Capitulo 18 – Intercepção inesperada.
Estella acordou estremunhada, reparando que o sol já estava alto. Ela notou que Silver já não se encontrava nos aposentos, mas o lado de sua cama ainda estava morno. Rapidamente, ela pegou seu vestido, que estava caído no chão e o vestiu sem mais demora, reparando, que aquele mapa estranho, ainda estava estendido sobre a mesa. Novamente teve curiosidade de se aproximar dele, entretanto, receou que Silver voltasse a lhe repreender por isso. Mesmo assim, Estella foi-se aproximando lentamente da mesa, sempre com especial atenção á porta, mas logo deu dois passos para trás ao ver a maçaneta rodar e a porta abrir-se.
Silver apareceu com o lanche na mão, estranhando ela estar com um ar preocupado. Com a sobrancelha arqueada, posou a bandeja sobre a mesa, e pegou no mapa olhando-a de esguelha.
-Não estava pensando roubá-lo, pois não?
-Por quem me toma? – advertiu ela séria, ao tempo que sua respiração ficava folgada.
-Seus olhos de cobiça a traem majestade. – ironizou Silver enrolando o mapa na mão. – E, honestamente,
espero que afaste essa ideia inútil da cabeça.
-Eu tenho princípios, pelos quais zelo. Não sou como você. – Estella olhou-o irritada. – E se quer saber, eu só estava curiosa por nunca ter postos os olhos num mapa igual a esse...
-E vai continuar curiosa… - interveio ele, guardando o mapa de volta na arca, empurrando-a com o pé para o fundo da mesa.
Irritada com aquela situação, Estella bufou para se conter. Em passos firmes, ela aproximou-se de Silver ficando cara a cara com ele, o que o fez olhar para todos os lados, estranhando tal atitude.
-Como posso ser tão ingénua de acreditar que você quer compartilhar uma vida comigo se, a toda a hora, me esconde segredos?
-Eu não sou um idiota ao ponto de te contar todos os meus segredos para depois você fugir e contar a quem quiser ouvir. – Silver encarou seus doces olhos cor de mel – Se quer compartilhar uma vida comigo, tem de ser sobre esta forma.
-Você me conhece tão mal Silver. - aprovou Estella num desabafo. – Pensei que, pelo menos, aqueles tempos, lá no palácio, tivessem servido para alguma coisa, mas vejo que foi uma pura perda de tempo.
Ela colocou uma mão na cintura, passando a outra pela testa, expressando um rosto cansado. No entanto, logo sentiu a mão forte dele posar perto da sua, puxando-a pela cintura contra si.
-Quer saber um dos meus inúmeros segredos? – murmurou ele, acariciando os cabelos ondulados dela. – Você é uma das minhas fraquezas. Acalma o meu temperamento ruim, fazendo eu mesmo desconhecer o homem que sou. Você me torna melhor... – ela o fitou admirada.
-Mas seu plano era receber a Mão de Midas e casar com minha irmã…
-Só iria casar com sua irmã por causa do reino, mas a Mão de Midas me dará o sucesso merecido.
-Você confessa isso descaradamente e eu ainda consigo cair na sua lábia, como consegue? – Ele sorriu desdenhoso, adoptando um ar maroto.
-Isso é mais um dos meus segredos, meu bem… - Silver beijou-a de surpresa, cortando a respiração á garota, que lhe correspondeu sem demora.
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No Pérola Negra, bem pela manhã, a tripulação encontrava-se descontraída pelo convés. Onde uns dormiam, outros jogavam cartas, e por fim, num canto, havia um grupo que falava sobre os mais variados assuntos. Nesse grupo estavam presentes: Mullroy, Murtogg, Pintel, Marty e Ragetti, que cochichavam animadamente.
-Vocês já notaram que, sempre que este navio tem uma presença feminina, o capitão nunca ataca? – perguntou Ragetti descontraidamente, vendo as quatro cabeças virarem em sua direcção.
-O que você quer dizer propriamente com isso? – Murtogg coçava sua cara gorda.
-Ora vocês sabem, aquele tipo de necessidades carnais de homem …
-Como sabe se o capitão "atacou" ou não a princesa? – interpelou Pintel, sorrindo maliciosamente.
-Acho que se tivesse "atacado" a princesa, o comodoro já saberia, e aí, não haveria navio para contar história.
-E desde quando o capitão se importa com esse tipo de coisas? – corrigiu Marty sorrindo sorrateiramente. – Ele nunca deixou escapar um bom rabo de saias.
-De facto deve haver uma boa razão…
-Sim, porque Perla não é nada de se deitar fora.
Gibbs que se encontrava ali perto, ficou irritado com o tema daquela despropositada conversa, e com passadas pesadas, aproximou-se daquele bando de homens.
-A princesa Perla, – acentuou num tom ríspido. - da qual vocês estão falando, é uma mulher de princípios. Não cai no conto de qualquer pirata, para não falar que ela respeita os sentimentos do comodoro. Jack sabe que ela terá de voltar para o seu reino assim que esta aventura acabe. Como ele não quer saborear a fúria de um rei contrariado, nem da guarda marinha de Siracusa, Jack prefere deixar as coisas como estão. – Ele respirou fundo, encarando aqueles cinco mandriões. – Agora ao serviço. – rosnou ele, afastando-se.
-Eu disse que havia uma boa razão. – rebateu Mullroy dando de ombros.
Gibbs aproximou-se de Alessandro, que mantinha-se perto da proa com um olhar sereno, e observava a tranquila manhã que estava envolvida num nevoeiro frio fora do normal. Ele mantinha seu olhar cabisbaixo ao tempo que Gibbs se colocava ao seu lado.
-Você está bem garoto? – perguntou Gibbs mostrando sua preocupação.
-Sim, na medida do possível…
-Eu sinto muito por tudo o que se está passando entre você e Perla. – Alessandro o encarou duvidoso. – Você é um bom garoto, de certo, quando esta viagem acabar, ela verá que fez a escolha errada.
-Ela está iludida, Sr. Gibbs. – proferiu Alex suspirando pausadamente. – Esta sempre foi a vida que Perla pediu a Deus, e está entusiasmada pelas descobertas que tem feito, esquecendo um pouco o reino que a espera…
-Deixe-a desfrutar essas pequenas coisas, e aproveite também. De certo nunca viajou além de Siracusa, muito menos na companhia de piratas. – Gibbs soltou um sorriso agradável, que foi retribuído pelo comodoro.
-Posso dizer que esta viagem ficará marcada para o resto das nossas vidas. – Ele fitou a escotilha ao perceber a presença feminina saia por ela, com o seu habitual sorriso.
-Bom dia. – saudou ela, ao ver Alessandro e Gibbs ali perto.
-Bom dia princesa, dormiu bem? – Ela apenas assentiu suavemente com a cabeça.
-E Jack?
-Quando saí dos aposentos, ele ainda ressonava na rede. Também para o que ele bebeu ontem, o certo é dormir durante uma semana inteira. – Gibbs fez uma pequena reverência e se retirou, deixando-os sozinhos. – Alessandro, me desculpe não lhe ter dado atenção suficiente durante esta viagem. – Perla baixou a cabeça. – Apesar de tudo, nós continuamos sendo os melhores amigos.
-Já que não lhe posso considerar mais do que isso sim, ainda continuamos sendo os melhores amigos. – retrucou Alessandro continuando com aquele ar calmo o que fez ela sentir-se mal com aquelas palavras.
-Eu lamento todo este tormento Alex, como eu gostava que as coisas tivessem sido diferentes. – Com um gesto rápido, ela ergueu a cabeça não tendo coragem de o encarar.
-Não há que lamentar o que não se pode ser evitado. – Ele a fitou finalmente, vendo-a olhando o mar. - Apesar de te amar, eu suportarei estar a seu lado sem te tocar, com a única condição de ser apenas seu amigo e ouvinte. – Ela virou-se para ele na intenção de retrucar, mas Alex colocou a mão sobre sua boca, impedindo-a. – Eu daria um ano de minha vida só para continuar vendo esse lindo sorriso exposto no seu rosto por muito tempo. Desde que você seja feliz, para mim nada tem mais importância. Nunca se esqueça disso.
-Alex, eu te adoro tanto. – Ela abraçou-o comovida, deixando escapar uma lágrima. – Mas por amor da virgem de Guadalupe, não fale assim, me assusta. Parece que está se despedindo de mim.
-Nunca se sabe o dia de amanhã, minha princesa.
Ele a apertou com força ao acentuar a última frase, como se tivesse certeza que aquele seria o último abraço que lhe dava. Como se nunca mais fosse sentir o corpo dela contra o seu, e inalar aquele suave perfume que o fazia perder toda a sua sanidade. Naquele momento, Perla teve a certeza que ninguém a iria amar como Alessandro, e isso magoava-a profundamente, pelo simples facto de não lhe poder corresponder.
Jack, ainda meio ensonado e com o efeito do álcool sobre suas pernas, saiu da escotilha com os olhos semicerrados. Ao chegar ao convés superior, ele parou ao presenciar novamente aquela cena do abraço, arregalando os olhos e inclinando um pouco a cabeça para a frente para observar melhor, e achando tudo meio desfocado, acabou por esfregar os olhos. Vendo que aquilo não era fruto da sua ilusão, muito menos os efeitos secundários do álcool, Jack ergueu as mãos e rodopiou-as no ar.
-Ora há algum motivo para grandes comemorações e, como sempre, ninguém me avisou? – Alessandro e Perla se descolaram repentinamente, vendo o capitão parado diante deles com um sorriso mordaz.
-Absolutamente nenhum, Sr. Sparrow. – rebateu Alessandro num tom firme.
-Logo vi. – murmurou desconfiado, vendo Perla olhar o chão com uma expressão embaraçada. – Sr. Gibbs…
-Não me vai mandar prender outra vez, pois não? – indagou Alessandro, fazendo um rosto espavorido.
-Deixe de se dar tanta importância Comodoro, há coisas mais urgentes para se tratar. – Gibbs chegou por fim, analisando a expressão de cada rosto, até Jack lhe falar: – As velas deviam estar postas para sotavento, assim como todos estes mandriões deviam estar se mexendo. Este navio não está dando seus limites, Sr. Gibbs, e eu desejava chegar a essa ilha o mais depressa possível, savvy?
-Certo capitão, é para já. – Gibbs rodou seu corpo para a direcção da tripulação, rosnando: – Ouviram bem seus cães sarnentos, mudem as velas de direcção. – Houve um tumulto de gente se movimentando de um lado para o outro, no qual se incluía Alessandro, em busca das cordas para manearem as velas.
-Será que falta muito para chegarmos? – questionou Perla, olhando para o horizonte.
-Como diz o capitão Barbossa, temos de estar perdidos para achar o que queremos. – disse Gibbs vendo Perla tirar de seu cinturão a bússola, abrindo-a.
-Estamos na direcção certa, a seta ainda continua apontando para sudoeste. – Perla voltou a guardar a bússola com medo que ela voltasse a apontar para um certo capitão.
-Em breve iremos conhecer alguém que nos aguarda uma agradável recepção. – O olhar de Jack recaiu sobre a distraída Perla, que percebeu a quem ele estava se referindo. – Não é darling?
-Nós saberemos tratar dessa recepção, eu tenho certeza. Além do mais, você é o capitão Jack Sparrow, de certo nem uma Deusa lhe resistirá. – Jack rodopiou a ponta de seu bigode para cima, expondo seu sorriso convencido.
-Não duvide disso, feiticeira. – Num tom de provocação, Jack a fitou com escárnio.
-Eu lhe mostro a feiticeira, Sr. Sparrow. – Ela sorriu marotamente, aproximou-se dele mordendo o lábio inferior ao observar os dele. – Mas agora não, temos um curso para percorrer, se queremos chegar ao nosso destino.
-Ohh Bugger. – praguejou ele apertando as mãos, rodando os calcanhares para ir até ao leme.
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Já no navio Adriatic Sea, enquanto Estella apanhava um pouco de ar no alvoraçado convés, Silver maneava o leme descontraidamente, observando de vez a vez a garota, que se encontrava encostada a um canhão, enrolada num de seus casacos, olhando para o infinito. Ele soltou um discreto sorriso, voltando a olhar para o horizonte, mas sua atenção foi cortada quando do cesto da gávea alguém berrou para chamar sua atenção.
-Capitão! Aproximam-se vários navios vindos da retaguarda. – Pewal pegou numa corda e desceu até ao chão, correndo em direcção ao castelo de popa. – E quem vem a comandar a frota é o Holandês Voador.
-Ora. ora, com que então decidiram me fazer uma visitinha de última hora? – ironizou ele, passando sua mão lentamente pelos seus cabelos e olhando para Estella que estava de alerta.
-Preparamos para atacar, capitão? – inquiriu Pewal atrapalhado.
-Claro que não, seu inútil! – Silver deu duas passadas para a frente observando as várias manchas aparecerem no meio do nevoeiro. – Esperaremos para ver a que devo tamanho prazer. Além disso, eles podem trazer-me alguma novidade sobre a Mão de Midas.
-Mas meu capitão, e se eles não vierem com esse propósito? – averiguou Sr. Jochem boquiaberto com a tranquilidade que Silver transmitia.
-Caso isso aconteça, teremos de tratar as coisas do modo tradicional. – Ele passou a mão pelo cabo da espada, fazendo Pewal e Sr. Jochem perceberem.
-Algum problema? – Estella aproximou-se finalmente dos três homens, vendo a inquietação dos dois marujos.
-Nenhum! Estava esclarecendo alguns pontos aqui aos meus marujos. – Ele colocou o braço sobre os ombros de Estella e tentou afastá-la dali.
-Você está tranquilo porque tem a vida eterna, mas se algo correr mal, somos nós que pagamos com nossas vidas. – provocou Pewal indo atrás do capitão.
-E se você quiser viver durante mais algumas horas… – Silver desembainhou a espada e apontou-a para a garganta de Pewal – É melhor se calar e se manter no seu lugar, seu verme imundo.
-Silver, não... – intercedeu Estella, colocando sua mão sobre o braço dele. – Por favor – Silver olhou de Estella para o jovem marujo, que engolia em seco ao sentir a espada afiada na sua garganta, mas logo suspirou ao ver Silver guardar a espada.
-Abrandem a velocidade e tratem de avisar os outros navios para não atacar. – ordenou Silver num tom ríspido, voltando-se para Estella. – E quanto a você, nunca mais me desconsidere em frente á minha tripulação. – Estella permaneceu em silêncio indignada. – Vá para a sua cela. Lá será um local seguro caso aconteça alguma coisa, e não sai de lá até eu mandar, entendeu? – Estella abanou afirmativamente com a cabeça, preocupada com o que poderia acontecer. – Agora vá.
Ela fitou preocupadamente Silver, que fez um gesto rápido com a mão para a tranquilizar. Por uma última vez, Estella olhou o convés e ganhando coragem para mover suas pernas, ela correu para a sua cela, onde sentou-se num canto. Encolhendo suas pernas, juntou seu queixo aos joelhos, e abraçou-os desajeitadamente, abanando seu corpo ao tempo que tentava se distrair daquele medo, com a velha canção:
-Nós somos parte de uma história / Parte de um conto / Às vezes bonito e às vezes insano / Ninguém se lembra como começou...
Nunca tinha passado por uma situação daquelas, por isso sentia-se aterrorizada pelo facto de não saber o que ia acontecer caso fossem atacados. A tranquilidade de Silver preocupava Estella, que o via tão confiante, o pior era se as coisas não corressem como esperado. Ela suspirou tremulamente. Infelizmente teria de se habituar aquela vida de pirata caso quisesse compartilhar sua vida com Silver, e a vida dele era feita disso: pilhagens, ataques, matança, adrenalina. Coisas que ela não sabia se estava disposta a passar.
-Minha virgem de Guadalupe, me ajude neste sufoco. Faça com que eu tome o rumo certo, e que minha consciência fique tranquila com tal… – rezava ela baixinho, enquanto seu estômago volteava sem fim.
Com o passar do tempo, a distância entre o Holandês e o Adriatic Sea ia se encurtando, ao passo que Silver permanecia firmemente no castelo de popa, avaliando a proximidade do navio adversário, enquanto Will se mantinha no castelo de proa, observando cada movimento que pudesse prever um ataque vindo de qualquer navio de Silver.
-Está tudo muito sossegado. – concluiu Elizabeth olhando á sua frente, vendo que ninguém reagia com a proximidade.
-Sossegado demais para meu gosto. – Barbossa levou novamente a luneta ao seu olho, vendo Silver no tombadilho do castelo de popa, de braços cruzados. – Aposto que se uma mosca lhe passasse na frente e lhe pousasse no nariz, ele nem pestanejava.
-Logo veremos o motivo de tanta tranquilidade…
-Entretanto, eu vou me preparar para entrar no navio sem ser vista. – Preocupado, Will meneou rapidamente a cabeça para Elizabeth, que aparava seus cabelos da frente dos olhos. – Só preciso que o distraiam por alguns minutos e logo terei as Cartas na minha mão.
-Você me assusta, sabia…
-Vá se acostumando, não se esqueça que casou com uma pirata. – disse num tom debochado, dando um beijo em Will, que foi apanhado de surpresa. – Não se preocupe, eu logo terei as Cartas.
-E como pensa entrar sem ser vista, Capitã Turner? – Barbossa chegou perto dos dois jovens, num passo robusto.
-Entrarei pelas janelas dos canhões! Peço que desçam um bote até ao nível da janela do canhão deste navio, assim a travessia será fácil. – Ela viu Barbossa sorrir desdenhosamente, percebendo o plano dela. – Agora, vou até lá em baixo preparar minha entrada, e tentem empatá-lo o mais tempo possível, quando eu tiver pronta irei ter com vocês no convés do navio de Silver. – Elizabeth virou-se para ir até à porta do porão, mas sentiu uma mão agarrá-la
-Boa sorte, Sra. Turner. – Will olhou-a com carinho, e logo a beijou apaixonadamente, ao tempo que ela retribuía e Barbossa revirava os olhos.
-O amor, coisa mais patética. – Ele deu duas passadas para a frente e olhou para o macaco que tinha como expressão um focinho duvidoso. – O que é? É verdade… – Ele olhou sorrateiramente para o casal. – Até que não deve ser mau ter uma companheira. – O macaco deu um pulo, como quem tenta afirmar aquilo, que foi acompanhado pelo olhar confuso do velho. – Chego á conclusão que você consegue ser pior que Jack Sparrow! – dito aquilo, caminhou novamente para fora dali, ordenando para os marujos: – Baixem um bote até ao nível da janela dos canhões, seus cães sarnentos!
Finalmente, quando os navios ficaram paralelos um ao outro, Silver sorriu dissimuladamente. Do Holandês Voador foi lançada uma tábua, que permitisse a passagem dos marujos para o Adriatic Sea. Silver desceu do Castelo de popa em passadas lentas até ao convés, para poder esperar os seus inesperados visitantes, que batiam agora com as suas solas das botas no chão daquela madeira acinzentada. Will, Barbossa e Bill foram os únicos a passar, enquanto, do outro navio a tripulação permanecia junto á amurada, atentos aos movimentos dos marujos de Silver. Will e ele se observaram atentamente, com os lábios fechados numa linha, cada um com a mão no cabo da espada.
-Estou abismado! Não é todos os dias que temos a visita do capitão do Holandês Voador. – Silver soltou um falso sorriso. – Como conseguiu voltar ao mundo dos vivos? Pensei que tivesse encaminhando as almas dos que morrem no mar para o outro lado, o que me lembra, que contribuí muito para que tivesse sempre trabalho... Pode considerar um presente meu. – Will permaneceu calado ás provocações de Silver, que olhou para os navios dos Lords. – Suponho que foram eles que apelaram por sua ajuda. – Ele riu cínico. – Isso só me faz crer que continuam uma cambada de incompetentes.
-Viemos fazer uma pequena barganha com você, Silver. – Silver lançou um olhar de interesse para Will, que permanecia firmemente. – E confesso que nenhum dos dois ficará a perder.
-Mal posso esperar para ouvir…
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Elizabeth, que ainda permanecia no convés inferior do Holandês Voador, arrastava o canhão para o lado, de forma a lhe dar passagem pela minúscula janela, mas em antes, concentrou a distância entre os dois navios para ver se aquela ideia do bote iria resultar. Confiante que tudo iria correr bem, Elizabeth passou por fim pela janelinha e saltou para cima do bote. Ao sentir o pequeno barco a remos balançar um pouco, ela olhou ao seu redor querendo ter a certeza que não tinha chamado a atenção de ninguém. Notando que estava tudo calmo, ela começou por balançar o bote contra o costado do navio adversário, até poder agarrar na janelinha do Adriatic. Após várias tentativas, Elizabeth conseguiu se agarrar ao peitoril do navio, empurrou um pouco o canhão para o lado e passou.
O convés inferior do Adriatic estava vazio, supostamente por estarem todos lá em cima, recebendo as imprevisíveis "visitas", o que de certa forma, fez Elizabeth suspirar aliviada. Ela agarrou a coronha da pistola, prevenindo-se de qualquer improviso que surgisse à sua frente e caminhou cautelosamente. Reparando que o caminho estava livre, Elizabeth tirou a bússola e abriu-a sem hesitar, vendo-a a apontar para o sul, onde estava localizado os aposentos de Silver. Silenciosamente, ela apressou-se até aos aposentos de Black Dog, que estava todo bagunçado por sinal, o que levou Elizabeth a pensar que ia ser difícil achar alguma coisa lá.
Lá dentro, a bússola tomou uma nova orientação, apontando para a mesa ali presente. Elizabeth sorriu gloriosa, correndo até ela, mas seu sorriso desapareceu por breves instantes ao ver o monte de papelada em cima da mesa. Não desanimando, ela procurou as Cartas por entre aquele amontoamento de papéis desusados, mas nada achou. Desesperada por ver que a bússola continuava apontando para a mesa, ela suspirou, passando a mão pelo rosto. Apalpou então por debaixo do tampo da mesa, vendo se havia algo fora do normal, só que não achou nada. Por momentos, concentrou sua atenção na bússola, julgando estar errada.
-Mas que raio! Já procurei em cima e em baixo da mesa e não encontro nada. – ela sentou-se na cama para analisar de longe a mesa, até se aperceber que, debaixo dela, havia uma velha arca de madeira. – Só se…
Da cama, ela deslizou até ao chão, onde se aninhou para arrastar a arca para a sua frente. Abrindo novamente um grandioso sorriso, Elizabeth abriu a arca cheia de expectativa. Lá, em cima de um monte de farrapos e roupas envelhecidas pelo tempo, estava finalmente aquilo que Elizabeth tanto tinha procurado. Contente, ela pegou as Cartas e desatou o fio, desenrolando-as lentamente para verificar se realmente as verdadeiras. Ao confirmar sua suposição, ela voltou a enrolá-las e apertou-as com força sobre suas mãos.
-As Cartas de Navegação. - Sem conseguir pensar em mais nada, ela ergueu-se e guardou-as na sua larga bota, para que ninguém a visse. – Muito bem, agora é só despachar o Black Dog e partir novamente. – Ela fechou a arca, voltou a pô-la no sítio e saiu apressadamente.
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-Nós queremos as cartas de navegação. – informou Barbossa, que permanecia de braços cruzados.
-As cartas de navegação? – Silver colocou a mão no queixo, como quem pensa um assunto sério. – E o que eu ganho em troca? Espero que seja algo equiparado ao valor delas, suponho... – Will e Barbossa entreolhando-se, procurando uma resposta plausível, para que Silver não suspeitasse de nada.
-A Corte lhe oferecerá o perdão pelas várias regras do Código Pirata quebradas. Poderá andar livremente pelos sete mares, sem ter a preocupação de alguém te querer capturar. – contrapôs Bill Turner, vendo as duas cabeças perplexas de Will e Barbossa se direccionarem para ele.– O que me diz, mate?
-Posso até considerar uma barganha interessante, isto se eu tivesse de acordo, claro… – Will lançou um olhar cerrado a Silver, que apenas soltou um ligeiro sorriso pelo canto da boca.
-E porque não aceita? Todos sairiam a ganhar, como disse o Will. – Barbossa já se mostrava impaciente, apertando o seu punho disfarçadamente.
-Sinceramente, eu só vejo desvantagens para mim, meu caro. Sabe porquê? Porque vocês querem me trapacear, ou acham que eu sou burro? – Ele soltou uma gargalhada. – Sei muito bem que querem as Cartas de Navegação de Sao Feng para procurarem algo que me derrube. Entretanto, me acenam com a possibilidade de andar por aí, pensando estar livre, até vocês me bombardearem outra vez, com o firme propósito de me matarem. Quanta simpatia vossa, se me permitem dizê-lo. - Will, Bill e Barbossa trocaram olhares irrequietos.
-De facto, você não deixa de me surpreender a cada instante, Silver. Realmente, sua minúscula cabeça não serve apenas para usar uma ridícula bandana. – A voz feminina ressoou da escotilha á medida que ia subindo.
-Mas o que você faz aí? – Ele olhou para os seus marujos com ar selvagem, por estes não estarem vigiando o navio por completo.
-Pensei que fosse um pouco mais esperto, Black Dog. – Ela fez uma expressão de falsa desilusão. - Fui procurar algo que pertence á Corte da Irmandade, mas como não achei, desisti de fazê-lo – Elizabeth deu ombros descontraidamente, ficando cara a cara com Silver. - Parabéns, você escondeu muito bem as Cartas de Navegação. O que de todo modo, é deveras aborrecido. – Os membros do Holandês não estavam entendendo nada.
-Eu recebo-os de braços abertos e vocês abusam da minha hospitalidade? – Furiosa com aquele fundamento, ela colocou o dedo indicador quase colado no rosto dele, deixando trespassar sua raiva.
-Foi você que abusou da hospitalidade da Corte, Lord Silver, ou se esqueceu, canalha? Depois que seu pai morrer, tornou-se um jovem pirata rebelde, quebrando o código por várias vezes. Nos ameaçando de morte, e ainda conseguiu fugir porque aquele bando de traidores o ajudaram. – Ela apontou para um bando de piratas que rosnava para ela. – E depois, somos nós que abusamos da sua hospitalidade?
-Não me arrependo de nada do que fiz, e se quer saber, faria tudo de novo…- retrucou com o ar mais dissimulado possível, o que irritou ainda mais Elizabeth.
-Pois eu faria tudo de novo também, mas mais cedo meu caro. – Ela o fuzilou com o olhar, mas Silver permaneceu indiferente. – Teria procurado as cartas mais cedo só para ter o gosto de te matar.
-Agora é você que está se esquecendo de um pormenor importante. Você está no meu navio, e por sinal na mísera condição de mortal, por isso, quem te vai matar sou seu, e pode contar que não será a única a morrer…
Ao ver Silver tirar sua espada da bainha, Will antecipou-se e desembainhou a sua num movimento rápido, colocando-se a frente de Elizabeth para aparar o golpe certeiro da espada inimiga. Todos permaneceram imóveis ao vê-las sustentadas no ar, sem movimento prévio para que lugar ia tombar. A tensão do momento era seguida, enquanto os capitães mediam forças com suas espadas, fuzilando-se apenas com olhares. Bill afastou Elizabeth daquela briga, fazendo um movimento lento para a tripulação do Adriatic Sea que estava pronta a atacar.
-Vamos a eles, Sr. Turner.
-Aye, Capitã. – Concordou com um sorriso cedente.
-Pensa que me vai vencer, William Turner? – provocou Silver, rindo que nem louco.
-Estamos em pé de igualdade, caro Vallenueva. Caso tenha reparado, eu não tenho coração por conseguinte não posso ser morto tão facilmente. – retrucou Will triunfante, dando um encontrão a Silver, que o olhou enraivecido em troca.
Ao ganhar novamente equilíbrio, Silver atacou ferozmente Will, que se defendeu do golpe esquerdino dele. Agora aço batia contra aço sem a menor brandura, o que levava aos dois a exibirem um perfeito jogo de passos, que foi acompanhado pelo som dos rugidos ferozes dos tripulantes.
Aquele arrufo entre os dois capitães foi o rastilho de pólvora para que toda a tripulação do Holandês Voador atacasse a do Adriatic Sea, saltando para o navio, começando uma pequena batalha. Elizabeth defendia-se de um dos marujos, que pertencia ao bando de traidores que tinha ajudado Silver a fugir. Ela usava golpes de direita para esquerda, e o marujo, que tão bem maneava a espada, acabou por a deixar voar, o que fez Elizabeth trespassar a espada pela barriga do adversário. Já Barbossa, com um sorriso soberbo, combatia com dois marujos, simultaneamente.
-Venham seus cães sarnentos, hoje é um bom dia para se morrer. – dito aquilo, riu-se animadamente, dando um golpe certeiro num de seus adversários, e fitou alegremente o outro. – Como dizia um velho amigo meu, você teme a morte? – O marujo saiu daquele sitio correndo, berrando com todo o som que suas goelas permitiam.
-Capitão, estamos lutando com uma tripulação amaldiçoada, estes imundos não morrem. – berrou Sr. Jochem, que tinha acabado de dar um golpe eficaz no coração de Bill, que retirara a lâmina de si como se nada o tivesse ferido.
-Depois de me tentar matar, o que planeava fazer? – Bill cravou a espada no estômago do velho homem, que desabou de olhos bem abertos no chão
-Continuem lutando, meus imbecis. – incentivou Silver baixando-se para se desviar da espada de Will.
Elizabeth observou que os outros navios de Silver tinham atacado os navios dos Lords piratas, onde se ouvia tiros de canhões soarem por todas as partes. Apercebendo-se da desnecessidade do sucessivo, ela tentou sorrateiramente chegar perto de Will, tentando chamar sua atenção sem Silver se aperceber
-Will, vamos nos retirar, já temos o que precisamos. – murmurou ela, conseguindo alcançar por breves instantes o ouvido do seu marido, que anuiu, retrucando um golpe furtivo de Silver.
-Bater retirada! – berrou Will dando por fim um pontapé a Silver que caiu redondo no chão, tendo assim tempo para escapar.
Embora ainda o convés do Adriatic Sea continuasse num tumulto, os marujos do Holandês Voador corriam para as cordas de abordagem, ao tempo que outros atravessavam a tábua que dava para o seu navio. Elizabeth e Barbossa foram um dos únicos que ficaram para tentar dar tempo para que a tripulação evacuasse toda, defrontando alguns marujos.
-Elizabeth…- Berrou Silver que ainda permanecia no chão, entoando no navio inteiro.
Ao tempo que derrotava mais um marujo, Elizabeth olhou vagarosamente para Silver, que estava de pistola em punho apontando para ela. Barbossa, que se encontrava a uma boa distância dela, desviou sua atenção para o que estava acontecendo quando reparou na situação. Com uma expressão surpresa, Elizabeth deu duas passadas para trás a modos de tentar se desviar da mira da pistola, mas Silver carregou no gatilho, acertando em cheio na parte direita do abdómen da garota.
Barbossa apreciou a cena sobressaltado, expressando um rosto céptico, parecendo mesmo que tinha sido ele a receber aquele tiro certeiro. Elizabeth tombava lentamente o joelho esquerdo no chão, não desmoronando por completo. Mantinha a mão no sítio baleado, enquanto sua respiração ficava ligeiramente descompassada.
-Este foi só um pequeno aviso! Para a próxima, acerto-a para valer, minha rainha. – ironizou ele sorrindo desdenhosamente.
-Você me paga, canalha. – rosnou ela com um rosto lívido.
Barbossa chegou até ela, e a agarrou, ajudando-a a correr para o cabo de abordagem. Os dois saltaram na mesma corda, caindo finalmente no convés do Holandês Voador. A tripulação do Adriatic Sea, preparava apressadamente os canhões para atacar o seu adversário, mas Silver fez um gesto com a mão.
-Deixem esses cães sarnentos partirem. Iremos precisar deles vivos. – ordenou Silver levantando-se no chão. – O que eles queriam, não acharam.
-Virem o navio para Estibordo, temos de partir o mais depressa possível antes que Black Dog descubra que temos as Cartas. - mandou Will, berrando bem alto já no Holandês Voador. – A todo o pano marujos. – Ele abrandou a voz, e murmurou: - Que comece uma nova jornada á caça do que possa derrotar essa canalha.
Oiiiiii genteee
Aqui está mais um capítulo prontinho para vocês. Só o consegui postar hoje porque tenho estado fora, mas ele está um pouco grandinho para me redimir de não ter postado mais cedo. Espero que tenham gostado. Embora tenha este pequeno "arrufo" entre a tripulação do Holandês Voador e a do Adriatic Sea, finalmente eles conseguiram as cartas de navegação para uma nova aventura.
O próximo capitulo que terá como titulo "As areias do tempo", será postado, se tudo correr bem, para a semana que vem
Agora quero agradecer a todos as reviews que têm mandado, principalmente a: Rô, Fini Felton, Dorinha, Ieda, Bruno, Likha, Jessica, Tuany (se você ainda tiver lendo esta fic, eu queria dizer que o link da sua comunidade não apareceu na review) e Jane. Obrigada mesmo pelo vosso apoio e por ainda estarem acompanhando esta fic até aqui.
Bjokas grandes e Fikem bem
Taty Black
