Capitulo 14 – A Enseada dos Náufragos
Com o tempo passando, o Pérola Negra ia ondeando nos mares inquietos do Caribe. Ao tempo que era empurrado gentilmente pelo vento, parecendo estar a favor da sua chegada até à enseada. Tudo estava calmo, e as nuvens não estavam mais cinzentas como nos últimos dias, pelo contrário, o crepúsculo claro dava lugar a um manto leve de estrelas bem visíveis e cintilantes. Enquanto isso, o Pérola Negra ia avançando pelos mares escuros, aproximando-se cada vez mais da Enseada dos Náufragos, uma fortaleza formada por rochedos, onde no seu centro se encontrava uma pequena ilha feita de pedaços velhos de navios naufragados naquela zona, amontoados uns em cima dos outros, dando um aspecto grandioso e inalcançável. O Pérola começava a entrar agora numa espécie de túnel amplificado, formado dentro de uma rocha, para conseguir chegar ao seu centro. Perla apreciava o caminho silenciosamente, no castelo de proa, para não perder qualquer detalhe daquela viagem, mas a sua concentração foi interrompida por passos nada silenciosos que se dirigiam até ela, colocando-se ao seu lado de braços cruzados atrás das costas.
-Aproveite bem a viagem, pois nunca, em lugar algum da sua vida, você irá presenciar o que vai ver. – informou Jack, ao lado de Perla, que voltou a concentrar-se agora na ilha que começava a aparecer.
-Mais um momento agradável para guardar na minha memória, e lembrar na altura em que estiver sendo coroada em Siracusa. – desabafou ela num tom desgostoso, enquanto seus olhos, apagados, continuavam fixando o infinito.
-Não tem de ser propriamente assim, amor… – contestou Jack, vendo-a menear a sua cabeça para ele, expondo seu envolto numa tristeza notória.
-Tem Jack, e você sabe que não há volta a dar. – Ela desviou o olhar de Jack para a borda do navio. - Cada um tem a sua moral, grande ou pequena, todos carregamos essa característica… E o meu dever está perante Siracusa. Eu não poderei abdicar dele, tal como você não poderá abandonar o mar que tanto apela por você.
Jack sabia que Perla estava certa, por isso permaneceu calado ao vê-la passar suavemente o dedo pela borda do navio, como quem desenha algo. Mal saíram do túnel, os raios penetrantes da lua banhavam novamente o navio negro, dando um certo contorno á forma corporal de Perla. Ele imediatamente agarrou a mão dela, o que a fez continuar de rosto baixo. Jack puxou lentamente, com os seus dedos, o queixo da garota para cima, vendo que os olhos dela marejavam disfarçadamente, o que fez sua expressão torna-se grave. A boca de Perla estava ligeiramente aberta, por onde Jack entreouvia-lhe a respiração calorosa, escorregando pelos lábios húmidos. Ele passou as costas da mão pelo rosto dela, enquanto Perla entrelaçava sua mão á dele, num soluço agoniante. Quando finalmente Jack ia aproximar os seus lábios dos dela, ouviu-se um par de botas caminhar pelo convés em direcção a eles.
-Capitão! – Gibbs interrompeu o momento.
Gibbs viu a moça desviar o olhar timidamente para o mar, ao tempo que Jack rodopiava os calcanhares em direcção ao primeiro imediato, que ficou um pouco incomodado com a situação constrangedora.
-Sim senhor Gibbs, desembuche…
-Estamo-nos aproximando da Enseada dos Náufragos, alguma ordem para o navio? – perguntou Gibbs, mantendo os olhos fixos para Perla. Jack estranhou o facto, mas logo lhe respondeu:
-Ora, o capitão deste navio não sou eu, temporariamente, claro… Pergunte a actual Capitã – retrucou num tom intragável ao ver Elizabeth, Alessandro e o capitão Barbossa saíam do porão apressadamente.
-Ragetti e Pintel nos informaram que estávamos chegando. – Elizabeth correu até á borda do navio para poder observar a ilha. – E vejo que os lordes corresponderam ao meu pedido.
Com um sorriso agradável, ela apontou para a sua frente, onde se encontrava um grupo de navios que balançavam insistentemente á deriva do mar inquieto. Em alguns momentos, todos os que se encontravam no centro do convés correram para apreciar a vista, e Jack ajudou Perla a descer as escadas para ir até ao encontro deles.
-Agora é que ela vai ficar insuportável. – resmungou Jack, revirando os olhos.
-Então esta é a Enseada dos Náufragos? – analisou Alessandro, achando ridículo chamarem de enseada um monte de navios velhos amontoados uns em cima dos outros.
-Na época, os lordes da primeira Corte tiveram preguiça de construir algo realmente acolhedor com os retalhos de madeira boa dos navios naufragados, e puseram tudo ao monte fé em Deus. – explicou Barbossa, dando um pedaço suculento de maçã ao macaco, que logo pulou fora do seu ombro.
-Alguma ordem para o navio capitã? – indagou Gibbs, relançando sua cabeça em direcção a Elizabeth.
-Apenas amarrem as velas, e quando aportamos, desçam a âncora…
Com a sobrancelha empinada, Jack viu todo o mundo quieto ao seu lado, continuando a observar o aproximar do navio, e essa ocorrência fez ele levantar as mãos ao ar e rodopiá-las.
-Estão á espera do quê cães sarnentos? Quero ver todo o mundo a preparar o navio para acostar. – rosnou ele, ao tempo que uns corriam para as cordas das velas, e outros prepararam a âncora para baixar.
Perla apressou-se até aos aposentos de Jack, onde rapidamente colocou a bandana sobre seus cabelos, amarrando-os para que não os notassem, quando fosse colocar um dos chapéus usados de Jack. Ao olhar ao seu redor, ela pegou na espada que Jack lhe tinha oferecido e guardou-o na sua bainha, para caso fosse preciso. De repente ouviu a porta abrir.
-Aportamos alteza! – informou ele fazendo uma vénia teatral. Ela soltou um sorriso recatado que foi acompanhado por Jack.
-Jack, e Alessandro?
-Creio que ele não poderá nos acompanhar... – respondeu num tom de pesar, mas ao mesmo tempo abrindo um sorriso debochado.
-Como assim?
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-Larguem-me, o que pensam que estão a fazer? – berrava Alessandro, debatendo-se nos braços de Pintel e Ragetti que o levavam para a cela.
-Ordens do capitão. – explicou Ragetti com um sorriso parvo estampado no rosto. – Mais logo, quando a reunião acabar, nós te soltamos, se você merecer claro.
-Mas o que vão fazer com Perla? Eu exijo saber! – Ragetti rapidamente abriu a cela, e Pintel empurrou o jovem comodoro para dentro dela, fechando de seguida a porta.
-Ah garoto, o capitão só vai resolver o problema dela, que é o nosso também, por isso, fique quieto e calado até a gente voltar. – alertou Pintel, fazendo um gesto de cabeça para Ragetti segui-lo.
-Perla. – murmurou o Alessandro, agarrando-se ás grades.
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Jack, Perla, Elizabeth, Barbossa e o resto da tripulação atravessavam uma entrada estreita, que dava lugar a uma sala espaçosa, com formatos náuticos, visto ser feita de pedaços de velhos navios. Um globo do mundo gigantesco estava logo na entrada, para que os lordes enfiassem a sua espada nos locais aos quais pertenciam. Mal entraram e sem hesitar, Jack, Elizabeth e Barbossa desembainharam as suas espadas e colocaram-nas nas respectivas zonas, enquanto Perla analisava a sala já repleta, onde cada capitão, vinha acompanhado da sua tripulação, o que tornava o ambiente barulhento de mais.
Os Lordes já se estavam devidamente sentados nos seus respectivos lugares, cercando a ampla mesa redonda e, ao verem a tripulação do Pérola Negra chegar, todos naquela sala ficaram em total silêncio apreciando cada movimento dos capitães, que tomaram os lugares restantes. Jack, mostrando seu súbito cavalheirismo, fez um gesto rápido para que Perla se sentasse na sua cadeira, fazendo-a ficar surpresa e agradecida. Elizabeth ficou na parte lateral da mesa, onde tinha uma majestosa cadeira e, com um rosto austero e uma expressão firme, bateu com uma as bolas que se uniam numa corrente para dar iniciada a sessão.
-Como aquela que vos convocou, declaro esta a quinta Corte da Irmandade. Para confirmarem que são Lordes e que têm o direito de serem ouvidos, mostrem as vossas novas peças de oito, meus companheiros capitães. – começou Elizabeth dando ordem a Mullroy para recolher as oito peças de oito, numa espécie de saco.
-Refiro que nos falta um Lord… – murmurou um dos representantes de lord Sri Sumbhajee, ao tempo que este olhava para todo o lado.
-E eu devo lembrar que esse Lorde há muito que foi riscado do plano da Corte da Irmandade, quando o expulsei do cargo, e todos, sem excepção, concordaram com isso.
-E como podem notar, aquele cão sarnento do Silver não se deu ao trabalho de arranjar um sucessor! – criticou Barbossa de braços cruzados. – E tão cedo não terá tal atitude, visto ter vida longa.
-Cabe ao Rei escolher um novo elemento…
-Eu decidi que, neste momento, seremos apenas oito Lordes, até resolvermos o nosso pequeno problema. – confirmou Elizabeth sentada na majestosa poltrona.
-O que nós queremos realmente saber é o propósito desta reunião. – disse um Lord negro de forma robusta.
-Por que fomos convocados novamente?
-Pelo mesmo motivo que nos reunimos da última vez…O substituto de Capitão Villanueava, o capitão Silver Villanueava, cuja alcunha é Black Dog. – explicou Barbossa cautelosamente, tendo em especial atenção este assunto. – Ele voltou a dar sinais de vida, mas desta vez em Siracusa…
-Isso já não é problema nosso! – berrou Ammand, chamando a atenção de Perla que semicerrou os olhos… nesse momento iniciou-se uma explosão de burburinhos entre os Lordes e os seus acompanhantes.
-Claro que é! Se vocês se lembram, ele tem ido contra o Código Pirata, e quem quebra o Código arriscasse a perder o corpo e a alma. – disse Mistress Ching, uma mulher chinesa sentada ao lado de Barbossa.
-Não sei se você se esqueceu, mas aquele maldito roubou o mapa que levava á Fonte da Juventude e, como todos sabem, Silver bebeu-a sem hesitar, dando assim uma nova essência á vida dele… Uma vida imortal! – ironizou o homem negro chamado Jocard o que fez Mistresse Ching soltar um olhar fulminante. – Nós já o capturamos uma vez, e um bando de piratas traidores da enseada o ajudou a fugir.
-Se ele desonrou o Código Pirata e é imortal, o que poderemos fazer para o defrontar? – retrucou Perla, vendo todos olharem para ela admirados.
-Que direitos tem você para falar seja o que for moça? – Sri Sumbhajee, o homem da voz fina, fez-se pronunciar, levantando-se um pulo. – Mandem-na para o diabo.
-Mate, ela é neta de John Rackham e de Anne Bonny, uma das fundadoras da primeira Corte da Irmandade. - Com uma expressão de escárnio exposta no rosto, Jack retorquiu aquele homem, pousando suas mãos sobre os ombros de Perla, ao vê-la pronta a responder grosseiramente. – Com certeza você não quererá fazer isso! Savvy?
Todos os presentes olharam com especial atenção para ela, examinando-a de cima abaixo, o que incomodou Perla, corando-a violentamente. Depois de breves segundos em silêncio, este foi estourado por uma onda de desordem entre ambos os piratas, fazendo Perla abanar a cabeça de modo sôfrego e voltar a sentar-se.
-Senhores. – interrompeu Barbossa aos gritos – Senhoras. – continuou num tom mais brando, olhando para as três mulheres presentes. – Chegou a altura de tomarmos atitudes mais sérias perante esta situação, creio que…
-Estes são tempos desesperados, e como tal, medidas desesperadas devem ser tomadas. – rebateu Jack, concluindo o raciocínio de Barbossa, que rodopiou lentamente o olhar.
-Obrigado caro amigo. – ironizou Barbossa bufando, enquanto Jack juntava as mãos numa reverência. – Nós fomos os principais causadores da ascensão de Black Dog. – Ele deu um olhar significativo para Jack, como quem tenta relembrar que foi por causa dele, ou melhor, por causa das cartas terem sido roubadas da mão de Jack, que Black Dog ficou invencível. – Nós o deixamos atingir seu objectivo, e não fizemos nada para evitar as notórias consequências.
-E o queria que a gente fizesse? Comprasse uma bolinha de cristal para prever o futuro?
-Longe eram os tempos em que nós, piratas gloriosos, éramos sábios o suficiente para prever o que piratas como Lord Silver, gananciosos por sinal, iriam fazer com as cartas de Navegação, ou estou errado? – Ao ver que ninguém lhe respondia, ele prosseguiu: – Temos de o defrontar para poder viver livremente nos mares que são, por direito, nossos…
-Bravo raciocínio, caro Hector, se me permite dizê-lo! – Jack bateu palmas ironicamente, dando uma volta em torno de Barbossa, que rodou os olhos impacientemente. -Você está se esforçando, parabéns.
-Se você tiver uma explicação melhor, faça gentileza de compartilhá-la com a gente.
-O facto aqui é que Black Dog, – Jack afastou-se de Barbossa, olhando para os outros Lordes, tomando a liberdade de caminhar por entre cada um que se mantinha de pé - depois de um longo sumiço, resolveu aparecer em Siracusa, querendo algo que todos os que navegam nestes mares ambicionam. – Um grande negro meteu-se á frente de Jack, fazendo-o meter o dedo indicador no peito do homem para o deslocar do caminho - Achar a Mão de Midas, e finalmente, vingar-se de nós, um por um, até não sobrar ninguém para contar a história. – Ele passou por Elizabeth, piscando-lhe o olho, o que a fez ela soltar um sorriso maroto – Para alcançar esse intento, salvaguardado, resolveu raptar uma das herdeiras do Rei de Siracusa, para que este o ajudasse – Ele apontou para Perla, que estava da outra extremidade da mesa. – O que mostra uma falta de princípios, pois pirata que se preze, não se esconde debaixo de um rabo de saias. - Jack fez uma pausa continuando a ver todos atentos ao que ele dizia.
-Sabe Sparrow, você quase me comoveu com essa história melodramática. – murmurou Chevalle sorrindo debochadamente, o que fez Perla cerrar o punho debaixo da mesa, enquanto seus olhos cintilavam de raiva. – Mas propõem o quê? Colocar Black Dog debaixo de água e tentar afogá-lo? Espetar-lhe com um tiro na testa á espera de que o sangue dele derrame todo? Ou tem outra opção mais plausível? Você se esqueceu que ele e imortal?
-Curioso não? – Jack soltou um sorriso malicioso. – Eu chamaria antes uma infeliz coincidência propositada.
Ele deu duas passadas largas esbracejando.
-Ao passo que ele é imortal, eu recordo-lhes, nós meros mortais temos nossas vidas presas por um fio, até Black Dog decida cortá-lo! – contrapôs Jack num tom de desdém, balançando os braços à medida que continuava a caminhar por entre eles, explicando a situação. – Contudo, meus nobres cavalheiros, e damas. - acentuou - Devo dizer que nem tudo está perdido. - Jack olhou para Chevalle num tom dissimulado. - Podemos sempre ficar aqui e abraçar a mais velha e nobre tradição dos fracos, o que significa antecipar as coisas e nos suicidamos, - Ele colocou delicadamente as mãos em cima do ombro da chinesa. – O que sinceramente iria causar muito transtorno para nossas humildes pessoas, ou... - Jack deslocou-se novamente, inclinando-se ligeiramente para Jocard. – Podemos articular um plano fácil e eficaz, navegar rumo ao navio de Black Dog, visto que ele tem a solução para o nosso problema escondido algum lugar de seu navio...
Ao concluir seu circuito, voltou novamente para perto de Perla. Jack fitou todos, que permaneciam calados, entreolhando-se silenciosamente. Jack fez uma careta esquisita ao ver os rostos abismados. Mas de um momento para o outro, uma expulsas de gargalhadas fez-se notar naquela sala, como se Jack tivesse contado uma anedota. Ele também riu, para passar despercebido, mas logo fechou seus lábios numa linha recta.
-Você Jack? Logo você, que o seu lema principal é lutar para fugir, pretende cercar o navio do mais temível pirata? - rebateu alguém no fundo da sala.
-Ele endoidou…
-Cortem-lhe a língua…
-Ele está louco, matem-no…
-Eu nem acredito que vou dizer isto, mas eu concordo plenamente com o capitão Jack Sparrow. – Jack juntou as mãos para agradecer Barbossa. – Eu tive essas Cartas na mão, e posso confirmar que elas nos levam a todo o lado possível e imaginário. Temos que apanhar essas Cartas, é a salvação de nossas humildes e significativas vidas, isso se quisermos ser piratas durante muito mais anos. – Ao ver os Lordes sem reacção Barbossa bufou - Diabos! – rosnou ele, colocando a mão debaixo do queixo – Vocês conhecem bem a natureza de Silver, ele é cruel, sem nenhum senso de justiça e piedade. – Ele tomou seu aspecto robusto e continuou: - Mas nós somos mais ardilosos do que ele, podemos muito bem fazer-lhe frente.
-Eu concordo com o Barbossa. – afirmou Jocard, levantando-se estioladamente. – Temos de fazer algo por nossas vidas, antes que seja tarde demais.
-Então, a gente põe-te num barco e você vai procurar sozinho essas Cartas de Navegação… – comentou Chevalle, e naquele momento, o homem negro deu-lhe com o bastão no estômago do outro.
Naquela altura todos começaram a discutir sobre diversas opiniões, gerando uma pequena luta entre os presentes, onde tiros eram perdidos no ar e pessoas simplesmente voavam para cima das mesas. Perla encontrava-se sentada na cadeira que Jack lhe tinha disponibilizado, batendo com o pé impacientemente debaixo da mesa. Ela presenciava aquilo surpresa, enquanto tamborilava com os dedos nervosamente sobre o tampo ao escutar as barbaridades que aqueles Lordes falavam.
-Isto é uma perda de tempo. – resmungou ela levando a mão á cabeça, abanando-a.
-Como costumo dizer amor, isto é política! – ponderou Jack, ao escutar o desabafo de Perla.
Ela continuou a ouvir o que aqueles piratas discutiam, até ouvir alguém falar que a culpa desta situação toda era da família Real de Siracusa, que estava ajudando um traidor a conseguir o que queria. Indignada, Perla tentou explicar o que realmente tinha se passado, mas ninguém lhe dava ouvidos. Irritada por tal coisa, ela olhou para a cintura de Jack, onde estava a pistola. Aproveitando sua distracção, Perla tirou-lhe a arma do cinto, subiu á cadeira e atirou para o ar, chamando a atenção de todos. Ela voltou a descer a cadeira, batendo com a arma sobre a mesa, que fez um barulho oco. Jack levou as duas mãos fechadas á boca, arregalando os olhos ao ver a pistola bater daquela maneira.
-Isto não está certo. – berrou ela, enquanto um brilho de raiva atravessava o verde-esmeralda de seus meigos olhos. - O que vocês são? Piratas que em tempos foram conhecidos pela bravura e coragem exercida nos sete mares, ou insignificantes cães sarnentos que á primeira dificuldade fogem com o rabo entre as pernas? Esperando que o bendito destino arranje uma das mais fáceis soluções para resolverem os seus problemas.
-Perla, amor, é melhor você se calar. Você já conseguiu despertar a curiosidade de todos os Lordes, sem excepção. – sussurrou Jack entre dentes, quase não mexendo os lábios, sorrindo para todos que tinham ficado abismados com o que ela tinha dito.
-Eu não peço que lutem por Siracusa ou por minha irmã, – Perla ignorou Jack, decidindo continuar - mas sim pela honra do Código Pirata e pela bravura que todos vocês foram reconhecidos na "era d'ouro" dos piratas, antes de serem conhecidos por míseros piratas bêbedos e mandriões. – Ao sentir sua fúria passar-lhe, Perla baixou o tom de voz, numa expressão encarecedora. - Nós precisamos enfrentar esse homem antes que ele elimine um por um, até não sobrar nenhum pirata, a não ser esse cachorro sarnento.
-Prontos, já chega. Você já deu o seu show, e de graça, agora deixe eles resolverem…
-Os membros da primeira Corte da Irmandade iriam se envergonhar dos sucessores que escolheram, pois de cada geração de pirata que chegou até aqui, eles esperavam que honrassem o verdadeiro sentido da palavra PIRATARIA, esquecida por muito de vocês…
Apesar das consequências possíveis daquele discurso improvisado de Perla fosse ter, Jack sentia um enorme orgulho ao vê-la enfrentar corajosamente, e sem rodeios, aqueles piratas malandros que continuavam escutando sem nada dizerem, e demonstrou isso com um sorriso soberbo. Mas, numa maneira de improviso, Jack colocou a mão na pistola, que ainda estava em cima da mesa, e embainhou-a no cinto, continuando agarrado á coronha, esperando uma reacção daqueles piratas. Barbossa seguiu o exemplo de Jack, colocando a mão na coronha, e ambos fizeram um sinal discreto com a cabeça, como se partilhassem a mesma ideia.
-Era só isso que eu queria expor perante vocês, agora tomem a atitude que acharem certa, mediante da vossa pesada, ou não, consciência. – rebateu Perla para finalizar o seu discurso.
-Ela acabou de nos insultar, merece bala… – Perla deu duas passadas para trás ao ver Mistress Ching apontar-lhe a pistola e, num gesto rápido, Barbossa e Jack tiraram suas armas e apontaram para a mulher.
-Você não vai, com certeza, querer fazer isso! – ponderou Jack, fazendo um aceno com a cabeça.
Numa questão de segundos estavam todos de armas apontadas uns para os outros, esperando impacientemente pelo primeiro louco a apertar o gatilho. A tensão era notória entre todos, que moviam suas cabeças, verificando os movimentos traiçoeiros dos adversários.
-Baixem as armas. - ordenou finalmente Elizabeth, num berro que entoou a sala toda, levantando-se repentinamente da poltrona. – Perla está certa! Todos sabem que isso é verdade, independente desse facto ferir o vosso orgulho ressentido ou não. Necessitamos de acabar com Silver, antes que nenhum de nós viva para ver um novo amanhecer, e vocês sabem que mortos não contam historias. - Perla olhou com admiração para Elizabeth, que tentava manter pulso firme com os piratas, e todos guardaram lentamente suas armas. - Precisamos arrancar essas Cartas de Navegação, por bem ou por mal, das mãos de Silver – continuou Elizabeth, enquanto sua respiração estava fogosa – E devido á intensidade da tarefa, ela só poderá ser executada, e liderada, por uma pessoa. – Elizabeth deu um olhar significativo para Jack, que logo percebeu em quem ela estava pensando. – O capitão Will Turner! - Todos riram ao ouvir o nome dele.
-Um capitão amaldiçoado. – rebateu Jocard num tom irónico. – Não vejo no que isso nos ajuda.
-Ele é amaldiçoado, mas tem a eternidade. – Jack pousou as mãos sobre a mesa e dobrou um pouco o tronco para a frente, franzindo a testa. – E você mate? O que tem além de uma vida medíocre? – rebateu Jack erguendo-se novamente, num de seus gestos característicos.
-Mas ele está completando a missão que a Calypso lhe ordenou. – falou Barbossa, estranhando a ideia dela.
-Teremos de tentar capitão Barbossa, Calypso precisa entender a nossa situação, embora a natureza dela seja deveras controversa. – Elizabeth sentou-se e suspirou. – Só Will poderá tirar o mapa a Black Dog, enquanto Jack e a tripulação se dirigem para a Ilha Desaparecida á procura dessa Mão de Midas numa espécie de manobra de diversão. – Perla ia falar, mas Elizabeth olhou de relance para ela. – Nós iremos arranjar um jeito de tirar sua irmã das garras dele, eu prometo, mas Black Dog não pode desconfiar que as cartas de Navegação estão relacionadas de uma certa forma com você, senão ainda usará isso contra sua irmã. – Ela maneou lentamente a cabeça para analisar os rostos dos Lordes.
-E onde nós entramos nessa parte do plano? – interveio Chevalle, contrariado.
-Se vocês se lembram, Black Dog tem várias embarcações a seu comando e, se a Deusa Calypso trouxer o Holandês Voador das profundezas do mar, o mais provável é ele não conseguir debatê-los sozinho. – Jack viu o olhar curioso de todos, e num de seus gestos continuou: - Precisaremos de ter uma frota grandiosa para poder reaver aquilo que ele me roubou, savvy?
-Só quando tiver as Cartas de Navegação nas minhas mãos, partirei á procura da solução dos nossos problemas, e vocês voltaram para a enseada. Somente quando Silver ficar vulnerável, poderemos atacar o Adriatic Sea e os seus comparsas. Tal como fizemos, há um ano e meio atrás, contra o Holandês Voador e o navio da Companhia das Índias Orientais. – Ela olhou com um aspecto duro e impulsionador para todos os lordes. – Alguém aqui tem alguma coisa a rebater sobre este assunto?
-Têm a certeza que não vão contra o código? – Uma voz vinda ressoou gravemente da porta, de onde apareceu a figura de um homem numa idade já avançada, embora não parecesse. – Vocês sabem que o código é lei.
-Capitão Teague. – murmurou Barbossa, rindo debochadamente do rosto petrificado e agudo de Jack. – Suponho que estejamos fazendo tudo mediante o código pirata, mas não há ninguém mais adequado para nos dizer de sua justiça, senão você. – Teague deu umas passadas secas, em direcção á mesa.
-Você está sempre no meu caminho, garoto. – grunhiu Teague, vendo Jack chegar-se rapidamente para o lado direito. – Devo informar que, embora não tenha sido convidado, escutei toda a conversa e, se querem mostrar honra pelo código, terão de fazer o que o rei da Corte vos proporcionar sem direito a contraposições, savvy? – Os Lordes apenas afirmaram com a cabeça. – Tenho dito.
Ao terminar sua fala, Teague dirigiu-se então até ao seu habitual canto, onde se sentou na cadeira feita de madeira velha e, de seguida, colocou seus pés numa arca bem á sua frente. Olhou para os lados para procurar seu violão e, ao achá-lo, colocou-o sobre a perna arqueada e começou logo dedilhar nas cordas do violão, de onde saiu uma melodia lenta e afinada.
-Já que ninguém tem nada a depor contra o efeito conclusivo das palavras do Capitão Teague, eu dou por terminada a reunião da Corte da Irmandade. – finalizou Elizabeth, suspirando de alívio.
-Rainha Turner, obrigada. – agradeceu Perla, sorrindo.
-O mérito é todo seu, Perla Bonny!
Enquanto isso, Jack aproximava-se a passos lentos de Teague, que não desgrudava os dedos, nem o olhar das cordas do violão, concentrando sua meditação toda ali. Jack levou a mão direita fechada á boca pigarreando, como quem tenta pedir um pouco de atenção.
-Estive ouvindo sua garota falar, uma mulher de garra, sabe o que quer… – murmurou Teague, continuando a tocar aquela melodia envolvente.
-Se me permite corrigi-lo, ela não é minha garota, savvy? – corrigiu Jack, erguendo a sobrancelha.
-Não? – indagou Teague, fazendo-se surpreendido, olhando finalmente para o filho. – Olhe que deveria… Pérolas como essa, não se encontram todos os dias no mar, isso é um pequeno conselho de um velho lobo-do-mar já vivido. – Jack olhou de soslaio para Perla que falava com Elizabeth.
-Ela é uma princesa, tem deveres num reino longínquo, e eu sou um apenas um pirata que sempre viveu para o mar. – retrucou ele num tom sério, expressando um rosto fechado.
-Só não existe solução para a morte, meu caro. – Teague pousou o seu violão no chão. - Apesar de ter minhas duvidas, depois de tudo o que aconteceu com você e o Barbossa. – Ele levantou-se encarando o filho. – Lendas do mar, suponho. – Acrescentou ele colocando a sua mão debaixo do queixo, coçando-o. – Entretanto, você pode muito bem lutar para que essas lendas se tornem realidade, e aí Jacky vai ver que tudo é possível neste mundo. – Ele deu uma palmada no ombro de Jack, indo para a porta onde tinha entrado antes.
-Jack qual é o próximo passo? – perguntou uma voz atrás dele, o que o fez rodopiar até ela, observando a sala completamente vazia.
-O próximo passo é falar com a Calypso, por isso iremos ficar por aqui, até que vossa majestade, a Rainha Turner, se decida a enviar-lhe um convite formal para uma reunião a sós, que ficará para amanhã, meu bem. Agora vamos descansar destas… Emoções todas. – Ela concordou, fazendo-lhe um aceno.
-É melhor! Chega de maluquice por hoje. - bufou ela, andando para a frente, até Jack lhe agarrar o braço. – Algum problema Jack?
-Há, esse… – Ele beijou-a de uma forma intensa, enquanto Perla se punha em bicos de pés, ao sentir Jack puxá-la cada vez mais para si. Quem viu o beijo foi o Capitão Teague que abanou a cabeça.
-Esse é o meu garoto. – sussurrou num tom seco, enquanto desenhava um sorriso nos lábios até desaparecer por completo da porta.
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A poucos metros de distância dali, não muito longe da Enseada, cinco navios navegavam cautelosamente pelo mar do Caribe, enquanto o navio com o capitão, ia á frente para coordenar os outros. O capitão, estava no gurupés, seguro a uma corda, enquanto observava o Enseada dos Náufragos tão iluminada esta noite.
-Ora ora, houve uma reunião e nem fizeram questão em me convidar. – comentou num tom irónico ao seu primeiro imediato. – Da última vez, fizeram todo o gosto em que eu estivesse presente… E acorrentado.
-Capitão, vai atacá-los agora.
-Iria ser uma falta de cortesia, Sr. Jochem. Além do mais, temos uma convidada a bordo, devo levá-la para um lugar seguro e esperar que Perla me entregue a Mão de Midas.
-Sempre pretende atracar a Aligattor Pond? – perguntou Jochem, vendo Silver afirmar com a cabeça. – Mas essa pequena vila está habitada…
-Pois então, teremos que fazer uma pequena limpeza á vila, caro Jochem. – completou numa expressão terrífica, fazendo o primeiro imediato engolir em seco.
Oiii meninas e menino
Aqui está, como prometido, mais um capítulo. Adorei escrever ele, pois implicava meter mais personagens do que o habituar e, para mim, foi um enorme desafio, que resultou nisso que acabaram de ler xD. Espero que tenham gostado e que me deixem uma review para saber de vossa justiça.
Queria agradecer desde já à Rô, que mesmo estando doentinha, teve paciência para corrigir este capítulo. Mil bjokas amoree e obrigadaaa.
Também queria agradecer a todos que deixaram uma review fofa no capítulo anterior: Rô, Likha Sparrow, Dorinha, Fini Felton, Ieda, Jane e Bruno. Obrigada mesmo, amei cada uma delas. Eu qualquer dia, quem sabe no próximo capitulo, começo a responder-vos, mas é que posto o capitulo meio á pressa e não dá tempo para vos responder.
O próximo capítulo já está a meio, e intitulasse por " O acordo!" Vamos ver por quem é feito este acordo e quem se encontra envolvido rs. Para a próxima semana, se der, eu posto.
Bjokas grandes e fiquem bem
Taty Black
