Capitulo 28 – O confronto part.2

As velas rugiam ferozmente contra o vento ousado que antevia uma mudança brusca para aquela situação que se desencadeava em pleno mar do Caribe. O sol, agora reinando no topo, deleitava os seus raios dourados nas águas cristalinas, onde os dois navios permaneciam agora estáticos, apenas regidos pela atroada do vento. Quem se atrevesse ali a passar, e se deparasse com aquele cenário, acompanhado por um silêncio devastador, diria que estava diante dos destroços de navios, já que a atenção depreendia-se agora na ondulação das velas, sitio onde permaneciam Perla e Silver, que tentavam captar os prévios movimentos de ataque de cada um.

Gibbs gesticulava os dedos, inquieto com tal situação. Pelo canto do olho, fitava um quieto Jack, que cravava seus azeviches na encenação pronta a começar. Como era possível ele estar tão pacífico?, ponderou Gibbs ao observar à sua volta todo o panorama imobilizado.

-Jack, aquilo é suicídio – rosnou, não se interessando se aquele era ou não o tom mais apropriado para as circunstâncias.

-Não, senhor Gibbs, aquilo é arte de vingança. Uma terrível arma que nos pode dar vantagens, se é que me entende…

-Ou que a pode levar a uma morte certa – retrucou ao se afastar de Jack para um ângulo onde pudesse apreciar melhor.

Jack suspirou, voltando sua atenção para Perla. Talvez Gibbs tivesse razão, talvez aquilo fosse suicídio, porém não podia impedir que Perla tentasse seu ímpeto. Apertou a mão num punho cerrado. Raios, o que estava pensando quando a deixou ir sozinha?. Chocalhou a cabeça para afastar aquele pensamento, pronto a atuar. Quando estava pronto a mover-se para acabar com aquela loucura, sentiu os dedos de Barbossa repousarem sobre o seu ombro.

-Talvez seja a nossa única hipótese, Jack. Ela tem o sangue de Anne Bonny a correr-lhe nas veias. – Jack apenas fitou-o de esguelha e assentiu.

Perla permanecia de espada em riste com a sua atenção redobrada perante o seu adversário, que lhe retribuía com um olhar atento e espremido numa linha tensa. Ao engolir em seco, numa falsa coragem que não sentia, Perla desviou um pouco o olhar para baixo e empalideceu ao se aperceber que estava apenas suspensa por uma vara. Tudo dependia do seu equilíbrio e da sua destreza, caso não quisesse morrer de uma queda aparatosa ou, talvez, do afiado sabre de Silver. Como se lesse os seus pensamentos, Black Dog rodeou os seus dedos sobre o punho do sabre, numa maneira de intimidar a sua adversária. Essa movimentação, nada discreta, fez Perla voltar a encará-lo. Respirou, então, fundo para dispersar aquele temor que a tomava.

-Então, alteza! Estou à espera das cerimónias oficiais para dar início ao duelo – ironizou ao fazer uma vénia, sem desvia aqueles castanhos profundos.

-Você vai pagar por todo o mal que fez à minha família, seu verme. – bramou ao abordá-lo bruscamente com a espada.

O vento proclamou o som do aço de ambas as espadas. Numa mestria perfeita, Silver conseguiu deter o golpe de Perla, desviando-o de lado, para raiva da princesa que voltou a investir. Todos permaneciam em silêncio absoluto, presos nos movimentos das duas armas.

-Família? – interveio, ao defender um golpe de direita da jovem. Irónico, proferiu: - Qual a parte que você se esqueceu que eu também pertenço à sua família real, alteza?

-Você é um monstro – resmoneou ao desferir novo golpe com toda a sua força.

-Este foi o meu melhor plano. Esplendoroso, se me permite acrescentar. - Silver gargalhou tão alto que as velas estremeceram com o som. -Tudo graças ao Oráculo, um velho pedinchão encalhado numa ilha com poderes adivinhos. Há quem diga que ele é Hermes, o mensageiro dos Deuses. Foi ele que me disse onde estaria a chave da maior fortuna do mundo. E veja bem, tudo se resumiu a você. Irónico, não?

-Como ousou usar uma jovem tão inofensiva como minha irmã, num planto tão maquiavélico – retrocou meia hesitante no ataque, já que Silver permanecia astuto em suas investidas.

-Confesso que a princípio ela era apenas um peão nessa trama. – Perla sentiu uma cólera incontrolável apoderar-se do seu corpo ao escutar aquilo. – Mas, sabe? – Silver encolheu os ombros, numa atitude branda. – De peão subiu a Rainha na minha vida. E você? Bem, você foi apenas um empecilho que me dificultou o meu desígnio. Agora, está na altura de eu me livrar de você, tal como me livrei de seu pai…

-Meu pai? – Gelou ao ouvir aquela sentença.

-Sim, seu pai está morto, alteza. Eu finalizei com a vida daquele ser desprezível. Foi fácil demais, deixei alguém com esse dever, fazendo com que sua morte tivesse se dado pela tristeza de vos ter perdido. Umas gotas de veneno e voilá. – Riu com desdém. – Agora só falta acabar com você e ficar com tudo o que mais quero. Sua irmã e o seu reino.

Despontou, então, com um perfeito golpe de esquerda para a direita sobre uma atordoada Perla, que sentiu o seu equilíbrio ser roubado pelo trajeto daquele sabre. Seu pai. Seu pai estava morto.

"Não, não..."

-Nãaaaao. – Seu rugido ecoou para fora do seu ser, juntando-se com os ventos, tal como sua cólera que fustigava seu rosto. – Você se esquece de um único problema que te torna um fraco… você agora é mortal – bramiu ao voltar a atacá-lo sem piedade.

Não proferiu mais nada a não ser um urro de raiva. Silver sorriu enviesado, defendendo-se de cada investida enfurecida da jovem. Aços contra aço faiscavam no ar, ao passo que Perla avançava cegamente sobre o seu opositor. Aquela cólera que despertara no seu interior dera-lhe um novo rasgo para se vingar daquele que devastara a sua família. Agora tremia, mas não ser medo, era adrenalina proporcionada por aquela situação. Num falso meneio de direita para esquerda, ela aproveitou a distração de Silver para o pontapear numa perna, fazendo-o deslizar sobre a vara do mastro e ficando apenas suspenso por uma das imensas cordas. Perla sorriu vitoriosa, estava a conseguir aquilo que mais almejava naquele momento…sua vingança.

Lá em baixo ouviu-se um bramo de surpresa de ambas as tripulações quando Silver tombou com seu joelho na trave. Jack permanecia imóvel, sem conseguir desprender sua atenção. Ali viu uma esperança. Talvez Perla tivesse mesmo hipótese de vencer, contudo seu rosto fechou quando viu um surpreendido Silver erguer-se.

-Oh bugger, ele está com cara de poucos amigos.

Ainda aparado pela corda, Silver mordeu o lábio e, num golpe rápido, atacou Perla com seu sabre, apanhando-a de sobressalto e desferindo um golpe fundo no seu rosto. Perla urrou um gemido de dor ao sentir a sua pele ser rasgada com brusquidão. Sentia algo húmido e quente descer-lhe pela bochecha ardente, e, num movimento ligeiro, limpou o rosto com o braço, vendo que a cor que tingia o branco da camisa era vermelho.

-Belo golpe. – asseverou Perla, num misto de surpresa e fúria.

-Espere para ver os próximos…

Num meneio hostil de sabre, Silver desferiu um golpe de baixo para cima e, num novo tirlintar de espadas, Perla viu a sua esvoaçar sem permissão contra as tábuas do navio. Ardiloso, Silver avançou sobre ela e numa nova investida, golpeou a perna esquerda de Perla, o que a fez falsear e escorregar sobre a madeira que a sustinha. Desalentada, aparou-se numa corda, ofegante. Sentia-se perdida, mais do que nunca. Sem espada e vulnerável, era uma presa fácil para aquele ser vil. Num ato desesperado, observou o local ao seu redor. Foi então que viu que estava perto da gávea. Talvez subindo lá em cima, conseguiria obter alguma vantagem. Antes que ele se antecipasse sobre ela, Perla começou a trepar a corda de forma ávia para alcançar o topo da gávea. Sua cabeça estava a mil, não conseguir ter um pensamento fluido, sobretudo de como iria vencer Silver sem qualquer tipo de arma. Não podia morrer agora, não quando estava tão perto de concluir a sua vingança. Havia de surgir algo, tinha que surgir.

-Raios, raios – praguejou ao trepar com dificuldade a madeira da gávea, trôpega, sentindo ser seguida por Silver.

Quando conseguiu subir para a gávea, pressentiu alguém atrás de si agarrá-la pelos ombros e jogá-la contra o mastro. Seu rosto e corpo colidiram de forma brusca, desorientando-a. Quando tentava ter um ponto de equilíbrio, novamente aquelas mãos apoderaram-se de si, porém só uma foi de encontro ao seu rosto, num punho fechado. Cambaleou para o lado, sendo aparada por um barril que ali se encontrava.

Estava perdida, completamente perdida. Iria morrer. Seu corpo todo tremia de medo, frio, adrenalina, tudo parecia decorrer em movimentos lentos. Voltou a sentir aquelas mãos agarrarem-na e a empurrarem-na para o limite da gávea, onde ela, ainda desgovernada, susteve-se a uma corda para não cair. Voltou-se para Silver e viu-o desembainhar a sabre e empunhá-la sobre si, num golpe sobre o braço direito. Com as lágrimas a bailar-lhe nos olhos, a jovem não permitiu que aquele golpe a derrubasse sobre o chão sangrento daquele navio. Sem forçar, deu uma passada para trás, ficando apenas suspensa com a biqueira da bota no limite da gávea. Com a espada fria agora a tocar-lhe no pescoço, Perla inclinou-se um pouco mais para trás, meramente apoiada pela corda que sua mão agarrava tremulamente.

Silver não escondia a satisfação daquele momento. O seu sorriso vitorioso bailava-lhe no rosto suado, o que, por sua vez, enraivecia Perla.

-Você deu-me bastante luta, princesa, confesso que nenhum homem me deu tanta luta como você. Está feliz por isso? – Com seu desdém perfurante, ele subiu um pouco mais a espada sobre sua garganta.

-Você me mete nojo… - Perla cuspiu-lhe para o rosto, fazendo-o gargalhar.

-É assim que me pensa vencer? – Astucioso, aproximou-se ainda mais perto da jovem; vendo que não podia recuar mais, engoliu em seco. Em seu ouvido, ele murmurou: - Isso me pertence, alteza. – Arrancou a Mão de Midas do cinturão dela. – E vou acabar com você e os seus amigos piratas…

Pelo canto do olho, Perla analisou o ambiente lá em baixo e viu um estático Jack. Naquele instante, sentiu-se desvalorizada por todos lá em baixo, principalmente por ninguém intervir. Será que não viam que ela estava prestes a ser aniquilada? Quis pedir ajuda, contudo não queria dar parte fraca perante aquele homem.

-Temos de intervir rapidamente Jack, ela não vai aguentar por muito mais tempo – murmurou Elizabeth ao se aproximar de um Jack completamente petrificado, sem reação.

-Deixe esperar o momento certo…

-Qual? Quando ele a matar? Pensei que ela valia mais para você, Jack – ele volteou os seus calcanhares para uma Elizabeth de ar carregado.

-Não questione minhas opções, minha cara, eu sei o que estou fazendo. Não há ninguém capaz de o matar, senão ela…

-Ela não o pode matar – ripostou Elizabeth interrompendo-o ao se aproximar mais dele.

-Porquê? Pensei que era esse o propósito. – Elevou as mãos, confuso.

-Eu fiz uma promessa…

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No Pérola, Estella mantinha-se nos seus intactos aposentos, sentada numa rede que ia balanceando enquanto cantava uma canção para se afastar daquela desordem que ocorria lá fora. Porém deteve-se quando se apercebeu que não havia mais barulho algum. Nem um bombardeio, num o som de berros grutescos, muito menos espadas ou tiros. Confusa, Estella colocou seus pés sobre o solo e, num impulso, levantou-se e caminhou lentamente até à porta. Com as mãos trépidas, depositou uma sobre a porta e outra na maçaneta, abrindo-a lentamente. Seu coração parecia um cavalo selvagem pronto a sair-lhe do peito.

-Alteza não devia sair daqui, é muito perigoso. – Sobressaltada, viu um vulto aparecer na frincha que havia aberto. Era um dos piratas de confiança de sua irmã.

-Que ocorreu? – Indagou com sua voz doce, tiritante. – Porquê este silêncio?

-Está acontecer lá fora um confronto entre a sua irmã e o capitão do outro navio…. – Informou Murtogg com uma pistola em riste, em forma de proteção.

"Deus meu, Silver, Perla!" Ela levou a mão à boca.

Não podia deixar aquela loucura acontecer. Ainda se matavam. Não, Elizabeth estaria lá em cima, iria cumprir com sua promessa. Não deixaria sua irmã cometer uma loucura daquelas, e com sorte, conseguiria pôr fim àquelas ideias insanas de Silver de acabar com sua irmã. Sem se conter, abriu ainda mais a porta e avançou sobre os dois piratas que permaneciam hirtos à porta dos seus aposentos.

-Onde vai? Não é seguro ir lá em cima. – Mullroy colocou-se à frente da jovem, impedindo que esta seguisse seu intento.

-Prometemos ficar aqui para protegê-la. – afirmou Murtogg, tentando com que Estella voltasse para a sua camarata.

Desarmada perante aquele argumento, ela maneou a cabeça concordante e voltou-se de forma lenta para entrar nos seus aposentos. Sabia que eles não iriam desistir do propósito pelo qual tinham sido destinados.

-E vocês estão a fazer isso de forma esplendida, obrigada, eu vou voltar para a camarata então…

Ao verem que ela não oferecera resistência sobre suas recomendações, eles entreolharam-se confusos e numa passada, voltaram as suas costas para a porta dos aposentos, tal como dois guardas que anteriormente foram. Com os punhos cerrados, ela deteve-se e, num voltear veloz, Estella desatou a correr por entre eles, dando-lhes um encontrão para que ambos se desviassem do seu caminho.

-Eiii princesa…

Não olhou para trás. Não havia tempo a perder. Estella subiu a escada da escotilha para dar ao convés superior, sendo cingida pelo vento que fez seus cabelos dançarem sobre seu rosto atento. Numa nova corrida, dirigiu-se até à amurada do navio. Levou a mão à boca ao deparar-se com a devastação que se estendida diante dos seus azuis lacrimejantes. Desenfreadamente procurou sinais de Silver e Perla, até se aperceber que a atenção de todos os piratas se mantinha centrada no centro do mastro principal. Foi então que visualizou dois vultos a defrontarem-se no cimo da gávea, um tendo mais vantagem que o outro. E esses vultos eram, nada mais, nada menos quem ela procurava.

-Até que enfim que não foi para o outro navio, alteza. – ofegante, Murtogg quase fanicou sobre a amurada.

-Silver. – Berrou ela com todo o ar que continha em seus pulmões.

A voz dela ecoou no silêncio que se mantinha perante aquela atmosfera. Perla fitou-a, tal como Silver, que empalideceu. Perla voltou-se para ele e com um relance de coragem proferiu:

-Aproveite e acabe agora com isto, mostre à minha irmã o monstro que é, vamos…

-Sabe, o que estará prestes a acontecer aqui em cima, irá parecer um acidente dos que estão a ver lá em baixo. – sem que ela tivesse tempo de retrucar ou meramente pensar ele sussurrou: - Adeus princesa.

Num rosnar, com um gesto feroz, Silver cortou a corda que a mantinha equilibrada. Assombrada, Perla sentiu o ar sair-lhe dos pulmões num resfolgar. Seus braços esbracejavam no ar e, naquele impiedoso momento, era como se a morte a balanceasse nos seus braços frios e leves. Derrotada, esticou os seus braços e decidiu então aceitar o seu destino. Iria poder voltar a ver seu pai e sua mãe. Pedir-lhes perdão por tudo o que aconteceu.

Fechou os olhos enquanto ondulava, perdida, em queda livre, pensando que daria só mais um minuto da sua vida para estar novamente com Jack e despedir-se corretamente. A vida estava a breves segundos de se escassear de seu corpo, tal como a areia que escapa entre os dedos.

-Jack… - sopraram os seus lábios quase sem voz.

Suas lágrimas escorriam agora pelos olhos com tanta facilidade que nem sentia. Aliás, já não conseguia sentir nada: nem frio, nem medo, muito menos aquela adrenalina maldita que a tinha consumido. Estava finalmente livre de todo aquele sofrimento, porém não sentia o sabor de missão comprida. Isso significaria que já teria morrido? Tão rápido? Naquela reflexão, sentiu algo abraçá-la de forma brusca enquanto ainda caia. Seus verdes abriram num ápice, deparando-se com a figura de Jack a apará-la sobre uma corda, sobrevoando o convés do navio. Sem pensar duas vezes, enlaçou-lhe o pescoço para se segurar, agradecendo aos Deuses por mais uma oportunidade ao seu lado.

-Pensei que nunca mais o veria…

-E eu pensei que ia chegar tarde, mais uma vez – remoeu Jack com sobrolho empinado. – Eu sou louco, mas você consegue me superar, minha cara. – Beijou-a de forma sôfrega. – Agora, prepare-se, pois terei de me soltar.

Sem esperar a reação da jovem, Jack acabou por se desprender quando viu que estava demasiado perto do solo para aterrarem em segurança. Os dois acabaram por tombar sobre o chão, cada um para o seu lado. De costas sobre a madeira húmida, Perla tentou erguer-se com dificuldade, porém, sentiu as mesmas tábuas estremecerem com o baque seco das solas de alguém que estava demasiado perto de si. Não teve tempo de perceber quem era, pois sentiu umas mãos ásperas serem depositadas sobre o seu pescoço para erguerem-na. A falta de ar que ia sentindo era cada vez mais evidente. Tentou pôr as mãos sobre as mãos do seu opositor para se libertar. Foi quando abriu os olhos e se deparou com um Silver bastante próximo.

-Não podia simplesmente ter morrido? – Aquela voz feroz fê-la estremecer. - Maldita seja mulher do diabo.

Atirou-a novamente contra o chão e desembainhou a pistola, apontando-a sobre a cabeça.

Cada vez mais absorta com tudo o que se estava a passar, Estella subiu a amurada do Pérola e pescou uma corda, da qual deu balanço para saltar para o outro navio. Tinha de intervir. Tinha de chamar Silver à razão. Ele precisava ser parado. Contudo, tudo o que aconteceu foi demasiado rápido para atuar.

O som de um tiro soou no meio daquela atmosfera gélida. Perla solveu todo o ar e arregalou os olhos, colocando a mão sobre o peito. Silver apenas permanecia estático, igualmente com os olhos esbugalhados sobre ela. Deu duas passadas curtas e arrastadas ao encontro dela e, num suspiro, caiu.

Atrás dele mantinha-se um Jack abafado por uma nuvem de fumo que lhe cobria a figura. À medida que esta ia desvanecendo, Perla visualizou Jack a empunhar a pistola. Arfante, ergueu-se e correu em sua direção e abraçou-o com força. Sem desviar os olhos de Silver, Jack colocou o braço em retorno da cintura da jovem e embainhou a pistola.

-Pelas barbas de Poseidon, ainda bem que você está são e salva, Perla – asseverou Gibbs ao aproximar-se da jovem com um sorriso aberto, para consolo desta.

Silver arrastou-se até ao mastro, onde se sentou com dificuldades. Levou a mão ao peito, onde havia a perfuração de um pequeno projétil que saíra por alí. A sua respiração acelerada e ruidosa assumia uma percussão grave da situação. Uma dor lancinante percorria-lhe o torso, como se mil lâminas o cortassem por dentro. Foi então que gargalhou alto. Ele era mortal. Um mero e miserável mortal.

Uma Estella desesperada tombou de joelhos ao seu lado, puxando o seu tronco para o seu caloroso abraço.

-Por favor, não me deixes, por favor – implorou com suas palavras cortadas pelo choro compulsivo.

Ainda nos braços de Jack, Perla observava a situação, sem saber se interviria ou não. Viu uma Elizabeth aproximar-se em passadas largar até Jack. Seu rosto não demonstrava qualquer tipo de emoção a não ser irritação.

-Eu disse que não era para matá-lo Jack, eu prometi a Estella que lhe daria um julgamento justo…

-E ia esperar que ele a matasse? – Fez uma mesura para uma Perla estática. - Porque você faria isso para proteger um canalha como ele? Mais do que ninguém, você o queria morto. O que raios mudou para essa súbita generosidade – contestou Jack num dos seus trejeitos, prosseguindo antes que Elizabeth retrucasse: – A Corte não iria permitir qualquer tipo de condenação a não ser a morte. Aquele homem já à muito que estava condenado, ele próprio traçou o seu destino. Não havia salvação, muito menos uma mulher. – E seus castanhos fitaram uma Estella estarrecida. – Aliás para próprio bem da alteza, a Corte não poderá saber da sua existência.

Elizabeth permaneceu em silêncio, rendida às palavras de Jack. Realmente não havia salvação para aquela alma. Tinha feito demasiados inimigos, demasiadas maleficências para conseguir uma pena considerada justa para ele. Mordeu o lábio ao ver o sofrimento daquela mulher vulnerável, mãe do filho daquela criatura cruel. Teria agora a missão de a proteger a ela e ao filho que ela carregava. O filho de um maldito.

-E agora, quem me irá amar? – Murmurou ele ao arfar entre dentes, enquanto passeava a sua mão por entre as mechas de cabelo da jovem.

-Eu te amarei sempre e o seu filho também. – Ela pegou a mão dele e a encaminhou-a ao seu ventre. – Estou de esperanças. Não me deixe agora, por favor.

-E só me diz isso agora, mulher? – Pela primeira vez, lágrimas brotaram dos seus olhos pávidos. – Eu te amo, meu tesouro. – Puxou-a então para si e tomou os lábios dela nos seus. – Proteja-se a si e ao nosso filho e eu prometo que para onde quer que vá, eu voltarei para vocês, eu prometo eu… - sua voz falhou ao sentir o ar não correr mais nas suas narinas.

-Silver, Silver… - Viu ele rodar os seus olhos sobre as orbitas e desfalecer nos seus braços. – Não, nãoooo, por favor, não me deixe. – Beijou-lhe os lábios já sem vida dele. – Nãaoooo.

Elizabeth aproximou-se rapidamente dela para a aparar. Relutante, Estella recusou-se sair dali, não queria abandonar o marido, não agora. Foi então que se apercebeu de quem a sustentava em seus braços. Furiosa, esbracejou para a largar e encarou Elizabeth. Sua palidez fazia seus olhos inchados e enraivecidos sobressaírem-se.

-A culpa é vossa, toda vossa. – E encarou Elizabeth, a um palmo de distância. – E você? Enganou-me, pirata. – Empurrou-a com toda a sua força com seus frágeis braços. - Jurou protegê-lo e na primeira oportunidade matou-o – berrou, descontrolada.

-Estella, por favor, seja razoável, ele ia ser morto de qualquer forma, não havia maneira de o proteger, ele…

-Cale-se - vociferou Estella, cortando Perla, que tinha deixado os braços de Jack para se aproximar cautelosamente da irmã. – Você é igual a eles, sempre foi. O pai sempre teve razão. Pirata. – Quase cuspiu com uma expressão de asco tomar-lhe as suas feições.

-Não seja injusta, te salvar, barganhei com Deusas e eu … - Suspirou, rendida: - Eu perdi Alejandro e nós perdemos o nosso…

-E eu perdi o pai do meu filho. – Num soluço a jovem desmoronou no chão, desmaiando.

-Pai do seu filho? – Aquelas palavras pareciam não encaixar no pensamento de Perla. – Isto não pode estar a acontecer.

-Barbossa, ajude-me aqui a levá-la para o Pérola Negra, para que possa descansar. – Pediu gentilmente Elizabeth ao passo que via Barbossa assentir, porém a remoer algo para dentro.

Com todo o cuidado, Elizabeth e Barbossa pegaram na jovem e encaminharam-na para o Pérola, ao mesmo tempo que Jack se aproximava de Silver com seus braços no ar.

-É meu caro, afinal quem irá ficar com o tesouro supremo serei eu.

Ao espremer o olhar, visualizou aquilo que realmente lhe interessava no momento. Articulando os dedos, foi direto ao cinturão de Silver e retirou a Mão de Midas. Perla, ainda absorvida pelo caos que se tinha instaurado à sua volta, fechou os olhos e respirou fundo para tentar preservar a sua sanidade mental. Estava tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo que não sabia como gerir aquilo tudo. Parecia que tinha caído num foço sem fim. Passou as mãos sobre os cabelos e com os seus verdes apagados, procurou Jack, observando-o a esconder algo atrás da sua jaqueta.

-Que está fazendo? – Indagou, absorta.

-Nada, nada.

-Ora, ora, Jack Sparrow. Nunca lhe ensinaram que é feio mentir? – Uma voz feminina, ardilosa, soou atrás deles.

Jack e Perla voltaram-se para trás, vendo uma mulher encostada à amurada do navio, com seus braços cruzados sobre o peito. Com um sorriso enviesado e com seus passos lentos, como plumas, atravessou o navio até chegar perto de Silver.

-Que pena, tão bonito, mas tão mau. – Sua mão foi de encontro aos cabelos longos do jovem pirata que ainda se encontrava prostrado. – Sua história irá virar lenda, meu caro, cânticos de pavor serão cantarolados pelos seus compinchas nos tascos de Tortuga. Muitos invocarão seu espírito, porém… - Num trejeito giratório de mão fez Silver desaparecer como fumaça diante dos olhos de quem a observava. – você terá mais utilidade no submundo.

-Calipso? Não estava contando com sua presença, veio comemorar? – Jack caminhou de braços abertos para a receber, porém a feiticeira esticou a mão.

-Não se está esquecendo de nada, Jack? Algo que barganhamos, deixe cá ver, ah, à algum tempo? – Manhosa, voltou a balançar seu corpo quase flutuante.

-Não sei do que está falando, minha cara. – Ardiloso, Jack fez questão de exibir seus dentes de ouro, num sorriso de desdém.

-A Mão de Midas que está atrás de suas costas, meu caro. – Jack arregalou os olhos e abriu a boca para se defender, porém o olhar esguelhado da deusa, fê-lo, num trejeito desajeitado, pegar no objeto atrás das costas e entregá-lo sem relutar.

-Não quer nem meramente, hipoteticamente, reponderar na situação? Sei lá, você tem os seus intermináveis tesouros no mar, eu teria somente esse e deixaria a pirataria para todo o sempre. Seriamos tão felizes assim, você não acha?

-Não abuse da sorte, caro Sparrow, dê-se por feliz por estar vivo. – Deu duas passadas até Perla, que permanecia imóvel. – Aliás, você já tem um basto tesouro, o coração de uma mulher. Esse é raro nos tempos que correm. Não o desperdice. – piscou-lhe o olho ao circundar Perla. - Agora tenho outros negócios para cuidar, terei de ir. É sempre um prazer negociar com vocês, piratas.

Quando estava novamente perto da amurada, seus pés descalços voltearam novamente em direção a eles, como se tivesse esquecido de algo. Fitou Perla, de maneira penetrante, intimidando a jovem. Apontou para ela com seu dedo longo e sorriu.

-Minha prima foi repreendida e novamente castigada por Poseidon por se ter apoderado de algo que não era dela. – Perla cerrou o cenho. – Éris sempre foi assim, muito impulsiva, adora largar o caos e a discórdia entre humanos. – Deu ombros, num sorriso pertinente. - Sei que ela tomou algo indevidamente de você, humana.

Num gesto de braços, uma fumaça branca formou-se no convés do navio, originando as formas de um corpo. Os contornos do corpo iam cada vez mais ganhando forma, cor e vida. Ao se aperceber de quem era, Perla levou a mão à boca, surpresa. Não cabia no seu peito tamanha alegria, no meio daquele manto de infortúnio. O corpo tombou no chão, inerte, erguendo-se lentamente.

-Alessandro, minha virgem de Guadalupe, é você? – Entre lágrimas, ela mordeu o lábio e correu para abraçar um homem atordoado. – Pensei que nunca mais o veria, me perdoe, por favor.

-Fico feliz por vê-la novamente, minha princesa. – Abraçou-a com igual emoção. – E eu não preciso de te perdoar, pois eu voltaria a fazer tudo de novo, se mudar nada.

Jack apenas permanecia de sobrancelha empinada a observar aquela troca de emoções. E, num movimento de cabeça, viu alguém rir-se e desaparecer, ficando apenas pequenos caranguejos branco sobre o tabuado do navio.

-Maldita seja. – soprou entre dentes.

Sua atenção, então voltou-se para um Perla estarrecida pegar numa corda e se lançar rumo ao Pérola Negra. Não foi mais pronunciado qualquer tipo de som da sua boca, muito menos seus olhar vacilou para um Jack e um Alessandro estático. O fardo que ela carregava naquele momento era maior do que os estragos em ambos os navios. Alessandro cruzou um olhar com os castanhos perdidos do capitão e foi ao seu encontro.

-Não sou um homem de baixar a guarda, mas neste momento tenho de admitir. – Jack fitou-o de soslaio. – Nunca dei nada por você, capitão, sempre o vi como uma ameaça, porém, o que passei, fez-me rever a minha vida toda e tenho de admitir: Eu não posso lutar por quem não me ama. – Engoliu em seco, antes de continuar: - Ela sempre foi uma prisioneira na sua própria vida e você libertou-a dessas amarras. Eu nunca consegui lhe dar essa liberdade, sempre fui um homem de seguir regras, sobretudo devido ao meu cargo em Siracusa. Por isso, Sparrow, está na altura de desistir de meus intentos e desejar que você a faça feliz, pois sei que no fundo, mesmo no fundo, tudo o que fez por ela não foi por interesse, mas sim porque ela não lhe é indiferente.

Antes que desse hipótese de retrocar tais palavras, Alessandro fez um aceno de cabeça e afastou-se sem mais nada proferir.