Capitulo 24 – Entre promessas e oceanos.

No Pérola, quando finalmente Jack tinha tocado com suas botas o chão de madeira negra do seu navio, toda a sua tripulação esperava para recebê-lo, fazendo um monte de perguntas sobre o sucedido na ilha, que Jack evitou responder. A entrada mais demorada foi a de Perla, que permaneceu durante alguns minutos dentro do bote, com receio de ser abordada sobre aquele assunto, que tanto queria esquecer. Jack apenas continuou em silêncio, colocando discretamente a mão no bolso para verificar se a Mão de Midas ainda permanecia lá. Perla ergueu lentamente o olhar e, vendo que os ânimos da tripulação tinham acalmado, resolveu entrar no Pérola. Gibbs ajudou-a a sair do bote, percebendo o estado inconsolável da princesa. Seus olhos pareciam dizer tudo: não queria tocar no assunto que atormentava sua alma. Gibbs reduziu-se então ao seu silêncio, notando que o motivo de tanta tristeza tinha haver com a ausência de Alessandro. Prudentemente Gibbs foi ao encontro de Jack e lhe segredou algo a modos de Perla não perceber.

-Jack, e o garoto? – Jack encontrou o olhar inconsolável de Perla, que logo tratou de desviá-los dos dele. Numa expressão austera ele fitou Gibbs.

-Ficou para trás. – retrucou num tom seco, tomando seu chapéu da cabeça de Gibbs e ir para a sua cabine.

-As minhas preces estarão com ele. – murmurou Gibbs voltando sua atenção para Perla, que parecia aturdida com o sucedido.

Seu rosto ainda se mantinha molhado e seus olhos além de lhe arderem, pesavam muito. Em passadas lentas e com os braços envoltos no seu próprio corpo, ela caminhou até às escadas, onde desmoronou completamente. Encolhendo-se nas escadas, Perla tentou não chorar mais, mas quando notou, suas lágrimas já lhe escorriam pelo rosto alvo. Nunca pensou que aquela aventura acabasse assim. Entre sua irmã e Alessandro, Perla não tinha como salvar os dois. Teria de abdicar da ajuda um deles e, por mais que a dor corrompe-se sua alma e lhe rasgasse o coração em finos trapos, ela sabia que sua irmã era o mais importante. Tinha também a situação de Jack que, de uma forma inconsciente, acabou por salvá-lo, porque simplesmente ele era o homem que preenchia seu inquieto coração. Sua cabeça estava numa desordem total, principalmente depois do sucedido na praia. Cada vez mais, as lembranças de toda a viagem lhe vagueavam vivamente pela memória de forma tempestiva, como se a qualquer momento fosse ensandecer.

Enquanto o manto negro descia sobre o horizonte, e os lampiões começavam a ser acesos por todo o navio, ninguém da tripulação se atreveu a chateá-la. Gibbs queria reconfortar a podre garota, mas não sabia como. Lentamente aproximou-se dela, sentando-se ao seu lado.

-Está uma noite bonita para tanta tristeza... – Perla continuou com o seu olhar perdido no infinito. Gibbs suspirou lamentavelmente, concluindo de seguida: - Chore bastante, isso faz bem! E quando não houver mais lágrimas para chorar, você vai ver que a vida continua.

-Além de minha mãe, eu nunca tinha perdido alguém tão próximo! Alessandro era como um verdadeiro irmão para mim, eu nunca lhe escondi isso, apesar dos sentimentos dele por mim. – Ela passou a mão pela maçã do rosto cortada, sentindo-a arder por causa das lágrimas. – Eu sinto remorsos por tê-lo visto desaparecer sem ter podido fazer nada. Nunca me senti tão vulnerável, tão inútil…

-Você não é isso, minha querida! Há coisas que estão fora da nossa capacidade de compreensão, coisas inalcançáveis…

-Mesmo inalcançáveis, não impedem que este remorso me consuma impetuosamente. Ele morreu porque praticamente tive de optar por salvar a vida Jack e ele. – sufocada no choro, ela tentou concluiu: - meu coração foi traiçoeiro…

-Seu coração sempre foi verdadeiro com você, quem te atraiçoou foi a Éris. – Perla encostou-se então no ombro de Gibbs, que a abraçou docemente.

-Por quê que os Deuses são assim? Tão cruéis. O que nós mortais fizemos para tal?

-Vou-lhe contar um segredo, algo que não ensinaram em seu palácio. – Perla prestou atenção. – Os Deuses nos invejam! Eles nos invejam porque somos mortais, e porque a qualquer momento, pode ser o nosso último. Tudo é mais lindo porque estamos destinados a uma morte certa, algo que os Deuses não têm o privilégio de apreciar: cada momento da vida! Eles fazem de tudo para que esse dia seja o pior de nossas vidas. Sinceramente, para eles o tempo nada importa, pois têm todo o tempo do mundo, já nós temos um tempo limitado para tudo: amar, odiar, viver, rir, chorar. – Ela soltou um breve sorriso. – Por isso não sinta culpa de amar… – ele fez uma pausa, ganhando alento para concluir sua frase: – …um pirata! – Perla ergueu um pouco a cabeça encarando os olhos azuis. – Embora esse pirata não seja propriamente um exemplo de pessoa.

-Você é muito perspicaz – ela suspirou enfadada – , mas se eu tivesse chance de voltar atrás, eu nunca teria rompido meu noivado. Teria feito de tudo, e resistido aos encantos desse pirata.

XxxXxxX

Jack permanecia na sua cabine, com um olhar vago. Num passo brando, ele atirou a Mão De Midas sobre a mesa, agarrando de seguida a garrafa de rum que estava lá pousada. Sem mais demora, ele abriu-a com os dentes, cuspindo a rolha. Dando um longo gole, Jack só descolou a boca do gargalo da garrafa ao perder o seu fôlego de a beber sem pausa. Jack foi até à cadeira, tombando o seu corpo pesado sobre as costas desta. Lá, ele colocou os seus pés sobre a mesa, balançando cuidadosamente a cadeira, enquanto apreciava o barulho do mar batendo no casco do seu navio.

Neste calmo cenário, ele fixou seu olhar num ponto fixo, tentando pôr os pensamentos em ordem, mas não sabia porque ponta havia de pegar para reorganizar a sua mente confusa. Pela primeira vez, sentia-se impotente, sem saber como reagir a tal situação e isso aborrecia-o. Seus olhos recaíram, então, sobre o pano que tapava a parte dourada da Mão. Finalmente tinha aquilo pelo qual toda a viagem tinha almejado. A Mão de Midas estava na sua posse, diante de seus olhos. O tesouro supremo e absoluto, capaz de transformar o mundo todo em ouro, estava agora na sua cabina. Ele tinha noção do valor do objecto, algo inimaginável para qualquer humano, mas isso o punha em dúvidas: seria mesmo aquilo que queria? Uma matéria-prima perceptível? Ou simplesmente desejava algo plausível? Como o calor humano de uma certa princesa?

Por momentos, deu-se por si, a pensar no quanto desejava Perla. De como a queria ao seu lado, para poder abraçá-la e beijá-la, sem se recriminar pelo que estava fazendo.

Flagelado com os seus pensamentos absurdos, assim julgava, Jack levantou-se entontecido, levando novamente a garrafa até aos lábios, onde deixou o líquido âmbar escorregar pela garganta. Pensar em Perla, dava conta de seus nervos, consumindo sua restante sanidade, que já era pouca.

O seu olhar ficou profundo ao relembrar da cena da praia, de cada detalhe, de cada toque ou palavra proferida naquele momento. Como queria ter respondido a cada chamamento da boca de Perla, que estava à sua mercê. Aquela situação causara-lhe uma interminável luta interior organizada pela sua razão e o seu sentido, tendo sido terrivelmente golpeado pelas palavras de Perla, o deixara atordoado até agora.

Jack suspirou, dando outra golada. Num mundo como este, falar de seus sentimentos era uma total fraqueza, mas pensar neles, era um sinal de sandice.

Por isso, ele queria lutar contra seu destino. Não queria se entregar aos impulsos descontroláveis de um homem sentimental, coisa que de facto, Jack não era, ou obviamente não aparentava ser. Mas também, não podia simplesmente negar o facto de amar aquela mulher. Sim, amava-a, do seu jeito, mas amava-a, e isso consumia sua alma desassossegada. Não queria amar ninguém, somente o mar, mas estava sendo difícil negar os sentimentos que afloravam na sua pele à medida que a convivência com aquela mulher foi-se tornando mais intensa. Com passadas secas, ele aproximou-se da janela, observando o mar sereno que reluzia com tons prateados derramados pela lua cheia.

-Cumpri com o prometido. – pensou Jack, crispando os lábios numa linha.

"E vai deixar a moça escapar-lhe por entre os dedos? Ela viu o seu melhor amigo morrer para te salvar " protestou sua mente, fazendo Jack erguer a sobrancelha.

-Não lhe pedi nada! – contrapôs seco e, dando ombros, bebeu novamente.

"A quem você quer enganar, Jack Sparrow? Vai me dizer que esse gesto simbólico não mexeu com você? Aliás, você arriscou muito por ela durante esta viagem!" Jack escureceu o olhar. "Se ela não fosse tão importante para o grande capitão Jack Sparrow, você teria concluído o seu plano ao deixá-la naquela ilha, para poder usufruir sozinho da Mão de Midas!" A vozinha começava a irritar Jack, que rodou os olhos com a impertinência do seu subconsciente. "Reparei que, mesmo possuindo o objecto que toda a humanidade almeja, não está feliz. Por que será?" ironizou a vozinha, fazendo Jack bufar.

-Vá para o inferno! – rosnou Jack, batendo violentamente com a garrafa num dos armários.

XxxXxxX

-Conseguiram? – Will, impaciente, ajudava Elizabeth a sair do bote.

Com uma pose de pesar, Elizabeth passou a mão pelo rosto de Will, que suspeitou aquele gesto. Barbossa sorriu astucioso, vendo Bill cruzar os braços à espera da resposta. Pai e filho trocaram olhares comprometedores, que denunciavam a sua preocupação perante a falsa intranquilidade de Elizabeth e Barbossa. A tensão começava a crescer conforme o silêncio e o rosto significativamente suspensivo dela que, por fim, resolveu quebrar o suspense com uma agradável gargalhada. Bill e Will suspiraram mais tranquilos, seguindo o movimento da mão de Elizabeth que foi até ao decote e tirou uma pequena cápsula de vidro.

-Confesso que não foi fácil! – interviu Barbossa, substituindo o seu sorriso astucioso por um mais moderado.

-O que aconteceu? – inquiriu Bill franzindo a testa, em modos de curiosidade.

-Nada que não tenhamos resolvido com uma velha amiga. – Barbossa depositou a mão na sua espada, que permanecia em sua bainha, dando-lhe leves palmadas.

-Afinal o que se passou em concreto? – Elizabeth guardou o frasco novamente, perante a pergunta de Bill.

-Digamos que tivemos um pequeno contratempo com um bando de mortos-vivos, ou o que era aquilo, que nos barrou a saída. – Will a fitou inquietado, mas não teve tempo de se pronunciar: - Conseguimos nos livrar deles, Will, se é isso que quer saber. – Ela o fitou carinhosa e segredou num murmúrio: - Tive um óptimo professor que me ensinou pacientemente, durante longos dias em Port Royal, a manejar uma espada.

-Não há nada mais do que eu me orgulhe, do que ver que ensinei você a ser uma sobrevivente. – dito aquilo, ele tomou os lábios dela, num suave beijo, sentindo-a entrelaçar os seus braços no pescoço dele.

-Bem, meu caro, acho que temos alguns afazeres neste navio, você não acha? – sugeriu Bill, dando uma cotovelada discreta a Barbossa.

Este estreitou o cenho enrijecido em direcção a Bill, que fez uma indicação com a cabeça para o castelo da popa. Barbossa fez uma expressão de quem não estava entendendo o que o amigo queria dizer, continuando perplexo no mesmo sítio. Impaciente, Bill revirou os olhos, apontando discretamente o dedo para o castelo da popa, tentando se comunicar com ele por mímica. Barbossa continuou impassível, de braços cruzados, fitando o homem, que gesticulava feito um doido.

-Dá para ser claro, por favor? - solicitou tranquilamente, com não fosse nada com ele.

Abismado com a incompreensão do velho capitão, Bill bufou, decidido a empurrar Barbossa para longe do casal. Ao se aperceberem da agitação, Will e Elizabeth centraram suas atenções no sucedido, abrindo um sorriso animado, ao verem Barbossa e Bill discutirem, já no castelo da popa. Elizabeth estreitou então os seus lábios numa linha fina, adoptando uma expressão entristecida. Will estranhou a mudança da mulher e a encarou.

-Há algo que não está certo! – observou Will docemente, tomando o rosto da mulher nas suas mãos. – Elizabeth, o que se passa?

-O propósito da sua permanência por estes mares praticamente chegou ao fim! – Will ficou sério, vendo os olhos da sua esposa marejados. Rendido á situação, ele a abraçou, aproximando sua boca ao ouvido dela.

-Que tal tornamos estes últimos dias inesquecíveis, sra. Turner? – Ela arqueou a sobrancelha, surpresa, acabando por esboçar um sorriso recatado.

-Os seus desejos são ordens, capitão Turner. – Ela pegou na mão dele e o guiou até à sua cabine, distante dos olhares da tripulação, que preparava o navio para a longa noite.

XxxXxxX

O único navio onde, por milagre, a paz imperava, mesmo que temporariamente, era no Adriatic Sea. Silver manuseava sossegadamente o leme, sentindo no seu rosto a doce brisa do mar, que o envolvia no agradável cheiro a maresia. Durante os longos minutos que ali passou, Silver pensava nos planos para o resto da sua viagem e, suspirando retraidamente, ele voltou sua cabeça para trás, onde seus olhos recaíram numa mulher perdida em seus pensamentos, sentada no tombadilho do castelo de popa. Estella apreciava a linda lua cheia que iluminava uma boa parte do navio, respirando fundo. Sentia uma má disposição que a incomodou durante o dia todo, e mesmo agora não estava passando.

-Melhorou? – A voz dele fez Estella acordar dos seus pensamentos.

Silver não esperou resposta e, prendendo o leme, dirigiu-se até ela com passos prolongados. Estella seguiu atentamente cada passo que o homem dava, não tirando os olhos de seu rosto. Ao encurtar finalmente a distância entre eles, Silver colocou-lhe a mão sobre o rosto, acariciando-o. Ela ficou surpresa, mas não contestou-lhe o gesto, pelo contrário, agarrou-lhe a mão, levando-a até seus lábios e depositando-lhe um beijo suave.

-Tenho reparado que, nestes últimos dias, tem andado indisposta.

-São vários dias no mar, eu ainda não me acostumei. – Estella sentiu os lábios de Silver roçar-lhe o pescoço afectuosamente, murmurando:

-Em breve aportaremos em Alligator Pond…

-Não se esqueça do que me prometeu. – contestou Estella, fazendo um olhar significativo. Silver soltou um sorriso sonso.

-Sabe, eu prometo muita coisa, mas há uma em particular que gostaria de cumprir. – Ela cerrou o cenho, não percebendo aonde ele queria chegar.

-O que você quer dizer com isso?

-Eu nunca tive muito jeito para estas coisas, e creio que nunca virei a ter mas…- do bolso, Silver tirou dois anéis de ouro bem trabalhados. – Não há nada como tentar. – findou atrapalhado.

-Minha virgem de Guadalupe. – Estella levou a mão à boca emocionada, fitando os anéis que reluziam com a densidade dos reflexos da lua.

-Confesso que são roubados, mas isso agora não vem ao acaso. – Ele passou a mão pelos longos cabelos, continuando: - Ando com eles no bolso há uns dias, esperando pela oportunidade certa. – E num tom mais cordial proferiu: --Na condição de capitão deste navio, posso de fato levar a cabo um casamento aqui, neste convés, agora mesmo. Você aceita? Se não quiser eu posso…

-Claro que eu aceito – interviu Estella, ainda incrédula enquanto ele pegava na mão esquerda dela.

-Estella Neblon, aceita casar comigo, independentemente do que aconteça, até que a morte nos separe? – O jeito embaraçado de Silver, fez Estella sorrir discretamente, à medida que ele lhe enfiava o anel no dedo anelar.

-Aceito... – Ela pegou no outro anel que estava na mão de Silver, e lentamente foi enfiando-o no dedo deste: - Silver Villanueva, aceita casar comigo, sobre este magnífico luar, até que a morte nos separe? – Silver olhou-a durante alguns segundos, alargando por fim um sorriso maroto.

-Aye! – Finalmente Estella concluiu o trajecto do anel. Silver a beijou sem mais demora. - Considere-se a partir de hoje, uma Villanueva, minha cara.

-É um honra. – Silver a pegou ao colo, encarando-a seriamente. Embaraçada, ela baixou o olhar na direcção do peito dele, brincando com a gola da camisa de Silver.

-Está com vergonha de encarar o seu marido?

-Seu olhar tem várias sombras que me intimidam. – Ela ergueu o olhar, séria. - Eu nunca sei o que está por detrás de cada gesto simpático.

-Não tem que me temer. Eu sou simplesmente um homem do mar, que se deixou envolver por uma mulher que o acalma. – rebateu sem um pingo de perfídia no olhar. – E porque não é todos os dias que um pirata ama uma mulher. Todos nós cometemos erros, Estella, erros fatais que nos condenam a vida toda. Eu cometi vários erros por mero prazer, entretanto, o único prazer que me causa plena satisfação é ter você envolvida em meus braços, debaixo dos lençóis de minha cama. – Estella sentiu suas bochechas arderem, corando violentamente. – Não deixo de ser o mesmo homem que conheceu, mas talvez o meu coração não esteja tão negro como antes.

-Eu confio em você… – Ele a beijou novamente, não a deixando acabar a fala. Quando suas bocas se desuniram ele a fitou, maroto.

-Que tal a gente ir consumar o casamento, lá na minha cabine?

XxxXxxX

O rumo para a Enseada do Naufrago, traçado pelos dois navios, o Pérola e o Holandês Voador, foi feito sem nenhum contratempo. Embora navegassem de lados opostos do mar do Caribe, os navios mantinham uma velocidade relativamente veloz, pretendendo chegar ao seu destino o mais depressa possível, antes que o tempo do Will, sobre aqueles mares, terminasse.

Jack permanecia no leme, maneando-o cuidadosamente, ao apreciar as velas serem empurradas suavemente pelo vento ameno. A aurora fazia-se notar na linha longa do horizonte, contrastando com os enormes rochedos da fortaleza da Enseada. Foi então que, Jack cedeu o seu lugar a Cotton e, no seu passo peculiar, desceu as escadas para observar melhor o magnífico dia que se fazia notar. Ele centrou o olhar sólido nos rochedos desigualados, que ganhavam uma nova tonalidade dourada sobre o tom pardo característico da rocha. Com um olhar revoltamente sério, ele pensava em como tudo estava igual desde que tinham partido e, ao mesmo tempo, tão diferente.

Ele despertou de seu transe pelo movimento rápido de Gibbs, que se dirigia às escadas da escotilha, para ir ter com Perla. Jack enrijeceu o cenho ao lembrar-se de que há dias que não a via. Praticamente depois de terem conseguido a Mão de Midas, Perla permanecera trancafiada no quarto que tinha pertencido a Alessandro, invadida pelo sentimento de culpa. Lá, só Gibbs tinha permissão para entrar, e mesmo Jack, não tinha intenções de procurá-la. Queria dar-lhe espaço. Queria dar espaço a ele mesmo, para colocar em ordem o que tinha em sua mente confusa.

O navio foi consumido por uma onda de escuridão, ao atravessarem o amplificado túnel, que dava lugar à enseada. O cheiro a maresia tornava-se denso ali dentro, tomando conta da fresca brisa que vinha da saída do túnel. Jack fechou lentamente os olhos, sentindo nas suas faces o agradável toque da brisa, que fazia os seus adornos dançarem juntamente com o seu cabelo negros. Abrindo os olhos, ele deparou-se com o clarear do reflexo do mar e, mesmo à sua frente, uma ilha formada por velhos navios amontoados uns em cima dos outros, que tão bem ele conhecia.

-Capitão, chegamos! – informou Pintel correndo na sua direcção.

-Sinceramente, agradeço muito a sua caridade de me avisar, acho até que você merece um aumento pela sua eficiência. – Pintel encheu seu peito, sorridente, mas Jack encarou-o com um falso entusiasmo, e passado alguns segundos bufou. -Você acha que eu estou cego, criatura? – resmungou, esbracejando seus braços sobre o rosto.

-Não, capitão ….

-Então do que estão à espera? Tratem de amainar as velas. – ordenou, por fim, retomando seu passo. – E desçam a âncora.

-É impressão minha, ou o capitão está com um ligeiro mau humor? – analisou Ragetti indo ao encontro do amigo, que ainda continuava perplexo no mesmo sitio.

-Ele está assim há vários dias, que me lembre... – divagou Pintel, cruzando os braços e colocando a mão sobre o queixo. – Deve ser a falta de rum! – concluiu, como quem pensa num assunto sério.

-Ou falta de mulher. – Os dois olharam-se sérios, dando ombros. – Deve ser isso.

Alguém, com um passo silencioso, juntou-se a eles. Pintel e Ragetti não deram por conta da pessoa que se encontrava atrás deles, por isso continuaram com as suas divulgações.

-O capitão está acostumado a ver um bom par de ancas balançarem bem diante de seus olhos, se é que me entende. – Os dois riram dissimuladamente, enquanto Pintel, com as mãos, fazia no ar o movimento de umas ancas femininas.

A pessoa que continuava atrás deles, deu um sorriso cínico, á medida que subia lentamente suas mangas com as pontas dos dedos, para não chamar muita atenção dos dois.

-Sabe, há muitas vantagens em se ser capitão de um navio... – continuou Pintel – Eles têm direito a um quarto individual, longe da tripulação. De um bom terço do Rum do navio e, já para não falar, que toda a criatura feminina fica doida por um capitão que tenha um grande navio.

-Quando crescer, quero ser capitão de um navio. – Pintel estreitou o cenho, olhando pasmado para Ragetti, que tinha uma expressão pateta no rosto.

-Deixe de ser tolo, você já cresceu…- contrapôs Pintel, olhando-o incrédulo.

-Mas ainda não sou capitão.

-Pois não, mas é um grande idiota. – De repente, suas cabeças bateram uma na outra, num choque único.

Os dois caíram no chão, esfregando a parte das suas cabeças atingidas, para aliviar a dor que estavam sentindo. Ambos olharam para cima, mas apenas viram a sombra de um vulto que permanecia diante deles, tapando o sol. Pintel, ainda de olhos semicerrados, resmungou:

-Eu juro que castro o idiota que fez isso!!

-Acho que antes de me castrar, você terá virado comida de tubarão. – Pintel e Ragetti reconheceram a voz e, num pulo, trataram logo de se levantar.

-Capitão!

-Há alguma um razão em especial para vocês, madames, não estarem a cumprir o que vos pedi? – Com um olhar dissimulado encarou os dois. – Ou o senhor Ragetti, acha que já cresceu o suficiente para se sentir na condição capitão do navio? – os dois continuaram calados. – Quero este navio aportado ainda hoje, savvy?

-Certo, capitão! – retrucaram em uníssono. Jack apenas olhava de um para o outro, com a sobrancelha empinada.

-Muito bem, já que estamos entendidos, avisem-me quando o Holandês Voador chegar. – Eles apenas anuíram.

Jack girou nos calcanhares e foi directo para a sua cabine, fechando a porta num estrondo.

-Eu votava em você para capitão do navio. – pronunciou Pintel, não pestanejando.

-Acho que assim, serão três votos. – acrescentou Ragetti com um ar faustoso.

-Três? – indagou Pintel confuso, direccionando o olhar lentamente para o amigo.

-Sim, se souber subornar bem, o macaco e o papagaio do Cotton votarão em mim. – O sorriso de Ragetti elevou-se de orelha a orelha, para espanto de Pintel

-Uaauh, que votos tão credíveis. – contestou Pintel, rodopiando os olhos. – E daí que não deve ser má ideia. Vamos mas é trabalhar, depois pensamos nisso.

XxxXxxX

Sob os lençóis de linho, Will apreciava sua mulher dormir tranquilamente entre seus braços. Numa expressão séria, ele fitava profundamente o tecto de seu aposento, enquanto acariciava continuamente o braço dela, parando apenas quando a sentiu mexer um pouco. Levemente ele afagou-lhe os cabelos loiros dela vendo uma ruga de preocupação se formar no rosto alvo de Elizabeth. Com um gesto suave, Will tratou de a alisar com o polegar, apercebendo-se que sua mulher abria dificultosamente os olhos, que logo recaíram sobre os seus. Ela abriu um sorriso recatado, beijando-lhe delicadamente o peito moreno á sua frente e, sem nada dizer, levantou um pouco o tronco para encarar o marido, que continuava com um agradável sorriso no rosto.

-Bom dia, Capitão Turner. – Ela depositou carinhosamente os seus lábios sobre os dele.

-Bom dia, Capitã Turner. – Will agarrou-a delicadamente pela nuca, fazendo-a deitar-se no seu peito. – Dormiu bem?

-Optimamente! Não há melhor conforto do que seus braços. – Sentiu ele roçar seus lábios no pescoço dela, o que a fez automaticamente fechar os olhos com o toque. – Will, agora não, por favor, temos de nos preparar. Estamos quase chegando á Enseada dos Náufragos.

-Não se preocupe…- ele a jogou lentamente ao seu lado, depositando seu corpo moreno sobre o dela, o que fez Elizabeth estremecer-se – Embora o tempo seja curto, nós ainda temos algum tempo para nossa despedida…

-Não me lembre disso! – Elizabeth agarrou os ombros do marido, apertando-o com força contra seu peito. –Não quero perder você novamente, Will!

-Isso não acontecerá porque, apesar da distância que teima em nos separar, meu coração estará sempre com você – Ela beijava os ombros torneados do marido, com um olhar perdido e arrepiou-se quando Will lhe soprou em seu ouvido: - Ele sempre te pertenceu.

Seu coração descompassou-se por completo ao senti-lo explorar cada parte de seu corpo numa maneira delicada, que fazia Elizabeth beijá-lo de uma forma intensa. Ela tentava com todo o ímpeto, decorar cada toque, cada beijo, cada sensação passada naquela cama, nos braços fortes de seu marido, para que, mais tarde, pudesse recordar aqueles momentos prazerosos com tanto ardor, abraçada à sua própria dor.

Quando a situação começou a ficar irrefreável para ambos, que expunham seus sentimentos de uma maneira tão clara e sôfrega, alguém bateu á porta.

-Capitão Turner, estamos chegando. – Do outro lado da porta, uma voz grossa informava.

Não obtendo nenhuma resposta, Barbossa arqueou a sobrancelha olhando manhosamente para a porta que permanecia intacta, sem mesmo ouvir algum tipo de barulho vir do outro lado. Estalando os dedos, fitou o macaco, agora com um sorriso malicioso e voltou a bater.

-Eu não sei se vocês ainda estão dormindo – ironizou. –, mas já entramos na gruta que dá acesso à Enseada, espero que não nos deixem esperando.

-Só mais…só mais um minuto. – pediu Will com sua voz ofegante, beijando Elizabeth que arranhava marotamente as costas do marido, com um sorriso malicioso.

-Muito bem, estaremos lá fora á espera, não se demorem com a vossa despedida. – comunicou ele dando uma volta completa com os calcanhares, e subindo por fim as escadas.

Will ouviu as passadas secas distanciarem-se, mas não se importunou muito com isso. O que ele queria mesmo era apreciar o momento com Elizabeth, principalmente cada toque, cada beijo, até tudo terminar numa misto de prazer e ternura.

XxxXxxX

-Barbossa, Will já está pronto? – perguntou Bill, indo ao encontro dele.

-Acho que está tratando das despedidas. Você sabe, não há melhor despedida do que no leito da cama. – proferiu num tom de escárnio, o que fez Bill cruzar os braços, abanando divertidamente a cabeça.

-Não me diga que você foi interromper?

-Claro que não, longe de minha humilde pessoa estragar um momento como esses. Apenas tratei de os…apressar, se assim posso dizer. – Os dois sorriram de encontro com o sol, que o fim do túnel proporcionava.

XxxXxxX

Elizabeth acabava de prender o cabelo no coque, num puxo bem amarrado, deixando apenas que suas repas lhe escapassem para o rosto. Pelo espelho, ela viu Will abrir uma gaveta, de onde tirou um papel selado e um colar que ela tão bem conhecia. Ela voltou-se para ele, e viu-o olhar fixamente para a carta, fechando a gaveta lentamente. Will foi ao encontro da mulher, esticando-lhe a mão com a carta e o colar.

-Como estamos chegando ao Natal, eu decidi te oferecer isto. – Ela viu que o colar tinha o formato de um coração.

-Isto é…

-O amuleto de Calypso, a caixinha de música que ela e Davy Jones tinham em comum, para que não se esquecessem um do outro. – Ele deslocou um pouco sua camisa vermelha, onde uma caixinha igual a que ele tinha na mão, permanecia. – Quando ela se transformou em milhares de caranguejos, eu vi que Calypso tinha deixado isso no Pérola Negra e decidi guardar.

Ela abriu a caixinha de onde saiu uma melodia melancólica e envolvente. Ela sentiu seu coração ficar pequenino ao sentir a música embalar o ambiente penoso. Uma lágrima escorregou-lhe desesperadamente pelo rosto, mas o polegar do marido logo se encarregou de a amparar. Will pegou no colar, e viu Elizabeth virar costas e arrastar o cabelo para o lado, a modos que Will pudesse prender o colar em volta de seu pescoço. Vendo o amuleto finalmente em seu pescoço, ela voltou-se para Will e fechou a caixinha de música na última nota.

-Obrigada... – murmurou ela, quase num soluço angustiante.

-Leia esta carta quando tiver sozinha. – Ele entregou, por fim, a carta a Elizabeth, que a recebeu com um abanar afirmativo de cabeça.

-Eu a lerei com muito cuidado, prometo. – Elizabeth beijou Will. – Agora vamos, temos o Pérola a nossa espera amor. – Com um sorriso condescendente, eles saíram dos aposentos.

Olaaa!!

Pois é…aqui está um capítulo dedicado ao amor e às pessoas apaixonadas rsrs. Piratas do Caribe não pode ser sempre aventuras e acção, temos de adoçar com um pouquinho com uma pitada de romance…logo eu que sou uma apaixonada incondicional rsrsrs.

E cá está novamente o casal Estella e Silver para quem estava sentindo falta dele \o/ ehehe.

Quer o dedicar este capitulo á Carlinha que me pediu uma cena Will e Elizabeth… :)

Agora, eu quero agradecer de coração a todos os que continuam lendo e deixando uma review fofa. Carlinha, Ieda, Fini Felton, Rô, Bruno, Likha Sparrow, Jane, Dorinha, muito obrigada.

Próximo capítulo que ainda não tem nome, vai ser postado mais cedo que este…assim o espero.

Beijokas grandes e fiquem bem

Taty Black