Capitulo 27- Duas Caras.
Na penumbra da noite, Estella encontrou a casa mal iluminada onde Silver estava, adentrando-a lentamente. Não conseguia esconder sua ansiedade, muito menos seu nervosismo, que a fazia tremer. Da porta, viu-o exibindo os músculos das suas costas tão bem torneados, que Estella atreveu-se a fechar instantaneamente os olhos, absorvendo pausadamente o ar daquela sala. Ao perceber sua presença, Silver meneou a cabeça em sua direcção, vendo-a com uma garrafa de rum nas mãos. Com um sorriso peculiar, ele aproximou-se de Estella, notando a extrema palidez que cobria o rosto da jovem.
-O que houve? – Ela desviou os olhos na direcção oposta ao olhar centrado de Silver. Ele a tomou em seus braços, com a sobrancelha arqueada. – Está tremendo!
-A conversa com minha irmã, foi difícil – balbuciou, com um ar esmaecido. – Ela não aceita o facto de eu ter me apaixonado por você. – Um sorriso irónico formou-se nos lábios de Silver.
-E por causa disso, você se entregou à bebida? – Ela elevou um pouco a garrafa a modos de a apreciar.
-Achei que você precisasse, depois da conversa que vamos ter – Largou-a suavemente.
-Que conversa? – Ele contornou a mesa para voltar a sentar-se na cadeira. Sobrepondo as mãos ao depositar os cotovelos sobre o tampo da mesa, olhou-a atentamente.
-Primeiro: onde estão as pessoas desta aldeia? Segundo: que história é essa de querer matar minha irmã? E terceiro: você ainda está obcecado por essa maldita Mão de Midas? – Apesar das palavras lhe saírem trémulas, Estella tentou manter uma certa firmeza, pressionando-o com um simples olhar.
-Onde fica a conversa no meio disto tudo? – Ela arqueou a sobrancelha, confusa. – Eu estou é a ser objecto de um questionamento, isso sim!
-Não fuja ao assunto. Eu preciso saber a verdade, tenho esse direito. – Ao vê-lo continuar calado, ela prosseguiu: – Se não sou digna de sua confiança, então será melhor cada um seguir seu rumo. – Silver enrijeceu o corpo ao ouvir o tom ameaçador de Estella.
-Desde quando você me afronta desse jeito? – ele elevou um pouco o tom de voz, indignado.
-Desde que você está pondo a vida de minha irmã em causa – retrucou rouca, batendo com a garrafa de rum contra a mesa, com um som que ecoou na sala. – Agora, por favor, eu exijo respostas imediatas. – Furioso com a impertinência da jovem, ele levantou-se e moveu-se até ela.
Temendo que ele lhe fosse fazer algum mal, ela encolheu-se, assustada. Silver pegou no rosto dela, prendendo-o com as mãos para a obrigar a encará-lo. Ao fitar profundamente os olhos de Estella, ele percebeu, então, o porque de temer tanto aquela mulher. Por causa daquele ingénuo olhar, capaz de fazer o pior dos homens, transformar-se num anjo de pessoa. Ele passou suavemente a mão pelos cabelos dela, amenizando a tensão instaurada. Ela o abraçou, rendida ao calor reconfortante dos braços dele.
-Eu vou-lhe responder claramente – advertiu Silver enquanto afagava os cabelos cacheados da garota. – Primeiro: A aldeia já estava desabitada quando chegamos – mentiu descaradamente, continuando a amaciar os cabelos dela. – Segundo: A sua irmã é uma exagerada. Eu só os mandei prender, porque aquele bando de piratas imundos queriam me atacar, e terceiro: a Mão de Midas só nos dará um futuro melhor. – Ela descolou um pouco a cabeça do peito de Silver e fitou os intensos olhos castanhos.
-Eu não quero essa Mão de Midas no nosso futuro. – contrapôs ela mordaz. – Eu lhe pedi paz, você se lembra? E que eu me lembre, você me prometeu dá-la. O que mudou?
-Nada. – Ele desenvencilhou-se gentilmente dos braços dela. – Eu preciso pensar Estella. – ponderou num tom sereno, pegando na garrafa de rum que se encontrava sobre a mesa. O coração de Estella disparou, nervosa. – Preciso restabelecer minhas prioridades, meus propósitos. De tudo que eu jurei fazer até este preciso momento e não cumpri…
-E eu não sou sua prioridade? – Ela fitou-o de soslaio. - Talvez nunca tenha sido nada na sua vida, além de uma mera diversão. – Ela evitou trespassar sua mágoa ao evitar que as lágrimas lhe brotassem dos olhos.
-Isso é mentira, você sabe. – Ele apontou-lhe com o dedo indicativo, num tom ríspido. – Mas não sei como te darei uma vida de paz, se o Caribe inteiro pretende ter minha cabeça exposta numa bandeja, exibindo-a como um triunfo irrefutável – A voz sincera de Silver, fez Estella perder suas restantes forças. – Por isso é que pretendo essa Mão de Midas. Para te dar o futuro que você merece, mas você não compreende – dito aquilo, levou a garrafa de rum á boca.
Estella parecia não escutar mais as palavras que Silver pronunciava. Sua atenção estava direccionada ao gesto dele levar a garrafa á boca. Por momentos pensou em impedi-lo, uma voz em sua mente gritava-lhe desesperadamente para o impedir de beber aquele maldito líquido, misturado com o amargo rum. Mas já era tarde demais. Silver degustava o rum que descia ardentemente pela sua garganta. Num gesto brusco, ele encarou-a ternamente, com amargura na voz:
-Você nunca vai entender o quanto eu te amo!
Ela ficou estática ao sentir o impacto forte que aquelas palavras tiveram sobre si. Por momentos não conseguia pensar, reagir ou falar o que fosse. Foi então que o viu desmoronar vagarosamente na mesa, apoiando-se com os braços sobre ela, com uma respiração levemente acelerada, o que preocupou Estella.
Como se lhe arrancassem algo das suas entranhas, com ímpetos punhais, Silver sentia que aquela dor insuportável atingia seu peito de uma forma implacável. Com um grito agudo ele contorcia-se de uma imensa dor, batendo com os punhos na mesa, enquanto sua respiração acelerava descompassadamente. O grito agudo deu lugar a um mais grave, que entoou naquele pequena divisão. Suas forças pareciam ser sugadas por algo imperceptível, fazendo por fim, seus joelhos fraquejarem e cair no chão, ofegante. Incapaz de se mover devido ao choque, Estella sentia-se arrependida, olhando céptica para o que via. Num ato repentino, e movida pelo remorso, Estella acordou do transe, correndo para o ajudar a se levantar.
Aquela dor deu lugar a uma inexplicável tranquilidade. Ele analisou suas mãos, tentando compreender o porquê daquela sensação horrível. Por segundos intermináveis, ele permaneceu confuso, do que se tinha passado naquela sala. Sentindo Estella aninhar-se ao seu lado para o ajudar a levantar-se, ele olhou ao seu redor, como se procurasse algo. Então seus olhos recaíram sobre o rum e, num movimento brusco, encarou Estella, vendo que seus olhos trespassavam um arrependimento absurdo. Algo parecia não estar certo no meio daquilo tudo, algo que ele queria descobrir a bem, ou a mal.
-Me perdoe, Silver, me perdoe. – lamentou Estella num sussurro, lavada em lágrimas. – Eu não pretendia, eu não…- Ele levou algum tempo até assimilar as palavras de sua esposa, chegando a uma terrível conclusão.
-Aqueles malditos conseguiram o reverso, eles conseguiram o que queriam – murmurou ele, friccionando as mãos nervosamente. – Eu sou novamente um repugnante mortal.
-Silver…- Suas palavras morreram ao observar o extremo brilho de raiva que Silver transpunha.
Furioso por ter sido traído pela sua própria mulher, ele encarou-a por minutos perdidos em pleno silêncio, enquanto ela permanecia num choro compulsivo, evitando olhá-lo. Estava demasiado ruborizada para proferir qualquer tipo de palavra sobre o assunto, muito menos para se desculpar perante ele. Não conseguindo mais controlar sua fúria e com um urro de raiva, Silver agarrou-lhe, com a mão fria, o pescoço de Estella. Acercado de sentimentos, levou-a brutamente contra a parede de madeira daquela casa, vendo o sobressalto nos olhos castanhos de Estella, que se tentava debater ao colocar suas mãos sobre a dele, para se soltar.
-Silver… não por… favor. – implorava ela, solvendo pequenas quantidades de ar. – Eu não…sabia…!
-Traidora, falsa! – praguejou Silver, não conseguindo evitar sua fúria. – Minha vida está agora à mercê desse bando de imundos. – berrou entre dentes, com a boca perto do ouvido dela, fazendo-a estremecer - Eu dei-lhe tudo, entreguei-lhe o meu coração e é assim que me agradece?
-Nunca…faria nada …para te… prejudicar. – ciciou ela, cada vez mais desesperada. – Eu te amo tanto!
Ao ouvir aquilo, Silver abriu ligeiramente a boca. Fitou bem fundo os olhos inocentes da mulher, procurando traços que justificassem aquele feito. Mas só viu pureza naqueles lindos olhos, que expressavam uma dor imensa com o gesto bruto do seu esposo. Numa luta interior, Silver acabou por soltar grosseiramente o pescoço de Estella, que deslizou suavemente pela parede de madeira, arfando ao mesmo tempo que massajava o seus pescoço marcado pelos dedos largos dele.
-Eu só quis tornar você numa pessoa que não era…
-Sua bruxa, feiticeira, pirata… - ele agarrou-a rudemente pelo braço, levantando-a. – Julgava que era com isso que ia resolver os nossos problemas?
-Estava no direito de tentar. – contrapôs ela, trémula.
Eles ficaram ao mesmo nível, e Estella fitou-o com medo que ele resolvesse matá-la de vez. Ao invés disso, ele pegou-a pela nuca e puxou-a mais contra si, beijando-a avidamente. Ele parecia castigá-la com beijos selvagens, sem nenhum carinho, fazendo com que os olhos de Estella derramassem mais lágrimas. Subitamente, viu-se a devorar os lábios ávidos dele, abraçando-lhe o pescoço tremulamente com mais força para ter a certeza que ele não a iria deixar tão cedo.
-Nestas alturas é que eu deveria ser o pirata cruel que me consome impetuosamente quando me enganam. – rosnou num tom seco, a milímetros de distância dos lábios dela. – Devia matar-te! – Ele limpou as lágrimas do pálido rosto dela. – Você vê o efeito que tem sobre mim?
-Peço perdão, eu juro que não sabia! Fiz isso porque julguei que era para o seu bem…
-Você é tão ingénua, minha criança – ripostou friamente. - Ahhh, mas eu vou resolver isto tudo de uma vez por todas…- dito aquilo foi em direcção à porta.
-O que vai fazer? – indagou ela parada no meio da sala, perplexa.
-Recuperar minha imortalidade. – Ao parar à entrada, rodopiou os calcanhares para Estella. – Você fica aqui. - Ela entreabriu a boca e fez menção de contestar, mas ele foi mais rápido: - Para garantir sua segurança. Entretanto, alguém pagará pelo erro que fizeram você cometer, sem saber.
Entre dentes Silver bateu com a porta com um estrondo, fechando-a á chave. Ao se aperceber da situação, ela correu para a porta e bateu insistentemente nela com os punhos, pedindo para que Silver a abrisse. Ainda parado do outro lado da porta ele escutava as súplicas dela para deixar sua irmã fora disso, e que a soltasse.
-Pewal! – berrou ele vendo o pequeno marujo correr em sua direcção, tropeçando no próprio passo. – Mande a tripulação do Adriatic Sea preparar o navio, mas com cautela, para não chame a atenção da Corte.
-Mas senhor, e os seus outros navios? – inquiriu o confuso marujo, vendo Silver rodopiar os olhos.
-Por enquanto eles ficaram aqui, tal como as suas tripulações. Pretendo fazer uma curta viajem, em breve estarei novamente na Jamaica. - num tom mais rude avisou: – Mande os meus homens vigiarem a tripulação do Pérola Negra. Quando voltar, acabarei com aqueles cães sarnentos. – E quando ia retomar o passo, lembrou-se: - Ahh, e vigie esta casa aqui, não me agradaria chegar aqui e vê-la vazia.
-Com certeza, capitão. – Meio atrapalhado encarou Silver.
-Que está à espera, criatura? Vá cumprir as minhas ordens, preciso partir ainda na escuridão desta noite. – O marujo fez um gesto de continência e saiu a correr. – Incompetente. – Ao desviar lentamente o olhar para o Forte, murmurou: - Vocês vão se arrepender de ter brincado com a pessoa errada.
Com passadas largas e aceleradas, Silver apressou-se para o Forte.
-Será que ela conseguiu? – cogitou Perla, em voz alta, à medida que andava de um lado para o outro de forma impaciente.
-Será que a sra. Villanueava conseguiu trair a confiança do tão imortal marido? – ironizou Jack, ao colocar a mão sob o queixo, fingindo pensar em algo sério.
-Não precisa me atirar isso à cara! – retrucou Perla aborrecida. – Lamento a situação em que vos coloquei.
-Não lamente srta. Bonny – tranquilizou Elizabeth, colocando-lhe a mão no ombro. – Todos nós sabíamos que esta missão era arriscada, cheia de controversos e perigos. – num tom moderado, acrescentou: - Você não podia prever o que se iria passar.
-E sua irmã pareceu-me determinada a salvá-la – interviu Gibbs com um agradável sorriso.
-Isso se não desistiu só para continuar o romance tórrido com o seu puritano lord rebelde – gracejou Jack, rodopiando seus dedos indicativos no ar.
A abertura da porta de metal, no fundo do corredor, chamou à atenção da tripulação do Pérola Negra. Todos se aproximaram das grades, tentando ver quem se dirigia até eles, com passos pesados sobre o assoalho de pedra mal polida. Os contornos do corpo de um homem elegante iam-se formando, à medida que se aproximava da cela. Seu semblante estava sério, com vincos de fúria bem assentes no rosto. Silver parou diante da cela, sempre agarrado à coronha da sua inseparável pistola, o que fez todos ficarem de alerta.
-Veio nos matar? – indagou Perla de alerta, olhando aleatoriamente de Silver para a pistola que permanecia no cinturão dele.
-Não brinque comigo, garota – rosnou ele não disfarçando sua raiva. – Você já viu que sua irmã está bem, agora, eu quero a Mão de Midas!
-Pois, isso é um assunto que requer uma certa delicadeza! Você não acha? – ponderou Jack com um alargado sorriso, mas este logo desapareceu ao ver Silver desembainhar sua pistola. – ou certamente não!
Inesperadamente, Silver abriu a cela, com a pistola em punho, para que todos se afastassem significativamente da entrada. Estes afastaram-se ligeiramente, não desviando o olhar centrado na pistola, que reluzia com a penumbra da sala. Num gesto rápido, ele pegou o braço de Perla, que se encontrava perto dele, apontando-lhe a arma á cabeça, à medida que a virava de costas para si e enlaçava bruscamente o pescoço dela com seu braço para que esta não fugisse. Com o coração descompassado, ela tentou debater-se, mas desistiu ao sentir a pressão da arma contra sua cabeça, principalmente quando ouviu Silver engatinhas sua pistola. Desesperada, ela analisou a expressão alarmante de todos e logo seu olhar caiu sobre Jack, que permanecia de olhos arregalados, sobressaltado ao ouvir a ameaça de Silver disparar caso alguém se movesse. Lentamente, Perla foi arrastada para fora da cela e, com o pé, Silver fechou a porta.
-Canalha – murmurou Perla, sentindo-se revoltada por estar tão vulnerável.
-Como vêem, eu não estou para brincadeiras e sim para barganhar! – chegou-a mais contra si, enraivecido. – Ou me dão a Mão de Midas, ou ela não verá um novo amanhecer.
-Não lhe dês Jack – pranteou ao sentir Silver apertar-lhe o braço para que ela se mantivesse calada.
-Jack, pelas barbas de Poseidon, dê-lhe essa maldita Mão – berrou Gibbs assombrado, vendo Jack continuar imóvel, sem saber o que fazer. – Jack, já! – ordenou, nervosamente, temendo que Silver carregasse no gatilho a qualquer momento.
-Jack, faça o que o Sr. Gibbs te pede. Haja com dignidade uma segunda vez na vida, por favor – implorou Elizabeth com a voz trémula, fazendo um breve referência ao fato de Jack ter salvo Will.
-Geralmente é preciso mais coragem para mudar a própria opinião do que sucumbir a ela. – rebateu Barbossa, num tom franco. – Às vezes a ambição não nos leva a lado nenhum, Jack. E quando nos apercebemos disso, a vida já nos tratou de levar aquilo que nos é verdadeiramente valioso.
Sentindo-se incapaz de proferir uma das suas peculiares ironias, e sem fazer movimentos bruscos, Jack cedeu, levando a sua mão ao bolso para procurar a Mão de Midas. Silver seguia atentamente os movimentos insignificantes de Jack, receando que este lhe fosse trapacear, mas logo viu que Jack tirava a Mão, sem a menor das relutas.
-Dê a ela – ordenou Silver, começando a ficar impaciente com a demora.
Num passo distintamente prudente, Jack aproximou-se do gradeamento de ferro para poder entregar a Mão de Midas à Perla, que permanecia com a mão estendida para poder recebê-la. Com as mãos trémulas e com a arma ainda apontada a si, ela aparou o objecto, tocando rasamente nas mãos de Jack, e elevou o seu olhar verde vivo, que cintilava de medo. "Eu aparecerei quando menos esperar" foi o que ele conseguiu sussurrar quase sem proferir qualquer tipo de som da sua boca. Perla apenas anuiu até sentir Silver dar-lhe um leve puxão para trás, cortando o contacto que ainda havia entre Perla e Jack.
-Já tem o que queria, agora deixe-nos em paz – rosnou Perla entre dentes, recebendo como resposta uma gargalhada sonora.
-Paz? – Ele virou-a brutamente para si, não deslocando sua pistola da cabeça dela. – Deseja o impossível, srta. Neblon. – E num tom rude clamou: - Paz foi tudo o que menos desejou quando pediu à sua irmã que me transformasse num mero mortal.
-O que mais deseja então? – indagou ela confusa, vendo olhar árduo daquele homem. – Se quer me matar, não hesite mais e carregue na droga desse gatilho. – berrou ela decidida, fechando seus olhos com toda a força, enquanto tremia incontrolavelmente.
-Não, ainda não chegou a sua hora – lentamente ele chegou os lábios ao ouvido dela e murmurou de forma sedutora: -Você irá ter o prazer de me acompanhar numa viagem bem emocionante, para recuperar a imortalidade que me roubou. – horrorizada com tal confissão, Perla oscilou a cabeça negativamente.
-Não vou a lugar nenhum com você…- suas palavras morreram quando sentiu que ele a puxava em direcção à saída. – Jack!! – apelou ao tentar se debater das mãos fortes de Silver, que não se deteve no seu percurso.
Jack agarrou-se às frias grades, tentando seguir Perla com o seu olhar perdido na escuridão que assomava aquela divisão à medida que ela se afastava. Abanando as grades violentamente, com a confiança que elas fossem se mover, Jack praguejava algo incompreensível para os restantes, que o observavam num silêncio sepulcral.
-Bugger, bugger, bugger.
-Não podemos deixá-la na mão desse cão sarnento – murmurou Gibbs com uma expressão transtornada. -Temos de sair daqui, Jack.
-E acha que eu não sei disso, homem? – retrucou, mordaz. – Lamento se não usufruo os dons de Tia Calypso. – Despercebidamente ele encostou a cabeça à barra de ferro e suspirou algo, numa voz baixa: - Acredite mate, eu daria tudo para não estar aqui.
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-Soltar amarras, puxar a rampa, içar velas... – ordenava Silver, à medida que ia subindo a rampa para o Adriatic Sea, empurrando o corpo de Perla, que teimava em não ceder. – Bem vinda a bordo, princesa.
-Você não presta… - ele apenas soltou um sorriso pelo canto da boca e, impassível à ofensa de Perla, tirou-lhe a Mão de Midas da sua posse.
-Sr. Craft, contorne a costa da Jamaica, mas com prudência, para que nenhum daqueles piratas imundos da corte perceba a nossa partida.
-Aye, capitão. – o homem ruivo correu para o leme, soltando-o a modos de o poder manear.
Quando a rampa foi puxada para cima, e o navio começou a ganhar um novo curso, Silver soltou Perla grosseiramente. Aparando-se na amurada, ela olhou de soslaio para Silver, que guardava tranquilamente a sua pistola no cinturão largo, como se não houvesse ocorrido nada. Sem chamar muita atenção, Perla procurou algo no casaco de Jack, algo que pudesse usar contra aquele cão sarnento, já que ele estava tão vulnerável quanto ela, visto ser novamente um mortal.
-Não gaste seu tempo procurando algo para me atacar, eu posso estar novamente nas condições de mortal, mas ainda possuo uma boa capacidade de avaliação e defesa – pronunciou com desdém, vendo a decepção estampada no rosto dela. – Não se acanhe, alteza. Dê graças por ter um cunhado tão ardiloso e…
-Não ouse pronunciar essa palavra com tanta desfaçatez, repugna-me saber que enganou minha irmã… - Silver podia ver a raiva dela fervilhar-lhe nas veias, o que o fez aflorar um sorrir de desprezo. – Falar nisso, onde ela está?
-Está em segurança, caso vá me acusar de imprevidência. – Silver aproximou-se dela, o que a fez recuar vagarosamente, indo novamente de encontro com a amurada. – E não caia no erro de achar que é a única que se preocupa com ela, alteza. Eu nunca a enganei, que fique bem claro. – Os olhos de Silver tinham tomado um brilho diferente, não de raiva, mas algo genuíno. – Agora, por favor, mantenha-se calada e aprecie a viagem. Ela não será tão doce e agradável como aparenta.
Dito aquilo, ele retomou o seu passo para o lado oposto dela, indo para os seus aposentos, o que fez Perla suspirar de alívio. Virou seu olhar para o mar calmo e tranquilo daquela noite, observando os raios translúcidos da lua emaranhar-se nas águas tão vítreas do Caribe, que tornava-se numa bela paisagem se de contemplar. Foi com um longo suspiro que viu a costa areosa da Jamaica se afastar, enquanto os navios iam ficando num ponto pequeno.
-Jack – sussurrou ela sem conseguir disfarçar sua angústia ao lançar o olhar desamparado para a ilha. – O que vai ser de mim sem você? – Foi então que Perla desmoronou por completo até à borda do navio, pousando sua cabeça sobre os braços.
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Estella permanecia perto da janela, observando os homens que saíam e entravam numa taberna ali perto, bebendo e comendo sem terem que prestar contas a ninguém, consumindo aquilo que tornava os homens mais honrados em meros ratos: rum. Os restantes marujos aproveitavam a noite sossegada para tirar uma boa noite de sono, deleitados numa das camas, coisa que já não viam há muito tempo, que cada casa vazia lhes proporcionava. O único homem que parecia não estar interessado em nenhum daqueles prazeres era Pewal, que rondava a porta da sua casa, numa vigília cerrada.
Embora a noite estivesse tranquila demais, isso desassossegava-a inteiramente, principalmente por não saber o que tinha ocorrido depois de Silver ter saído, enfurecido, daquela casa, onde se encontrava prisioneira. Desviando a atenção da janela, Estela rondou a casa com o olhar, analisando cada pormenor daquela minúscula divisão, até reparar que, no chão, havia rastos de sangue fresco, perto da porta.
-Ele mentiu-me! – exclamou ela ao sentiu um náusea forte invadir-lhe a boca do estômago. Respirando fundo, ela levou a mão à boca ao desviar o olhar da mancha de sangue. – Eu tenho de sair daqui.
Estella correu até a um pequeno quarto onde, da porta, sentiu uma brisa agradável invadir aquela divisão. Em passadas lentas e receosas, ela entrou, mantendo os olhos arregalados para que pudesse captar qualquer tipo de pormenor relevante naquele quarto de casal mal iluminado. Foi então que meneou a cabeça de encontro à leve aragem, que fazia seu cabelo dançar desajeitadamente para a frente de seu rosto, reparando que, atrás de si, havia uma janela completamente partida, o que possibilitava a entrada de uma boa quantidade de ar que refrescasse o ambiente. Com o coração apresentando-lhe batidas descompassadas, Estella ganhou coragem para avançar a janela que lhe daria acesso à parte lateral da casa, o que iria lhe permitir fugir sem que Pewal desse conta do sucedido.
-Que a virgem de Guadalupe me acompanhe – rogou, avançando, por fim, a janela sem a maior das dificuldades.
Lá fora, sobre a luz penetrante da lua, ela aninhou-se no chão, mirando ao redor para ver se alguém se encontrava perto, mas estava sozinha, visto que metade dos homens se encontravam na taberna. Estella ganhou então força para correr até ao Forte, há poucos metros daquela casa, rezando para que Silver não tivesse tocado num único cabelo de sua irmã.
Correndo cautelosamente por entre a escuridão, que as casas lhe proporcionavam, Estella rapidamente chegou até lá e, quando ficou diante da porta de metal, encostou-se á parede para olhar ao seu redor a modos de se certificar que ninguém a tinha visto, muito menos seguido. Ao concluir que não estava ninguém por perto, Estella vagarosamente abriu a porta, sem fazer um único ruído, para não chamar a atenção de ninguém. Quando entrou, fechou a porta, sendo consumida pela penumbra daquela sala e, num passo apressado, foi até ao fim do corredor, onde se deparou com a estática tripulação do Pérola Negra, olhando o vazio daquela cela fria, provavelmente pensando num plano para sair dali o mais rapidamente possível.
-Sra. Villanueava, a que devemos a honra? – indagou Jack, num tom de falsas boas-vindas, ao se aperceber da figura imóvel de Estella.
-Eu vinha soltar a minha irmã…
-Creio que seu querido mais que tudo marido já tratou dessa parte. - Estella o fitou, atónita, e sem esperar resposta ele completou: - Acho que foram dar uma voltinha perto da Florida.
-A fonte da juventude…- murmurou Estella, ainda surpresa. – Ele contou-me várias histórias sobre essa fonte. Coisas terríveis se passaram lá…
-Continue, sr. Villanueava – incentivou Barbossa com o olhar estreito ao colocar a mão no queixo, mostrando interesse no que ela dizia.
-Silver contou-me da forma como obteve a sua imortalidade, dos terríveis tormentos que passou ao atravessar aquele caminho amaldiçoado por espíritos, que defendem impetuosamente aquele lugar penoso. – Estella encostou-se à parede ao sentir um arrepio, prosseguindo: - Espíritos que têm o poder de perturbar qualquer um que se atreva a ir até à fonte, com uma espécie de tortura psicológica. - e fitando-os atentamente, acrescentou horrorizada: - Eu vi as marcas que Silver tinha em seu corpo. Cicatrizes que marcam bem a sorte que ele teve ao escapar daquele lugar com vida. – transtornada, completou: -Temos de salvar a minha irmã, ela pode não resistir à travessia que os leva até à fonte. Ela pode morrer!
-Você tem a chaves? – Estella apenas negou com a cabeça, o que fez Elizabeth olhar ao redor daquele corredor. – Só nos resta usar a maneira mais prática de sair daqui…
-Qual? – inquiriu Jack ao seguir o olhar centrado dela até a uma mesa, onde se encontravam todos os pertences deles. – Ahhh, bonito raciocínio. - e rodopiando o dedo no ar, completou: – Minha cara está a ver aqueles pertences? – Estella afastou o olhar na direcção em que o dedo de Jack apontava. – Naquele montinho de espadas, estão nossas pistolas. – e hesitante, indagou: - Você sabe usar pistolas, estou certo?
-Sei o básico – retrucou, seria.
-O básico? – ponderou ele, gesticulando os dedos, como quem pensa algo sério, torcendo a boca. – Bom, já não é mau. Agora faça a gentileza de pegar numa dessas pistolas, por favor.
-Não me vai pedir para matar ninguém, pois não?
-Não pediria tal atrocidade para uma dama com tão delicadas mãos – e irónico prosseguiu: - Não pretendo manchar seus antecedentes, darling.
Lentamente, Estella aproximou-se da mesa, procurando uma das pistolas, que permaneciam lá pousadas, sendo que, a primeira que lhe surgiu na mão foi a de Jack, que praguejou baixinho. Aproximando-se da porta da cela, Estella fez mira para fechadura e, inspirando fundo, disparou, acertando em cheio no alvo. Com o dedo, Jack deu um leve toque, vendo a porta deslizar sozinha para a frente.
-Infelizmente, a cela não tinha dobradiças de espigão – lamentou Jack fazendo beicinho. – O trabalho teria sido mais fácil, além de nos avantajar algum tempo. – e endurecendo o rosto, sorriu malandro. – Bom, vamos pegar nos nossos pertences e sair daqui.
-Eu diria que é perigoso. – todos direccionaram a cabeça para Estella, que devolvia a arma a Jack. – Silver só partiu com a tripulação do Adriatic Sea, deixando os outros marujos para trás, a modos de vos vigiar.
-Óptimo, festa surpresa, animação, que mais um pirata poderia querer. – retrucou Jack, mordaz olhando para dois dos marujos. – Srs. Pintel e Ragetti. – ambos apresentaram prontamente ao capitão. – Vou dar-lhes um trabalho muito simples, espero que, pela primeira vez o cumpram sem fazerem uma única imbecilidade, se é que me entendem.
-O que vai pedir a eles, Jack? – investigou Barbossa, curioso.
-Que mergulhem na escuridão da noite e, com juízo, claro, avisem os Lords que está na hora de fazerem uma pequena visita a esta aldeia, savvy?
-Nós? Mas capitão, é arriscado demais…
-Ora marujos, vocês são homens ou meros ratos? – escarneceu num tom sério, e vendo-os a trocarem breves olhares, continuou: - estou confiando esta missão aos meus mais bravos marujos.
Com um ar convencido, Ragetti e Pintel assentiram, indo em direcção à porta. Já lá fora, eles suspiraram, de modo emproados, observando a noite.
-Já viu, o capitão está nos confiando uma missão importantíssima – comentou Pintel, mantendo o queixo elevado. – Qual será o próximo passo?
-É nos eleger como primeiros imediatos, talvez até mande o Gibbs para a reforma – realçou Ragetti com um sorriso pateta nos lábios.
-Uma boa perspectiva! Com sorte, você ainda chega a capitão. – Os dois ficaram em silêncio, pensando profundamente, até seus olhos se encontrarem num brilho sonhador. – Vamos lá mostrar ao nosso capitão do que somos capazes.
Lá dentro nas masmorras, Gibbs permanecia inquieto, andando de um lado para o outro.
-Nesse andar, você ainda vai abrir um buraquinho no assoalho, já para não mencionar que ainda se arrisca a furar a sola da bota – alertou Jack de modo debochado, ao contemplar suas unhas, como se nada passasse. -Não sei como consegue estar tão tranquilo Jack. – ao parar diante dele, Gibbs analisou-o céptico. – Além disso, vamos ficar aqui parados, sem fazer nada?
-O que quer que a gente faça? - contestou mordaz e fazendo um gesto com a mão, completou: - Não me diga que você tem, por detrás desse corpo másculo, um potencial canhão capaz de derrubar metade da aldeia sem ao menos chamar atenção dos piratas. Se assim for, por favor, não se acanhe. – Jack fez um gesto para que Gibbs avançasse, levando como resposta um bufar do primeiro imediato.
-Aguarde só um pouco, sr. Gibbs. Esperemos que os lordes ataquem para depois sairmos de mansinho daqui, para zarpamos o mais depressa possível e impedir a loucura de Silver – informou Barbossa pacientemente, concluindo de modo rude: - matando aquele canalha.
-Pela virgem de Guadalupe, não façam mal a Silver, eu lhes rogo… - inquietou-se Estella, ao ouvir as últimas palavras duras saírem da boca de Barbossa.
-Seu querido marido cavou a própria sepultura ao cometer vários crimes parciais contra nós, piratas, sra. Villanueava. Creio que nem a sua virgem de Guadalupe o salve. – Estella esmaeceu sobre a parede e, colocando as mãos sobre a cabeça, deixou que suas lágrimas lhe molhassem o rosto.
-Tem de haver outra solução, um julgamento mais justo entre vocês piratas – rebateu numa voz sucumbida, sentindo os braços de Elizabeth envolverem-na de forma terna. – Eu não posso ver o pai do meu filho morrer. – sussurrou desamparada, a modos que só Elizabeth ouvisse.
Esta fitou-a seriamente, não conseguindo expressar qualquer tipo de reacção mediante a inesperada revelação. Sentiu seu coração comprimir-se em seu peito, ao lembrar-se na falta que Will iria fazer na infância do seu filho e, apesar de Silver ser o pior canalha à face da terra, o filho dele não merecia crescer sem pai. Quando finalmente ia abrir a boca, a modos de interceder ao que Estella tinha dito, a porta abriu-se de rompante e novamente os dois marujos apareceram.
-Capitão, está tudo prontos! Os lordes estão vindo para cá, como combinado. – Um sorriso triunfante apossou-se dos lábios de Jack, que deu uma leve palmada nas costas de Barbossa.
-Preparado, mate? – Barbossa respondeu-lhe com um igual sorriso.
-Não houve uma única hora que eu não louvasse por este dia, meu caro – num tom calmo, concluiu: - Vamos a eles, como se este fosse o nosso último dia. – e com uma crispada de lábios cínica, Jack retrucou:
-Será um prazer irrefutável, meu caro. – Por fim, os dois fecharam as suas mãos num punho, batendo uma na outra, em forma de companheirismo.
Silver dá a sua verdadeira cara, Estella grávida, Perla em perigo, Jack e a sua tripulação em apuros…no que vai dar isto tudo?
Queria agradecer a todos os queridos que ainda não se cansaram da fic: Carlinha (companheira de msn), Jessica Rossettini (a desaparecida, que voltou…saudades), Fini (a minha mana de coração), Roxane (mana e beta amada), Jane (amiga de Portugal), Likha Sparrow (companheira de Fics), Bruno (o único rapaz, e amigo, que lê a minha fic em Portugal xD) e a Ieda (que embora esteja desaparecida, eu não esqueço)
O próximo capítulo, sinceramente, eu adoro (autora também tem direito a ter os seus capítulos favoritos hihi), pois é o começo da batalha entre o Adriatic e o Pérola Negra.
-Corajosa, devo admitir. – contemplou, olhando-a de cima abaixo. - Pretende matar-me alteza? – supôs com uma risada sarcástica. – De onde tirou tanta audácia? Pensa vencer uma tripulação sozinha.
-Eu não estou sozinha, meu caro – rebateu ao tremer com a indiferença de Silver. – O meu capitão está perto de atacar este navio.
XxxXxxX
-Acho que tem uma coisa que me pertence, mate – aclarou Jack com seus inconfundíveis trejeitos.
-A princesa ou a Mão de Midas? – Jack percebeu o veneno que aquelas palavras continham.
-A Mão de Midas – ressoou uma voz feminina carregada de ódio.
Bjokas Grandes e fiquem bem
Taty Black
