Capitulo 26 – Uma verdade inconveniente.

Quando finalmente o sol estava na linha do horizonte, pronto para ocultar os seus tons alaranjados sob o mar, o Pérola Negra finalmente aportava na Jamaica. Barbossa estranhou o sossego, principalmente por todos os navios de Black Dog estarem vazios. Por momentos, pensou tratar-se de uma cilada, mas ao olhar pela luneta, assegurou-se que não havia nenhum sinal de vida naqueles navios. Fazendo um aceno significativo para Elizabeth, que se encontrava em cima da amurada do navio, agarrada ao estai, enquanto todas as atenções estavam viradas sobre ela. Elizabeth berrou ordens específicas aos Lords piratas: ficarem nos seus navios e só atacarem em caso de extrema necessidade.

A tripulação do Pérola desceu cautelosamente prancha de acesso e, diante de seus olhos, uma nuvem branca de fumo, uma espécie de neblina, misturava-se na atmosfera, impedindo de observar o que se passava mais à frente. Mesmo assim, dava para perceber que a aldeia ficava há poucos metros do porto.

-Aquela aldeia parece-me estranha – murmurou Perla, estreitando o olhar rumo à aldeia. –, se é que me fiz entender.

-Fiquem em alerta, o perigo pode surgir a qualquer momento! - preveniu Jack ao desembainhar lentamente a espada, observando tudo á sua volta.

Todos, sem excepção, seguiram o exemplo de Jack, que caminhava apreensivo, juntamente com Barbossa, Elizabeth e Perla, que mantinham suas espadas e pistolas em punho. Percorreram silenciosamente a costa, uma magnífica praia, dando por fim entrada a uma aldeia. O fumo, que emaranhavam o ar, ia se dissipando à medida que eles progrediam, o que realçava melhor os contornos das simétricas casas brancas com telhados de colmo. Todos estranharam o facto das ruas estarem completamente vazias e, principalmente, as casas que estavam escurecidas por dentro, com as janelas partidas. Isso, para eles, significa um mau presságio. Muitas das portas balançavam insistentemente com o vento ameno, que batia despropositadamente nelas.

Esse ambiente quase fantasmagórico fez Perla estremecer de uma ponta à outra, não conseguindo disfarçar os nervos que persistiam em atormentá-la. Seus olhos recaíram em Jack, podendo apreciar a expressão sisuda e concentrada que ele demonstrava, à medida que avançavam com cautela, esperando o menor, ou um insignificante barulho, para poder atacar. De repente, algo chamou-lhe à atenção, uma espécie de sombra dentro de uma casa.

-Jack. – sussurrou ela, ao se aperceber que Jack também tinha prestado atenção ao sucedido, continuando a avançar com algum receio.

Barbossa, Gibbs e Elizabeth também pareciam ter reparado na sombra, apertando com força o cabo e a coronha das suas armas. De seguida, no meio da neblina menos espessa, um vulto passou-lhe em frente, feito um flash, desaparecendo novamente das suas vistas.

-Jack. – murmurou novamente Perla. Jack parou, erguendo mais a espada ao olhar para todos os lados. – JAAAACK. – berrou ao ver um punhal passar-lhe a milímetros de distância do rosto dele.

-Bem-vindos à minha gloriosa aldeia. – ressoou uma voz, não muito desconhecida para ambos.

De repente, por entre a névoa, vários vultos, com tochas acesas, começavam a se aproximar, numa marcha peculiarmente irregular ao rodearem a tripulação do Pérola Negra, ganhando variadas tonalidades. Pintel e Ragetti trocaram um olhar sentido, engolindo em seco.

-Foi um prazer pilhar com você. – despediu-se Ragetti teatralmente, num choro forçado

-O prazer foi todo meu, caro amigo. – soluçou Pintel, agarrando-se a Ragetti.

Rodando os olhos perante tal acto, Barbossa virou-se para trás e, num gesto rápido e eficaz, deu-lhes com o cabo da espada na cabeça de ambos, que se queixaram com um gemido agudo à medida que esfregavam as cabeças. Passados alguns segundos, no meio daquela multidão de piratas, apareceu um vulto que todos conheciam: Silver. Com um sorriso triunfante analisou cada membro da tripulação do Pérola Negra.

Perla desviou o olhar do dele, observando algo que lhe chamou á atenção. Pelas fissuras que os piratas proporcionavam entre si, ela pôde ver, mesmo atrás deles, um monte de corpos ensanguentados, repousando no chão frio e coberto de sangue. Ninguém tinha sido poupado da fúria daquela tripulação imunda, ninguém. Ela baixou o rosto despercebidamente, enquanto seus olhos ficavam toldados em lágrimas. Uma onda de desespero invadiu-a, ao mesmo tempo que uma fúria inexplicavelmente tomava conta dela.

-Seu monstro, maldito seja! – rosnou Perla quase engolindo as palavras, encarando-o com repugnância.

-Princesa Perla, ou devo-a chamar de: a Guardiã da Mão de Midas. – retrucou num tom debochado. – E olhem quem a acompanha: Jack Sparrow…

-Capitão, capitão Jack Sparrow, savvy? – corrigiu Jack, bufando aborrecido.

-Sparrow, fico contente que tenha se apresentado tão prontamente à minha presença, juntamente com a princesinha. Agora abaixe a arma e dê o bom exemplo aos seus homens.

-Meus homens estão muito bem instruídos, não precisam de exemplos, meu caro! – rebateu Jack, com um sorriso contrafeito.

Ao verem que a tripulação do Adriatic Sea era mais numerosa e que os rodeava cada vez mais, a tripulação do Pérola baixou provisoriamente as armas, ao sentir-se rendidos. Travar uma luta naquelas condições, seria um erro fatal, principalmente, quando se estava em minoria. Barbossa cruzou os braços, indignado por terem caído no erro de não convocarem os Lordes para os acompanhar em terra. Nesta situação eles seriam úteis, e o pior é que não havia nenhuma maneira deles saberem do que se passava naquele preciso momento. Os pensamentos de Barbossa foram quebrados ao ver o olhar atento de Silver para Elizabeth, ficando apreensivo, visto que, da última vez que se encontraram, as coisas não correram tão bem para a rainha pirata.

Black Dog fechou então o sorriso ao ver Elizabeth austera, sem mover um único músculo.

-Vejo que o meu aviso de nada lhe valeu. – Elizabeth continuou calada, não se deixando intimidar. – Menos mal. – prosseguiu num tom de indiferença. – Pelo menos, vou ter o prazer de acabar com quem me colocou naquele maldito calabouço esquecido por Deus. Um verdadeiro inferno, num pedaço insignificante de terra…

-Quer mesmo que lhe repita, novamente, o porquê de você merecer esse destino, Lord Silver? – intercalou Elizabeth, pendendo a pose impassível. – Você merecia morrer. Fui muito branda quando lhe mandei para aquele inferno, como lhe chama. Você quebrou o Código, seu maldito pirata.

-Pirata que é pirata não segue códigos, muito menos leis mesquinhas que nos privam das melhores coisas. – bramou ele, caminhando em sua direcção, quase encostando o rosto ao dela. – Pirata que é pirata é livre, segue as suas próprias regras ao sabor do vento.

-Pirata que é pirata, não mata simplesmente por prazer, e muito menos vai contra os seus princípios. – retrucou Elizabeth, exasperada, apertando as mãos num punho. – Você não é digno de ser tratado como um pirata, mas sim como um assassino. – A última palavra foi pronunciada de boca cheia.

-Chega! Eu não lhe admito. – berrou Silver ao fitá-la de maneira fulminante.

-Onde está minha irmã, canalha? Eu exijo saber... – Perla foi silenciada pela gargalhada seca de Silver.

-Ora alteza, você não está em Siracusa para exigir o que quer que seja. – ironizou ele ao mover-se até Perla, agarrando-a violentamente pelos cabelos. – Sempre que pude, aturei as suas ordens, mas agora chega.

-Mate, você não quer, realmente, fazer isso. – Jack arregalou os olhos, ao vê-la suportar disfarçadamente a dor que estava sentindo. – Solte-a.

-Capitão Jack Sparrow – Silver atirou Perla em direcção a Jack, que a amparou nos braços, sem desviar o olhar cerrado de Silver –, tome seu merecido prémio. Isto é a única coisa que terá desta viagem.

-Está me afrontando, mate? Sabe que, estas cicatrizes gravadas no meu formoso corpo – Ele deslocou um pouco a camisa, mostrando no peito, duas cesuras de balas. –, são mais velhas que sua avó? Não me importarei de ter só mais uma, se for para trocamos umas pequenas ideias. – findou com um olhar manhoso ao apontar para ele e para Silver. Perla fitou-o circunspecta, temendo que Silver levasse aquilo a sério.

-Julga-se assim tão esperto? – retrucou Silver, num modo arrojado - Não sei como pensa vencer um imortal. Talvez essa ideia tenha lhe surgido na cabeça porque está habituado a ser vencido nas lutas, ou estarei enganado? – escarneceu Silver cruzando os braços, divertido. – De bom grado lhe farei mais um golpe para o seu inseparável álbum de colecções, mas não agora.

-Ah sim, mil perdões, sr. imortal rebelde, mas creio não ter analisado bem suas controvérsias. – deliberadamente, ele chegou perto de Silver e colocou-lhe a mão no ombro, enquanto lhe segredava algo num tom de desdém: - Você devia saber que, mesmo não havendo hipóteses, os piratas não se rendem tão facilmente numa luta!

-Esses momentos são tão lindos. – retrucou-lhe em igual tom, tirando com a ponta dos dedos, a mão de Jack de seu ombro. – Pena que Jack Sparrow, sempre tem o dom de fugir, nos que são tão cruciais. – Jack ergueu um pouco a cabeça, com o rosto fechado, fingindo-se amuado.

-Agora está realmente me insultando, mate.

-Podem acabar com essa conversa de comadres revoltadas e passar logo para o assunto ao qual nos trouxe a esta maldita ilha? – interferiu Barbossa, impaciente, bufando. - Vamos à barganha.

-Tem razão, caro Lord Barbossa. – Silver cruzou os braços. – Eu quero a Mão de Midas.

-Não sem antes saber da irmã da princesa. - Silver rodopiou os olhos, enfadonho.

-Pewal, vá buscá-la no navio. - ordenou ele, vendo o marujo anuiu e correr até ao seu navio. – Agora, onde está a Mão de Midas?

-Não a terá, enquanto eu não tiver a certeza que vai cumprir a promessa. – contestou Perla, olhando de relance para Jack, que colocou discretamente a mão ao bolso.

-Está certo. – Virando para a sua tripulação, murmurou: - Prendam estes cães sarnentos naquelas celinhas imundas e tirem-lhe, principalmente, as pistolas.

A tripulação do Pérola ficou imóvel, perplexa com a ordem que Silver tinha dado aos seus tripulantes. Ao percebem que seriam agarrados, tentaram se debater, mas logo desistiram ao sentir as pontas afiadas das espadas apontadas nas suas costas. Perla, deu um encontrão num dos piratas e, a passadas largas, tentou aproximar-se de Silver com o propósito de o afrontar, mas logo foi agarrada por outro pirata. Revoltada, começou a berrar:

-Isso não estava no acordo, pirata nojento. – Ele encarou-a com uma profunda gargalhada.

-E quem lhe garantiu que eu ia seguir o acordo? – Silver lançou-lhe um olhar dissimulado, indo na sua direcção, com um estilo inconfundível. – Meu único acordo pessoal é matá-los a todos. Sem dó nem piedade. – Perla estremeceu ao ouvir tal comentário. – Mas por enquanto não, ainda preciso de vocês. – Ele olhou sisudo para o homem que a segurava. - Levem-na!

-Maldito seja, canalha. – bramia Perla furiosa, ao ser afastada.

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No Adriatic Sea, Estella mostrava-se cada vez mais impaciente com a demora de Silver. Não conseguia ficar mais naqueles aposentos, sentindo aquela ansiedade que a irritava. Cansada de esperar, ela tomou a liberdade de ir até ao convés superior, que estava vazio. Nas escadas, ela espreitou para ver se encontrava os dois homens que Silver lhe tinha deixado, mas estes, felizmente, não se encontravam presentes. Estella subiu as escadas restantes, respirando fundo o ar puro que inundava o ambiente. Ela estreitou o cenho ao deparar-se com uma enorme frota de navios aportados na costa. Com o coração acelerado, ela correu para observar melhor a quantidade de navios que estavam por perto.

Naquela hora, vários pensamentos ocuparam-lhe a mente. Primeiramente pensou tratar-se de mais piratas, que vinham atacar a aldeia, mas logo essa ideia desvaneceu-se, ao recordar-se então das palavras de Silver: "sua irmã saberá onde me encontrar, ela tem muitos amigos que a ajudarão."

Abriu um enorme sorriso ao considerar que, possivelmente, sua irmã estaria naquele preciso momento ali, para buscá-la. Seu sorriso rapidamente desapareceu ao pensar em Silver. Se Perla a viesse buscar, isso significava uma única coisa: voltar para Siracusa e esquecê-lo.

Oscilando negativamente a cabeça, Estella afastou-se da amurada, mas uma voz fê-la parar.

-Sra. Villanueava, o capitão mandou vir buscá-la para…. – informava Pewal, num tom formal.

-Quem são estes navios? – intercalou Estella, aturdida.

-Da Corte da Irmandade pirata, sra. Sua irmã veio com eles para resgatá-la. – Ela ficou apreensiva com as palavras do pequeno marujo, recuando ligeiramente para trás. – Não se preocupe, o capitão não pretende entregá-la. Confie nele, sra Villanueava.

-Muito bem, eu vou. – Suspirou vencida. - Só espero não me vir a arrepender.

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Nas celas da pequena delegacia da cidade, se assim se podia chamar, um homem negro e gigante dava a última volta da chave na fechadura da cela. Jack ainda deu um sorriso forçado para o homem e estendendo a mão, murmurou: "Amigos?" Mas o gigante blasonou, ignorando a proposta e a mão estendida de Jack, que fez um pequeno beicinho ao se encostar nas grades. Guardando a chaves no cinturão, o homem negro afastou-se, ouvindo-se apenas o som das suas botas entoar grosseiramente no chão.

-Eu juro que não compreendo. – divagou Jack, batendo com os dedos no queixo - Por quê que as pessoas de hoje em dia dificultam tudo ao serem tão antipáticas? Não podíamos simplesmente ser amigos?

Barbossa revirou os olhos, na sua pose altiva, encostando-se à parede, enquanto Perla sentava-se no chão de pernas cruzadas para pensar no que tinha ocorrido, e Elizabeth olhava para todos os lados, analisando o lugar em que se encontravam presos.

-Qual o magnífico plano, desta vez? – indagou Barbossa mordaz.

-Um que não implique morrermos, de preferência.

-Isso é gramaticalmente, cientificamente e crucialmente impossível, savvy? – Jack deu dois passos até Barbossa, inclinando-se para ele, à medida que colocava-lhe a mão sobre o peito. – A não ser que você tenha algo escondido por baixo de seu chapéu. – Barbossa limitou-se apenas a tirar a mão de Jack do seu peito, com uma expressão de desprezo.

-Você está bem? – certificou-se Gibbs, ao ver Perla perdida em seus pensamentos.

-Estou só revoltada por aquele maldito ser nos ter enganado, mais uma vez.

-O que esperava de um pirata, alteza? Os piratas traem-se mutuamente. Raros são os casos de achar um pirata honesto entre nosso meio controverso. – retrucou Barbossa secamente.

-Ora falou o mestre nessa arte de traições. – vociferou Jack ao estalar os dedos, sorrindo com desdém. – Pena que, mais uma vez, eu fui esperto o suficiente para te enganar novamente.

-Como assim? – indagou Barbossa arqueando a sobrancelha com o sorriso irritante que Jack transpunha.

-Se eu, na altura em que nos encontrávamos ainda no porto de Siracusa, tivesse contado que sabia dos verdadeiros poderes da Mão de Midas, certamente teria arrumado outro motim contra mim e decidido procurá-la você mesmo, ou minha pessoa está enganada?

Perla levantou-se de súbito, ficando diante de Jack, que arregalou os olhos ao engolir em seco. O intenso verde-esmeralda enraizado no olhar dela trespassava um cintilar diferente, talvez um brilho de raiva e surpresa. Algo que Jack, realmente, temeu.

-Ohh bugger. – Ao meter-se atrás de Barbossa, ele escondeu-se para evitar a terrível tempestade que se avizinhava.

-Isso quer dizer que, durante toda a viagem você sabia do que procurávamos? – Perla tentava apanhá-lo, mas Jack desviava-se, usando Barbossa como escudo, que esbracejava irritado.

-Pare de me usar como sua protecção pessoal, seu presunçoso. - berrou Barbossa agarrando Jack pelo colarinho da camisa surrada. – E enfrente as facto de frente.

Ele largou-o bem diante de Perla, o que fez Jack colocar as mãos fechadas num punho, sobre o queixo e soltar um sorriso amarelo para ela, que estava circunspecta, respirando controladamente para não o atacar naquele instante. Toda a tripulação, sem excepção de Elizabeth, que descruzava os braços para os colocar na cintura, o olhava surpreso. Adoptando seu ar mais dissimulado, e com os seus trejeitos peculiares, ele arregalou os olhos tentando se esquivar daquela suposta multidão enfurecida.

-Bom, eu não tiraria conclusões precipitadas, darling. – ponderou Jack, mexendo seus lábios alternadamente, procurando a resposta que lhe exigiam. – Teoricamente, eu sabia dos seus poderes, da lenda e dessas coisas bonitas que todos sabemos, agora na prática, eu quis saber se era verdade, savvy? – Num tom mais ameno concluiu: - Só não sabia da parte da chave, muito menos da ilha Desaparecida…

-Seu fingido. – Perla apertou os punhos a modos de conter a fúria que transpunha. -Realmente, sr. Barbossa, o que esperar de piratas! – realçou, lançando um olhar de desprezo a Jack, que fez um muxoxo.

-Como sabe dessa história, afinal? – advertiu Elizabeth, aborrecida por Jack não lhe ter contado que sabia, no momento em que ele e Perla vieram-lhe pedir ajuda.

-Devido a umas aventuras que tive no passado, com a minha primeira tripulação e um amuleto que, dependendo da bola que colocasse num dos três orifícios, transformaria tudo ou em bronze, prata ou ouro. – apontando para a boca completou: - Por que acham que tenho um dente de cada um desses metais preciosos? Porque os ganhei numa rifa de Natal? – debochou, rodando suas mãos no ar.

-Não acredito que você me mentiu esse tempo todo, e tudo para poder ficar com a Mão de Midas. Estou muito desiludida com você, Jack. – Jack rodopiou o olhar, pensando num modo de dar a volta à situação.

-Se eu realmente tivesse interessado na Mão de Midas, não teria aceito a barganha com a Calypso! Além do mais, teria abandonado você naquela maldita ilha. – Jack e Perla trocaram um intenso olhar, fazendo ela suspirar, confusa com a situação. – Compreenda, eu só omiti um facto, nada que tenha impedido nosso percurso e, apesar das controvérsias da viagem, nós estamos aqui, prontos para morrer ou lutar por nossas vidas, e tudo por causa de uma maldita Mão.

Perla não se moveu. Parecia, de certa forma, incapaz de pronunciar algo. Os seus sentidos estavam muito ocupados, observando a imagem dele diante de si, com um rosto transbordando sinceridade, pelo menos era o que lhe parecia. Ela suspirou então vencida, com uma expressão complacente.

-Esta certo! – murmurou, com um suspiro enfadonho, desviando-se para o lado oposto de Jack.

-Depois sou eu o pirata trapaceiro, não é mesmo caro Sparrow. – protestou Barbossa num tom de ironia, o que fez Jack olhá-lo de soslaio com um sorriso de escárnio.

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-Onde está minha irmã?

Estella entrou de rompante, numa das casas que Pewal lhe tinha indicado, deparando-se com Silver sentado numa das cadeiras daquela cozinha quase demolida. Ela parou no umbral da porta, vendo-o com seus pés depositados na mesa, balançando descontraidamente a cadeira à medida que rodava uma laranja por entre os dedos. Silver parou ao vê-la ali, com uma expressão vincada de repreensão, coisa que ele já não via á muito.

Naquele preciso momento, Estella, de uma certa forma, poderia significar problemas, caso ele permitisse ser novamente sugado pela paixão magnética que ela exercia sobre ele, fazendo-o esquecer totalmente os seus propósitos. Levantando-se da cadeira e pousando na mesa a laranja, Silver caminhou com toda a segurança e determinação, que eram sua marca registrada, fitando-a maroto. Receosa, o coração de Estella disparou, mas manteve-se firme, com sua cabeça erguida.

-Quer mesmo vê-la? – desdenhoso, Silver segurou-lhe o queixo de modo firme, porém suave. – Olhe que ela pareceu decidida a levá-la.

Ele estava diferente, não só pela postura, mas também o seu olhar, que brilhava impiedoso. Seu tom de voz era projectado com ironias desnecessárias, principalmente com ela, que já o conhecia tão bem, ou assim julgava. Estella encarou-o com dureza quando ele lhe exigia uma resposta, só com o olhar penetrante. Hesitante, ela suprimiu um suspiro, pensando seriamente no assunto.

-Onde ela está?

-Presa! – Estella arqueou a sobrancelha, estreitando o cenho, surpresa.

-Eu quero vê-la. – advertiu num tom decidido. – Preciso falar com Perla. – Silver cruzou os braços, contrariado.

-É isso que você quer?

-É! – rebateu, erguendo o queixo de um modo altivo.

-Muito bem. – disse num tom seco. - Siga-me!

Silver tomou o comando do caminho, sendo seguido por Estella. O clima entre os dois parecia ter mudado radicalmente e Estella queria saber o porquê dele estar tão inquieto e frio, tornando o ambiente tenso e pesado entre ambos, mas não ousou contestá-lo por orgulho. Tentando mudar o rumo de seus pensamentos, Estella pensou na irmã. Tremia de emoção só de pensar que, dentro de breves momentos, iria rever a irmã que tanto amava.

O pouco que andaram, em plena escuridão, deu para Estella perceber que Silver a levava para uma espécie de fortificação, onde se encontrava a prisão daquela medieval aldeia. Silver abriu então uma porta de metal que dava para uma divisão estreita, seguida de um corredor.

-Ela está ali! - apontando para o fundo de um enorme corredor, onde se encontravam as celas.

Estella avançou com cautela, mas ao vê-lo parado, hesitou, mirando-o atentamente ao esperar que ele desse um único passo para a acompanhar.

-Você não vem?

-Sinceramente, não tenho o menor prazer de rever sua irmã.

-Silver, solte-a e deixe-a partir. Não quero que nenhum mal lhe aconteça, por favor. – implorou Estella sobrepondo as mãos. – Pela virgem de Guadalupe!

-Nada lhe acontecerá, por enquanto. Estarei á sua espera lá na mesma casa, não se demore. – dito aquilo, fechou a porta com brusquidão, deixando Estella com o coração acelerado.

Direccionando o seu olhar para a sua frente. O cheiro daquele lugar era uma espécie de mistura de mofo e humidade incómoda, o que causou uma terrível náusea a Estella, que a sustentou. O corredor era iluminado por tochas que ardiam incessantemente, enquanto ela apressava o seu passo até ao fim do corredor. Na esquina, ao seu lado direito, ela viu uma cela com um monte de gente e com o olhar ansioso, ela tentou encontrar a irmã no meio daquelas pessoas, até reconhecer a morena de cabelos cacheados.

-Estella? – indagou Perla, emocionada, não acreditando no que via.

Estella correu até a cela não conseguindo evitar que suas lágrimas lhe escorregassem pelos olhos castanhos. Apesar das dificuldades que as grades representavam para as suas irmãs, elas abraçaram-se emocionadas, chorando feito crianças. Perla afastou gentilmente a irmã, retirando mechas de cabelo que permaneciam colados ao rosto molhado.

-Estella, estava com tanto medo por você... – e num tom maternal continuou: - Eles fizeram-lhe algum mal?

-Não. – retrucou Estella docemente. – Silver foi muito querido comigo. – Perla notou um certo brilho no olhar da irmã.

-Como se isso fosse possível. – murmurou Jack para Elizabeth com seus trejeitos, recebendo uma cotovelada em troca.

-Estella, o que aconteceu entre você e ele? – inquiriu Perla desconfiada, temendo a resposta.

-Eu me casei com ele. – Ao ver a irmã perplexa, pronta a contestar, Estella antecipou-se: - Ele fez-me sentir especial. Ele ama-me e eu o amo também.

-Óptimo, estamos tentando salvar a mulher do pirata rebelde, que maravilha. – pronunciou Jack cheio de sarcasmo, - Ao menos podia-nos ter convidado para o casamento, comida e bebida de graça para todo o mundo. - Perla fulminou-o só com o olhar, o que o levou a sobrepor as mãos, num pedido de desculpas.

-Pare de ser inconveniente Jack. – interferiu Elizabeth ríspida.

-Minha irmã, ele não é o que você pensa. – Perla tentou ser o mais branda possível, apesar de estar indignada. - Silver está pensando em matar-nos depois de possuir a maldita Mão de Midas.

-Apesar do temperamento difícil que Silver tem, que tanto lamento, eu lhe garanto que ele não vai ousar tocar em nenhum de vocês. – retrucou olhando para todos os piratas que estavam dentro da cela, e voltou a encarar Perla. – E lamento informá-la, minha irmã, mas eu já fiz minha escolha. Eu vou ficar com ele.

-E está disposta a ver sua irmã morrer, depois de tudo que fiz para te salvar? – O clima ficou tenso entre as duas e Estella enrijeceu o corpo com o impacto daquelas palavras. – Alessandro morreu para eu te poder libertar daquele patife.

-Alessandro morreu? – Estella parecia ter levado um soco no estômago. Queria gritar, mas o grito ficou preso em sua garganta. – Eu não sei o que fazer... – murmurou levando as mãos as têmporas, que latejavam com a informação. – Eu não sei o que fazer!

-Mas eu sei. – Perla lançou um olhar significativo para Jack, que o fez perceber qual o plano dela. – É aqui que entra a verdadeira táctica de improviso, sr. Sparrow. – E voltando para a irmã concluiu: - Estella, está disposta a nos ajudar? – Estella ergueu os olhos, ponderando nos pós e contras que essa decisão causaria.

-Eu tenho medo, eu não sei o que fazer, minha irmã…

-Será que os laços de sangue não significam nada por você? – recriminou Perla, amargamente. - O sacrifício e sangue que eu derramei só para te poder ver bem? – Enervada, Perla bufou, mas logo se arrependeu de ter falado abruptamente com sua irmã, que trazia lágrimas nos olhos.

A pobre não tinha culpa de amar aquele pirata. Afinal de contas, não devia repreendê-la por Silver ter exposto sua arte de sedução tão distintamente, o que fez com que Estella se apaixonasse por ele. Ela fitou a irmã, agarrada às grades, com um semblante exausto e sentiu um terrível remorso por ter falado com ela daquele jeito. Ela também padecia do mesmo mal: amar um pirata.

-Deixe-me tratar do caso, sra. Enervadinha. – resmungou Jack, esbracejando com as mãos, para que Perla lhe desse passagem para se aproximar de Estella.

-Eu juro que, se você conseguir um milagre, eu lhe darei uma das melhores cargas de rum de Siracusa. Trinta barris no máximo. – sussurrou Perla, num tom de segredo, fazendo Jack manusear um pouco a cabeça até ao ouvido dela.

-Trinta? – ponderou ele, levando o dedo ao queixo, pensando. – Do melhor rum? – ela anuiu, vendo-o sorrir. – Feito! – Perla fitou Estella que permanecia desamparada. – Há algo que está no decote de alguém – vociferou Jack girando o dedo indicador no ar, fazendo-se de sonso, o que levou Elizabeth cerrar o olhar, abismada. – que vai acalmar o temperamento do seu querido, mais que tudo, imortal rebelde.

-Como assim? – Jack tinha conseguido chamar a atenção de Estella, que ergueu repentinamente a cabeça.

-O negócio é o seguinte, darling: você deseja ter um esposo menos possuído pela ganância e crueldade, e nós desejamos sair daqui com vida. Por conseguinte, você vai nos ajudar e nós te ajudaremos também. – Perla arqueou a sobrancelha, esperando o que ia sair dali. – Savvy?

Já Barbossa dispunha de um sorriso manhoso. Sabia bem dos planos de Jack e daí concluía que ele não era tão tolo quanto parecia crer. Era isso que Barbossa admirava no homem á sua frente, a maneira ardilosa com que convertia as pessoas ao articular suas ideias, sem parecer que estava jogando com tudo, ou quase tudo, a seu própria favor. Apesar das disputas entre ambos, Barbossa admitia para si mesmo ter uma enorme afeição por Jack, embora disfarçasse muito bem. Quebrando a linha de seus pensamentos, ele resolveu prestar atenção ao maravilhoso raciocínio de Jack.

-E como posso fazer isso? – Num suspiro angustiante, Estella observou a expressão descontraída de Jack. – Eu adoraria poder ajudar as duas partes sem que nenhuma saísse prejudicada desta situação.

Silenciosamente, Jack estendeu a mão para que Elizabeth lhe entregasse o frasco que rapidamente tirou do decote. Num gesto rápido ela depositou-o na mão dele.

-Está a ver este frasco? – Estella analisou o líquido branco que aquela cápsula continha. – Basta uma gotinha deste milagroso líquido no rum do seu queridíssimo para que seus desejos se tornem realidade…

-Mentira, isso é veneno. Vocês querem matá-lo…

-Mesmo que fosse, o veneno não causaria qualquer tipo de consequência para Silver, visto ele ser imortal. – proferiu Elizabeth, robusta. – Acredite que esse é o único remédio para que Silver esqueça essa sede de sangue. – As simples palavras de Elizabeth deixaram Estella desconcertada.

-Como disse, basta apenas uma gotinha. – Jack esticou-lhe insinuantemente a mão com o frasco. – Pense nisso, darling!

Estella olhou atentamente para o frasco, tremendo de inquietação por não saber o que fazer. Seu olhar recaiu sobre a irmã, que a fitava atentamente, com uma expressão esperançosa. Sua irmã! A pessoa que sempre a tinha apoiado e que, de uma certa forma, substituiu a figura materna de sua mãe. Confiava nela e sabia que Perla lhe diria se eles tivessem mentindo acerca daquele estranho líquido.

-É verdade isso? Prometa-me que nada acontecerá a Silver? – Perla abriu ligeiramente a boca, surpresa, ao ver que a pergunta se direccionava para ela.

Era uma sensação horrível mentir para aquela garota de dezoito anos que tinha sido ingénua ao ponto de se deixar enganar por aquele pirata. Se era verdade que os fins justificavam os meios, naquela altura, Perla poderia confirmar tal afirmação. Havia momentos na vida em que, para fazer o bem, era preciso um acto de pirataria, mesmo que parecesse uma injúria sendo contra um membro da própria família.

-Prometo! – iludiu numa espécie de sussurro perdido na cela.

Ao respirar fundo, Estella levou lentamente sua mão trémula ao frasco, para expectativa de todos que seguiam cada movimento atentamente, até acabar por pegar nele.

-Cuidado darling, esse frasco é único. – Ela apertou o frasco com força nas suas mãos, acabando por escondê-lo no decote. – Seja discreta em todos os pormenores e em breve terá um Silver que nunca imaginou. – concluiu cínico.

Olhando uma última vez para a cela e em especial para a sua irmã, Estella meneou a cabeça num aceno e saiu daquele edifício sem dizer uma única palavra, o que deixou Perla angustiada.

-Você mentiu-lhe. – murmurou ela ao mover-se serenamente até ficar ao lado de Jack.

-Detalhes. – retrucou impassível, gesticulando seus braços sobre o peito. – Além disso, você também não foi propriamente sincera, foi?

-Não seja cínico. – rebateu ela abatida, continuando com seu tom calmo. – Ela ama esse canalha. Mesmo que não queira, sei exactamente o que ela está a passar. – Os olhares de ambos encontraram-se naquele momento, mas Perla logo desviou-os atrapalhada, fitando as mãos. – Se ela descobre que lhe menti, não me irá perdoar.

Os olhos de Perla se perderam no mal iluminado corredor, soltando um tormentoso suspiro que lhe percorreu a alma. Foi então que rezou... Rezou para que sua irmã mostrasse que nas suas veias também circulava o sangue de Deanne Bonny, uma corajosa e destemida pirata.

Oiiii queridooo!

Mais um capítulo prontinho, um pouco maior que o outro, mas é para compensar o atraso hihi. Não tenho muito a dizer sobre ele, mas espero que tenham gostado dele.

Queria agradecer a todos os que têm vindo aqui ler, mesmo sem deixar uma review, e aos que ainda acompanham esta história: Roxane( minha adorada beta), Bruno, Ieda, Carlinha, Jane, Likha Sparrow, Fini Felton( manaaa….onde estás? Opa). Obrigada de coração pelo apoio.

Bom, como sou mazinha (como a Ieda referiu hihi) eu vou deixar mais uns trechinhos sobre o próximo capítulo:

-Silver… não por… favor. – implorava ela, solvendo pequenas quantidades de ar. – Eu não…sabia…!

-Traidora, falsa! – praguejou Silver, não conseguindo evitar sua fúria. – Minha vida está agora à mercê desse bando de imundos. – berrou entre dentes, com a boca perto do ouvido dela, fazendo-a estremecer - Eu dei-lhe tudo, entreguei-lhe o meu coração e é assim que me agradece?

XxxXxxX

-Pela virgem de Guadalupe, não façam mal a Silver, eu lhes rogo… - inquietou-se Estella, ao ouvir as últimas palavras duras saírem da boca de Barbossa.

-Seu querido marido cavou a própria sepultura ao cometer vários crimes parciais contra nós piratas, sra. Villanueava. Creio que nem a sua virgem de Guadalupe o salve. – Estella esmaeceu sobre a parede e, colocando as mãos sobre a cabeça, deixou que suas lágrimas lhe molhassem o rosto.

Bjokas grandes e fiquem bem

Taty Black