você pensa… -rebateu, olhando-o de soslaio, enquanto lentamente se virava na sua direcção. Jack passou a sua mão pelos lábios dela, e como se aquilo que ele lhe estava fazendo fosse indiferente, Perla cruzou os braços.
-Quer apostar, doçura? – murmurou Jack soltando um sorriso desdenhoso, saindo de seguida dos aposentos.
-Jack volte aqui! – ordenou ela, sentando-se na rede e apoiando o queixo com a sua mão esquerda – Minha Virgem de Guadalupe, o que faço? Cada decisão que tomo, tenho a sensação de jogar meu futuro para o trás. As palavras intrigantes de Barbossa não me saem da cabeça, só que cá dentro, há algo que me diz que Jack não seria capaz de me fazer uma coisa dessas... – Perla levantou a cabeça encarando um ponto fixo – Sei de alguém que pode saber se é verdade.
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-Alte…quer dizer Perla, ainda bem que recuperou! – felicitou Gibbs, agarrado o seu cantil de rum, ao ver Perla aproximar-se lentamente da escotilha.
-Acho que consegui recuperar um pouco da esperança que tinha morrido dentro de mim, senhor Gibbs – Ele viu que algo atormentava os pensamentos dela.
-Fale Perla, eu sei que você veio me perguntar alguma coisa que lhe está atormentando. – Perla soltou um fraco sorriu ao ver que pelo pouco que Gibbs conhecia dela, já conseguia ver que algo não estava certo
-Parece que me conhece melhor que meu próprio pai. – Gibbs sentiu-se lisonjeado a ouvir aquilo, mas deixou a jovem continuar – Senhor Gibbs, eu vou directa ao assunto, e espero que você seja sincero comigo, pelo menos você. – Ele anuiu ao ver Perla suspirar fundo - Quais são as verdadeiras intenções de Jack quanto a esse objecto? – Gibbs arregalou os olhos e encarou perplexamente a garota – Eu preciso saber da resposta.
-Por que você não pergunta ao próprio? Ele sim é a pessoa certa para te responder…
-Porque ele me iria enrolar e eu iria cair feito peixe na rede. Eu confio em você, Senhor Gibbs. Você sim, é a pessoa certa para me responder a isso. – Gibbs fechou o seu cantil pronto a falar – Ele nunca me quis ajudar, pois não? – perguntou ela num tom baixo em forma a que só ele ouvisse.
-É difícil saber o que vai na cabeça do capitão, Perla. Eu vou ser o mais franco possível com você. No inicio, quando você apareceu, lá em Siracusa, pedindo desesperadamente por ajuda, Jack só pensava no quanto esse objecto valia e no quanto iria lucrar te ajudando.
Perla escutava atentamente Gibbs sentindo seu coração acelerar.
-Ele vinha planeando uma maneira de te arrancar essa Mão de Midas…
-Aquele cachorro… – disse irritada, cerrando o punho, decidida a ir em direcção ao leme, mas Gibbs segurou-a pelo braço. – Vem me enganando toda a viagem, senhor Gibbs, fingindo simpatia e compreensão. Mentindo-me descaradamente nesse tempo todo só para saber qual seria seu lucro comigo.
-Você se lembra daquele pequeno problema que ele teve com Elizabeth? - Perla olhou-o de relance encostando-se ao canhão, mesmo ao lado de Gibbs, pensando onde ele queria chegar.
-Sei! A Elizabeth foi a única mulher que ele não conseguiu esquecer, e talvez a única. E até agora, nenhuma outra mulher chegou tão perto dele, devido á desconfiança que ela lhe depositou. Sim, eu sei, mas o que isso tem haver comigo?
-Jack recuperou um pouco dele Perla, um pouco daquilo que ele tinha perdido ao saber que Elizabeth tinha casado com Will… Aos poucos ele foi te conhecendo, e como se diz, você foi chegando sem avisar, e sem pedir licença. Você começou a ocupar os pensamentos de Jack, colocando em duvida aquilo que ele realmente sentia ou queria. – Perla abriu bem os olhos ao ouvir aquilo.
-Mas ele ainda continua em dúvida, e sinceramente, eu não sei o que ele vai fazer comigo quando achar a Mão de Midas…
-Duvidar de tudo é como acreditar em tudo. São posições igualmente perigosas, e ambas nos dispensam de reflectir. – Perla entendeu o que ele quis dizer – Não deixe que esse pensamento estrague tudo o que até agora você conseguiu conquistar! Você adquiriu o que muitas mulheres tentaram, e possivelmente algum dia almejaram, e isso em si é um grande mérito seu. – Perla abriu um vasto sorriso – Jack vai ajudar você, dê-lhe apenas o benefício da dúvida, e deixe-se guiar pela magnífica viagem que o Pérola está lhe proporcionando. – Gibbs tocou no nariz dela, numa carícia. – Agora vou ver o que os marujos andam fazendo nas minhas costas.
-Senhor Gibbs, obrigada pela sinceridade. Confesso que se não tivesse vindo falar com você, eu iria ainda hoje pedir a Jack para me deixar em Singapura!
-De nada, princesa. – Ele andou um pouco, até se lembrar de algo. – Por que você começou a desconfiar de Jack agora? Ele lhe fez alguma coisa?
-Não senhor Gibbs, foi apenas alguém que me alertou sobre os possíveis interesses de Jack. – Ela fez uma pausa depois de um longo suspiro. – O capitão Barbossa.
-Pelas barbas longas de Poseidon, esse homem está sempre em pé de guerra com Jack por causa do navio – Ele deu um olhar terno para Perla – Não leve em conta os comentários de Barbossa. Ele gosta sempre de atear fogo a um bom rastilho de pólvora. Agora minha querida, eu peço encarecidamente que não conte nada ao Jack, senão o navio é capaz de não aguentar mais uma das súbitas discussões de ambos, e ainda acaba a afundar em pleno oceano Pacifico. E eu ainda quero viver durante vários anos. Agora com licença…
Perla sentou-se na amuada do navio, ao tempo que fechava os olhos e respirava fundo aquela brisa agradável que fazia seus cabelos oscilarem teimosamente no rosto. Sentia-se mais aliviada depois de ter conversado com Gibbs, como se o peso sobre seu peito, contraindo seus pulmões, tivesse desaparecido, deixando-a respirar melhor. Ela passeou pelo convés com o olhar e encontrou Alex ajudando Mullroy e Murtogg nas cordas da vela…quis ir falar com ele, mas teve medo de sua reacção prematura devido aos últimos acontecimentos. Sentia um enorme pesar pela situação exposta entre os dois, mas não queria perder a amizade duradoura dele. Tanto que tinham passado e brincado na sua infância para acabar numa discussão mal resolvia entre ambos. Ela olhou para o horizonte e pensou " O que tem que acontecer, acontecerá, e situações futuras irão supostamente resolver as velhas questões do passado."
Oiii gente
Devo de já comunicar que, a partir deste capitulo, a fic será betada por nossa querida Roxanne, que se desponibilizou a me ajudar nesse aspecto …obrigada mesmo querida
Agora queria agradecer a vocês… Dorinha Pamella, Roxanne, Bruno Teixeira, Jessica Sparrow Turner, Jane, Lika Sparrow e Fini Felton pelas reviews que me mandarem, de coração que adorei.
Quanto ao próximo capítulo, posso dizer que finalmente acontecerá a chegada da nossa tripulação do Pérola Negra a Singapura ao reencontro de Elizabeth, que os poderá ajudar nas buscas da Mão de Midas
Bjokas grandes para vocês e fiquem bem
Taty Black
