Capitulo 16 – A história do contador de Histórias

Depois da pequena reunião no Holandês Voador ter finalmente terminado, Jack e Perla foram de imediato para o Pérola Negra, para poder apreciar a partida dos navios, visto que o Pérola seria o último a zarpar da Enseada. Do outro lado, Elizabeth encontrava-se em cima da amurada do navio, agarrada ao estai, enquanto seus cabelos esvoaçavam teimosamente sobre o rosto. Todas as atenções estavam sobre ela, ao tempo que Elizabeth berrava para que todos os navios içassem velas e levantassem as suas âncoras, para poderem partir logo ao avanço do Holandês Voador. O olhar de Elizabeth cruzou com o de Jack, que a admirava a força e determinação daquela mulher. Agora, sabia que tinha elegido bem a rainha dos piratas, alguém com a garra dela, que pusesse ordem naqueles piratas mandriões…Ela se encaixava bem nesse cargo.

-Jack, onde está Barbossa? – indagou Gibbs ao ver os dois ali parados, apreciando o panorama.

-Digamos que foi passar umas férias prolongadas num certo navio. – retrucou ele, sorrindo vitorioso. Finalmente o Pérola Negra era só seu, por enquanto... – Voltaremos a esta Enseada daqui a duas semanas.

-E o Alessandro? Não me diga que ele ainda continua preso? – indagou Perla vendo Jack olhar para os lados, com um ar dissimulado.

-Ele tinha de ficar lá até esta reunião acabar! A não ser, que vossa alteza quisesse que o seu ex-noivo presenciasse aquela pequena reunião com a Calypso. – Ele chegou perto dela e num tom provocador, sussurrou-lhe ao ouvido: - Não se esqueça amor, quem está mentindo aqui a ele é você, não eu – E dito aquilo desceu pelas escadas da escotilha.

-Eu mereço! – resmungou ela, revirando os olhos. Perla maneou a cabeça para o túnel, onde desaparecia por fim o último navio.

-Ao menos vocês não estão discutindo mais e, pelo que vi, vocês tão se dando maravilhosamente – Gibbs tentou apaziguar com um sorriso amarelo.

-Posso dizer que sim, senhor Gibbs. – concordou Perla abrindo um enorme sorriso. O que de certo modo preocupou ele.

-Se me permitir a ousadia, quero que saiba que ganhei uma grande afinidade por você, como um pai a uma filha. – Gibbs baixou o rosto, e logo ergueu-o, vendo-a sorrir – Como tal, não quero ver você sofrendo…

-Há alguma coisa que eu precise saber, senhor Gibbs? – perguntou Perla preocupada com o tom dele.

Gibbs apenas a observou durante alguns silenciosos segundos. O seu olhar misterioso tomara um tom azul esmaecido, o que fez Perla sentir seu coração bater aceleradamente. Notava que Gibbs lhe queria dizer algo, mas parecia que cada vez que os lábios dele abriam, retraíam-se depois numa linha fina, até ele voltar a ser um simples sorriso.

-Nada demais, princesa. – disse por fim, passando a mão sobre a face dela. Ele analisou atentamente cada traço da garota, e por fim desabafou: – Você faz me lembrar tanto sua…

-Perla. – Alessandro, que saía apressadamente da escotilha, correu até ela, envolvendo-a nos braços, num abraço apertado – Pensei que tinham feito alguma coisa com você.

-Eu estou bem, obrigada. – Ao ver que estava a mais, Gibbs afastou-se ligeiramente, deixando os dois a sós. – Peço perdão por não ter apelado pela sua liberdade, mas o capitão estava irredutível. Jack achou melhor você não aparecer diante daqueles piratas, para que não pensassem que era um espião, tendo em vista seu posto de comodoro.

-Não precisa de se desculpar – murmurou. Enquanto estava nos braços de Alessandro, Perla procurava com o olhar por Gibbs, mas não o viu. – O importante é que você está bem. – Ele soltou-a gentilmente e encarou-a. – Como correu a reunião com a Corte? Eles sempre vão ajudar?

-Foi muito difícil de convencê-los, mas Elizabeth, juntamente com o pai de Jack, presuadiu-os. Alex, nós estamos a um passo de conseguir a Mão de Midas, vamos conseguir resgatar minha irmã. – A alegria dela era notória, e de qualquer modo, conseguia contagiar Alessandro.

Da escotilha, apareceu Jack que, ao depositar a cabeça de fora, viu aqueles dois bem juntinhos, o que o fez torcer seu nariz. A passos largos caminhou pelo convés, esbracejando seus braços no ar ao dar as ordens habituais para o navio zarpar, visto que já não estava nenhum navio balançando nas águas da enseada. Logo depois, chegou perto de Perla, e com um gesto rápido, pediu a Alessandro para se afastar um pouco dela, para Jack poder ficar diante da princesa.

-O que mais deseja neste momento? - Ele rapidamente tirou a bússola do cinturão e, com ela ainda nas mãos, entregou-a a Perla.

-A famosa bússola, Jack. – murmurou ela num tom meigo, pegando na bússola.

-Sim, a famosa bússola...

Ao dar duas passadas com ela na mão, Perla parou perto da borda do navio, sendo seguida atentamente pelo olhar dos dois homens imóveis. Sem hesitar mais, Perla abriu-a cuidadosamente e olhou de imediato para o seu centro, onde viu uma seta rodar de um lado para o outro. Duas voltas para a esquerda, quatro para a direita, até definitivamente parar. Perla seguiu a ponta da seta com o olhar fixo, que apontava para Jack, o qual apresentava uma postura extremamente descontraída e provocadora.

-Ahhh droga de um raio! – praguejou ela sentindo suas faces corarem com aquela situação ridícula.

-E então Perla? – Alessandro viu o ar abismado da amiga, o que estranhou.

-Ahah, pois, a seta! – Perla procurou-a com o olhar e encontrou-a ainda apontando para Jack. – Ela ainda não parou. – Mentiu abanando a bússola, ao passo que a seta girava novamente. – Acho que isto está estragado.

-Se quer saber, ela trabalha lindamente. – Jack fez uma expressão de falso amuo.

A seta girava ao sabor do vento, tal e qual como os cabelos de Perla, que esvoaçavam cautelosamente no ar. Ela fechou os olhos, e concentrou sua atenção para o que era realmente importante naquele momento, a Mão de Midas, e quando finalmente abriu-os, viu que Jack estava aninhado, com os olhos postos na seta, já parada, da bússola.

-Senhor Gibbs, já temos um rumo. – comunicou Jack, sorrindo para a bússola.

XxxXxxX

-Noroeste. – informou Elizabeth, fechando a pequena bússola num movimento rápido e perspicaz.

-Então estamos indo na direcção certa. – Will, que estava com o cotovelo apoiado na cana do leme, berrou para que sua tripulação ouvisse: – Deixem o navio ir a barlavento, os ventos estão a nosso favor.

Dito aquilo, ele largou a cana do leme e, a passos lentos chegou perto de Elizabeth, abraçando-a por trás, pousando suavemente seu queixo no ombro dela. Ela quebrou sua atenção do horizonte e desviou o olhar, encontrando os do marido, ternamente. Sorriu, beijando-lhe a testa.

-Obrigada por estar se metendo nesta loucura comigo para proteger nosso filho.

-É um prazer ajudar, principalmente em assuntos que envolvam nosso filho, Sra. Turner!

-Quantas vezes vou ter de lhe pedir para me tratar por Elizabeth, Sr. Turner? – sussurrou ela delicadamente no ouvido de Will.

-Mais uma vez, Sra. Turner, como sempre. – Ele abriu um sorriso maroto, virando-a totalmente na sua direcção. – Que nome você deu ao nosso filho?

-William…- respondeu ela sem hesitar, acariciando docemente os cabelos do marido. – Ele tinha de ter o nome do pai, para saber o quanto foi um homem honrado e corajoso. Que enfrenta sem medo o lado obscuro da morte e que… – Sua voz faltou-lhe, e ela abaixou a cabeça. Will ergueu o rosto dela com a mão, e encarou os olhos castanhos dela, marejados. - Luta diariamente para poder passar mais um dia em terra, junto da sua família.

-Elizabeth… – Ele encostou-a contra seu peito. – Possivelmente esta maldição pode ser quebrada…

-Mas não há provas disso, Will. E se ela não quebrar? – retrucou numa expressão preocupada.

-Terei de encaminhar as almas por mais uns longos dez anos, só na esperança de te ver só mais um dia. –Ela afastou-se um pouco para contestar, mas ele a acalmou. – Elizabeth, mais vale um dia com você, do que uma eternidade sem te ver.

-E eu te esperarei sempre. – Will aproximou a sua testa da dela e fechou os olhos ao suspirar.

-Peço perdão por te estar subjugando a esta maldição juntamente comigo. Ela só a mim me pertence. Você é muito nova para estar desperdiçando sua juventude com isso.

-Não seja tonto Will! – Elizabeth afastou um pouco a testa da dele e encarou seus olhos castanhos. – Isso não muda o amor que eu sinto por você. O fardo não é só seu, é nosso e, juntos ou separados, vamos conseguir ultrapassá-lo.

-Mas, se esta maldição não acabar?

-Arranjaremos outro jeito. – Will fitou-a por alguns segundos, achando-a misteriosa.

-O que você está planeando, Elizabeth?

-Se essa maldição não acabar, eu vou atrás de uma solução. – Ela fez uma pausa curta para ganhar ar nos pulmões e poder continuar: - Eu vou atrás da Fonte da Juventude!

-Você só pode estar brincando...

-Não, isso é sério. Por mais que você conteste ou se zangue comigo. Isso claro, se a maldição não se quebrar. – Will apenas a encarou com ternura.

-Você é doida, mas eu te amo assim. – Ele beijou-a por fim, dando graças aos céus por ter aquela mulher ao seu lado.

XxxXxxX

A menos de uma hora do pôr-do-sol, Perla encontrava-se no castelo de proa, observando-o prestes a desaparecer na linha do horizonte, enquanto os últimos raios era reflectidos no intenso mar azul. Perto da escotilha, encontrava-se três homens cosendo o pano de uma vela rasgada, enquanto Ragetti e Pintel tentavam empurrar Mullroy abaixo das escadas. Mas no meio daquela movimentação toda, houve uma que chamou a sua atenção: o Senhor Gibbs saía da escotilha com uma garrafa de rum na mão, rumo á sala principal, onde estava o capitão. Ela rapidamente se levantou, e quando chamou o nome do primeiro imediato, ele já tinha entrado. Pensando ainda acabar a conversa com ele, Perla apressou-se até á porta, mas parou quando ouviu Senhor Gibbs se dirigir a Jack:

-Pensando no passado Jack?

Gibbs entregou a garrafa de rum ao capitão, que se encontrava com os pés sobre a mesa. Ele fez um aceno rápido para Gibbs se sentar, arrancando a rolha com os dentes e de imediato cuspiu-a.

-Na época em que nós três tínhamos cargos importantes a zelar, perante a sociedade. – ironizou Jack, levanto finalmente o gargalo á boca, deixando escorregar o liquido âmbar pela garganta abaixo.

-Nós os três! – repetiu Gibbs com um olhar nostálgico. – Na altura em que eu estava na marinha, você nas Companhias das Índias e Deanne Bonny era a rainha de Siracusa.

Perla ficou alerta ao ouvir o nome da sua mãe, colocando o ouvido junto a porta, para não perder ponta da conversa daqueles dois.

-O que não deixa de ser irónico, não é meu caro? – divulgou Jack rondando a garrafa entre seus largos dedos. – Veja aonde esses cargos importantes nos levaram… Nós viramos meros piratas, e Deanne acabou por ficar a sete palmos abaixo de terra.

-Deanne acabou por morrer nas mãos de quem foi misericordioso com ela! – Gibbs cerrou o punho batendo com ele na mesa, o que fez Jack arregalar os olhos. - Desculpe, mas cada vez que me lembro disso, dá-me uma imensa revolta.

-Isso é rancor acumulado meu amigo, isso faz mal para sua velhice. – debochou Jack com um sorriso sardónico. – Também, quem mandou você se apaixonar pela pirata?

-Não ponha as coisas desse jeito Jack. Eu não tenho culpa que Deanne tenha cruzado meu rumo na altura em que saqueou o navio em que me encontrava!

Perla apenas olhou para aposta, ainda abismada com o que tinha acabado de ouvir.

"Então quer dizer que o navio Real de Siracusa que minha mãe atacou era orientado pelo senhor Gibbs! Foi ele que a entregou" pensou ela, prestando novamente atenção á conversa.

-Não o condeno meu caro! A filha tem o mesmo dom da mãe… – Jack tirou os pés de cima da mesa e dobrou-se todo para a frente, colocando os cotovelos sobre ela. – O de enfeitiçar os homens, levando-os a um estado de insanidade que nem a velha companheira dessas horas – elevou um pouco a garrafa de rum e apontou para ela –, nos ajuda a controlar esses impulsos. Se é que me entende...

-Foi esse dom que me fez cair de encantos por aquela maravilhosa mulher, que tão bem soube persuadir os homens. Ela realmente sabia como nos envolver de tal modo com suas palavras, que eu cheguei a pensar estar louco.

-E foi por isso que a entregou de bandeja ao rei? Uma forma estranha de amar, você não acha? – contestou Jack com um sorriso cínico nos lábios, ao dar um gole rápido em sua garrafa.

-Não havia outra solução! – retorquiu Gibbs, expondo seu rosto fechado. - Eu tentei soltá-la, mas ela não quis fugir, pelo contrário, mostrou dignidade até ao fim. – Ele levantou da cadeira. – Ahh Jack, eu amei tanto aquela mulher. Deanne foi a única mulher que me envolveu de uma maneira ardilosa e é, talvez, a única que me amou pelo que eu era, desde que nossos olhos se cruzaram.

-E não se contentando com isso, tornou-se amante da rainha, seu serviçal pessoal…- Gibbs passou nervosamente a mão pela testa, á medida que procurava o cantil com a outra.

-Como você sabe? Isso era só um segredo meu e dela…

-Limitei-me a reparar nos detalhes mais do que óbvios, meu caro. – Jack fez um gesto peculiar com a mão. – Óbvios demais para falar a verdade…

Flashback

Jack entrou numa espaçosa sala, acompanhado com o guarda real da rainha, Senhor Gibbs, que logo ficou na porta, ao passo que Jack caminhava por um longo corredor até finalmente chegar ao pé da rainha. Ela estava com um majestoso vestido cor pérola, envolto numa renda sedosa. Mal viu Gibbs na porta, soltou-lhe um breve sorriso, mas logo o fechou ao reparar no homem bem aparentado, com seu cabelo curto, encimado por um pequeno chapéu que logo ele tirou ao chegar perto dela.

-Majestade, Deanne Bonny! – Jack fez uma reverência ao beijar-lhe a mão. – Ouvi muito falar da sua fama enquanto pirata. Uma mulher destacável, corajosa e filha da primeira fundadora da corte da irmandade. Bom curriculum se me permite dizê-lo…

-Senhor Jack Sparrow, fico lisonjeada com tamanhos louvores. – Ela analisou aquele garoto de apenas vinte anos. – Já ouvi falar do senhor também... Um jovem aventureiro que acabou nas garras das Companhias das Índias Orientais.

-Puros negócios, majestade. Investimentos futuristas, se preferir. – retrucou num tom mordaz. – Aliás, ouso dizer que, este emprego é sempre melhor do que estar preso num palácio, longe dos mares. – Ela o olhou de forma fulminante. – Nada contra suas opções claro, mas será que está melhor do que eu? – Deanne levantou-se repentinamente, e logo seu guarda ficou de alerta.

-Algum problema, majestade? – indagou Gibbs, analisando a situação.

-Não senhor Gibbs, está tudo bem… – Jack notou o olhar intenso que ambos trocaram, o que o fez sorrir maliciosamente.

-O cara é competente, devo admitir! – Num tom de ironia Jack desviou a sua atenção para a Gibbs. – Não se preocupe caro Gibbs, estou apenas conversando com a sua rainha. Espero que isso não estrague nossa curta amizade. – Gibbs apenas fez um aceno com a cabeça.

-Sabe Sparrow – ele maneou a cabeça em direcção á rainha. – ,começo a gostar de si. Sua mente é tudo menos a de um emproado da Companhia das Índias, e desde já dou-lhe os meus sinceros parabéns por tal carácter. – Ele fez uma pequena reverência de agradecimento antes de responder:

-E seus modos apontam tudo, menos os de uma rainha. – disse Jack, sarcasticamente.

-Não comprei meu cargo, ser é isso que está pensando. – Novamente aquela troca de olhares comprometedores entre a rainha e o guarda. – Ganhei-o em troca de uma morte certa.

-Isso é uma óptima escolha…

Naquele momento, pela porta do salão entrou uma garota de cinco anos. Jack viu ela correr, agarrada ao seu longo vestido para não tropeçar nas beiras. Ela passou a uma velocidade incrível por Jack, que a seguia apenas com o olhar, até ela abraçar a mãe, que se a acarinhou um pouco.

-Mamãe, o papai está com aquele homem horroroso, o senhor Beckett Cuttler.

-Perla, que modos são esses? – repreendeu Deanne, surpresa.

-Se me permite corrigi-la senhorita, é Cuttler Beckett, e sim, é um homem extremamente horroroso e cheio de manias esquisitas. – Perla riu juntamente com Deanne, que tentava manter sua postura.

-Ora, senhor Sparrow, como quer que eu lhe ensine boas maneiras com você dizendo disparates?

-Apenas não lhe ensine.

Fim de Flashback

-Isso não explica nada Jack…

-Claro que não, mas além do mais, você me contou. – Gibbs fez uma expressão de quem se tentar recordar desse momento. - Não se lembra? Claro que não, estava claramente bêbedo. – Ele levantou-se contornando lentamente a mesa. – A bebida apela sempre pelo lado sentimental e, naquela altura, quando a rainha estava dando á luz a primeira criança, herdeira do trono, você estava numa taverna de Siracusa se emborrachando até não aguentar mais das pernas. – Gibbs ficou incrédulo, e Jack sorriu triunfante em troca. – Lá, você desabafou as suas aventuras pecaminosas com a rainha – Ele apontou-se – Contando a história a um homem que tinha acabado de conhecer, ou melhor, um homem ao qual você tinha ficado encarregue de apresentar a cidade, visto que o seu Lord estava em tratando de uns certos negócios com o rei de Siracusa…

As coisas estavam ficando cada vez mais claras na cabeça de Perla, que ia acumulando sua fúria. Seu sangue fervilhava nas veias e suas mãos tremiam devido ao seu auto controle. Sentia raiva por aqueles dois homens não lhe terem dito aquilo mais cedo, por isso abriu a porta abruptamente, dando de caras com Jack e Gibbs que desviaram suas atenções para a porta aberta.

-Perla! – murmurou Gibbs surpreso, ao passo que deixava seu cantil cair ao chão.

Jack apenas adoptou uma expressão de quem não tem nada haver com aquilo e, num acto peculiar dele, resolveu fugir vagarosamente do suposto temporal emocional que iria tomar conta daquela sala. A passos lentos para não chamar a atenção deles, e num ar dissimulado, Jack aproveitou a troca de olhar intensos entre Perla e Gibbs para se retirar de mansinho.

-Onde você pensa que vai? – berrou Perla para Jack, não desviando o olhar de Gibbs.

-Pois, onde eu vou? – Ele procurou uma resposta rápida, enquanto rodopiava o seu dedo indicador no ar. – Ora eu vou deixar vocês falaram a sós, de certo há muitas cartas a serem jogadas na mesa. Não estou certo, doçura? – sussurrou, fazendo uma vénia teatral e saindo rapidamente da sala principal fechando a porta.

-Eu podia esperar uma traição de todos, menos de você. – começou ela, mostrando sua decepção exposta na sua voz trémula. – Como pôde-me enganar? Eu confiei em si senhor Gibbs.

-Perla, as coisas não são tão radicais assim… – Tentou Gibbs, embaraçado com a situação.

-Por que não me contou isso tudo na altura em que eu estava falando de minha mãe? – Perla fez um movimento com as mãos, pedindo sinceridade.

-Falta de coragem talvez. – explicou ele num ar desgostoso por falar do passado com Perla. – Para não ver em seus olhos a raiva que tão vivamente cegam seu brilho.

-Estou rodeada de piratas calculistas e mentirosos… – grunhiu num tom de desprezo, colocando sua mão sobre a porta, pousando sua testa no braço erguido.

-Não tire conclusões precipitadas, minha jovem. – Ela o olhou atentamente. - Me deixe explicar, pelo menos. – Num gesto impaciente, Perla permitiu que Gibbs continuasse: – Sim, eu fui apaixonado pela sua mãe! Cai na graça dela durante a viagem que a levava para Siracusa para uma morte certa. E sim, ela inexplicavelmente correspondia aquilo que eu sentia.

Ele deu duas passadas até á janela, cruzando os braços atrás. De costas viradas para Perla, Gibbs apreciava a lua quarto crescente, buscando as palavras exactas para não a desapontar. Ela apenas permanecia imóvel, sem reacção possível, observando cada movimento mínimo dele, curiosa com o continuar daquela história.

-E depois… – Ao ouvir a voz dela, ele maneou um pouco o olhar em sua direcção.

-Embora fosse proibido sentir aquilo, cada dia que passava nossos sentimentos floresciam sem piedade. E, quando cheguei a Siracusa, amaldiçoei-me pelo facto de me ter apaixonado por uma pirata que tinha seu destino finalizado na corda grossa da forca. – Gibbs virou-se para ela, encarando o olhar calmo da jovem. – A salvação de sua mãe, como você bem sabe, foi o Rei ter-se enfeitiçado por aqueles olhos esmeralda! Desde logo propôs-lhe um acordo: se ela casasse com ele, esquecesse o mar e a sua vida como pirata, a livraria da forca. Apesar daquela mulher ter sangue de guerreira, Deanne aceitou o pedido.

-E vocês deixaram-se de se encontrar? – Perla sentou-se então na cadeira ali perto.

-Nem por um segundo. O Rei naquela época viajava muito devido ás prósperas negociações com a Companhia das Índias Orientais, que estavam rendendo bem para Siracusa. - Ele soltou um sorriso malandro, ao sentir-se mais descontraído – Aproveita-mos assim a ausência do rei para nos encontramos secretamente. – Ele tomou uma expressão séria. – Até hoje agradeço o facto dela ter aceitado aquela maldita proposta do rei, pois nos proporcionou momentos maravilhosos.

-No leito Real suponho. – ironizou Perla.

-Se quer saber, nossos encontros no leito real só duraram até você nascer. Com o nascimento da primeira herdeira, ou seja você, o rei ficou mais presente, querendo acompanhar de perto o desenvolvimento da sua pequena princesa. Depois disso, nossos encontros amorosos não passaram de beijos e carícias, longe das vistas do rei e de seus súbditos. – explicou Gibbs, passando atrapalhadamente a mão cabeça.

-E onde Jack entra nessa história, Senhor Gibbs?

-Jack era um jovem capitão do WickedWench. Muitas vezes ele veio até Siracusa, como representante de Cutler Beckett. Desde sua primeira visita a Siracusa nós formamos uma grande amizade, embora ele fosse daquele género de garoto sinistro, alegre e nada modesto, se é que me entende.

-Ainda hoje ele é assim. – disse Perla soltando um sorriso franco, querendo voltar ao ponto da conversa. – A fuga de minha mãe tem alguma coisa haver consigo?

Gibbs encurtou então a distância entre ambos e aninhou-se perante Perla, para que o seu rosto ficasse ligeiramente acima do dele, e agarrou-lhe as mãos fixando o olhar da princesa. Perla, apesar de mais calma, fitou o olhar perturbado daquele homem que estava expondo seu passado sem receio algum.

-Nós tínhamos planeado fugir, e sim, foi nessa fuga mal sucedida que Deanne foi alvejada. Logo após a sua morte, eu resolvi partir de Siracusa, pronto a enterrar definitivamente o meu passado. Os mares me levaram até Londres, onde de imediato parti para Port Royal com o governador Swann. – Ele baixou a cabeça e bufou ao fechar os olhos. – Sua mãe foi uma guerreira até ao fim, lutou pelos seus ideais, tal e qual como você está fazendo agora.

Perla continuava tremendo, não devido aos nervos, mas sim por causa da história que tinha acabado de escutar. Seu coração batia apressadamente, chegando a sentir um aperto dentro do peito provocado pelos remorsos de ter tratado Gibbs daquela maneira. Sentia pena do homem que estava diante de si, com aquele olhar terno e esmaecido, tentando esconder o sofrimento que aquele assunto lhe causava. Perla inspirou com alguma dificuldade ao pensar naquilo. Apesar de seu pai ter sido traído bem debaixo das suas barbas, ela não conseguia sentir raiva de Gibbs, nem de sua mãe, que apenas seguiu seu coração, embora a história de ambos não tenha tido um fim digno para aquelas pobres almas. Ao contrário, Perla sentia-se cúmplice daquela história que tinha sido-lhe ocultada durante anos. Ela por fim, olhou-o com respeito.

-Eu não sabia... – Com a mão, Perla ergueu suavemente a cabeça dele. – Sempre pensei que minha mãe tinha tentado fugir para voltar a navegar nesses mares.

-Esse foi também um factor de grande peso na sua decisão. - afirmou Gibbs, relaxando com aquele tom sereno dela. - Por um lado, ela tinha as filhas que tanto amava, por outro, tinha o mar que tanto apelava por ela. Deanne sabia que vocês ficariam em boas mãos se ficassem em Siracusa, por isso, resolveu arriscar e partir comigo. O resto você já sabe…

-Peço perdão pelo meu atrevimento, eu senti-me enganada.

-Não a condeno, minha princesa! Eu já devia ter contado isto mais cedo a você, me perdoe os erros de um pobre diabo cansado pela idade.

Gibbs apoiou-se então no joelho direito para se levantar, encontrando finalmente o olhar esmeralda vivo dela, que marejava de emoção. Num impulso, Perla elevou-se da cadeira, e sem ele contar, ela o abraçou chorando pequenas gotículas de água acumulada que deslizavam livremente sobre o rosto liso da jovem. Gibbs soltou um sorriso de alívio por aquele significativo gesto dela, e retribuiu carinhosamente o abraço sem hesitar, acariciando o cabelo encaracolado da princesa.

E aqui está mais um novo capítulo prontinho para vocês. Devo confessar que, para mim este é um capítulo especial, pois fala um pouco da história de um dos personagens mais queridos do filme, senhor Gibbs. Como eu adoro ele, decidi fazer-lhe uma pequena homenagem com este capítulo.

Gente, não sei quando volto a postar novamente pois vou ter teste brevemente, tenho que marrar pois os testes da Professora Georgina não são fáceis rsrsrs. Volto a postar daqui a um ou duas semanas.

Obrigada novamente a Roxane, Dorinha, Fini Felton, Likha Sparrow, Jane e Bruno pelas reviews fofas mandadas, adorei cada uma delas. Agradeço de coração :)

Próximo capitulo " Doces Delírios"

Bjokas grandes e fikem bem

Taty Black