Olá, essa fanfic faz parte do Projeto RKverso 2022 e foi escrita pela Jojo (sadwardcullen no twitter e sadward aqui). Os personagens principais dessa história são Connie Nikas (Good Time) e Phoebe Larson (American Ultra).
Os personagens não me pertencem, mas o enredo é inteiramente meu. Lembrem-se que plágio é crime.
ATENÇÃO, essa fanfic é classificada como "fiction M" por um motivo! Alerta de gatilho: tortura.
Boa leitura.
Havia uma parede inteira cheia de janelas do teto ao chão. O vidro estava tão limpo que parecia não haver nada entre o quarto luxuoso do hotel e o oceano de outros edifícios, carros e pessoas abaixo de mim. Eu podia sentir o outro corpo no quarto. Não saberia dizer se era pelo calor que emanava dele, pela batida de seus sapatos chiques contra o chão conforme ele andava ou apenas pela tensão, não que isso importasse — não quando senti sua mão firme em minha cintura, me virando para si.
— Obrigada — Disse eu, aceitando a taça de vinho que ele me ofereceu. — É… Delicioso.
A mentira saiu de forma suave dos meus lábios. A bebida não era de todo ruim, mesmo com toda minha leiguice no assunto, eu podia notar que era um vinho caro e de qualidade, mas eu definitivamente apreciaria muito mais uma cerveja bem gelada ou até mesmo um copo de whisky como o que ele estava bebendo.
— Você parece nervosa.
Eu estava, realmente. A operação já deveria estar em andamento, mas eu ainda não havia recebido o sinal. Um pequeno atraso estava dentro da nossa margem de erro, qualquer agente inexperiente saberia que é completamente plausível alguma dificuldade em invadir um leilão organizado pelo maior mafioso de Nova York, mesmo que o infeliz não tivesse a pachorra de expor sua cara no mesmo, optando por enviar seu braço direito para monitorar tudo e eliminar qualquer ameaça.
Constantine Nikas estava parado bem na minha frente, parecendo completamente diferente da foto anexada em seu arquivo. Seu cabelo estava mais curto e nem um pouco loiro, estava escuro como breu. Sua barba estava aparada também e ele usava um smoking impecável, feito especialmente para ele, aposto. A única coisa remotamente igual ao que eu sabia que encontraria naquele leilão era o par de brincos cintilando em suas orelhas.
Ele parecia, se nada mais, chique pra caralho. Em seus arquivos? Ele parecia um vigarista barato, nada além de um bandidinho qualquer. Eu me perguntava como ele se parecia segurando uma arma apontada para a cabeça de alguém, tirando uma vida por dinheiro, poder ou apenas porque lhe deu vontade.
Mas meu nervosismo nada tinha a ver com o fato de que eu estava diante de um dos assassinos mais procurados dos Estados Unidos, eu certamente poderia chutar a bunda dele com meus braços amarrados nas costas, mas eu precisava manter meu disfarce se queria que as coisas saíssem conforme o planejado e se minha equipe demorasse demais, isso significaria fazer coisas que eu não estava a fim. Fingir ser uma prostituta de luxo parecia a ideia perfeita a cinco meses atrás, quando descobrimos que Connie tinha um certo gosto pelas prostitutas mais caras da cidade, não tanto naquele momento.
— É só… É a minha primeira vez — Respondi, forçando um gaguejar estúpido que me fazia parecer tímida e indefesa.
Esse comportamentozinho irritante havia sido ideia de Yates, meu superior e um dos comandantes daquela missão. Segundo ele, se eu parecesse não representar qualquer risco, assim que a primeira fase da missão fosse concluída, Constantine não teria do que suspeitar. Fazia sentido, mas ainda me tirava do sério.
— Você é virgem? — Perguntou ele, rindo. O som rastejou sob minha pele, fazendo-a arrepiar.
— Definitivamente, não!
Meu tom de voz sarcástico fez com que uma das grossas sobrancelhas do criminoso arqueasse. Talvez eu estivesse começando a perder a paciência com toda a história de me passar por uma doce donzela-puta.
— É a minha primeira vez fazendo isso de forma… Hm, como posso dizer? Profissional? — Continuei tentando manter minha voz o mais gentil possível.
— Então é o seu primeiro dia como uma prostituta?
— De luxo — Destaquei.
— De luxo — Ele repetiu, rindo novamente — Tenho certeza de que não há nada de diferente. Tirando o fato de que eu te paguei para fingir que está gostando, é claro.
Pelo menos ele tinha noção de que o único jeito de eu demonstrar gostar de qualquer coisa que ele fizesse seria fingindo.
Eu não disse isso, é claro.
— Me pagou muito bem, aliás — Falei. Aproveitei nossa proximidade para deslizar o dedo indicador sobre os botões de sua camisa social, sedutoramente.
Victoria Lasseter, a co-comandante da missão, havia se passado por uma agente e garantido que eu conseguisse entrar no leilão sem levantar suspeitas, representando uma falsa agência de prostitutas de luxo de alto padrão — o tipo favorito de Nikas . Assim que consegui chamar a atenção de Constantine, ele transferiu uma quantia absurda para uma conta fantasia irrastreável sob o nome de Reyes' Agency.
— Você fez uma boa propaganda — Disse ele, dando um passo à frente e fechando definitivamente qualquer distância entre nós.
Ele cheirava bem, isso foi uma das coisas que mais me surpreenderam de cara. Olhando para nada além de sua foto 3x4 enquanto analisava sua ficha criminal durante um ano inteiro, eu poderia jurar que ele cheirava a sangue, urina e cocaína. Algo como algum beco imundo do pior bairro da cidade.
Nenhum perfume caro, porém, foi o bastante para me impedir de querer vomitar quando o vi aproximar seu rosto do meu e umedecer os lábios. Instintivamente afastei minha cabeça e desejei que o vidro da janela atrás de mim desaparecesse e eu despencasse os 55 andares até o chão.
— Se você não quer fazer isso, é só dizer e você está livre para ir embora — Disse ele.
Merda.
Merda.
Merda. Merda. Merda.
Eu me preparei para essa possibilidade e estava, tecnicamente, pronta para qualquer coisa. Nada poderia impedir essa missão de ser um absoluto sucesso, tudo dependia desse primeiro contato.
Qual era a porra do meu problema?
— Não! Me desculpe, eu...
— Está tudo bem… America, certo? — Perguntou ele, se referindo ao meu codinome. Assenti. — Não se preocupe.
Aquilo me pegou totalmente de surpresa. Durante um ano eu estudei o homem diante de mim, mas eu não fazia ideia de quem ele era. Constantine Nikas, segundo depoimentos coletados, não era um homem gentil e misericordioso. Ele era um assassino a sangue frio, que não pensava duas vezes antes de puxar o gatilho. Então, porque ele estava sendo tão… gentil?
— Minha chefe vai me matar se ela tiver que devolver o dinheiro — Falei, dando de ombros e tentando disfarçar o quanto o comportamento dele estava me deixando perturbada.
— Ela não precisa saber. Você pode ir embora e ficar com o dinheiro, não faz diferença para mim.
Talvez o temido e respeitado braço direito do Diabo tivesse um fraco por prostitutas, vai saber? Essa seria minha chance de meter o pé, se essa não fosse a missão mais importante da minha vida.
Balancei a cabeça, negando sua proposta, e mordi o lábio inferior. Os olhos azuis de Constantine foram atraídos pelo movimento e eu aproveitei sua pequena distração para me aproximar novamente, depositando minha taça sobre a mesa de centro enquanto fazia isso, para ter ambas as mãos livres para meu próximo ato. Desfiz a gravata borboleta que ornava seu colarinho e desabotoei sua camisa de cima para baixo, então ouvi no ponto em meu ouvido:
— Estamos dentro.
Seria difícil controlar o sorriso em meu rosto, se eu sequer estivesse tentando. Constantine, por outro lado, deve ter confundido minha felicidade com outro tipo de animação. Ele virou o resto de seu whisky na boca e colocou seu copo sobre a mesa antes de se sentir no direito de agarrar um tufo de cabelo em minha nuca e me forçar a olhá-lo nos olhos, e então me empurrar contra o vidro e me beijar.
Sua língua não se intimidou ao invadir minha boca, com gosto de whisky caro, nicotina e algo refrescante, talvez hortelã. Ele agarrou meu pescoço e cintura, pressionando seu corpo no meu, tornando muito difícil não notar o quão duro ele era por baixo daquelas roupas — e eu nem estou me referindo ao seu pau, aparentemente matar pessoas é bom para seu físico. Mesmo tendo um corpo esguio, todos os seus músculos podiam ser sentidos.
Pude sentir a mão de Constantine subindo lentamente até que seu polegar estivesse roçando meu mamilo sobre o tecido do minúsculo vestido preto que cobria meu corpo. E talvez eu estivesse negligenciando certas necessidades por tempo demais, focada em me preparar para aquela missão, porque eu tinha certeza que aquilo não deveria ter sido tão bom. Antes que eu pudesse impedir, um gemido escapou dos meus lábios e incentivou Constantine a repetir o gesto. Felizmente, eu não tive tempo de pensar demais sobre como meu corpo estava reagindo aos toques dele, já que uma movimentação do lado de fora do quarto chamou-lhe a atenção.
Ele quebrou nosso beijo abruptamente e olhou em direção à porta, prestando atenção nas vozes do lado de fora. Menos de um segundo depois, houve uma batida. Constantine voltou a me olhar, a mão que antes segurava possessivamente meu pescoço acariciou meu rosto antes de ele se afastar de mim. Com seu corpo longe o suficiente do meu, eu pareci voltar à órbita e só assim pude ouvir novamente a voz em meu ponto coordenando o ataque.
As coisas aconteceram rapidamente a partir daquele ponto, como já era esperado. Em questão de segundos, o som de balas sendo disparadas preencheram o andar. Sob o barulho dos disparados, eu podia ouvir gritos, urros de dor e xingamentos, um total caos contrastando com a calmaria de antes. Eu me preparei para encenar a parte mais crucial de toda aquela encenação — tomando fôlego, corri para a entrada do quarto.
— Senhor Nikas! — Gritei desesperadamente, indo em direção à ele. Os olhos de Constantine encontraram os meus, horrorizados, e ele correu em minha direção com seus braços abertos.
— Está louca? — Perguntou ele parecendo verdadeiramente indignado — Você não pode correr para dentro de fogo aberto assim.
— E-eu fiquei preocupada — Menti. Olhando mais atentamente, percebi que Constantine ainda tinha seus braços ligeiramente abertos diante de mim, como se estivesse formando um escudo humano… me protegendo.
Não pude dizer nada além do que já havia sido dito, a operação seguia a todo o vapor. Cinco homens, agentes, invadiram o quarto. Todos eles estavam usando balaclavas e roupas que cobriam totalmente seus corpos de um tecido escuro e grosso, nenhum símbolo da unidade ou departamento podia ser visto. Nossa intenção era fazer com que Nikas e seus capangas acreditassem que aquele ataque havia sido enviado por mafiosos inimigos, não pelo Governo. E a ordem era básica: garantir que Constantine e eu saíssemos dali a salvo, e que o mafioso acreditasse cegamente que eu havia salvo sua vida.
Foi então que o plano deu uma reviravolta selvagem. Eu deveria ser o herói voando com uma capa ali, não a donzela indefesa. Constantine tinha que acreditar que eu era sua salvadora, aquela que colocou a própria vida em risco por ele. Não há nada que esse tipo de homem dê mais valor do que sua própria vida. Eu tinha que fazer com que ele sentisse que me devia algo, só assim eu teria chances de fazê-lo confiar em mim.
Rose era o agente designado para disparar a bala. Era um roteiro digno de um Oscar, sinceramente. Precisávamos ser uma máquina bem lubrificada para que funcionasse e tivemos que ensaiar por mais de um mês até conseguirmos executar aquele ato perfeitamente. Ele fingiria mirar em Nikas, eu ficaria na frente dele e receberia a bala bem no meu braço direito. Eu até havia treinado para usar apenas meu braço esquerdo em diversas circunstâncias, caso precisasse fugir.
Mas Nikas era um escudo humano na minha frente e ele não se afastou quando viu Rose mirando em nossa direção. Ele não tentou correr, não me colocou diante de si e me usou como escudo. Constantine Nikas me empurrou com seu corpo para mais longe do homem, apontando sua própria arma para o meu parceiro, se recusando a me deixar exposta. Eu não podia ver o rosto de Rose, mas sabia que seu rosto feio estava contorcido em uma expressão de confusão embaixo da balaclava.
Duas armas dispararam ao mesmo tempo. Rose levou um tiro no peito e caiu no chão, não me preocupei, sabia que ele tinha um colete à prova de balas por baixo da roupa. Por outro lado, a bala que atingiu Constantine estava definitivamente alojada em seu abdômen. Isso foi algo sobre o qual eu não pensei antes. Ele não estava usando um colete à prova de balas sob o smoking — ele era muito seguro de si mesmo ou não tinha nenhum senso de autopreservação. Eu encontrei os olhos de Rose e pude ver que o bastardo estúpido estava apavorado.
— QUE DIABOS VOCÊ FEZ? — Ouvi Yates gritando no meu ouvido. Lasseter também falava, mas bloqueei as vozes, tive que pensar rápido para consertar aquela bagunça. Então, eu fiz a primeira coisa que pude pensar.
— Você consegue andar? — Perguntei. Constantine fez um som parecido com um rugido agoniado e me encarou, senti um arrepio subindo pela minha espinha antes de vê-lo assentir.
Corri até Rose e peguei sua arma, ele ainda estava caído no chão. Fui até Constantine de novo, parecia que ele estava sentindo uma dor terrível e quase senti pena dele. Quase.
— Temos que sair daqui — Falei, ele assentiu. Eu o ajudei a sair da suíte.
— Você ao menos sabe usar uma arma? — Ele perguntou enquanto nos esgueirávamos pelos corredores. Ainda podíamos ouvir os tiros e havia homens caídos no chão. Assim que Constantine fez a pergunta, um dos agentes disfarçados apareceu e eu acertei um tiro em seu peito, o homem caiu.
— Meu pai era policial — Respondi a primeira mentira que pensei e não me preocupei em analisar a reação do mafioso conforme seguíamos nosso caminho.
Sair do hotel não foi fácil, ou pelo menos não pareceu ser. Eu sabia que todos os obstáculos em nosso caminho eram meus parceiros, mas precisei fazer parecer que Constantine e eu estávamos realmente em perigo, o que fez nossa ida até o estacionamento demorar mais do que o necessário. Quando chegamos, pedi para que ele me apontasse onde estava seu carro e fomos até lá.
— A chave está com você? — Perguntei.
Certo, essa era uma pergunta que eu deveria ter feito antes de sairmos do quarto, mas que não passou realmente pela minha cabeça. Eu poderia fazer uma ligação direta, mas isso seria um pouco mais difícil de explicar. Será que ele acreditaria se eu dissesse que fui uma adolescente rebelde que pegava o carro do pai sem autorização para sair com os amigos? Eu jamais iria saber a resposta porque Constantine estava com a chave.
Ele abriu o carro e entrou, permaneci parada do lado de fora.
— Eu deveria dirigir, você está ferido — Falei.
O homem me olhou como se eu tivesse acabado de falar a coisa mais absurda que ele já havia escutado em toda a vida.
— Entre no carro, America — Disse ele, seu tom de voz deixou claro que não haveria discussão. Obedeci.
Eu mal havia me sentado no banco do carona e Nikas já estava a meio caminho para fora do estacionamento. Ele não era paciente, notei. Nós pegamos a estrada e nenhuma palavra foi dita pelos incontáveis minutos seguintes. Constantine estava claramente com dor, cada músculo de seu corpo estava rígido e ele estava olhando para os outros carros à nossa frente como se quisesse passar por cima de todos. Apesar disso, ele não ultrapassou o limite de velocidade em momento algum. Notei que estávamos nos afastando da cidade.
A certa altura, ele tirou o carro da estrada e o estacionou. Constantine fechou os olhos e respirou fundo antes de olhar para mim.
— Abra o porta-luvas — Ordenou, obedeci — Está vendo aquele pano preto? Pegue-o e cubra os olhos.
Eu olhei para o pano e então para ele, arqueando a sobrancelha.
— Você acha que eu sou estúpida? — Perguntei. Constantine revirou os olhos e não era por causa da dor, eu tinha certeza, ele estava aborrecido.
— Levei um tiro, estou com a porra de uma bala no abdômen, perdi muito sangue e acho que vou desmaiar. Mesmo se eu quisesse fazer algo com você, não seria capaz.
— Então por que você quer que eu cubra meus olhos? Por que você não me deixa dirigir?
Na verdade, eu sabia por quê. O filho da puta não queria que eu visse para onde ele estava me levando. Era uma pena para ele que eu estivesse um passo à frente e meu ponto tinha um localizador.
Porra, meu ponto eletrônico.
E se ele o visse? Seria muito ruim, muito ruim.
Eu definitivamente era capaz de lidar com ele, ainda mais com Constantine estando baleado, mas nós chegamos longe demais com o plano, eu não podia arriscar uma falha.
— Tudo bem — Disse eu, percebendo que ele não ia responder.
Aproveitei enquanto cobria meus olhos com o pano para remover o ponto do meu ouvido e o deixei cair discretamente. Ouvi um barulho ao meu lado e então senti Constantine se aproximar de mim, demorei um tempo para notar o que ele estava fazendo — se assegurando de que eu não podia ver nada.
— Boa garota.
Revirei meus olhos, apreciando o fato de que eles estavam cobertos e o mafioso não podia vê-los.
Não fale comigo como se eu fosse um cachorro, filho da puta.
Ouvi o ronronar suave do carro ao ser ligado novamente, então a sensação de estar em movimento. Não poder ver para onde eu estava indo me deixou ansiosa, eu sempre odiei surpresas, desde quando era uma garotinha. Eu gostava de saber o que estava acontecendo, o que esperar, gostava de estar preparada. Eu segurei a arma em minha mão com firmeza, feliz por Nikas não tê-la tirado de mim, era algo com que eu sabia que podia contar.
Eu senti como se uma eternidade mais um dia tivesse se passado quando o carro finalmente parou. Pude ouvir quando Constantine abriu a porta e saiu do veículo, demorou algum tempo para chegar à minha porta e abri-la para mim. Ele soltou meu cinto de segurança e estendeu a mão para mim, ajudando-me a sair do carro.
— Não posso tirar o pano do meu rosto ainda?
— Ainda não — Disse ele, com a respiração rasa.
— Você não soa bem.
Constantine não respondeu.
Tive vontade de chorar quando o ouvi abrir a porta de outro carro antes de me empurrar para dentro. Não o ouvi abrir a outra porta, nem o senti ao meu lado. Aproveitei a chance para tentar dar uma olhada ao meu redor. Assim que abaixei o pano o suficiente para que meus olhos pudessem ver o que estava acontecendo, engoli em seco. Constantine estava fora do carro, despejando um galão de gasolina no carro que usávamos antes. Depois de cobrir o veículo com o combustível, ele riscou um fósforo e o deixou queimar, caminhando desajeitadamente até o carro em que eu estava.
E lá se foi meu ponto com localizador.
Se ao menos eu não tivesse deixado meu celular dentro da porra da minha bolsa, no hotel.
Rapidamente cobri meus olhos novamente.
— Por que você está cheirando a gasolina? E que barulho é esse? — Perguntei, sem receber resposta — Você está queimando alguma coisa?
— Você gosta de fazer perguntas, não é?
— Posso ter sido chamada de intrometida algumas vezes ao longo da minha vida.
— Não consigo imaginar por quê — Ele ainda respirava estranho e parecia fraco, mas também pude perceber alguma diversão em seu tom.
Eventualmente, chegamos ao nosso destino. Ou melhor, o destino de Nikas.
Mais uma vez ele saiu do carro e abriu a porta para mim, me ajudando a sair. Caminhamos, paramos, ouvi um bipe e voltamos a caminhar. Eu tinha certeza de que estávamos dentro de um elevador e minha certeza ficou mais forte quando o senti se movendo.
— Você pode tirar o pano agora.
Então eu o fiz.
E, olha só, nós realmente estávamos dentro de uma caixa de metal.
Olhei para o painel do elevador, o botão "cobertura" estava iluminado. Quem disse que o crime não compensa?
Quando o elevador parou, saímos dele para uma porra de um hall de entrada glamuroso. Nikas me guiou até a porta da frente e a abriu para que pudéssemos entrar e, claro, era ainda mais deslumbrante. Um pouco bizarra, também, já que todas as janelas possuíam vidro escurecido, simplesmente não dava para ver nada do lado de fora.
Que porra é essa?
— Você mora aqui?
— Não.
Certo, isso meio que fazia um pouco mais de sentido. Mas se aquela cobertura não era dele, de quem era?
— Então, não é seu? — Perguntei, seguindo-o pela casa. Constantine não me respondeu a princípio e eu pensei seriamente que ele não iria me responder de jeito nenhum.
Chegamos à — deixe-me dizer, incrível — cozinha. Constantine caminhou até um armário e tirou um kit de primeiros socorros de lá, então foi na direção oposta, abrindo uma porta dupla que dava para o que eu presumi ser uma despensa e fechando-a atrás dele. Depois de um tempo, ele voltou com uma garrafa de uísque. Ele abriu e bebeu sem se importar em pegar um copo.
— Você não deveria... — Comecei, ele me encarou com uma expressão mortal — Vai afinar seu sangue e você já perdeu demais.
Ele me ignorou completamente e continuou bebendo.
Observei enquanto ele virava a garrafa na boca e quando colocou-a sobre a bancada. Então, o observei abrir o kit de primeiros socorros e tirar de lá o que parecia uma pinça. Ele se recostou na bancada, olhando para baixo, e eu me encolhi ao vê-lo removendo sua bala. Não que eu estivesse com nojo ou algo assim, mas já fui baleada algumas vezes e, deixe-me dizer, é preciso muita determinação para tirar uma bala da própria carne. Embora eu obviamente nunca tenha realmente tido a necessidade de fazer isso — uma das vantagens de trabalhar para o governo é ter acesso a um atendimento médico incrível.
— Você devia chamar um médico, você pode ter um ferimento interno — Disse eu, mais uma vez sendo ignorada.
Isso estava ficando chato muito rápido. Eu queria dar um soco nele.
Ele deixou a bala cair no chão e jogou a pinça sobre o balcão, fazendo com que o sangue respingasse por toda parte. Então ele pegou o uísque novamente, bebendo um pouco mais antes de derramar uma boa quantidade sobre o ferimento. O som gutural que deixou sua boca fez minha pele arrepiar de uma forma horrível. Eu observei seus olhos rolando lentamente para a parte de trás de sua cabeça antes que ele os fechasse e caísse no chão. Corri até ele, ficando de joelhos ao seu lado.
— Constantine? — Eu chamei, meu coração acelerando como um cavalo de corrida — Porra. Porra. Porra.
— Não percebi que você gostava tanto de mim — Disse com os olhos ainda fechados — Não precisa chorar, baby.
— O que? Você está brincando comigo?
— Você precisa relaxar.
— E você precisa não morrer na minha frente, porra.
Isso era bem o tipo de coisa que aconteceria considerando a minha sorte, deixe-me dizer. Eu não ficaria surpresa se depois de tudo Constantine Nikas simplesmente morresse e fizesse todo esse plano e meses de preparação irem para o lixo.
— Não pretendo morrer tão cedo, linda — Nikas abriu os olhos com seu irritante sorriso arrogante estampado no rosto — Vá pegar o kit de primeiros socorros para mim.
Fiz o que ele pediu apenas porque estava prestes a chutar sua cara até que ele fosse totalmente incapaz de sorrir novamente.
— O que você quer? — Eu perguntei.
— Eu preciso de alguns pontos.
— Espere, você vai se costurar?
— Não estou vendo nenhum médico aqui, e você?
— Bem, você poderia chamar um, você tem o maldito dinheiro para fazer isso.
— Sim, mas qual seria a graça nisso?
Mordi meu lábio inferior, tentando me impedir de dizer a ele para ir se foder. Com o ego que ele tinha, provavelmente adoraria se foder de qualquer maneira, então isso não era uma grande ofensa, portanto, não valia a pena eu gastar meu tempo.
Peguei os itens que ele precisaria para dar os pontos em seu abdômen e os entreguei para ele.
— Onde está o pano que você usou para cobrir seus olhos? Me dê — Constantine pediu. O pano estava sobre a bancada, eu o peguei e o dei à ele.
Nikas enfiou o pano na boca e o mordeu com força, então começou seu trabalho. Como ele foi capaz de fazer isso, eu nunca saberia. Seu rosto adquiriu um tom absurdamente pálido e ele suava como um porco enquanto sua mão trêmula passava a agulha repetidas vezes em sua pele, costurando-o. Foi uma experiência angustiante assistir aquilo, mas não vou mentir, foi um tanto sexy também. Quando ele terminou de dar os pontos, deu um nó na ponta da linha e cortou o que sobrou. A tesoura, linha e agulha que estavam em suas mãos caíram no chão e ele tombou para trás, deitando-se novamente no chão, imóvel. E, dessa forma, ele permaneceu.
Constantine dormiu 24 horas inteiras e demorei boa parte delas para conseguir, sozinha, arrastá-lo do chão da cozinha para o sofá da sala. Quando finalmente consegui colocá-lo no sofá, fiquei tentada a vasculhar toda aquela cobertura atrás de qualquer coisa que pudesse ter algum valor para a missão, mas então... Bem, então eu olhei para ele. Ele estava dormindo, machucado e totalmente vulnerável. Eu não deveria ter me sentido mal por um assassino, mas me senti. Então, em vez de procurar provas, procurei maneiras de deixá-lo mais confortável.
Fui para o segundo andar e entrei na primeira porta que encontrei. Era um quarto, não a suíte, mas havia tudo de que eu precisava lá. Peguei um cobertor e alguns travesseiros e desci as escadas. Tirei os sapatos e as roupas sujas de Constantine, deixando-o com sua cueca. Veja bem, eu não sou uma pervetida e não era minha intenção ficar olhando, mas não dava para eu tirar aquelas roupas ensanguentadas dele sem olhar em sua direção. E, conforme olhei, deixe-me dizer… Era uma vista ótima.
Coloquei o cobertor sobre o corpo dele, um travesseiro sob a cabeça e outro do lado, uma tentativa estúpida de evitar que ele rolasse e caísse no chão. Como se ele fosse a porra de um bebê. Um bebê com uma arma e uma ficha criminal maior que a bíblia. Então, me sentei na beirada do sofá e o encarei por horas a fio, até que meu estômago começasse a doer e roncar como um animal furioso, tentando me lembrar que eu ainda era um ser humano e precisava me alimentar.
Eu fui até a cozinha, me deparando com a bancada e chão sujos de sangue. Sanitário para caralho. Levei algum tempo, mas encontrei a área de serviço e alguns produtos de limpeza lá. Limpei a cozinha e só então parei para olhar as opções que eu tinha para me alimentar, optei por fazer omelete e bacon.
Já era noite de outro dia quando Constantine acordou. Ele parecia perdido, estava pálido e fraco. Lhe ofereci um pouco da canja que eu havia feito, já prevendo o estado no qual ele acordaria, e ele ficou lá me encarando com uma cara de idiota por uns bons minutos, como se não se lembrasse quem eu era ou como fui parar ali, até que a realização o atingiu. Ele aceitou a canja e comeu tudo sem pestanejar.
— Você tirou minhas roupas — Eu meio que fiquei em dúvida se aquilo era uma pergunta ou uma afirmação, então permaneci em silêncio — Poderia ter me dado um banho também, estou fedendo.
— É, bem, você é pesado.
— Falando nisso, como você me trouxe para a sala? — Perguntou ele, dei de ombros.
— Foi difícil, mas eu não sou o tipo de garota que desiste fácil.
Constantine riu com a minha resposta, balançando a cabeça. Sua risada não combinava em nada com a imagem que eu tinha dele. Era tão… gostosa. Quase como a risada de uma criança, tão leve, me fez querer rir também
Ele teve alguma dificuldade para se levantar, mas recusou minha ajuda.
Puta merda, ele era alto.
É claro que eu já tinha notado isso antes, mas a diferença de altura entre nós era ainda mais drástica comigo fora do meu salto alto.
— Você tomou banho — De novo, não era uma pergunta — Você deu uma olhada na casa?
— Não bisbilhotei, se é o que quer saber.
— Se você tivesse, não importaria. Como eu disse, não moro aqui, não há nada para você encontrar.
— Não quero encontrar nada.
— Certo.
Ele começou a andar em direção a escada, seu corpo ligeiramente curvado para frente.
— Precisa de ajuda? — Perguntei, ele parou de andar e se virou vagarosamente em minha direção, uma das sobrancelhas erguidas.
— Você quer me ajudar a tomar banho?
— Você mal consegue ficar em pé e está andando como um zumbi de The Walking Dead. Claro que você precisou se dar pontos para provar sua masculinidade, mas, sabe, você não vai morrer se aceitar alguma ajuda.
— Eu não estava tentando provar minha masculinidade, é apenas algo a que estou acostumado a fazer.
— Você leva muitos tiros? — Perguntei, ele não sabia que eu sabia qual era sua verdadeira profissão. Eu estava curiosa para saber o que ele iria responder.
— Sim — Sua honestidade não era algo que eu estava esperando.
— Você é um policial ou algo assim?
— Você acha que um policial pode pagar por uma cobertura de luxo? — Perguntou ele, sorrindo — Seu papai tinha uma?
— Não... Mas você disse que não era sua cobertura.
— Eu nunca disse isso. Eu disse que não morava aqui.
— Então, é sua cobertura?
— Sim, é minha maldita cobertura.
— Você comprou uma cobertura e não mora nela?
— Eu moro em uma cobertura, mas não esta.
— O quão rico você é? — Perguntei, tentando parecer impressionada.
Apesar de não saber exatamente a quantia em posse de Nikas, eu sabia perfeitamente que ser o braço direito e assassino particular de um chefe da máfia era um negócio extremamente lucrativo.
Constantine não me respondeu. Ao invés disso, ele gargalhou.
— Você vai me dar banho ou não?
Eu sabia que ele não iria responder a todas as minhas perguntas tão facilmente e não havia por que insistir, ainda mais se tratando daquele tópico. O FBI sabia que Constantine Nikas estava nadando em dinheiro sujo, aquilo não era novidade. Então, a única coisa que restou para mim naquele momento foi dar um banho nele.
Propus encher a banheira, seria mais fácil, mas ele queria um banho rápido e optou pelo chuveiro.
— Você consegue tirar a cueca?
— Você está desesperada para ver meu pau, não é?
— Só estou tentando te ajudar!
— Você é sempre afetada assim? Relaxa, eu só estou brincando com você.
Eu respirei fundo. Ele estava realmente me irritando.
— Você pode ou não pode?
— Sim, acho que posso.
Constantine colocou os polegares no cós da cueca e lentamente a empurrou para baixo, balançando os quadris para ajudar no processo já que ele não podia realmente se abaixar, até que a peça caiu no chão. Ele deu um passo para fora da pilha de tecido ao redor de seus pés. Meus olhos estavam fixos em seu rosto.
— Você pode olhar, se quiser.
— Cala a boca — Falei, me aproximando dele para ajudá-lo a entrar no box.
Eu o ajudei a tomar banho e em momento algum olhei para baixo, jamais daria essa satisfação a ele. Assim que ele terminou, fomos para seu closet. Estava bastante escasso, mas havia algumas roupas lá.
— Você quer trocar de roupa? — Ele perguntou.
Eu ainda estava com meu vestido absurdamente apertado, não era a roupa mais confortável, deixe-me dizer. Resolvi dar uma olhada no closet dele. Como eu disse, era escasso, então a melhor opção para mim foi uma camiseta branca que ia até o meio das minhas coxas. O ajudei a colocar suas roupas antes de ir até o banheiro e me trocar.
Mais tarde naquele mesmo dia nós estávamos sentados na sala de jantar, comendo.
— Por que você me trouxe para cá?
Constantine — correção: Connie, como ele insistiu para eu chamá-lo — olhou para mim.
— Esse foi o primeiro lugar que pensei em ir para dar um jeito no meu ferimento e você estava comigo.
Foi uma resposta simples. Eu meio que esperava mais, não vou mentir.
— Já se cansou de mim? — Perguntou ele, calmamente — Pode ir embora se quiser, apesar de você ainda não ter terminado seu trabalho — Ele riu levemente ao final da frase, eu franzi o cenho.
— Meu trabalho?
— Nós não fodemos.
— Ah, isso.
— O que mais poderia ser?
O filho da puta estava me olhando bem nos olhos, me analisando.
— Você quer foder agora? — Perguntei, esquivando-me de sua pergunta. Connie sorriu.
— Sim, claro.
— Você não está mais com dor?
— Estou com muita dor, na verdade.
— E você quer foder?
— Talvez possamos foder tão gostoso que meu cérebro vai se esquecer de enviar sinais de dor para o resto do meu corpo.
— Eu não sei dizer se você está falando sério agora.
Connie riu, balançando a cabeça antes de colocar mais comida na boca.
— Eu gostaria de te foder, é verdade. Mas acho que não consigo — Disse ele, foi um alívio. Antes que eu pudesse definir isso como uma vitória, ele disse: — Talvez você possa me foder.
— Você quer que eu coma seu cu?
— Eu não curto essas coisas, desculpe. Eu quis dizer que posso ficar deitado enquanto você monta em mim.
— Montá-lo?
— Você não gosta de ficar por cima? Você parece o tipo de garota que gosta.
— Sim, eu gosto — Respondi. Connie se ajeitou na cadeira e passou a língua pelos lábios, chamando minha atenção para sua boca. Limpei minha garganta e voltei a falar — Seria muito divertido cavalga-lo... E acidentalmente apoiar minhas mãos sobre seu abdômen recém-baleado e fazer você urinar de dor.
— Você acha que seria divertido eu mijar dentro de você?
— Eu estava sendo sarcástica! — Rosnei irritada.
— Tão esquentadinha… Você é assim na cama também?
— Você realmente só pensa em sexo?
— Não — Ele respondeu, sério dessa vez — Apenas é muito divertido te tirar do sério, você sabe, porque é fácil demais. Devo dizer que você estava me aborrecendo no hotel.
— Como é?
— Você estava agindo toda dócil, é entediante. Eu prefiro essa versão de você.
Ha! Toma essa, Yates.
— É o nosso protocolo — Menti — Os homens tendem a gostar mais de garotas inocentes, doces e frígidas. Então, a agência nos diz para agirmos assim.
— Como eu disse, acho entediante, principalmente porque estava tão óbvio que você estava fingindo.
— Não estava óbvio.
— Sim, estava. Se você fosse uma boa atriz, seria paga para estrelar filmes, não para foder com homens ricos.
Revirei os olhos, mais uma vez irritada.
Estou sendo paga para foder sua vida, filho da puta.
De repente, ele começou a rir jogando a cabeça para trás, como se alguém tivesse contado a ele a piada mais incrível.
— Você devia ver sua cara! Caramba, acalme-se, baby.
— Não me chame assim — Falei entredentes.
— De novo, só estou brincando com você. Não há necessidade de ficar tão chateada.
— Não estou chateada, estou irritada.
— Não há necessidade disso também. Olha, me desculpe, não vou mais te provocar, palavra de escoteiro.
— Você alguma vez já foi escoteiro? — Perguntei. Ele balançou a cabeça, revirei os olhos.
— Mas, ei, eu sei manter minha palavra.
— Aposto que sim.
E ele realmente sabia. Pelo resto da noite, Connie não fez mais nenhuma piadinha irritante e nós, incrivelmente, conseguimos achar alguns tópicos de interesse em comum para conversar.
No dia seguinte à nossa pequena discussão, acordei com o som de alguém no andar de baixo. Levantei-me, peguei a arma debaixo do travesseiro, a destravei e fui para a sala. Imagine minha surpresa quando encontrei uma mulher lá, fazendo a limpeza. Obviamente eu não fui a única a ser surpreendida, é claro, e isso ficou irritantemente claro quando a mulher começou a gritar.
— O que porra está havendo aqui? — Connie perguntou descendo a escada, seus olhos foram imediatamente para a arma em minha mão — Você está tentando matar minha empregada?
— Eu não sabia que era sua empregada — Falei, abaixando a arma — Só ouvi alguém aqui e…
— E desceu para ver? O que você faria se fossem homens armados? Você acha que só porque seu pai é policial você pode lidar com esse tipo de coisa?
— Por que teriam homens armados na sua casa? — Perguntei, erguendo uma sobrancelha. Por dentro, eu estava sorrindo. O filho da puta estava se entregando tão fácil.
— Por que você trouxe a arma? — Ele rebateu.
Nos encaramos por um momento longo demais, a empregada limpou a garganta.
— Crystal, você está bem? — Connie perguntou, a mulher assentiu — Desculpe minha… Namorada. Ela é um pouco paranóica.
Ele acabou de me chamar de namorada?
— Namorada? Eu não sabia que o senhor tinha uma namorada.
Isso faz duas de nós, Crystal. Eu também não sabia.
Eu estreitei meus olhos para Connie, ele fingiu que não viu.
— É algo… Novo. Continue com o seu trabalho, por favor, não vamos mais te atrapalhar.
Com isso, Connie me puxou em direção a escada, me forçando a subi-la com ele.
— Namorada?
— Oh, perdão, você preferiria que eu tivesse dito que você é uma prostituta que eu contratei?
— Pensei que você havia dito que não iria mais me provocar.
— Foi uma pergunta genuína. Você preferiria?
Eu o ignorei e voltei para o quarto de hóspedes que estava usando.
Parecia impossível, mas com o passar do tempo, fui achando cada vez mais fácil conviver com Connie. Nunca falei em ir embora e ele não me pediu para ir também. Conversamos sobre muitas coisas, mas foi tudo muito superficial. Eu não conhecia a história dele, mas era justo já que ele também não conhecia a minha e eu ainda possuía a vantagem de já ter lido seus registros criminais. Pelo menos eu sabia algumas coisas sobre ele, o cara nem sabia meu nome verdadeiro.
Connie pediu para que Crystal fosse ao mercado e reabastecesse a despensa, e já que ela iria sair, ele também pediu para que ela comprasse algumas roupas para mim. O fato de que ele havia passado a senha de seu cartão de crédito para a empregada me pareceu um tanto absurdo, mas eu estava suspeitando que Crystal sabia das atividades ilícitas de seu patrão e isso era garantia suficiente para Connie confiar que ela não seria estúpida o suficiente para tentar roubá-lo.
Falando sobre a Crystal…
— Ela quer foder com você.
— Não, ela não quer. Ela é uma boa menina, eu confio nela.
— Não desse jeito. Estou falando sobre sexo.
— O que? — Ele finalmente parou de olhar para a TV e olhou para mim — Ela não quer fazer sexo comigo.
— Como você tem tanta certeza?
— Ela é nova demais para mim.
Eu ri.
— Como se isso fosse motivo suficiente para impedi-la... Ou impedir você.
— Ela trabalha para mim, eu nunca transaria com ela.
— Então, você confessa que esse é o único motivo?
— Você não parece muito mais velha do que ela.
— Tenho 26 anos, ela não parece ter mais que 20.
— Você tem 26? — Perguntou ele, incrédulo — Você parece mais jovem.
— Obrigada.
— Você não vai perguntar quantos anos eu tenho? — Não precisava, eu sabia que ele tinha 30 anos.
— Claro, quantos anos você tem?
Connie me olhou bem nos olhos e disse:
— 25.
Que porra é essa?
— Você está mentindo.
— Por que você tem tanta certeza?
— Você não parece ter 25 anos, parece mais velho.
— Ai, isso doeu.
— De jeito nenhum você é mais novo do que eu.
— O que posso dizer? Eu tenho 25.
— Você não tem!
— Tenho sim!
— Não, você não tem — Eu disse, jogando uma almofada nele.
— Ei! Ainda estou me recuperando do tiro, lembra?
— Tanto faz — Falei, voltando a me virar para a TV — Você não tem 25 anos.
Uma semana depois, eu estava dormindo no quarto de hóspedes que àquela altura do campeonato já havia se tornado meu quarto, quando ouvi vozes do lado de fora. A porta estava entreaberta e eu podia ver Connie parado com uma cara de poucos amigos.
— O que você está fazendo aqui em cima? Não te dei autorização para ficar perambulando pela minha casa.
— Quem é essa coisa gostosa? — Alguém perguntou, um homem, não reconheci a voz.
— Não é da sua conta.
— Ela tem uma bela bunda — Disse o homem.
Subitamente me tornei dolorosamente consciente do fato de que minha bunda estava exposta. Eu havia ido dormir usando nada além de uma calcinha minúscula e a camiseta de Connie que eu havia pego no primeiro dia.
Connie não respondeu, mas eu podia ver sua carranca ficando mais e mais assustadora ao passar dos segundos.
— Ah, vamos, Nikas, você nunca se importou em dividir seus lanchinhos. Eu poderia dar uma boa mordida naquela bundinha arrebitada.
Eca. Apenas... Eca.
— Ela é minha. Apenas pense em encostar a porra de um dedo nela e será encontrado em pedaços no dia seguinte — A maneira como Connie disse isso, quase rosnando, fez um arrepio percorrer minha espinha. Mas não foi só isso. Eu nunca teria coragem de admitir, mas me deixou com tesão.
Ninguém poderia realmente me criticar, ele era um homem absurdamente atraente.
Um assassino absurdamente atraente.
Que seja.
— Que porra, cara? Você está apaixonado? — O homem perguntou, rindo.
— Ela me custou caro, não é para merdas como você.
E como num passe de mágica, meu tesão sumiu. Ele tinha acabado de se referir a mim como uma propriedade e eu estava irritada. Saí da cama e caminhei em direção à porta, Connie me notou antes que eu pudesse de fato sair do quarto e colocou uma mão na minha barriga, me forçando a recuar.
— Estou com fome — Disse eu.
— Vou trazer algo para você. Não quero que você saia do quarto até que eu diga o contrário.
— Você não manda em mim.
Ele me ignorou e voltou-se para o homem nojento com quem estava falando antes.
— Você, volte para a sala. Se eu te ver perambulando pela minha casa, especialmente neste andar, você está morto. Você consegue entender isso ou seu cérebro é atrofiado demais?
— Ela deve ter uma boceta maravilhosa — Disse o homem, sua indignação clara na voz.
— A MELHOR! — Gritei. Connie me olhou feio, como se quisesse me dar um soco — Cara feia para mim é fome, viu, docinho?
— Você não vai sair desse quarto e definitivamente não vai falar com ninguém.
— Ninguém? Tem mais gente? — Perguntei, esticando meu pescoço para fora do quarto para olhar. Connie me empurrou para dentro do quarto e fechou a porta. Em um movimento rápido, ele me prendeu entre a madeira da mesma e seu corpo.
— Qual é a porra do seu problema? — Ele rosnou.
— Qual é o seu problema? Por que não posso conhecer seus amigos? — Eu sabia o porquê, eles provavelmente não eram seus amigos. Eu tinha certeza absoluta de que eles eram seus… Irmãos da máfia ou o que seja.
Ele não queria que eu os conhecesse porque pensava que estaria me colocando em risco, o que era... Meio fofo, não sei. Eu não queria pensar sobre os motivos pelos quais Connie estava me tratando como um bebê, eu só sabia que o comportamento dele estava me irritando pra caralho e... Fazendo coisas acontecerem na minha calcinha.
Não que um dia eu fosse admitir isso em voz alta.
— Eles não são meus amigos — Disse ele, fiquei surpresa. Não com a declaração dele, é claro, mas com o fato de que ele estava realmente me contando.
— Então, por que eles estão aqui?
— Porque temos... Negócios para discutir.
— Que tipo de negócios?
— Você realmente não sabe?
— Como eu poderia saber?
Desta vez, ele não respondeu. Em vez disso, Connie olhou para baixo e algo mudou em sua expressão.
— Minha camiseta fica bem em você — Sua voz estava bem mais suave agora, quase um sussurro.
— Obrigada? — Não era minha intenção soar como se estivesse fazendo uma pergunta, mas soei.
Que porra de mudança de humor abrupta foi essa?
— Você deveria trancar a porta quando dorme assim, estava mostrando sua bunda para qualquer um que passasse pelo corredor.
— Qualquer um, tipo... Você?
— Sim.
— Você não gosta da minha bunda?
Connie olhou para mim.
— Eu não disse isso.
— Bem, você está reclamando sobre…
— Não foi uma reclamação, é só…
— Então você gosta da minha bunda? — Perguntei, ele riu olhando para baixo novamente enquanto balançava a cabeça.
— Sim, America, gosto da sua bunda. Muito. Esse não é o ponto — Ele olhou para mim de novo, sério desta vez — Eu não fui o único que viu, e se eu não tivesse percebido que Trevor não estava lá embaixo e não tivesse vindo aqui... — Ele deixou a frase morrer sem concluí-la.
— Você acha que ele teria me machucado?
— Sim.
— Você sabe que eu durmo com uma arma debaixo do travesseiro, certo? — Falei, ele sorriu para mim.
— Eu sei. Mas se ele tentasse te tocar... Bem, isso não acabaria de um jeito bom.
— O que você quer dizer? — Perguntei. Connie fechou os olhos e deixou sua cabeça repousar no meu ombro, sem responder — Connie... Eu te ouvi... Você disse que o mataria.
— Se você ouviu, por que está perguntando?
— Você realmente faria isso? — Eu sabia que sim, queria saber se ele admitiria para mim.
Ele respirou fundo, erguendo a cabeça para me olhar nos olhos.
— Se aquele filho da puta tocasse em você, eu o mataria. Mas o que acontece é que eu não posso realmente matar um dos meus, então os outros caras lá embaixo tentariam retaliar… E eu teria que matar todos eles. Seria muito complicado limpar toda a bagunça depois.
— O que você quer dizer com não poder matar um dos seus?
— Todo mundo tem que seguir leis, America. Estou seguindo as do Diabo — Disse ele, simplesmente — Já volto com sua comida.
Era isso, ele quase confessou. Olha, eu não estava procurando uma confissão, o FBI sabia que Constantine Nikas era o braço direito do chefe da máfia de Nova York, mas ele se sentir confiante o suficiente para dizer algo assim para mim? Esse era um passo enorme. Tudo bem, ele não tinha me dito "Ei, eu faço parte de uma máfia e mato pessoas para o meu chefe!", mas ele estava se abrindo. Talvez... Talvez eu devesse me abrir um pouco para ele também.
Isso soou tão sujo. Juro que não estava pensando em sexo... Bem, agora estou.
Esperei pacientemente que Connie voltasse. Ele voltou para o quarto carregando uma bandeja contendo um sanduíche com suco de laranja e uma maçã.
— Desculpe, não é nada sofisticado — Disse ele, colocando a bandeja sobre a cama.
— Tudo bem.
Ele assentiu e foi em direção a porta, mas eu o chamei.
— Connie?
— Sim? — Disse ele voltando-se para mim.
— Me diga o que você faz — Eu sabia que ele não diria tão fácil, mas não faria mal tentar.
— O que?
— Você é um criminoso? — Caminhei em direção a ele, ainda sorrindo, fazendo de tudo uma grande piada.
— Eu acabei de dizer que mataria seis homens e você está me perguntando se eu sou um criminoso? — Perguntou ele, claramente se divertindo com nossa conversa — Não, amor, sou um santo.
— Apenas me diga — Aproximei-me dele e toquei seu peito sobre a camisa — Não vou te julgar. Nós, prostitutas, não somos muito críticas, sabe?
Ele realmente riu disso, aquela risada gostosa dele.
— Vou mostrar o meu se você me mostrar o seu.
— O que?
— Eu sei que você está escondendo algo.
— Todo mundo está escondendo algo.
Connie assentiu e se afastou de mim.
— OK.
— Espere! — Agarrei sua camiseta — Se eu te contar uma coisa, você me dirá com o que você trabalha? — Connie estreitou os olhos para mim.
— Tudo bem, esquentadinha. Conte-me seu grande segredo.
— Meu nome verdadeiro é Phoebe.
Connie me olhou atentamente por um minuto inteiro, sem se mexer, então gargalhou.
— Isso não é equivalente, você já sabe meu nome. Fale-me sobre o seu trabalho.
— Você já sabe qual o meu trabalho.
— Sei mesmo?
Nem fodendo.
Eu não era capaz de dizer se Connie estava apenas jogando verde ou ele sabia mesmo que eu não era realmente uma prostituta de luxo, mas aquele comportamento dele era algo que realmente me irritava. Se ele estava apenas jogando verde, era simplesmente estúpido. Se ele não estava... Bem, então era estranho pra caralho. Por que ele ainda não me havia me matado? Ele queria tanto me foder que estava adiando me matar? Ele estava se divertindo brincando comigo? Ele queria me foder de outras maneiras além de apenas sexualmente?
Tive que admitir algo que odeio admitir em qualquer circunstância: eu não sabia.
— Seus amigos devem estar esperando por você — Eu disse, largando sua camiseta e me virando para minha bandeja de comida. Baixei meu corpo em direção a cama e tomei um gole do copo de suco com o canudo. Connie riu baixinho.
— Você é única, Phoebe.
— Obrigada — Eu disse, olhando para ele por cima do ombro. Ao fazer isso, notei que ele estava olhando para minha bunda — Você realmente gosta, não é?
— Eu disse que sim — Disse ele, balancei minha bunda e ele murmurou: — Me fode.
— Você não satisfez minha curiosidade, então por que eu deveria satisfazer seu pau?
Connie caminhou em minha direção e deu um tapa na minha bunda com força, fazendo um gemido vergonhosamente alto escapar dos meus lábios. Ele abaixou seu corpo sobre o meu e sussurrou em meu ouvido.
— Porque você quer.
Eu agarrei o lençol da cama, mordi meu lábio inferior e fechei os olhos, tendo que fazer um esforço ridiculamente grande demais para não gemer de novo.
— Olhe só para você — Disse ele, divertido — Sequer consegue negar. Você me quer dentro da sua boceta, não é, Phoebe?
Oh, Connie gostava de falar sujo. Não fiquei surpresa.
— Você só precisa falar — Continuou ele, com as mãos firmes segurando meu quadril — Diga e eu vou te foder como você merece.
Eu não disse.
Eu não podia.
Connie me soltou e ficou novamente em pé, eu permaneci na mesma posição, incapaz de mover um músculo sequer.
— É uma pena — Disse ele, então saiu do quarto.
O resto do dia foi muito estranho. Fiquei dentro do meu quarto até quase o fim da tarde, então Connie veio e disse "você pode sair agora se quiser" e saiu sem esperar por uma resposta. Fui direto para a cozinha depois disso porque estava com fome pra caralho e fiz alguns waffles com geléia de amora e café, não queria comer muito porque sabia que o jantar seria em algumas horas.
Jantar. Vamos conversar sobre isso.
Eu estava sentada no meu lugar habitual na mesa, esperando pacientemente que Connie descesse para se juntar a mim, mas ele nunca o fez. Eu tinha feito a porra do jantar, odiava cozinhar e ele com certeza tinha notado isso em nosso tempo juntos, então me irritou que ele nem tivesse me avisado que não iria comer. Eu tinha feito o jantar para dois, pelo amor de Deus. Então, quando me cansei de esperar pelo Sr. Criminoso, comi minha comida e limpei a mesa assim que terminei, antes de voltar para o meu quarto.
Mas, no meio do caminho, quando eu já estava no corredor do segundo andar e podia ver a porta do "meu" quarto, meus pés perderam o memorando de qual direção seguir e se viraram para trás, me fazendo andar na direção contrária… Bem para o quarto de Connie. Ele estava deitado na cama com um braço sob a cabeça enquanto coçava a pele exposta de seu abdômen, próximo ao ferimento recente.
— Está coçando?
Ele olhou para mim e parou de coçar a pele. Ele estava aparentemente fazendo isso inconscientemente.
— É uma coisa boa, significa que está melhorando.
— Eu sei — Disse ele, com a voz monótona.
— Você provavelmente vai acabar com uma cicatriz bem feia, sabe. Isso não aconteceria se tivesse ido a um médico.
— Eu não me importo com cicatrizes.
— Sim, eu posso ver isso — Eu disse, olhando descaradamente para o corpo dele.
Connie tinha algumas cicatrizes onde eu podia ver, principalmente no peito e nos braços.
— Essas não são as piores.
— Qual é o pior?
— A que tenho no meu pau, a coisa lá embaixo é bastante deformada.
— Oi?
— Pois é, eu me queimei e ficou tipo... — Ele fez uma careta — Parece o Gollum de O Senhor dos Anéis.
— O que...?
— Estou brincando. Eu não fui queimado, nasci assim — Ele encolheu os ombros como se não fosse grande coisa.
— Oh… — Eu não sabia o que dizer.
Connie riu.
— Achei que você ia me pedir para ver, você parece uma pessoa curiosa.
— Você só disse isso para me mostrar o seu pau? — Perguntei, ele assentiu.
— Eu sei que você quer ver, só estou tentando tornar mais fácil para você, já que se recusa a pedir.
— Eu não quero, não!
— O que quer que te ajude a dormir à noite, docinho — Connie sorriu — E só para constar, meu pau é incrível. É grande, grosso e a cabeça é rosinha… Oh, e as veias…
O encarei boquiaberta, sem reação, enquanto a imagem de seu pau grande, grosso e rosado se formava em minha cabeça. Connie mordeu o lábio inferior e inclinou ligeiramente a cabeça para o lado, claramente se divertindo com a situação.
— Quer ver agora? Algo me diz que ele vai amar te conhecer.
— Você é nojento.
— E ainda assim você veio até o meu quarto.
Isso me fez lembrar do porquê de eu ter ido até ali.
— Bem, você não foi jantar.
— É, eu não estava com fome.
— E não poderia ter avisado isso antes? Eu cozinhei para nós dois.
— Não pensei em avisar.
— Claramente — Falei, cruzando os braços na frente do corpo — Pois pense da próxima vez.
Connie sentou na cama, com as costas apoiadas na cabeceira.
— Desculpa, mãe. Isso não vai se repetir — Ele disse, revirei os olhos.
— Deus, você é tão irritante.
— Bem, eu não estou te mantendo como refém aqui. Você pode ir embora se minha companhia te irrita tanto.
— Eu nem sei onde estou. Vim aqui com os olhos vendados, lembra?
— Sim, eu me lembro. Mas se você quiser ir para casa, eu posso levar você — Disse ele de um jeito muito carinhoso, muito irritante — Quer que eu te leve para casa, Phoebe?
— Bem, eu não sei onde você mora de verdade, então não, não quero que você me leve para casa e descubra meu endereço.
— Posso deixar você em um parque ou outro lugar público e afastado da sua casa, não preciso saber seu endereço.
— Você quer que eu vá embora? — Perguntei.
Por alguma estranha razão, a possibilidade fez com que eu me sentisse… Triste.
Provavelmente porque isso significava que a missão teria que seguir outro curso sem que eu realmente fosse capaz de arrancar dele qualquer informação crucial.
Definitivamente foi por isso.
— Eu não disse isso, esquentadinha, não precisa ficar na defensiva. Só estou dizendo... Você não sente falta de sua família e amigos?
— Não tenho família... Nem amigos.
— E quanto ao seu pai?
— Ele morreu em serviço.
Quem me dera. Isso seria algo para se orgulhar, pelo menos. Tudo que eu sabia sobre meu pai é que ele era um filho da puta que não dava a mínima para minha mãe... Ou para mim. Então ela o deixou quando eu era pequena demais para registrar seu rosto. Eu poderia ver o bastardo bem na minha frente e nunca reconhecê-lo. E, sim, eu estava totalmente bem com isso.
— Sinto muito por isso. E quanto a sua mãe?
— Ela também está morta.
Agora, eu estava apenas mentindo. Minha mãe estava ótima, provavelmente em alguma praia caribenha, vivendo sua melhor vida com o dinheiro que sempre mando para ela.
— Você não tem irmãos?
— Graças a Deus, não. E você? Eu não vi nenhum amigo ou família por aqui.
— Eu tenho família e amigos, muito obrigado.
— Oh sim? Me diga mais. Faz semanas que estamos aqui e você nunca fala sobre eles, eles nunca vêm aqui, você nunca sai…
— Você está me interrogando?
Eu estava.
— Não, estou tentando te conhecer melhor.
— E por que isso?
— Porque... Ah, quer saber? Esquece.
Eu me virei e fui até a porta, mas Connie me chamou. Pensei em ignorá-lo, mas a pequena possibilidade de ele me dizer algo mais sobre ele me fez ficar.
— O que? — Perguntei secamente.
— Vamos mudar de lugar amanhã.
— O que você quer dizer?
— Vamos para outra casa. Minha casa.
— Sua casa? — A ideia de ir para a casa em Constantine Nikas realmente mora me deixou tão animada que tive que me forçar a não rir.
— Sim.
— Por que?
— Porque agora é seguro e eu gosto mais de lá.
— E não era seguro antes?
— Não.
— Por que?
Connie deixou escapar um suspiro profundo e fechou os olhos. Parecia que ele estava perdido em pensamentos por um segundo antes de abrir os olhos novamente, olhando para mim.
— Porque tenho muitos inimigos e não seria divertido ir para casa só para encontrá-los lá.
— Você tem muitos inimigos? Por quê?
Por favor, diga-me que você é um mafioso. Eu não vou julgar.
— Porque... — Connie se levantou da cama e caminhou em minha direção. Quando ele estava perto o suficiente, colocou um dedo embaixo do meu queixo e sorriu — Porque meu pau é tão grande que dá inveja nos outros.
Revirei os olhos e dei um tapa em sua mão.
— Idiota — Falei, saindo de seu quarto.
Na manhã seguinte, acordei bem cedo com a voz retumbante de Connie gritando comigo do outro lado da porta, me dizendo para me levantar e me arrumar. Para minha surpresa, ele não estava em seu humor habitual. Não havia nenhum tom de flerte na maneira como ele estava falando comigo, aliás, ele mal estava falando comigo — ele só me disse bom dia quando saí do meu quarto, nada mais depois disso. Ele não estava fazendo piadas ou sorrindo, Constantine parecia perturbado e irritado.
Ele comeu o café da manhã inteiro em silêncio e saiu da mesa sem se dirigir à mim uma vez sequer, terminei o meu café pouco depois e fui escovar os dentes. Uma vez que estávamos prontos, ele pediu a Crystal para limpar tudo e trancar a porta antes de sair, então ele me vendou — Felizmente, ele teve o suficiente de bom senso para fazer isso quando Crystal não estava perto de nós, então ela não presenciou essa cena. Não que eu desse a mínima para o que ela pensaria caso tivesse visto Connie me vendar, mas a pobre garota ainda estava pensando que eu era a namorada dele e isso seria estranho pra caralho.
Não preciso dizer que todo o trajeto do hall de entrada da cobertura de Connie até o hall de entrada da outra cobertura foi um inferno. Deus, eu realmente, realmente odiava estar com os olhos vendados. Até onde eu sabia, ele poderia estar me levando a qualquer lugar, para qualquer um, para fazer o que quisesse. Ele poderia me matar e garantir que ninguém jamais encontrasse meu corpo, cacete! Mas, ele realmente me levou para sua casa.
A diferença era descaradamente óbvia, deixe-me dizer. Eu podia ver Connie em cada canto daquele apartamento e realmente parecia uma casa, um lar, não um esconderijo. Qual era a razão disso, além do fato de a casa não possuir a mesma decoração de um quarto de hotel de luxo? As janelas eram transparentes, eu podia ver através delas. E como eu conhecia tão bem minha amada Nova York, sabia exatamente onde estávamos.
Nosso tempo juntos realmente o fez confiar em mim o suficiente para me deixar saber onde ele morava ou ele estava me testando? Talvez... Talvez ele estivesse esperando que eu o traísse, ligasse para alguém, desse sua localização para alguém... Talvez ele tivesse um plano, talvez ele estivesse testando minha lealdade, talvez não. Tentar entender a mente de Connie estava me deixando com dor de cabeça, então eu parei. Parei de tentar descobrir qual era o seu negócio e apenas fui com o fluxo.
Eu elogiei a casa dele, mexi nas coisas dele como uma garotinha animada descobrindo um novo lugar para brincar. Connie me seguiu enquanto eu fingia que estava absurdamente interessada na decoração da casa por um tempo, então ele me mostrou meu "quarto novo". Era a suíte master e pude ver que era, de fato, o quarto dele.
— Que porra é essa?
— Você vai dormir comigo — Ele disse, me dando um sorriso irritante.
— Vamos continuar fingindo que sou sua namorada?
— Não — Connie respondeu simplesmente.
— Então...? Por que diabos eu vou dormir com você?
Connie sorriu largamente, mas não era um sorriso normal. Ele parecia um maldito lobo, um predador, como se pudesse me comer inteira em um piscar de olhos. Sem trocadilhos, juro! Ele se aproximou de mim e eu senti meu corpo inteiro se arrepiar quando ele colocou seus lábios perto de meu ouvido e sussurrou:
— Mantenha seus amigos por perto e seus inimigos... — Uma de suas grandes mãos veio até minha cintura e ele agarrou, me puxando para mais perto até nossos corpos colidirem — Ainda mais perto.
— Quem disse que eu sou sua inimiga? — Falei, minha voz trêmula.
Jurarei até o dia de minha morte que minha incapacidade de responder a ele sem gaguejar não teve nada a ver com o quão bom meu corpo se sentiu pressionado contra o dele, mas sabemos a verdade.
— Quem disse que você não é?
— Eu não sei do que você está falando, Sr. Nikas — Falei, me esgueirando.
Eu estava começando a ficar realmente perturbada com a mania de Connie de se comportar como se ele soubesse que eu não era realmente uma prostituta de luxo e só estava ali para coletar informações sobre ele e seus amiguinhos. Talvez ele realmente soubesse, o único jeito de ter certeza seria colocar todas as cartas sobre a mesa, mas a real é que ele sabendo ou não, eu estava fazendo meu trabalho. Eu estava mais perto do que nunca de conseguir minhas respostas, então eu decidi apenas me fazer de sonsa e continuar com aquele jogo. Fosse por sorte ou só porque ele realmente não sabia de nada, isso deu certo.
Naquele mesmo dia, durante o jantar, eu me surpreendi ao descobrir que Connie tinha um irmão caçula. Não havia nada sobre o rapaz nos arquivos de Nikas e ele nunca havia citado o próprio irmão em nossas conversas. Talvez fosse tudo uma bela armação, algum teste, ou talvez ele estivesse depositando sua confiança em mim, me deixando conhecer sua família. Não tinha como eu saber com certeza, mas conhecer Nick foi como respirar ar puro.
Apesar de toda sua timidez, Nick era um rapaz muito agradável de se ter por perto. Ele era calmo, engraçado e gentil. Na maior parte do tempo, ele estava fechado em sua própria bolha, mas era sempre um prazer conversar com ele e, com o passar dos dias, ele foi se soltando cada vez mais. Connie parecia perturbado toda vez que nos via conversando, mas nunca nos impediu. Um dia, porém, ele me pediu para ter cuidado com Nick, disse que o rapaz se apegava fácil e, já que eu iria embora em breve, não era para eu deixá-lo se apegar à mim.
— É impressão minha ou você está me mandando embora?
— Meu irmão é… Só não quero que ele fique chateado, ok?
Deixei essa informação penetrar. Constantine Nikas, o assassino mais procurado dos Estados Unidos, braço direito do chefe da máfia de New York, era o tipo de cara que se importava com os sentimentos de seu irmão caçula.
Isso era muito fofo. Tipo, realmente, realmente fofo.
E meio sexy também.
Porra, há quanto tempo estou sem sexo?
— Phoebe? — Disse ele, me tirando do meu pequeno devaneio — Você está bem?
— Eu estou com... Tesão — Murmurei a última palavra, quase como se fosse um pecado confessar a ele que queria senti-lo dentro de mim.
Ok, eu não usei exatamente essas palavras, mas eu pensei sobre elas e, só de pensar, eu estava molhada. Puta merda.
— Você está com tesão? — Ele perguntou, claramente confuso — Falar sobre meu irmão te deixa com tesão?
— O que? Não! Jesus Cristo, não. Eu só... Eu…
— Você o quê, Pheebs?
— Porra, Connie. Vai se foder! — Resmunguei, me afastando dele.
Eu estava, como toda vez que passava tempo demais ao lado dele, irritada. O sentimento apenas se acentuou quando o ouvi rir.
— De que porra você está rindo?
— Por que é tão difícil para você admitir que quer que eu te foda? — Ele perguntou, cruzando seus braços sobre o peito.
— Quem diabos disse que eu quero ser fodida por você?
— Você acabou de dizer que está com tesão, mulher.
— Sim, e eu vou me masturbar. Eu não preciso de você!
— Posso assistir? — Connie quis saber, soando inocente demais para o meu gosto.
— Não, seu maluco, você não pode — Eu disse, o lábio inferior de Connie foi para frente, formando um biquinho bonitinho.
— Você é cruel demais comigo. Não te custa nada me deixar assistir, juro que não colocarei um dedo em você — Ele propôs, ainda soando inocente.
O pensamento de ter Connie colocando um dedo em mim enquanto me masturbo me fez me sentir quente. Merda.
— Cala essa boca — Falei.
Minha intenção era soar irritada, mas sabia que havia passado longe disso. Connie sorriu para mim e se aproximou novamente, passando um de seus braços ao meu redor e me puxando para si. Com a mão livre, Connie tocou meu rosto. Eu nunca tinha prestado muita atenção nos olhos de Connie. Quer dizer, eu sabia que ele tinha olhos azuis — eu sabia disso desde antes de conhecê-lo. Mas, naquele momento, tão perto dele, me senti como se tivesse cometido um crime por não prestar mais atenção em como eram lindos. Connie tinha olhos azuis claros, exatamente como o oceano caribenho. Olhando para eles, eu senti que poderia afundar neles, me afogar e morrer. E o mais louco é que eu queria fazer exatamente isso.
Eu nem percebi que estava me levantando na ponta dos pés até sentir seu nariz roçando o meu, eu podia sentir sua respiração quente em meu rosto. Passei a língua sobre meus lábios, umedecendo-os, enquanto me lembrava do gosto de sua boca na minha. Da primeira vez que nos beijamos, Connie tinha gosto de whisky, nicotina e hortelã. Eu não podia sentir o cheiro de bebida ou cigarro em seu hálito, mas o cheiro de hortelã de sua pasta de dentes estava lá. Fechei meus olhos, desistindo de ter algum controle perto dele, pelo menos por hora. Antes de minhas pálpebras se fecharem completamente, pude ver que ele estava fazendo o mesmo.
Para ser bem sincera, eu estava me sentindo um tanto idiota. Eu parecia uma garotinha prestes a receber seu primeiro beijo. Meu coração estava fazendo uma algazarra em meu peito, parecia que ele ia sair por minha boca a qualquer instante enquanto eu esperava Connie quebrar de vez a mínima distância que havia entre nós.
Então, o celular dele tocou.
Connie me soltou e andou para longe de mim antes mesmo que eu pudesse abrir meus olhos e me recuperar do que acabara de acontecer. Ou, melhor dizendo, o que acabara de quase acontecer.
Eu estava tão atordoada pela quebra de expectativa que sequer prestei atenção na conversa que Connie estava tendo ao celular. Tudo o que eu podia ouvir era "sim", "não", "hm" e outras palavras que meu cérebro não se deu ao trabalho de registrar. A única coisa que eu sabia é que a conversa estava se tornando acalorada quando Connie gritou "então diga para ele, porra!" e desligou o celular, jogando-o contra o sofá.
Ele estava claramente irritado, sua respiração estava acelerada e ele tinha os punhos fechados com força. Antes que eu pudesse dizer ou fazer algo, ele se virou para mim. Lhe bastaram três passos longos para que eles estivesse com seu corpo colado ao meu novamente, com uma das mãos segurando meu pescoço enquanto a outra me puxava pela cintura.
— Onde estávamos? — Perguntou ele, mas não tive chance de responder.
Logo os lábios de Connie estavam sobre os meus, famintos e apressados. Senti o gosto de hortelã em sua boca invadir a minha, sendo seguido por sua língua quente. Eu não tentei pará-lo, tal pensamento sequer me passou pela cabeça. Ele pediu passagem com sua língua para dentro da minha boca e eu lhe concedi. Ele mordeu meu lábio inferior e eu gemi contra sua boca. Ele lambeu meus lábios e eu fiz exatamente o mesmo com ele. Então, quando as mãos de Connie foram parar na parte de trás das minhas coxas e, em um movimento rápido, ele me pegou no colo, eu não fiz nada além de cruzar minhas pernas ao redor de sua cintura e continuar a beijá-lo.
Connie caminhou pelo apartamento comigo em seu colo e meu peso não pareceu incomodá-lo enquanto ele subia a escada para o segundo andar. Eu não abri meus olhos em nenhum momento, também não afastei minha boca da dele até que estivéssemos os dois ao lado da cama que dividimos pelos últimos dias. Ele me colocou no chão e, rapidamente, suas mãos foram para a barra da minha camiseta, levantando-a. Logo depois ele começou a trabalhar para tirar minha calça de moletom. Em seguida, eu fiz o mesmo com ele, tirando sua camiseta e calça jeans.
Quando estávamos ambos usando somente nossas roupas íntimas, Connie deu um passo para trás e me olhou de cima a baixo, lambeu seus lábios e, então, passou o polegar direito sobre o lábio inferior, me olhando sob os cílios, com um sorriso diabólico no rosto.
— Porra — Ele murmurou, sua voz rouca pra caralho, pingando luxúria — Eu quero te comer inteira, baby.
— Faça isso. Venha aqui.
E então os lábios dele estavam nos meus novamente e suas mãos estavam trabalhando em abrir meu sutiã. Com meus seios livres, Connie desceu seus beijos até um deles. Senti sua língua quente ao redor do meu mamilo antes de ele mordiscá-lo. Um som escapou de mim, uma mistura de grito, suspiro e gemido, Connie olhou para cima, ainda com a boca em meu seio, e eu sorri para ele sentindo sua língua acariciar o mamilo entumescido. Era muito bom, mas eu não aguentaria muito mais.
Eu podia sentir que minha calcinha estava molhada pra caralho e eu simplesmente não conseguia me segurar, roçando minhas pernas uma na outra, tentando encontrar algum alívio, mas eu sabia que não seria o suficiente — eu precisava dele. Fato seja dito, eu desejava Connie há algum tempo, eu simplesmente não conseguia admitir para mim mesma. Algo mudou ao longo do caminho e eu não sabia o que era, mas com certeza não tentaria descobrir naquele momento.
— Connie, por favor… Eu preciso de você — Choraminguei.
Connie não me respondeu. Ele soltou o mamilo que estava em sua boca e foi para o outro, fazendo os mesmos movimentos com sua língua sobre ele. Porém, dessa vez ele não se demorou, logo seus lábios estavam deixando uma trilha de beijos sobre minha pele, do seio até o pescoço. Suas mãos desceram pelo meu corpo, indo até as alças da minha calcinha.
— Não consigo tirar minha boca de você — Disse ele com os lábios ainda em meu pescoço. Sua voz rastejando sob minha pele, me fazendo arrepiar.
Minha resposta a isso foi apertar seus ombros, enfiando minhas unhas neles. Eu simplesmente não conseguia raciocinar mais.
— Por favor…
— Sim, baby — Tendo dito isso, Connie rasgou minha calcinha
Agora, veja bem, eu nunca entendi isso. Ok que todas as roupas que eu estava usando foram compradas com o dinheiro dele e ele era podre de rico, mas ainda assim… Se ele fosse fazer isso todas as vezes que transássemos, Crystal em breve teria que sair para comprar mais calcinhas para mim.
Não que eu estivesse planejando transar mais vezes com Connie, obviamente.
Percebi que ele estava tirando sua cueca, mas não permiti que meus olhos deixassem os dele. De repente, senti que estava fazendo algo muito, muito errado... Porque estava. Fazer sexo com ele era uma possibilidade nesta missão, eu tinha que fazê-lo acreditar que eu era uma prostituta de luxo afinal, mas não era isso que eu estava fazendo. Eu estava prestes a fazer sexo com ele porque eu queria. Eu o queria. E isso era muito errado da minha parte.
Meu coração batia forte, eu queria fugir, eu queria ficar. Eu não sabia o que fazer. Como se ele pudesse sentir meu desespero interno, Connie tocou minha bochecha, acariciando-a com os dedos.
— Você parece nervosa.
Eu estava.
— É impressão sua — Respondi. Connie sorriu para mim.
— Não precisava fazer isso se não quiser, sabe disso, não sabe? — Perguntou ele, assenti — Tudo bem, então. Como você quer?
— De quatro.
A resposta veio rapidamente, em parte porque eu realmente adorava aquela posição, mas também porque eu não queria olhar para a cara de Connie enquanto ele me fodia. Não por sentir algum tipo de repulsa, mas apenas por medo de me sentir culpada demais.
Essa foi a última vez que realmente nos falamos por algum tempo. Connie me virou e me fez subir na cama, ele tirou a caixa de camisinha da gaveta da mesa de cabeceira e eu esperei enquanto ele vestia uma. Então, senti uma de suas grandes mãos acariciando minha bunda, antes que eu pudesse sentir a cabeça de seu pau roçando minha entrada molhada. Depois disso, tudo o que se ouviu naquele quarto foram gemidos e xingamentos.
O primeiro round foi bem rápido para nós dois, mas foi incrível. Nos deitamos na cama, ofegantes e suando, meus olhos estavam fechados o tempo todo e eu não os abri até sentir Connie beijar minhas costas. Uma onda de arrepios se espalhou pelo meu corpo conforme ele ia descendo sua boca até o meio de minhas pernas.
Da segunda vez, eu fiquei por cima e levamos mais tempo para chegar ao orgasmo, mas ele veio e, oh, como veio. Eu nem percebi que tinha adormecido até que acordei. Eu olhei em direção à janela e encontrei Connie parado diante dela, usando nada além de sua boxer preta. Aquilo não era algo raro, Connie não dormia muito e eu sempre acordava depois dele.
Suas mãos estavam fechadas em punho e escoradas contra o vidro, e sua cabeça estava baixa.
— Que horas são? — Perguntei, Connie se virou para mim.
— Um pouco depois das quatro da manhã — Disse ele, andando em minha direção.
— O que você está fazendo acordado uma hora dessas?
Não soube definir muito bem o sentimento que vi passar pelo rosto de Connie após minha pergunta, só soube que não era algo que eu gostava de ver.
— Ouvi meu celular tocando no primeiro andar — Explicou — Você deveria voltar a dormir.
— Você também deveria.
— Eu tenho que fazer uma coisa — Disse ele, o encarei com uma sobrancelha erguida.
Connie precisava sair de casa às quatro da manhã? É, isso realmente não parecia nenhum pouco suspeito.
— O que?
— Volte à dormir, Phoebe — Seu tom de voz mostrava que não havia espaço para uma discussão naquela conversa.
Connie foi até o closet e, depois de alguns minutos, saiu de lá completamente vestido. Ele estava usando uma calça jeans escura e um casaco preto com o capuz sobre sua cabeça.
— Você vai demorar? — Perguntei.
— Talvez, não me espere acordada — Disse Connie enquanto pegava seu celular sobre a mesa de cabeceira, ele se virou para sair do quarto, deu um passo em direção da porta e parou. Connie se virou para mim e se aproximou novamente, ele se abaixou até estar na minha altura e me deu um beijo.
— Você não vai ficar todo meloso agora que a gente transou não, né?
Ele riu.
— Um beijo de boa sorte.
— Você precisa de sorte no que está indo fazer?
— Sorte nunca é demais.
Rolei sobre a cama, me deitando de bruços, depois que ele saiu do quarto. Eu tinha certeza de que ele estava indo fazer algo para a máfia, afinal, o que mais o faria sair de casa àquela hora da manhã? Me perguntei se ele estava indo para alguma reunião, mas achava essa possibilidade altamente improvável considerando o horário, ele provavelmente estava indo cumprir alguma ordem. Conforme os primeiros raios de luz entravam no quarto através da janela, eu me perguntava quem seria a vítima de Connie dessa vez. Tal pensamento me fez sentir suja por ter transado com ele e eu precisei tomar um banho.
Não consegui dormir depois disso, uma sensação agoniante estava me impedindo. Eu sentia como se algo estivesse comprimindo meu peito e eu não conseguia parar de pensar em Connie. Era estúpido, ele era o vilão naquela história, ele era aquele com uma arma na mão, tirando a vida de alguém. Então, porque era com ele que eu estava preocupada?
Algo próximo às oito da manhã, fui para a cozinha. Nick estava lá, comendo seu cereal com leite, e sorriu para mim quando entrei. Tentei sorrir de volta e conversar, mas não estava realmente com vontade.
— Onde está meu irmão? — Ele perguntou, eu disse que não sabia. Nick deu de ombros e disse: — Ele deve estar com os amigos.
— Ele costumava sair tão cedo para ficar com os amigos, é? — Perguntei, ele assentiu.
— Sim, não sei por quê. Eu não gosto deles... Eles são maus. Você é a única amiga dele que não é ruim comigo.
Isso me deixou triste. Nick era um cara legal, não merecia ser maltratado.
— Eles são maus com você na frente do Connie? Seu irmão não te defende? — Isso não soava correto, eu não era capaz de imaginar Connie tranquilo com alguém maltratando Nick.
— Não, nunca na frente dele — Nick disse, rapidamente — Eles tem medo dele porque ele é...
Nick parou de falar, os olhos arregalados olhando para mim.
— Está tudo bem, você pode me dizer.
— Não, Connie vai ficar bravo comigo. Eu não gosto quando ele fica com raiva.
Eu poderia tentar levar a conversa adiante, dizer a ele que seria nosso segredinho, mas me sentia mal fazendo isso com Nick.
— Está tudo bem, você não precisa me dizer — Disse eu, sorrindo para ele. Ele sorriu de volta.
Preparei um sanduíche de peito de peru e suco de laranja. Eu não estava com fome, mas sabia que não era uma boa ideia ficar sem comer, então me esforcei. Depois, voltei para o quarto. Me deitei na cama, ainda me perguntando o que exatamente Connie estava fazendo, com quem e por que motivo. Eventualmente, meu cansaço venceu e eu acabei dormindo. Acordei algumas horas depois, com um barulho dentro do quarto.
— Me desculpe, não queria te acordar — Ouvi a voz de Connie antes de realmente conseguir enxergá-lo.
Esfreguei as mãos sobre os olhos e, então, me espreguicei. Senti todo meu corpo reclamar, era como se eu tivesse sido atropelada enquanto dormia, todos os meus músculos estavam reclamando.
Connie estava com o cabelo molhado e com uma toalha quase caindo de seu quadril. Eu devia estar realmente com sono se não o ouvi entrar, ir até o banheiro da suíte e só acordei quando ele saiu de lá. Ele andou até a cama e se deitou, fechando seus olhos automaticamente e cobrindo-os com um dos braços.
— Que porra…?
— Estou cansado, Phoebe — Seu tom de voz era monótono.
— Cansado demais para botar uma roupa? — Perguntei. Bem, ele soava cansado demais para qualquer coisa, até mesmo para me responder. Provavelmente, foi por isso que ele não me respondeu — Sua toalha está molhando a cama.
Ele bufou, claramente irritado, e levantou seu quadril para desenrolar a toalha, jogando-a no chão logo em seguida. Em nenhum momento Connie olhou para mim, ainda com seus olhos fechados.
— Satisfeita? — Ele parecia realmente de saco cheio.
Eu o encarei, me sentindo irritada também.
Connie tinha esse efeito sobre mim, ele me irritava. Nada nunca me tirou do sério tanto quanto ele. Ok, não serei injusta aqui, eu não sou a pessoa com o maior pavio do mundo, para ser mais exata, meu pavio é bem curto e eu tendo a explodir de tempos em tempos, mas com Connie isso era algo diário. Não houve um dia desde que nos conhecemos que eu não tenha sentido o impulso de voar no pescoço dele.
Mas ele realmente parecia destruído e, surpreendentemente, ao invés de deixar a raiva tomar conta de mim por seu comportamento, eu senti a necessidade de cuidar dele.
Então, foi isso que eu fiz. Me ofereci para fazer uma massagem nele, o que ele achou estranho, mas acabou concordando. Em algum momento durante a massagem, aquilo se tornou algo mais e nós acabamos transando de novo e, de alguma forma, foi ainda melhor do que nas duas primeiras vezes. Depois disso, enquanto ele dormia um pouco, preparei nossa janta. Nick me ajudou nessa tarefa, o que foi estranhamente divertido.
Pedi para que Nick fosse acordar seu irmão quando terminamos de cozinhar e nós três jantamos juntos. Por um breve momento, me ocorreu o pensamento de que pareciamos uma família e isso me fez rir pelo nariz, uma risada nervosa e sem sentido. Connie arqueou uma sobrancelha para mim, intrigado, e Nick gargalhou porque o som que saiu de mim parecia demais o grunhido de um porco.
Naquela noite, fui para a cama me sentindo estranhamente feliz. Connie me abraçou enquanto dormíamos e eu não me importei em pensar mais no que estávamos fazendo, eu só me importava com o fato de eu estava me sentindo realmente confortável e protegida em seus braços. Na manhã seguinte, porém, a realidade me atingiu. Connie não estava em lugar algum, sobre seu travesseiro havia um pequeno bilhete.
"Estou trabalhando. Até amanhã. - CN"
— Amanhã? — Murmurei, ainda me sentindo um pouco grogue de sono.
Ele realmente ia deixar Nick e eu lá, sozinhos? A resposta foi um forte sim, já que ele não voltou até a noite seguinte. Ele estava fechado, parecendo estressado e irritado, e além disso, parecia cansado também. Tentei falar com ele, mas ele me cortou rápido e completamente. Isso durou duas semanas, até que eu não consegui mais lidar com o comportamento dele.
— Volto no final do dia — Disse ele, colocando seu casaco, sem olhar para mim.
Eu ri, um tipo de risada digna de um psicopata, então ele me encarou, confuso.
— Acho que você está me devendo algum dinheiro. Você passa o dia inteiro fora, volta para casa todo mau humorado e me fode. Você me pagou por uma transa e nós já transamos… Algumas vezes — Falei.
— Você quer que eu te pague agora? — Ele perguntou, totalmente sério.
Como de costume, me irritei. Peguei a primeira coisa perto de mim, um travesseiro, e atirei contra ele. Connie deu um soco no travesseiro assim que se aproximou demais dele, fazendo o objeto voar para o outro lado do quarto.
— Qual é a porra do seu problema, Phoebe? — Ele gritou.
Era o que eu queria, queria que ele reagisse. Connie parecia a porra de um totem sem vida, sem emoções. Ele parecia tão desconectado da realidade ultimamente, a única hora em que eu sentia que ele estava realmente por perto, era quando ele estava dentro de mim.
Ou quando ele estava irritado.
— O que caralho está acontecendo com você? — Perguntei, Connie recuou. Sua expressão não era mais raivosa, ele parecia perturbado — Me diga, eu posso ajudar.
Ele riu.
— Me ajudar? — Perguntou, assenti.
Abri minha boca para falar, mas nada saiu. Eu não pensei direito antes de oferecer minha ajuda. É óbvio que eu, agente Larson, poderia ajudá-lo de diversas formas, mas isso significaria ajudar o inimigo, mas, desde que fizesse parte do plano, não seria errado… Mas, ainda assim, ajudá-lo ainda acarretaria na morte de alguém. Os fins justificam os meios? Eu poderia ajudar Connie a se livrar de um inimigo para, desta forma, conseguir cumprir minha missão? Mas tudo isso seria como uma agente do FBI, que ajuda eu poderia dar à ele sendo apenas uma prostituta de luxo?
Como se soubesse exatamente o que eu estava pensando, ele disse:
— Eu sei que você sabe o que eu faço — O encarei sem reação — Me diga, como você pode me ajudar?
— Do que você está fa… — Pensei em bancar a sonsa, mas o olhar de Connie me calou. Ele sabia que eu sabia. O que mais ele sabia?
Meu instinto de defesa me fez posicionar minha mão direita de forma que ficasse fácil pegar a arma que eu deixava sobre o nicho da mesa de cabeceira, mas que não fosse óbvio demais.
Connie arqueou uma sobrancelha e inclinou a cabeça, esperando minha resposta.
— Posso te ajudar — Falei, ele riu novamente.
— Como?
— Posso seduzir quem quer que seja, levá-lo para um lugar mais discreto onde você possa fazer o que tem que fazer.
— E se for uma mulher?
— Você acha que não consigo seduzir uma mulher?
— Tenho certeza que consegue, sim. Mas não preciso que você distraia ninguém.
— Eu posso te proteger!
— Você acha que eu preciso que uma prostituta me proteja? — Perguntou ele, o olhei irritada.
— Isso é tudo o que sou para você, não é? Uma prostituta.
— Não foi isso que eu disse…
— Tanto faz — Falei rapidamente. Nem eu conseguia entender porque a fala dele havia me tirado tanto do sério.
Connie suspirou, parecendo realmente exausto.
— Eu sei que você tem tentado me fazer dizer que sou membro da máfia. É isso que você queria, não é? Uma confissão minha? Eu só não entendo o motivo disso, porque sei que você já sabia — Disse ele, caminhando para perto da cama — Por que você queria me ouvir dizer essas palavras?
— Porque eu queria que você confiasse em mim — Respondi. Era verdade.
— Mesmo que você não confie em mim?
— Eu confio em você.
— É? Então, porque você não me contou que trabalha para o FBI? — Assim que as palavras deixaram os lábios de Connie, eu estava com minha arma em mãos, apontando para ele.
Filho da puta.
Connie sequer vacilou. Ele manteve a calma, parado diante de mim, sob a mira da minha arma. Ele sorriu para mim.
— Você vai atirar em mim, esquentadinha? Por quê?
— Desde quando? — Perguntei.
Eu não precisava elaborar, Connie sabia do que eu estava falando.
— Desde que te vi pela primeira vez. Bem, na verdade não. Eu sabia que você não era uma prostituta, você sequer se portava com uma, e você definitivamente não parecia animada para pular no meu pau por alguns mil dólares. Fiquei curioso, queria saber quem diabos era você. Foi por isso que te levei para o meu esconderijo, por isso te mantive por perto. Tenho que dizer, o FBI realmente te escondeu muito bem. Levei uma semana inteira para encontrar algo sobre você, Phoebe Larson. Agora eu sei tudo sobre você.
Engatilhei minha arma.
Como a história ficou grande, resolvi dividi-la em duas partes. Em breve volto aqui para postar a segunda. Até!
