Aqui está a segunda parte dessa história, espero que gostem!
Engatilhei minha arma.
— Por que você não me matou?
— Por que eu faria isso? — Perguntou ele, um vinco se formando entre suas sobrancelhas.
— Por que você não faria?
— Além do fato de que eu gosto de você, eu quero te ajudar — Disse ele, ignorei a primeira parte.
— Me ajudar?
— Você quer derrubar o Diabo, certo? Eu estou cansado, Phoebe. Cansado dessa vida, estou nessa merda desde os 14 anos, desde que o Diabo matou meus pais. E não há como sair da máfia, a não ser que você esteja morto ou não haja mais máfia. O Diabo não tem filhos, então, uma vez que ele estiver preso, não há quem ficar em seu lugar…
— Você é o braço direito dele, você seria o novo líder.
— Não se eu estiver morto — Disse ele, senti um calafrio percorrer minha espinha — Perdão, deixe-me corrigir, não se eu for dado como morto. O FBI pode me conceder uma nova identidade, uma nova vida, em outro lugar…
— Então, você quer fazer um acordo com o FBI? — Perguntei, ele assentiu — Por que eu deveria acreditar nisso?
— Honestamente? Você não deveria. Mas é a verdade. Eu quero uma nova vida, você quer cumprir sua missão, podemos nos ajudar.
— Por que você não disse tudo isso antes?
— E estragar a brincadeira? Tsc tsc.
Depois disso, Connie foi fazer o que tinha que fazer. Ele nunca me disse o que era, e eu estava perplexa demais para forçá-lo a me dar a informação. Certo, eu tinha minhas suspeitas sobre ele saber que eu estava fingindo ser quem eu não era para ele, mas ele saber da porra toda... O FBI realmente o subestimou. Connie deveria ser um mero assassino, um homem simples, não muito inteligente. Mas, claramente, esse não era o caso.
Antes de sair, ele perguntou se eu tinha algum celular escondido e eu disse a ele que esqueci o meu no hotel, porque estava muito ocupada salvando sua maldita vida. Ele riu e, assim que voltou para casa, me deu um celular novinho em folha.
— Ligue para seus chefes, diga a eles o que eu lhe disse, diga a eles que quero fazer um acordo.
E eu liguei.
Tive uma conversa longa demais com Lasseter e Yates sobre tudo o que havia acontecido até o presente momento, mas principalmente sobre o acordo que Connie queria fazer. No final, concordamos que valia o risco. No pior dos casos, poderíamos prendê-lo.
Eu não gostei do pensamento quando ele me ocorreu. A ideia de ver Connie ser condenado à prisão perpétua não me agradou nenhum pouco.
Felizmente, Connie não parecia estar mentindo sobre suas intenções. Ele passou pelo teste de polígrafo e eu pedi para que Lasseter me deixasse tirar seu testemunho. Ele me disse tudo o que sabia, ou pelo menos, tudo o que ele dizia saber, sobre o Diabo. Segundo Connie, seu nome era Caliph, por volta dos 50 anos, o que batia com os dados que possuíamos. Connie disse que só havia visto Caliph uma vez, quando ele ainda era criança, e não conseguia se lembrar corretamente de como ele era. Os dois só conversavam por telefone, mas ele sabia que Caliph era um homem branco, de estatura alta e corpulento, segundo o que ele lembrava. Resumidamente, ele não sabia quase nada sobre o chefe da máfia, o que já era esperado, sabíamos que ele era um homem extremamente discreto.
O lado bom é que Connie nos passou informações sobre a máfia em si, planos, nomes de pessoas poderosas envolvidas, vítimas… A ideia inicial era conceder a ele uma redução de sua pena, mas, ao final, o tanto de informação que ele havia passado, talvez Connie pudesse realmente sair daquela situação apenas com uma tornozeleira eletrônica e uma sentença de prisão domiciliar. Se ele nos entregasse Caliph, ele seria um homem livre.
Quando terminei de tirar seu testemunho, o levei para a sala de reuniões, onde Lasseter e Yates nos passaram o novo plano, um que agora incluía a ajuda de Connie. E, então, voltamos para o apartamento do mafioso.
Uma semana depois disso, Connie me levou à sede da máfia. Eu pude, de certa forma, dar uma olhada no local já que Connie entregou para a minha equipe a planta do lugar. Sua fachada era uma boate muito movimentada, mas, se você soubesse o que estava procurando, havia uma palavrinha mágica que você poderia dizer aos seguranças da área VIP para que eles o deixassem entrar. Obviamente, a área VIP era destinada apenas aos associados à máfia e, ali dentro, havia uma passagem para o subsolo. O lugar parecia a porra de um labirinto, era enorme e cheio de guardas, e ninguém jamais iria desconfiar que ele pertencia ao Diabo, já que a boate estava no nome do filho mais velho do prefeito da cidade.
O maldito prefeito estava envolvido com a máfia. Típico.
— Nikas! — Um homem absurdamente alto gritou assim que chegamos em uma área mais aberta, se é que dá para chamar assim um lugar embaixo da terra — Trouxe um lanchinho para os amigos? Sempre tão prestativo… — Ele continuou, gargalhando ao terminar de falar, como se tivesse feito a melhor piada de todos os tempos. Nada original.
Ao seu lado, vi o homem que havia feito essa mesma piadinha no apartamento de Connie dando um empurrão no outro cara.
— É a namoradinha dele — Disse, rindo — Cuidado que ele fica possessivo com essa daí.
— Namorada? Sabe, eu tenho tesão por mulheres comprometidas — O brutamontes falou, mordendo seu lábio inferior e me olhando como se eu fosse um frango girando dentro de uma assadeira e ele fosse um cachorro esfomeado.
Connie os ignorou, seguindo seu caminho. Eu estava andando ao lado dele e, quando passamos pelos homens, o nojento grandalhão me puxou pelo braço, me prendendo contra seu corpo.
— Quanto você cobra por hora, docinho?
O próximo barulho que ouvi, foi o da arma de Connie sendo engatilhada.
— Tire suas malditas mãos sujas de cima dela — Ele quase rosnou as palavras.
Veja, eu poderia cuidar de mim mesma, eu tinha minha arma comigo. Provavelmente não seria muito estranho se eu apontasse minha arma para o cara, quero dizer, Connie Nikas deixaria sua garota andar por aí sem nenhuma forma de proteção? Acho que não. Mas, caramba, Connie realmente tinha o instinto de ser protetor, não tinha?
E, oh, cara, aquilo era realmente muito sexy.
— O que você vai fazer? Atirar em mim? Nós dois sabemos que você não pode fazer merda nenhuma sem que o patrão tenha te dado ordens — O homem disse. Em seguida, Connie estava puxando o gatilho.
Não houve o barulho típico de uma arma sendo disparada, apenas do gatilho sendo puxado. As mãos do homem me soltaram e ele caiu no chão, provavelmente devido ao susto que levou. Olhei para Connie, ele estava parecendo realmente divertido, com um enorme sorriso no rosto. Voltei a olhar para o homem diante de mim, dando alguns passos para longe dele, ele estava tremendo. Seus olhos se voltaram para Connie, raivosos.
— Seu fodido! — Xingou, se levantando.
Atrás dele, alguns outros homens riam enquanto outros chamavam Connie de maluco.
— Não, não — Disse Connie, chutando o homem, o fazendo perder o equilíbrio e cair novamente no chão. Connie, então, apoiou seu pé na bochecha do outro mafioso — Você fica aí até eu sair. Esse é o seu lugar, seu merdinha.
Enquanto falava, Connie enfiou a mão no bolso e tirou de lá algumas balas, colocando-as na arma em seguida, então, ele voltou a mirar no homem.
— Qual foi, Connie? Ele já entendeu. Todo mundo entendeu. Ninguém vai mexer com a sua garota.
— Oh, eu não estou preocupado com isso, tenho certeza que ela consegue acabar com qualquer um de vocês em um piscar de olhos, seus porras. Mas, você sabe, respeito é bom e eu gosto.
Connie pegou minha mão e me acompanhou até uma sala. Ele ligou a luz e a primeira coisa que notei é que havia um memory board enorme lá, cheio de recortes de jornal, fotos e mensagens. Também havia uma mesa no centro da sala, com algumas cadeiras em volta, ele me levou até lá e puxou uma cadeira para que eu me sentasse, então foi até um armário e tirou de lá um arquivo. Connie se aproximou de mim, botou o arquivo sobre a mesa e o abriu. A primeira coisa que vi foi a foto de um homem, usando um terno e sorrindo.
— Quem é esse?
— Mark Holloway — Disse Connie, tirando a foto de cima para que eu pudesse ver o que havia embaixo.
— Ele é policial? — Perguntei, Connie assentiu.
Não havia nada demais no arquivo, bem, não nas primeiras páginas. A primeira era basicamente um resumo da carreira do cara — policial há 30 anos e capitão da 75ª Delegacia de Polícia de Nova York há cinco. Ele parecia ser um bom policial, com diversos casos solucionados sob seu nome. Na página seguinte, havia um resumo mais pessoal, com informações sobre onde ele morava, com quem era casado, o nome de suas filhas, onde elas estudavam… Era um tanto perturbador.
— Connie, que merda é essa…? — Ele apenas sinalizou para que eu continuasse passando as páginas e assim o fiz.
Então, lá estava, o motivo pelo qual Mark Holloway era um homem marcado para morrer.
— Meu Deus…
— Nojento, não?
— Como vocês têm tanta informação sobre ele?
— Holloway pediu dinheiro emprestado ao Diabo, na época, segundo meus cálculos, ele estava apenas começando com seu novo negócio. Ele provavelmente precisava de dinheiro para o transporte. O Diabo achou que seria interessante ter alguém do DPNY em mãos, então, ele deu o dinheiro em troca de 50% do lucro que Holloway conseguiria, mais o adicional para cobrir o valor do empréstimo. O dinheiro voltou rápido, então logo eles fizeram negócio novamente. Isso foi até o Diabo descobrir o que era que estava gerando tanto lucro. Nós mexemos com muitas coisas por aqui, mas tráfico de crianças não está na lista. Holloway não gostou de ter sido chutado e resolveu contratar alguém para matar o Diabo, eu o cara.
Segundo a ficha de Holloway, além de tráfico de crianças, ele estava envolvido com tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e diversos dos casos solucionados durante sua carreira não passavam de armação para fazê-lo parecer um bom policial, sem contar a quantidade de criminosos que ele ajudou a forjar a inocência simplesmente porque eram seus amigos.
— E agora você vai matar o Holloway — Falei.
— Exatamente.
— Como vocês sabem que foi Holloway que contratou o assassino?
— Ele entrou em contato, é um conhecido na área, tentou negociar conosco e acabou dedurando seu contratante. Ele queria que pagássemos o triplo para que ele não matasse o Diabo. Ao invés disso, o Diabo lhe deu uma contraproposta. Marcamos de nos encontrar em um lugar, se ele conseguisse me matar, o Diabo o contrararia para assumir meu lugar e ele receberia muito mais do que apenas o triplo para matar Holloway.
Por Deus, eu passei meses dentro de uma casa com uma pessoa completamente sem noção.
— Vocês armaram para o cara, então?
— Eu fui sozinho até o local combinado, não houve qualquer armação. O acordo era que se ele conseguisse me matar, assumiria meu lugar na máfia, mas ele não conseguiu — Disse ele, claramente se sentindo muito bem sobre aquele fato. Tentei ignorar seu tom arrogante o melhor que pude, mas acabei revirando os olhos.
Connie me explicou seu plano. Eu ainda sentia no fundo que ele deveria entregar Mark Holloway ao FBI, mas ao mesmo tempo, eu não podia negar que o mundo seria um lugar melhor sem aquele homem vivendo nele. Além disso, Connie não estava errado quando disse que Holloway era um homem rico, influente e com muitos contatos dentro e fora da polícia. Ele poderia facilmente escapar de qualquer prisão. Nisso, Connie era especialista, já que havia escapado de duas prisões de alta segurança nos últimos anos.
Com o plano definido, Connie decidiu que eu precisava de mais treinamento. Não importa que eu tenha sido treinada pelo FBI, ele queria me treinar pessoalmente. Para mim, isso era uma desculpa para manter os olhos em mim, provavelmente esperando que eu desistisse de seguir o que havíamos combinado e ligasse para meus chefes para estragar seu plano e levar Holloway para a prisão. Eu não ia fazer isso. Mas, eu gostava de estar perto de Connie. Quer dizer, estar perto dele significava saber o que ele estava fazendo, o que era bom para minha missão e tudo mais.
Connie e eu estávamos numa espécie de academia dentro da base de operações da máfia, dentro de um ringue. Quando perguntei porque havia um ringue ali, ele simplesmente respondeu "eles gostam de se divertir às vezes" e eu concluí que o tipo de diversão dos caras da máfia se resumia em violência. Até que fazia sentido.
— Você é baixa, use isso à seu favor — Ele disse, me mostrando como fazer exatamente isso.
Alguns instantes depois, Connie estava no chão, quando usei meu corpo para tirar o equilíbrio dele, derrubando-o.
— Boa — Elogiou, se levantando novamente.
Continuamos naquilo por um tempo. Connie estava pingando de suor e eu não estava muito diferente. Meus golpes cada vez com menos força. Eu estava cansada, com fome e sede. Bastou um golpe de Connie para que eu me desequilibrasse. Eu iria cair direto no chão, se ele não tivesse tentado me segurar e caído primeiro, fazendo com que eu pousasse sobre ele.
— Obrigada por amortecer minha queda — Falei, rindo.
Tentei me levantar, mas Connie me abraçou contra seu corpo, impedindo que eu saísse dali.
— Quero te perguntar uma coisa — Disse ele, o olhei intrigada. Connie umedeceu os lábios e pareceu pensar um pouco antes de continuar — Você transou comigo só para se aproximar de mim ou foi porque você quis?
Merda.
Por que ele quer falar disso logo agora? Não dá só pra fingir que não aconteceu nada?
— Bem… Hm… Eu…
— Phoebe, é uma pergunta muito simples.
— Fazia parte do plano. Transar com você era parte do plano, afinal, eu estava interpretando uma prostituta, não é? Eu não podia simplesmente sair do personagem…
— Então, transar comigo foi apenas uma estratégia? — Connie perguntou, olhando diretamente em meus olhos. Filho da puta!
Eu assenti.
Eu menti.
Connie ficou em silêncio por um tempo, ainda me olhando. Seu olhar investigando meu rosto, procurando por algo. O que? Eu não sabia. Talvez pela verdade. Não sei o que ele encontrou, mas Connie parecia magoado quando sorriu para mim e falou:
— Você é uma boa agente, Pheebs.
Uns meses antes, eu teria concordado com ele. Ao invés disso, me mantive em silêncio, porque eu já não tinha tanta certeza sobre isso.
Alguns dias depois, eu estava andando agarrada com Mark Holloway para uma das suítes de luxo do Hyatt. Eu o encontrei no cassino do hotel, Connie havia me dito anteriormente que Holloway havia desenvolvido um gosto por jogos de azar. Nós flertamos a noite toda e eu finalmente o convenci de que fazer sexo no banheiro do cassino não seria tão bom quanto fazê-lo na grande cama king size ou na jacuzzi de sua suíte. Ele ficou animado com essas ideias, eu fiquei enojada. Enquanto isso, Connie estava colocando em prática sua parte do plano. Ele já tinha uma chave extra do quarto de Holloway, sua boa lábia e dinheiro garantiram isso.
Eu estava usando um vestido longo e preto, com uma enorme fenda na perna, salto alto e pares de luvas também pretas. As luvas, obviamente, eram apenas uma forma de evitar que eu deixasse minhas digitais espalhadas pelo cassino e pela suíte de Holloway. Da mesma forma, meu cabelo estava preso em coque alto e firme, diminuindo assim as chances de que eu acabasse deixando fios de cabelo para serem encontrados por ali.
Assim que entramos no quarto, Holloway começou a tirar sua roupa. Primeiro o paletó, então ele removeu seu coldre com sua arma e os colocou sobre a mesa de centro. Em seguida, Holloway removeu a gravata. Em cada momento, ele me olhava como um animal faminto. Me sentei no enorme sofá que havia dentro da suíte, muito confortável, e o encarei enquanto ele desfazia os botões de sua camisa social. Vomitei um pouco em minha boca quando vi os tufos de pelo em seu peitoral despontarem pelo vão da camisa.
Connie também tinha o peitoral peludo, mas nele aquilo era másculo e sexy, do tipo que fazia você querer passar a mão e lamber. Holloway era apenas… Por que caralho eu tô pensando no peitoral peludo do Connie?
Balancei minha cabeça, tentando me livrar daquele pensamento.
— Gosta do que vê, não é, benzinho? — Holloway perguntou, já sem camisa.
Cadê o Connie, cacete?
— Aham… — Falei, tentando soar como uma gatinha manhosa. Eu queria tanto socar a cara daquele infeliz.
Então, alguém bateu na porta.
— Não vai atender? — Perguntei.
— Não pedimos nada, que se fodam! Vamos, gostosa, você está vestida demais — Disse ele, me puxando para que eu me levantasse.
Holloway empurrou a alça do meu vestido para baixo, descendo-o pelo meu braço, e se aproximou para beijar meu pescoço. Outra batida na porta.
— Mas que inferno!
— Talvez seja melhor atender, para que nos deixem em paz… — Sugeri, ajeitando a alça do meu vestido. Ele não parecia muito satisfeito, mas me soltou e começou a andar em direção à porta.
Me sentei novamente, com as pernas cruzadas, e abri minha bolsa de mão. Dentro dela, estava a Double Tap que Connie me deu antes de irmos para o Cassino, uma pistola pequena o suficiente para que eu pudesse esconder com facilidade. A coitada não conseguia suportar mais do que duas balas por vez, mas eu não precisaria mais do que isso. Observei enquanto Holloway abria a porta e, então, Connie surgiu do outro lado.
— Mas o que…
Connie utilizou o carrinho para empurrar a porta e forçar sua entrada no quarto. Em poucos instantes, ele estava parado dentro da suíte, com sua arma em mão, apontando para Holloway.
— Você demorou — Reclamei. Connie me ignorou, fechando a porta atrás de si.
Holloway olhou para mim, horrorizado. Vi quando ele olhou em direção ao seu coldre, provavelmente pensando se conseguiria pegar sua arma antes de Connie disparar.
— Eu não faria isso se fosse você, benzinho — Falei, apontando minha pistola para ele.
— Sua puta! — Gritou ele, então Connie bateu com o cabo da pistola no rosto do infeliz.
Sangue misturado com saliva voou para fora da boca de Holloway, e eu pude jurar ter visto um dente ir junto.
— Eu teria cuidado com o que falo se fosse você, Mark — Connie avisou — Se bem que eu jamais estaria em uma situação tão ridícula. Quem caralhos você pensa que é para encomendar a morte do Diabo?
— Só porque você abana o rabo para tudo o que aquele merda diz, não quer dizer que todos sejam uma vadia obediente como você!
— Você se acha muito corajoso, não é? Vamos ver até onde vai toda essa sua coragem — E, então, Connie o acertou com a pistola novamente. Dessa vez, Holloway desmaiou.
Em seguida, Connie o amordaçou e amarrou suas mãos e pernas. Holloway era um cara alto, mas magro, e Connie não teve dificuldade em colocá-lo dentro do carrinho, cobrindo-o com algumas peças de roupas sujas que já estavam lá dentro. Ele também colocou dentro do carrinho o paletó, coldre e a arma que Holloway havia tirado.
— Onde você está indo? — Perguntei quando notei Connie andando em direção ao que parecia ser o closet da suíte. Alguns minutos depois ele voltou, segurando um notebook, e disse:
— Pronto.
Connie colocou dentro do carrinho mais dois itens: o celular e notebook de Holloway.
Eu fui a primeira a sair da suíte, direto para o estacionamento. Peguei o carro de Connie e dirigi para sua cobertura. Aquilo não me agradava nenhum pouco, eu tinha treinamento, poderia ajudar Connie muito mais do que apenas seduzindo um policial corrupto, mas quando sugeri que eu fosse com ele até o local no qual ele iria "se livrar" de Holloway, Connie se recusou completamente. Eu tentei convencê-lo do contrário, mas acabei desistindo quando ele disse que não conseguiria fazer o que tinha que fazer se eu estivesse por perto.
Eu não queria pensar demais sobre isso.
Tomei um banho quente e demorado e coloquei um conjunto de moletom confortável. Nick estava dormindo despreocupadamente, havíamos dito a ele que iríamos a uma festa e não tínhamos hora para voltar, então me sentei no sofá da sala sozinha para esperar por Connie. Estava amanhecendo quando ouvi a porta da frente abrir.
Sem realmente pensar no que estava fazendo, me levantei rapidamente e corri até Connie, me atirando em seus braços. Ele me envolveu, me puxando para perto de si, e nós ficamos ali abraçados, em silêncio. Por longos minutos, tudo o que se podia ouvir eram nossas respirações. Lentamente, me afastei dele.
— Você está bem? — Perguntei, deixando meu olhar percorrer seu corpo em busca de algo que não deveria estar ali.
Connie não estava mais usando o uniforme do hotel. Ao invés disso, ele estava de calça jeans escuro, camisa preta e um casaco de moletom vermelho por cima, coturnos e uma touca preta. Ele estava fedendo a suor, fumaça, sangue e terra, ele estava sujo e parecia quebrado. Apesar disso, Connie assentiu.
Então, ele me abraçou novamente.
— Preciso de um banho — Connie murmurou com seus lábios contra meu pescoço.
— Precisa mesmo — Concordei, ele deixou uma risada cansada escapar.
— Me ajuda?
Concordei.
Ele se afastou ligeiramente de mim, removeu sua mochila das costas, colocando-a no chão, e colocou ambas as mãos para trás, removendo sua pistola do cós da calça. Connie colocou a arma sobre a mesa na entrada do apartamento e nós subimos para o segundo andar, indo para a suíte. Tiramos nossas roupas quando chegamos no banheiro e, juntos, entramos no chuveiro. Por mais estranho que pareça, não havia nada de sexual naquilo. O ajudei a lavar o cabelo e o corpo. Notei que ele estava com alguns ferimentos nos nós das mãos. Com o banho tomado, ficamos algum tempo sob o fluxo de água, abraçados.
Quando saímos, consegui convencê-lo de me deixar cuidar dos poucos ferimentos que ele tinha, principalmente concentrados nas mãos. Depois disso, saímos do banheiro, nos secamos e fomos para o closet. Connie colocou uma cueca e calça de moletom, eu coloquei uma calcinha e uma camiseta dele.
Comecei a andar em direção à cama, me sentindo exausta e imaginando que Connie também gostaria de se deitar, mas ele não me seguiu.
— Preciso de uma bebida — Disse ele, me surpreendendo.
Connie estendeu a mão para mim e eu a peguei, então descemos novamente para o primeiro andar e fomos até a cozinha.
— Qual tipo de vinho você prefere? — Ele perguntou.
— Cerveja. Eu não gosto de vinho.
Ele olhou para mim e riu, então foi até a geladeira e tirou de lá duas garrafas de cerveja, as abriu com os dentes e me ofereceu uma. Nós bebemos por um tempo, em silêncio.
— Tenho algo para você.
Olhei para Connie, intrigada, enquanto ele andava para fora da cozinha. Pouco tempo depois, ele retornou segurando sua mochila e tirou de lá o notebook e celular de Holloway.
— Entregue isso para o FBI, talvez eles consigam encontrar algo sobre as crianças… Eu não sei, ajudá-las de alguma forma, reuni-las às suas famílias…
Encarei Connie, boquiaberta, completamente perdida. Ele me encarou de volta, certamente esperando alguma reação minha.
— Porra… — Murmurei.
— Achei que você fosse gostar disso — Disse ele, soando extremamente confuso.
— Eu gostei. Eu realmente gostei. Isso foi… Foi… Obrigada, Connie — Falei, ele deu de ombros e tomou um gole de sua bebida, como se ajudar dezenas de crianças que foram tiradas de suas famílias fosse nada demais.
O jeito dele me irritava e me atraía na mesma proporção.
Nós bebemos mais duas garrafas cada um, e eu poderia até tentar colocar a culpa do que fiz em seguida nas bebidas, mas eu não era exatamente uma pessoa fraca para álcool, muito menos se a fonte do álcool fosse cerveja. Então, mais tarde naquela noite, quando estávamos os dois deitados na cama e eu abri minha boca, foi totalmente eu falando.
— Não era parte do plano — Falei, Connie franziu o cenho — Quer dizer, até era, eu sabia que era uma possibilidade, mas mesmo assim… Bem, o que eu quero dizer é que não era algo que eu tinha que fazer…
— Do que você está falando? — Perguntou ele, suspirei.
— Eu transei contigo porque eu quis, Connie.
— Ah… Eu sei disso.
— O que!? Não sabe, não.
— Sim, eu sei. Eu sei que você disse aquilo porque se sente culpada por ter transado comigo e, se era isso que você precisava dizer para conseguir deitar sua cabeça no travesseiro e dormir à noite, então, tudo bem.
Oh, ele realmente sabia.
— Droga — Resmunguei, me levantando. Esfreguei minhas mãos sobre o rosto, tentando controlar minha vontade de morrer de vergonha.
— Ei — Disse Connie. Logo em seguida, senti suas mãos segurando as minhas, afastando-as do meu rosto e me puxando novamente para a cama — Está tudo bem.
— Não, não está.
— Está sim. Olha para mim — Ele estava segurando meu rosto, tentando me fazer olhar para cima. Eu tentei resistir, mas não consegui — Você é uma boa policial.
— Não tenho tanta certeza disso.
— Eu tenho — Connie sussurrou, seu rosto estava tão próximo do meu. Ele colocou sua testa contra a minha, fechei meus olhos.
— Connie… — Murmurei, sentindo os lábios dele tocarem meu pescoço — Isso é errado…
— Por que?
— Você é um criminoso, eu sou uma agente do FBI que foi selecionada para se infiltrar na operação da qual você faz parte e acabar com ela de dentro — Disse eu, abrindo meus olhos novamente, Connie riu contra minha pele.
— Não ficou sabendo? Eu estou trabalhando com o FBI agora também, com o mesmo objetivo que você. Você tem alguma regra contra transar com colegas de trabalho?
— Você não trabalha para o FBI.
— Tecnicamente, eu trabalho sim — Abri minha boca para rebater, mas Connie colocou o polegar sobre meus lábios, me silenciando — Para de pensar tanto, apenas faça o que você quer fazer. Não há nada de errado nisso.
— Não sei se concordo com isso.
— É porque você está pensando demais — Disse Connie, me puxando pela cintura e me fazendo sentar sobre seu colo, com uma perna de cada lado de seu corpo — Para que pensar se podemos fazer coisas bem melhores?
Então seus lábios estavam em meu pescoço novamente e suas mãos estavam levantando minha camiseta. Ergui meus braços, entregue, para que ele pudesse removê-la. Connie encarou meus seios expostos e sorriu, vi seu olhar esfomeado apenas um milésimo de segundo antes de ele abocanhar um dos seios, envolvendo o mamilo com sua língua quente e molhada. Instintivamente me remexi em seu colo, recebendo um rosnar suave contra minha pele em resposta.
— Você é tão gostosa — A voz de Connie estava absurdamente rouca, estupidamente sexy.
Ele trocou de seio, intercalando mordiscadas com lambidas. Enfiei minhas unhas na pele de seus ombros e rebolei em seu colo, sentindo seu membro duro roçar contra o tecido fino da minha calcinha. Quanto mais voraz sua boca demonstrava ser em meu seio, mais eu rebolava, e logo ele começou a empurrar seu quadril para cima também, aumentando a fricção.
— Porra — Choraminguei, deixando minha cabeça recostar na curva entre seu ombro e pescoço, perdendo o controle de meus movimentos. Ao invés de simples reboladas, meus quadris estavam indo para frente e para trás e de um lado pro outro.
Me agarrei com ainda mais força à ele.
— Connie, eu preciso de você.
— Eu sei, linda — Ele disse.
Olhei para ele, já sentindo a irritação ferver em minhas veias. Connie tinha um sorrisinho arrogante no rosto que era ao mesmo tempo enfurecedor e quente. Segurei o rosto dele com uma mão, apertando meus dedos em suas bochechas, ele sorriu ainda mais. Safado desgraçado.
— Agora — Falei, meu tom autoritário. Ele agarrou minha cintura e me empurrou para baixo, pressionando seu membro em mim com força.
— Caralho — Disse ele, entredentes — Isso foi quente.
Lambi a boca de Connie, olhando em seus olhos. Ele gemeu.
Connie se levantou comigo ainda em seu colo, se virou e me colocou sobre a cama. Ele então segurou as alças da minha calcinha e a desceu por minhas pernas, o ajudei levantando o quadril e, então, ele jogou a peça no chão. Em seguida, Connie removeu sua calça de moletom junto com a cueca. Passei a língua pelos meus lábios com a visão de seu pau ereto diante de mim. Ele se aproximou de mim e passou o polegar pelos meus lábios enquanto alisava seu membro com a outra mão.
— Como eu quero provar essa boquinha, mas agora preciso te foder.
Droga, como eu adorava vê-lo falando sujo.
Connie foi até a mesinha de cabeceira e tirou da gaveta um pacote de camisinha, a abriu e vestiu em seguida. Fui para o meio da cama e me deitei com as pernas abertas, deixando minhas mãos deslizarem pelo meu corpo, sem nunca desviar meu olhar dele. Connie, por sua vez, estava seguindo os movimentos das minhas mãos e vi seu olhar faiscar quando deixei uma descer até o meio das minhas pernas, espalhando minha lubrificação.
— Porra! — Sua voz saiu num misto de gemido e suspiro, e sua mão apertou seu membro com força enquanto ele subia na cama.
Uma vez posicionado entre minhas pernas, Connie roçou a ponta de seu pau em minha entrada e eu senti toda minha pele arrepiar com aquele contato. Ele continuou fazendo aquilo, simulando o que meus dedos estavam fazendo anteriormente, espalhando minha lubrificação, me enlouquecendo… Quando a situação se tornou um pouco demais para nós dois, ficou óbvio. Ambos estávamos respirando com dificuldade e gemendo, meus quadris se mexiam quase que por contra própria, rebolando, aumentando o contato entre nós, enquanto ele parecia colocar mais força em seu toque, pressionando seu membro contra meu clitóris em movimentos torturantes de vai-e-vem.
— Merda, Connie, me fode logo! Não aguento mais, preciso de você dentro de...
Não consegui terminar de falar enquanto ele empurrava seu pau para o meu interior. Um gemido longo e mudo deixou meus lábios, fazendo com que minha boca formasse um "O" perfeito. Joguei minha cabeça para trás quando meus olhos reviraram de prazer nas órbitas, sentindo-me completa com seu comprimento e espessura me preenchendo.
Connie tinha cada uma das mãos apoiadas de um lado da minha cabeça e estava se sustentando pelos braços, com seu corpo levantado. Cada estocada dele criava um som delicioso de pele se encontrando com pele que me fazia querer senti-lo cada vez mais rápido e mais fundo. Deixei minhas mãos subirem por seus braços, sentindo a definição de seus músculos sob minhas palmas, até alcançar seu pescoço, onde me segurei.
Ele deve ter entendido meu gesto de forma errada, eu sequer estava realmente pensando no que estava fazendo, mas definitivamente não estava pedindo para que ele se abaixasse. Connie se deitou sobre mim e aproximou seu rosto do meu, virei meu rosto quando ele tentou me beijar. Ele parou de se mover.
Olhei para Connie, ele parecia confuso.
— O que? Eu posso te foder, mas não posso te beijar? — Perguntou, rindo amargamente.
— Sim — Respondi, dando de ombros — Vai continuar me fodendo ou não?
Connie parecia irado, realmente enfurecido. Esperei que ele saísse de mim e, só de pensar na possibilidade, me senti vazia de uma forma que eu realmente não queria parar para pensar naquele momento. Mas, ao invés de se afastar de mim, Connie estocou novamente — uma única estocada forte que me fez gemer alto, envolvendo seus quadris com minhas pernas. Connie saiu quase que completamente de dentro de mim, então estocou fundo novamente. Ele continuou fazendo isso e, a cada estocada, eu sentia todo o meu corpo responder. Era tão fodidamente bom.
— Bom suficiente para você, agente Larson? — A primeira coisa que notei foi seu tom sarcástico, demorei um tempo para realmente conseguir compreender as palavras. Eu estava envolvida demais em todas as sensações que Connie estava me proporcionando.
Mas, assim que compreendi o que ele havia acabado de falar, a fúria me atingiu.
— Poderia ser melhor — Falei, tentando empurrá-lo para longe de mim.
Connie segurou meus pulsos contra a cama, acima da minha cabeça, e voltou a estocar com força. Seus movimentos estavam mais rápidos agora, ainda melhores. Ele enterrou o rosto na curva do meu pescoço, mordendo e chupando a pele, certamente aquilo deixaria uma marca, mas eu não poderia realmente me importar enquanto o sentia rebolar o quadril e empurrar seu pau para dentro de mim, trazendo uma nova onda de sensações.
— Você também não é tão boa quanto pensa, sabe? — Sussurrou ele em meu ouvido.
— O que?
— Você geme como uma atriz pornô barata, é vergonhoso.
Ah, não, isso já é demais.
Tentei soltar minhas mãos e consegui, Connie então passou a percorrer meu corpo com uma enquanto a outra se enterrava em meu cabelo. Eu tentei empurrá-lo para longe, mas não havia determinação alguma em mim para isso, eu realmente não queria que ele parasse — muito pelo contrário. Conforme ele me fodia, meus empurrões se transformaram em puxões e, conforme eu sentia o conhecido aperto em meu baixo ventre aumentar, mais minhas unhas castigavam suas costas.
— Você gosta dos meus gemidos! — Gemi.
— Será mesmo? — Disse ele, rindo.
— Eu sei que gosta! Posso sentir seu pau pulsando dentro de mim toda vez.
— Sabe que posso fazer isso propositalmente, não é?
— Não é proposital.
— É sim.
— Não é!
— É sim — Ele gemeu em resposta, mas o que se destacou para mim foi o seu tom de risada.
Ele estava rindo. Desgraçado.
— Eu te… — Connie afastou o rosto do meu, olhando em meus olhos enquanto estocava novamente, não consegui falar enquanto ele fazia isso. Com seu membro inteiro dentro de mim, completei minha frase: — Odeio!
— Não odeia, não. Você só odeia o fato de que está apaixonada por mim.
Precisei de um segundo ou dois para absorver suas palavras.
— O que? Apaixonada por você? — Perguntei, ou melhor, gritei. A risada que saiu da minha boca foi um tanto quanto histérica — Você está drogado, seu imbecil?
— Cala a boca, porra! Está tudo bem, eu também estou apaixonado por você — Ele gritou de volta.
— Você… O que?
Eu ouvi errado, não é? Eu só poderia ter ouvido errado. Não havia uma chance nos sete infernos que Constantine Nikas havia acabado de dizer o que eu achava que ele havia acabado de dizer.
— Eu estou apaixonado por você, esquentadinha — Disse ele e, pelo jeito que ele estava me olhando, eu não consegui duvidar.
— Oh… Okay — Falei, porque, sinceramente, o que mais eu falaria? Eu realmente não estava esperando por aquilo.
— Okay.
Connie voltou a se mover dentro de mim, dessa vez mais devagar. Seus movimentos estavam mais calmos, até mesmo mais carinhosos. Ele aproximou seu rosto do meu novamente e dessa vez deixei que ele me beijasse. Era bom, muito bom na verdade, mas eu precisava de mais.
— Mais forte — Pedi, mexendo meus quadris.
— Cacete, mulher, eu estou tentando fazer amor com você aqui.
— Nós podemos fazer amor e foder ao mesmo tempo — Sugeri, ele riu balançando a cabeça como se estivesse me julgando, mas fez o que pedi.
Novamente o quarto foi tomado pelos sons de nossos corpos se encontrando, gemidos e respirações ofegantes. Connie se apoiou nos braços novamente, ganhando maior coordenação para me foder com força. Olhei para baixo, entre nós, e a visão de seu pau entrando e saindo de mim foi o suficiente para me empurrar da beira daquele abismo delicioso. Meu corpo começou a tremer e meus músculos se contraíram quando atingi o orgasmo, apertando-o dentro de mim. Não demorou para que Connie também gozasse.
Fechei meus olhos, me deixando aproveitar cada segundo daquele momento, totalmente relaxada. Senti quando Connie saiu de dentro de mim e se levantou da cama, mas não tive forças para abrir meus olhos, nem mesmo quando ele retornou, se deitou sobre a cama e me puxou para deitar sobre seu peito. Seus dedos estavam fazendo uma carícia gostosa em meus cabelos e eu abri meus olhos, deixando meu dedo indicador traçar o caminho de pelos no pé de sua barriga.
— Você está realmente apaixonado por mim? — Perguntei.
No fundo, eu sabia que ele estava dizendo a verdade, mas precisava ouvi-lo dizer aquelas palavras pelo menos mais uma vez.
— Sua audição foi danificada pelos seus gemidos estrondosos ou algo assim? Eu já disse que estou — Respondeu.
Me apoiei sobre o cotovelo e o encarei, indignada.
— Você é um desgraçado filho da puta, sabe disso?
— É, eu já ouvi isso antes — Disse ele, bufei em irritação.
Connie se deitou de lado, apoiando-se sobre o cotovelo da mesma forma que eu estava. Com a mão livre, ele acariciou meu rosto.
— Mas sou um desgraçado filho da puta apaixonado por você.
Talvez eu não fosse tão durona quanto acreditava ser, talvez eu fosse fácil demais, mas bastou aquelas palavras para que eu me derretesse inteira e começasse a sorrir como uma adolescente idiota.
Eu estava apaixonada por Connie Nikas? Eu não fazia ideia. Eu nunca parei para realmente pensar sobre o assunto, o conceito parecia apenas complicado demais. Nós éramos diferentes demais, vivíamos em mundos distintos, aquilo nunca daria certo. Mas, olhando para aqueles olhos azuis, eu não consegui realmente pensar num bom motivo pelo qual aquilo não daria certo.
Eu o queria.
Nos dias que se passaram, eu sentia como se estivesse vivendo um maldito conto de fadas. Connie e eu estávamos em uma perfeita harmonia e nós dois, junto com Nick, parecíamos uma família. Eu sentia que éramos uma família.
Continuei fazendo meus relatórios para o FBI com todos os detalhes que Connie conseguiu coletar para mim. Nomes, endereços, associados, negociações... A missão estava progredindo rapidamente com sua ajuda. Nesse meio tempo, Lasseter havia falado comigo sobre eu sair do apartamento de Connie, não havia necessidade de eu ficar lá já ele sabia e fazia do nosso plano, mas eu disse que preferia manter um olho nele para caso ele decidisse nos trair. A verdade é que eu não queria ficar longe de Connie.
Quanto mais eu pensava sobre isso, mais óbvio se tornava que eu estava realmente apaixonada por ele. Isso me fez surtar algumas vezes, mas, eventualmente, aceitei que não havia nada que eu pudesse fazer. Connie queria sair da máfia, estava ajudando o FBI, fez um acordo com o governo e ia conseguir um passe livre depois de nos entregar o Diabo. Nós tínhamos uma real chance de fazer aquilo dar certo.
Mas, como todos os contos de fadas, esse também tinha que acabar.
Eu acordei com os gritos de Connie. Ele não estava no quarto e meu instinto me instruiu a pegar minha arma antes de sair dali. Conforme eu andava pelo corredor do segundo andar do apartamento, percebi que não havia uma resposta para os gritos dele, mas Connie parecia realmente enfurecido. Eu desci a escada e, conforme descia, pude vê-lo falando ao telefone.
— Eu não dou a mínima! Faça o que eu disse! — Ele gritou, desligando o celular logo em seguida.
— O que houve? — Perguntei, me aproximando dele. Connie se virou para mim.
Ele, então, me contou sobre como havia recebido uma ligação do Diabo completamente transtornado após descobrir que alguém o estava traindo. Segundo ele, o Diabo havia sido alertado de que alguém dentro da máfia estava trabalhando com o FBI para derrubá-lo.
— Como ele descobriu isso?
— Eu não sei! O homem não é chamado de Diabo à toa, ele tem muitos contatos, olhos e ouvidos em todas as partes, estou surpreso que minha cabeça ainda esteja presa ao meu corpo.
Eu estremeci com o pensamento.
— Temos que pegá-lo logo, antes que seja tarde demais. Ele já está desconfiado, não vai abaixar a guarda.
— Você tem razão. É agora ou nunca.
Liguei para Lasseter e, junto com ela e Yates, Connie e eu estabelecemos um plano. Seria uma grande operação, envolvendo muitos agentes. Nosso principal objetivo era prender o Diabo, ou Caliph, como Connie disse que seu nome era. Com isso em mente, duas semanas depois, nós estávamos prontos para o ataque.
Connie estava sendo convocado para reuniões quase diárias e, como a natureza do conflito era grave, o Diabo marcou uma data para fazer presença em uma das reuniões. Ele queria olhar todos nos olhos enquanto os interrogava e, segundo Connie, ele queria ser aquele que tiraria a vida de seu traidor.
Um dos capangas, o grandalhão nojento, deu com a língua nos dentes sobre Connie ter uma namorada. Ele tentou desviar do assunto, mas não conseguiu e, por isso, minha presença havia sido requisitada naquela reunião também. Aparentemente o Diabo não confiava em prostitutas de luxo. Connie estava preocupado comigo, mas eu estava mais do que satisfeita em poder olhar aquele merda nos olhos.
O clima pareceu mudar quando ele chegou, a postura de todos ao meu redor se tornou mais rígida, o único que parecia minimamente normal era Connie. Observei enquanto Caliph andava em nossa direção, com seu peito estufado. Ele era um homem gordo e alto, careca e com um cavanhaque medonho. Apesar de estarmos no subsolo, ele usava óculos escuros.
— Vejo que não trouxe seu irmão — Disse ele, parando na frente de Connie.
— Nick não… — Connie começou a dizer, mas Caliph o parou.
— Eu disse que queria todo mundo aqui — Ele, então, olhou para mim — Inclusive sua putinha. Ela é bonita… Quanto você pagou nela?
Caliph segurou meu rosto com uma mão, me analisando como se eu fosse um cavalo à venda.
— Tire sua mão de mim! — Rosnei, empurrando sua mão para longe. Ele riu.
— Ah, Connie! Vejo porque se rendeu por essa aqui. Ela é raivosa desse jeito na cama também? Imagino que sim. Gostosa… — Ele me olhou de cima a baixo — Talvez eu a coma mais tarde.
— Não… — Connie disse entredentes e deu um passo para frente, se colocando entre o Diabo e eu, como um aviso. Eu podia sentir sua irritação emanando.
— Não? — Caliph perguntou, parecendo surpreso — Ninguém diz não para mim, Connie. Somos uma maldita família, se esqueceu? O que é seu é meu…
— Ela não.
— Você perdeu o juízo? Ou talvez você esteja se sentindo muito confiante por causa de seus amiguinhos do FBI lá fora?
Porra.
— O que?
— Connie, Connie... Fui bom demais com você. Eu deveria saber que a maçã nunca cai muito longe da árvore, não é? Quando seu pai me traiu, eu matei ele e a vadia que você chamava de mãe, mas eu fiquei tipo "por que matar crianças? Eles não devem pagar pelos erros dos pais", então eu deixei você e seu irmão inútil viverem. Se lembra disso, hein? Você deveria ser leal a mim, seu desgraçado! — Então, Caliph deu uma cotovelada no rosto de Connie.
— Emboscada. Agentes abatidos, estamos chamando reforços — A voz de Yates soou em meu ouvido.
Connie cambaleou para trás e dois capangas o seguraram, minha arma estava em mãos, mas nada pude fazer quando o grandalhão nojento me segurou por trás e um outro tirou a arma de mim.
— Eu não te traí! — Disse Connie.
— Oh, cala a boca! Você não durou tantos anos aqui dentro sendo uma putinha medrosa, ao menos morra como um homem! — Gritou Caliph — O que se passou pela sua cabeça, hum? Você queria tomar meu lugar?
— Não — Connie balançou a cabeça.
— Me diga por que caralho você me traiu, seu filho da puta!
— Porque eu cansei! Eu cansei! Nunca quis fazer parte dessa merda. Eu era apenas uma criança e você me arrastou para isso. Dash me ensinou a atirar quando eu tinha quatorze anos, e com quinze eu já tinha matado uma pessoa! Eu nunca tive outra escolha! — Connie estava gritando suas palavras e eu me surpreendi ao ver algumas lágrimas rolarem por seu rosto. Eu nunca o vi tão vulnerável.
O Diabo estava gargalhando e seus capangas o acompanharam em um coro horripilante. Ele fez um sinal para um dos homens que não demorou a entregar a ele um soco-inglês, ele colocou a arma em seus dedos.
— Você queria uma saída? A única saída é para dentro de um caixão! — Disse ele, dando um soco no rosto de Connie.
Connie se desequilibrou e seu corpo pendeu para frente, ninguém o segurou. Ele caiu no chão, com o rosto sobre o concreto.
— Connie!
— Calada, vadia! — Caliph orientou — Denny, traga ela aqui. Isso, de frente para esse merdinha.
O homem me arrastou até que eu estivesse posicionada diante de Connie.
— Você sabe com o que o seu namoradinho trabalha? — Caliph perguntou.
Que merda é essa? Ele não sabe que eu sou uma agente do FBI?
Eu assenti.
— Ótimo. Você sabe o que acontece quando um porra desses tenta trair a máfia? — Não me movi ou disse nada dessa vez, Caliph sorriu — As opções são variadas… — Disse ele, dando um chute nas costelas de Connie.
Um som terrível deixou seus lábios.
— Não! Seu desgraçado! — Gritei.
— Eu deveria ter te matado junto com seus pais — Disse Caliph, me ignorando. O vi tirar algo do bolso.
Só percebi que era um taser quando ele o encostou no rosto de Connie e ligou. Os olhos de Connie se arregalaram e seu corpo se debateu contra o chão em resposta à dor enquanto ele gritava.
— Para! Por favor, para! — Implorei, sentindo as lágrimas descerem pelo meu rosto.
Quando Caliph afastou o taser do rosto de Connie, havia uma marca de queimadura ali. Os olhos de Connie estavam nublados, parecia que ele ia desmaiar a qualquer instante. Enquanto isso, Caliph parecia estar realmente se divertindo com toda a situação.
Isso só durou até um dos capangas se aproximar dele e sussurrar algo em seu ouvido.
— Merda. Parece que nossa festinha vai ter que ser apressada — Disse ele, se agachando ao lado de Connie. Caliph segurou o cabelo dele, forçando-o a olhá-lo, e falou: — É uma tradição deixarmos que faça um último pedido. Escolha bem.
— Ela não… Tem... — Connie parecia estar fazendo um esforço hercúleo para conseguir falar, eu não conseguia parar de chorar — Nada a ver… Com isso… Deixe-a ir, por… Favor… Não quero que ela… Veja…
— Não, Connie, não… — Falei, ele olhou para mim.
— Eu te amo, esquentadinha.
— Não, não fala assim! Não se despeça de mim, por favor. Por favor!
— Não olhe agora, okay? — Ele murmurou — Apenas… Vai…
— Tirem essa vadia daqui — Caliph ordenou.
— Não! Connie! Eu te amo! — Eu gritava e me debatia, tentando me livrar das garras de Denny, mas era inútil. Ele era muito maior e mais forte do que eu.
Enquanto ele me arrastava para fora da sede, em direção à escadaria que dava para a área VIP da boate, eu ouvi o barulho do tiro. Senti como se todo meu sangue tivesse deixado meu corpo. De repente, eu pude sentir o mundo girando ao meu redor e minhas pernas cederam.
— Essa é a última coisa da qual você se lembra? — Petey Douglas estava parado diante de mim, com seu bloco de anotações em mão, enquanto tomava meu depoimento. Assenti — Phoebe, eu sei que é difícil, mas eu preciso do máximo de detalhes possíveis.
— Isso é tudo o que me lembro, okay? — Falei, perdendo a paciência. Outros três policiais já haviam tirado meu depoimento, mas eles continuavam vindo.
Petey assentiu, deixando o quarto.
Tudo parecia um maldito sonho, ou melhor, um pesadelo. Eu nem sei o que aconteceu exatamente, só sabia que, de alguma forma, acabei no hospital. Eu podia me lembrar de pequenos flashes — eu me lembrava de Denny caído no chão, alguém estava me carregando. Lembrava-me de gritos, tiros e explosões, lembrava-me da dor. Não fisicamente, eu estava bem nesse aspecto, a dor estava por dentro.
Connie está morto. Connie está morto. Connie está morto.
A frase estava se repetindo dentro do meu cérebro e meu cérebro estava enviando sinais de dor por todo o meu corpo. Meu coração parecia estar sendo esmagado.
— Acharam o corpo? — Perguntei à Lasseter, algumas horas depois, quando ela foi me visitar.
— Sim — Disse ela, eu queria vomitar — Eles tinham bombas por lá, as explodiram quando chegamos, como eu já havia te dito… Foi difícil vasculhar os escombros, mas achamos alguns corpos e a perícia confirmou…
— Quero falar com ele.
— Não vou te deixar falar com o Caliph, Phoebe.
— Preciso falar com ele.
— Ele está em um presídio de segurança máxima aguardando julgamento. Acabou, Phoebe, você cumpriu sua missão. Você está dispensada até segunda ordem.
Connie está morto. Connie está morto. Connie está morto. E é minha culpa.
Desejei ter morrido também.
O FBI garantiu que Nick recebesse os cuidados adequados. Eu disse a ele que Connie se envolveu em um acidente e não sobreviveu, ele ficou completamente arrasado com isso. Nós éramos os únicos no enterro de Connie e eu desenvolvi o instinto de cuidar de Nick. Eu ia visitá-lo todos os dias na instituição que Yates havia providenciado para ele, ele estava se adaptando bem e minhas visitas o estavam ajudando. Verdade seja dita, ele era a única coisa que me restava de Connie.
Um dia, quando voltei para casa após uma dessas visitas, meu celular começou a tocar. Não tive pressa, abri meu apartamento e entrei, tirei meus tênis e me sentei no sofá antes de atender.
— Alô?
— Phoebe, Caliph está morto — A voz de Lasseter soou do outro lado da linha.
— O que?
— Caliph foi morto dentro do presídio, ninguém sabe quem foi. Todas as câmeras do setor estavam desligadas na hora para manutenção. Outros três membros da máfia que não haviam sido capturados durante a operação foram encontrados mortos próximos à represa semana passada…
— Três pessoas foram mortas e você está me dizendo isso agora?
— Não é minha obrigação te notificar sobre quaisquer acontecimentos. Só estou te telefonando agora porque… Bem, eu sei o quanto você se envolveu nessa missão.
Fiquei em silêncio, Victoria Lasseter era minha superior, não o contrário, ela não tinha nenhuma obrigação de me informar sobre o andamento de um caso do qual eu não fazia mais parte.
— Obrigada por me contar — Agradeci.
— Não há de quê.
A ligação se encerrou.
Eu não poderia dizer que era uma pena Caliph ter sido morto, mas isso significava que ele não iria realmente pagar pelo que havia feito. Quando eu pensava nisso, não estava pensando em todos seus crimes, apenas na morte de Connie. O amor me tornou egoísta, devo dizer. Eu não me importava com mais nada. Caliph estar morto não parecia punição suficiente por ter matado o homem que eu amo.
Esse pensamento percorria minha mente todos os dias, era como se um novo buraco estivesse sendo perfurado no meu coração. Por mais que eu tentasse, não conseguia me sentir em paz com aquela situação, não conseguia superar, não conseguia progredir. Minhas tardes conversando com Nick eram o máximo que conseguia me sentir viva. Eu sabia que em algum momento eu seria chamada para alguma missão, eu sabia que tinha uma vida para viver, mas eu simplesmente não estava pronta.
Três dias após a ligação de Lasseter, eu senti algo estranho ao entrar no meu apartamento. Uma sensação conhecida, mas há um tempo esquecida. Ela começou em minha nuca e se espalhou para o resto do meu corpo. Meu instinto de sobrevivência estava ativado. Coloquei minhas compras no chão, peguei minha arma e deixei a porta de entrada aberta, uma saída fácil caso eu precisasse fugir. Comecei a caminhar pelo meu apartamento e ouvi um barulho vindo da cozinha, segui para lá com a arma engatilhada e pronta.
Havia um homem diante da minha pia.
— Vire-se com as mãos atrás da cabeça ou irei atirar — Alertei.
O homem colocou as mãos atrás da cabeça e se virou lentamente. Não pude acreditar no que eu estava vendo. Minhas mãos começaram a tremer e meus olhos encheram-se de lágrimas conforme eu via os olhos azuis de Connie se voltando para mim. Seu cabelo estava raspado, havia uma cicatriz em seu rosto, ele parecia exausto e mais magro do que eu me lembrava, mas aqueles olhos…
— Desculpa, eu fiquei com sede — Disse ele. Ao seu lado, sobre a pia, estava um copo de água pela metade.
— O que…?
— Eu posso explicar, Pheebs. Abaixa essa arma, sim?
Não abaixei.
— O que está acontecendo? — Eu não sabia se estava perguntando aquilo para Connie, para o universo ou para mim mesma. Talvez eu estivesse delirando, talvez eu tivesse enlouquecido.
— Linda… — Ele deu um passo para frente, deixando suas mãos caírem ao lado do corpo. Eu fiz um movimento com minha arma, alertando-o — Phoebe, abaixa isso.
— Não.
Ele suspirou.
— Amor, sou eu…
— Você está morto.
— Não, Pheebs, não estou. Aquilo era parte do plano.
— Plano? — Perguntei, confusa. Nunca combinamos aquilo.
— Sim, amor, o meu plano.
— Seu plano?
Connie assentiu, andando em minha direção. Cada passo que ele dava para frente, eu dava um para trás.
— Eu sinto muito pelo que fiz, sinto mesmo. Mas eu precisava que você acreditasse, para caso te passassem pelo polígrafo, não sei o quão boa você é mentindo…
Minha cabeça estava girando.
— Você planejou aquilo? Como?
— Amor, eu… — Ele começou a falar, mas parou. Connie respirou fundo — Eu sei como isso vai soar, vai soar de um jeito realmente ruim, mas eu preciso que você me entenda, ok?
Permaneci em silêncio, mas fiz um gesto para que ele continuasse. Connie passou a língua pelos lábios, parecia estar se preparando para falar o que quer que fosse que ele queria me dizer.
— Phoebe, Caliph não é o Diabo. Eu sou. Caliph trabalhava para mim.
— O que?
— Eu armei tudo, fiz todo mundo acreditar que o Caliph era o chefe, inclusive você. Eu precisava que Connie Nikas estivesse morto.
— Você mentiu para mim — Murmurei. Não era uma pergunta, mas mesmo assim ele assentiu — Você mentiu pra mim, caralho!
— É, eu sabia que isso ia soar mal.
— Soar mal? Você sabe o quanto eu sofri achando que você estava morto? E o Nick! Meu Deus, ele ficou arrasado! Você ao menos se importa com alguém além de você mesmo?
— Você sabe que sim, Pheebs.
— Você é a porra do chefe da máfia! — Gritei.
— Isso não muda nada.
— Isso muda tudo, Constantine! Isso muda… A porra toda.
— Por que? Você podia ficar com um assassino, mas não pode ficar com o chefe da máfia? Isso não muda porra nenhuma, Phoebe! Você tem minha ficha criminal, adicione sonegação de imposto, tráfico de drogas e de informações, fraude e extorsão, pronto, esse sou eu!
— Você mentiu para mim por meses!
— Você também mentiu pra mim, se lembra disso?
— Isso é diferente, você sabe. Isso foi antes…
Connie esfregou seu rosto, claramente frustrado.
— Eu não tô aqui pra me justificar sobre o que fiz. Sei que o que fiz não tem perdão, Phoebe, mas era o que eu precisava fazer. Connie Nikas não existe mais, o Diabo está morto, eu estou livre. Nós estamos livres.
— Porque? — Perguntei, tentando colocar minha mente em ordem — Porque Caliph morreria por você? E o que foi toda aquela história que ele contou sobre ter te poupado?
— A história não é completamente falsa. O Diabo anterior poupou minha vida e a de Nick, mas assim que completei dezoito anos, eu o matei e tomei seu lugar. Eu tenho sido o Diabo desde então. Quanto ao Caliph… Bem, nós combinamos que eu o tiraria do presídio.
— Então, você mentiu para ele? Por que eu não estou surpresa?
— Ele já deveria saber que não era uma boa ideia fazer um pacto com o Diabo — Disse Connie, eu ri pelo nariz. Era mais um riso nervoso do qualquer outra coisa — De qualquer forma, eu o tirei do presídio… Direto para o cemitério, mas isso é detalhe. Não fique com pena dele, Caliph não valia o pão que comia.
— Você é maluco!
— Não, eu sou um sobrevivente. Faço o que preciso para proteger quem eu amo e, obviamente, para me proteger. Você acha que o FBI me deixaria livre se eu contasse que sou o Diabo? Mesmo se eu conseguisse escapar, eu seria procurado pelo resto da minha vida. Você acha que teríamos alguma chance?
— Não finja que fez algo por mim.
— Mas eu fiz! Porra, eu já estava pensando nisso há anos, mas eu nunca tive um motivo real para recomeçar. Ninguém sabia quem eu era, eu estava, de certa forma, confortável naquele lugar. Até você aparecer, Phoebe, você era a oportunidade perfeita…
— Oportunidade — Repeti, sentindo um amargor em meus lábios ao pronunciar a palavra — Foi isso que fui pra você?
— Não… Pheebs, não! Eu te amo — Connie se aproximou novamente, desta vez, não tive forças para me afastar. Ele se aproximou tanto que a boca da minha arma encostou no peito dele, mas isso não o parou, ele se aproximou mais e segurou meu rosto entre as mãos — Eu te amo, esquentadinha.
— Não…
— Eu te amo, eu te amo, eu te amo — Ele murmurou, encostando sua testa na minha — E passarei o resto dos meus dias tentando reparar o que fiz. Apenas me dê uma chance.
Balancei minha cabeça e me afastei dele novamente, as lágrimas que se acumularam em meus olhos finalmente descendo pelo meu rosto.
— Você é um criminoso, uma assassino e mentiroso, eu não sei onde eu estava com a cabeça quando… Quando… — Não consegui continuar, meu erro foi olhar para Connie. Ele estava chorando e balançando a cabeça freneticamente, me implorando para não terminar aquela frase.
— Eu sei que sou todas essas coisas, Pheebs, eu sei disso. Também sei que não mereço você. Mas, eu te amo. E eu sei que provavelmente não significa muito ser amado por alguém como eu, mas esse amor é a melhor coisa que tenho em mim, esquentadinha, e é todo seu.
— Não posso… Não posso fazer isso, eu… — Eu não estava falando coisa com coisa.
Havia um milhão de informações girando na minha cabeça. Todas as mentiras que Connie contou para encobrir o fato de ele era o líder da máfia, tudo o que vivemos, todo o desespero que senti quando achei que ele estava morto, mais mentiras, mentiras, mentiras.
— Sei que você está com raiva de mim agora, mas eu não tenho muito tempo. Preciso sair daqui. Você sabe de tudo agora, tudo que eu já fiz. Eu te passei todas as informações sobre a máfia e você sabe minha identidade. Você sabe que matei o Caliph e acho que não preciso dizer que matei os outros três que me ajudaram a sair da sede e sabiam quem eu era. Você é a única com essa informação agora.
— Você vai me matar também? — Perguntei, rindo tristemente.
Connie sacudiu a cabeça, franzindo a testa.
— Não, eu nunca te machucaria dessa forma, amor. Na verdade, não pretendo machucar mais ninguém assim.
— Ah, então você vai se redimir agora? Ser uma boa pessoa?
— Phoebe…
— Você é um criminoso, Constantine! Você deveria estar apodrecendo dentro de uma prisão!
— Eu sei, você está certa. Você pode apenas pensar um pouco antes de tomar sua decisão?
— Não preciso pensar — Falei, Connie inclinou a cabeça para o lado.
— Todo mundo precisa pensar, Phoebe.
— Não preciso pensar sobre isso.
— Então é isso? Você vai chamar a polícia, esse é o fim?
Eu não respondi, não conseguia.
— Olha, eu vou voltar pro meu hotel. Nick já deve estar preocupado com a minha demora… — Encarei Connie, arqueando uma sobrancelha. Ah, óbvio que ele havia sequestrado o próprio irmão — Não me olhe desse jeito, ele é minha família, eu não o deixaria sozinho naquele lugar.
— É lindo o jeito que você faz parecer que está fazendo tudo isso por alguém além de você.
Connie suspirou, enfiando a mão no bolso. Ele tirou de lá um pedaço de papel e me entregou.
— Esse é o nome do hotel e o número do meu quarto, estou hospedado como Daniel Akins.
— Akins? — Eu ri com o estúpido anagrama de seu sobrenome — Sabe que posso entregar isso ao FBI, não é?
Ele assentiu.
— Só há duas possibilidades aqui, Pheebs — Disse Connie, se aproximando mais de mim. Ele tocou meu rosto com o dorso da mão e acariciou minha bochecha, fechei meus olhos.
Fazia tanto tempo que eu não o sentia, que tudo o que eu mais queria era poder tê-lo comigo novamente, perdida em delírios do que eu faria caso o visse outra vez, mas nenhum delírio se aproximou da realidade. Eu estava confusa, machucada, perdida. Abri meus olhos novamente, encontrando os olhos de Connie, ele aproximou o rosto do meu e beijou minha testa.
— Ou eu começo uma vida nova com Nick e você, ou vou para a cadeia. A escolha é sua.
— Como se você fosse ficar muito tempo preso…
— Eu vou, o tempo que me condenarem… Pelo resto da minha vida. Não irei fugir dessa vez, independente do que você escolha, eu não irei sequer tentar fugir. Prometi para mim mesmo que seria o homem que você merece e isso começa comigo respeitando sua decisão.
Olhei para cima, para ele. A sinceridade que vi nos olhos de Connie foi a mesma que vi da primeira vez que ele confessou seus sentimentos por mim.
— Você promete que não vai fugir?
— Eu prometo — Disse ele, abaixando o rosto em direção ao meu. Nossos lábios se tocaram suavemente, apenas por um breve momento, então ele foi embora.
Eu passei o resto do dia encarando aquele pedaço de papel, com o número de Lasseter discado em meu celular, ponderando…
6 ANOS DEPOIS
Eu estava deitada em uma espreguiçadeira, aproveitando os últimos raios de sol no fim daquela tarde de julho, observando as ondas do mar quebrando na praia, sentindo uma paz etérea. Ao fundo, eu podia ouvir risadas e o barulho de bola sendo chutada sobre a areia.
— Mamãe! Mamãe! Vem brincar com a gente! — Ouvi a voz da minha filha chamar, olhei em direção à ela. Seu cabelo, antes preso em uma trança bem trabalhada, estava balançando no ar, totalmente solto e bagunçado, conforme ela pulava de alegria.
Sorri para Lisa.
— Eu não posso, meu amor — Falei, alisando minha barriga.
Eu estava enorme, havia me esquecido da sensação de estar grávida. Por mais que eu gostasse de ter meu filho são e salvo dentro de mim, eu mal podia esperar a hora de ver o rostinho de Thomas e poder, finalmente, voltar a andar normalmente.
Faltava somente uma semana para o grande dia.
— Quando meu irmãozinho nascer, eu vou poder brincar com ele? — Marie perguntou, gargalhei. Ela estava doida para ter alguém do "seu tamanho" para brincar.
— É claro, meu amor, mas você vai ter que ser cuidadosa com ele, sim? Vai levar um tempo até ele ficar do seu tamanho.
— Não tem problema, vou cuidar muito bem do meu irmãozinho. Eu vou ser a melhor irmã mais velha do muuundo.
— Tenho certeza que sim — Falei, acariciando o rostinho dela — Está com fome?
— Eu não estava, mas agora que você falou… — Disse ela, esfregando a própria barriga. Eu ri.
— Certo, então, vamos tomar um banho para tirar essa areia do corpo e comer uma comidinha bem gostosa, ok?
— Ah, não, mamãe. Banho não.
— Banho sim, fedorenta — Lisa se virou para trás e olhou para cima, para o pai dela.
Connie estava sorrindo e não pensou duas vezes antes de pegá-la no colo quando Lisa ergueu os bracinhos no ar.
— Mas, papai, tomar banho é chato!
— Chato? Da última vez você nem queria sair da banheira, larga de ser mentirosa.
— Mas é que dá preguiça de entrar no banho… Depois dá preguiça de sair, ué — Ela deu de ombros, como se fosse algo muito óbvio.
— Vai ser rapidinho, amor — Falei — A mamãe te ajuda com o banho enquanto o papai e o tio Nick preparam nossa comida, o que você acha?
— Sempre sobra pra mim — Nick resmungou, mas eu sabia que ele não estava realmente reclamando. Sorri para ele.
Nós fomos para nossa casa — que ficava bem próxima dali. Connie carregou Lisa até o banheiro e ligou a banheira enquanto eu pegava roupas limpas para ela. Depois, Connie foi ajudar Nick a preparar nossa janta enquanto eu dava banho em minha filha.
Os primeiros meses após eu ter tomado minha decisão foram… Difíceis. Eu amava Connie, é óbvio que sim, mas eu ainda tinha um pé atrás com ele. As coisas mudaram quando nos mudamos para o México. Eu pedi baixa do meu cargo no FBI, isso só foi possível com a ajuda de Lasseter — quando eu contei para ela que havia me apaixonado por Connie e não conseguia superar a morte dele e tudo o que havia acontecido, ela se apiedou. Eu estava aposentada, livre dos meus deveres. O último crime que Connie cometeu foi falsificar novas identidades para Nick e eu, que passamos a nos chamar Dennis e America. Connie conseguiu emprego em uma oficina mecânica próxima à nossa casa, enquanto eu passei a dar aulas de defesa pessoal.
Um ano depois, Connie e eu estávamos casados e Lisa nasceu. Ela era a luz de nossas vidas e eu finalmente conseguia sentir que estava deixando o passado onde ele pertencia: no passado. Algumas noites Connie acordava gritando, chorando, apavorado com as lembranças do passado, e eu ainda pensava em tudo o que aconteceu, me perguntando se um dia eu me arrependeria de ter tomado a decisão de ser egoísta e escolher Connie ao invés da justiça, mas até aquele momento, isso ainda não havia acontecido e eu duvidava muito que esse dia chegaria.
— Amor, o jantar está pronto! — Ouvi Connie gritar e me apressei em terminar o banho de Lisa.
Como esperado, ela não queria sair da banheira, mas, eventualmente, a fome falou mais alto. A vesti e fomos juntas para a sala de jantar, onde Connie e Nick estavam terminando de ajeitar a mesa. Nós nos sentamos, nos servimos e comemos em meio a conversas e risadas.
Eu estava feliz.
É isso, pessoal, essa foi The Devil's Law.
Espero que vocês tenham gostado, eu particularmente amei escrever essa fanfic, foi minha primeira com plot de máfia e, apesar de não ser perfeita, me deixou MUITO orgulhosa do resultado. Me digam o que acharam nos comentários, até a próxima!
