Capitulo 21 – A Ilha Desaparecida.
De manhã bem cedo, quando os raios laranjas começavam a clarear a linha do horizonte, havia alguém no Pérola que se mantinha bem acordada com uma garrafa de rum na mão, olhando para o infinito. Seus dedos brincavam distraidamente no gargalo da garrafa, rodando-o lentamente, enquanto a outra mão parecia desenhar algo na amurada do navio, aleatoriamente. Perla tinha madrugado e, durante o pouco tempo que permanecera acordada, olhou uma dúzia de vezes para a bússola, tentando ter a certeza que estavam indo na direcção certa. Sentia-se perdida naquele imenso mar, como se nunca mais fosse achar terra possível ou algo que indicasse que a ilha que procuravam estava perto. O frio que agora a se intensificar, fazia-a aconchegar-se mais em seu casaco, dando um gole bem prolongado na garrafa de rum para se manter quente. Sua presença, entretanto, foi capturada por alguém que também tinha despertado cedo, e sobre o passo rápido, dirigiu-se até ela.
-Bem me parecia que a chave da cave tinha desaparecido da minha cintura. – avaliou Jack ao ver uma das suas garrafas de rum na mão dela.
-Tome, aqui está. – Perla foi ao bolso do casaco e pegou as chaves, fazendo-as voar em direcção a Jack, que logo a apanhou e devolvendo-as a sua cintura. – Servido?
-Por que não?
Ele abriu um grande sorriso ao ver a garrafa apontada em sua direcção e, em passos curtos e de braços abertos, aproximou-se dela, pegando-a finalmente. Ao fechar os olhos, ele inclinou a cabeça à medida que ia bebendo com satisfação, devolvendo-a quase vazia.
-Não há nada como começar o dia sem uma boa bebida para esquentar o estômago…
-Jack… – Ela baixou o olhar, brincando com os seus dedos no gargalo. – Eu estive pensando, e cheguei à conclusão de que não tenho sido muito correcta com você. – Ele estreitou o olhar, surpreso.
-A que propósito vem isso, amor?
-Estou cansada desses jogos! Não quero brigar mais com você, tudo o que eu quero é paz entre nós, se isso for possível. Mas também, eu adoraria que você fosse honesto comigo. – rebateu Perla sorrindo debochadamente. – De vez em quando cai bem dizer a verdade, você não acha?
-A ilha! – murmurou com um sorriso triunfante.
-O quê? – Perla seguiu o olhar dele, apercebendo-se de um redemoinho que se formava bem no meio do oceano. – O que é aquilo Jack?
-Aquilo amor, é o propósito da sua viagem, ou seja, o passaporte para o seu final. – Arregalando os olhos e de mãos no ar, ele correu até o meio das escadas da escotilha, que dava acesso ao convés inferior e berrou: - Sua cambada de cães sarnentos, está na hora de mostrar a capacidade deste nosso garotão. Andem logo! – esbracejou, fazendo todos tombarem das redes, e correrem para todos os lados aos encontrões.
-Jack, pelas barbas de Poseidon, o que se passa? – Gibbs foi ao encontro de Jack, vendo-o subir rapidamente as escadas.
-Caro Gibbs, este vai ser um dia a mais na sua significativa vida, o que vai mudar é apenas a rotina. – Gibbs fez uma expressão de quem não estava entendendo. – Vamos aportar uma certa ilha, para cumprimentar uma certa Deusa e trazer um certo objecto reluzente, savvy? – O primeiro imediato logo entendeu o esquema do capitão, anuindo.
-Não há tempo a perder com conversas, o redemoinho cada vez está se tornando maior. – informou Perla, preocupada, sentindo o Pérola aumentar ligeiramente a sua velocidade ao tempo que eram arrastados em direcção ao torvelinho. – E o navio está cedendo às correntes. – Jack crispou os lábios, trocando olhares interrogativos com Perla. – O que vamos fazer Jack?
-Estamos condenados! – examinou Gibbs num tom rouco. – Que Deus tenha piedade de nossas almas.
Jack fitou atentamente Gibbs e Perla, que o olhavam em troca com uma expressão preocupada e, decidido, correu para o leme de onde berrou bem alto para que toda a tripulação presente no convés ouvisse:
-Marujos amarrem as velas, icem as âncoras…
-As velas? – Pintel parou no meio do convés, incrédulo. - Mas capitão…
-Sim senhor Pintel! As velas neste caso só nos vão arrastar impiedosamente para lá. – vendo o pirata ainda imóvel, resmungou: - Façam logo o que eu solicitei sem discussão, isto claro, se não for pedir muito para vossas altezas. – Jack manuseava o leme que de uma hora para outra, teimava em não lhe obedecer.
O convés estava numa desordem completa, onde todos os marujos corriam de um lado para o outro, à medida que se atropelavam no meio do caminho. Cada um direccionava-se para o cordame mais próximo, para poder controlar as velas, enquanto outros marujos subiam nas cordas amarrando-as, impedindo-as que esvoaçassem sem dominação. A situação parecia estar fora de controle. O navio parecia que não queria colaborar com a tripulação, como se tivesse vida própria. Jack continuava no leme, avaliando a situação, ao tempo que procurava Perla com o olhar, vendo-a a estibordo, ajudando Gibbs a içar a âncora.
Jack maneou então a cabeça para a frente, vendo que o remoinho cava vez estava mais forte e profundo. O vento provocado ocasionalmente pelas forças das correntes, vindas das profundezas do turbilhão, formavam ondas gigantescas, capazes de engolir um navio inteiro sem deixar rastro. Gibbs fitou, por instantes, o acontecimento e abriu a boca abismado.
-Maria, mãe de Deus. – rogou Gibbs ao ver uma gigante onda vir em direcção do navio.
A única coisa que conseguiu pensar naquele momento foi em proteger Perla. Num impulso, ele agarrou-a pela cintura e a aninhou junto a amurada com ele. Com o outro braço ele agarrou uma corda, fortemente, esperando o impacto da onda sobre o navio. Em segundos, a onda atravessou o navio, fazendo-o balançar violentamente, enquanto Perla envolvia fortemente o pescoço de Gibbs e, fechando os olhos forçadamente, rezou para que aquele pesadelo acabasse logo. Quando finalmente a onda tinha estalado sobre o navio, Perla respirou fundo limpando o rosto molhado, tirando alguns cabelos da frente deste. Logo sentiu Gibbs puxá-la para cima.
-Obrigada, sr. Gibbs. – agradeceu ela, pelo acto gentil do homem.
-De nada, minha princesa.
Por impulso, o olhar dela recaiu sobre o castelo de popa, vendo que Jack permanecia no mesmo sítio, manejando bravamente o incontrolável leme. Perla suspirou de alívio, levando a mão ao peito. A velocidade do Pérola Negra parecia ter abrandado um pouco, mas não o suficiente para impedir que chegassem aquele redemoinho, o que estava deixando Jack indignadíssimo.
-Ahh Calypso, custava muito colaborar só um bocadinho? – resmungava ele sacudindo o seu chapéu que estava coberto de água.
-O que está acontecendo? – inquiriu Alessandro saindo da escotilha apressadamente. – Senti um enorme balançar do navio.
-Estamos chegando. – concluiu Perla serenamente.
-Graças á virgem de Guadalupe. -Alessandro olhou incrédulo a atmosfera á sua volta. – Mas onde está a ilha? Só estou vendo um redemoinho formado no mar. Quer dizer, algo está aparecendo ali, olhe!
Perla olhou de relance para a frente e, vendo que algo estranho estava acontecendo, ela e Alessandro se precipitaram para a amurada. O redemoinho começava a dar lugar a algo indecifrável naquele preciso momento. Concentrando o seu olhar naquele torvelinho que, cada vez abrandava mais, viram uma espécie de cume surgir naquelas tumultuosas águas. Toda a tripulação sentiu um grande solavanco vir do navio, que o parou completamente naquele sítio onde permaneciam.
-Jack, o que houve? – averiguou Perla dando uma palmada na amurada. – Porquê que o navio parou?
-É como se tivéssemos um recife nos impedindo de avançar até ao nosso destino. – sugeriu Alessandro, dobrando-se um pouco sobre a amurada, verificando o que estava travando o navio.
-Acho que a nossa querida anfitriã quer que a gente vá de bote até seus domínios. – Jack tirou a sua luneta da cintura e observou o espectáculo que estava ocorrendo mesmo á sua frente. – Confesso que a recepção está sendo deveras calorosa.
A atenção de todos direccionou-se novamente para o cume que, lentamente foi subindo até dar lugar a uma torre de um grandioso templo. À medida que ia subindo, o templo ia expelindo água por todas as janelas partidas e portas. Á sua volta uma floresta tropical foi aparecendo, até que, por fim, acabou por se formar completamente no mar. Atrapalhadamente, Perla tirou a bússola da bolsa e abriu-a. Sem hesitar, a agulha apontou para aquele magnífico templo. Finalmente, a Ilha Desaparecida estava diante de seus olhos, naquele imenso mar.
-É aqui! – comunicou Perla sorrindo, ao mesmo tempo que seu coração disparava de emoção. – Eu não acredito que finalmente chegamos.
-Isso tem um significado Perla. – Ela direccionou a cabeça para Alessandro. – Sua jornada está chegando ao fim. – O sorriso dela desapareceu e ambos encararam-se silenciosamente, sérios.
Foi então que, a passos penosos, Alessandro saiu da beira dela. Sozinha, Perla continuava fixada no mesmo sítio em que Alessandro tinha permanecido até á bem pouco tempo, pensando na força que aquelas palavras tinham tido sobre si. Ela suspirou fundo e, mordendo o lábio inferior, Perla olhou para o céu a modos de tentar conter suas lágrimas que marejavam teimosamente.
-Cavalheiros, preparem um bote. – Mandou Jack fechando sua luneta e, colocando-a de novo na sua cintura, desceu as escadas. – Está preparada, alteza? – Ela despertou daquela espécie de transe e, numa meia volta o encarou com um sorriso recatado.
-Depois das aventuras pelas quais passei até agora, se não tivesse preparada eu não me chamaria Perla Bonny. Savvy, capitão? – Ele afrouxou um sorriso manhoso pelo canto da boca.
-Nós vamos com vocês, Jack – advertiu Sr. Gibbs colocando-se á sua frente, inquieto.
-Não é necessário, eu e ela nos safaremos lindamente. Entretanto, se qualquer eventualidade acontecer…- Jack fez um olhar de falso lamento – Sigam o código.
-Jack, o código serve mais como orientação do que propriamente uma regra. – Jack sorriu orgulhoso ao olhar para a sua tripulação que permanecia diante dele.
-Já que é assim – Jack tirou o chapéu e colocou na cabeça de Gibbs –, enquanto eu tiver fora, você fica comandando o navio. Temporariamente, claro.
-Fique descansado, estará em boas mãos. – Gibbs ajeitou o chapéu, olhando para Alessandro. – Ao menos leve Alessandro.
-Ele vai sim, eu lhe devo isso – concordou Perla sem hesitar, enquanto Alessandro aproximava-se dela, lisonjeado –, por tudo o que ele fez por mim até este momento.
-Ahh, tá! Foi só ele que arriscou sua vida pomposa pelos caprichos da madame. Vou levar isso em consideração, já para não falar que esta aventura vai lhe custar outro diamante. – Jack foi até ao bote, no seu andar peculiar á medida que rodava as mãos no ar, fazendo Perla revirar os olhos.
Sem olhar para Mullroy, Jack apossou-se do chapéu do marujo, colocando-o na sua própria cabeça.
-Eu conhecia várias facetas suas, agora a de ciumento, essa é nova… – Jack parou com os olhos arregalados. Erguendo o dedo indicador, maneou-o no ar ao tempo que abria a boca pronto a retorquir:
-Não sou ciumento, apenas gosto de ser reconhecido por meus vários méritos, principalmente nesta viagem, savvy? – Num sorriso amarelo completou: - Mas isso para você são meros detalhes, não é verdade?
Perla olhava-o perplexo, não sabendo se ria ou gritava. Já Alessandro ria a valer, abanando a cabeça, enquanto entrava no bote e sentava-se próximo dos remos. Jack concedeu ilustremente sua mão a Perla para que ela pudesse entrar no bote. Ela olhou deslumbrada para ele, tirando uma mecha de cabelo que se colocou á frente dos olhos, ponderando se aceitava ou não ajuda dele, mas logo se deixou levar pela tentação e entregou-lhe delicadamente. Era bom sentir novamente o toque dele sobre sua pele, saber que Jack ainda estava ali ao seu lado. Jack a olhou com uma expressão sedutora, enquanto seus olhares comprometedores se encontravam, fazendo Alessandro se sentir desconfortável com aquela situação.
Perla entrou então no bote, seguida por Jack, que se sentou mesmo á sua frente, pegando nos remos. Gibbs, acompanhado com Pintel e Mullroy desceram os cabos, a fim de que o bote caísse lentamente sobre as águas do mar.
-Rememos até nosso destino. – incentivou Jack, conivente.
Os dois homens remaram então até á ilha, enquanto Perla admirava-a de longe, imaginando as possíveis surpresas e desagrados que ela poderia conter. Seu coração estava desassossegado demais, como se a quisesse alertar que algo não iria correr bem. Ela olhou para trás e viu Jack remando bravamente, ansioso por chegar á Ilha Desaparecida, e isso assustava-a. Perla voltou a olhar para a frente, sentindo as oscilações do bote à medida que avançavam e, naquele sufoco, abraçou-se, desviando o olhar para o chão.
Jack abrandou um pouco de remar ao se perceber da inquietação dela, fitando-a durante um bom tempo. Notando que estava quase chegando ao seu destino, ponderou se haveria de ajudá-la ou se ficaria com a Mão de Midas para ele, tal e qual como tinha planejado desde o início da viagem. Ele praguejou baixinho para si mesmo, que, irreversivelmente, aquela feiticeira tinha mudado o curso da situação, emaranhando totalmente os seus pensamentos de tal maneira que ele já não sabia mais o que queria. Erguendo o olhar lentamente, Jack lançou um sorriso irónico ao perceber sua situação: o famoso capitão Jack Sparrow não sabia o que queria, ou simplesmente tinha medo de reclamá-lo para si.
Abanando a cabeça, Jack precipitou novamente os remos, pensando que a profecia estava certa: Jack nunca soube o que queria até aquele preciso momento. Até ao momento, em que aquelas duas esmeraldas o faziam ter certeza de uma única coisa: queria assumir o coração de uma certa princesa. Embora não admitisse para ninguém, muito menos para si próprio, mas a verdade é que Jack tinha medo de reclamá-lo para si. Nunca tinha sido um homem de grandes amores, pelo contrário, sempre tinha sido individualista quando se tratava de sentimentos e, de todas as mulheres que passaram pela sua vida, nunca nenhuma mexeu tanto com ele. Agora via-se envolvido pelos encantos de alguém que nunca poderia fazer parte da sua vida, por mais que assim o quisesse. Ela já tinha uma vida formada antes de entrar nestas aventuras, uma cidade para reinar. Com esse pensamento, Jack tentou se concentrar no caminho, reparando que a distância diminuía cada vez mais.
Quando finalmente a costa se fez notar, devido á proximidade, Alessandro e Jack pararam de remar, observando a longa ilha com águas cristalinas, envolvendo as ondas que se desfaziam em espuma branca à beira-mar. A costa, apesar de ser coberta de uma vasta e exuberante vegetação, indicava que a ilha era claramente desabitada, sem sombra de algum ser vivo á vista.
Ao ver que já estavam demasiado próximos da beira-mar, Perla levantou-se ansiosamente e, num pulo, saltou para fora do bote, fazendo chapinha naquele translúcido mar, onde suas botas iam sendo consumidas pela água salgada. Jack e Alessandro seguiram o mesmo exemplo dela, continuando hesitantes. Não aguentando mais aquele impasse deles, Perla avançou decidida, sem esperar pelos dois. Jack precipitou-se então até ela, agarrando-a pelo braço.
-Sei que está impaciente para obter a Mão de Midas, mas vá com calma. Não se sabe quantas mais recepções vamos ter durante a nossa permanência nesta ilha. – Ele inclinou o olhar para a espada dela. – Mantenha o cabo da espada por perto, para prevenir certos acontecimentos, se é que me entende. – Perla anuiu silenciosamente, agarrando-se ao cabo.
-Não se preocupe Perla, em poucos minutos atravessaremos esta vasta vegetação. Não falta muito para você estar perante o templo. – Alessandro alcançou os dois.
-De que estamos à espera então? Vamos! – encorajou-os, desembainhando sua espada. – Eu quero ter essa Mão antes do fim do dia. – E sem mais nada a dizer, avançou sem esperar por eles.
Os dois homens se olharam com sobrancelhas arqueadas, em forma de desafio e, segundos depois, desataram a correr para ver quem chegava primeiro até Perla. Quando chegaram, cada um se colocou do lado dela, fazendo-a revirar os olhos, impassível. Os três iam cortando os arbustos que se metiam á frente, enquanto Perla se guiava pela bússola, tentando achar o caminho mais rápido para o pomposo templo, que tinham visto do Pérola Negra. Entretanto, tudo o que viam era árvores e mais árvores, para desespero completo de Perla.
-Será que esta maldita vegetação não acaba mais? – berrou ela dando um golpe feroz num ramo que estava atravessado no caminho dela.
-Você não estava achando que era só chegar á ilha, bater palminhas que a Mão de Midas vinha voando em direcção à palma da sua, pois não? – debochou Jack, olhando para o tamanho das árvores e no quão sombrio se tornava o pico delas. – Reconheço que seria tentador. – pensou, passando a mão pelas duas tranças do queixo.
-Só queria acabar logo isto! Quero voltar para casa com minha irmã, viva de preferência. – declarou ela, suspirando esmorecida.
-Você vai voltar com sua irmã, eu te prometo. – afirmou Alessandro colocando uma mão no ombro de Perla, que sorriu confiante.
Os três continuaram o caminho traçado pelo denso verde que abraçava a totalidade das zonas que os rodeava, tornando a travessia cansativa devido à expectativa de temer que, mais à frente, encontrariam mais vegetação. O que surpreendentemente, não aconteceu. A floresta foi ficando cada vez mais rasa á medida que avançavam. Ao se aperceberem do sucedido, ambos aceleraram o passo com o total cuidado, até que, viram a floresta desaparecer completamente e aparecer as paredes posteriores do grandioso templo diante deles. Essas lisas paredes eram feitas de mármore acinzentadas, esmaecidas pelo tempo, e em parte, consumidas pelo musgo e várias heras gigantes. Perla continuava com o seu olhar preso naquele monumento, não conseguindo acreditar no que via.
-Minha virgem de Guadalupe! Não posso crer. – murmurou emocionada, rindo de alegria.
Ambos avançaram calmamente, sustentando ainda sua espada no ar, como precaução para qualquer contratempo que surgisse na sua travessia. Os três contornaram atentamente o majestoso templo, admirando a sua suprema beleza exterior. Ao chegarem, por fim, à parte frontal do templo, Perla parou, arregalando bem os olhos, incrédula com as formas iniciais das paredes. Elas ostentavam esqueletos humanos de cavalheiros corajosos, que tentaram, um dia, sua sorte. Era como se, em algum momento, aquelas paredes tivessem ganhado vida própria, engolindo sem piedade alguma, aqueles homens que supostamente tentaram fugir com vida da ilha. Jack expressava um rosto de pesar ao apreciar a cena e, tirando o chapéu, fez uma pequena reverência. Isso chocava Perla, que analisava as expressões aturdidas que aqueles esqueletos expunham.
-"Tantos cadáveres insepultos jazem lá." – observou Jack, num rosto sério, pondo o chapéu. – Era isso que Elizabeth se referia.
-Éris parece gostar de coleccionar as suas vítimas. E da maneira mais original os colocou mesmo na porta de entrada, como quem exibe seus troféus. – falou numa voz árdua, permanecendo ainda atónica.
-Tal como a espada, mantenha a sua cruz bem á vista, caso seja preciso para qualquer eventualidade, se é que me entende. – Ela apenas acentuou com a cabeça, tirando-a debaixo das roupas.
Novamente eles retomaram o compasso, indo em direcção a duas belas estátuas femininas bem trabalhadas, que permaneciam uma em cada lado, centrando bem a porta principal. As duas mulheres eram perfeitas, usavam uma túnica grega que deslizavam delicadamente pelos braços, salientando bem os seus seios. Seus cabelos iam ao encontro dos ombros, dando-lhes um ar altivo. Jack parou bem diante delas, apreciando cada pormenor minúsculo da elegante silhueta feminina ali esculpida, fazendo olho grosso para o conjunto de jóias que as estátuas tinham entrelaçadas na sua pedra fria. Ele sorriu marotamente, esfregando as mãos, á medida que pensava: "Já não se fazem mulheres como antigamente." e, num pequeno muxoxo Jack levou a mão ao pescoço de uma das estátuas, tentando arrancar á força toda uma bela gargantilha de ouro que estava encrostada á pedra.
Ao sentir a ausência de Jack ao seu lado, Perla parou e voltou-se para trás, ficando abismada com a atitude dele. Ela revirou os olhos à medida que bufava impacientemente. Voltou então atrás e, vendo ele praticamente estrangular a estátua para tirar a jóia, agarrou-o furiosa pelo colarinho da camisa e arrastou-o, fazendo-o formar um pequeno beicinho nos lábios.
-Será que você nunca vai ganhar vergonha na cara? – repreendeu-o, largando-o por fim, enquanto o fitava austera.
-Você nem vai acreditar, mas aquela estátua me chamou. Disse-me que eu era o homem mais elegante e charmoso que passou por esta ilha, e que se apaixonou por mim. E, como recordação, ela me deu autorização para levar aquela gargantilha de ouro… – Ele calou-se imediatamente ao vê o olhar fulminante que ela lhe lançou, e levantando o dedo concluiu: – É, falei que você não ia acreditar.
-Supôs bem. Agora, comporte-se até ao fim da nossa visita. – dito aquilo, virou costas e afastou-se dele.
Ao entrarem finalmente no Hall do templo, as tochas acenderam-se prontamente, fazendo os três ficarem de alerta, posicionando-se para um possível ataque surpresa. No entanto, ao verem tudo sossegado, baixaram as espadas, continuando apreensivos. O intenso cheiro a mofo apoderava-se do ar, chegando ao ponto de se tornar incomodo para quem o inalava. As paredes bem adornadas do templo estavam completamente entranhadas de humidade, tapando as diversas imagens nelas expostas. Perla observou cada particularidade do templo, reparando que calcava um ornamentado chão de granito cinzento-escuro, embora já não abrangesse o mesmo brilho de outrora. Aquele templo sem dúvida se assemelhava um pouco aos antigos templos Gregos, contanto este era revestido por cores mortas, matando a sua extrema riqueza que noutros tempos fizeram jus à sua preclara aparência requintada. Numa expressão prudente, Perla direccionou a cabeça para um longo e único corredor a sua frente. Jack chegou perto dela, proferindo:
-Parece que a nossa querida Deusa não nos deu muitas escolhas. – Ele fez um olhar apreensivo, chamando-lhe a atenção. – Aposto que aquele longo corredor nos reserva pequenas surpresas, e deveras interessantes.
-Nós saberemos recebê-las a altura, não me intimido com pouca coisa. – rebateu ela com um sorriso maroto, sendo acompanhado por Jack.
-Perla, você não poderá colocar sua vida em risco. Eu e Jack iremos buscar a Mão e você fica aqui nos esperando
-Nem pensar, Alex, sonhei muito com este momento, não é agora que vou amedrontar. Agradeço a sua humilde preocupação e o facto de querer arriscar sua vida por mim – disse num tom carinhoso –, mas eu quero ir até ao fim, nem que isso custe minha vida.
-Que bonito momento, se me permitem dizê-lo – desdenhou Jack, batendo palmas –, mas será que os dois pombinhos vão decidir hoje, de preferência, quem vai ou fica?
-Não será necessário, eu vou, está decidido. – Alessandro baixou o rosto, preocupado, mas Perla logo o tranquilizou com suas palavras serenas: – Não seria justo mandar vocês dois buscar aquela maldita Mão de Midas e eu ficar a espera. Esta é a sina que me foi dada, e eu pretendo cumpri-la até ao fim. Nós iremos nos safar, confiem em mim! Depois, esta será uma das mais belas histórias que contaremos aos nossos netos.
-Está certo! Continuemos então.
Jack bufou um "aleluia" elevando um pouco a espada no ar. Fez um gesto para que Alessandro fosse o primeiro a calcar o tão espesso granito daquele corredor mal iluminado, deixando que Perla o seguisse, e por fim, ele próprio, a fim de dar-lhes cobertura caso algo corresse mal. Naquele largo corredor era possível sentir uma aragem agradável guarnecida com o cheiro característico do mar: cheiro de maresia, que envolvia o ambiente. Perla pegou numa tocha que se encontrava numa das colunas que sustentavam o trabalhoso tecto. Este expressava imagens da vida quotidiana de jovens marujos, tão bem desenhadas que Perla atrevia-se a dizer que elas pareciam ter vida própria, dançando ao sabor do vento.
-Algo realmente fascinante de se ver. – murmurou ela, continuando de olhos fixos no tecto.
Sua atenção foi quebrada ao pisar algo duro e volumoso. Ela baixou lentamente o olhar e viu que calcava um esqueleto, o que fez ela soltar um grito prolongado e pular para os braços de Jack, que soltou um sorriso convencido.
-O que houve? – perguntou Alessandro, parando ao ouvir o grito.
-Sabia que você não iria conseguir resistir! Só nunca pense que fosse preciso pisar um pedaço de osso apodrecido para descobrir esse afecto emocional por minha humilde pessoa. – salientou Jack num tom provocador. Ela o largou lentamente, com o cenho franzido, sentindo-se ridícula.
-Você nem merece resposta. – Perla crispou os lábios irritada.
-Porque não tem resposta para tal verdade, não é amor! – Jack cada vez aproximava-se mais dela.
-Porque simplesmente você é do tipo que não merece resposta concreta. – Ela deu-lhe costas, o que fez Jack fazer um beicinho. Perla encarou então o esqueleto e, encolhendo-se, ela aproximou a tocha um pouco mais, reparando num importante pormenor. – Qual a possibilidade de uma seta acertar em cheio a cabeça de um homem?
-Depende da circunstância! – retrucou Alessandro encolhendo-se também. – Pode ter havido uma pequena briga entre homens, ou então…
-As paredes têm defesas! – Os dois olharam para Jack que observava as paredes, aleatoriamente. Alessandro e Perla levantaram-se assustados.
-Em algum lugar, neste chão, possivelmente existe um botão que impulsionará essas setas. – ponderou Alessandro pensando alto. – Teremos de correr.
-Embora isto me custe dizer, tenho de concordar com o Comodoro: teremos de correr, para viver. Agora façam tudo como bons piratas e não olhem para trás. – Alessandro cruzou os braços com o atrevimento de Jack lhe chamar pirata. - Quando eu contar até três… – Jack elevou o dedo indicador e olhou-os. – Um…-Fez uma breve pausa para impaciência de Perla. – Três…
Jack começou a correu do seu jeitinho peculiar, sem esperar por ninguém, deixando-os ficar para trás. Perla e Alessandro deram ombros seguindo-o sem hesitar, até ela falsear em algo no chão. Sentiu o seu pé afundar, à medida que pressionava em algo que a fez cair de joelhos. Um click soou naquele extenso corredor, enquanto Alessandro elevava-a lentamente, prestando atenção às paredes que abriam pequenas janelinhas. Os dois fizeram um aceno de cabeça e, com toda a sua resistência, correram sem olhar para trás, desviando-se o mais possível das setas que voavam a uma velocidade incrível. Perla sentia leves lâminas aguçadas cortarem sua pele atravessando a parede a sua frente. Cansada ela começava a sentir suas forças esvaírem-se, mas Alessandro a agarrou pela mão, a modos de encorajá-la, e puxou-a, não deixando que desistisse agora. Logo agora que estava tão perto de ter aquilo que tanto queria. Ao verem que o sitio mais a frente era o fim do corredor, Perla e Alessandro pularam naquela direcção, finalmente aterrando noutra divisão, onde já não havia mais setas a voarem paralelamente às paredes.
-Estão atrasados! O que andaram a fazer? – ironizou Jack, de braços cruzados e o pé a bater no chão.
-Estávamos desenrascando-nos de um pequenino problema, enquanto você estava aqui, coçando seu majestoso bigode. – retrucou Perla passando o antebraço pelo rosto. Ao mirar a camisa tingida de sangue, considerou ter um golpe na maçã do rosto.
-Quem mandou vocês serem lentos. – contrapôs Jack com um leve sorriso sardónico.
-Eu vou fingir que você nem falou. Agora me responda: que sala é esta?
-Não sei, cheguei à pouco, não deu tempo de avaliar… – retrucou Jack dando um olhar rápido á sua volta.
A sala era realmente majestosa, apesar de aparentemente se notar que os anos devastaram completamente aquela divisão, deixando-a num estado lastimável. À frente encontrava-se uma espécie de trono, com duas colunas altivas no estilo jónico, centralizando-o de uma maneira elegante. O chão era arrojado com um belo mosaico, que tomava várias formas à medida que os reflexos do sol iam entrando pelas janelas quebradas. Os três caminharam vagarosamente ao encontro do trono, apercebendo-se que, mais ao lado, havia uma pequena divisão escondida. Perla abriu a boca, chorando emocionada ao notar o que aquela divisão continha. Jack somente arregalou os olhos, que cintilavam de júbilo, esfregando sorrateiramente as mãos ao tempo que, em seus lábios, floresceu um sorriso maroto. Já Alessandro mantinha sua postura correcta, concentrando seu olha abismado.
-Afinal a lenda existe!
A estátua onde permanecia a Mão de Midas rodava automaticamente ao redor do mesmo sítio, expondo sua perfeição a quem quisesse admirar, como quem tenta testar a dignidade dos homens mais honestos e honrosos. Os olhos de cobiça de Jack não paravam de cintilar, á medida que a estatua ia rodando. Como seria possível aquele módico objecto transformar com o seu toque o mundo todo em puro ouro? Agora que estava diante da Mão, todos os pensamentos de honra que teve sobre ajudar Perla, se é que algum dia os teve, ou se simplesmente foram sinceros, desapareceram.
-O que estamos à espera? Vamos pegá-lo. – Alessandro deu duas passadas, mas logo sentiu uma lâmina fria a afinada tocar em seu pescoço.
-Uma pequena e significativa correcção, meu caro: eu vou pegá-lo, savvy? – Perla presenciava a situação atónica. – Depois de a pegar, vou voltar para o meu navio, enquanto vocês ficarão aqui fazendo companhia para uma certa Deusa, ou seja, resumindo: seremos todos felizes para sempre.
-Jack, pela Virgem de Guadalupe, pare com essas brincadeiras! – apelou Perla colocando as mãos sobre só lábios. – Isto é sério!
-Eu não estou brincando! – afirmou num tom sério, o que fez o coração de Perla sobressaltar. - Digamos que isto não passa de puros negócios. Investimentos futuristas, se preferir chamar. – Aproveitando a distracção de Jack, Alessandro desembainhou a sua espada, colocando-a no pescoço de Jack.
-Esse objecto é meu Jack, não pense tirar ele de mim. – Alessandro ameaçou num tom seco.
-Bom, vejamos isso já vai ser um problema, è que eu já tinha planos para ela: um resgate, ficar rico, cuidar de mim… - Com o toque suave da espada, Jack tirou a de Alessandro do seu pescoço.
-Jack, eu preciso dela para salvar minha irmã. Além do mais, resgate para quê? – Perla franziu o sobrolho, continuando perplexa. -Essa Mão pode deixar você tão rico que poderia comprar o mundo.
-Realmente, não vejo desvantagem nisso, pelo contrário, agrada-me a ideia. – Jack fez um ar sonhador, à medida que Alessandro sorria de forma sorrateira.
-Pena que nunca irá concluir suas prioridades, meu caro pirata.
-Será que vocês não percebem? Essa é a maldição da Mão de Midas: a ganância dos homens honestos. Ela vem à flor da pele, consumindo toda a vossa sanidade, levando-os a tornarem-se nuns perfeitos idiotas.
-Ela tem razão, cavalheiros. Eu mesma fiz questão de acrescentar esse pequenino toque para acalorar a situação, e isto não virar um tédio. – ressoou uma voz feminina. – Não ficou mais interessante ver homens lutando para ter todo o sucesso e ouro do mundo?
-Éris! – murmurou Perla não mostrando surpresa alguma, e olhando desconfiada para todos os lados, a espera que a Deusa desse as caras.
Os dois homens sentiram as espadas serem arrancadas forçadamente das suas mãos, voando para bem longe deles, ao mesmo tempo que uma espécie de fumaça surgia de uma das paredes, e logo um corpo feminino se formou a frentes deles. O cabelo liso e negro da mulher sobrevoavam sem sequer ser preciso uma brisa de ar para os mover, ao tempo que expressava um sorriso enigmático, deixando Perla receosa.
-Bravo! Nunca nenhum mortal chegou a esta divisão, vivo pelo menos. – Ela batia palmas, sorrindo marotamente. -Bem vindos à minha modesta casa, caros humanos!
Novamente, peço perdão por pelo meu atraso, mas tive muita coisa para fazer estas semanas, além da net não ter andado muito bem nos últimos dias.
E cá está, os nossos heróis chegaram á Ilha desaparecida, em busca da Mão de Midas. Para não ficar monótono, a nossa Deusa querida tratou de aprontar uma recepção calorosa. Vamos ver como vai desenrolar o encontro no templo, e se a Deusa dá a Mão de Midas assim facilmente. Mas isso, só no próximo capítulo.
Quero agradecer as Reviews fofas que mandaram no capitulo anterior: Rô, Ieda, Likha Sparrow, Fini, Jane, Bruno e Carlinha Turner. A vocês o meu obrigada, de coração.
Fiquem bem e Bjokas grandes
Taty Black
