Capitulo 19 – As areias do tempo.

No Holandês Voador, depois da pequena batalha, todos voltaram aos seus postos, aproveitando para descansar um pouco daquele tumulto todo. Bill, embora de uma maneira breve, tentava dar indicações aos Lordes, avisando-os que eles já poderiam partir novamente para a enseada, já que a tripulação do Holandês estava de posse das Cartas de Navegação. Todos os navios mudaram a direcção das velas, tomando o rumo á enseada.

Elizabeth, suando pela testa, observava cada movimento de cada navio, controlando sua respiração para passar despercebida perto de Will. Ao se aperceber de seu comportamento dela, apressou-se até ela, que tentou com a mão, tapar a rasura da sua jaqueta.

-Você está bem? – perguntou ele num tom preocupado, que a fez soltar um falso sorriso em troca. – Parece cansada.

-Óbvio! Depois daquela pequena batalha eu me sinto fatigada. – Ela respirou pausadamente, não encarando Will. – Tudo o que eu preciso é de molhar meu corpo com água, tirar este suor e pôr uma roupa limpa. Logo em seguida, trago as cartas de navegação para gente achar a nossa rota. - Elizabeth e Will trocaram um beijo rápido. – Bom, então eu vou até aos seus aposentos. – Ele assentiu desconfiado, acompanhando-a com o olhar.

Barbossa olhou-a intrigado, vendo-a passar apressadamente por si. Questionava a si mesmo do porquê dela não ter contado sobre suas condições a Will, Barbossa passou a mão demoradamente pelo queixo, tentando achar uma resposta lógica. Ele desviou sua atenção para Will, que estava junto de seu pai, observando o minúsculo furo exposto no peito de Bill, o qual tinha sido provocada pela espada de Sr. Jochem.

-Muito estranho, Elizabeth. – murmurou ele, caminhando sorrateiramente até ao porão.

Já nos aposentos de Will, Elizabeth tirou a jaqueta castanha, onde reparou na cavidade causada pela bala em sua camisa. A brancura da sua camisa ia sendo consumida pelo vermelho vivo de seu sangue, que parecia não querer cessar de jeito algum. Sentindo-se tonta, ela encostou-se sofregamente contra a parede, elevando a sua perna esquerda para poder alcançar a bota e pegar as Cartas de Navegação. Esse pequeno esforço fez ela soltar um gemido de dor, atirando as Cartas para cima da mesa. Sua respiração estava mais pesada e seu ferimento ardia-lhe continuamente. Elizabeth dobrou um pouco a sua cabeça para baixo para analisar o profundo golpe.

A porta dos aposentos abriu-se de rompante, sem Elizabeth contar e, de lá, apareceu a figura altiva de Barbossa, que vinha acompanhado de uma garrafa de rum. Elizabeth suspirou de alívio ao ver de quem se tratava, e fechou os olhos ao sentir a ferida arder novamente.

-O que faz aqui? – indagou ela desencostando-se da parede e fazendo uma posse robusta, como se nada se passasse com ela.

-Esse ferimento não está nada bom. – Ele entregou-lhe a garrafa de rum, a qual ela aceitou de imediato.

-Ele vai melhorar…

Elizabeth arrancou a rolha com os dentes, cuspindo-a, e em seguida, bebeu aquele liquido ardente, parando apenas para entornar um pouco no local onde o tiro tinha acertado. Com o cenho franzido e os lábios crispados, ela soltou um gemido sufocado e deixou o rum actuar, enquanto este fervilhava na sua pele machucada.

-Porque não contou ao Will sobre esse ferimento? – Barbossa cruzou os braços, como quem exigia uma resposta.

-Ele não precisa saber, isto não é nada demais. E você não vai contar, certo? – Ela olhou-o firmemente, num tom suplicante, esperando algum movimento do capitão. – Por favor!

-Já vi pessoas morrerem por muito menos, Sra. Turner. Não se esqueça que ainda tem um filho para cuidar. – acentuou Barbossa tentando chamá-la á razão.

-Obrigada pela sua modesta preocupação, mas eu sei me cuidar sozinha. Além do mais, isto com o tempo cicatrizará. – Ela fez um aceno em direcção á porta. – Agora, deixe-me trocar de roupa.

-Está certo, majestade. – Barbossa fez uma falsa reverência deixando os aposentos dela.

-Isto cicatrizará em breve. – repetiu ela brotando-lhe uma lágrima no canto do olho. – Droga, isto não podia ter acontecido. – Elizabeth limpou a lágrima e despejou novamente aquele líquido no ferimento. – Auhh!

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Jack entrou a meio da tarde nos aposentos, deparando-se com Perla deitada na sua rede, abanando-a continuamente. Ao vê-lo parado na porta, ela soltou um sorriso manhoso e voltou a concentrar-se no tecto. Fitava o infinito com uma expressão enigmática, o que fez Jack empinar ligeiramente a sobrancelha.

-O que você está pensando, darling? – perguntou Jack fechando finalmente a porta num estrondo.

-Faz um mês que eu te conheço.

-Aôuh, um mês? – Ele ergueu a sobrancelha contando os dedos, e chegou a conclusão que ela estava certa, mas logo a encarou com uma expressão de deboche. -Vocês mulheres adoram decorar datas: data do primeiro encontro, data do primeiro beijo, data de namoro, data de casamento… – Ele ia fazendo as contas mentalmente, na medida que abanava as mãos no ar, vendo se havia esquecido de alguma data. - Vocês não têm mais nada do que se preocupar a não ser isso?

-Não tenho culpa que o nosso cérebro seja maior do que o vosso, o que nos permite armazenar esse tipo de informação. Já o seu, exclusivamente, é do tamanho de um pequeno amendoim, onde a única parte preenchida é com mulheres e rum. Estou errada? – Jack fez um pequeno muxoxo contraindo seus lábios para fora, formando um biquinho.

-Não está exactamente errada, mas também não está inteiramente certa, o que torna as coisas menos realistas, mas ao mesmo tempo não totalmente falsas, savvy? – Perla levantou um pouco o tronco da rede, fazendo uma expressão de quem não entendeu nada.

-Dá para ser um pouco mais claro, por amor da Virgem de Guadalupe?

-O que eu estava querendo dizer era que, meu cérebro não é totalmente preenchido por mulher. – Ele passou a mão pelas tranças ao dobrar ligeiramente a cabeça e analisar Perla de uma ponta á outra.

-Será que não? Ouvi dizer que deixou uma em cada porto. – Ela sentou-se na rede, olhando-o atentamente, querendo captar a expressão dele ao tocar naquele assunto. – Não acredito que nenhuma, excepto Elizabeth, não tenha mexido com você… – Jack arregalou os olhos, estupefacto com aquela conversa.

-A que propósito serve essa conversa, madame?

-É difícil de imaginar um homem como você sozinho, vivendo apenas para o mar. A vida tem tanto para te oferecer Jack, e você desperdiça-a a cada minuto dessa maneira… Solitária. – Ele sentou-se na rede, continuando a fitá-la seriamente.

-Vida de pirata é assim, amor…

-Você pode mudar sua vida Jack, basta querer! – Ambos encararam-se silenciosamente, enquanto cada um observava os lábios do outro. – Peço perdão por estar falando isto! Você deve estar pensando que, uma riquinha como eu não devia estar opinando na sua vida de pirata... – Jack agarrou-a, por fim pela nuca, puxando-a para si, até suas bocas se aproximarem.

Os dois se beijaram calorosamente, onde as línguas agiam na ausência das palavras, que Jack preferia não pronunciar. Perla, que permanecia de olhos fechados para saborear o momento, deitava-se lentamente para trás, e ele seguia-a empenhadamente, tentando não descolar a sua boca da dela. Ao sentir o tronco de Jack cair sobre o peito dela, seu corpo estremeceu compulsivamente, fazendo-a abrir radicalmente os olhos. Deparou-se com aquela realidade… A realidade que tanto tinha apelado, embora sentisse medo. Queria cometer aquela loucura, entregar-se aquele homem, mas algo a impedia. Talvez fosse a natureza dele, incerta como o tempo, que a deixava confusa. Novamente fechou os olhos, deixando-se levar por ele, que começava agora a desapertar sua jaqueta, ao passo que beijava o pescoço de dela. A mesma sensação da praia se apoderou de Perla, que voltou a ter os mesmos pensamentos impuros que teve outrora, e que a deixavam embaçada. Ao sentir Jack desabotoar sua camisa, ela abriu brutamente os olhos encarando-o envergonhadamente. Abanando a cabeça, Perla o empurrou para trás, e num pulo levantou-se, o que deixou surpreso.

-Melhor parar por aqui, senão eu irei me arrepender do que quer que acontecesse nessa rede. – Ela passou a mão pelos seus cabelos, meia desorientada e saiu apressadamente dos aposentos.

-Esta mulher é o diabo em saias, por onde passa deixa um rasto de lume. – Jack aproximou-se da mesa e agarrou a garrafa de rum meia vazia. – Ela quer me ensandecer, e o pior é que está conseguindo. – E ia esbracejando seus braços no ar, á medida que a garrafa pingava pequenas gotas de rum. – A vida tem tanto para te oferecer Jack, e você desperdiça-a a cada minuto dessa maneira… Solitária. – Imitava ele ao afinar sua voz, acompanhado com seus trejeitos. – Como ela quer que eu aproveite a vida se ela me foge por entre os dedos? – resmungava Jack olhando para os dedos á medida que os gesticulava, mas logo respirou fundo, tombando na rede. – Calma Jack, á terceira é de vez, e nem que venha um cardume de tubarões você a vai deixar fugir. – Finalmente deu um gole na bendita garrafa, sem pausa.

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Depois de ter vestido uma roupa nova que pertencia a Will, Elizabeth pegou os mapas que ainda estavam em cima da mesinha e apressou em ir para o convés superior. Sua respiração ainda estava alterada, e seus passos fraquejavam um pouco. No convés, ela fez um pequeno gesto a Will em direcção á sala principal. Ele travou o leme e, acompanhado de Bill e Barbossa, entrou na sala, onde já se encontrava Elizabeth com as Cartas na mão. Ao ver os três piratas em silêncio, ela rapidamente desapertou o fio que as prendia e desenrolou as cartas, estendendo-a na mesa, o que fez os três analisarem cada particularidade exposta naquele grandioso Mapa.

Sentindo uma dor aguda, Elizabeth fechou os olhos, acabando por se sentar na cadeira a fim de disfarçar a fraqueza que estava sentindo nas pernas. Will a observou, achando que alguma coisa não estava bem com ela, e se aproximou, aninhando-se envolta dela, e num tom sussurrante voltou a perguntar:

-Você está mesmo bem? – Elizabeth apenas abriu um falso sorriso assentindo com a cabeça.

-Quem começa? – indagou Barbossa mostrando-se ansioso por movimentar as Cartas.

-Já que mostra tanto entusiasmo, porque não começa você? – retrucou Elizabeth, limpando o insistente suor que teimava lhe escorrer pela testa.

-Agradeço essa honra majestade. – ironizou Barbossa tirando o chapéu, numa pequena reverência. Colocou-o novamente na cabeça e concentrou-se no mapa. – Ora, então era aqui que se encontrava a fonte da juventude. Não há dúvida que Jack é bastante ardiloso para descobrir tal preciosidade…

-Caro Barbossa, vejo que se deixou levar pela emoção do momento, mas não estamos aqui para ir atrás da fonte da juventude e sim do seu possível reverso. – Tratou de informar Bill, que permanecia de braços cruzados, fitando-o de maneira precipitada.

-Escusa de me relembrar, meu bom amigo, estava apenas admirando. Nem acredito que vou dizer isto: foi um trabalho eficiente de Jack. – Ele sentou-se na outra cadeira de vago, que dava de frente para Elizabeth. - Mas deixemos de conversa – Barbossa chegou as Cartas mais para si –, e vamos ao que realmente importa.

Will, Bill e Elizabeth prestaram atenção a cada movimento da mão de Barbossa que começava a rodar vagarosamente um dos anéis centrais do mapa, que girava facilmente. Com a outra mão, ele rodava outra secção mais para o lado, rodando o anel, tentando alinhá-lo ao outro que tinha girado á pouco. Ele estudava atentamente o mapa, passando insistentemente a mão pelo queixo, pensando nas possíveis hipóteses para chegar ao que tanto eles queriam. Depois de pensar por breves segundos, Barbossa girou novamente outra secção no inverso dos anéis que tinha rodado, e algo começou a aparecer. Para finalizar, ele revirou um ultimo anel, apercebendo-se do contorno que o desenho começava a ganhar ao juntar aquela secção.

Barbossa olhou para os restantes confuso, pensando se seria aquilo que estavam realmente á procura. A cabeça dos restantes chegou cada vez mais perto do mapa, observando uma Ampulheta numa ilhota perto da Costa Rica.

Na ampulheta, tinha a discrição " Areias do tempo", onde em cima dela tinha um anjo rezando. Ali perto um esqueleto com olhar diabólico se encaminhava em direcção a ampulheta, remando o seu pequeno navio com uma grandiosa foice.

-Uma ampulheta? – surpreendeu-se Elizabeth, que observava as Cartas de longe.

-As areias do tempo. – arrematou Will abrindo um sorriso com a sua conclusão. – O que diz ai em baixo do barco?

-Onde a imortalidade é cortada pela raiz e… – esclareceu Barbossa apontando para o barquinho – …onde o tempo para o leito da morte é contado a cada segundo.

-Então é isso o reverso da fonte? Uma ampulheta…

-Noutras épocas, a ampulheta foi muito utilizada na arte de simbolizar a transitoriedade da vida. A morte, por exemplo, é muitas vezes representada como um esqueleto com uma foice numa das mãos e uma ampulheta na outra. – explicou Barbossa

-O esqueleto representa a morte, a ampulheta o tempo que corre contra a pessoa e a foice, ceifa a vida dessa pessoa quando o seu tempo chegar ao fim…

-Exacto capitão Turner! E neste caso – Ele baixou os olhos para o mapa, analisando o desenho –, a Morte pretende alcançar a ampulheta, visto ser a única coisa que lhe falta para simbolizar a transitoriedade da vida. A imortalidade é um bem essencial que só os Deuses, sejam eles pagãos ou não, deveriam possuir.

-Então, quem criou a fonte queria contrariar a Morte, ou estou errado?

-Está certíssimo, caro Bill. – Barbossa se levantou num acto repentino. – Quem ousou criar a Fonte da Juventude foi Éris, a Deusa da discórdia e do caos.

-Com que propósito? – Elizabeth acompanhou os passos do capitão Barbossa, que mantinha um ar pensativo.

-Vocês sabem que no Tártaro, além de ter o senhor dos mortos, Hades, haviam várias divindades, e neles estavam incluídas a Morte e a Discórdia, como era conhecida a Deusa Éris nesse submundo. Descontente por Hades ter dado a função de vigiar o lago das almas penadas, Éris resolveu vingar-se do senhor do submundo, resolvendo criar a fonte da juventude para que mais nenhuma alma condenada atravessasse os portais rochosos do Tártaro, causando assim o caos e a discórdia naquele mundo submerso. Mas seu plano nunca se chegou a concluir, pois a Morte revelou seu segredo a Hades, que logo a expulsou do Tártaro, e onde Poseidon a castigou. A Morte, ao sentir-se ultrajada por haver uma fonte que poderia acabar com o seu propósito, amaldiçoou aquele lugar com algumas almas assombrosas, para que pudessem perturbar os mortais que se atrevessem a chegar perto de tão cristalinas águas. Como sabem, o único corajoso que se atreveu a enfrentar a Morte foi Silver, conseguindo assim uma vida eterna. Algo que muitos homens tentaram, mas nunca conseguiram. Algo que todos almejam, mas que não se atrevem a enfrentar…

-A Morte simplesmente não tolerava que nenhum mortal se igualasse a um Deus…

-A não ser, sra. Turner, aqueles que, por obra do destino foram amaldiçoados a uma vida eterna. – Barbossa deitou um olhar significativo para Will, que foi acompanhado por Elizabeth. – Imagine o que aconteceria se todos os mortais possuíssem a vida eterna, ia ser o perfeito caos que Éris tanto tinha vindo a planejar.

-Mas o que o anjo e as "Areias do Tempo" têm a ver com essa história? – retrucou Bill confuso.

-Sempre pensei que, as "Areias do Tempo" fossem algo que tivesse relacionado com uma viagem do tempo, algo entre o passado, o futuro e o presente.

-O Anjo reza para que a Morte seja derrotada! Os anjos são sinal de inocência e virtude, tendo a missão de ajudarem a humanidade a não cair nas garras da Morte. – Bill prestava atenção ás palavras secas vindas de Barbossa. - Quanto ás "Areias do Tempo", dizem que, quem achar uma ampulheta em que cada grão de areia seja formado de puro ouro, essa pessoa poderia viajar pelo tempo, através dessas "areias do tempo", lendas do mar! O que está aqui em causa é o facto de estarmos perante a solução para os nossos tumultuosos problemas. – contrapôs Barbossa cortando o ar com um soco de encorajamento. – E será fácil de achar, pois a Morte não pôs nenhum entrave para que, mortais como nós, a achássemos.

-Por que fazia ela tanta questão que a achássemos?

-Embora ainda receosa que alguém conseguisse achar tais águas puras, a Morte criou uma Nascente, algo que fosse o reverso da Fonte da Juventude, para que, quem achasse essa nascente pensasse que se tratava da verdadeira "Aqua Vita". Para os mortais que da nascente bebessem, a morte viria seca como a sua própria ambição. Agora quem desse dessas águas a algum imortal, este voltaria a ter uma vida medíocre, uma vida mortal. Esse era o preço para os que almejam a vida eterna.

-Essa água não daria para Will? – indagou Elizabeth, colocando a mão repentinamente no abdómen ao sentir uma dor forte. – Quer dizer, como ele é imortal…

-Will possuiu essa condição de imortal de uma maneira, digamos que, lamentável, se é que me entende. Seu marido não está propriamente vivo, sra. Turner, mas também não está morto. E mesmo que desse resultado, ele não se livraria da maldição. – Will e Elizabeth entreolharam-se esmorecidos, vendo mais uma hipótese se escapar por entre suas mãos. – Lamento muito, mas acho que a solução do seu marido continua a ser a Fonte da Juventude!

-Não se preocupe comigo agora, o mais importante é o Black Dog.

-E o que estamos á espera, meus senhores? – Elizabeth levantou-se dificultosamente. – Já que temos um rumo estabelecido, o melhor é pô-lo em prática. – Ela deu dois passos cambaleantes, á medida que via tudo enublado. – Só precisaremos de um frasco para que a vida de Black Dog se normalize. – Ela fechou os olhos apertando-os bem, abrindo-os numa fissura. - Estamos a um passo de conseguir isso. – Will franziu o cenho desconfiado, seguindo cada passo dela, que se direccionava para o mapa. – Eu pretendo chegar aqui o mais depressa possível.

A mão que há bem pouco tempo pressionava seu abdómen, apontou para a costa de Costa Rica. Zonza, ela caiu para trás, deixando um rasto de sangue no mapa, devido á sua mão estar ensanguentada. Will a amparou nos braços, aconchegando-a bem em seu colo. Preocupado, ele a chamava, vendo Elizabeth inconsciente em seus braços.

-Melhor ir logo tratar desse ferimento, antes que a Morte use sua foice para cortar uma vida muito necessária para nós. – ponderou Barbossa passando a mão pela testa de Elizabeth.

-Eu não acredito que esta doida me tenha escondido tal coisa. – proferiu Will abando a cabeça, olhando par o pai. – Sabe que indicações dar á tripulação, por favor!

-Sei sim! – dito aquilo viu Will desaparecer com a sua esposa, pela porta da sala principal.

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Silver dirigia-se a passos pesados até ao convés inferior, até á zona das celas, onde numa, encontrava-se a figura de Estella, enrolada em seu próprio corpo, tremendo feito varas verdes. Num gesto rápido, ele tirou as chaves do cinturão e abriu a porta. Estella levantou-se num pulo, correndo para os braços dele, abraçando-o preocupada. Silver correspondeu ao seu abraço, mas logo fitou-a a modos de a acalmar.

-Eles já foram! Você já pode sair daqui. – disse num tom seco.

-Eu ouvi tiros e canhões sendo disparados. O que se passou lá em cima? – perguntou Estella ainda tremendo com a voz.

-Um pequeno ajuste de contas! – Ele fez um gesto para ela sair da cela, no qual Estella logo cedeu. – O convés está uma balbúrdia devido aos últimos acontecimentos.

-O que eles queriam? – Ao tempo que caminhava, Estella observava o rosto incomodado de Silver, que tomava uma expressão séria. – Se eu poder saber, claro!

-As cartas de Navegação. – respondeu ele á medida que subia as escadas que davam lugar ao convés superior.

Estella que tinha acabado de subir o último degrau, deparou-se com o sol fraco que continuava tapado com aquela maldita neblina que parecia não cessar. O vento estava agora mais forte, o que fazia os cabelos da garota dançarem desajeitadamente á frente do rosto, tapando-lhe a visão. Ao tempo que tirava o cabelo da frente dos olhos, Estella deparou-se com um horrível cenário, algo aterrorizador: dezenas de corpos jaziam no chão. Pessoas que haviam morrido de variadas maneiras. Estella fez uma cara de horror ao tocar finalmente com o pé no convés superior e ver o sangue balançando no chão, á medida que o navio oscilava devido ás ondas provocadas pelo vento. Membros da tripulação pegavam nos corpos já sem vida, e atiravam-nos para o mar.

-Sr. Jochem. – murmurou Estella num soluço, levando a mão à boca, ao ver dois membros da tripulação carregarem o pobre homem, até á borda do navio, para o atirarem no mar.

Silver desviou seu olhar para a jovem, que estava pálida com o panorama que apreciava. Ele baixou a cabeça, molhando seus lábios com a língua e logo passou suas mãos pelos cabelos escorregadios, que permaneciam inquietos devido ao vento.

Os olhos de Estella ardiam á medida que ela deixava as lágrimas deslizassem pelo seu rosto ao apreciar aquilo. Ela deu uma volta completa, embora parada no mesmo lugar, e só parou ao sentir um engulho vindo do estômago, levando a mão á boca. Sem hesitar, ela correu até á amurada do navio, onde se dobrou para fora, podendo assim vomitar.

Silver acompanhou-a, aparando os longos cabelos da garota, a modos de não se colocarem em frente ao rosto. Ao sentir-se cada vez mais enjoada, tentou respirar fundo para conter as náuseas que o odor a sangue, entranhado na madeira do navio devido ao que se sucedera ali, estaca causando. Estella voltou a erguer a cabeça para cima, abraçando-se de imediato a Silver, fechando os olhos. Este olhou para todos os lados, constrangido com a situação, mas acabou por lhe retribuir o abraço.

-Tire-me daqui, por favor. – implorou ela agarrando a camisa dele com força.

-Vamos até lá em cima, no castelo da popa! – Silver a guiou, sem que ela se descolasse do corpo dele.

Enquanto caminhava, Estella pensava que esta era a vida que Silver tinha para lhe oferecer e, caso aceitasse compartilhar sua vida com ele, teria de estar preparada para suportar aquelas situações imprevisíveis. Já Silver sentia-se ridículo. Sentia que Estella tinha um grande efeito sobre ele, e isso incomodava-o bastante. Estava dando sinais dessa situação diante da sua tripulação. O que pensariam se tivesse visto ele retribuir aquele abraço com tanto fervor? Possivelmente diriam que o capitão estava perdendo sua dureza e personalidade por causa de um rabo de saias. Isso mancharia sua reputação, aquela que demorou a construir durante um ano inteiro.

Havia batalhas que teria de enfrentar durante sua vida, mas aquela estava sendo a pior de todas. Não queria deixar aquela mulher, mas também não queria perder o respeito pela sua tripulação. Silver olhou para o jeito fraco dela, e suspirou. Nunca se tinha sentido assim, confuso. Teria de optar por conciliar as duas coisas, já que tinha prometido a ela que a levaria com ele… Mas, desde quando ele cumpria com as suas promessas? Era notório que Estella emaranhava-lhe os pensamentos de uma forma incompreensível.

Quando finalmente chegaram ao castelo de popa, propriamente ao tombadilho, Estella deixou suas pernas esmorecidas desabarem no chão, deslizando pelo corpo de Silver. Ela continuava chorosa, com sua mão no estômago e as costas da outra mão em frente á boca. Silver aninhou-se diante dela.

-Você melhorou? – perguntou de uma maneira desajeitada, e recebeu apenas uma afirmação com a cabeça. – Nós iremos aportar brevemente, mas antes vamos singrar estes mares durante algum tempo indefenido. – Ele levantou-se, visto que a garota não expressava qualquer reacção com a presença dele.

-Aonde? – indagou por fim ao vê-lo afastar-se

-Alligator Pond. É uma vila pequena e discreta que vai ser evacuada a qualquer instante. – Ele soltou um sorriso malicioso.

-Mais sangue não, por amor da virgem de Guadalupe! – apelou ela, levantando-se, ainda meia zonza.

-Lamento, mas precisaremos daquela vila desabitada para acomodar a minha tripulação até ter a Mão de Midas ao meu alcance…

-Você não era assim, Silver. – rebateu ela franzindo a testa, expressando um rosto decepcionado. – Onde está o bom homem que eu conheci? Aquele homem que se vangloriava do titulo nobre que tinha?

-Nunca existiu. – rosnou ele virando-se bruscamente na sua direcção. – Lamento se a desapontei, mas eu tive que usar o meu nome nobre, Villanueva para conquistar seu pai. Tinha de aproveitar o título da nobreza que meu pai ganhou do governo Espanhol para alguma coisa.

-Você está mentindo, seu pai era pirata...

-Meu pai combateu corsários e barbáries. Claro que não deixava de roubar mercadorias aos navios europeus das ilhas das Canárias, mas a parceria dele com o governo espanhol permitiu-lhe um belo título de nobreza entre a aristocracia europeia. Eu tenho sangue nobre também, por isso não me custou nada infiltrar-me na corte de Siracusa, e ganhar a confiança de seu pai. – Chocada, ela arregalou os olhos, limpando suas lágrimas com as mangas do casaco.

-Que mais falta saber sobre você? – retrucou ela encarando-o séria. – Eu, eu… Eu estou apaixonada por um homem que não conheço. – Silver abriu um pouco a boca, de espanto ao ouvir a confissão dela. – Aliás, eu sou uma estúpida por estar apaixonada por um homem que tanto mal me fez. Eu devia te odiar, seu canalha. – dito aquilo, ela partiu de punhos fechados para o peito dele, socando-o até ficar sem forças.

-Esta é minha natureza! Tenho coração negro, nunca te escondi isso. – Ele agarrou os punhos dela e encarou os olhos castanhos de Estella, que novamente estavam tomados por lágrimas. – Eu adoro este tipo de ambiente terrífico e do odor a sangue, isto me faz ganhar forças para novas batalhas. É disto que eu vivo, sempre foi Estella. Eu nunca te menti e, quando eu disse que quero você do meu lado, eu falava a verdade.

-Eu não quero uma vida traçada de sangue, isso repugna-me. Se viver com você implica isto, eu prefiro morrer sozinha. Eu apenas quero viver em paz…- murmurou, forçando os pulsos para baixo, para Silver a largar e olhou-o seriamente. – Que Deus tenha piedade da sua alma, já que eu não vejo salvação para você.

Silver continuou imóvel a cada palavra de desprezo de Estella, que o olhou intensamente, mantendo sua decepção exposta nas feições do rosto. Suspirando enfadada, Estella finalmente ganhou coragem para se retirar, indo em direcção aos aposentos dele, queria descansar daquele mau estar insuportável. Silver apenas fitou o lugar em que Estella tinha estado, pensando na força das palavras dela sobre sua mente.

-Este é o preço que tenho de pagar? – berrou ele furioso, desviando o olhar para o céu.

Oiii meninaaas e menino!

Gente, só hoje consegui postar este capitulo. Esta semana tive dois testes, e tenho vindo pouco à net, por isso, só consegui pôr a leitura em dia estes últimos dois dias.

Bom, o capítulo está simples, sem muitas evoluções, apesar dessa história entre a Morte e a Éris. Espero que tenham gostado.

Obrigada pelas reviews fofas mandadas: Roxane, Dorinha, Bruno, Likha, Ieda, Jane e Fini.

Bjoka grande, fiquem bem

Taty Black