Capítulo 25 – Despedida!
No Pérola Negra, Gibbs convencia Perla a sair daqueles sombrios aposentos, informando-a de que já tinham chegado à Enseada Naufrágio. Diante de tal notícia, ela cedeu à insistência do homem, saindo por fim daqueles aposentos. Seu corpo tremia a cada passada que dava, lembrando-se da possibilidade de dar de cara com Jack. Sentiu suas faces corarem radicalmente ao se lembrar da conversa ocorrida na praia, no dia em que ela resolveu revelar os seus mais profundos sentimentos, sem o menor pudor. Agora, naquele momento, isso parecia sugar-lhe as restantes forças que a faziam pisar firme no chão negro do navio. Seu coração acelerou ao subir as escadas da escotilha, e estreitando o olhar ao sol forte, deparou-se com o convés um pouco movimentado. Todos preparavam o navio para aportar, mas nada de Jack no convés.
-Jack está na sala principal, caso queira saber. – informou Gibbs ao vê-la procurar discretamente por ele.
-Não estava à procura dele, sr. Gibbs. Estava apenas a observar o ambiente, nada mais. – mentiu ela num entoação rude e impassível, retomando o passo.
-Teimosa como a mãe. – murmurou Gibbs ao dar ombros, deixando-a sozinha.
Despercebidamente, e longe da vista de Gibbs, Perla aproximou-se da porta da sala principal. Hesitante, Perla cogitou se batia ou não na porta. Seu coração parecia que ia sair pelo peito, o que a fez recuar a mão, fechando-a num punho. Ao respirar fundo, para não trespassar seus nervos, aproximou lentamente sua mão da maçaneta, mas parou ao sentir que não estava preparava para falar com ele.
Para sua surpresa, a porta abriu-se de rompante e um capitão, meio trôpego, apareceu do nada. Perla estremeceu ao ficar frente a frente com ele, que parou diante dela, olhando-a de cima a baixo com o rosto fechado e a sobrancelha arqueada. Ambos fitaram-se emudecidos, observando as feições que cada um expunha no rosto.
-Ora, decidiu sair de seu cubículo e juntar-se a nós, alteza? – As palavras saíam de um modo seco, o que a fez olhar para o lado.
-Só vim saber o que estava a pensar fazer. – murmurou Perla, continuando sem o encarar. – O capitão Turner ainda não chegou?
-Eu ainda não vi nenhum balde por ai! – ironizou num tom de escárnio ao olhar para os lados, como quem procura algo. - Muito menos aquela alforreca gigante que se dá pelo nome de Barbossa.
-Os Lords Piratas estão dispostos a nos seguir, depois do Holandês Voador voltar ao seu percurso? – Perla olhou para além da amurada do Pérola, vendo outros navios aportados ali perto.
-Sabe darling, apesar do Pérola Negra ser o navio mais veloz do Caribe, eu não creio que seja o suficiente para derrotar uma frota de cinco navios. – Jack fez um gesto para que Perla saísse de seu caminho e continuou o seu curso. – Por isso, claro que eles irão com a gente. – Ele deteve-se ao ver o Holandês Voador sair do túnel. – Isto sim, é o que eu chamo eficiência. – murmurou com um grandioso sorriso.
-O quê? O que quer di… - Perla virou-se repentinamente na direcção de Jack, percebendo o porquê daquele sorriso. – Graças à Virgem de Guadalupe.
Não demorou muito para que o Holandês Voador atracasse perto do Pérola Negra, onde uma tábua foi lançada para que Barbossa, Elizabeth e Will passassem para o navio. Com o seu andar peculiar, e de braços abertos, rodando-os no ar, Jack recebeu-os.
-Vejo que conseguiram! – disse Jack ao parar diante de Barbossa, que batia com as Cartas de Navegação na mão.
-Sentiu saudades minhas, meu caro. – requestou Barbossa com um sorriso sarcástico nos lábios. Jack mostrou os dentes, numa forma de desprezo.
-Nem sabe o quanto, caro Hector. Acho que nem dormi só de pensar na falta que você me fazia. Para você ver o efeito que tem sobre minha pessoa. – ironizou ao ver o velho amigo aflorar um sorriso de desdém.
Perla aproximou-se do grupo, com um discreto sorriso, não escondendo o imenso interesse que tinha em ouvir as supostas histórias fascinantes, que aquelas pessoas tinham para contar.
-E então, como correu? – indagou ela, vendo a atenção de Jack virar-se para o casal Turner.
-Apesar de alguns contratempos, conseguimos o reverso da Fonte da Juventude. – Elizabeth desviou o olhar para as Cartas. – E com um pouco sorte, conseguimos as Cartas de Navegação, para que não fiquem à mercê de piratas como Black Dog.
-As minhas Cartas de Navegação! – Jack, num tom animado, ia em direcção de Barbossa, gesticulando os dedos ansiosamente.
-Correcção, as minhas Cartas. – Barbossa afastou as Cartas dos dedos grossos de Jack.
-Minhas Cartas…
-Minhas, você as roubou de mim! – retrucou vendo Jack fazer um olhar de falsa admiração.
-Protesto, difamação e calúnia. – rebateu Jack, de olhos arregalados, fingindo-se de ofendido.
-Ahh, Jack, eu achava que nós já tínhamos superado isso. Sempre deixei claro que queria recuperar as Cartas, por isso…
-Ora tem razão. Você já tem as Cartas, e eu o MEU navio para singrar os mares até aos limites do mundo, sem rumo certo. - Jack colocou a mão sobre o queixo, pensando: - Mas antes, não posso me esquecer de te deixar em plena terra, para você seguir sua vidinha chata, com suas Cartinhas e viver feliz para sempre – Barbossa ia contestar, mas Jack terminou: - Uma boa perspectiva de vida, você não acha? – E irónico, concluiu: - Mundo estranho, não?
-O navio é MEU por direito!!
-Agora sou eu que lhe faço uma sugestão: Não desanime, meu velho, com a maré de sorte que tem tido, talvez se pedir muito, as Cartas de Navegação tenham o poder de se transformar num grandioso navio. E ai sim, eu não ficarei com remorsos por te deixar na próxima ilha.
-Não querendo interromper a vossa agradável palestra, mas já interrompendo, eu só queria alertar que há assuntos mais importantes a debater, do que discutir de quem é o navio. O tempo do Sr. Turner, infelizmente, está a terminar.
Ao ouvir aquelas palavras, Elizabeth olhou de relance para Will, apertando-lhe a mão com força, para sentir que ele ainda permanecia ali, ao seu lado. Ao sentir a inquietação da esposa, ele confortou-a, afagando-lhe com a mão, os cabelos loiros.
-Infelizmente, a srta. Bonny tem razão. – Arrematou Will, num lamentável suspiro. – Tenho de partir. – Ele encarou Elizabeth, dócil, mas ao mesmo tempo com uma grande angústia. – Você já está entregue!
Elizabeth sentiu um grande vazio dentro de si, à medida que uma explosão de sentimentos aflorou em sua pele. Sem conseguir se conter, deixou que seus olhos demonstrassem a tristeza que estava a sentir, derramando as vertentes lágrimas que bailavam em seus olhos. Gentilmente ele soltou-se da mão dela, caminhando até Jack. Ambos trocaram olhares significativos, acompanhado por um sorriso recatado.
-Pois é…- pigarreou Jack, colocando a mão fechada á frente da boca. – O capitão Turner vai voltar para o seu submundo, deixando assim o mundo comum dos mortais. – Jack deu uma palmada leve nas costas de Will. – Em breve, terá a simpática companhia de Black Dog na sua travessia.
-Ele já tem um lugar reservado. – Os dois apertaram as mãos, em forma de despedida e, num murmúrio, segredou: - Vou-lhe pedir um último e único favor.
-Se é para manter uma certa donzela qualquer coisa em segurança, não se preocupe. – Will largou um sorriso mais descansado, virando-se para Perla que permanecia imóvel, perto de Jack.
-Senhorita, desejo sinceramente que encontre sua irmã.
-Obrigada capitão Turner. – Ele tomou a liberdade de lhe pegar a mão dela, depositando-lhe um respeitável beijo.
Virou-se finalmente para se despedir de Barbossa e Gibbs, até encarar Elizabeth, que permanecia desamparada. Vê-la assim, fez sua alma ficar pequena, e apostou que, se tivesse coração naquele momento, ele estaria comprimido algures em seu peito.
Sem contar, ela apressou-se até seus braços, entrelaçando as suas mãos sobre o pescoço dele. Num gesto terno, ele encostou sua testa á dela, afagando-lhe carinhosamente os cabelos loiros. Por eles, ficariam assim, durante toda a vida, sentindo a respiração cortada vinda de cada um, mas infelizmente o destino não permitia tal ventura. Ele desviou um pouco o olhar para o Holandês Voador, suspirando.
-Está na hora, amor. – Elizabeth apenas assentiu com a cabeça.
Will descolou-se gentilmente e ergueu o queixo dela com o dedo indicador, para que ela o encarasse. Os olhos dela permaneciam toldados de água, pronta a quebrar.
-Me espere no lugar onde combinamos!
-Estarei lá á sua espera. Eu e William. – certificou Elizabeth.
Will soltou um leve sorriso assomado por uma profunda tristeza, á medida que encostava os seus lábios nos dela, dando-lhe um longo beijo cálido. Elizabeth fechou os olhos para saborear o curto momento que ele lhe proporcionava, mas logo sentiu Will desunir sua boca da dela, lentamente. Ela continuou de olhos fechados, temendo abri-los e ver que Will já não se encontrava ali. Por fim, abriu-os vendo que ele estava a atravessar a tábua que unia os navios. No meio da travessia, ele olhou para trás, para marcar bem as feições da jovem mulher em sua mente e, com um sorriso encorajador, Will ganhou forças para continuar sua travessia.
-Nove anos passam a voar, minha cara. – Elizabeth olhou surpresa para Jack, que se colocava a seu lado. – Não me olhe assim, eu ainda tenho coração, darling. – murmurou num tom franco.
-Eu sei Jack, você tem um bom coração, e já demonstrou isso várias vezes.
-Mas não vá dizer isso para todo mundo. Você sabe, pode manchar minha reputação. – Apesar do momento ser duro para Elizabeth, Jack conseguiu roubar um sorrido do rosto da jovem.
Do outro lado, Will dava ordens para a tripulação, não conseguindo tirar os olhos da amurada do Pérola Negra, onde Elizabeth permanecia, observando tristonhamente cada movimento do marido.
-Preparem-se para submergir. Vamos voltar para onde sempre pertencemos.
-Aye, capitão. – retrucou Bill, sentindo a tristeza nas palavras de Will.
Nos segundos que se seguiram, o Holandês Voador desapareceu por entre os mares da enseada, perante os olhares de todos os Lords e da tripulação do Pérola Negra. Elizabeth continuou com o olhar perdido no sitio em que o Holandês, minutos antes, tinha estado, permanecendo com as mãos trémulas pousadas sobre a amurada. Só a voz de Jack a fez despertar do transe que tinha criado.
-A caça ao tubarão grande começou. – debochou Jack com um sorriso sardónico nos lábios, o que fez Barbossa concordar.
-Já temos as iscas, falta lançá-las, meu caro. E logo teremos Silver preso na nossa rede. – Jack estreitou o olhar, fitando de relance Barbossa, que mantinha uma pose altiva.
-Desde quando conhece de pesca? Não me diga que foi pescador antes de virar pirata? – inquiriu Jack com os seus trejeitos sarcásticos. - Por isso que o seu passado é desconhecido para todos…
-Não é preciso conhecer de pesca para saber que nestes mares existe uma espécie rara, que todos os piratas querem ter o prazer de caçar. – rebateu, olhando para o mar reluzente da enseada.
-Silver já teve o seu tempo de glória! Chegou a nossa vez de lhe mostrar que o Código é a lei, e que ninguém o insulta deste jeito. – retrucou Elizabeth com secura.
-Ela está parecendo meu pai e isso sim, me assusta terrificamente. – murmurou Jack com o olhar franzido.
-Ele terá o que merece, sra. Turner. – arrematou Perla. – E nós seremos os piratas abençoados, que findaram com a raça dele.
-Boas falas, minha cara, se me permite avaliar. – rebateu Jack, fitando-a maroto. – Espero que as ponha em prática quando estiver frente de Black Dog.
-Falar nisso, Jack, conseguiram a Mão de Midas?
-Até me ofende perguntando isso. O que o grande, o charmoso e glorioso Capitão Jack Sparrow não consegue, darling? – declarou ele ao passar as pontas dos dedos no bigode, adoptando um ar convencido. – Embora duas estátuas tenham se apaixonado por mim, e uma Deusa tenha caído de encantos pela minha evidente beleza, eu consegui a Mão de Midas.
-Perdão? Deve haver aqui um súbito engano! – contrapôs Perla abismada com o descaramento de Jack. – EU consegui a Mão de Midas e, se Alessandro não tivesse dado a vida para nos manter a salvo, NÓS teríamos morrido naquela ilha.
-Eu não olharia por esse ângulo, amor. – contestou Jack, arregalando os olhos ao fazer beicinho. – Além do mais, os fins justificam os meios, não é verdade?
-Eu não vou discutir mais com você, cansei da sua falta de dignidade e de bom-senso. – Ela dirigiu sua atenção à Elizabeth. – Se quiser ver o objecto, eu lhe mostro. Apenas peço que me siga.
Perla virou de costas para Jack, que mantinha seus dedos estendidos no ar para lhe responder. Elizabeth deu ombros para ele, que parecia erecto, com uma expressão de falso amuo, e seguiu Perla até à sala principal. Lentamente, Jack baixou os seus dedos indicativos, cerrando as mãos num punho.
-É Jack, acho que arranjou uma mulher á sua altura. – debochou Barbossa, divertido. – Mundo estranho não? – ironizou, manhoso.
-Estranho demais para haver pessoas abelhudas como você habitando ele. - protestou Jack começando a andar, mas como quem se esqueceu de algo, Jack voltou para trás. – Contudo, faça um favor à humanidade e vá avisar os Lords que partiremos ainda esta tarde. Quanto mais depressa melhor, savvy?
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-Bom dia! – saudou Silver ao ver Estella abrir lentamente os olhos, numa fissura.
-Bom dia!
Estella notou que Silver já se encontrava vestido, com uma bandeja cheia de coisas apetitosas. Ele pousou-a na mesa, enquanto Estella se sentava aconchegadamente na cama, acomodando-se na almofada. Silver sentou-se em frente dela, agarrando-lhe as mãos suavemente, o que a fez estranhar tal atitude. De fato, Silver tinha mudado muito com ela, e isso a fazia sentir-se mais confortável perto dele, não se recriminando pelo fato de ter escolhido ficar ao seu lado, mesmo depois de tudo o que ele tinha planejado.
-Nunca vi ninguém dormir tanto, mesmo depois de uma noite agitada! – Ela sentiu suas fases corarem violentamente, o que o fez sorrir com malícia.
-Eu nunca fui de dormir muito, mas confesso que, nestes últimos dias, as minhas pálpebras têm pesado muito. – murmurou Estella, fechando as pálpebras bruscamente, para que o formigueiro em seus olhos passasse.
-Isso é por causa da monotonia do navio, dá moleza. – Ele chegou perto dela e mordiscando-lhe o lóbulo da orelha, murmurou: - Em menos de dois dias estaremos em Alligaton Pond.
-Que boa noticia! – Os olhos dela cintilaram ao ouvir tais palavras. – Não vejo a hora de aportamos. Preciso ver terra, senti-la sob meus pés…
-Está a querer me dizer que se sente mais livre em terra do que no mar? – interveio Silver, arqueando a sobrancelha, fingindo-se amuado. – Não sabia que seus gostos eram tão diferentes dos meus.
-Perspectivas diferentes, meu amor. – Estella passou a mão na face dele, para desfazer uma ruga de expressão que se formara. – Pense que somos como um Yin Yang. Apesar das diferenças que ambas as partes carregam, elas acabam sempre por se completar uma á outra, numa união perfeita.
-Belas palavras. – Silver acabou por alargar um agradável sorriso ao beijá-la de surpresa. – Mas nunca fui homem de acreditar na atracção de opostos…
-Nem mesmo com o nosso caso? – interpelou-o, fazendo beicinho.
-Sabe Estella, você às vezes consegue confundir a minha cabeça. E olhe que isso é muito difícil de acontecer – Ela devolveu-lhe o sorriso discreto, vendo-o levantar-se para pegar a bandeja. – Agora, coma tudo o que está aqui.
-Não tenho fome… – contestou ela, contraindo seu rosto numa careta. - por enquanto
Para falar a verdade, o que ela sentiu ao ver o que a bandeja continha, foi seu estômago voltear, dando-lhe uma náusea insuportável. Ela levou disfarçadamente a mão à boca, respirando fundo. Isso passou despercebido a Silver, que voltou a pousar a bandeja na mesa.
-Isto ficará aqui, para quando quiser comer. – Ela consentiu com a cabeça. – Eu vou agora dar ordens á minha tripulação, mais logo venho ter com você. – Silver depositou um beijo rápido no cimo da cabeça, saindo pela porta.
-O que se passa comigo?
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Os dois dias que Silver estipulou para a sua chegada à ilha da Jamaica, mais precisamente em Aligattor Pond, passaram a voar. Silver fazia o possível para apressar o Adriatic Sea, que cortava ferrenhamente as águas do mar do Caribe, a modos de chegar no tempo preciso. Estella, que não apreciou directamente o caminho para a ilha, ainda encontrava-se retirada no quarto. Sentia-se zonza cada vez que tentava pôr um pé fora da cama e seu estômago continuava volteando, quando Silver lhe trazia uma agradável bandeja do pequeno-almoço. Ela fez os possíveis para que aquilo tudo passasse despercebido a Silver, pois não o queria preocupar com seu estado de saúde, mesmo que não se tratasse de algo irrelevante.
Na manhã do segundo dia, Silver acordou-a delicadamente, dando-lhe a notícia que tinham finalmente chegado. Ao abrir um exuberante sorriso, Estella tratou de se levantar, mas caiu sobre os braços de Silver, que a sentou na cama.
-Você fica aqui. – acomodou ele, passando-lhe a mão pelo incompreendido rosto de Estella.
-Por que tenho de ficar aqui? Silver, eu preciso andar um pouco. – com o cenho franzido, ela concluiu: - continuo a ser sua prisioneira? Pensa que eu vou fugir, é? Silver eu só quero…
-Não é nada disso. – intercalou ele, colocando-lhe os dedos sobre a boca dela. – Eu e os meus homens vamos ver se esta aldeia representa alguma espécie de perigo. Temos de ser cautelosos, todo o cuidado é pouco. – Estella desfez-se do rosto vincado ao suspirar aliviada, anuindo.
-Está certo. Mas não demore muito, eu não quero ficar tanto tempo sozinha. – Ela tomou a mão dele, beijando-lhe a ponta dos dedos.
-E não ficará, deixarei dois dos meus homens mais bravos aqui. – Ela arregalou os olhos, preocupada. – Não se preocupe, eles não se atreveram a tocar na mulher do capitão, se não já sabem o que lhes acontecerá.
-Fico mais descansada. – Ele delineou um sorriso maroto nos lábios, afundando-os nos da mulher ao beijá-la intensamente.
-Eu voltarei muito em antes do que espera.
Dito aquilo, saiu disparado do quarto, deixando-a sozinha, com o olhar perdido na porta, que bateu num som seco. Encolheu-se sobre os lençóis, indo ao encontro da parede de madeira, encostando suas costas lá, à medida que dobrava os joelhos para pousar o queixo neles. Estella sorriu ao pensar que, dentro de breves momentos, poderia pisar terra novamente, sentir a grama fresca sobre seus pés e correr livremente sem ninguém a repreender. Lentamente, ela baixou o olhar em direcção à barriga, colocando a mão sobre ela. Suspirando, murmurou:
-Se eu não amasse tanto esse homem, juro que fugia daqui para nunca mais ele me achar.
Lá fora, Silver reunia sua tripulação.
-Quero que tomem posse de Alligator Pond! Não quero ver um único ser vivo naquela maldita aldeia. – berrava Silver, com um semblante marcado pela crueza, que se tinha extinguido dentro dele, andando de um lado para o outro. – Não quero falhas, muito menos que deixem alguém escapar. Entendido?
-Aye. – retrucou a tripulação em uníssono, com urros vitoriosos, enquanto erguiam suas espadas e mãos no ar.
-Então do que estão á espera? Vamos seus cães sarnentos! – Ele soltou um sorriso malicioso ao ver a sua tripulação descer enraivecida
Reconheceu que aqueles homens tinham uma enorme ânsia por derramar sangue inocente sobre as terras verdes da ilha, sem a menor marca de arrependimento. Sabia que sua tripulação estava impaciente, queriam sentir novamente aquela sensação de prazer quando trespassavam, sem dó nem piedade, suas espadas nos corpos inofensivos, analisando gloriosamente as expressões macabras que essas pessoas exibiam ao serem mortas a sangue frio. Com o mesmo sorriso malicioso, Silver começou sua caminhada, mas parou no meio, olhando para a escada da escotilha.
Foi nessa altura que, em sua cabeça, uma pequena luz se formou. Tinha feito uma promessa a Estella, na qual lhe daria paz. Uma vida que não fosse marcada pelo interminável rasto de sangue que iria, de certa forma, manchar a relação que tinham criado. Ele abanou negativamente a cabeça, lutando contra aqueles pensamentos. Sempre tinha sido um pirata cruel, e já o era antes de conhecer Estella. Piratas não mudam, suas naturezas são indolentes. Traçam o seu próprio destino com a espada que embainham na cintura, a única amiga que eles tinham e confiavam. Decidido, ele desembainhou a sua, retomou seu paço em direcção à tábua que unia o cais ao navio.
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A poucos quilómetros dali, um navio negro, acompanhado de uma enorme frota, vagueava em direcção à Jamaica, guiados pela inconfundível bússola, a fim de colocar em prática o plano que tinham traçado. Elizabeth, Barbossa e Perla encontravam-se reunidos na cabine principal do Pérola Negra, discutindo como deveriam usar o "factor surpresa" perante Black Dog, que se encontrava já aportado na longa costa da ilha.
-Eu acho que neste caso, o factor surpresa, não terá resultado. – contestou Perla, fitando cada um dos presentes, atentamente. – Black Dog sempre esperou que eu o procurasse para lhe entregar o amaldiçoado objecto.
-Nesse ponto, ela tem razão. – arrematou Barbossa, com uma pose robusta. – Suponho então que teremos de jogar pela nossa própria sorte e pedir aos céus que nos protejam.
-Só nos resta usar a Mão de Midas como isca para salvar a princesa, e arranjar uma manobra de diversão para fazer Black Dog beber o conteúdo da cápsula.
-E como pensa fazer isso? Vai chegar perto de Silver e dizer: Olá caro amigo! Além da Mão de Midas nós fizemos a generosidade de te trazer o reverso da Fonte da Juventude. Quer fazer a gentileza de dar um pequeno golinho e se transformar num mero mortal, para a gente te matar de uma vez por todas? – gracejou Jack com seus trejeitos, vendo todo mundo sério com a representação dele.
-Apesar de suas brincadeiras desnecessárias, num ponto você tem razão: como vamos fazer para ele beber a água? – A sala ficou em silêncio, com a questão de Elizabeth no ar, pensando na possível resposta.
-Já ouviram falar em táctica de improviso? – sugeriu Perla quebrando o silêncio e cruzando os braços pensativa.
-Como assim?
-Quantos de nós já planejou certos esquemas e nunca deram certo? – Jack estreitou o cenho, seguindo o raciocínio de Perla. - O que adianta estarmos aqui a planejar algo, se nem sempre as coisas correm como tal? Temos de improvisar, ser práticos e arriscar. As coisas correm sempre muito melhor. Isto, claro, sem colocamos ninguém em risco. – Todos naquela sala analisaram a expressão vincada que expunha no seu rosto.
-Gosto da sua maneira de pensar. – retrucou Jack com um sorriso no canto da boca, direccionado para ela, que lhe retribuiu sem o menor esforço. – Não é á toa que é filha de pirata. Não só pensa como uma, age com tal. Está aprendendo depressa, minha cara.
-Obrigada, capitão Sparrow, digamos que tenho um bom professor. – ironizou ela ao desviar o seu olhar do dele para encarar os restantes, com um leve entusiasmo. – O que me dizem?
-Arriscado, mas infelizmente não nos resta opção. – Alguém interrompeu Elizabeth, com o bater seco da porta. – Entre! – A porta entreabriu-se num ranger e, de lá, apareceu Gibbs.
-Senhores – sorriu agradavelmente. – Senhoras. – acentuou olhando para as duas mulheres. – Estamos perto de alcançar o nosso objectivo. Já avistamos o Adriatic Sea, mais os seus navios.
-Maravilhoso. – murmurou Perla expondo no olhar, um cintilar ansioso.
-Alguma ordem para ao navio?
-Abrandem a velocidade, isso nos dará tempo para chegar com tranquilidade e, preparem os canhões para qualquer eventualidade, se é que me entende.
-Com certeza. – Gibbs saiu novamente, deixando os quatro na ampla sala.
-Quanto aos Lordes, ele irão connosco?
-Ficaram nos seus navios, enquanto a nossa tripulação vai tratar de assuntos importantes com um certo peixinho raro. Caso o peixinho estique demasiado a corda, aí sim, alguém irá chamar a Corte, para que esta entre em acção, tal e qual como nos velhos tempos. – rebateu Jack com escárnio.
-Tempos indulgentes! – murmurou Barbossa, trocando um sorriso recatado com Jack, que o entendeu. – Incrivelmente indulgentes e memoráveis.
-Bom, já que está tudo resolvido, ou quase tudo. Vamos preparar a nossa ida á ilha mágica e resolver os nossos assuntos pendentes.
-Aye. – concordou Elizabeth. – E Jack, não se esqueça da Mão de Midas. – Dito aquilo, saiu, indo até à porta na companhia de Barbossa, deixando Perla e Jack para trás.
Eles apenas olharam-se por instantes e, por momentos, Perla abriu um sorriso para ele. Lentamente aproximou-se de Jack, ainda retraída, não sabendo se era mesmo aquilo que queria fazer. Jack apenas apreciava cada movimento dela, fazendo-o de maneira desapercebida. Perla parou diante dele, continuando de braços cruzados.
-Obrigada Jack... por tudo. – murmurou ela num sussurro, fitando atentamente os lábios dele.
Jack elevou o seu olhar perdido ao encontro da profundidade dos dela, notando o quanto estava próxima. Perla desviou rapidamente o seu olhar para o lado oposto, mas Jack segurou-lhe o seu rosto com as mãos, prendendo-a ao seu olhar. Se beijá-la significava uma tremenda loucura, então Jack tinha a certeza que estava completamente ensandecido por aquela mulher. Mesmo que tentasse lutar contra aquela situação ou até mesmo tentar obter o controle de si mesmo, aquele desejo parecia ser mais forte que sua própria vontade, tomando completamente sua mente insana.
Perla fechou inconscientemente os olhos, sentindo por fim, os lábios de Jack mergulharem nos seus. O beijo tornou-se cada vez mais intenso e, de certa forma saudoso, o que fez Perla enlaçar os braços no pescoço dele, para que aquele momento pudesse durar, não eternamente, mas por uns bons momentos.
Jack arregalou os olhos, afastando gentilmente sua boca da dela, ficando a milímetros de distância. Os dois ficaram em silêncio, numa maneira de tentarem adivinhar qual o pensamento que pairava na mente do outro. Jack passou suavemente o dorso da mão sobre a face da ferida dela, observando-a com atenção. Ela colocou a mão sobre a própria face, sentindo-se envergonhada.
-Não se preocupe, darling. Em aventuras como estas, os principiantes nunca escapam de uma incómoda cicatriz. – E com um sorriso maroto, afastou-se. - Bem, vamos fazer a aguardada e amável visita a Black Dog. – Ele olhou para a mesa, e pegou o seu chapéu, colocando-o na cabeça e logo a seguir na Mão de Midas, guardando-a cuidadosamente em seu bolso.
No seu passo característico, ele foi até à porta, mas parou ao ver Perla ainda imóvel, no mesmo lugar. Com seus trejeitos, resmungou:
-Então, vai ficar ai plantada o dia todo? – Deu-lhe um sorriso manhoso e saiu.
-Existe pirata mais confuso do que Jack Sparrow? – bufou, Perla ao arrumar a gola de seu casaco para manter a pose, e indo por fim em direcção à porta.
Oiii genteeee!!
Mil perdões por não ter postado durante um mês, mas eu confesso que, alem de minha net andar doida, me deu preguiça de vir ao FanFiction. E para vos recompensar, eu fiz este capítulo um pouco mais extenso, espero sinceramente que gostem.
Agora…onde anda todo o mundo?? Tenho reparado que o Fandom pirata tem andado meio abandonado. Tenho saudades de ler as fics que antigamente postavam, e até de algumas leitoras que vinham aqui deixar a sua marquinha.
Quero agradecer, por fim, a todas que ainda acompanham esta fic. Carlinha, Ieda (a desaparecida xD), Fini Felton, Rô, Bruno, Likha Sparrow, Jane, obrigada por cada palavra de apoio, e de todo o carinho depositado em todas as reviews que me deixam.
Próximo eu prometo postá-lo o quanto antes e, para não dizerem que eu sou uma autora desnaturada, eu vou deixar-vos aqui um pouquinho.
-E quem lhe garantiu que eu ia seguir o acordo? – Silver lançou-lhe um olhar sarcástico, movendo-se na sua direcção, com um estilo inconfundível. – Meu único acordo pessoal é matá-los a todos. Sem dó nem piedade. – Perla estremeceu ao ouvir tal comentário. – Mas por enquanto não, ainda preciso de vocês. – Ele olhou sisudo para o homem que a segurava. - Levem-na!
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-Estella, o que aconteceu entre você e ele? – inquiriu Perla desconfiada, temendo a resposta.
-Eu me casei com ele. – Ao ver a irmã perplexa, pronta a contestar, Estella antecipou-se: - Ele fez-me sentir especial. Ele ama-me e eu o amo também.
Bjokas para todos e fiquem bem
Taty Black.
