Capitulo 12 – Entre verdades e mentiras

Na manhã seguinte, Estella acordou na sua cela, sentindo uma dor insuportável que parecia corroer-lhe as costas. Ao colocar a mão sobre a cabeça, ela tentou se lembrar do que se tinha passado depois de ter levado aquelas cinco intermináveis chicotadas, mas infelizmente, nada lhe ocorria na mente cansada. Apenas se lembrava do homem com uma máscara branca ordenando que lhe dessem aquelas chicotadas. Estella levantou-se com dificuldade, agarrando-se nas escorregadias grades, húmidas por causa da temperatura ali em baixo. Ao se pôr de pé, sentiu suas costas latejarem, e chorou a má sorte que estava tendo. Novamente ela olhou para aquela pequena cela e pensou que nunca se tinha sentido tão sozinha como agora, longe de todos que amava e sem saber o que iriam fazer com ela dali para frente. Suas recordações foram ter até aos vastos jardins do palácio de Siracusa e de sua irmã brincando com ela… Sua irmã!!! O que teria sido feito dela, depois de seu rapto? Ela não fazia idéia de há quanto tempo estava ali, nem de como tinha sido raptada… Somente, recordava-se a razão pela qual tinha saído do palácio aquela hora da noite…

Foi na noite anterior ao casamento de Perla... Estella tinha decidido passear pelos jardins do palácio, atravessando assim, os longos portões que a separavam do povoado. Sua tristeza era notória naquele dia, pois no dia seguinte, sua irmã iria se casar com o homem que ela tanto amava. O homem que somente tinha olhos para a sua irmã, e que nunca, em nenhum momento, reparara nos sinais óbvios que Estella lhe dava. Até mesmo Perla chegou a desconfiar dos sentimentos da irmã pelo noivo, mas Estella negava veemente o fato, pois não queria que sua irmã desmarcasse o casamento com o seu prometido

-Alessandro. – murmurou ela fechando os olhos, deixando que a imagem dele ocupasse sua mente

A ideia de os ver juntos a magoava, embora não pudesse fazer nada contra isso, e nunca ousar entrar em pé de guerra com sua irmã por causa de Alessandro… Logo Perla, que sempre a protegeu e apoiou depois que a mãe de ambas morreu. Por isso tentou esquecer Alessandro, interessando-se por Lord Silver, amigo e conselheiro de seu pai… Ainda que seu coração pertencesse a Alessandro, Estella aproximou-se mais de Silver, em busca de alguma atenção que foi lhe dada prontamente. Os dois começaram a conversar mais, passeando pelos jardins intermináveis do palácio de Siracusa. Estella parou de pensar no seu passado e voltou a esforçar-se para se lembrar de como tinha sido raptada, mas lembrava-se, tão-somente, de uma forte pancada na nuca e no dia seguinte acordar naquele navio em alto mar. Seus pensamentos foram interrompidos, quando ouviu o barulho da chaves rodar na fechadura da porta. Silver entrou na cela, mas desta vez, sem aquela máscara branca que lhe tapava apenas os olhos. Ao vê-lo entrar, Estella ficou feliz, correndo para os braços dele.

-Graças á virgem de Guadalupe… Meu pai mandou alguém me salvar. Lord Silver, fico tão feliz de vê-lo – Ao ver o homem fechar a porta da cela com um sorriso malicioso, ela estranhou – Você veio me salvar certo?

-Para ser mais franco, eu sou o seu raptor. – Estella sentiu seu coração parar ao ouvir aquilo. – Por que você acha que eu me aproximei de seu pai? Simplesmente por que me deu uma vontade louca de ser conselheiro real daquele maldito reino? – Ele debochava com prazer do rosto aterrorizado da garota. – Eu só fui lá com um propósito: achar a guardiã da Ilha Desaparecida, onde se encontra a Mão de Midas! Só a guardiã sabe onde a ilha sua localização, e somente ela pode ter acesso á Mão, devido a uma chave que possui. Você já a viu várias vezes, Estella... Perla a mantém consigo o tempo todo

-Chave? Mas que chave é essa…Perla nunca me falou nada sobre isso. – Sua voz soava trémula.

-Uma cruz ancorada que está sempre sobre seu peito, algo que vossa mãe deixou de herança. Essa cruz veio passando de geração em geração, até calhar em Perla! Como andei fazendo umas curtas pesquisas, descobri onde finalmente a guardiã estava. Foi aí que comecei a planejar o meu golpe de génio...

Ela o fitava perplexa.

-Você é um monstro! Todos no palácio confiavam em você! Eu mesmo confiava... Sempre discuti com a minha irmã devido ás suas verdadeiras intenções e, ao fim do cabo, ela sempre esteve com razão.

Ele chegou perto dela, mantendo o sorriso nos lábios.

-Eu gostaria que as coisas tivessem sido de outra maneira, a sério! – Ironizou ele, fazendo uma cara de pesar. – Não tenho culpa que sua irmã seja portadora da chave de uma valiosa riqueza.

-E o que está pretendendo fazer, caso Perla não encontre essa amaldiçoada Mão?

-Infelizmente, terei que matá-la, alteza… – Ela sentiu uma fraqueza nas suas pernas ao ouvir aquilo. – Eu deixei uma carta a seu pai dizendo que, caso esse Mão não aparecesse, só iriam encontrar o seu esqueleto. Perla, no entanto, não hesitou em se colocar a bordo de algum navio rafeiro para achar você ou a Mão. Tem muita sorte em ter uma irmã como ela. Outra em seu lugar não arriscaria tanto...

-Isso é porque ela tem o sangue de Deanne Bonny. Perla tem sangue frio e um grande espírito rebelde.

-Isso é verdade, mas agora só falta saber se esse espírito rebelde vai cumprir o prazo que eu lhe propus!

-Eu prefiro a morte do que ver você se vangloriando de algo que não achou por mérito próprio. – Estella tentou manter-se firme ao avanço imparcial daquele homem.

-Verdade seja dita, você é muito bonita para morrer…

-Então, desista enquanto é tempo. Deixe-me partir e poupe minha irmã desse trajecto. Nós não contaremos ao Rei quem me raptou e, se for o caso, eu própria direi que foi você o meu salvador. Meu pai lhe dará uma óptima recompensa… – Silver soltou uma gargalhada prolongada ao ouvir aquilo.

-Garota tonta, a fortuna de seu pai é uma ninharia perto daquilo que a Mão de Midas me pode oferecer. Realmente, você não tem noção do poder daquele pequeno objecto, pois não?

O desespero tomou novamente conta de Estella ao ver que aquele maldito não iria ceder tão cedo.

-Não sei, nem estou interessada…

-Óptimo, assim você poupa-me o meu retalhado discurso. – Ele observou-a de cima abaixo. – Desde os nossos passeios, que venho reparado na sua beleza, alteza…– Silver aproximou-se dela, enquanto Estella dava dois passos para trás, batendo de encontro a parede de madeira fria.

-Como posso ter acreditado cegamente nas suas mentiras, e nas histórias que você me contava, sobre suas aventuras como Lord Silver, o marinheiro da marinha mercante? Realmente você é repugnante!

Estella lembrou-se do momento em que simpatizara com Lord Silver, e o quão atraente e charmoso o achava, apesar de seu coração sempre palpitar por Alessandro, que não lhe correspondia o sentimento. Por seu pai depositar tanta confiança em Silver, Estella sentia-se segura perto dele. Entretanto, agora era diferente, estava sendo aprisionada por aquele homem que, tanto ela como seu pai, tinham confiado cegamente. Sentia medo de estar perto dele, não sabendo qual a atitude que ele iria tomar a qualquer momento.

-Ora alteza, quanta brusquidão! – Ele olhou-a de cima abaixo – Não só reparei na sua beleza, como também reparei nos olhares que você me lançava nos nossos passeios a sós. – Estella corou radicalmente.

-Seu impune, como ousa pronunciar tamanha calamidade! Meu coração sempre pertenceu a Alessandro…

- E que por acaso, ia casar com a sua irmã. Ou você se esqueceu do motivo pelo qual fugiu? - interrompeu-a com cinismo.

-Não! – Ela falou claramente. – Não esqueci, como também não esqueço o que você fez com o meu pai, seu hipócrita! - Silver chegou perto da garota e passou a mão pelo rosto dela.

-Não sou um hipócrita alteza, sou um mero pirata e como tal vivo disso. Mentiras, fortunas, raptos... E o gosto da pele de mulheres como vossa alteza... – Sussurrou Silver ao ouvido de Estella, enquanto pegava nos braços dela, colocando-os acima de sua cabeça. – Você tem uma bela silhueta, capaz de deixar um homem louco. - De seguida, começou a beijar-lhe o pescoço. – E, devo admitir, que já não tocava num corpo feminino há um bom tempo.

Apesar da raiva que estava sentindo naquela hora, devido á quantidade de revelações que tinha escutado, Estella fechou os olhos a cada toque daquele amaldiçoado homem. Silver encontrou-se com o olhar dela, um olhar de presa ferida encarando o seu predador em tom de súplica. Vendo o efeito que ele lhe causava, Silver aproximou sua boca do ouvido dela e sussurrou-lhe:

-Deixe seus desejos mais íntimos florescerem a cada toque meu, de certo não sentirá isto tão cedo. – Estella sentiu um suor frio percorrer-lhe o corpo todo. – Sei que lá no fundo, você tem desejo por mim, não vale a pena debater-se contra isso.

Naquele momento, ele aproximou sua boca da dela, beijando-a ardentemente. As mãos deslizaram sobre os braços dela até a nuca, mantendo seu corpo colado ao de Estella, que tremia a cada movimento dele. Sentia ódio de Silver estar se aproveitando da fraqueza dela, mas ao mesmo tempo não havia como lhe resistir. Pensou inquietamente em debater-se e pedir socorro, mas certamente ninguém iria aparecer para lhe socorrer. Seria um esforço inútil, e fechando os olhos, deixou-o prosseguir.

-Alessandro… – sussurrava ela entre as lágrimas, tentando trazer as lembranças de seu amor pelo comodoro de volta a mente.

Silver descia cada vez mais insistentemente por seu pescoço, o que a fazia começar a desesperar. Os dedos fortes romperam o tecido fino do vestido na altura de seus seios, expondo-os ao olhar de cobiça daquele homem, que por uma infelicidade do destino, agora dominava-a completamente, fazendo-a sentir vergonha de si mesma. As lágrimas se tornaram intensas, não mais pela tristeza de ser compelida a fazer aquilo contra sua vontade, mas por descobrir que cada toque dele a inebriava. A mão quente dele parecia não se importar com o conflito em sua mente, e subia pela sua coxa, erguendo-a do chão e posicionando-a na altura da cintura dele. O que sobrara de seu vestido mal cobria-lhe o corpo, e num investida voraz, Silver tomou-lhe os lábios, deixando que todo seu desejo caísse sobre ela.

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Perla encontrava-se sentada na escotilha, agarrada aos joelhos, com o queixo pousado sobre eles, enquanto observava o céu praticamente nublado. Suas olheiras eram evidentes, parecendo mesmo que não tinha dormido a noite toda, ou o que restava da noite de ontem. Recordou-se do momento em que tinha deixado Jack sozinho na proa, do beicinho que formou-se em seus lábios ao vê-la afastar docemente deles e dizer: "Por hoje chega, Jack". Lá no fundo, ambos sabiam que não podiam avançar mais do que simples e significativos beijos, mas ao mesmo tempo, parecia que seus corpos apelavam um pelo outro como imãs. Algo incontrolável, que precisava urgentemente de ser debatido antes que ambos, principalmente Perla, se arrepende-se. Ela olhou-o mais uma vez em silêncio e voltou-lhe as costas, indo de seguida para os aposentos, onde deitou-se na cama e tentou adormecer antes que ele chegasse. Entretanto, o sono parecia não querer nada com ela durante aquele tempo em que permaneceu sozinha, e fechada naquelas quatro paredes. Ao ouvir as passadas de Jack do outro lado da porta, ela fechou rapidamente os olhos, fazendo de conta que estava dormindo.

Perla concentrou o olhar na ponta das suas botas e respirou fundo, como se quisesse libertar algo dentro de si, um sufoco que, apesar de se encontrar bem, insistia em permanecer em seu peito. Seu sexto sentido sentia que sua irmã não estava bem, como se estivesse sofrendo horrores no sítio em que estava, e pior era saber do que Silver era capaz de lhe fazer enquanto a mantinha prisioneira no Adriatic Sea. Ela desdobrou os seus joelhos, esticando suas pernas para a frente, abanando sem parar seus pés, tornando visível a sua inquietação. Aqueles movimentos despertaram a atenção de Elizabeth, que até bem pouco tempo encontrava-se no Castelo de Popa observando o horizonte.

-Essa sua inquietação é notória até no leme! – Elizabeth sentando-se na escotilha, junto de Perla que parou de abanar os pés. – Algo a inquieta!

-Minha irmã não me sai da cabeça. Sinto que ela não está bem… Se eu sonho que aquele canalha fez lhe alguma coisa, eu…

-Ora há um congresso de beldades e ninguém me avisa. – Jack caminhava de braços abertos sobre o ar, no seu perfeito passo característico, enquanto nos seus lábios se formava um sorriso debochado.

-Quanta disposição junta! – analisou Elizabeth, ao vê-lo mais perto. - Jack, você andou bebendo, foi? – murmurou ela franzindo o cenho.

-Se um homem está bem disposto, significa que esteve bebendo é?

-É raro encontrar você sóbrio, e quando isso acontece, o que são as raras vezes, é porque algum milagre aconteceu. Mas diga lá, sonhou com passarinho verde? – gozou Elizabeth ao vê-lo chegar tão perto.

-Digamos que não foi um mero pássaro, foi um pardal voando livremente sobre os mares de Sicília. – Ele tombou o tronco sobre o mastro que se encontrava ali, e cruzou os braços, fazendo Perla rir do jeito dele. – Mas digam-me darlings, o que se conversava aqui?

-Sobre Lord Silver, ou seja, o nosso querido Black Dog.

-E qual era o conteúdo insólito desta vez?

-O mesmo de sempre! Não há muito o que acrescentar – respondeu Perla, suspirando. – Ás vezes me pergunto: será que aquele ser é capaz de amar?

-Ohh, mas com certeza que ele ama… Seu ouro, sua fama, já para não falar que amar é para os fracos. Coisa que nosso querido amigo não se considera. – Jack falou num tom de puro desprezo.

-Todos temos um ponto fraco, seja ele qual for. Ele não pode ser excepção – murmurou Perla cruzando os braços, enquanto batia com o polegar levemente no lábio inferior.

-Nós sabemos o ponto fraco dele, e encontra-se bem exposto naquelas cartas de navegação que Silver absolutamente esconde em algum lugar na sua cabine.

-E como recuperar essas Cartas de Navegação? Pelo que Jack me contou, Silver tem elas muito bem guardadas… – Ao acentuar aquilo, Perla batia agora nervosamente com o dedo no lábio.

-Mas não por muito tempo. – Elizabeth levantou-se repentinamente, mantendo uma postura firme e séria.

-O que você sugere Lizzie? Que a gente vá camuflado de peixinhos e invada o navio de Silver para que ele não note nossa singela presença…- ironizou Jack, rindo alto. – Depois sou eu que ando bebendo…

-Deixe de ser paranóico Jack, o que eu…

-Perai, nem continua, não sei se quero saber. Você me assusta com essas suas ideias mirabolantes. – Jack desencostou-se do mastro, balançando suas mãos no ar.

-Ideias mirabolantes e incompreensíveis são com você Jack, já para não dizer que você acaba sempre ridicularizando a situação. – Jack ergueu a sobrancelha, fingindo-se ofendido – Eu estava pensando em pedir ajuda a Will – Jack gargalhou tão alto que se dobrou um pouco para a frente, enquanto as duas continuavam se encarando, tentando perceber onde estava a piada.

-Qual é a graça Jack? – inquiriu Perla, ainda incrédula.

-Do despropósito da sua nova amiguinha! – Ele olhou Elizabeth com ar debochado. - Se você não colocasse Will nos seus fabulásticos planos morria de tédio. Minha cara, lamento informá-la, mas o seu pobre Will está sobre o comando da Calypso, que não o dispensará até ele acabar a sua missão... Só se ele quiser quebrar essa missão, e voltar a terra... O que seria deveras chato para ele. – Jack colocou a mão no queixo, como quem está pensando algo útil, voltando sua cabeça para Elizabeth. – Você quer que seu querido e adorado William se transforme numa versão sofisticada de Davy Jones?

-Não, claro que não quero. – murmurou ela, baixando o tom de voz. – Mas sempre podemos pedir á Calypso para o dispensar por alguns dias…Ah, sei lá! Jack só Will nos pode ajudar.

-Isso é tecnicamente, basicamente, gramaticalmente, impossível. – Jack aproximou-se de Elizabeth, fazendo ela recuar com o olhar dele. – Calypso tem um temperamento folgado, é da natureza dela não deixar nada barato. Não estou vendo a Divindade do Mar nos ajudar de livre e espontânea vontade, depois de tudo o que nós piratas fizemos com ela.

-É certo que vocês foram ambiciosos ao querer o mar só para vocês, mas ao fim do cabo, acabaram-na por a soltar – interviu Perla ao ver Jack virar radicalmente a cabeça para ela.

-E por quê? – perguntou ele num tom irónico. - Porque precisávamos dela, senão Calypso continuaria na forma humana, esquecida por nós piratas e humilhada por ser equiparada a uma humana singular, mas com o dom da feitiçaria. Ela não vai deixar isso barato meu amor, e enquanto estes oceanos existirem, ela não se esquecerá dessa humilhação. – Ele voltou novamente a cabeça para Elizabeth. – Por isso, acho muito pouco provável ela te ajudar.

-Eu não vou desistir. Eu não vou negar que preciso dele, mas não sou só eu Jack, o pequeno William também precisa. – Ele viu o olhar dela marejar, enquanto a expressão maternal se formava em seu rosto, algo que Jack nunca tinha visto e que ficava-lhe tão belo – No dia em que você e Perla apareceram lá em casa, eu pensei melhor durante a noite, e vi que eu e o meu filho corríamos perigo. Tal como vocês fizeram, Black Dog também podia ter me descoberto, e aí sim, ele cumpriria a promessa que fez outrora, e ainda colocaria meu filho em grande perigo. – Ela fez uma cara de horror ao pensar na hipótese. – Na época em que confrontei Silver não tive medo, mas agora que vejo o meu filho tão pequeno e frágil em meus braços, eu temo de pavor só de imaginar que algo de mal lhe possa acontecer. Foi por ele que voltei ao mar. Ele foi a minha força e a minha razão, e não haverá ninguém melhor para acabar com esse perigo do que Will. – Num tom suplicante Elizabeth continuou. – Ele não suportaria ver o filho correr perigo, por uma estupidez cometida no passado por mim, e nunca Will me perdoaria se não lhe pedisse ajuda. Eu necessito dele Jack. – Ela não aguentou as lágrimas que borbulhavam em seus olhos.

Perla observava com atenção a angústia de Elizabeth, imaginando o desespero da jovem mãe ao sentir que o seu pequeno filho corria perigo junto dela. Jack parecia petrificado ao acabar de ouvir aquela justificação, com argumentos tão plausíveis e suplicantes quanto aqueles. Ele nunca tinha sido pai, ou assim o esperava, por isso não sabia como se sentiria perante aquela situação, mas sabia que se algum dia tivesse um filho, certamente ele seria a única pessoa que o faria abdicar de algo bem importante, ou até mesmo dar a vida para o proteger.

-Está certo, nos iremos tentar depois da reunião com os oito Lords acabar. – Um sorriso surgiu por entre aquele rosto molhado.

-Obrigada Jack, você é um bom homem. Eu agora vou pedir aos homens que se apressem – Ela voltou costas e foi até ao centro do navio.

-Você tomou a decisão certa, estou orgulhosa de você. – Perla colocou a mão da bochecha dele e deu-lhe um beijo no canto da boca.

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Estella encontrava-se nos aposentos de Silver, que a trouxera até lá, a fim de que pusesse um novo vestido, já que o outro tinha sido transformado num mero trapo. Ao vestir a ultima alça, Estella continuava com uma aspecto choroso e frágil, enquanto observava sua imagem no espelho que estava encostado á parede. Durante alguns largos minutos ela analisou-se, chegando á conclusão que já não se reconhecia mais, devido á aparência débil que lhe dava a forma de um esqueleto. Seu cabelo já não tinha o mesmo brilho de antigamente, e em seus olhos marcavam-se bem as imensas olheiras. Sentindo-se mal com a sua própria aparência, Estella desabou na cama feito um peso morto, continuando paralisada com a figura pálida que o espelho continuava reflectindo. Estella cerrou seu punho, sentindo a raiva surgir-lhe na pele, feito algo que a consome sem ela mesmo poder rebater, seu corpo parecia queimar por dentro e ela ficou frustrada por nada poder fazer para apagar aquela chama dentro de si.

Por que não era aquilo mais um de seus inúmeros pesadelos? Por quê que nunca mais acordava, e se deparava com os belos jardins de Siracusa, lembrando-se que tinha acabado por adormecer ali, devido a leitura extensa de um livro chato que seu pai lhe tinha oferecido? Ela lacrimejou ao ver que tudo aquilo que estava vivendo era a pura realidade e que, durante muito tempo, deu demasiada atenção e confiança a um homem que ao final de contas mal conhecia, e agora martirizava-se por ter ousado sentir algo por aquele monstro. Sentia medo dos seus sentimentos, tinha medo de ceder aquele homem, mesmo depois de todo o mal que ele lhe fez. Mesmo que estivesse com muito ódio dele naquele momento, não conseguia esconder aquilo que estava a sentir e isso ainda lhe dava mais raiva de si. Num impulso, Estella levantou-se, mas viu a porta ser aberta por Silver que a fechou logo de seguida. Ela deu duas passadas para trás, temendo o que ele poderia fazer.

-Calma, não tenha medo…

-Realmente não sei o que esperar de você! Nunca sei quando você está se preparando para me matar.

-Sou assim tão mau a seus Reais olhos? Eu pensei que me achava alguém de confiança até bem pouco tempo, alteza! – provocou Silver, deitando-se na cama, colocando os braços atrás da cabeça.

-Na época em que você parecia ser outra pessoa, sim pensava. Mas agora que revelou sua verdadeira faceta, eu acho você um monstro. – rebateu ela firmemente, inclinando-se um pouco sobre ele.

-Não ponha as coisas nesses termos, eu tenho um lado humano que apela por mim várias vezes, sabe? E nos momentos que passei com você naquele palácio, eu fui o mais sincero possível com você. – respondeu-lhe, puxando-a sobre ele.

-Como ousa dizer isso, depois das barbaridades que me fez até agora? – contrapôs Estella, tentando debater-se perante aquele toque. – E como ousa me tocar desta forma…

-Vai dizer que não gosta quando eu toco em seu rosto suavemente... E deslizo minha mão até ao seu pescoço... – Silver fez o que disse, fazendo Estella fechar os olhos ao toque arrepiante.

-Você manipula-me feito um fantoche…-Ela abriu repentinamente os olhos cor de mel, conseguindo esquivar-se a Silver, levantando-se. – Tenho nojo de cada toque seu! Repugna-me a maneira que você se dirige a mim, sem descaramento algum! Eu te odeio com todas as minhas forças por ter brincado comigo...

-Eu já disse que não brinquei com você. – Silver levantou-se da cama, olhando-a com firmeza, o que fez Estella crer que, uma única vez na vida, ele estava sendo sincero. Isso a deixou confusa.

-Então vai-me dizer que até agora todas as palavras de amor ou carinho que me disse no palácio eram verdade? - debochou dele - Não me faça rir…

-Você acha que um pirata como eu, que demonstra um coração de pedra, não tem capacidade para amar?

-Como um pirata tem capacidade de amar? Se você tivesse essa capacidade não teria feito tanta monstruosidade contra mim. Não me teria enganado, abusado de mim e ainda mais, não estaria pronto a matar-me caso minha irmã não traga essa droga de objecto. Onde está essa capacidade de amar que você fala Silver? – Silver virou costas para ela, olhando o tecto.

-Esses são os meus ideais…

-Lamento se eu não compartilho os mesmos ideias que você, mas eu ainda tenho coração. – Ela foi em direcção até á porta. – E não se preocupe, eu sei o caminho para a cela. Eu não tenho vontade de fugir, vá você querer me dar de novo as cinco memoráveis chicotadas que ainda latejam nas minhas costas. – E nesse tom de ironia ela bateu com a porta, fazendo Silver olhar para direcção desta.

Silver passou a mão pelos cabelos longos, tentando chegar a uma conclusão do que se tinha passado ali nos seus aposentos. Ele tombou suas costas sobre uma cadeira de madeira envelhecida, e pegou na garrafa de rum ali esquecida sobre inúmeros objectos que se encontravam na sua mesa, e bebeu, deixando o líquido frio e ardente escorregar-lhe pela garganta.

Sua situação era um pouco controversa daquilo que estava habituado a lidar, sentia-se inútil e um completo imbecil por se estar deixando tentar pelo corpo esbelto da jovem princesa. Como poderia um pirata tão maléfico como ele, que até a Corte da Irmandade ousou desafiar e ameaçar, ficar perdidamente enamorado por sua presa? A presa que iria servir para chegar a tamanha fortuna, algo que muitos não conseguiam imaginar, e rezavam ter. Toda a sua vida, desde pirata, tinha feito as melhores pilhagens a navios Espanhóis e Portugueses que se atreviam a passar pelo mar do Caribe, massacrando as suas inúmeras vítimas sem a maior prova de arrependimento, e até confessara a si próprio, que sentia prazer ao recordar as vitimas que tinha feito com a sua própria espada, ao trespassá-las sem dó nem piedade, e do odor intenso de sangue, que ele ainda hoje, conseguia farejar das batalhas travadas em alto mar. Esta era a sua natureza, e sentia orgulho de ser assim, e ainda para mais portador de tamanha valia como a vida eterna, algo que tantos piratas históricos almejaram em vida e se aventuraram bravamente por esses sete mares em busca de pistas para acharem a afortunada Fonte, mas sem sucesso.

Silver pousou a garrafa e abriu a camisa lentamente, vendo as marcas que tinha sobre essa aventura e que, ainda hoje, podia sentir em sua pele todo o sacrifício que tinha passado até chegar á Fonte da Juventude… dos tormentos que tinha passado com os loa que protegiam e amaldiçoavam aquele sítio penoso. Seus poderes eram concentrar-se nas pessoas e perturbá-la com as visões mais horríveis da sua vida, como se penetrassem em suas cabeças e os fizessem recordar dos piores momentos das vítimas. Uma espécie de tortura psicológica para que os aventurados corajosos recuassem da fonte, ou até mesmo enlouquecessem com tais visões, mas Silver conseguiu suportar tal tormento só para chegar á bendita fonte, tinha de ser ele o aventurado homem que iria conseguir beber de tão cristalina água que ao deslizar pela garganta parecia enfiar aguçados punhais.

Ele estremeceu ao sentir a sensação horrível, mas apesar disso, o resultado era maravilhoso. Tinha a vida eterna, era insensível á dor. Eterno para fazer aquilo que lhe desse na cabeça: pilhagens, imensas fortunas e as melhores mulheres do mundo. Só que havia alguém naquele navio que fazia aquilo tudo resumidamente se tornar tão pequeno: Estella. Era como se ela apagasse da sua jovial memoria o seu terrível passado, substituindo-o por aqueles tempos nos jardins do palácio, como se sua vida tivesse começado a partir daquele ponto magnifico, do olhar puro da princesa e do maravilhoso sorriso que rasgava em seus lábios. Do cheiro de flores de campo selvagem que ficava a toda a hora entranhado na pele clara da princesa, e de seus cabelos ondulados que esvoaçavam em época de temporal. Novamente passou a mão pelo cabelo, no fundo ele queria ter a autoridade que outrora teve, mas ela acalmava a fera que havia dentro dele. A fera que o fazia agir de forma selvagem nas coisas que fazia, no prazer que sentia em matar ou torturar suas vítimas. Sim, no fundo ela o acalmava, e isso o incomodava. Por isso a tratava agora daquela maneira, um jeito insignificante, para não cair no erro de revelar uma das suas fraquezas, algo que ele sentia e não queria sentir, ou se expor a quem quer que fosse, muito menos á ela.

Silver suspirou pausadamente ao recordar o momento da cela, de como Estella lentamente cedeu a cada toque que lhe percorreu o corpo, ou a cada beijo que ele lhe deu, sem ao menos rebater. Ele gostava do jeito dela, e adorava ter a certeza que ela era só dele, só ele a podia possuir e sentir o doce aroma da sua pálida pele.

Olaaa meninas e menino

Bom, este capítulo resume-se basicamente ao passado e presente de Silver e Estella, por isso espero que não tenha ficado muito confuso. Agora, algumas coisas um pouco importantes para o desenvolvimento da fic estão expostas neste capítulo.

Só queria explicar são loa - É um termo que designa seres espirituais.

Novamente quero agradecer á Rô pelo bom trabalho que tem feito, ao ajudar-me no desenvolvimento de ideias e na correcção de alguns erros :) ehehe

Queria agradecer também as reviews mandadas: Dorinha Pamella, Roxane Norris, Bruno Teixeira, Jane, Ieda, Likha Sparrow, Fini Felton, o meu muito obrigada por tais palavras de apoio e por ainda continuarem seguindo esta fic :)

Bjokas grandes e fikem bem

Taty Black