Capitulo 11 – "Até você ter a certeza"

Perla entrou na casa de Elizabeth e acendeu um dos lampiões da sala, sentando-se de seguida na escada que dividia a sala dos quartos. Ela colocou seus braços cruzados sobre o peito, e com as mãos esfregou os braços, ao tempo que balançava o tronco. Por mais que pensasse não conseguia arranjar uma explicação para o que se tinha passado na praia, estava confusa com a atitude de Jack e envergonhada por o ter deixado avançar daquela maneira…Envergonhada dos pensamentos impuros, e até mesmo perversos, que teve ao beijar Jack daquela maneira tão intensa, como se estivesse entregando sua alma para ele através daquele beijo. Por ela, teria ficado assim durante muito tempo, e esse tipo de pensamento estava deixando-a baralhada, pois sentia algo no beijo de Jack que nunca havia sentido no de Alessandro. Parecia que algo estava florescendo, e a todo o custo ela queria debater-se contra isso, não deixá-lo expandir. Não estava certo ter aquele tipo de sensações e sentimentos. Não por ele, não por aquele pirata!

-Bem, pareceu-me que a luz estava acesa, e imaginei que fosse você. – A voz feminina a fez desviar sua atenção. Era Elizabeth que vinha da cozinha com duas canecas nas mãos.

-Peço desculpa por estar aqui sentada. – Perla se ia levantar, mas Elizabeth fez um sinal para ela permanecer onde estava – , mas é que não consigo pregar olho depois de tudo que soube – Elizabeth entregou-lhe uma das canecas com leite quente.

-Como imaginei que fosse você, trouxe-lhe isto – Elizabeth sentou-se ao lado dela. - Beba. Vai mantê-la quente...

-Obrigada. – agradeceu Perla, bebendo o conteúdo da caneca.

-Eu também não consigo dormir, só de saber que vou voltar para o mar, dá-me uma inquietação no coração. Principalmente agora, que tenho laços que me prendem a terra firme.

-Laços...– Perla sorriu discretamente, acariciando a caneca – Engraçado você falar em laços. Eu fiz de tudo para quebrar os meus, deixando aquele maldito reino para viver em pleno mar. Toda a noite punha-me na varanda do meu quarto olhando o mar, e imaginava de todas as maneiras possíveis o que iria além do meu reino. – Ela suspirou olhando para dentro da caneca. – Infelizmente não é meu destino viver no mar. Tenho responsabilidades a cumprir depois de achar minha irmã.

-Eu também pensava assim – Elizabeth fez um olhar nostálgico – Lembro-me de quando tinha dez anos e ia no navio de meu pai, cantando aquelas canções de piratas que aprendi, na altura em que achava excitante conhecer um pirata…um que me pudesse levar para longe daquele palácio. Nesse dia conheci um, William Turner, que embora ainda não soubesse, iria se tornar um maravilhoso pirata. Passaram-se oito anos depois disso, até conhecer um verdadeiro pirata e á custa dele eu fui além de Port Royal…

-E quem era esse pirata senhora?

-Capitão Jack Sparrow! Foi com ele e com Will que eu vivi as minhas maiores loucuras e fantasias! Conheci uma nova Elizabeth que estava adorando e acredite, não daria nenhum terço daquilo que vivi para voltar aquela vida chata em Port Royal. – Ela agarrou uma mão de Perla. - Com você está se passando a mesma coisa, está conhecendo uma nova Perla… – Jack que estava entrando silenciosamente, parou no meio do corredor ao ouvir o que elas estavam falando: - E está vivendo coisas que nunca imaginou. Suponho também que esteja sentindo coisas que nunca sentiu…

-Sinto coisas que preferia não sentir. Coisas que me magoam por dentro, e magoam as pessoas que me rodeiam. – Perla deu mais um gole – Estou magoando a pessoa que eu mais adoro no mundo, por causa de um sentimento que eu não tenho tanta certeza.

-Não lute contra isso, enfrente seus medos, suas angústias, isso vai tornar você mais forte. – Perla olhou para Elizabeth que olhava para um ponto fixo. – Eu tive de enfrentar isso tudo, e posso dizer que cresci, já não sou aquela garota ingénua e insegura. Tornei-me mais forte e, sim, não me arrependo de nada do que fiz!

-Se me permite a ousadia, o Senhor Gibbs contou-me sua história, desde que você conheceu Jack, dos acontecimentos com o kraken até ao que se passou com o senhor Turner…

-Você deve se estar perguntado o porquê de eu ter feito aquilo com o Jack! Porque o beijei, amando o Will... – Perla não respondeu, mas sentia uma certa curiosidade, ao tempo que Jack erguia a sobrancelha ao ouvir seu nome. – Ás vezes fazemos coisas sem pensar, coisas das quais não nos orgulhamos muito, e naquele momento, eu vi que já não havia mais solução, nem para o Pérola, nem para a tripulação caso Jack embarcasse com a gente no bote. – Ela bufou com um rosto fechado, baixando o olhar – Pela primeira vez, tive de tomar uma decisão, algo contra os meus princípios e que de certo me iria arrepender depois. – Elizabeth ergueu o olhar para Perla – Para salvar os sobreviventes, teria de matar o homem que por várias vezes fez questão de me ajudar. Não havia tempo para explicar a Jack o que se estava passando, principalmente o facto do Kraken não estar atrás de nós, e sim do Capitão. Por isso, e por covardia, toquei no ponto fraco dele, beijando-o até conseguir prendê-lo. Logo de seguida, abandonei-o á mercê daquele monstro, fazendo a tripulação crer que Jack tinha dado a vida para nos salvar num puro acto heróico.

Jack recordou o momento do beijo, mas a sua atenção concentrou-se na explicação de Elizabeth. Seu orgulho jamais o permitiu pensar daquela forma e, depois de tudo, nem ele nem Elizabeth tocaram mais naquele assunto. Nunca tinha pedido explicações a ela sobre o sucedido, muito menos cobrado algo dela, mas agora que ouvia aquilo seus pensamentos tomaram outro rumo, completamente diferente daquilo que desde o princípio tinha julgado.

-Não sou ninguém para julgá-la, mas você simplesmente fez o certo. O que eu admiro em você é o facto de ter carregado esse fardo sozinha! – Elizabeth soltou um fraco sorriso e levantou-se da escada.

-E eu admiro você por está fazendo todo este esforço pela sua irmã. – Ambas sorriram. – Agora vamos tentar dormir, amanhã de manhã teremos de partir novamente. Você tem roupas em cima de sua cama, para poder trocar essas molhadas.

-Obrigada.

-De nada! Boa noite, Perla.

-Boa noite, Elizabeth. – Perla viu Elizabeth subir as escadas, ficando outra vez sozinha.

Naquele momento, Jack apareceu da escuridão do corredor, entrando em passos leves na sala que estava sendo iluminada por uma ténue vela. Perla rapidamente se levantou, embaraçada, e ambos se encararam por minutos silenciosos, que para ela pareceu uma eternidade. Já Jack tentava buscar as palavras certas para lhe falar, só que nada lhe ocorreu. Cada um tentava descobrir o que ia no pensamento do outro, mas nenhum parecia querer desvendar os segredos das suas almas baralhadas. No rosto dela, Jack conseguia observar os sinais de decepção e mágoa, e ainda tentou aproximar-se um pouco para confortá-la, mas ela subiu um degrau, evitando aquela proximidade e continuou a encará-lo.

-Boa noite, senhor Sparrow – murmurou ela, dando-lhe as costas e subindo as escadas.

Ele seguiu-a com o olhar até ela desaparecer na escuridão do cimo das escadas e logo se sentou nos degraus. Tirou o chapéu de três pontas para passar a mão pela cabeça ainda molhada, e resmungou baixinho qualquer coisa que nem ele deu fé. Será que ela não queria entender o que estava se passando ali? Pela primeira vez, e talvez a única, Jack tinha sido honesto com uma mulher e esta tinha ficado ofendida por tal acto… isso estava-lhe a dar voltas á cabeça, tentando encontrar a lógica possível.

"Seja bem-vindo ao maravilhoso mundo das mulheres…um incrível mundo de incompreensão" pensou ele sorrindo.

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De manhã, quando o sol raiou dourado no céu azul, todos os homens encontravam-se na espaçosa sala esperando as duas mulheres descerem. A primeira a colocar os pés na escada foi Perla, que usava umas calças pretas justas á perna, apertadas com um cinto de onde pendia a bainha da espada. A sua camisa branca era larga nas mangas encimada por uma jaqueta cinzenta, que lhe batia nas coxas. Ela rapidamente se aproximou deles, evitando olhar para Jack, que permanecia quieto num canto.

-A senhora Turner? – perguntou Alessandro, olhando para o topo das escadas.

-Vem já… – respondeu num tom seco.

Á socapa Jack contemplava Perla, que mal o encarava desde que tinham chegado á sala. O que fez ele fechar os olhos e soltar um breve sorriso manhoso. Alessandro, por sua vez, tentava descobrir o que se passava para Perla estar com aquele rosto fechado, mas ela parecia não querer falar sobre esse assunto, demonstrando claramente o seu mau humor matinal.

-Já disse que não se passa nada comigo. – ripostou Perla secamente.

Naquele instante, Elizabeth estava no princípio das escadas com o seu filho nos braços. Jack sorriu maliciosamente ao vê-la vestida com uma longa saia preta, uma camisa cor pérola e uma curta jaqueta castanha. Toda a vez que a via, ou ela estava com um longo vestido bem trabalhado, ou vestida de homem, por isso, a estranheza de a ver assim tão bem vestida. Os olhos de Jack caíram na outra mulher, a velha Cho, que caminhava atrás de Elizabeth, deitando a língua de fora ao ver que a velha era realmente feia.

-Desculpem o atraso, mas tive que preparar as coisas para Cho ficar com William. – Ao terminar de descer as escadas, Elizabeth olhou para Jack. – Eu não te perdoo por você me afastar do meu filho. – disse ela firmemente, passando por ele

-Bom dia, para você também! Por acaso dormi muito bem, o problema foi mais o colchão que me pôs as costas num estado lastimável – gozou Jack, seguindo-a com o olhar debochado. – Pelo que vi, você passou uma noite agradável.

-Vá plantar coquinhos, Jack. – rebateu Elizabeth, que balançava calmamente o pequeno William nos braços e só parou para lhe beijar a testa – Cho, eu espero voltar brevemente, entretanto, não se afaste de meu filho nem por um minuto, por favor…

-Esteja descansada, senhora Turner. Eu tomarei conta dele como se fosse meu filho…

-Um bocado difícil passar por seu filho. – murmurou Jack, arregalando os olhos.

Ao ver William mexer irrequietamente nos braços de Elizabeth, a passadas largas, Jack aproximou-se dela e pediu para pegar no menino, deixando todos de boca aberta. Onde já se viu, o famoso Capitão Jack Sparrow, derretido por um menino de colo. Perla mirou o jeito que ele pegou na criança e brincava com ela, nem parecia aquele pirata desagradável que conhecera no cais de Siracusa.

-É garoto, sua mãe vai viver grandes aventuras e você vai ficar aqui, com esta velha chata… – segredou Jack ao garotinho – Já viu que injustiça? – O menininho agitava as mãos em direcção ás tranças do queixo de Jack, enquanto ele prosseguia: – Quando o tio Jack voltar, você vai se divertir á grande…Eu vou-te levar a conhecer umas belas moças lá em Tortuga, e vou ensinar você a beber rum feito homem…

-Jack! – Interpôs Elizabeth incrédula, tirando de Jack o pequeno William, que ria da cara dele e passou-o para Cho – Ele ainda é uma criança…

-Sempre ouvi dizer que é desde pequenino que devemos de conhecer as verdadeiras maravilhas da natureza, e já que o eunuco do pai dele não se encontra presente, ele tem de ter uma certa orientação masculina, senão ainda vai acabar tratando da casa, com o exemplo que tem…

-Chega de disparates! – bufou Elizabeth, mudando o rumo da conversa – Estão todos prontos?

-Só faltava você, majestade – murmurou Jack em desdém.

-Então vamos embarcar, capitão – respondeu ela, com o mesmo tom de Jack.

Os quatro saíram da sublime casa, indo em direcção ao bote que, por milagre, ainda continuava no mesmo sitio que Jack o havia deixado. Mullroy e Murtogg viraram a quina do bote ao contrário, e empurraram-no até ao mar. Todas entraram e partiram novamente para o Pérola Negra, que se encontrava a poucos quilómetros da praia. O caminho para lá foi feito tranquilamente, enquanto Elizabeth contava que havia enviado, na noite anterior, pombos-correios para os cinco Lords piratas. Avisando-os da urgente reunião que iria acontecer na Enseada do Naufrágio.

-Eles irão aparecer? Pelo que sei, eles não regulam lá muito bem da cabeça. – contrapôs Perla.

-Não sei, mas com ou sem eles, nós iremos fazer essa reunião, ou eu não me chamo Elizabeth Turner... – Jack revirou os olhos

-Se fosse você, durante a viagem, começava a pensar num novo nome. - debochou Jack divertido. - Desde quando eles obedecem a uma garota?

-Rei – completou Elizabeth, antes de Jack concluir o que estava dizendo.

-Como queira, majestade. – Jack tirou o chapéu ironicamente, fazendo uma espécie de reverência a Elizabeth – Mesmo assim, não estou vendo eles a virem, principalmente quando o assunto é Silver, mas vossa majestade é que sabe…

Perla via o modo como Jack e Elizabeth se davam. Apesar daquela velha e duradoura amizade, notava-se que Jack ainda tinha um pouco de ressentimento do que tinha transcorrido no passado, e por mais que tentasse, não conseguia disfarçar o que seus olhos denunciavam. Aquilo magoava Perla de uma maneira inexplicável, principalmente não sabendo o que se passava na cabeça do Capitão.

"Será que estar ao lado dela faz alguma diferença para Jack? Será que ela ainda mexe assim tanto com ele, ou apesar de Jack ainda estar ressentido, já nada mais sente por ela?"

Estes pensamentos abatiam-na de uma forma que ela nunca tinha sentido, e ao lembrar-se da noite passada, ela voltou a reflectir: "Foi por isso que Jack não avançou mais? Será que no momento em que ele me beijava, era o rosto de Elizabeth que via?"

-Eu não aguento mais! – divulgou ela, vendo todas as atenções atraídas para si.

-O que você não aguenta mais? – perguntou Alessandro, que estava ao seu lado.

-A temperatura, a viagem, está tudo me sufocando. – Perla baixou o olhar e voltou a erguê-lo, dando um olhar significativo a Jack.

-As viagens de bote costumam ser cansativas, espere só um pouco, estamos chegando. – ponderou Alessandro, reparando no olhar que Perla lançara a Jack.

Quando chegaram ao navio, o senhor Gibbs foi o primeiro a recebê-los, ajudando-os a subir a bordo. Ao entrar naquele navio, Elizabeth suspirou, como se todas as lembranças de Will borbulhassem novamente em sua cabeça. Parecia que já fazia uma eternidade que tudo se tinha passado e, mesmo assim, as recordações estavam tão vivas dentro dela, que as podia ver passar á sua frente. Com o olhar, ela deu uma volta lenta, rodando lentamente sobre o seu próprio pé e reparou que, apesar do Pérola Negra pertencer a Jack, todo ele tinha um pouco de Will. Cada retalho, cada espacinho, cada pedaço de madeira negra a fazia recordar, principalmente, das aventuras que tiveram e de tudo o que os dois passaram ali. Ela sentiu um pequeno aperto no coração, levando a sua mão até ele… Seu casamento ainda lhe estava na memória, das juras de amor que trocaram antes de selarem aquelas promessas com um beijo intenso, que ainda hoje lhe pairava na mente. Inconscientemente, ela olhou para a borda do navio na esperança de o ver lá, pronto a salvá-la do que ela receava, mas infelizmente não havia ninguém. Sentiu uma dor profunda no peito ao ter a certeza de que não o poderia seguir mais para onde ele fosse, de não o poder mais ter em seus braços ou sentir o sabor salgado do seu beijo. Nove anos pareciam uma eternidade comparada com a infância que passou ao lado de Will. A infância em que ambos não tiveram a iniciativa de relevar os seus sentimentos, andando naquele jogo de palavras, principalmente ela, que sempre esteve a vontade com Will. Já este, demonstrava ser tímido com cada acto que fazia… Se ao menos ela não tivesse desperdiçado esses momentos, que podiam ter sido tão bem aproveitados junto da pessoa que sempre amou, não se estaria agora lamentando do tempo em que ambos jogaram fora.

Jack viu os olhos dela marejarem, enquanto permanecia quieta, olhando para o horizonte. Ele sabia em que, ou quem, ela estava pensando, isso fez ele começar a caminhar até ela, mas Barbossa foi mais rápido:

-Capitã Turner, é uma honra recebê-la em meu navio… – saudou Barbossa, numa espécie de reverência, fazendo Elizabeth despertar e prestar-lhe atenção.

-Barbossa, meu querido pirata. – Jack pigarreou. – O sol do Caribe deve ter feito mal para sua pequena cabeça, pois você deve estar alucinando…o navio é MEU, desde a ponta da popa até á proa. Por isso, não vejo nada neste navio, além desse macaco chato, que seja SEU por direito, savvy?

-A hospitalidade neste navio continua cada vez melhor, e pelo que vi, continuam a dar-se muito bem…bom saber disso! – ironizou Elizabeth, olhando o navio em volta – Temo que haverá mudanças no Pérola…

-Mudanças? – Barbossa e Jack perguntaram ao mesmo tempo, abrindo ligeiramente a boca.

-Como assim mudanças? – retrucou Jack com os seus gestos característicos.

-Para que não hajam mais conflitos, e para eu ter a certeza que vocês irão cumprir o prometido, achei que por bem desta tripulação fosse eu a capitã do navio. – Jack e Barbossa arregalaram os olhos. – Provisoriamente claro! Digamos que se prolongará até á minha estadia aqui acabar, lógico. Assim, dispensarei vossas agradáveis palestras sobre quem será o dono, ou o capitão, do Pérola Negra. Ficamos esclarecidos?

-Por quê você a trouxe neste navio? – murmurou Barbossa para Jack.

-Ora, como eu sou um coração mole, eu aceitei trazê-la no meu navio, só não esperava que ela fosse fazer um estrago desse tamanho. – respondeu Jack, em modos de só Barbossa ouvir.

-Está desconfiando de nós majestade? – perguntou Barbossa, bufando para Jack.

-Não estou desconfiando de vocês, somente da vossa dignidade. – Ela chegou perto de Perla, colocando suas mãos sobre os ombros dela. – Eu quero manter a honra perante esta jovem, e não serão vocês que a vão quebrar, perceberam? – Os dois remoendo aquilo silenciosamente, concordaram por fim – Então já que estamos entendidos, vamos directos para a Enseada do Naufrágio, ouviram? Levantem âncora! Icem as velas…

-Acha que isso é necessário? – disse Perla descontraidamente, vendo Elizabeth sorrir

-Se ninguém colocar um pouco de ordem neste navio, é bem capaz dele nem chegar á Enseada do Naufrágio, pois aqueles dois, de uma forma inexplicável, acabariam por afundá-lo sem sequer ser preciso sermos abordados por um navio inimigo. Bom, eu vou ter com o senhor Gibbs para lhe dar umas certas ordens e matar saudades daquele magnifico homem, até já. – Perla observou Elizabeth afastar-se, enquanto Alessandro a apreciava.

-Nunca vi homens piratas obedecerem a uma mulher sem ela ser capitã desse navio…

-Ela é a rainha deles Alessandro, por isso a respeitam e a obedecem com tanta facilidade. Coisa de piratas que você nunca vai perceber. – Ao dizer aquilo, ela se recolheu para os aposentos.

Lá ela entrou e fechou a porta vagarosamente. Com um suspiro, Perla olhou á sua volta e viu que aqueles aposentos continuavam do jeitinho que Jack tinha deixado, e como quem está sufocada, inspirou fundo, sentindo o cheio daquele homem entranhado na madeira negra. Aquele cheiro que só ele possuía… cheiro a mar que se infiltra sem ter prazo para ausentar-se. Com passos penosos, ela acabou por se deitar na rede dele, balançando-a com o pé esquerdo.

-Eu não posso estar apaixonada por esse pirata, não posso! – Lágrimas tomaram conta de seu rosto. – Apesar de querer muito esta vida, infelizmente Alessandro tem razão, eu tenho compromissos a honrar em Siracusa e, mal ache minha irmã, eu terei de voltar. – Ela olhou para o tecto e a imagem de Jack beijando-a apareceu. – Eu não posso me deixar domar pela ideia infantil de que aqui serei feliz! Jack sempre foi livre, nunca pertenceu a mulher alguma, porquê que se iria apaixonar logo por mim? É lógico, que ele quando estava me beijando, era em Elizabeth que pensava… – Ela sentou-se na rede, continuando a balançá-la com os pés. – Nossos mundos são diferentes e eu tenho que o esquecer…mas isso está sendo tão difícil, tendo de conviver com a presença dele a toda a hora. Minha virgem de Guadalupe, me dá um sinal, um simples sinal…eu estou tão confusa, não sei que rumo hei-de dar á minha vida!

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Jack encontrava-se no castelo de proa pensando em Perla, o que fez ele se estranhar. Nunca tinha perdido tempo pensando em mulheres, nem mesmo em Elizabeth, que por variado tempo tinha tomado seus pensamentos. Por que estava agora dedicando um pouco da sua atenção em Perla? Ele inclinou a garrafa de rum mais uma vez em direcção á boca e bebeu…Perla fazia-o esquecer-se de tudo o ele tinha prometido a si mesmo, soltando o garoto que tinha enterrado ao ver Will e Elizabeth juntos, o garoto que ele tinha escondido dentro de si e jurado nunca mais o libertar. Por momentos, tudo tinha voltado novamente, principalmente os desejos mais selvagens e inquestionáveis que ele nunca tinha descoberto…

De certa forma ela o libertava daquela prisão em que ele próprio se tinha aprisionado. Logo Jack, que adorava a liberdade e vivia para ela. Ele deu uma volta com o olhar pelo navio para a procurar, mas não a achou. Desde ontem á noite que não falava com Perla, além do mais, ela andava evitando Jack desde aquele maldito episódio na praia.

Apesar de tudo, ele não queria misturar as coisa…não eram aqueles os planos iniciais que ele tinha planejado com tanto fervor e entusiasmo. Estava tudo se descambando por causa daquela atracção inevitável, o que o fazia pensar: Como poderia ter caído novamente na lábia de uma mulher, como? Talvez pelas razões que tinha apontado anteriormente…

-Ela é uma princesa... – Ele bebeu novamente. – Uma princesa que se tornou numa bela pirata… Bugger, bugger, bugger…Perla de um raio! – Jack sorriu debochadamente dele mesmo, estava se sentindo ridículo ao ter aquele tipo de pensamento, por isso, voltou a ter a mesma compostura – Você a bem ou a mal, sairá do meus pensamentos, e nem sua Virgem de Guadalupe me fará mudar de ideias. – Ele virou-se para a tripulação. – Vamos tripulação, temos um objecto valioso para pegar. – Alessandro e Elizabeth que se encontravam em lados opostos do navio, olharam-no indignados. – O tempo urge e a princesa júnior vai contando seus últimos dias de vida.

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A alguns quilómetros longe do Pérola Negra, navegava o Adriatic Sea, no calmo mar do Caribe. Lá dentro, numa cela pequena, uma jovem espreitava sobre um pequeno buraco, que parecia uma pequenina janelita. Ela fitava os últimos e fracos raios de sol, que chegavam devido á posição do navio. A aparência da jovem era de uma cor pálida, já para não falar do rosto desgastado dela e da sua silhueta magra, que se fazia notar mesmo com suas vestes largas. Passos fora da sua cela puseram-na de alerta, mas nunca desviando o olhar do pequeno buraco.

-Então princesa? Está gostando da estadia que este humilde navio lhe está proporcionado? – perguntou um homem, que estava agora diante das grades. Sua face estava tapada com uma máscara – Abram a cela. – Um homem magro abriu rapidamente a cela, deixando o homem mascarado entrar.

-Quem é o senhor? O que quer de mim? – proferiu Estella assustada.

-De você não quero nada, o que eu quero é aquilo que sua irmã me poderá trazer: a Mão de Midas. – A garota que estava sentada no chão húmido, levantou-se quando ouviu ele pronunciar o nome da irmã.

-Eu não sei o que é isso, mas peço encarecidamente que deixe a minha irmã em paz, e por favor, solte-me. – O homem chegou bem perto dela, e pegou suavemente o pescoço dela.

-Realmente você é muito bonita, vai ser uma verdadeira pena ter de matar você, caso sua irmã não me traga esse objecto. – Ao ouvir aquilo, Estella deu um empurrão ao homem.

Ao ver que a porta de sua cela estava aberta, Estella correu até ela, conseguindo escapar do homem magro. Silver apenas ficou parado, rindo-se da situação, enquanto ela corria para achar as escadas que dariam ao convés superior. Sempre atenta ao caminho, ela procurava desalmadamente as escadas, e ao encontrá-las suspirou de alivio…mas quando chegou ao piso de cima, Estella perdeu o fôlego ao ver a quantidade de piratas que se encontravam no convés. Desesperada, ainda correu por entre eles, tentando achar uma frincha, que desse para fugir daquele maldito navio, mas foi difícil, pois logo sentiu alguém agarrar seu braço, puxando-a para o meio da tripulação. Sentiu que a estavam arranhando, ao passo que puxavam seu cabelo e tocavam-lhe no corpo. Ela gritava de desespero para a soltarem, só que aqueles piratas nojentos pareciam não querer ouvir.

-Chega! – Todos os piratas olharam para Silver, que estava com um longo chicote nas mãos. – Bem vinda ao mundo pirata, princesa.

-Capitão, não é errado usar o chicote nela?

-Ela não esta sob o código Parlay, por isso, sou livre de lhe fazer o que quiser. – Silver soltou um sorriso irónico. – E mesmo que tivesse sob o código, você sabe que nunca me guiei por ele. – Ele passou o chicote a um homem forte, que não gostou muito de ter ficado com aquela tarefa.

-Quantas chicotadas senhor?

-Cinco, por ter tentado fugir…

-Não, por favor, misericórdia... Pelo amor da Virgem Guadalupe! – Berrava Estella, desesperadamente – Nããããoooooooo!

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-Estella. – Murmurou Perla sobressaltada. Tinha acabado por adormecer na rede, e acordado com aquela aflição no peito.

Sua respiração estava descompassada e seu peito doía-lhe…algo estava errado, sua irmã não estava bem. Ela levantou-se rapidamente e olhou pela janela, onde via os reflexos da lua sobre o mar…tinha anoitecido tão rapidamente que não tinha dado fé. Perla abriu vagarosamente a porta para espreitar se alguém estava por perto. Tentando se acalmar, ela foi até ao convés superior, passando pelo convés inferior, onde todos já estavam dormindo e ressonando feito porcos nas suas redes. Ao passar pela porta do Porão, viu que ninguém estava no convés, o que a fez suspirar de alívio. Não estava com paciência para falar com ninguém, por isso iria aproveitar aquela hora da noite para dar uma volta sozinha por ali, sem ninguém a importunar. Ainda com aquela aflição no peito, ela encostou-se à borda do navio e deixou o vento a tranquilizar, embora não adiantasse muito.

Aquela viagem estava sendo uma perda de tempo, até agora tudo o que tinha conseguido foi praticamente nada. Suas buscas não estavam a dar em nada, e Jack parecia estar descontraído demais...

-Quanto tempo mais vamos ficar sem nos falar? - Indagou alguém atrás de si.

-Até você ter a certeza daquilo que quer desta viagem – Retrucou Perla vendo Jack observá-la com um olhar firme e doce.

-Só da viagem? – insistiu ele chegando mais perto, fazendo Perla suspirar fundo.

-Até você ter realmente a certeza daquilo que quer de mim – Ambos encararam-se intensamente – Eu não sou nenhuma mulher salgada daquelas que você está habituado, senhor Sparrow, muito menos um fantoche. Eu tenho sentimentos!

-Eu nunca coloquei isso em causa, amor…

-Era nela que pensava? - intercalou Perla vendo Jack franzir o sobrolho – Era o rosto dela que via no meu, ontem? Era nos meus lábios que você procurava o sabor dos dela? Foi por isso que parou não foi? Descobriu que não era ela que beijava...

-Não faça isso com você, pois sabe que é mentira. – Ele passou uma mão sobre o rosto dela.

-Será que eu sei? Jack, você para mim é um verdadeiro enigma, eu nunca sei o que esperar de você…se um acto de arrogância ou simples toque de carinho. Quem é você Jack Sparrow?

-Um pirata… – retorquiu ele sem hesitar, o que fez ela olhar para o mar ao soltar um falso sorriso.

-Aí está o problema, você é um pirata e eu uma princesa! Você já viu alguma história entre uma princesa e um pirata acabar com um "e viveram felizes para sempre!"? Se você viu, me diga pois sinceramente eu já li muitos livros sobre aventura onde piratas sequestravam princesas, mas nunca li essa pequena e significativa frase no fim desses livros.

O olhar dos dois, que até bem pouco tempo estava concentrado no mar, encontrou-se novamente. Ambos se olhavam profundamente em silêncio, enquanto o barulho da ondulação do mar batia sob o casco do navio, acompanhando aquele penetrante olhar, até que finalmente voltarem a olhar o mar calmo.

-Eu posso não ter lido tantos livros como vossa alteza – Jack lançou um olhar malicioso para ela. – Mas isso não quer dizer que em algures não haja um livrinho com um final singelo como esses... – Ele pegou a cintura dela o que a fez estremecer. – E porque neles nunca houve um Capitão Jack Sparrow para mudar o rumo da história, como ele sempre faz.

-Não faça isso Jack. – pediu ela, rodando os olhos ao sentir os lábios dele a milímetros de distância dos seus. – Não brinque comigo desse jeito indecente… – Contudo, não teve tempo de completar o resto, pois Jack logo colou os lábios nos dela.

Se julgavam estar sozinhos naquele convés, os dois se enganaram. Alessandro que estava com dificuldade em adormecer, tinha decidido ir apanhar um pouco de ar. Aproveitar que supostamente ninguém estaria àquela hora no convés, mas enganou-se ao ver Jack e Perla se beijando. Sua primeira reacção foi colocar a mão no cabo da espada e conter-se para não atacar aquele maldito pirata…só que Perla não estava sendo beijada á força, e pela sua cara, estava usufruindo do momento. Alessandro largou então a espada e de rosto baixo, entrou novamente na porta do convés sem fazer barulho algum, enquanto os dois permaneceram ali, se beijando intensamente acompanhado com o barulhinho agradável do mar.

Olaaaa meninas e menino )

Outro milagre acontecendo rs, postei o capítulo mais cedo do que imaginava eheheh. Ele está um pouco monótono e não tem muita revelação, mas espero sinceramente que gostem…

Agradeço as review fofas que recebi, adorei cada uma delas. Á Rô, Fini Felton, Jane, Dorinha Pamella, Ieda, Bruno Teixeira, Likha Sparrow, obrigada pelas opiniões e comentários )

O próximo capitulo já está sendo feito e vou tentar postar no próximo fim-de-semana.

P.S.: Obrigada Rô, mais uma vez, por ter betado mais um capitulo )

Bjoka grande e fiquem bem

Taty Black