Capitulo 29 – Tudo no seu devido lugar
Os tons rosados do entardecer refletiam-se na longa vidraça da sala principal do Pérola Negra, onde Perla permanecia sentada num dos extensos armários da cabine, com seus braços envolvidos nos seus joelhos, enquanto sua cabeça detinha-se sobre eles. Num silêncio sepulcral, Perla contemplava perdidamente o mar, à medida que o navio avançava vigorosamente sobre as ondas mansas de um oceano cintilante. Não tinha noção do tempo que tinha passado desde que entrara sorrateiramente naquela sala, longe de uma tripulação barulhenta, mas sentia que aquele era o único refúgio para obter a merecida paz que tanto almejava e pensar profundamente em todo a sua trajetória, até aquele preciso momento.
Sentia-se perdida no vazio que a sua própria mente havia criado quando numa tentativa frustrada, tentou colocar os seus pensamentos em ordem. Num suspiro vago, que morreu em sua garganta, Perla admitiu para si mesma estar demasiado exausta pelo choque da batalha e pelas informações recolhidas para raciocinar no que quer que fosse.
O som de uma batida seca na porta ecoou no vazio da sala, quebrando a atenção de Perla, que não se moveu e, com os olhos lacrimejantes, ordenou que a pessoa entrasse. O chão de tábuas rangeu sob as botas de Alessandro, que entrou sem hesitar. Desviando um pouco a cabeça, Perla não escondeu a surpresa de o ver, mas não expressou qualquer tipo de reação, a não ser um sorriso contrafeito que logo se fechou.
-Estella continua sem me querer ver? - Ao levantar a cabeça, ela o encarou com olhos de apreensão, impaciente com o silêncio dele.
-É tudo muito recente para ela. – ponderou Alessandro cuidadosamente ao observar a figura pálida de Perla. – Estella pensa que você a enganou…
-E enganei. – intercalou prontamente, virando lentamente sua cabeça para a vidraça que resplandecia com os reflexos, agora alaranjados do sol, ao se fundirem com a vítrea água.
-Não pense nisso agora. – Alessandro tomou a liberdade de encurtar a distância que os separava.
-Como não pensar nisso? - devolveu ela num arfo amargo. – Eles se amavam Alex. Estella vai ter um filho dele. Um filho que ninguém poderá saber da sua existência para bem dela e da criança. – Alex emergiu em estado de confusão com a notícia. – E aquele ser repugnante destruiu a minha família num ápice. Ele matou meu pai enquanto nos mantínhamos nesta aventura maldita.
-Raios. – praguejou Alex, absorto. – Ele teve tudo meticulosamente bem pensado.
-Somente Estella saiu-lhe dos planos. E eu a enganei com o propósito de ver aquele ser desprezível morrer, tudo porque estava com sede de vingança por tudo o que ele fez com a minha família. – retrucou com repugnância, e num riso cínico completou: - Acho que o meu lado pirata me tornou egoísta.
-Não, muito pelo contrário. - Olhos cautelosos se prenderam nos dele, e uma sobrancelha negra arqueou-se. – Seu propósito sempre foi salvar sua irmã, e para cumprir seu intento, o seu lado pirata enfrentou terra, mar e céu para achar aquele maldito objeto e a resgatar. - Ela estava à beira das lágrimas e não querendo que ele notasse, baixou a cabeça. - Quando pensa contar a sua irmã que seu pai foi morto por Silver.
-Quando ela deixar de me odiar e estiver pronta para saber da verdade.
-Você não sabe quando isso será possível, pois Estella está carregada de ódio. E temo que quanto mais tarde ela souber, pior.
-Estou pronta para correr esse risco…
Não obtendo nenhuma contestação sobre o que dissera, Alessandro encostou-se no armário perto dela, cruzando os braços sobre o peito, enquanto observava a biqueira da sua bota. Num pigarrear, indagou:
-E você e o capitão?
Alvoraçada com a pergunta decorrente, ela olhou-o de relance, alcançando o sedutor perfil de Alessandro, que não mostrava qualquer tipo de reação sobre aquele silêncio instaurado. Num tom quase extinto, ela concluiu firmemente:
-As coisas estão na mesma, e creio que ficarão bem melhores quando eu voltar para Siracusa de forma a ocupar o lugar de meu pai e esquecer toda esta viagem. – replicou secamente, embora soubesse que voltar para Siracusa seria o seu maior pesadelo. – Pelo bem da minha sanidade mental.
-Não me diga que fiquei vagando pela escuridão durante vários dias, junto de uma coletânea de almas penadas adquiridas por aquela Deusa demente, para as coisas estarem no mesmo ponto que deixei. – ciciou, num dissimulado timbre magoado. – Ora Perla, onde está aquela mulher destemida, que desde o início desta jornada estava decidida a não voltar para as suas origens? Aquela mulher que prezava a sua liberdade acima de qualquer coisa e que estava disposta a tudo para viver a vida que tinha pedido a Deus…
-Amadureceu. – intercalou Perla sem hesitar. – Por muito que ame a liberdade que o mar me dá, temos que ser racionais ao ponto de ver que minha vida estará sempre presa a Siracusa, por motivos convencionais. – sua voz descaiu umas notas. – E, além do mais, tenho a responsabilidade de cuidar da minha irmã e do meu sobrinho. Tenho de protegê-los da maldição que o nome Villanueva carrega.
-Eu poderei fazer isso com toda a minha determinação, eu darei minha palavra. – Prontificou-se, sem vacilar. - Você precisa pensar menos nos outros e mais em você…Perla, você pode ter um futuro com o capitão e…
-Os nossos destinos nunca se unirão. Digamos que nossas origens são demasiado distintas, sobretudo agora que tenho um reino para governar – e num ar esmaecido, concluiu: - E por favor Alex, se você é meu amigo, vamos mudar de assunto. Eu estou demasiado cansada para pensar no futuro, eu só quero uns minutos, uns exíguos minutos para esquecer este inferno que baixou sobre a minha vida…
Ela calou-se bruscamente e apercebendo-se que Perla estava decidida a não tocar mais no assunto, o olhar dele recaiu sobre as enormes manchas avermelhada e secas, permanentes em sua camisa branca.
-Você precisa tratar desses ferimentos. – Ele apontou para o ombro dela.
-Por enquanto, esses são os que menos me doem. - murmurou, tentando defender a própria fraqueza. – Há feridas permanentes que doem muito mais e que demoram demasiado tempo a cessar. – ao voltar a pousar seu queixo sobre os joelhos, ela pediu: - Agora Alex, sem querer ser indelicada, por favor, me deixe um pouco mais sozinha.
-Está certo. – Ele desencostou-se do armário para a encarar – Vou aproveitar e fazer companhia para sua irmã. - Docemente depositou-lhe um beijo na testa, o que a fez abrir um sorriso subtil.
Ao vê-lo afastar-se em direção à porta, com o seu peculiar passo fidalgo, fez Perla pensar o quão contente estava por tê-lo de volta. Por mais anos que vivesse, ela não saberia como agradecer o que ele fez por ela, de como lhe pagar por ele ter suportado coisas que Perla nem imaginaria. Naquele instante, reconheceu a grosseira receção que lhe fez, sem ao menos lhe ter agradecido por tal benemérito ato de dispor a sua vida para a salvar.
-Alex. – Ele deteve-se, volteando na direção da voz feminina. – Estou feliz por tê-lo comigo novamente - começou, esforçando-se para conter suas emoções que afloravam em sua pele. – Nem sei como se agradece a uma pessoa que praticamente deu a vida para nos salvar. – Alessandro soltou um cordial sorriso ao baixar o rosto, mas logo ergueu-o.
-Não me agradeça por amá-la tanto, princesa. – Com uma breve reverência, ele saiu da cabine, deixando uma pirata sem defesa, apenas com suas humildes palavras.
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Após atrelarem o Adriatic Sea ao Pérola e retomarem a viagem rumo à ilha onde os outros navios da Corte velejavam, Elizabeth fitava da proa o cenário devastador e caótico que estava diante de si. Os piratas que haviam sobrevivido ao ataque, estavam agora no navio da madame Ching, prontos a partirem para a enseada dos náufragos e receberem a sua sentença.
-Tudo está no seu devido lugar, não sabem o quanto almejei que esta missão terminasse. – murmurou Elizabeth, não contendo o sorriso de satisfação. – Agora está na hora de partir para junto do meu filho.
-De certeza que não precisa de boleia para regressar? – questionou Barbossa aproximando-se da jovem, juntamente com Jack.
-Não, vocês têm outras questões para resolver. E eu… – Ela contemplou o navio que a esperava. – Bom, eu velejarei até à enseada para resolver aquele assunto e depois retomarei com madame Ching para Singapura.
-Foi um prazer voltar a cruzar espadas com você, darling, porém, espero que tão cedo a gente não se cruze…
-Sabe, com esta aventura, apercebi-me que o mar será, por algum tempo, um capítulo encerrado. Responsabilidades maiores me prendem em terra. – e num tom afetuoso, continuou: - Eu tenho fé nos piratas que tomarão conta destes sete mares.
Jack e ela retrucaram um olhar comprometedor, sincero, ao passo que o navio de madame Ching se abeirava lentamente do Pérola Negra. Elizabeth suspirou, pois sabia que esta seria sua última viagem com aquela tripulação. Contudo lamentou não se ter conseguido explicar perante Estella, que após algum tempo do sucedido, não a quis receber em seus aposentos. Estava demasiado enraivecida para perceber que não havia salvação para Black Dog, mas ainda havia esperança para ela e para o seu filho. Despercebidamente encolheu os ombros e lembrou-se das palavras de despedida que dissera a uma debilitada Perla:
-Não terei muito tempo para explicar a sua irmã que apesar da minha promessa, as circunstâncias da morte de Silver foram irremediáveis e saíram do meu controlo. - declinou a cabeça, rendida: - Sei o que é perder um grande amor e ficar com um filho nos braços, mas há quem trace o seu próprio destino, e há quem veja o seu destino a ser traçado sem poder fazer nada. Foi o caso de Silver e Will – Mordeu o lábio, ao se recordar do momento fatal de William. – Não peço que sua irmã me perdoe, todavia, que me perceba.
-Eu tenho esse mesmo sentimento. - com o cenho cerrado, Perla apenas chocalhava a cabeça, descomposta. - Fiz de tudo para salvá-la e ela simplesmente me odeia por isso. Preciso de lhe dar espaço para Estella assimilar tudo, para poder, um dia, explica-lhe a situação com calma. Alessandro já estará tratando de apaziguar as coisas. – Ela voltou seus verdes para uma Elizabeth hirta à sua frente: - Não se preocupe, tudo se resolverá, apenas faça uma boa viagem.
Com todo o respeito que nutria por aquela tripulação, Elizabeth despediu-se de todos, que lhe faziam uma vénia a cada movimento da sua Rainha. Por fim, cedeu diante de Jack, que já se encontrava com uma corda pronta, para Elizabeth se mobilizar para o outro navio.
-Vou me tornar repetitiva, mas leve a missão de proteger Perla até ao fim, independentemente do que o destino vos reserve. – ela ia avançar, todavia cessou seus passos e voltou-se novamente para ele: - E Jack, por amor de Deus, não há mal nenhum em se entregar ao amor, não seja cabeça dura, abra seu coração e viva todos os momentos como se fossem o último.
-Aye. – com o sorrido enviesado, e com seus trejeitos de trocista, fez uma vénia. – Seus desejos, são uma ordem, majestade. – E, por fim passou-lhe a corda.
-Você nunca irá mudar.
E com aquela deixa, a jovem deu lanço à corda ao se apoiar nela e voou diretamente para o navio de madame Ching, caindo suavemente com a sola da bota sobre o soalho molhado do navio.
-É uma honra recebê-la, sã e salva, no meu navio. – proferiu a mulher de meia idade, com seus olhos estreitos marcando a silhueta de Elizabeth. – Está tudo pronto para voltarmos à Enseada, e, após o julgamento, será fornecido um navio para a levarem a casa, majestade.
-Que assim seja, obrigada.
Madame Ching afastou-se à medida que Elizabeth prendia a sua atenção no navio negro, que se afastava a todo o pano da sua fonte de visão. Tudo se estava a compor, tal como desejava. E, mais cedo ou mais tarde, estaria abraçando o seu filho.
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Barbossa e Jack discutiam num canto quais as coordenadas exatas a rumar pelos vastos oceanos. Apercebendo-se da discreta zaragata que dois homens tinham instaurado, Gibbs resolveu interceder para que alguém tomasse uma decisão concreta.
-Afinal qual é o nosso destino, capitão? – perguntou Gibbs, parando perto de Barbossa e Jack que retrucaram em conjunto:
-Tortuga...
-Siracusa. – findou Barbossa, enquanto Gibbs contemplava os dois, confuso.
-Nós iremos a Tortuga a modos de reparar os estragos…
-Vamos deixar primeiro as princesas em Siracusa e depois rumamos a Tortuga… – contestou Barbossa, crespo. - E além disso, o navio não sofreu grandes danos na batalha, dá para aguentar mais uma velejada.
-Caso se tenha esquecido, sou eu o capitão deste navio, por isso, sou eu quem dá as ordens, savyy?
-E não sei se você se esqueceu, mas fui eu que te dei o comando temporário do Pérola. Agora que já tenho as Cartas em minha posse, o navio automaticamente volta para meu comando…
Jack e Barbossa fitaram-se com as sobrancelhas erguidas e num ar de desafio, correram sem hesitar até ao leme, para espanto de Gibbs, que blasonou ao oscilar a cabeça. Os dois subiram até ao Castelo de popa, cada um por escadas opostas, posicionando-se em lados adversos separados pelo leme, olhando impassivelmente o horizonte. Barbossa, que colocou a mão sobre o cano do leme, puxou-o suavemente para si, retirando de seguida a mão. Sem grande agitação, Jack fez um igual movimento, mas, puxando-o na sua direção. Quando Barbossa foi repetir o efeito, Jack travou-o do seu intento, forçando o leme para si.
-Jack, nem se atreva a ridicularizar-me…
-Ora meu bom e velho amigo, nunca me passou pela cabeça fazer tal injúria. – ironizou, voltando sua atenção ao navio que vinha a reboque do seu. – Sabe, creio que achei o navio ideal para você.
Barbossa ergueu a sobrancelha com o tom de impertinência que Jack proferia suas palavras, continuando com aquele irritante sorriso preso em seus lábios, enquanto segurava o cano do leme para seu lado.
-O que está querendo dizer com isso, meu caro e velho amigo? – Barbossa torceu o nariz com igual ironia.
-Você não tem navio, por conseguinte, o Adriatic não tem capitão. Ora somando dois mais dois dá para tirar um brilhante resultado, você não acha? – rebateu Jack com sarcasmo, o que fez Barbossa bufar.
-Não me venha falar em resultados. – Ele largou o cano do leme, apontando o dedo rudemente a Jack, que arregalou atrapalhadamente os olhos. – Você prometeu que me compraria um chapéu novo. – voltou então o dedo para o chapéu, agora sem pena, o que fez Jack arreganhar os dentes, fingindo-se abismado. – E que me daria um navio novo. E qual foi o brilhante resultado que o grande Capitão Jack Sparrow conseguiu durante toda esta viagem? – Jack encolheu os ombros ao fazer-se desentendido, o que levou Barbossa a se irritar, vociferando: - Teve a Mão de Midas em sua posse sem ao menos usá-la em benefício próprio.
-Imprevistos acontecem, você sabe. Além do mais, a única coisa que você me pode culpar é a circunstância em que a Mão de Midas me foi tirada, se é que viu. – num tom mais baixo continuou: - E veja as coisas pelo lado positivo, pelo menos, um navio você já tem – um sorriso dissimulado se formou, gesticulando as mãos como algo óbvio. – Não foi comprado em New Providence, como lhe prometi, mas é um excelente navio. Olhe só para esta maravilha. – Ele apontou as mãos para o navio e, no preciso momento em que Barbossa o contemplava, a porta da sala principal caiu num estrondo. – É, acho que precisa de umas remodelaçõezinhas …
-Ahh eu desisto. – rosnou Barbossa ao revirar os olhos, retomando seu passo, mas logo foi barrado por Jack, que se colocou à sua frente.
-Temos acordo? – os dois encararam-se por segundos, abrindo por fim um sorriso complacente, enquanto trocavam um breve aperto de mãos.
-Muito bem. – Barbossa desceu então as escadas, enquanto ainda pronunciava: – Mas fique a saber que os gastos do arranjo desse navio serão por sua conta. – aquele observação deixou Jack estupefacto, mas logo se recompôs com um sorriso matreiro reinando em seus lábios.
-Até lá, arranjo uma maneira de o deixar em Tortuga com o navio e desaparecer de vez da mira desse doido.
-E não se esqueça Jack, primeiro Siracusa. – reafirmou Barbossa já no convés, fazendo uma pequena menção com o olhar. – Depois Tortuga.
Revirando os olhos, mais uma vez, abstrato, Jack passou o comando do leme a Cotton, que rapidamente se apossou dele. Ao descer as escadas, rezou para encontrar em sua cabine a única amiga que o percebia nessas horas: uma boa garrafa de rum. Mas ao entrar, deparou-se com uma bela mulher sentada no armário.
-Aôuh, não sabia que estava aqui.
-Se quiser, eu saiu. – retorquiu desgastada, preparando-se para pular do armário.
-Não é preciso. – ele moveu-se até á cadeira mais próxima ao deixar o seu corpo tombar sem cerimonias, aconchegando-se no costado da cadeira.
-Eu preciso voltar o mais depressa possível para Siracusa, Silver fez grandes estragos por lá quando parti…
-Sua partida está sendo providenciada.
-E… - Engoliu em seco ao ponderar nas palavras certas para proferir: - Quando regressar será para tomar o lugar de meu pai, visto ele ter sido assassinado por um encomendado de Silver.
"Bugger"
Jack permaneceu imóvel, tentando com que aquela sentença não o abalasse. Afinal de contas, no seu mais íntimo ser, ele ainda tinha uma réstia de esperança que ela seguisse com ele, mal Perla deixasse Estella em terra firme. Todavia a morte inesperada de seu pai mudava o rumo todo da sua curta história com ela. Espremeu seus olhos numa linha tensa amaldiçoando aquele maldito que mesmo de morto, continuava a causar estragos nas suas vidas.
Intrigada com o silêncio dele, Perla descruzou as pernas e num leve salto, fez um barulho oco ao depositar a sola das suas botas no tabuado da cabine. Jack continuou de os olhos fechados, agora demonstrando uma falsa tranquilidade que ele próprio parecia não obter, pois sabia que depositar seu olhar naquela morena, seria render-se aos seus mais profundos desejos e isso não estava nos seus planos acontecer. Não agora que suas vidas estavam a ponto de tomar um rumo diferente. Num suspiro retraído, Perla parou em frente dele, esfregando os braços, como se tentasse ganhar coragem para pronunciar as palavras que estavam engasgadas em sua garganta. Ao abrir brandamente os olhos, Jack deparou-se com duas belas esmeraldas fitarem-no.
-É assim que vai acabar esta história? – indagou Perla num tom embargado. -Você em mar e eu em terra?
-Tal e qual como começou, darling – retrucou friamente ao contemplar as unhas para não a encarar.
A decisão parecia já estar sentenciada há muito tempo. A história dos dois há muito que já estava condenada. Ele em mar e ela em terra.
-Como pode ser tão frio? – Lentamente, Jack direcionou sua cabeça para o corpo trémulo de Perla, e rebateu:
-Estou apenas cumprindo com nosso acordo, amor. Você já tem sua irmã, agora só resta voltar para seu querido reino encantado. - O olhar de Perla escureceu repentinamente, abanando a cabeça, desolada com a impassibilidade dele.
Porém a impassibilidade dele era uma máscara para mesclar os sentimentos que afloravam fervorosamente naquele momento. Não podia ser tão transparente e sua ironia seria a sua melhor arma, apesar do seu ímpeto desejo de a tomar em seus braços fosse maior.
-Já você regressará sem o objeto que tanto planeou em me roubar, não é? – contestou irritada, numa gargalhada mordaz que fez Jack estreitar o olhar sobre ela.
-Está duvidando do meu carácter? – inquiriu empinando a sobrancelha ao vê-la inclinar seu corpo, tomando em suas mãos os braços da cadeira, como se encurralasse Jack.
-Estou só cansada do seu carácter controverso. – a rudeza dela aturdiu Jack, que a encarou sério. – Sejamos francos Jack! O que realmente você quis de mim, durante a viagem toda?
Jack abriu a boca para responder, mas a resposta ficou suspensa em seu pensamento. Se, pela primeira vez, fosse sincero para com aquela morena, que implorava duramente com o olhar por toda a sinceridade que Jack lhe devia, ele saberia que iria se arrepender amargamente. Confessar-lhe francamente tudo o que lhe ia na alma, desde o dia em que a conheceu, seria o maior erro da sua vida, derivado às circunstâncias em que se encontravam.
-Eu nunca pedi que me amasse como homem e pirata que é, mas que pelo menos me respeitasse – e, com os olhos marejados, concluiu: - Respeitasse este maldito sentimento que me cegou a viagem inteira.
O efeito conclusivo das honestas palavras de Perla, devastaram por completo tudo aquilo que Jack tinha idealizado desde que seus olhos haviam recaído sobre o armário em que ela se encontrava sentada, abraçada à sua própria dor. Foi nesse momento que Jack entregou-se inteiramente à entendida indiferença, tentando não trespassar que o que realmente queria era sentir o toque suave daquela morena e beijar-lhe a linha fina que se alinhava em seus lábios.
Com um olhar sorrateiramente intenso, Jack fitou-a e fez um beicinho ao vê-la devolver-lhe um ar claramente perdido. Ambos esperaram que, naqueles largos segundos em que o silêncio ia consumindo o congelante ambiente, alguém reagisse. Foi nesse momento que Jack conseguiu concluir que não podia, nem conseguia mais ficar indiferente àquela mulher, mesmo depois daquele amargo discurso. Sua marcara caiu e desmanchou a figura que tentava segurar até àquele segundo.
Cansada daquela constrangedora situação que se instaurara indefenidamente naquela divisão, Perla ergueu-se e deu costas para se afastar. Ao sentir uma pequena pressão sobre seu peito, e se aperceber do que aquela atitude significava, Jack ergueu-se inconscientemente para a deter no caminho, volteando-a de encontro a si. Repreensiva, Perla o encarou ambígua, mas logo sentiu os lábios dele se apossarem dos seus, fogosamente. Embora ela tentasse se debater, socando-lhe levemente o peito, com os punhos fechados, Perla ansiava entregar-se àquele pirata, que lhe havia roubado há muito o seu coração. Suas lágrimas deixaram-se cair e finalmente rendida perante a insistência de Jack, Perla amoleceu ao toque dele, entreabriu os lábios para permitir que Jack a beijasse mais intensamente. Foi então que ela levou sorrateiramente os seus braços de encontro ao pescoço dele, o que proporcionou um sorriso maroto nos lábios dele.
-Você já ouviu dizer que nem sempre um tesouro é constituído por ouro ou prata? – Ele acariciava-lhe o rosto com o dorso da mão, o que a fez permanecer de olhos fechados.
-Como assim? – foi o que conseguiu sussurrar ao deixar-se sucumbir pelo toque dele.
-Há uma pérola que sempre almejei neste oceano, mas que nunca ousei tomá-la para mim. – Ao abrir os olhos, estreitando-os, Perla agarrou a mão dele, esperando que Jack continuasse. – Infelizmente essa pérola já pertence a alguém que a guardará e a afastará dos olhares de cobiça de piratas como eu. – ao tirar a mão de Perla da sua, Jack moveu-se até à mesa para pegar na garrafa de rum, deixando-a confusa.
-O que quer dizer com isso Jack? – Perla viu-o virar-se em sua direção, já na posse da sua garrafa, apontando-lhe com o dedo indicador.
-Não me pode culpar por você ser uma mulher de terra e eu um homem de mar. – retrucou num modo enfatizado, embora seu tom amargo envolvesse as palavras, deixando-a cada vez mais desordenada. – Não há nada que mude essa irreversível natureza, savvy?
-Você tem razão num ponto: eu não te posso culpar de nada - retrucou, num igual tom amargo, tentando manter-se firme. – Eu não posso ser egoísta ao ponto de te pedir que negue sua natureza e fique comigo em terra, como também não posso renegar o cargo que meu pai me deixou. Aquele povo precisa de mim e…
-E eu não posso ser egoísta de te pedir que os abandone para viver comigo mil e uma aventuras neste mar. – murmurou entre dentes.
-Eu só não estou preparada para a minha vida sem você. – Jack engasgou-se com a confissão, expelindo uma boa quantidade de rum fora. – Eu habituei-me á sua presença. De ter aquele pirata indolente sempre pronto a me salvar a vida. – o sorriso nostálgico dela fechou-se repentinamente. – E tenho receio que a Éris resolva vir buscar a tal recompensa.
-Acho que ela não irá se atrever a sair do reino do senhor dos mortos durante um bom tempo, amor. – Com seus trejeitos, voltou a aproximar-se manhosamente dela. – Quanto àqueles salvamentos, se assim se pode chamar, eu já lhe disse que pretendia cobrá-los, mais tarde.
-Se fosse a você, não insistiria mais. – Ela beijou-o sem mais demora, deixando-o surpreso, mas não tão desagradado com a situação.
