Capitulo 28 – O confronto part.1

Os marujos de Silver, que ainda permaneciam dentro da taberna, foram apanhados de surpresa quando ouviram urros infernais virem direccionados da parte exterior da taberna. Confusos e com uma expressão atordoada eles calaram-se, olhando uns para os outros e, num passo trôpego, eles dirigiram-se até lá fora, sendo completamente apanhados de surpresa. Uma imensidão de piratas assomava-se ligeiramente vindos da aldeia, com seus sabres e pistolas em punho, prontos a atacar quem se atrevesse a surgir no seu caminho. Equiparando-os a uma onda gigante, que estava prestes a engolir a aldeia por completo, os piratas de Silver, ainda aturdidos, desembainharam suas espadas e, brandindo-as no ar, correram em direcção aos lordes piratas e suas respectivas tripulações, que não desistiam da sua marcha.

O choque foi imediato e frontal, arrebatado por ambas as partes, no que resultou numa explosão de grunhidos e de aço batendo contra aço, corpo lutando contra corpo de forma impetuosa e violenta, perante qualquer um que assistisse tamanho confronto. Todos desferiam golpes eficazes nos que não estivessem preparados fisicamente para receber tal estocada, acertando em cheio na parte do corpo pretendida.

Em questões de segundos, aquela peleja tornou-se numa autêntica batalha campal e, embora a escuridão da noite tivesse mergulhado sobre todas as cabeças atentas, os lordes piratas mantinham uma pose altiva de luta, respondendo de forma clara às pontas afiadas que ameaçavam golpear seu corpo e membros. Enquanto isso, os piratas de Silver lutavam de forma suja, usando golpes baixos a modos de captar uma fraqueza em seus adversários, que se defendiam arrojadamente dos embates provocados por espadas inimigas. Num som característico, capaz de embalar o ambiente, os disparos soavam de uma maneira energética, prontos a penetrar na carne de quem se colocasse em sua mira. E incapazes de fugirem à fatal bala, corpos tombavam sobre o chão térreo da aldeia, expressando uma feição de puro terror ao verem-se derrotados por uma insignificante peça de chumbo que os mataria em limitados segundos.

A luta mantinha-se acirrada, até o momento em que os lordes piratas mudaram de estratégia, desferindo golpes poderosos, sem piedade nenhuma, com suas espadas, golpeando, por fim, os seus adversários, que caíam no chão sem a menor reacção possível. Com gritos de satisfação, os lordes aproveitavam a gloriosa vantagem de seus adversários, por estarem sobre o efeito do álcool, o que facilitava seus determinantes movimentos para desarmá-los.

Eram nessas condições que a tripulação do Pérola Negra penetrava sorrateiramente naquela batalha, num passo acelerados, a modos de passarem despercebidos por aqueles que lutavam bravamente. Aquela é uma luta deles, pensou Barbossa ao cobrir educadamente a jovem Estella com seus braços, para a proteger da visão terrífica daquele ambiente de puro terror.

-À vontade, marujos ou lordes, ou qualquer coisa que me apareça á frente. – pronunciou Jack no seu passo peculiar, atravessando descontraidamente o campo de batalha, como se fosse intocável diante das espadas que cruzavam a sua frente. - Não se distraiam por minha causa!

Aproveitando-se da confusão, Jack ia estendendo cuidadosamente o braço para poder roubar, a muito custo, as algibeiras de qualquer pirata que tivesse distraído, ou dos que já se encontravam sem vida, abanando-as, por fim, perto do ouvido para ver se ainda tinham algum dinheiro.

Barbossa, que se aproveitava da escuridão das casas, tal como os restantes tripulantes do Pérola Negra, para fugir daquela peleja, parou de rompante e tomou uma expressão atónita ao ver Jack passar pelo meio da batalha, como se fosse uma pessoa invisível diante do olhar dos outros. Extremamente irritado, rodopiou os olhos e foi buscá-lo.

-Ei, ei, ei, eu só estava juntando umas pequenas economias. Você sabe, há quem já não vá precisar delas – Barbossa bufou indignado, continuando a empurrá-lo em direcção ao porto

Quando finalmente conseguiram chegar ao cais, Jack desenvencilhou-se das mãos acarretadas de Barbossa, observando o panorama atrás de si. Os Lords, e suas tripulações, mantinham o pleno controlo da situação, diante aquela corja bêbeda, que mal conseguia equilibrar uma espada ao desferirem falsos golpes. Com o cenho franzido Jack olhou á sua volta, como quem procura algo e, reparando que era o único que ainda permanecia no cais, tratou de subir a rampa, procurando Gibbs.

-Sr. Gibbs, mande soltar as amarras, içar a bolina e tudo mais que este garotão necessita para partimos – Seus olhar recaiu sobre o Sr. Cotton, que se dirigia para o leme. – Vamos homem! Sabe o que fazer! Velas a todo pano... - Acenou com as mãos a modos de o despachar.

-Aye, Capitão – E virando-se para a tripulação, que começava a arrastas a rampa, berrou em bom-tom: - Ouviram bem seus cães sarnentos…

Logo as âncoras foram levantadas ao mesmo tempo em que as velas negras eram içadas a todo o fervor, ganhando um magnífico brilho ao receber os reflexos prateados que a lua lhes cedia. Ao estar tudo praticamente aprontado para a desejosa partida, o navio zarpou do porto da Jamaica, indo ao sabor do vento.

Estella observou discretamente Jack distanciar-se de todos, num passo penoso, e repousar suas mãos sobre a amurada, fitando atentamente a lua. Foi então que ela tomou coragem e moveu-se até ele, colocando-se ao lado direito de Jack.

-Sr. Sparrow, perdão por o importunar – desculpou-se ela ao sentir-se constrangida na presença daquele capitão incerto –, mas há coisas que eu não percebo.

-Como o quê, darling? – encarou os olhos cor mel de Estella, com um olhar duvidoso.

-Como iremos descobrir o Adriatic Sea no meio deste imenso oceano, se ele já deve se encontrar a milhas de nós? Nunca o conseguiremos alcançar a tempo de impedir tal loucura.

-Darling, você está dentro do navio mais veloz do Caribe, savvy? – retrucou ao girar a mão sobre o pulso com uma pose altiva. - Entretanto, nunca coisa tem razão, nunca o iremos achar no meio desta imensidão - Com as mãos erguidas sobre o peito, sorriu maroto. - A não ser... – e, como se tivesse esquecido de algo, levou a mão ao cinturão de onde tirou uma bússola –, com uma pequenina ajuda.

-Uma bússola? – confusa, Estella pegou nela, abrindo-a sem hesitar, mas logo se decepcionou ao ver que a bússola em questão não apontava para o norte.

-Antes que exprima sua profunda decepção ao alertar-me que ela está estragada, eu devo-lhe advertir que essa bússola é especial. Ela aponta somente para aquilo que mais desejamos. – explicou Jack com um sorriso triunfante aflorando em seus lábios - Foi assim que sua querida irmã achou você . – Ao encurtar a distância que os separava, ela olhou-o receosa, duvidando das intenções dele. – Palavra de pirata que não estou mentindo, darling, pode comprovar isso. – Jack apontou o seu dedo indicador para a bússola, que apontava claramente para um ponto cardial.

-Noroeste. – comunicou ao ver que a bússola não se movia mais.

-Sr Gibbs…- chamou num tom vivaz ao fechar os lábios numa crispada marota.

-Aye Capitão…

-Temos um novo rumo: noroeste! – Gibbs suspirou aliviado. – A todo o pano, cavalheiros.

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Durante as primeiras horas da brumosa manhã daquele dia, uma luz rósea do amanhecer começava a tingir o horizonte, enquanto um vento forte fustigava as velas numa dança frenética, fazendo com que o Adiatic Sea cruzasse velozmente as águas agitadas do Caribe, deixando atrás de si um estreito rastro de espuma. Perla, que tinha acabado por adormecer no castelo de proa, acordou assustada quando ouviu uma certa movimentação apoderar-se do convés superior. Levantou-se então, meia sonolenta, tentando perceber o que se passava ali, até que seu olhar recaiu em pleno horizonte, onde reparou que um ponto negro ganhar um contorno brilhante sobre o sol nascente.

-Eu conheço aquele navio! – murmurou ao sentir seu coração parar. - Aquelas velas inconfundíveis. – Com um agradável sorriso, murmurou: - É o Pérola. – Desviou o olhar para o leme, onde viu Silver agarrá-lo furiosamente com uma expressão vincada pela cólera.

-Vamos seus cães sarnentos, a toda à brida! – berrou entre dentes, de uma forma rude. – Façam de tudo para manter o Adriatic o mais longe possível desses vermes.

Perla correu até à amurada e, agarrando-se firmemente ao estai a modos de poder inclinar o seu dorso ligeiramente para a frente, focou a distância que faltava para que o Pérola alcançasse o Adriatic Sea. O navio de Jack estava quase no alcance do Adriatic, velejando velozmente na paisagem marítima e cada vez mais perto da popa do navio inimigo.

-Prepararem os canhões, posicionem suas armas. – ordenou Silver enquanto seus homens preparavam os rastilhos dos canhões. – Vamos seus imundos…

Apreciando a inconstante correria instaurada no convés superior, onde todos se atropelavam violentamente, Perla tentava arquitectar um plano rápido para atrasar o Adriatic Sea, e assim finalmente, o Pérola alcançar o través do Adriatic para o bombardear, mas para executar seu plano, ela iria precisar de uma espada. Trémula, ela pensou nas hipóteses que teria e, embora receosa sobre o futuro dos acontecimentos que iriam decorrer, considerou que poderia morrer ao tentar fazer qualquer coisa de útil para ajudar Jack. Mas isso era o que menos lhe importava. Sentindo o gostoso vento da manhã emaranhar os seus cacheados cabelos em frente do rosto, Perla suspirou impaciente, removendo-os para trás dos ombros. Era agora, pensou. Ao ver que ninguém, naquele momento, parecia se importar com a sua presença, Perla tirou discretamente o casaco para que pudesse agir sem a menor das dificuldades. Fitou novamente o horizonte com um ar determinado, reparando que, cada vez mais, o Pérola se aproximava do seu intento.

Sorrateiramente, Perla aproximou-se de um dos marujos e, num gesto rápido e ardiloso, empurrou-o para lhe roubar, ao mesmo tempo que este ia tombando, o sabre que ele trazia em sua bainha. Cortando os fios que ligavam à vela principal, Perla sentiu as atenções direccionarem-se para ela e, olhando de soslaio para o leme, reparou a imensa fúria exposta nas feições de Silver. Com um rugido funesto, este passou o leme a um marujo e moveu-se até ao convés. Sentindo o medo bloquear-lhe os movimentos, Perla oscilou a cabeça para acordar daquele transe, correndo, por fim, em direcção à sala principal, a modos de fugir daquela multidão de piratas.

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No Pérola Negra, os canhões eram aparelhados com toda a precisão enquanto a tripulação se movia de um lado para o outro para prepararem a abordagem. Jack mantinha um ar enigmático, manejando o leme freneticamente entre suas mãos, não desviando o olhar do Adriatic Sea. Já Elizabeth, sustentava sua atenção em Estella, que se mantinha agitada ao fitar, com um olhar esmaecido, o navio em que tão bons momentos tinha passado. Em passadas lentas, Elizabeth aproximou-se dela que, mesmo sentindo a presença feminina da moça ao seu lado, não moveu a cabeça.

-Acho que você devia manter-se em segurança – advertiu Elizabeth, num tom prudente. – Não é aconselhável uma mulher no seu estado envolver-se nisto. – Estella meneou a cabeça em sua direcção.

-Não há maneira de impedir tal loucura, pois não? – murmurou numa voz rouca. – É o meu marido que está ali, e eu não o quero perder. Por mais defeitos que tenha, ele é um bom homem. – Tocada pelas palavras desesperadas daquela mulher, Elizabeth sentiu que, pela primeira vez, não sabia que atitude tomar.

-Se eu lhe prometer que farei de tudo para que seu marido não morra, você se manterá em segurança?

-Como posso confiar na sua palavra? Você é uma pirata, tal e qual todos eles. Deseja ver Silver morto…

-Não sou só pirata como sou mãe também. – Estella estreitou o cenho, surpresa. – Sei o que é criar um filho sem um pai, alteza. – E encarando-a preocupa, continuou: - Por questões do destino, meu marido foi arrancado das nossas vidas – rapidamente o tom tornou-se num lamento: - E se estou aqui hoje, nesta aventura louca, è porque fiz uma promessa perante meu filho: matar Silver – Ao ver o rosto da jovem empalidecer, murmurou: - mas seu filho não tem culpa do passado tumultuoso de Silver. Ele não merece crescer sem um pai.

-Isso quer dizer que…

-Deus me perdoe por tais palavras, mas eu farei o possível para que Silver tenha um julgamento à sua altura. – Elizabeth agarrou a mão da jovem, séria: - Só não posso prometer que zelarei pela segurança dele, nesta inevitável batalha.

-Eu sei – retrucou Estella com uma ponta de esperança em sua voz. – Mesmo assim, já fico mais descansada por dar a oportunidade de Silver ter um julgamento, ao invés de o matarem. Obrigada, senhora, não sei como lhe agradecer.

-Agradeça-me colocando-se em segurança. Vá para o convés inferior e só saia de lá quando eu a for buscar. – A jovem princesa assentiu. – Agora vá!

Estella olhou uma última vez para o Adriatic e, com um suspiro embargado, ganhou vontade própria para se deslocar até aos confins daquele navio. Elizabeth acompanhou os passos de Estella até ela desaparecer sob a escotilha e, de relance olhou para Jack que continuava com aquela expressão enigmática, observando o navio, que estava quase alcançando a popa do Adriatic.

-Ai Jack, só gostaria de ter a sua tranquilidade – murmurou para si mesma. – Que Deus me dê forças para tomar a decisão mais sensata. – num berro, ordenou: - Preparar abordagem!

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-Sua rata de porão – bramiu Silver, levando quase com a porta da sala principal em sua cara. – Abra a porta antes que eu a derrube.

No meio daquele sobressalto todo, Perla soltou um sorriso amarelo ao verificar que tinha concretizado aquilo que tinha planeado: distrair o capitão. Ao arfar descompassadamente, ela encostou-se à porta, percorrendo com o olhar cada ponta daquela sala a modos de achar qualquer utensílio útil para poder escapar daqueles homens enfurecidos. Seus nervos se afloraram à flor da pele, ao reparar que não havia ali nada para a manter salva daquela situação comprometedora. Os berros de Silver desorientavam-na cada vez mais, fazendo-a perder o controle da situação e só notou isso quando sentiu o seu corpo todo estremecer de pavor, mas ao menear o seu olhar para a vidraça escurecida pela sujeira, reparou que o Pérola Negra começava a contornar o Adriatic a estibordo, para se posicionar para o ataque que iria ocorrer.

Com a respiração afectada, Perla finalmente tentou manter o controle, principalmente quando sentiu a porta abanar fase aos insistentes encontrões de Silver, que persistia em abri-la. Empinando a espada, Perla apertou-a com força nas mãos, decidida a enfrentar aqueles piratas. Podia não ter vantagem, mas não queria dar parte fraca. Tinha tido um bom professor que, durante algumas horas do dia, em plena viagem, que lhe tinha ensinado como brandir uma espada e a desferir bons golpes. Ao lembrar-se da situação em que se encontrava, Perla respirou fundo, ganhando então coragem para abrir a porta, onde viu Silver arregalar-se os olhos, quando esta lhe apontou a espada no centro da sua garganta.

-Corajosa, devo admitir. – contemplou, olhando-a de cima abaixo. - Pretende matar-me alteza? – supôs com uma risada sarcástica. – De onde tirou tanta audácia? Pensa vencer uma tripulação sozinha.

-Eu não estou sozinha, meu caro – rebateu ao tremer com a indiferença de Silver. – O meu capitão está perto de atacar este navio.

-Até ele chegar, você estará morta – retrucou com um sorriso mordaz, mas logo fechou ao vê-la dar ombros.

-Ao menos morrerei lutando pelos meus ideais – Mal terminou a frase, atacou Silver, que se desviou num pulo. – Não devia subestimar uma princesa pirata.

Quando Perla ia atacá-lo novamente, seu golpe foi cortado por um marujo que o deteve. Cerrou os dentes, mostrando sua falsa fúria, como uma camuflagem para esconder o real medo que sentia, Perla atirou-se com a espada erguida a esse marujo, que não contava com o ataque. Com um golpe eficaz, Perla acertou-lhe em cheio no ombro e, com os olhos arregalados, viu-o tombar de joelhos no chão, para seu horror. Nunca tinha ferido ninguém daquela maneira rude, muito menos havia-lhe passado pela cabeça que necessitaria de matar alguém para manter sua vida intacta.

Desesperada, Perla olhou para os marujos que já começavam a desembainhar suas espadas. Ela agarrou com as duas mãos o cabo da espada, rodando-o lentamente, a espera que o próximo aventureiro a atacasse.

Tenho que me proteger, pensou ao olhar arrebatada para todos os lados, até lhe surgir uma pequena ideia. Diante do olhar aterrorizador de todos, Perla correu por entre a multidão de piratas, sentindo as mãos deles tentarem agarrá-la e só parou quando chegou perto do mastro principal, onde se encostou, a modos de proteger suas costas e lhe dar uma minúscula vantagem de defesa.

Num abrir e fechar de olhos, um dos marujos desferiu um golpe certeiro, que Perla conseguiu a tempo sustentar no ar, à medida que empreendia suas últimas forças para o aguentar durante mais tempo. Foi então que sentiu sua perna falsear enquanto deslizava esgotantemente para o chão, tocando-o com seu joelho enfraquecido.

-Eu não posso fracassar, eu não posso fracassar – repetiu-se mutuamente, sentindo suas lágrimas escorrerem-lhe pelos olhos. – Eu não posso morrer, não agora….

Ao proferir aquilo, e num berro agudo que entoou naquele curto espaço, Perla ganhou energias para se levantar e se aprontar para outra investida. Dando um encontrão violento ao marujo, este perdeu o equilíbrio, o que facilitou Perla de enterrar a sua espada no abdómen do homem.

-Do que estão á espera marujos? Ataquem-na. Matem-na de preferência.

Foi então que um tiro de canhão soou no ar, acertando metade da sala principal do Adriatic Sea. Perla olhou de relance para o lado direito e, com um sorriso desafogado, ela apreciou o negro navio moderara a velocidades a modos de ficar paralelo com o Adriatic. Num gesto rápido, Perla apanhou a espada que o seu adversário tinha deixado cair a poucos centímetros de si.

-Artilharia, preparar – ordenou Silver num tom vigoroso, que fez Perla estremecer. – Fogo!

-Não! – berrou Perla ao ver que não podia evitar aquela maré de fogo, cuspida pelos canhões.

Os homens, que há bem pouco tempo rodeavam Perla, logo se anteciparam aos canhões, acendendo-lhes o pavio da boca e, rapidamente, recuaram para repetir a operação. O som grave dos canhões assemelhava-se ao som de restes trovões que se perdiam na imensidão do mar, fazendo mais uma onda de estragos sobre o navio inimigo. Por momentos, as velas do Pérola Negra ficavam praticamente invisíveis, por detrás de uma encrespada montanha de fumo branco, cingindo em parte o ar. Quando finalmente a nuvem branca se dissipava, Perla atemorizou-se ao reparar que, ainda havia marujos persistentes a circundarem a área em que ela permanecia, prontos a atacar sem a menor das piedades.

Assombrada, Perla arrumou nervosamente os cabelos para trás dos ombros, permitindo que uma lufada de ar fresco refrescasse seu corpo suado, solvendo uma boa quantidade de ar para ceder a seus pulmões. Erguendo a espada, na crença de que tão cedo ninguém a salvaria, Perla posicionou os pés ao ver um homem alto e carrancudo prontificar-se para o ataque. Num movimento rápido, ele atacou-a, mas Perla defendeu-se bravamente, sustendo o golpe a milímetros de distância de seu rosto. Com um grunhido forçado, ela consegui desviar a espada do adversário. Com a outra espada, Perla atacou as pernas e dando-lhe uma cotovelada no lombo, fê-lo cair no chão.

Quase não teve tempo para se recompor do choque pois, quando tomou consciência do seu acto, Perla viu mais dois homens direccionar-se até si. Num acto perspicaz, ela curvou-se um pouco para a frente e, ao ver a espada dele cortar o ar, à medida que se desequilibrava, Perla ergueu-se novamente para o aparar e fazer dele seu escudo para o golpe do ruivo que acabava de desferir uma incisão eficaz sobre o peito de seu companheiro. Atirando o marujo ferido ao ruivo, ela cruzou espadas com um moreno que a atacou de um modo desprevenido.

-Que Deus me ajude – rogou ela sentindo o suor escorregar-lhe pela face, ao desenvencilhar-se do moreno, que tombou rapidamente no chão com um enorme corte na garganta.

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Depois de uma salva de tiros disparados, tanto de canhões, como de pistolas, vindas de ambas as partes, os estragos começavam a ser notórios aos olhos dos marujos que permaneciam em ambos os navios, navegando lado a lado numa permanente batalha naval. Cedendo o leme a Sr. Cotton, Jack desceu velozmente as escadas do castelo de popa, deparando-se com Elizabeth e Barbossa, arriados perto da amurada, com suas pistolas em punhos enquanto faziam mira para os seus adversários, permanentes, no Adriatic Sea. Observou então, com um semblante atento, o cenário instaurado sobre o mar límpido do Caribe.

-Capitão, eles superam-nos em números – observou Gibbs, fitando o navio adversário.

-Números não ganham batalhas, Sr. Gibbs – retrucou Barbossa ao ver a pena de seu chapéu ser estraçalhada por um tiro, o que o aborreceu.

- É, mas bem que ajudam... -divagou Jack, perdido nos pensamentos, esbracejando.

-Quais são as ordens, Jack? – indagou Gibbs com a voz levemente trémula.

-Lançar ganchos, preparem-se para abordamos o navio inimigo e essas coisas todas que serão necessárias para a nossa sobrevivência, savvy? – retrucou Jack movendo suas mãos sobre o peito.

Jack moveu-se até à amurada, subindo-a sem hesitar. Agarrando a corda de abordagem, Jack analisou qual a melhor altura para poder saltar em direcção ao Adriatic Sea, que se encontrava envolvido numa nuvem de fumo que o tornava quase imperceptível. Com um suspiro despreocupado, Jack viu chegar o momento e, ganhando balanço nas pernas, saltou por fim até conseguir colocar seus pés sobre o chão escorregadio do Adriatic, coberto de estilhaços de madeira, resultado da queda de um dos mastros. Olhando ao seu redor, ele desembainhou calmamente a espada, e com um brioso sorriso, viu que sua tripulação tinha seguido o seu exemplo.

Cada vez mais enfadada, Perla tentava esgueirar-se dos golpes consistentes que aqueles piratas brandiam e, cada vez mais rendida à derrota e ao desespero, recuava num passo impreciso, permitindo que seu adversário adquirisse uma certa vantagem na luta. Com um leve tilintar, as espadas cortavam o ar em várias direcções, cansando o pulso de Perla, que deixou uma de suas espadas cair. Vendo o gigante apossar-se desta, ela abriu a boca, desesperada, mas a atenção do gigante rapidamente foi cortada, quando alguém lhe bateu de leve com o dedo nas costas, pedindo licença.

-Nunca lhe ensinaram que é feio atacar uma donzela com duas espadas, mate! – A voz inconfundível de Jack fez Perla aflorar um sorriso nos lábios.

Aproveitando a distracção do gigante, Perla cravou-lhe a espada pelas costas do homem, ouvindo o forte grunhido que ele deixou escapar pela boca.

-Como sempre atrasado – declarou ela, fingindo-se amuada.

-Improvisos, darling – ao observar o local á sua volta, concluiu: -Além do mais, pelo que vejo, você já se adiantou na festa.

-Peço perdão por não ter esperado por vossa alteza, mas estava preservando minha vida. – rebateu mordaz. – Agora, se você também presa a sua, vire-se rapidamente para trás – ordenou num grito aflito.

Ao se aperceber da urgência daquelas palavras, e num leve girar de calcanhares, Jack aparou a tempo o golpe focado do marujo, que falseou para trás. Ágil e habilidoso, Jack esquivou-se bruscamente da nova investida vinda da espada do marujo, que assobiou ao cortar o ar e, num modo improvisado, atingiu-o em cheio com uma incisão eficaz.

Relançando seu olhar para trás, viu uma Perla ofegante se defender com uma maestria cuidadosa, atacando com golpes audaciosos contra um gordo moreno, que manejava sua espada num contrataque defensivo e grosseiro. Decidido a ajudá-la, para lhe dar um pouco de descanso, Jack evitou que a lâmina afiada do seu adversário perfurasse o abdómen de Perla. Com três passadas rápidas e, sem vacilar, Jack desferiu um golpe exacto de baixo para a cima nele, ao afundar sua espada no peito do adversário.

A poucos metros deles, Elizabeth, Barbossa e o resto da tripulação encontravam-se espalhados pelo Adriatic Sea, cruzando igualmente espadas com os corajosos aventureiros, que ousavam apontar a lâmina prateada, ou por vezes ligeiramente enferrujadas, no rosto da tripulação do Pérola Negra, que rapidamente optaram uma posição de contrataque cerrado. A sua volta, corpos jaziam sem vida no chão ensanguentado do navio, que transformava aquela madeira castanha clara, num vermelho vivo, que chamava a atenção de qualquer olhar curioso. Os tripulantes do Pérola desfrutavam do doce triunfo da vitória, à medida que os tripulantes do Adriatic eram vencidos com vivacidade.

No calor dos acontecimentos, Jack sentiu as costas de Perla repousarem sobre as suas, a modos de escapar de um golpe arrebatador de direita para esquerda. Para lhe facilitar a fuga e também para escapar a um embate certeiro, Jack curvou-se um pouco para a frente, permitindo que ela inclinasse suas costas sobre as dele e atacasse o adversário á sua frente, enquanto, num acto veloz, rodou para cair no chão, para que Jack se virasse de rompante e atacasse o homem atrás de si, dando-lhe um valente murro no nariz.

-Jack, julgo que não vou conseguir levar isto até ao fim – declarou Perla no instante em que ele lhe cedeu a mão para ajudá-la a levantar-se. – Não aguento mais.

-Para um aprendiz de pirata, você está se desenrascando lindamente – com um tom envolvente, Jack passou o dorso da mão a milímetros de distância do rosto de Perla e continuou: - Tornou-se numa boa espadachim.

Entretanto, foram separados por um homem que corria de espada em punho com um urro corajoso, mas, ao chegar perto deles, escorregou num estilhaço de madeira, parte de um do mastro, e deslizou até à amurada, onde caiu directo no mar agitado. Os dois ficaram a olhar, incrédulos, com uma expressão de deboche diante da situação, até Perla manear sua cabeça para Jack.

-Em compensação, você é um homem muito estranho - retrucou ela, movendo-se em sua direcção.

-Por quê? - Observava-a, experimentando uma emoção que nada tinha a ver com a batalha que estava a decorrer bem diante dos seus olhos.

-Porque nunca devia ter optado seguir este navio, no entanto, decidiu bombardeá-lo e lutar bravamente como pirata que é. - Já muito próxima, ela parou para o encarar e num sussurro concluiu: – Salvou a minha vida. – Jack abriu um sorriso manhoso perante as palavras que o fizeram arrepiar.

-Talvez, um dia, eu venha a lhe cobrar isso. - Fitou-a, com um sorriso maroto, ao vê-la morder o lábio inferior. - Mas por enquanto, darling, esse pagamento será o bastante.

De súbito, Jack puxou-a ansiosamente pelo braço, colando-a contra o seu palpitante peito, que pulsava de fervor ao apossar-se das costas de Perla, com sua mão, que estremeceu com o toque. O coração de Perla disparou ao sentir a respiração arfante dele sobre sua testa e, ainda mais, quando sentiu os lábios de Jack mergulharem nos seus, num desejoso e apaixonante beijo. Atordoada, Perla ficou paralisada, como se todas as forças de seu corpo tivessem-na abandonado, à medida que o ar escasseava. Erguendo as pontas dos pés para melhor acompanhar o beijo, Perla rodeou seu braço sobre as costas de Jack, desfrutando daquele momento.

Quando ele afastou gentilmente os seus lábios dos dela, Perla permaneceu de olhos fechados, tentando manter o seu auto controle ao respirar pausadamente para recuperar o fôlego roubado.

-Estaria disposta a pagar qualquer preço para beijá-lo novamente – num sussurro, Perla roçou de leve os seus lábios no dele, fazendo-o acariciar o rosto, com o dorso da mão, o que a levou a soltar suspiro sôfrego.

Ao ver uma espada erguida atrás dela, Jack arregalou os olhos, apercebendo-se da manobra de um marujo atrevido, que se preparava para penetrar o sabre traiçoeiramente nas costas de Perla. Num movimento audaz, Jack atirou-a para o chão e, rodopiando sobre o seu próprio pé, feriu o marujo, com uma incisão precisa no braço dele. Vendo-o tombar, Jack deu-lhe um pontapé bem no traseiro.

-Jack Sparrow! – A voz de Silver intercedeu o clima tenso, fazendo Jack direccionar sua atenção para ele.

-Silver, quanto prazer – rosnou entre dentes num falso entusiasmo.

Confusa com o que se tinha passado, Perla levou a mão á cabeça, até se aperceber que, diante de si, a poucos metros, estava Silver. Com a visão ainda meio turvada, ela ergueu a cabeça até ao cinturão de Silver, onde repousava a Mão de Midas. Ao se aperceber que Silver não tinha dado por sua presença, ela rastejou cautelosamente até ele, sob o olhar atento de Jack, que tratou de manter Silver distraído, até entender o que aquela maluca estava pronta a fazer.

-Acho que tem uma coisa que me pertence, mate – aclarou Jack com seus inconfundíveis trejeitos.

-A princesa ou a Mão de Midas? – Jack percebeu o veneno que aquelas palavras continham.

-A Mão de Midas – ressoou uma voz feminina carregada de ódio.

Ao levantar-se de relance e aproveitando a temporária confusão de Silver, Perla rompeu-lhe o cinturão com a espada, aparando o objecto em suas delicadas mãos. Com a fúria a queimar-lhe os olhos, Silver viu Perla misturar-se no meio da desordem instaurada por espadas e pistolas.

-Com licençaaaa – melodizou Perla com um falso tom de alegria, atravessando-se no meio da luta de Elizabeth e um homem negro, que trazia um longo arranhão no peito, provocado pela espada de Elizabeth

-Aquela cadela Real – murmurou Silver correndo por fim atrás dela.

-Oh, bugger – praguejou sem conseguir evitar que Silver a seguisse, e confuso com a situação, Jack deu ombros e correu atrás deles também.

Ao chegar perto do mastro principal, Perla olhou a sua volta, pensando numa solução rápida para se afastar da fulminante mira de Silver. Fitando o mastro, algo lhe chamou a atenção. Ao colocar a Mão de Midas no seu cinto, Perla agarrou-se a uma das cordas que prendia a vela e, ao dar lanço a sua espada, ela cortou impetuosamente a corda, sentindo que esta a pressionava para verga da vela. Lá em cima, ela tentou manter o equilíbrio, apesar do vento destabilizar a sua estabilidade, indo em direcção até á gávea. Mas, para seu espanto, alguém se atravessou bem á sua frente.

-Finalmente, alteza, teve coragem de assumir o sangue que lhe corria nas veias – proferiu Silver, em desdém. – Honrará seus antepassados e acabará como eles.

-Também será um enorme prazer cruzar espadas com você, Silver – e com igual desdém provocou: - Se fosse você não estaria certo da sua vitória, como mesmo disse, tenho sangue pirata e o honrarei até ao fim.

-Não será uma luta fácil, estou a ver. – Ao se colocar em posição de ataque, ao mesmo tempo que tentava manter o equilíbrio, concluiu: - Isso agrada-me!

Depois de algum tempinho desaparecida, devido a uns problemas aqui, eu estou de volta. Peço desculpa pelo meu desaparecimento, vou tentar não desaparecer assim por tanto tempo.

Bom, este capítulo foi dividido em duas partes, pois ele era demasiado grande para ser postado numa só parte, por isso, vou demorar menos a postar o próximo para não se perderem na história.

Quero agradecer aos que ainda acompanham esta fic, até mesmo aqueles que a lêem e não comentam. Rô, Bruno, Carlinha, Fini Felton, Ieda (que continua desaparecida rs), Likha, Jane, Thata Martins e Asuen obrigada pelo coment e pela força, espero que continuem acompanhando a fic desta autora desnaturada rs.

Bjokas grandes e fiquem bem.

Taty Black