Capitulo 17 – Doces delírios

Capitulo 22 – A Mão de Midas!

Em Siracusa, num dos sumptuosos quartos do palácio, Fitzwilliam acabava de vestir o casaco bem ornado, observando-se no espelho. Uma expressão de desconforto tomou conta das feições do homem, que passava teimosamente a mão sobre o rosto. Além de sentir as mãos delicadas posarem sobre sua cintura, Fitzy viu pelo reflexo do espelho, um sorriso satisfeito brotar no rosto atrás do seu. Ele puxou-a ternamente para a sua frente e beijou-a apaixonadamente, acariciando o rosto dela com a costa da sua mão. Arabella parou ao se aperceber das marcas de preocupação expostas no rosto do marido.

-Você não está bem... Algo lhe aquieta. – induziu ela, envolvendo as bochechas do marido em suas mãos.

-Eu não sei se estou preparado para assumir uma grande responsabilidade. É como se tivesse o peso do mundo nas minhas costas e ninguém pudesse aliviar tamanha preocupação…

-Ei, amor, você não está sozinho! Você governou o condado de Dalton até agora, e não há nada de tão diferente nessa sua nova função. – Ele desembaraçou-se gentilmente dos braços da mulher, indo até a janela e apoiou as mãos no peitoril.

-É diferente Arabella. Lá eu tinha os meus próprios conhecimentos, os meus negócios. – Fitzy olhou-a de soslaio. – E aqui o que tenho? Um povo que nunca me conheceu. Uma delegação que, no primeiro deslize que cometer, vão cair em cima de mim feito feras e, para finalizar, aqui vou o cargo que tenho a honra de aceitar é o de rei. Não sei se estou preparado para tamanha responsabilidade.

-Seu primo confiava em você, não o desaponte. – Ela suspirou, vendo o marido continuar de cabeça baixa, e com cuidado, aproximou-se dele. – Lembre-se que isto será temporário. - Arabella colocou-lhe uma mão nas costas, acariciando-o – Fitzy, eu já vi do que você é capaz, mais do que ninguém, eu sei que você vai conseguir. – Fitzy encarou-a durante alguns segundos silenciosos. - Eu estarei aqui para te apoiar em tudo.

-Durante estes anos todos, agradeço aos céus por você ter aparecido na minha vida. – Ele afastou-se da janela, tomando em suas mãos o queixo da mulher, fitando a tonalidade dos seus olhos. - Nunca me arrependi de ter enfrentado meu pai para ficar com você, muito menos de ter ido te buscar na Faithfull Bride.

Arabella soltou um sorriso forçado, lembrando-se das incertezas que teve na hora em que Fitzy voltou a Faithfull Bride para lhe pedir em casamento. Seu primeiro e grande amor tinha sido, sem dúvida nenhuma, Jack Sparrow, embora tivesse aprendido a esconder aquele sentimento que nutria por ele durante os meses de suas inesquecíveis aventuras. A última vez que esteve com ele tinha sido antes dele abandonar a ilha de Tortuga para entrar na Companhia das Índias. Na noite em que, de livre e espontânea vontade, resolveu se entregar a ele. Isso.

Abanando a cabeça desconfortavelmente para afastar aqueles pensamentos do passado, Arabella concentrou-se no marido que aos poucos foi conquistando o seu coração, já que inicialmente, aceitara o casamento apenas como forma de esquecer Jack mais rápido. Agora podia dizer que tinha aprendido a amar Fitzy do seu jeito, abdicando de toda a liberdade que conquistara para ficar com ele.

-Fico agradecida até hoje por ter tido tal atitude. – retorquiu ela, por fim, sentindo remorsos de ter voltado a pensar em Jack. Havia jurado arrancá-lo da cabeça a partir da noite em que ele a abandonou para nunca mais voltar.

-Eu é que te agradeço por ter mudado por mim. Ter abdicado de sua vida para construir uma nova comigo. – Ele a beijou de surpresa, mas o beijo foi interrompido pelo choro de um bebé.

-Alicia acordou... – sussurrou ela a milímetros dos lábios dele.

-Não é que a pequena tem pontaria. – rebateu Fitzy fazendo beicinho.

-Você também tem de se preparar...

-Pois é, em alguns minutos o sir Richard virá nos chamar para nos apresentar formalmente ao povo, e lhes informar que serei eu o substituto do rei.

-Não se preocupe, tudo correrá bem. – Arabella deu-lhe um breve beijo e desapareceu por entre a porta, sendo acompanhada pelo olhar atento do marido.

-Ahh Jack, você não sabe a bela mulher que perdeu. - murmurou Fitzy para si mesmo com um sorriso nos lábios.

XxxXxxX

Não muito distanciados de Siracusa, praticamente na Ilha Desaparecia, uma Deusa fazia as honras casa, se assim se poderia chamar. Jack e Alessandro permaneciam quietos, hipnotizados pela beleza estimulante de Éris, que analisava atentamente os três. Perla olhava-a com desprezo, apreciando cada movimento insignificante de Éris, até esta quebrar o silêncio congelante daquela sala:

-Ora, ora... O que temos nós aqui? – Ela deu algumas passadas a frente, balançando suavemente os quadris. – Um comodoro corajoso, tentando se mostrar forte para impressionar a mulher que ama, – ela pousou o olhar em Perla – Uma princesa rebelde que tenta, a todo o custo, ter o seu momento de liberdade, longe das obrigações diárias e chatas de um reino perto da decadência – desviando seus olhos para Jack, continuou com um sorriso de desdém: –, e um pirata ganancioso em busca da sua, mais que merecida, oportunidade. – Ela deu costas para os três e sentou-se na poltrona de pedra, completando: – Que trio perfeito para uma comédia grega. – Soltou uma gargalhada prolongada, ao tempo que os três se entreolhavam. – Mas digam lá, caras criaturas humanas, o que os trás até minha casa?

-Então esta é a sua casa? – Jack olhou à volta de mão erguida, a modos de avaliar o sítio. – Bonito sítio, se me permite uma honesta opinião. – comentou Jack com uma expressão de escárnio.

-Gostou? – inquiriu a deusa, sonsa. – Estava pensando deixar a terra inteira assim.

-Ohh, que ideia tão subtil. Me avise quando tiver planeando tal evento. – e em tom de segredo, Jack inclinou um pouco a cabeça para Perla, cobrindo a sua boca com a costa da mão. - Então é esta a prima maluca da Calypso?

-Creio que ainda não me apresentei devidamente. Eu sou Éris, a deusa do caos e da discórdia.

-Você deveria estar no Tártaro – analisou Alessandro confuso - , junto de Hades.

-Outra brilhante, para não dizer excelente, conclusão Comodoro... estão me surpreendendo - ironizou Jack – Parabéns! – suspirou, revirando por fim os olhos.

-Isso foi outra das coisas que eu esqueci de te informar Alex… – interferiu Perla, ignorando o comentário inútil de Jack.

-Eu adoraria passar aqui o dia todo com vocês discutindo o ponto de vista de cada um, mas sabem, eu tenho outras coisas mais importantes para fazer... terras para destruir, uma Mão para proteger. – Ela ergueu a dedo indicador e apontou para a estátua que continha a mão dourada.

-Isso è de facto, muito interessante. – proferiu Jack interessando-se no assunto, arregalando mais uma vez os seus olhos para a Mão que parecia chamá-lo feito íman.

-E para estarem na minha sublime presença, significa que um de vocês è o felizardo de tão rechonchudo tesouro, ou estarei enganada? – Ela fez um ar altivo, levantando-se do trono. – Quem é o guardião?

-Sou eu! – Perla mostrou a cruz ancorada, que ainda se encontrava dependurada sobre seu peito, fazendo Éris aflorar um misterioso sorriso com o reflexo prateado da cruz.

-Bom, agora que já está tudo esclarecido, nós vamos pegar a Mão de Midas para você se ver logo livre da gente, e poder voltar para o seu simpático lar. – Com as mãos elevadas, Jack foi em direcção à estátua, mas algo o fez cair redondo no chão, como se tivesse embatido numa barreira transparente.

-Jack! – Perla viu-o ainda deitado, erguendo primeiro as mãos e depois levantou o tronco, virando-o em direcção à Deusa.

-Essa sim, era escusado! – ponderou ele, passando as mãos pelo nariz, como quem o tenta endireitar. – Mas suponho que mereci. - concluiu levantando-se num salto.

-Vocês pensaram que era só chegar aqui, tomar um chá de boas vindas e partirem todos sorridentes com o pretendido objecto? – Éris deslizou até eles, como se seus pés fossem fumaça. -Vocês, meros mortais me subestimaram ao se esquecerem de uma coisa muito importante: eu sou uma Deusa. – divulgou ela, passando a mão pelo queixo de Jack, que endureceu o rosto ao aflorar um sorriso mordaz.

-E você minha cara, esqueceu-se de um detalhe bem relevante: Eu sou o Capitão Jack Sparrow, savvy? – retrucou ele, vendo-a lançar-lhe um olhar provocador.

-Bom argumento, mas não tão bom que possibilite a mudança de minha natureza, capitão. – refutou ela, passando a mão a milímetros de distância dos lábios de Jack, que só sentiu uma brisa de ar lhe tocar. – Já ouvi falar muito de você, mas nada que desperte meu sono.

-Então é porque anda um pouco atrasada nas notícias, visto não receber nenhum tipo de informação do exterior há algum tempo, ou estarei enganado? – rebateu Jack, com um olhar sonso, ao dar uma volta completa a deusa, que o olhava austera. – Pelo que sei, desde que Poseidon a prendeu neste lugar simpático, no qual você chama casa, você nunca mais colocou um pé fora desta ilha. O que deve ser, deveras, muito chato.

-Não abuse da sorte capitão, você é bonito, mas nem tanto para poder confrontar uma deusa como eu. – advertiu ela, sorrindo com desdém.

-O que deseja que a gente faça para nos dar logo essa amaldiçoada Mão? – interviu Perla, começando a ficar farta daquela troca de provocações entre a Deusa e Jack.

-Estava a ver que nunca mais me faziam essa elementar pergunta. – disse a Deusa ao olhar de relance para Perla, entusiasmada. – Como sabem, a Mão de Midas é um objecto valiosíssimo, nada se iguala a sua valia, se é que me faço entender. – Ela vagueava pela sala, num passo sedutor, o que deixava os dois homens encantados, mas ao mesmo tempo em alerta. – Por isso eu quero algo que, pelo menos, seja valioso para um de vocês.

-E o que è? – Éris lançou um olhar de desafio para Perla, que não se intimidou.

Lentamente, a Deusa ergueu as mãos na totalidade, para além do cimo da cabeça. À medida que as mãos dela se elevavam, Jack e Alessandro começavam a levitar sobre o ar, como se uma corda os puxasse para cima e os prendesse dentro de uma bolha de ar transparente.

-O que pretende com isso? – indagou Perla assustada ao ver os dois se debaterem, sem resultado.

-Algo muito simples e rápido, espero. – Éris elevou-se um pouco do solo, ficando no meio dos dois homens. – Você terá de escolher quem quer salvar.

-Oh Bugger, agora estou definitivamente tramado. – resmungava Jack para si mesmo, com uma expressão de falso amuo. – Claro que ela vai escolher o garoto maravilha, eles sempre se dão bem! Por que ela havia de me escolher? Logo um pirata! – murmurava ao tempo que gesticulava seus braços dentro da bolha.

-Você só pode estar brincando comigo? – contestou Perla, perdendo seu fôlego ao ver a Deusa com aquele irritante sorriso exposto nos lábios.

-Muito pelo contrário – a Deusa riu-se descaradamente, para desespero de Perla – , vocês humanos são tão previsíveis. Basta cortar um fio do vosso mundo, que entram logo no perfeito caos.

-Eu não posso fazer isso!

-Tanto pode, como vai fazer se quer a Mão de Midas. – Perla mirou Jack e Alessandro, que permaneciam calados, escutando com atenção Éris. -As regras são muito fáceis: eu permitirei que você leve o objecto pretendido caso escolha salvar seu verdadeiro amor.

-Como assim? – O coração de Perla acelerou, recusando-se mentalmente a fazer tal absurdo.

-Se você escolher a pessoa que não ama, ficará sem a Mão e, consequentemente, sem o homem que ama também. Entretanto, se escolher a pessoa certa, não só fica com a Mão de Midas, como também fica com o amor de sua vida. Em todo o caso, você terá de deixar um deles para trás. – Ela arrojou um sorriso malicioso nos lábios. – Uma óptima barganha, você não acha?

-Bem que sua prima disse que suas barganhas eram mais… aliciantes e criativas, por assim dizer. – contrapôs Jack num tom sarcástico.

-Eu adoro ser surpreendente, Capitão Jack Sparrow, a cada minuto. – retrucou a Deusa, cínica, direccionando sua cabeça para Perla. – E então, em que ficamos?

-Pelo amor da virgem de Guadalupe, não me peça uma coisa dessas. – Lágrimas lhe brotaram dos olhos ao fitar atormentadamente os dois.

-Será assim tão difícil decidir quem quer salvar? – Ela dispersou-se até Alessandro – De um lado, você tem um Comodoro que durante toda a sua vida te amou, e sempre te foi sincero. – E deslizou em direcção a Jack, com um sorriso cínico. – Do outro lado você tem um pirata arrogante e calculista que te usou para chegar até aqui… – Com um ar dissimulado, fitou-o, recriminando-o – Que coisa feia de se fazer, Sr. Sparrow! – Novamente seus olhos recaíram sobre a princesa. – Escolha difícil de se fazer, diga-se de passagem.

-Você está enganada, caríssima Deusa. Eu contribui para esta viagem, de coração, nunca tive falsas intenções perante, vossa majestade. – retrucou Jack num tom mordaz.

-Coração? – Éris gargalhou, para espanto de Jack, que arqueou a sobrancelha. – Sparrow, você não tem coração!

-Ele tem coração! Um bom coração se quer saber – contrapôs Perla –, apenas não demonstra. Por isso eu não posso fazer isso a eles! Não seria justo escolher…

Tanto um, como outro, tinham grande importância na sua vida. Não tinha capacidade para escolher um dos dois, não seria justo para ela ter de abdicar deles. O olhar recaiu sobre Jack, ele tinha o seu jeito característico. O jeito esquisito e durão que, muitas vezes, ele fazia questão de expor, mas por outro lado, Perla sabia que ele era um bom homem, tinha um bom coração… Um homem pelo qual ela havia se apaixonado. Era a primeira vez que admitia isso para si mesma, isso era algo que ela pretendia esconder até voltar a Siracusa, onde o poderia esquecer definitivamente e continuar sua vida. Olhou, então, para Alessandro. Embora nunca se tivesse apaixonado por ele, Alessandro era como se fosse seu irmão mais velho. Alguém que durante todos estes anos a protegeu, compartilhando todos seus segredos e aventuras. Apesar do seu jeito dedicado e amável, não foi conseguira conquistar o seu coração. Perla sentiu um enorme aperto no peito, como se a qualquer momento ele fosse parar.

Ela desviou lentamente o olhar para a Mão de Midas, que rodava diante de seus olhos. Sua irmã era o mais importante naquele momento, teria de obter aquele objecto, mas não daquela forma radical. Ali estava o grande dilema da sua vida: optar por um dos dois homens que tanto a ajudaram naquela aventura, contribuindo cada um de uma maneira diferente, para a chegada á Ilha Desaparecida. As lágrimas eram agora grossas, escorregando-lhe pelo rosto a uma velocidade surpreendente.

-É uma troca justa. Você fica com o grande amor da sua vida, com o objecto mais valioso que poderia encontrar e ainda salva sua irmã. Enquanto eu, fico com a alma da pessoa que você simplesmente não ama. E por favor, garota, ande logo que eu não tenho todo o tempo.

-Porque me pede tamanha maldade?

-É da minha natureza controversa espalhar a semente do caos e da discórdia. Você já devia saber disso, minha querida. Eu adoro finais infelizes.

-Eu fico no lugar deles. – rosnou Perla num tom assente. – Eles levam a Mão de Midas e eu fico. – Jack estreitou a testa, pensando seriamente em contestar.

-Infelizmente não há negociação possível, a não ser a que propus anteriormente, claro. – rebateu a Deusa, decidida. – Está nas suas mãos decidir o rumo da história.

Alessandro observava com pesar a sua amiga. Perla estava paralisada, perdida em seus pensamentos, incapaz de optar por quem quer que fosse. Ela tinha lutado tanto para conseguir aquela Mão de Midas, para agora Éris lhe por mais um entrave em sua vida. Aquela situação não era justa no ponto de vista dele, não para a doce Perla que Alessandro conhecia. Sabia que ela não o amava, e nunca o iria amar, pois seu coração já pertencia a um único homem: o pirata Jack Sparrow. Ele suspirou enquanto em suas memórias, lembrou-se das carícias trocadas entre ela e o pirata, dos jogos de palavras perdidas no vento e, principalmente do beijo presenciado no convés. Aquele beijo que mudou totalmente o conceito de Alessandro sobre Jack. Talvez ela não lhe fosse tão indiferente quanto inicialmente achava, e isso lhe dava uma imensa raiva, apesar de a conter. Suspirando profundamente e num tom baixo proferiu:

-Prometa-me que a deixa partir caso Perla abdique da pessoa que não ama, seja em que circunstâncias essa pessoa for escolhida. Dê-me a sua palavra. – Ele acentuou a última frase, ríspido.

-Comodoro, quando uma Deusa dá a sua palavra, é para toda a eternidade. –Éris fez uma cruz sobre o peito.

-Então, eu fico! – De repente, Perla ergueu seu olhar para Alessandro, perturbada. – Deixe-a partir com Sparrow...

-Não diga disparates, Alex... Haverá outra solução. – balbuciou Perla quase como uma súplica.

-Não há outra solução possível. – declarou Alex num tom franco, á medida que seus olhos escureciam. – Você não me ama, por isso sou eu que devo ficar. Não era justo ser um entrave na sua busca, parta com o homem pelo qual você se apaixonou e viva a vida que sempre quis.

-Não, eu não saio daqui sem você! – Desesperada, ela levou a mão trémula á boca, não acreditado no que estava se passando. – Por favor Éris, reconsidere…

-Não há nada para reconsiderar – rebateu Alex olhando de soslaio para a Deusa, que mantinha o seu sorriso cínico perante a situação – , para grandes bens há sempre que fazer grandes sacrifícios. – Com um ar nobre, ele ordenou: - Éris, solte o Sparrow.

-É uma pena.

Ponderando ou não se soltava Jack, Éris olhou bem fundo nos olhos de Perla, tentando certificar-se de que aquela seria ou não a possível escolha de Perla. Passado alguns segundos, a Deusa estalou os dedos no ar, fazendo a bolha em que Jack permanecia, desaparecer. Ele arregalou bem os olhos e, ao sentir que estava escorregando para o chão, esbracejou no ar, como quem tenta agarrar algo para não cair.

-Ohh Bugger. – praguejou ele, sentindo-se deslizar até ao chão como um peso morto. Perla correu até ele, ajudando-o a levantar-se. – Eu estou bem, amor – Mas, ao mesmo tempo, fazia beicinho de dor, devido à dor que lhe estava dando nas costas. Expondo uma pose de forte, completou: – Melhor é você ir buscar a Mão de Midas.

Perla concordou com Jack. Em passos penosos, ela foi em direcção à pequena dimensão, onde na parede à sua direita havia uma espécie de encaixe em forma de cruz ancorada. Apercebendo-se do que se tratava, Perla tirou de seu pescoço a cruz e encaixou-a na ranhura, voltando a guardá-la. Não notando nada de diferente, Perla avançou com cautela, tentando averiguar se a barreira transparente ainda permanecia no mesmo sítio. Ao se certificar que ela tinha desaparecido, Perla ficou finalmente frente a frente com a estátua de um vulto enigmático revestido com uma capa, que continuava rodando calmamente.

Todo este tempo tinha procurado aquela Mão, e agora que estava diante dela, só tinha um desejo: que aquilo nunca tivesse acontecido. Queria acordar nos aposentos de Jack e descobrir que aquilo tudo não tinha passado de um maldito pesadelo. Bufando de raiva, ela ganhou então coragem e pegou na parte de madeira que sustentava a parte dourada da Mão da estátua. Naquele momento, toda a ilha estremeceu, assustando Perla que, desprevenidamente, foi contra a estátua, no qual se apoiou para não cair. Rapidamente ela despiu a jaqueta, rasgando-a, a fim de embrulhar a parte de ouro da Mão. Instantaneamente o tecido foi consumido pelo tom dourado, o que surpreendeu Perla, que observava de perto. Sentindo a ilha tremer cada vez mais, guardou a Mão no cinturão e correu até Jack, que permanecia à sua espera.

-Finalmente livre! – gargalhou Éris, entoando nas quatro paredes da sala do templo. – Posso voltar ao Tártaro e transformar aquilo num perfeito caos. – Éris sobrevoava alegremente no ar.

-Vamos sair daqui o mais rápido possível, a ilha está se afundando. – ponderou Jack num murmúrio.

-Eu não posso ir sem ele! – As duas esmeraldas encontraram-se com os olhos de Alessandro, que ainda permanecia naquela bolha, com um ar esmaecido. – Eu não o posso deixar depois de tudo.

-Sparrow leve-a daqui, e mantenha-a a salvo. – Alex alargou um fraco sorriso para convencer Perla de que ficaria tudo bem. – Tenho pena de nunca mais poder olhar nos seus olhos e sentir a paz que meu coração ansiava; de sentir seu cheiro, que me neutralizava de uma maneira tão simples e suave; e, principalmente, de tocar em sua pele onde eu sonhei várias vezes me perder. - suspirou enfadado. – Lamento nunca ter conseguido ter a força suficiente para lutar pelo seu amor, e agora receio nunca mais o poder fazer. – Perla oscilava a cabeça, inconformada. - Eu te amo, minha princesa. – Ele olhou para Jack e num tom grave ordenou: - Leve-a.

-Não Alex, por favor, não me deixe. – Jack pegou-a pela cintura, tentando arrastá-la com alguma dificuldade, visto que ela se debatia. – Alessandro... – berrou ela com todas as suas forças.

-Aonde é que nós estávamos mesmo? – indagou a deusa, sonsa. – Ahh, eu estava afundando uma mísera ilha. – E num sorriso malicioso encarou Alessandro, que lhe retribuiu com dureza. – E você é só meu agora.

-Poderá ter minha alma, mas nunca terá meu coração.

-E quem disse que eu pretendia ter seu coração? – Com um sorriso escarnecedor a deusa se metamorfoseou em fumaça, envolvendo Alessandro que desapareceu junto com ela.

Jack ainda mantinha seus braços envoltos na cintura de Perla, arrastando a fera descontrolada que se debatia com o maior esforço. Com toda a sua força, ela dobrava o seu tronco todo para a frente e, com as mãos, agarrava os braços de Jack, tentando se soltar, embora ele teimasse em não a largar. Apesar do templo cada vez mais oscilar com violência, e de grandes estilhaços de pedra caírem diante de seus olhos sem piedade alguma, Perla queria voltar atrás e salvar Alex. Arranjar uma maneira de o tirar das garras daquela Deusa. Percebendo-se que Jack não a iria largar tão cedo, Perla berrava o nome de Alex, desamparada. Suas forças começavam a abandoná-la, o que a fez parar e virar-se na direcção de Jack, encarando-o.

-Jack me solta, eu preciso voltar. Eu preciso tirar ele dali, eu preciso…

-Meta uma coisa nessa sua cabeça: já não há nada a fazer! – retrucou Jack ao soltá-la, afrontando-a num olhar ríspido. – Ele deu a vida para te salvar, um gesto deveras bonito e emocionante, se me permite a observação. Mas todo o sacrifício dele será em vão caso você insista em voltar para trás. – interveio sério, abanando-a pelos braços, a modos dela o entender. – Foi lindo enquanto durou, mas agora vamos voltar à realidade e salvar o que resta das nossas vidas.

Consentindo que suas lágrimas fluíssem novamente em seus olhos ao encará-lo, desolada. Perla deu-lhe um tapa no peito, deixando-se cair sobre os braços de Jack, rendida pelo cansaço. Vendo que ela tinha finalmente cedido em sua oposição, Jack pegou-a no colo sentindo os braços dela envolverem-lhe o pescoço e correu o mais longe possível daquele corredor interminável, desviando-se dos vários pedregulhos que se caíam em variados sítios.

Ao chegarem ao hall principal, Jack e Perla viram duas estátuas femininas em frente à entrada, impedindo a passagem. Elas posicionavam os pés, tirando duas adagas das coxas. Os rostos das mulheres já não expressavam um ar altivo e sim, um rosto diabólico, que fez Jack arregalar a sobrancelha.

-Tudo bem, agora fiquei realmente assustado. – Ele pousou delicadamente Perla no chão, não expondo movimentos bruscos.

-Vai ver que ainda vieram buscar uma recordação sua. – sussurrou ela sentindo seus olhos arderem. – Vamos acabar logo com isto, estou cansada de surpresas. – disse secamente, limpando o rosto molhado.

Perla desembainhou a espada lentamente, correndo até elas com um grunhido ferino, para desespero de Jack que arregalou os olhos. Vendo que a situação não podia melhorar, ele deu de ombros e seguiu-a, tomando posse da sua espada, até os dois olharem-se de relance e, num aceno cedente, atacarem as duas estátuas ao mesmo tempo, que prontificavam as suas adagas para se defenderem. Cega de raiva, Perla fez um movimento rápido e exacto, cortando uma das mãos da estátua, que desapareceu feito areia.

Apesar da ilha oscilar violentamente, Jack e Perla tentavam manter o equilíbrio, concedendo golpes certeiros e duros sobre a pedra fina das estátuas, que se defendiam muito bem. Cansada daqueles jogos de pés, Perla fez uma manobra para baixo, de desviando de um golpe e, erguendo-se agilmente, cravou a espada no rosto da estátua, que se contorceu toda até se desfazer em areia.

Ela olhou de relance para Jack, que acabava de cortar a cabeça á última estátua. E antes dela se desfazer em areia, Jack correu para agarrar aquela gargantilha de ouro, saltando para agarrar o pescoço, mas não foi a tempo, abraçando-se a si mesmo.

-Porquê que elas sempre fogem? – murmurou ele de testa franzida, perdido no tempo.

-Talvez porque sua higiene pessoal não seja tão favorável quanto parece. – criticou Perla guardando a espada, vendo Jack cheirar a sua axila, fazendo uma cara de repugnância.

-Pormenores! – retrucou abanando a mão. - Além do mais, você já provou e não se queixou. – Perla lançou-lhe um olhar fulminante, mas em antes que ela lhe respondesse, Jack antecipou-se: - Vamos embora daqui, antes que a gente vire comida de peixinho. E aconteça o que acontecer, não olhe para trás.

Ela anuiu contrafeita ao ver Jack estender-lhe a mão. Perla olhou-a de sobrancelha erguida, aceitando sem cerimónias. Os dois penetraram por entre a vasta vegetação, tentando se distanciar o mais possível do templo, que começava agora a ser tragado pelas areias da ilha. Perla e Jack corriam sem olhar para trás, tal e qual como ele tinha pedido, apesar do aperto que se instalou veementemente no peito de Perla ao sentir-se culpada por ter envolvido Alessandro naquela funesta aventura. Respirando fundo para não voltar a chorar, e sentindo-se cada vez mais cansada, avistou o fim daquela intensa floresta, que dava lugar a uma minúscula praia. Jack procurou com o olhar pelo bote, mas este não se encontrava mais na costa, e o Pérola Negra estava a uns bons quilómetros de distância da ilha. Nunca conseguiriam chegar até ele a nado. Apercebendo-se da preocupação de Jack, Perla passou as mãos pelo rosto, desesperada, até que ele a virou de relance com as mãos em sua direcção, encarando-a.

-Estamos perdidos! – concluiu ela, vendo a vegetação sendo sugada pelas areias, que por sua vez, iam sendo consumidas pelo mar. – "Tantos gritos perdidos foram silenciados debaixo de água…"

-Ouça, esta ilha vai se designar ao que ela sempre foi: uma Ilha Desaparecida, perdida neste amplo oceano. – Ele fez uma expressão séria. – Peço que, pelo menos uma vez na vida confie em mim, e nada será em vão. – Não vendo outra hipótese plausível, cedeu. – Quando eu contar até três, você inspire todo o ar possível em seus pulmões. Vamos nos deixar levar pelo torvelinho, depois seja o que Deus quiser.

-Isso é uma loucura Jack – retrucou Perla com toda a sinceridade – , mas já que não há mesmo nada a perder, não vejo porque não arriscar.

Vendo a vegetação sucumbir cada vez mais diante de seus olhos, num redemoinho de água interminável, Perla e Jack caminharam até á beira-mar, sentindo as ondas violentas estalarem em suas botas.

-Um…- começou Jack ao ver o redemoinho cada vez mais perto. – dois…- a distância encurtou-se rapidamente, fazendo Jack puxar o corpo trémulo de Perla contra o seu, agarrando-a com força. – três! – berrou ele, por fim.

Os dois respiraram bem fundo, desaparecendo entre o redemoinho, que sepultou a ilha por completo debaixo do mar.

XxxXxxX

Simultaneamente, no Pérola Negra, Gibbs encontrava-se pendurado na amurada, agarrado ao estai do navio para apreciar melhor a cena. Ele agitava nervosamente a cabeça, não querendo acreditar no que os seus olhos visualizavam. O redemoinho retomava novamente á sua antiga forma, querendo requestar a vasta porção de terra que pertencia, por direito, às profundezas do oceano. Arrebatado Gibbs apressou-se até meio do convés e berrou para quem quisesse ouvir:

-Desamarrem imediatamente as velas, soltem as âncoras. Façam isso como se fossem pagos para tal…

-Mas, isso é uma loucura! – interveiu Marty, chegando perto do primeiro imediato que estava desassossegado. – O navio não conseguirá zarpar deste sítio por causa do maldito recife.

-Droga. – murmurou Gibbs, andando de um lado para o outro, pensando noutra forma de os resgatar da ilha . – Eles vão morrer ali.

-Por mais que a gente queira ajudá-los, nós estamos sem chances, não temos recursos para os socorrer. – Gibbs sentiu como se uma faca atravessasse seu peito, parando em frente ao anão. – Lamento!

-Eu já perdi a mãe dela diante dos meus olhos, não posso perder Perla... – rosnou Gibbs passando a mão pelo rosto, abstracto.

-Só nos resta pedir a Deus que tenha piedade pelas suas almas. – contrapôs Pintel olhando fixamente para o redemoinho que engolia por fim a ilha.

Meio cambaio, ele aproximou-se da amurada, concentrando o seu olhar desesperado no que se sucedia bem diante de seus olhos, descrentes, apesar dos quilómetros que os separava. Vendo a ilha ser finalmente engolida pelo oceano, Gibbs desmoronou completamente até à borda do navio, pousando sua cabeça sobre os braços. A tripulação apreciava cada movimento de Gibbs, tirando ambos os chapéus e bandanas, em forma de pesar, pelo seu capitão ter desaparecido no mar, juntamente com a ilha.

Depois da perda de Alessandro e de terem conseguido a Mão de Midas, o que será que se aconteceu com Perla e Jack? Será que é desta que, Sr. Gibbs vai ser capitão do Pérola Negra, devido á infelicidade do destino?

Quero agradecer as reviews queridas que todos me mandaram: minha beta querida Rô, Fini Felton, Jane, Ieda, Likha Sparrow, Carlinha, Dorinha e Bruno. Obrigada mesmo, é muito importante saber que vocês ainda estão acompanhando a fic desta autora aqui, rsrs.

Bjokas grandes e fiquem bem

Taty Black