Portofino, Itália — Verão de 1960

Gostaria de dizer que eu era o modelo ideal de atriz em ascensão daquela época, mas isso não seria verdade.

Aos vinte anos, não possuía o carisma de Marilyn Monroe; não tinha sequer um terço da beleza de Audrey Hepburn; nem a experiência de Bette Davis. Mas quando era pequena, alguém de quem não consigo me lembrar disse que se eu trabalhasse muito duro por alguma coisa, alcançaria todos os sonhos, por mais loucos e distantes da realidade que eles fossem.

Entretanto, não tinha ideia do que me esperava quando parti até a pequena aldeia a sudeste da cidade de Gênova, chamada Portofino — também conhecida como refúgio de estrelas. Ali, eu havia me tornado um rosto emprestado para o diretor Joe Powell em seu longa-metragem, o qual era protagonista.

Meu agente, Steve Harvey, chamava este filme de "o grande golpe de sorte" da minha carreira. Afinal, assumir um projeto de renome pela primeira vez poderia ser a oportunidade de passar uma grande borracha na mancha que corrompia meu currículo profissional, mas também poderia significar minha ruína, caso não me saísse bem.

Eu havia sido "descoberta" pelo diretor em um teatro de baixo orçamento no subúrbio de Los Angeles, onde fazia parte de uma pequena companhia de atores quando não estava trabalhando como garçonete em uma lanchonete. Joe Powell, coincidentemente, se perdeu dirigindo pela área e, por algum motivo, acabou parando seu carro em frente ao teatro para assistir ao musical em uma noite de domingo. No fim do espetáculo, recebi sua visita no camarim improvisado e lá tivemos uma conversa sobre minha experiência no ramo.

A verdade era que eu tinha pouco a oferecer, apenas figurações e papéis pequenos em filmes de baixo orçamento em que atuei até os dezessete anos. Mas, no dia seguinte, fui convocada aos estúdios da 20th Century Fox para uma reunião.

Estar longe do cinema há anos me deixou insegura para assumir a responsabilidade de estrelar um filme, mas bastou uma conversa com minha mãe sobre o assunto para perceber que eu não tinha muita escolha. E, há quase um mês, eu não possuía qualquer autonomia sobre mim.

Steve me mantinha ocupada a maior parte do tempo — com a ajuda de Jane Grey, minha assistente que mais parecia uma extensão do próprio, sempre vigiando-me sob os comandos dele. Eram longas horas de gravações, mais horas de ensaio e decoração de texto, reuniões sobre a produção, sessão de fotos promocionais e exaustivas aulas de sapateado para aperfeiçoar meu desempenho no musical.

Ah, as aulas de dança.

Eram a pior parte de meus dias; como um inferno pessoal de tortura velada pelo jazz americano reproduzido na vitrola. Inicialmente, imaginei que seria ensinada pela adorável Marlena Rosenbluth, mas a doce professora de dança fora designada para meu parceiro de cena no filme, Dean Hudson, enquanto eu acabei nas mãos do terrível Jacob Jankowski — provavelmente a pessoa mais detestável naquela maldita ilha.

Não nos demos bem logo de início; assim que cheguei no Belmond Splendido Country Club para me hospedar com toda a equipe, imaginava que Jacob seria mais um dos concierges prontos para nos bajular o tempo todo, mas bastou algumas horas junto dele para eu perceber que o loiro era presunçoso, arrogante e grosseiro. Seus olhares nada discretos sobre mim, como se estivesse julgando a minha alma, me tiravam do sério.

E o sentimento parecia mútuo.

— De novo — ele disse pela milésima vez durante mais uma de nossas aulas. Então, deu de ombros quando repeti o movimento, gesticulando com impaciência — Isso está horrível! O que conversamos sobre o step?

Bufei, repousando as mãos na cintura para conter a vontade de lhe acertar a cara. Mal havia se passado meia-hora de lição e eu já estava farta de aguentar seus comandos.

— Estou fazendo exatamente o que me ensinou!

— Não, parece que está tentando tirar esterco da sola do sapato — cruzou os braços fortes na minha frente, as sobrancelhas unidas. — Precisa de mais delicadeza ao colocar o peso na parte frontal do sapato.

— Eu estou morta, preciso de um descanso.

— Nem pensar, fez uma parada para beber água há menos de vinte minutos — rebateu, apontando para meu calçado de sapateado. — Continue tentando, seu diretor espera a perfeição e eu também.

Com um rosnado baixo, voltei a tentar o maldito step, um dos passos básicos do sapateado que eu nunca acertava, segundo ele.

Jacob não estava pegando leve comigo. Para ser sincera, seu humor parecia mais amargo a cada encontro. Não que eu me importasse com isso, já estava acostumada a esperar o pior vindo dele, mas seu mau gênio estava começando a me fazer reconsiderar sobre as aulas.

— Me permite perguntar uma coisa? — Disse ao repetir o passo, recebendo seu olhar de reprovação como um comando silencioso para tentar novamente.

— Não.

— Por que está sendo tão carrasco comigo? — Indaguei do mesmo jeito.

— Por que acha isto?

— Porque Dean está rindo com a professora dele enquanto eu estou aqui pensando em me atirar pela janela — indiquei o casal do outro da sala, Marlena sorria para o aluno com um leve assentir de incentivo. — Não parece justo.

Jacob sorriu de lado — a primeira reação humana que testemunhei vindo dele em quase um mês de aulas diárias.

— Talvez o Sr. Hudson apenas seja um dançarino melhor do que a senhorita.

— Ou talvez o senhor esteja apenas sendo rancoroso ao me castigar — provoquei ao executar o movimento novamente. Dessa vez, Jacob assentiu em uma rara aprovação — A mágoa corrói um coração nobre, nunca lhe disseram?

— Precisa formular uma opinião sólida sobre mim, Srta. Stern. Não vamos querer que pareça instável — disse com ironia, antes de se aproximar.

Fiquei imóvel quando sua mão tocou suavemente a base de minha coluna. O deslizar de seus dedos pelo collant apertado provocou-me uma estranha sensação de eletricidade que me fez estremecer. Jacob, no entanto, se manteve concentrado enquanto o pé direito cutucava minha perna logo abaixo.

— Postura. Precisa manter as pernas mais afastadas.

Engoli em seco quando a respiração morna de seu hálito formigou em minha nuca úmida de suor.

— Não sou instável — minha voz vacilou no final da frase, entregando-me. — Apenas estou curiosa.

— Sobre?

— Não lhe fiz nada para me odiar tanto — fitei-o sobre o ombro e o brilho de seus olhos me deixou tonta. Por um segundo, tive a impressão de que ele tencionou com a proximidade — No entanto, se me permite dizer, está sendo um cretino comigo.

Seu silêncio prolongado me fez questionar se ele apenas resolveu me ignorar ou estava pensando na resposta mais espertinha para rebater. Mas quando seus olhos desviaram e retornaram para mim, contemplativos, reparei que ponderava sobre minhas palavras.

— Talvez eu seja um cretino e isso não seja nada pessoal — explicou calmamente, então recuou um passo. — Acho que está dando importância demais a si mesma ao pensar sobre isso.

— Muita ambiguidade para ser considerada uma resposta.

Virei para frente, repetindo o movimento.

— Só imaginei que, se eu tivesse feito algo de desagradável contra o senhor, era minha chance de reparar as coisas.

— Para o desencargo de sua consciência: não me fez nada — Ele passou para a minha frente, avaliando-me. — Mas não pense que vou pegar mais leve nos ensaios, isso está fora de cogitação.

Reprimi um sorriso, certa sobre a minha inocência naquele duelo. Jacob, sem dúvidas, tinha um problema comigo e em nada eu havia colaborado para isto. No entanto, eu estava disposta a rever aquilo. Para benefício próprio, este seria meu foco se quisesse tornar minhas aulas de dança, ao menos, suportáveis.

— Tudo bem, já pode passar para o movimento seguinte — avisou, executando-o primeiro para me recordar da ordem dos passos. — Lembre-se, deve arrastar a chapinha da frente para frente, como uma escovada.

— Por que estou recebendo aulas de um concierge? — Continuei puxando conversa, determinada a fazê-lo se sentir mal por ser tão arrogante.

Jacob me olhou com a sobrancelha arqueada. Eu parecia estar começando a encher a sua paciência novamente, mas não me segurei.

— Sempre faz muitas perguntas?

— Você sempre responde às perguntas com mais perguntas? — Retruquei, praticando o brush from terrivelmente.

Daquela vez, realmente parecia que eu estava tentando limpar esterco do sapato.

— Outra vez — ele enfiou as mãos nos bolsos, analisando-me ao responder: — Trabalhei em um estúdio de dança antes de vir para cá. Era apenas o cara que encerava o chão até que o professor da academia reparou que eu mais espiava as aulas do que limpava, então resolveu me ensinar tudo o que ele sabia. Hoje ocupo as duas funções no country club.

— E por que continuar como concierge?

— Porque dinheiro sempre é bem-vindo, mas receio que não consiga compreender isso.

Bufei, repetindo e repetindo enquanto era banhada por seu olhar incisivo.

— Um pré-julgamento equivocado, eu diria — resmunguei, irritada. Como ele ousava me dizer aquelas coisas quando sequer tentara me conhecer?

— Acredite, eu já conheci muitas outras como a senhorita — ele encarou o relógio no pulso. — Não é tão especial quanto imagina.

Disse ao dar de ombros, caminhando para desligar a vitrola do outro lado.

— A aula de hoje fica por aqui.

Observei-o quando a música cessou e a dupla do lado oposto parou sua prática, Marlena lhe lançou um olhar confuso, mas não fez oposição quando Jacob permaneceu em silêncio.

Quando Dean e eu retornamos pelo corredor até os elevadores, notei duas jovens hóspedes do country club em trajes semelhantes ao meu seguindo para o estúdio de dança. Suas gargalhadas deixavam mais do que claro que elas pareciam empolgadas para a aula — completamente diferente de meu humor distorcido depois de sair dela.

No fim das contas, talvez a carranca de Jacob Jankowski fosse reservada exclusivamente para mim.


Os famosos jantares glamourosos entre as gravações eram uma tradição para o diretor.

As reuniões regadas a comida e champanhe cara se restringiam aos membros mais célebres da equipe de produção e seu elenco. No fim de noites como aquela, minhas bochechas latejavam depois de tanto interpretar uma simpatia pouco habitual da minha personalidade — somente para agradar a todos aqueles grandes nomes do cinema.

Me sentia como um bobo da corte naqueles eventos; desesperada para fazê-los sorrir e gostarem de mim. Era como eu era instruída por meu empresário todas as vezes; meu trabalho era ser linda e recatada, obediente. Isso fazia o diretor, Joe Powell, gostar de mim, mas também me lembrava de que eu era somente uma porção de poeira cósmica em meio a uma constelação inteira.

Em algum momento do coquetel, após o jantar, acabei me afastando da recepção até o lado de fora para tomar um ar. No entanto, acabei envolta por uma nova melodia, diferente do violino afiado que deixei para trás. À muitos metros de onde estava, quase oculta pelas sombras das árvores, observei a movimentação de vozes e pessoas entrando em uma espécie de celeiro, entre uma pequena vila de alojamentos.

A música era abafada, mas pude distinguir as batidas frenéticas e o ritmo mais veloz do rock americano acariciando meus ouvidos feito um toque íntimo. A familiaridade do som repuxou um singelo sorriso em meus lábios.

— O que tem lá? — Perguntei quando um garçom se aproximou para me servir mais champanhe, o qual aceitei apenas para que ele se prolongasse no assunto. — Grazie.

— É apenas uma reunião de funcionários, Signorina — ele sorriu de lado, seguindo minha atenção. — Promovem eventos como este o tempo todo, é uma forma de se divertirem depois da semana cansativa de trabalho, mas este lugar não é adequado para alguém da sua classe.

Abandonei a taça de champanhe pela metade de volta na bandeja de prata.

— Acho que tem razão — concordei com um sorrisinho antes do jovem se afastar para servir aos outros presentes.

Bastou uma olhada para o salão para notar que ninguém olhava para mim. Todos ao meu redor permaneciam submersos em suas conversas — as quais eu não tinha nada para contribuir — para notar o quão desajustada eu estava. Eram em momentos como aquele que me sentia feito um peixe fora d'água, esperando para morrer sob o sol escaldante.

Virei novamente para encarar o celeiro e, por algum motivo, decidi seguir a música.

Desci cuidadosamente os degraus da escadaria enquanto erguia o vestido longo e vermelho, então disparei da maneira mais discreta possível — se é que dava para ser discreta com uma enorme tira de tecido brilhante esvoaçando nas costas do traje. Contornei toda a frota de carros de golfe com seus motoristas esperando na entrada para nos levar de volta às acomodações ao fim da reunião e segui pela passarela oposta.

A escuridão não me intimidou — era tranquila, segura — e não hesitei ao encontrar duas ou três pessoas caminhando pelas sombras. Seus olhares de estranhamento me alcançaram, mas apenas cumprimentei com um leve aceno de cabeça e um sorriso apertado antes de continuar meu trajeto com uma confiança inquestionável.

A ponte de tablados acima do pequeno lago enluarado me levou até a vila de alojamentos, onde uma placa de área restrita aos funcionários foi a primeira coisa que enxerguei no cercado de madeira. No entanto, escolhi ignorá-la e direcionei minha atenção para a explosão de luzes e música alta que me atingiu quando um jovem casal empurrou as portas para entrar no espaço.

À medida que me aproximava, a imagem dos casais dominando a pista nublou a minha mente de tal forma que não prestei mais atenção em nada além do movimento de seus corpos, envoltos de maneira provocante enquanto seguiam o ritmo da música como um verdadeiro ato lascivo ensaiado.

O calor das pessoas irradiou diretamente até mim e senti uma gota de suor escorrer por minha nuca exposta.

— O que está fazendo aqui? — Disse uma voz aveludada, estranhamente familiar. Sobressaltada, encontrei Jacob Jankowski parado logo atrás quando me virei — Este local é proibido para hóspedes, não viu a placa?

O loiro indicou o aviso.

Seu rosto era uma verdadeira máscara presunçosa com o cigarro aceso entre os lábios, espiralando sua fumaça pelo ar.

— Para a sua informação, eu sei ler — retruquei, abanando a mão diante de meu rosto para afugentar o odor desagradável. — Só vim até aqui porque a música alta estava me incomodando.

— Sabe, eu imaginava que as atrizes de Hollywood mentissem melhor.

Disse ele, retirando o cigarro dos lábios para atirá-lo no chão, pisando em cima em seguida.

— Pelo visto, estava errado — murmurou ao me olhar de cima a baixo. — O que realmente procura neste lugar?

— Suponho que não seja da sua conta.

— Está enganada. Se meus superiores descobrirem que hóspedes estão circulando por esta área, a minha cabeça não será a única a rolar.

Observei quando o homem avançou dois passos até ficar a menos de um metro de distância de mim. Não recuei diante da sua tentativa de me intimidar, em vez disso, ergui o rosto para encará-lo em seu desafio.

— Bem, eles não saberão se ninguém lhes contar.

Dei um sorriso mínimo de ameaça antes de dar de ombros, agarrando no vestido para subir os degraus da escadinha até a entrada da festa. Todavia, não deixei de sentir a presença do loiro em meu encalço, aquilo sem dúvidas me irritou, mas não o bastante para me fazer retornar.

O espaço era de fato um celeiro simples; seu único diferencial era o jogo de luzes improvisado e as mesas nos arredores, formando um grande salão de dança no centro, onde os casais se aglomeravam, além da música alta no fundo. Por um momento, fiquei apenas olhando o ritmo se estabelecer entre as pessoas, como a criança que um dia fui, assistindo a uma festa de longe e imaginando quando seria puxada para dançar.

— Ousado demais para a senhorita?

— O senhor não me conhece — retruquei, cruzando os braços quando o concierge parou ao meu lado feito um cão sarnento. — Cresci em cima de uma discoteca, todas as noites eu descia as escadas escondida para assistir os casais dançando… aprendi uma coisa ou outra.

Uma risadinha irônica lhe escapou.

— Não entendi, qual é a graça?

— Desculpe — ele reprimiu os lábios. — É que não consigo vê-la dançando como aquelas pessoas no salão, geralmente a sua classe torce o nariz para nós.

— Minha classe? — arqueei as sobrancelhas. — É sempre tão intrometido e petulante?

— Basta olhar adiante; é uma jovem rica e entediada. Seu lugar não é aqui.

Segui o seu olhar para os casais e notei a forma como alguns deles simplesmente dispersaram sua nuvem de distração para me olhar; dezenas de pares de olhos com as sobrancelhas unidas enquanto encaravam meu vestido extravagante, totalmente inadequado.

Minhas bochechas esquentaram.

— Eu não deveria ter vindo até aqui... — murmurei quando os casais voltaram a dançar sensualmente. — Irei voltar agora.

Me desvencilhei do loiro e disparei em cima dos saltos de volta à pequena passarela que atravessava o lago, abraçando meu próprio corpo enquanto as sombras da noite pareciam me engolir.

De fato, sentia que não me encaixava em nenhum lugar.

Nem no apartamento alugado onde agora vivia em Los Angeles, nem no teatro barato de onde saí ou entre os grandes nomes do cinema para onde fui levada. Nem naquela ilhota tão longe de casa, com pessoas tão pouco próximas a mim, ditando meus passos com uma agenda apertada e subestimando minhas vontades o tempo todo.

O sentimento de deslocamento era algo que eu já deveria estar acostumada, mas que ainda insistia em beliscar meu peito. Não parecia haver espaço para mim no mundo.

— Ei, espere!

— O que quer agora!? — Gritei sobre o ombro, exasperada ao encontrar Jacob me seguindo. Minha garganta reclamou com o nó e só então percebi que estava chorando — Vá embora, fique longe de mim!

Quando senti que estava a uma distância segura, agarrei no parapeito da ponte de madeira com as mãos trêmulas, minhas pernas ameaçaram falhar a qualquer momento. Ao fundo, a música que me levara até ali se tornou abafada pelas batidas frenéticas de meu coração.

Foi quando tive certeza de que estava em mais um daqueles episódios embaraçosos, onde me sentia arrastada para um poço escuro e sufocante.

— Ei, olhe para mim — a voz alarmada ordenou, mas o zumbido em minha cabeça não me deixava concentrar em nada. — A senhorita está bem?

As mãos calejadas se fecharam ao redor de meus braços com uma firmeza desesperadora e o toque pareceu reduzir o tamanho de meu peito, lutando por ar. Minha vista oscilou, mas enxerguei o rosto pálido como fantasma do concierge antes de tudo ao redor se transformar em meros borrões vertiginosos.

— Me... solte! — Ordenei outra vez, sem forças.

Mas ele não o fez.

Em vez disso, segurou-me quando tudo ficou escuro e desabei.


Poderiam ter se passado segundos ou uma eternidade, eu não sabia dizer. Quando recuperei a consciência, a voz aveludada fora a primeira coisa que ouvi naquele vazio retorcido que era minha mente.

— Merda, eles irão me matar.

— O que… o que aconteceu? — Perguntei, piscando várias vezes antes de reconhecer aquele rosto enquanto ele me abanava com a própria boina.

— Ah, graças a Deus. Achei que tinha morrido… — o jovem respirou fundo, aliviado. — Eu não entendi, a senhorita acabou desmaiando... Como se sente?

Dei um salto para trás, roçando as costas na madeira áspera da passarela, quando o homem esticou sua mão para tocar minha testa gélida e úmida de suor.

— Saia de perto, não encoste em mim!

— Escute aqui, foi a senhorita quem apagou nos meus braços, o que queria que eu fizesse? Largasse-a no chão e então voltasse para a festa!? — Rebateu, apontando aquele indicador audacioso na minha direção, a preocupação que antes cintilava naqueles olhos se transformou em uma raiva fervente — Quer saber? É exatamente o que eu deveria ter feito. Pelo menos, não estaria aqui cuidando de uma mal-agradecida!

— Eu não teria desmaiado se não tivesse vindo atrás de mim — resmunguei, recusando quando ele ofereceu ajuda e levantando-me sozinha do chão.

Espalmei as mãos contra o vestido para me livrar da areia solta do chão da ponte antes de virar para ele.

— Foi apenas um pico de estresse, tudo culpa sua.

— Minha? — Ele estreitou os olhos, ofendido. — Para começo de conversa, nem deveria estar aqu…

— Vonnie!

Olhei em direção a recepção de onde fugira e encontrei Steve se aproximando, acompanhado do homem trajando um uniforme branco, semelhante ao dos funcionários.

— Steve — soprei, tomando fôlego para recuperar minha máscara. — O que está fazendo aqui?

— Puxa, procurei você por todos os lugares! Ficamos preocupados, cheguei a pedir ao gerente para me ajudar a fazer uma busca — seus olhos astutos recaíram sobre Jacob ao meu lado, provavelmente formulando teorias a respeito. — O que faz tão longe da recepção?

— Ah… eu só queria caminhar um pouco e tomar um ar. Não estava me sentindo bem lá dentro, talvez tenha exagerado no champanhe.

— E você?

O gerente perguntou, olhando para Jacob com uma expressão de quem estava prestes a puni-lo por uma infração. Tive certeza de que vi uma gota de suor escorrer pela testa do concierge naquele instante.

— Bem, eu…

— Eu me perdi no caminho — expliquei, olhando para o loiro numa tentativa de mantê-lo de boca fechada para me deixar prosseguir. — O Sr. Jankowski me informou que a área era proibida para hóspedes e, como disse antes, não me sentia muito bem para retornar sozinha. Ele gentilmente se ofereceu para me levar de volta.

O loiro me encarou por alguns segundos, boquiaberto com minha defesa repentina — uma reação oposta aos gritos que eu disparava em sua direção momentos antes.

Para ser sincera, estava surpresa comigo mesma, pois desconhecia a razão que me levou a mentir por aquele troglodita intrometido. Sua arrogância me irritava, sua petulância me ofendia, mas ainda assim… aquele homem de caráter questionável permaneceu ao meu lado quando mais ninguém esteve.

— Foi isso — ele se virou de repente com um sorriso em concordância, em um gesto que eu chamava de seguir o roteiro. — Não podia deixar a Srta. Stern perambulando desacompanhada por aqui, estávamos indo de volta para a recepção.

Trocamos olhares mais uma vez, ambos salvando a pele um do outro. O gerente sorriu, tocando o ombro de seu funcionário.

— Fez bem, Jacob. Muito bem.

— Que bom que tudo está resolvido — meu empresário concluiu, estendendo o braço para mim. — Agora pode deixar que eu mesmo a levo de volta.

— É claro.

Envolvi meu braço ao redor do seu e olhei para Jacob sobre o ombro, mas dessa vez soou como uma ameaça silenciosa pairando no ar.

Apenas sorria e acene, eu queria dizer.

— Obrigada, Sr. Jankowski.

— Tenham uma boa noite — ele respondeu, se curvando em uma leve reverência.

Por algum motivo que eu ainda não conseguia por em palavras, Jacob Jankowski não saiu de meus pensamentos até às mais altas horas. Seus olhos verdes e brilhantes me visitaram durante a noite, sendo a única fonte de luz hipnotizante no meio da escuridão sufocante que era minha mente.

E aquela fora apenas a primeira noite em que ele esteve presente nos meus sonhos.


Enfurnada no quarto do hotel, eu estava exausta demais depois de outro dia intenso de gravações, mas minha mente não parecia disposta a acompanhar meu corpo. Quando Jane entrou para ajudar a me preparar para dormir — depois que repassei o roteiro do dia seguinte —, eu estava debruçada no parapeito da sacada, observando a maresia quebrando contra as pedras ao longe.

— É uma bela vista, não é? — A loira comentou com um sorriso enquanto escovava meu cabelo delicadamente. — Mas deveria se deitar agora, amanhã seu dia começará às sete com as aulas de dança e às nove tem uma sessão de fotos promocionais para o filme. Às onze se reunirá para o almoço com o diretor e depois…

Gemi, repousando a testa sobre meu braço estendido no parapeito.

— Santo Deus, isso parece um inferno.

— Oh, Srta. Stern — ela tocou meus ombros em conforto. — Entendo que não está familiarizada com a rotina, é a sua primeira vez estrelando uma grande produção. Mas, se me permite dizer, como alguém que está há algum tempo trabalhando com estrelas, é apenas uma fase. Irá se acostumar com tudo isto.

Ergui os olhos para fita-la, temerosa.

— Este é o meu medo, Jane.

Sobre a cômoda ao lado da cama, o som estridente do telefone ecoou pelo quarto.

— Será que é Steve ligando outra vez? — Indaguei, virando-me para a loira.

— Eu irei atender, espere aqui — disse ela antes de disparar elegantemente de volta para dentro.

Encarei meu reflexo no pequeno espelho de mão deixado para trás, sobre a espreguiçadeira onde me sentava. Mal conseguia reconhecer aquela pessoa de cabelos tão sedosos, trajando um hobby de seda que antes eu jamais poderia pagar. Era como me vestia agora, planejada por figurinistas para ser uma estrela de cinema como as que eu via nos filmes — ainda que não me sentisse verdadeiramente como uma.

— Senhorita — a loira ressurgiu na porta, atraindo minha atenção. — Sua mãe está na linha.

Meu olhos devem ter saltado das órbitas, brilhando feito diamantes.

— Minha mãe?

— Sim, ela parece… ansiosa para falar com a senhorita.

Sorri, levantando-me num rompante antes de correr para o telefone como uma criança que acabara de receber doces no Halloween. Agarrei o aparelho fora do gancho e acenei para Jane, parada do outro lado.

— Está tudo bem, já pode retornar para o seu quarto, Jane. Eu apenas falarei com ela e então dormirei em seguida.

— Tem certeza de que não precisa de mais nada?

— Sim — garanti, assentindo com ansiedade. — Tenha uma boa noite.

— Está bem. Boa noite, senhorita — disse ela antes de se dirigir a porta. — Até amanhã.

Esperei até que Jane desaparecesse para falar com minha mãe. Apesar de gentil e doce, também sabia que a loira cumpria ordens de Steve — alguém que eu gostaria de manter separado de minha vida pessoal.

— Mãe?

Vonnie! — Seu tom energético arrancou-me um sorriso largo, pois significava que ela estava sóbria. — Minha menina, como vai você?

— Estou bem. Eu senti tanta saudade de ouvir a sua voz… — fechei os olhos, deixando que o som da sua risada penetrasse em mim. — Liguei tantas vezes desde que cheguei, estava ficando preocupada. Por que não retornou nenhuma das minhas chamadas antes?

Ah, sabe como não paro em casa, garota. Provavelmente estava ocupada nos momentos em que ligou, mas o que realmente importa é que estou aqui agora.

Norma Stern não era exatamente o que se poderia chamar de uma mãe exemplar.

Ela foi a responsável pelo início de minha carreira no show business com apenas oito anos de idade, quando precisou encontrar outra fonte de renda depois que meu pai viciado em apostas, Charles, nos abandonou. Minha mãe lidou com a separação da sua maneira. Se jogou de cabeça em doses exacerbadas de álcool, além de encontrar nas apostas uma forma de se lembrar constantemente de meu pai.

Isso quase nos destruiu.

— É verdade — concordei, embora bem soubesse onde ela passava suas noites. — Desculpe, eu não queria incomodar. É que estar sozinha e tão longe de casa me deixa um pouco sentimental.

Sempre foi sentimental, querida — ela riu do outro lado da linha. — Mas, me conte, como é na Itália?

— Ah, você nem imagina.

Agarrei o telefone e arrastei-o comigo para a sacada, onde me sentei de volta na espreguiçadeira acolchoada para observar as estrelas enquanto a brisa fresca balançava meus cabelos castanhos.

— Desembarcamos em Gênova e pegamos uma balsa direto para uma pequena vila na Riviera Italiana, chamada Portofino. Ainda não tive tempo de conhecê-la como uma turista, mas pelo pouco que vi, parece um paraíso ensolarado. Acho que você adoraria conhecer.

Quando tudo isso acabar você estará tão rica que poderemos passar ótimas férias neste lugar — disse ela, alimentando minhas esperanças como sempre fazia. — Mas, por que disse que não teve tempo de conhecer o lugar? Já chegou há pouco mais de duas semanas…

— Bem que eu gostaria de ter uma folga entre as gravações, mas a verdade é que eu somente tenho ido das aulas para as locações, então de volta ao hotel. Sei que todos esperam o glamour dos filmes, mas ninguém nunca lhes conta sobre os bastidores.

Hum, sabe o que eu penso disso, Yvonne. O trabalho duro nunca rende sem alguma distração, é o que sempre digo.

— É, mas o problema é quando a distração lhe faz perder o emprego — retruquei, revirando os olhos para seu conselho.

Minha mãe possuía uma vasta experiência em ser demitida dos empregos, por mais simples que eles fossem; m efeito colateral de passar suas noites até tarde enchendo a cara e apostando.

Ah, lá vem você de novo com essa história! — Resmungou, soltando alguns palavrões baixos em seguida, como se eu não pudesse ouvi-los. — Sempre uma estraga prazeres. Eu estou apenas tentando fazê-la enxergar que precisa viver, ainda é jovem! Deveria dar umas escapadas, como fazia com aqueles garotos na época da escola.

— Bem, eu vou pensar sobre isso — menti, apoiando o rosto na palma da mão com um longo suspiro. — Mãe, está tudo bem aí em Los Angeles? Quer dizer, você não se meteu em mais problemas, não é?

É claro que não, garota. Você subestima minha capacidade de me virar sozinha — e eu quase acreditei. — Mas, sabe que eu tenho algumas necessidades e as coisas estão apertando por aqui…

— Do que está falando!? Eu deixei uma boa quantia para você se cuidar antes da viagem, como acabou tão rápido?

Ah, as coisas estão tão caras hoje em dia.

Era impossível que uma quantia que deveria lhe oferecer suporte durante três meses tivesse acabado tão rápido. Naquele instante, senti-me uma tola por ter recusado a proposta de Steve de contratar uma ajudante para cuidar de minha mãe enquanto eu estivesse fora. Norma, sem dúvidas, gritaria e me atiraria objetos quando lhe contasse sobre a ideia, mas isso teria evitado problemas futuros como aquele.

Por um lado, me sentia terrivelmente culpada por alimentar tais ciclos viciosos cada vez que lhe enviava dinheiro; era como contribuir voluntariamente para o completo declínio do nome da minha família. No entanto, a outra parte — profunda, suja e egoísta — temia que minha recusa em ajudá-la provocasse sua rejeição.

Aos vinte anos, eu não tinha ninguém além de minha mãe e sua completa instabilidade, parecia autopreservação lutar pelo seu afeto.

— Escute, pedirei para que Steve lhe envie um cheque em meu nome, deverá chegar em alguns dias — informei, sentindo-me já derrotada pelo pedido seguinte. — Mas, por favor, não gaste tudo em bebidas e apostas de novo! Eu não posso enviar dinheiro o tempo todo, estou muito ocupada para me preocupar com isto agora.

É claro, está sempre muito ocupada para cuidar da sua mãe — respondeu-me, ácida. — É incrível como os filhos crescem e se tornam uns ingratos, pisando sob as cabeças daquelas que os geraram. Daquelas que passaram anos dedicando a sua vida a eles!

— Você está sendo tão injusta comigo, mamãe. Sabe disso.

E você sabe que não é mentira! Seria mais fácil para você se eu fosse atropelada por um carro no meio da rua, assim não teria que se lembrar de que eu existo.

Ergui os dedos para pressionar minhas pálpebras fechadas, concentrando-me na respiração enquanto ignorava o bolo incomodando em minha garganta.

— Está muito tarde, eu preciso desligar a ligação agora.

Isso, vá em frente e desligue. É o que sempre faz, foge dos problemas — ela gritou, disparando mais uma série de críticas contra mim. — Só acho bom que envie a droga do dinheiro ou não vai encontrar mais nada aqui quando retornar!

— Boa noite, mãe.

Devolvi o telefone para o gancho.

Naquela noite, tive de refazer o cheque três vezes, pois as lágrimas que deixei escapar mancharam o papel tingido com a tinta escura.


Nos dias que se passaram, fui praticamente sugada para um paradoxo do tempo. Em alguns momentos, as horas pareciam escorregar por meus dedos e, em outros, eu parecia presa em uma bolha sufocante de solidão e monotonia.

As aulas de dança me fizeram evoluir no ritmo e, depois de tantos ensaios, eu já estava me saindo muito bem — pelo menos, em comparação ao que era. No entanto, minha melhora não acrescentou qualquer mudança no humor de meu professor ranzinza.

Jacob permanecia de cara amarrada com minha versão tagarela — coisa que, por mais que eu tentasse segurar, sempre deixava escapar. Por algum motivo, eu sempre falava demais perto dele.

No entanto, senti que, de alguma forma, o loiro tinha pensado sobre nossa conversa. Até mesmo estava tentando ser menos insuportável quando estávamos juntos.

— Muito bem — disse ele, batendo palmas depois que executei seu movimento habilidosamente. — Mas, precisa manter o ritmo no cramp rool. Não estamos reduzindo nada na última sequência.

— É, eu percebi — resmunguei, ofegante. Rapidamente, olhei de soslaio para Dean se atrapalhando com a sua professora do outro lado. — Pelo menos, precisa admitir que sou uma boa aluna.

— Uma aluna melhor do que Dean Hudson ainda não é uma boa aluna. Não fique convencida — retrucou, erguendo o queixo em um comando. — Continue.

— Preciso de uma pausa, estou com sede.

Jacob pensou, então gesticulou para que eu me juntasse a ele até a jarra de água gelada sobre a mesinha no canto. Encheu dois copos e me entregou o primeiro, sentando-se ao meu lado no pequeno banco de madeira.

— Seja sincero, acha que vou sapatear perfeitamente até as filmagens? — Questionei, bebericando de minha água gelada.

— Se continuar se esforçando nas aulas todos os dias em vez de tentar me passar a perna com descansos de vinte em vinte minutos, receio que se sairá razoavelmente bem.

— Eu não tento passar a perna em você.

Ele sorriu com ironia.

Talvez — só talvez —, eu fosse um tanto espertinha para conseguir minhas pausas regulares. Afinal, tinha o fôlego de um fumante.

— Só estou tentando dizer que não é minha pior aluna.

— Tem muitas alunas?

— Um pouco menos do que muitas e um pouco mais do que algumas. Nenhuma realmente vem até mim interessada em aprender algum ritmo, estou aqui somente para entretê-las de suas vidas monótonas e sem graça.

— Deve ser um trabalho divertido.

— Às vezes é — ele me olhou de canto, os cabelos claros úmidos de suor. — Elas sempre vêm e vão com a promessa de voltar no próximo verão, a maioria realmente retorna. São seus elogios aos meus superiores que garantem o meu emprego no verão seguinte, então faço o máximo que posso para diverti-las, mas nem sempre é fácil, às vezes preciso...

— Fingir — disse ao desviar o olhar. Pela primeira vez, estava falando sério. — Acho que o entendo.

Pois, minha vida nos últimos doze anos era uma história de faz de conta.

Eu fingia gostar de atuar, fingia não temer a inconstância de minha mãe, fingia alegria para todas aquelas pessoas importantes que me rodeavam, mas que não se importavam comigo. Fingira por tanto tempo que já não sabia dizer quem era a verdadeira Vonnie, pois não me recordava dela.

— Sabe, você me lembra algumas delas — ele comentou, virando sua água até que algumas gotas escorreram pela pele corada de seu pescoço, ressaltando as veias presentes ali. — As minhas alunas.

Pisquei, concentrando-me na sua voz.

— Pareço entediada como elas? — Ironizei.

— Parece que não quer estar onde está.

Um observador sorrateiro, era o que Jacob Jankowski era. Eu deveria tomar muito cuidado com a forma como me expunha, embora não quisesse ser nada além de mim mesma quando estava na sua companhia. Aquele era o estranho efeito que ele me causava — e que eu não sabia como explicar.

— Hum, acho que ainda estou decidindo — retruquei, levantando-me do banco para deixar o copo vazio de volta na mesa. — Vamos voltar para a aula.

Naquela noite, enquanto caminhava pelo quarto ensaiando uma cena de conflito sozinha, recebi um bilhete. A pequena tira de papel escorregou por debaixo da porta, a caligrafia não era familiar — muito menos bonita —, mas transcrevia de forma breve.

Cara Srta. Stern,

Me encontre no píer às nove em ponto, a levarei a um lugar onde não precise fingir.

Atenciosamente, Sr. J.

Devo ter relido o bilhete pelo menos cinco vezes antes de acreditar que era real. Jacob Jankowski estava me chamando para sair ou apenas planejava me atirar ao mar para virar comida de peixe?

Na situação em que me encontrava, as duas opções pareciam boas.

Passei vinte minutos sentada na cama ponderando sobre os pontos negativos de sair com um estranho que me detestava, em um lugar que eu não conhecia. Entretanto, nem precisei de muitos argumentos para me convencer de que permanecer trancada naquele quarto para passar mais uma noite solitária era, sem dúvidas, uma péssima ideia.

Então, resolvi arriscar.

Me arrumei rapidamente e desci pelas escadas para não ter o descuido de encontrar com meu empresário no caminho até os elevadores, então pedi a um dos motoristas disponíveis do country club para me levar até o local marcado. Fiquei surpresa com a grande movimentação nas ruas de Portofino, apesar do horário, parecia que aquele lugar nunca dormia com seus restaurantes abertos e festas por todos os lados.

Rapidamente, entendi porque a vila era o retiro seguro e promíscuo das estrelas.

Assim que o carro parou em frente ao píer, saltei do veículo e caminhei pela calçada de blocos de concreto, um pouco nervosa. Minhas mãos enluvadas seguravam a bolsa com tanta firmeza que pensei que arrancaria a tira de couro, mas ele estava lá; esperando-me com as mãos nos bolsos e os cabelos sedosos apontando para todos os lados.

Seus olhos brilharam quando se virou e me encontrou ali parada no meio das luzes do píer, parecia mais surpreso com a minha presença do que qualquer outra coisa. Talvez, no fundo, Jacob Jankowski realmente esperava que eu o deixasse plantado ali a noite toda.

— Está atrasada — foi a primeira coisa que ele disse ao se aproximar.

— Não — retruquei, inocentemente. — Você é que está adiantando.

Ele revirou os olhos, mas reprimiu um sorriso de satisfação.

— Achei que não vinha. Arrisquei demais lhe enviando aquele bilhete, esperando que lembrasse de um ninguém com a inicial "J" — ele me olhou de cima a baixo, então um vinco se formou entre suas sobrancelhas. — Aonde vai assim?

— Assim como? — Encarei minhas vestes, procurando por um defeito que fosse, mas não encontrei. — O que há de errado com a minha roupa…? Ah, já sei, só está me provocando, não é?

— Você está vestida como alguém que vai a Mostra Internazionale d'Arte Cinematografica, não acha mesmo quem tem alguma coisa estranha aqui?

— Minha mãe sempre diz que é melhor pecar pelo exagero — afirmei, rolando os olhos sobre ele minuciosamente. — Aonde pensa que vai me levar vestido assim?

Indiquei as suas calças largas em um tom marrom e o par de sapatos desgastados. A camisa surrada estava abotoada somente até a metade, revelando a regata justa por baixo delineando os músculos de seu peitoral onde a pele levemente bronzeada parecia sedosa demais naquelas luzes fracas ao nosso redor.

Quando ergui o olhar novamente, tive de engolir em seco para me concentrar.

— Vai por mim, não vai querer uma segunda rodada daquele episódio no celeiro do country club — ele lembrou, estendendo as palmas das mãos na minha frente. — Tudo bem, tire o casaco.

— O que?

— Vamos, tire o casaco logo.

— Eu não vou tirar coisa nenhuma! — Recuei, estapeando sua mão quando ele tocou a barra do casaco amarelo claro que eu vestia.

— Confie em mim, você leu o que eu lhe escrevi. Não vai precisar de tudo isso no lugar aonde vamos — disparou, impaciente.

Reprimi os lábios em uma linha rígida, batendo o pé. No fundo de minha mente, a voz da autopreservação gritava para que eu tomasse cuidado, para que não caísse nas garras de um desconhecido.

Todavia, meu coração gritava outra coisa.

— Você promete?

Lascia che un fulmine mi colpisca la testa se sto mentendo.

Meu idioma, fala no meu idioma — exigi, cruzando os braços.

Ele suspirou, inquieto.

— Prometo.

Decidida a lhe dar um voto de confiança, empurrei a bolsa em seu colo e escorreguei o casaco pelos ombros. Não estava frio naquela noite, pelo contrário, a brisa refrescante do mar atingiu meu pescoço e colo e me fez relaxar de uma forma que só então percebi o quão tensa estava.

Jacob me olhou de cima a baixo, engolindo em seco.

— Pode ficar melhor — ele estendeu sua palma e pegou o meu casaco, dobrando-o delicadamente para carregar no antebraço. — Tire as luvas e erga as mangas.

— Isto é mesmo necessário?

— Por favor, estamos na Itália! Quem anda vestindo você como se estivesse na América?

Nisso, ele tinha razão.

— Muito cuidado com as suas próximas palavras — avisei ao lhe entregar as luvas de renda, Jacob apenas as guardou nos bolsos.

— Está quase perfeita, mas tem cabelos tão bonitos… — sugeriu, encarando o penteado que segurava os meus cabelos curtos no alto. — Deveria soltá-los.

Dessa vez, não fiz objeções.

Assim que os cachos se libertaram, caindo ao redor de meu rosto e pelos ombros, senti que um peso saíra dali, afinal não costumava usar os cabelos soltos tanto quanto eu gostaria e sentia falta da bagunça esvoaçante nas minhas costas. Esperava que, em algum momento, Steve cedesse a sua ideia de que uma estrela deveria ter cara de estrela e me deixasse voltar com os cabelos longos.

— Se espalharmos um pouco de terra nos seus sapatos…

— Ora, não seja um idiota — respondi em meio a sua risada, pegando minha bolsa de volta. Jacob, no entanto, continuou a segurar meu casaco quando começamos a caminhar pela calçada — Você não vai mesmo me dizer aonde estamos indo?

Ele pensou por um minuto, olhando para frente.

— Para casa — disse com leve sorriso.


Caminhamos cerca de um quarteirão antes de pararmos em frente uma porta discreta onde uma pessoas se aglomeravam, ao redor dos inúmeros carros estacionados na longa subida da rua de blocos. Casais se beijavam sem qualquer constrangimento, grupos de amigos compartilhavam o mesmo cigarro, alguns homens me olhavam com suas bebidas nas mãos, erguendo as garrafas para sorrir gentilmente quando passamos.

Só então notei que os cumprimentos não eram realmente para mim.

— São seus amigos? — Perguntei ao segurar no braço do loiro, caminhando ao seu lado entre as pessoas que iam e vinham.

— Não, mas a vila é pequena — disse-me antes de um trio de garotas sair da festa, lançando-lhe sorrisos e breves cumprimentos animados. — E eu não tenho culpa de ser tão popular.

Revirei os olhos quando ele me lançou seu sorriso presunçoso.

Entramos onde o letreiro dizia Luna Blu. Jacob escorregou sua mão até a minha quando cruzamos o espaço apertado, onde casais dançavam em um ritmo frenético, esbarrando em mim como se eu sequer existisse — e, por algum motivo, eu adorei isto.

Entre os tantos rostos que disparavam pelo salão sombreado, reconheci os cachos selvagens de Marlena balançando para todos os lados enquanto ela parecia protagonizar um espetáculo de dança.

— Tudo bem, por que ela não é a minha professora? — Apontei para a loira quando chegamos ao bar, sem tirar os olhos de seus movimentos tão rápidos que me deixavam tonta. — Olhe só aquilo! Marlena poderia muito bem roubar o meu papel naquele musical.

— Você acha? — Ele sorriu ao acenar para o atendente atrás do balcão, chamando-lhe pelo nome. Concluí que Jacob devia ser um grande frequentador do lugar — Ensinei a ela tudo o que sabe.

Virei-me para ele, boquiaberta.

— Mesmo?

— Não. Na verdade, foi o contrário — ele riu, pedindo duas doses de gin, algo que eu nunca havia experimentado, mas que também não recusei quando fui servida. — Marlena e eu dançávamos no quintal da sua casa todas as tardes, desde que éramos crianças. No início, era apenas uma brincadeira, mas quando ela fez dezesseis anos decidiu se tornar uma dançarina profissional.

Jacob virou sua dose como se estivesse bebendo água, nem mesmo um músculo da bela face se contraiu. Por isso, não hesitei ao virar minha na minha vez.

E quase vomitei ali mesmo.

— Ei, vá com calma! — Ele tocou meus ombros quando me inclinei, engasgando enquanto a bebida parecia queimar minha garganta. — Droga, por que não me avisou que não costuma beber? Eu teria pedido algo mais leve…

— Está tudo bem, eu bebo o tempo todo! — Menti descaradamente, acenando para que ele se sentasse de volta no banco. — Não foi nada.

— Tem certeza?

— É claro! Pode pedir a segunda rodada.

Não sei porque fiz aquilo, talvez porque todos naquele balcão estavam fazendo o mesmo… ou porque Jacob estava. De qualquer forma, não queria que pensasse que eu estava sendo fraca.

Para minha sorte, ele impediu que eu continuasse com a farsa.

— Ei, para que? Acabamos de chegar — gesticulou para o balconista, sinalizando que não era necessário. Então, deixou meu casaco no banco ao lado e segurou minha mão outra vez, puxando-me para fora do banquinho de madeira — O que acha de dançar, hein?

— Não se importa que eu pise em você? — Arqueei a sobrancelha, seguindo-o em meio às pessoas dançando.

— Humm — ele me girou, recebendo-me de volta nos braços quando me aproximei. Seus lábios se contraíram quando Jacob se inclinou para sussurrar em meu ouvido: — Eu até gosto da ideia.

E, de repente, eu era apenas uma menina.

Vonnie, a garotinha que descia as escadas depois que a mãe cochilava com a cerveja na mão em frente a TV. Que se escondia entre o jogo de luzes e sombras para observar os casais se movendo no ritmo agitado da música, que se perguntava quando um daqueles rapazes finalmente olharia em sua direção e a tiraria para dançar no meio do salão.

E ali estava o rapaz, finalmente.

Suas mãos firmes me seguraram com tanta segurança que, pela primeira vez, não tive medo de errar. Jacob me guiava nas batidas frenéticas do rock embalando aquela noite como se eu não fosse a única sentindo a familiaridade em seu toque, como se o calor de minha pele também o deixasse confortável. E essa sensação, involuntariamente, não me deixou conter o sorriso que estampava meu rosto — e, pelo visto, o dele também.

Meu parceiro me manteve extasiada por todas as três danças seguidas que emendamos, então no momento seguinte toda a casa estava trocando de pares, quase como um balé ensaiado que eu estava decidida a fazer parte. Devo ter parado na mão de dois estranhos que me conduziram muito bem, mas lamentei pelo segundo — pois, sem querer, acabei pisando no seu pé umas três vezes.

Do outro lado do salão, encarei Jacob com insegurança enquanto ele dançava com uma jovem. No entanto, notei que seus olhos estavam em mim, tão atentos que não precisei dizer qualquer palavra para ele compreender que eu estava prestes a abandonar a dança, constrangida com meus acidentes seguidos. Discretamente, apenas assentiu, encorajando-me a continuar.

E, pelo menos daquela vez, eu o obedeci de boa vontade.

Quando a música chegou ao fim, o moreno desconhecido com quem eu dançava gesticulou de um jeito peculiar ao recuar um passo.

Povero chiunque sia il tuo prossimo partner — disse com uma risada alta antes de se afastar, sumindo na multidão.

— Foi um prazer também!

Acenei, sorrindo alegremente.

— Ele acabou de dizer que sente pena do seu próximo parceiro — Marlena surgiu entre as pessoas e parou ao meu lado, suada e ofegante.

Meu sorriso desabou, mas ela afagou meus ombros com uma risada leve.

— Não fique chateada, Srta. Stern. Tenho certeza que Jacob está trabalhando para transformá-la em uma dançarina melhor do que eu.

— Ah, pode me chamar de Vonnie — sugeri com um sorriso ao cumprimentá-la com um aperto de mãos. — Eu estava observando-a há algum tempo… foi simplesmente incrível.

— Que bom que você gostou! Não estamos acostumados a receber estrelas de cinema por aqui, é uma grande responsabilidade dançar para uma — ela riu ao tocar minhas costas enquanto retornávamos para o bar. — Sei que Jacob fez as honras da casa, mas está gostando daqui?

— Sim, na verdade… é estranhamente familiar.

Para ser sincera, me sentia mais à vontade naquele lugar do que em qualquer outro apartamento de luxo em Los Angeles. E, a forma como Jacob e Marlena me tratavam — como se eu pertencesse àquele meio tanto quanto eles — também me fazia sentir acolhida de alguma forma.

— Hey, você foi bem lá — Jacob se aproximou, descansando o braço sobre os ombros de Marlena, que apenas lhe lançou um daqueles sorrisos afetuosos. — Gostei de ver.

Encarei aquele braço por mais tempo do que deveria antes de voltar minha atenção para a conversa.

— Pisei no pé dele.

— Não há ganhos sem perdas, não é? — Apontou, erguendo as sobrancelhas grossas. Então, virou-se para a loira — Tudo bem, vou ter de deixá-las por aqui um momento. Marlena, pode vigiar a Miss Hollywood Gold para mim?

Fechei a cara para seu apelidinho irritante, mas rapidamente me distraí.

Por um segundo, o olhar que Marlena lançou para Jacob perpassou entre a surpresa e uma pergunta silenciosa, pessoal o suficiente para que apenas os dois compreendessem sua linguagem visual. Tentei não me intrometer, virando-me para admirar o bar, mas minha mente não parava de perguntar qual era a relação entre eles.

— Pode ir, cuidarei dela.

— Não a deixe chegar perto do gin.

Marlena apenas riu quando fuzilei as costas de Jacob com o olhar enquanto se afastava.

— Idiota — murmurei, balançando a cabeça.

— Na maioria das vezes, ele é — concordou, virando-se no balcão para pedir mais bebidas. Dessa vez, ela optou por algo mais suave e tive certeza que era por minha causa — Mas, apesar de tudo, eu o amo. Cresci em uma família enorme, com vários irmãos e irmãs, mas nunca me senti tão próxima deles quanto de Jacob.

Ela o amava?

Eu não estava surpresa com a informação. Desde o início das aulas, havia notado a intimidade entre os dois, a maneira como riam de suas próprias piadas internas; jamais vira Jacob gargalhar genuinamente com alguém que não fosse Marlena — e, claro, havia a questão de ambos serem jovens e absurdamente atraentes. A loira era um perfeito exemplo de femme fatale e Jacob… eu não sabia bem como descrevê-lo em palavras.

De repente, senti-me culpada por ignorar a sintonia entre os dois e mais culpada ainda por estar ali, entre a cruz e a espada.

Beberiquei do copo, hesitante em conter minha curiosidade.

— Então… estão juntos há quanto tempo?

— O que? — Marlena franziu o cenho, estremecendo quando se deu conta do sentido da minha pergunta. — Oh, não, de jeito nenhum! Jacob e eu não somos um casal… Se bem que uma vez, quando tínhamos doze anos, ele tentou me beijar, mas soquei o seu rosto tão forte que não nos falamos por um mês.

Não eram um casal? Eu devia estar deixando algo passar.

— Desculpe, é que vocês parecem bem próximos. Não quis me intrometer.

— Está tudo bem, você não é a primeira a confundir as coisas e provavelmente não será a última. Jacob e eu somos como irmãos — ela explicou, acendendo um cigarro. — Nós nos apoiamos desde a infância e acho que essa rede de proteção um com o outro acabou se tornando ainda mais forte do que a relação com nossas próprias famílias de sangue.

— Isso é muito raro, a maioria das pessoas não têm essa sorte.

Eu, pelo menos, não tive.

— É verdade. E, conhecendo-o tão bem, posso dizer que fiquei bem surpresa de encontrá-la aqui com ele.

— Acredite, eu também fiquei — concordei, deslizando a mão pelos cabelos, agora bagunçados em ondas rebeldes. — Jacob não me disse muita coisa naquela droga de bilhete…

Marlena pestanejou.

— Bilhete?

— Sim, o que ele me mandou mais cedo. Eu só aceitei vir porque estava começando a ficar louca de passar tantas horas naquele quarto sozinha.

— Então, Jacob mandou um bilhete para você!? — Ela sorriu incrédula, balançando a cabeça ao liberar a fumaça entre os lábios. — Tudo bem, isso é novidade.

— Como assim?

— Bem, é só que ele recebe muitos bilhetes das hóspedes — ela comentou, revirando sua azeitona na sua bebida distraidamente — mas não costuma entregar nenhum.

Muitos bilhetes. Com aquela cara de cafajeste, não me surpreendeu em nada descobrir que Jacob Jankowski tinha reais motivos para ser tão presunçoso o tempo todo, mas isso não significa que a informação não mexeu com meu ego.

— Talvez ele só tenha ficado com pena da minha desgraça social.

Afinal, que outro motivo teria para me chamar para sair depois de todas as farpas que trocamos nas últimas semanas?

— Aqui vai uma informação crucial para você que está sendo obrigada a conviver com ele todos os dias; Jacob não sente pena de si mesmo, muito menos dos outros.

Um sorriso afiado curvou seus lábios e eu encarei o loiro mais adiante, encurralado no corredor dos toaletes por uma morena de seios fartos e pele bronzeada. Percebi então que estava muito ciente do tipo de cara que Jacob era, a julgar pelo seu charme e humor ácido.

Ele tinha quem queria — e todas o queriam.

— Mas, não pense muito sobre isso — aconselhou Marlena, tocando minha mão sobre o balcão. — Estamos aqui para nos divertirmos e não para futricar sobre homens.

— É claro — assenti, sorrindo quando a música mudou para uma canção mais lenta.

— Você quer vir? Posso lhe ensinar algumas coisas…

— Estamos fora do country club, Marlena. Deixe a garota beber em paz — disse Jacob, se enfiando entre nós duas ao se apoiar de costas no balcão. — Vá lá dar o seu show.

— Hum, sempre um intrometido — ela revirou seus olhos castanhos, antes de retornar para a pista.

— Por que voltou tão rápido? — Questionei, bebericando do drink ao me virar para ele. — Aposto que a moça ali ficou decepcionada por não ter a sua próxima dança.

— Bem, eu a trouxe até aqui — ele pontuou, coçando a sobrancelha, um pouco sem jeito. — Todas as minhas danças já estão reservadas.

— Privilégios porque sou a sua aluna?

— Privilégios de ser a minha convidada.

Sorri, observando alguns pares se formando no salão, incluindo Marlena, que agora estava acompanhada de um loiro charmoso.

Quando retornei minha atenção para Jacob, encontrei seus olhos sobre meus lábios com uma intensidade que me fez suar. O que diabos ele estava fazendo comigo? Por que não podia apenas ser o chato de galocha que pegava no meu pé todos os dias durante as aulas?

Era tão difícil me conter quando ele estava sendo legal.

— Com a honra da sua exclusividade, acho melhor eu aproveitar, então — disse ao lhe estender a mão.

Jacob virou minha bebida rapidamente e devolveu o copo vazio para o balcão, reagindo ao meu olhar de reprovação com apenas um leve dar de ombros.

— O que? Ser gentil me deixa com sede.

— Você não muda mesmo.

E estávamos de volta no meio da pista, apenas um casal desconhecido como qualquer outro.

Minhas mãos deslizaram involuntariamente por seus braços fortes até envolverem o seu pescoço. Jacob fez o mesmo, escorregando-as para a minha cintura até que estivéssemos perto o bastante para sua respiração morna tocar o meu rosto suavemente.

— Por que me trouxe aqui? — Questionei, sem nem mesmo pensar antes que as palavras saíssem. — Marlena me disse que não costuma enviar bilhetes para as damas no meio da noite, especialmente para aquelas que detesta.

Ele sorriu de lado quando seus dedos acariciaram a base de minhas costas, me fazendo tremer.

— Marlena é uma fofoqueira intrometida, não dê ouvidos a ela.

— Sem respostas atravessadas — sussurrei enquanto apenas nos balançávamos suavemente no ritmo da música. — Somente a verdade.

— Acho que fiquei curioso.

— E com o que?

Ele me girou, dessa vez, devagar.

— Você me disse que às vezes precisava fingir ser algo que não é. Então, me perguntei, por quê alguém fingiria ser uma megera? — Ele riu quando bati levemente no seu braço. — Cheguei a conclusão de que talvez você poderia ser… interessante quando não estava fingindo.

— Ou talvez eu só estivesse fingindo ser uma megera com você — provoquei.

— É uma probabilidade — concordou, piscando para mim. — Mas, acho que já descobri um pouco sobre quem é Vonnie Stern.

— Ah, é? — Ergui as sobrancelhas, interessada. — E o que você descobriu?

— Que é uma péssima dançarina e que odeia pobres miseráveis, como eu — pisei no seu pé, dessa vez, de propósito. Jacob fez uma careta, fuzilando-me com os belos olhos cor de esmeralda, mas continuou com a dança. — E que, por Deus, tem um gênio dos infernos!

— É a primeira vez que ouço isto.

— E que, apesar de ser uma estrela de Hollywood, mente muito mal.

Revirei os olhos e no momento seguinte o loiro virou-me de costas para ele, aproximando ainda mais seu corpo do meu durante a dança. E, por algum motivo, me concentrei na sua respiração irregular aquecendo meu pescoço quando ele inclinou a cabeça, seu peito subindo e descendo contra mim de uma forma que eu pude sentir seu coração martelando feito uma máquina.

Estava delirando ou ele estava experimentando meu cheiro? O álcool realmente devia estar começando a me afetar gravemente.

Logo, concluí que Jacob Jankowski estava certo em todas as suas anotações mentais sobre mim, mas eu não assumiria a responsabilidade de confirmar qualquer coisa a ele.

— Não vai me corrigir? Nem dizer que estou equivocado? — Questionou quando continuei em silêncio.

— É apenas a sua interpretação rasa sobre a minha pessoa, não vejo porquê ficaria ofendida. Já dizia Freud: primeiro deve-se aprender a se conhecer, para só então conhecer o outro — inclinei a cabeça para trás para olhá-lo nos olhos e nossos rostos estavam tão próximos que um mínimo movimento selaria o espaço entre nós. — Mas eu ainda não concluí minha jornada de autoconhecimento, como poderia contradizê-lo?

— Ah, eu não faço ideia de quem ele seja, mas foram bonitas as palavras. Até que fazem algum sentido.

Jacob envolveu seus braços ao meu redor quando ri com ele, então acabei com a cabeça apoiada em seu peito. Pois, era quente e seguro ali.

— Sabe, acabei de descobrir mais uma coisa: gosto de ouvi-la tagarelar quando não está reclamando — brincou, balançando-me suavemente nos braços.

E continuamos assim até o fim daquela canção, apenas ouvindo um ao outro enquanto parecíamos confortáveis demais em uma dança que não envolvia ritmos e nem coreografias.


Não sabia apontar exatamente por quantas horas bebemos e dançamos antes de deixar a discoteca juntos, cambaleando pelas calçadas enquanto cantarolávamos algumas das músicas italianas que nos embalaram durante a noite — ou pelo menos, Jacob cantava, enquanto eu fingia entender alguma coisa do seu idioma. Depois de algum tempo longe de minha vida, eu não conseguia me lembrar de uma só razão para retornar para ela, nem mesmo queria voltar.

Dessa forma, recusei o convite de Marlena para retornar com ela ao country club, após a festa, e segui com Jacob rua acima, para onde ele me garantiu ser uma vista privilegiada da vila.

Enquanto tropeçávamos pelos blocos irregulares de pedras no caminho, Jacob me contou sobre a antiga casa solitária no alto da colina.

— Trabalho em Portofino há uns cinco verões — disse ele com a voz um pouco arrastada —, mas conheço pessoas que passaram a sua vida inteira aqui e jamais viram sequer um morador nesta casa depois que foi desocupada. Ela apenas está lá à venda há décadas, como um maldito fantasma solitário no topo da vila.

— Como uma casa mal-assombrada! — Acrescentei com espanto, àquela altura eu já me agarrava em seu braço para não acabar caindo de cara no chão. — Você… você não está me levando para ver fantasmas, está?

Ele balançou a cabeça, subindo a ladeira com determinação.

— Não, tenho quase certeza de que as almas dos velhos não ficaram presas lá.

Congelei, parando para encará-lo.

— Do que você está falando?

— Os antigos donos da casa — ele gesticulou. — A esposa bateu as botas há muito tempo e o marido ficou sozinho. Me contaram que ele era louco por ela, sempre eram vistos andando de mãos dadas até a feira no centro para fazer as compras de manhã. Um dia, depois da morte dela, o velhote simplesmente parou de fazer as compras… Os vizinhos o encontraram sem vida na sala de estar, sentado na poltrona enquanto abraçava o retrato da mulher.

— Ah, meu Deus — abracei o próprio corpo enquanto caminhava, lamentando. — Por que me conta essas histórias? Estamos sozinhos no meio da noite!

— Vamos, não seja uma maricas — ele retrucou, puxando-me de volta para si ao envolver o braço ao redor de meus ombros. — Não é como as histórias de fantasmas que se ouve por aí, tem uma pitada de beleza nisso tudo, consegue sentir?

Pestanejei, erguendo os olhos para encará-lo.

— Beleza?

— É! — Afirmou, determinado a explicar a seu pensamento. — Não acha poético que os dois tenham se amado durante toda a vida? Em algum momento, ambos juraram permanecer juntos até o fim e cumpriram isso! É, basicamente, a representação mais clichê do amor romântico.

— Você só pode estar brincando — bufei, cética. Minha reação fez desaparecer aquele sorriso esperto no seu rosto — O amor é uma grande baboseira. Onde você enxerga beleza e romance, só enxergo a dor e a morte, a perda que leva alguém a sua própria ruína de bom grado.

— É o que todos procuramos, não é? — Pontuou, postando-se na minha frente como o enxerido que era. — Amar e ser amado… Que sentido a vida teria sem isso? Mesmo que nos leve a fins trágicos e a uma ruína inevitável. Não acha que esse sentimento possa transformar alguém de tal forma que esse destino se torna não só pacífico, como também esperado?

— O amor é loucura.

Retruquei, desviando dele para continuar a caminhada tranquila.

— Mas também é cura.

— Simplesmente, não posso compartilhar de seu ponto de vista. Talvez nem consiga.

— Ou, talvez, apenas nunca tenha amado, Srta. Stern.

Parei quando as palavras me golpearam.

Jacob Jankowski, mais uma vez, estava certo sobre mim. Eu não poderia ter quaisquer expectativas em relação ao amor, não quando tudo o que conhecia era o abandono, a manipulação e o controle.

Relações intensas e duradouras eram apenas um conto de fadas para mim.

Naquele momento, as nuvens opacas pincelando o céu escuro da madrugada eclodiram em um estrondo, anunciando a tempestade que poucos segundos depois começou a cair sobre nós. Rapidamente, Jacob estendeu o meu casaco amarelo que carregava, segurando-o sobre minha cabeça enquanto me abraçava para oferecer apoio quando começamos a correr.

Minhas pernas tremiam quando alcançamos a casa velha no alto da colina.

No momento em que atravessamos o portão no jardim abandonado e a fachada de madeira desgastada, notei que aqueles detalhes conferiam uma aparência solitária ao local, mas de forma alguma o transformava no cenário de um filme de terror, como imaginei que seria.

— É aqui?

Virei-me em direção a porta com rachaduras, onde trepadeiras se agarravam às paredes, junto das camadas espessas de teias de aranha.

— Sim — Jacob apenas girou a maçaneta com familiaridade e, com um rangido, a porta se abriu. — Eu sei, não é muito impressionante, mas precisa conhecer por dentro. Apenas um pouco de imaginação e…

— Isto não é ilegal? Quer dizer, eu não posso ser presa agora, estou no meio das gravações de um filme.

— Bem, em tese, poderíamos ser presos. No entanto, eu nunca fui.

— Que belo argumento.

Ele sorriu de lado, erguendo os ombros.

— Primeiro você, Sr. Jankowski.

— Dane-se o cavalheirismo, é o que sempre digo! — Disse com ironia, então avançou para dentro da escuridão suave.

O piso de madeira estalou com nossos passos e meus olhos passearam ao redor, por onde o papel de um rosa floral descascado exibia enormes falhas do tempo e da umidade nas paredes, entre os inúmeros porta-retratos pendurados. Sem dúvidas, a casa se tratava de um baú de memórias, pois contava sua história sozinha.

Benvenuti nella casa dei fantasmi — Jacob cantarolou com seu sotaque forte ao abrir os braços no meio da sala, molhando todos os cantos possíveis enquanto se movia, encharcado pela chuva.

Me aproximei da escadaria puída do lado direito, onde uma trilha de fotografias antigas se formava, incluindo uma de casamento, onde um jovem casal posou lado a lado em seus trajes elegantes. Cautelosamente, arrisquei avançar dois degraus para observar o andar de cima com curiosidade, a madeira do piso rangeu alto, mas isso não me impediu.

Jacob tinha razão, afinal.

Eu podia usar a imaginação e enxergar o lar caloroso e confortável que aquela casa um dia fora para o casal. Conseguia imaginar a lareira no canto esquerdo acesa nos invernos, aquecendo-os enquanto passavam as noites no velho sofá cor de canela, lendo um dos livros agora empoleirados na estante.

Um lar. Era o que aquele lugar representava.

Ainda que o tempo o tivesse consumido, aquele pequeno sentimento de pertencimento ainda vivia ali.

— É tão grande… — comentei, distraída com o caminho para onde a escadaria levava. — Já foi lá em cima?

— Não, tenho amor à minha vida — ele se recostou na lareira abandonada, balançando os cabelos que gotejavam pelo seu belo rosto. — Na primeira vez que vim até aqui, tentei subir os degraus, mas não foi uma boa ideia. Está vendo aquele buraco ali?

Apontou, fazendo-me enxergar a enorme fenda no piso, em um dos degraus. Arregalei os olhos ao virar-me para ele, recuando para longe das escadas.

— Pois é, não foi muito legal.

— Como encontrou esse lugar?

— Há uns cinco anos, Marlena havia conseguido o emprego no country club e me recomendou para uma vaga de concierge. Como eu ainda não havia sido aprovado, não podia me dar o luxo de ficar hospedado no seu alojamento, afinal as políticas são bem rígidas sobre hóspedes. Eu não tinha dinheiro para ficar em uma pensão, então tive que encontrar um jeito de não dormir na rua enquanto esperava por uma resposta. Em uma noite chuvosa como esta, acabei aqui.

— Mas e a sua casa?

— Vivo em um quarto alugado onde a água quente nunca funciona e as paredes são tão finas que consigo ouvir os vizinhos fazendo sexo no meio da noite, mas não fica aqui em Portofino — contou-me, observando enquanto eu espalmava o estofado do sofá; provocando uma nuvem de poeira que me fez tossir, antes de me sentar na beira para ouvi-lo com atenção — Eu sou de Montepulciano, uma cidadezinha na Toscana. Lá eu trabalho em um pouco de tudo, mas como pode imaginar, não existem muitas oportunidades de emprego. Por isso, em todos os verões, venho até Portofino para virar o concierge e dar algumas aulas de dança no country club.

— E retorna para casa depois — concluí.

Jacob assentiu, desviando o olhar para suas vestes ensopadas.

— Ah, vamos acabar resfriados desse jeito.

— Tem razão — só então, me dei conta do estado das minhas próprias roupas. Naquele momento, não deixei de pensar no que meu agente diria, afinal eu me parecia com qualquer coisa, menos com uma estrela de cinema. — Pelo menos…

Quando ergui a cabeça novamente para fita-lo, Jacob já havia desabotoado a sua camisa molhada. Segundos depois, puxou a regata pela cabeça, exibindo todos aqueles músculos torneados na fraca luz do luar que entrava pela janela.

Minha versão sóbria teria virado o rosto para o lado oposto, as maçãs do rosto coradas de constrangimento. No entanto, não pude fazer menos do que me distrair com seu físico exuberante, levemente impressionada pela forma como a nudez não parecia lhe incomodar nem um pouco.

— Acho que elas ficarão mais secas logo, pelo menos o bastante para não acabarmos doentes — disse ao pendurar suas roupas no corrimão da velha escada comprometida. Então, se virou para estender a mão na minha direção — Quer que eu estenda o seu casaco?

Mas eu estava babando naquele abdômen definido, naquelas entradas descendo até a calça…

— Vonnie? — Chamou, mais alto, fazendo-me acordar da completa hipnose. — Tudo bem?

— É cla-claro — assenti, entregando-lhe a peça. — Obrigada.

Pervertida, era o que Jacob deveria estar pensando de mim agora.

Me movi para o mais longe possível dele, até uma janela quebrada onde poderia respirar ar puro e fugir de meus devaneios eróticos. Talvez a bebida estivesse confundindo meus sentidos, Jacob Jankowski definitivamente não era aquilo tudo que eu estava vendo, não poderia ser.

— Acho que teremos que esperar a chuva passar — disse ao se aproximar, vestindo somente aquela maldita calça. Eu passaria bravamente por aquele teste — Se soubesse que cairia uma tempestade como essa, nem mesmo a teria convidado para a festa…

— Não, está tudo bem. Foi muito divertido.

— Mas, isso vai colocá-la em maus lençóis no seu trabalho amanhã, não vai?

— Vai, com certeza. Eu deveria estar na cama esta hora, nem sei o que meu empresário diria se soubesse dessa fuga — respondi com sinceridade, sorrindo de lado quando Jacob suspirou, apoiando suas mãos grandes na beira da janela. — Mas, todo mundo precisa de uma folga, certo?

— Concordamos em alguma coisa, finalmente.

Ele sorriu, virando seu rosto para olhar para a tempestade que nos rondava do lado de fora.

Continuei observando-o por algum tempo, apenas distraída com seus traços retos e tão esculpidos. Jacob era tão bonito; não como os galãs de cinema que eu estava acostumada a assistir, mas bonito como um paraíso tropical — quente e tempestuoso.

— Eu nunca lhe agradeci pelo o que fez por mim — murmurei, desviando o olhar para meus próprios pés, incapaz de encará-lo enquanto me sentia tão exposta.

Jacob virou-se para me fitar, curioso.

— Se refere ao convite que salvou a sua noite do completo tédio? — Um sorriso felino dançou em seus lábios, lembrando-me daquela arrogância nada velada que se misturava no seu tom de voz.

— Não, mas pode incluir no pacote de agradecimentos se quiser — acrescentei ao piscar de soslaio, internamente sentindo-me derrotada em ter de admitir que ele tinha razão. — Na verdade, me refiro à noite em que… Bem, você sabe, quando passei por aquela crise.

— Ah.

Pude sentir seu olhar queimando na minha pele e esperei pelo julgamento ao lembrá-lo do episódio constrangedor, que fizesse qualquer piada ácida somente para fugir da densidade que eu acabara tecendo sobre nossas cabeças. Mas, ela nunca veio e qualquer leveza no seu semblante se esvaiu.

— Eu fiquei muito preocupado com você — comentou; seu tom, desta vez, era tenso demais para que eu detectasse qualquer resquício do sarcasmo que ele usava para me provocar. — Praticamente congelei quando desmaiou, não sabia o que fazer para ajudá-la.

— Você fez o que podia fazer — tranquilizei-o com um leve assentir. — Me segurou e não me deixou sozinha para sufocar na escuridão… Não sei se qualquer outra pessoa teria feito o mesmo, na maioria das vezes, não tenho essa sorte. Então, obrigada.

Deixei um sorriso fraco escapar, mas não pareceu convincente. Jacob teve a mesma impressão ao se aproximar, falando tão baixo como se estivesse compartilhando um segredo — e, por Deus, quanto mais tempo passava ao seu lado, mais vontade tinha de me abrir com ele.

— Aquilo acontece com frequência? — Indagou, a preocupação genuína e contida cintilando na sua voz aveludada.

— Na verdade, não. Mas ficaram mais frequentes depois que comecei a atuar. Costuma acontecer quando estou em um nível de nervosismo muito grande, o qual perco o controle — suspirei, dedilhando meus cabelos úmidos e embaraçados. — Começaram quando eu era criança e, para ser sincera, ainda não sei dizer o motivo.

— Seus pais nunca a levaram a um médico para tratá-la?

— Ah, não. Meu pai não era um cara muito presente e minha mãe… Bem, ela achava que eu estava querendo chamar a atenção.

Pois, era mais fácil acreditar naquela mentira do que assumir a responsabilidade de fazer alguma coisa.

— Eu sinto muito — sua mão tocou meu pulso delicadamente, os dedos ásperos roçaram contra a maciez de minha pele e quase perdi o fôlego, como na primeira vez em que aquilo aconteceu.

Meu olhar recaiu sobre aquele ponto em que nos conectamos, onde o calor e a corrente de afeto me fizeram entender que Jacob não só me ouvia, mas compreendia. Quando ergui a cabeça para encará-lo, percebi que talvez eu não era a única a tirar conclusões.

Ele se afastou bruscamente, como se tivesse sido pego em flagrante, e minha parte primitiva desejou gritar pelo cômodo: VOLTE, ME TOQUE NOVAMENTE. Mas estávamos em um terreno perigoso e traiçoeiro, eu deveria segurar aquele impulso que me deixava tão vulnerável perto dele.

— Está tudo bem, isso de alguma forma ajudou a me tornar a pessoa incrível que conhece agora — disse com um sorriso presunçoso.

Jacob riu baixo, mas ainda parecia envolvido demais na conversa, com seus olhos brilhando com interesse. Decidi que deveria cortar as suas asas rapidamente antes que resolvesse continuar.

— Okay, chega desse assunto. Não quero entediá-lo com a minha vida depois de ter me chamado para sair.

— Não, fique aqui — pediu, puxando-me de volta pela cintura quando tentei me afastar. Sua mão pescou o meu queixo, erguendo meu rosto para olhá-lo profundamente nos olhos quando sussurrou: — Eu estou finalmente entendendo você e agora decide fugir? Não é assim que as coisas funcionam, Srta. Stern.

— As coisas funcionam como eu digo que funcionam.

Minha provocação o fez reprimir um sorriso.

— Devo admitir que a sua capacidade de acabar com o clima de qualquer coisa é realmente impressionante.

— Clima? — Ergui as sobrancelhas, disposta a fazê-lo jogar o meu jogo. — Desculpe, do que exatamente você está falando?

— Está fazendo de novo — ele balançou a cabeça levemente, semicerrando os olhos. — Você foge do assunto, me distrai e escapa…

Ele não se moveu quando deslizei a palma de minha mão suavemente pelo seu peito, sentindo as batidas furiosas de seu coração contra a pele morna. Aquela máscara que tomava sua face, esquadrinhando-me minuciosamente, vacilou.

— Mas sempre acabo presa na sua gaiola, não é? — Sussurrei, olhando-o sob os cílios.

Sua respiração se tornou irregular e ele enrijeceu abaixo de meus dedos, como eu ficara nas vezes em que Jacob me tocou durante as aulas. Percebi, com alívio, que tínhamos o mesmo efeito um sobre o outro.

Jacob continuou em silêncio, apenas correndo aquele olhar misterioso pelo meu rosto impassível. Em outras circunstâncias, eu já teria desviado o olhar, constrangida demais com a intensidade que ele parecia depositar sobre mim, como se estivesse buscando no fundo de minha alma todas as respostas que precisava.

No entanto, enxergá-lo tão de perto revirou a minha imaginação.

Logo pensei em como seria se eu simplesmente esticasse os dedos para tocar a sua mandíbula marcada, onde agora os lábios entreabertos pareciam tão convidativos; como seria a sensação de sua barba sutil pinicando contra a minha pele quando ele se inclinasse para beijar meus pontos mais sensíveis; ou como seria ter o seu calor me envolvendo quando Jacob depositasse seu peso sobre mim.

Conclui, rapidamente, que deveria honrar o seu convite. Eu já não precisava mais fingir.

— Você ainda me odeia? — Questionei, piscando pesadamente enquanto sentia seu hálito alcoólico adormecer a minha boca, tão próximo…

— Eu não poderia — confessou ao deslizar o polegar pela minha bochecha, provocando-me um arrepio febril quando fechei os olhos. — Nem mesmo se quisesse.

— Então, me diga — sussurrei, deslizando a língua pelos lábios, tão disposta a me inclinar até ele. — Por que sinto que somos iguais em mundos diferentes?

Ele piscou, confuso. Talvez perguntasse a si mesmo para que tipo de joguinho eu o estava conduzindo.

— Simples, não somos.

— Sabe que não é verdade — retruquei, convencida. — Você é como eu e posso ver isso tão claramente agora que me assusta. Agimos do mesmo jeito, impulsivos e inconsequentes; Odiamos com a mesma força irracional, quando no fundo só estamos com medo do que a verdade significa…

— O que? — Sua voz saiu como um sopro; uma lufada quente do desejo que ele já não podia mais disfarçar. — O que ela significa?

— Que não podemos mais fingir.

Jacob não pareceu nem um pouco surpreso quando atirei os braços em volta do seu pescoço; como se seus instintos mais profundos o deixassem palpar a intensidade de meu desejo em combustão. Sua mão escorregou para a minha nuca, entrelaçando os dedos em meus cabelos quando inclinei-me para escovar os lábios nos seus suavemente — testando o quão livre eu estava para explorá-lo do jeito que queria antes de me afastar, apenas o bastante para compartilharmos o mesmo fôlego.

Ao olhar naqueles olhos verdes, buscando a permissão que precisava, acabei embebida no brilho mais intenso de luxúria. Jacob não só permitia que eu o invadisse, mas parecia necessitar disso, esperava por isso. Não tive mais dúvidas de suas intenções quando ele chocou seus lábios de volta nos meus — exigente, selvagem, descontrolado.

Eu não consegui pensar em mais nada.

Deixei minha língua percorrer o seu lábio inferior, saboreando a maciez antes de ser engolida completamente pelo calor das chamas que Jacob emanava diretamente sobre mim, queimando-me de dentro para fora quando ele inclinou minha cabeça para o lado com um leve puxão, aprofundando o beijo.

Não me envergonhei pelo som de prazer que deixei escapar ao sentir sua mão tracejando um caminho por minha cintura e quadril, as vestes molhadas se tornando tão finas que eu quase pude sentir os dedos calejados roçando contra mim, aumentando a vontade de realmente ter aquelas mãos pressionando minha pele. Jacob não vacilou ao puxar meu lábio nos seus, chupando e mordiscando enquanto nos movemos até me chocar contra a parede; a forma como seu corpo se acomodou em minhas curvas, como peças de um quebra-cabeça, me fez perder o único fôlego que guardava.

— Jacob — murmurei uma lamúria quando ele afundou a sua boca em meu pescoço, o calor de sua língua era o suficiente para me fazer amolecer ao mínimo deslize dela. Em resposta, o loiro apenas grunhiu ao agarrar minha coxa em volta do seu quadril, aquele polegar deslizando preguiçosamente sobre minha meia-calça. — Eu…

— Eu sei — ele respondeu, ofegante. Só então percebi minhas mãos envolvendo os botões de sua calça, mas Jacob encostou a testa contra a minha, congelando meus próximos movimentos com aquele olhar penetrante. — Também quero… muito.

A hesitação passou pela sua face como uma tempestade desavisada; arrasando meus planos por completo.

— Mas?

— Mas você está bêbada, Vonnie — lembrou-me dolorosamente. — E eu tenho uma regra pessoal sobre isso.

— Não estou tão bêbada — insisti, subindo minhas mãos pelas ondulações rígidas de seu abdômen. — Estou sendo sincera, eu quero isso… tanto quanto você.

Ele segurou meus pulsos delicadamente, impedindo-me de continuar. Minha expressão deve ter desabado quando Jacob se afastou alguns centímetros, o bastante para que não fosse tentador demais para ele.

— Hoje não — insistiu, liberando-me de suas mãos. — Eu lhe trouxe até aqui para ver a vista da costa.

— Mas não tem vista nenhuma aqui — rebati, impaciente. Me afastei até o outro lado, correndo minha mão pela testa e pescoço que agora suavam em bicas, na verdade, a casa abandonada parecia uma verdadeira fornalha naquele momento. — Deveria inventar desculpas melhores e menos piedosas para rejeitar alguém, isso eu irritante.

Apesar do meu tom afiado, ouvi a risada divertida ecoando antes dos braços fortes envolverem minha cintura novamente por trás. Dessa vez, o abraço não era de reivindicação, mas carinhoso de uma forma que me pegou de surpresa.

— Acha mesmo que eu a estou rejeitando?

— Se achasse, você estaria sem bolas agora.

Ele riu mais alto em meu ouvido e, por mais que tentasse sustentar meus modos de não falar daquele jeito rude, não me senti realmente constrangida por fazê-lo. Não com ele.

— Você é realmente terrível — disse ao beijar a minha bochecha. Eu já estava amolecendo outra vez quando ele sussurrou: — Mas eu teria que estar no maior estado de insanidade para rejeitá-la.

Virei a tempo de deixá-lo me ver revirar os olhos para suas cantadas galantes.

— Aí está ela de novo, eu já estava estranhando — não segurei o sorriso mínimo que curvou meus lábios e Jacob segurou em minha mão, guiando-me até as portas duplas em ruínas. — Para não sair por aí dizendo que eu não cumpro minhas palavras, aqui está.

Ele agarrou as maçanetas empoeiradas e empurrou as longas portas de veraneio na sala. A lufada de ar frio da tempestade me fez encolher ao varrer meus cabelos furiosamente, mas não foi por esse motivo que fiquei sem palavras.

A visão do paraíso distorcido; de nuvens escuras e ondas turbulentas quebrando nas rochas irregulares da costa, me fizeram arfar. A torrente de vento cortante doeu em minhas bochechas quentes, mas ignorei os tremores que desestabilizaram meu corpo e apenas foquei minha atenção naquela bela imagem do alto. O local — antes quente e ensolarado; exuberante e de frescor — havia se partido para recriar aquela tela de cores sombrias e devastadoras, mas ainda assim impossivelmente mais bela.

— É… é lindo — murmurei ao dar um passo adiante, ignorando o frio que me fazia bater os dentes e a chuva que jorrava levemente na minha direção.

— Isso não é nada parecido com o que imaginei lhe mostrar, a tempestade atrapalhou os meus planos.

Confessou ao parar ao meu lado, enfiando as mãos nos bolsos casualmente enquanto me fitava.

— Não, assim está perfeito — sorri para ele, deslumbrada. — Veja como é bonito, furioso, imperfeito… e é real.

Pois, suas sombras e fúria não anulavam a exuberância da noite escura. De repente, me peguei pensando nas misturas de cores que deveria formar para chegar àqueles tons em uma possível retratação da paisagem em tela branca, mas afastei a ideia antes de me lembrar da garotinha que amava pintar na infância — a que deixei para trás há muito tempo.

Jacob me compreendeu muito rapidamente e olhou-me com um sorriso contemplativo.

— Tem razão.

Retornamos para dentro somente quando ele percebeu o quanto eu me encolhia para disfarçar os tremores — afinal, não queria abandonar a vista e toda a sua majestosidade.

Exploramos o andar de baixo da casa — sua cozinha espaçosa de paredes amarelas e armários largados às traças; o quarto de hóspedes no fim do corredor com uma enorme cama de dossel consumida pelo tempo; e o escritório com uma biblioteca modesta. Mas acabamos de volta na sala de estar, jogados no antigo sofá empoeirado, conversando amenidades — e trocando beijos não tão inocentes assim.

A tempestade cedeu em algum momento da madrugada e o céu assumiu uma paleta de cores entre o azul e o violeta gradiente quando caí no sono, envolvida na voz mansa enquanto descansava nos braços de Jacob.


De manhã, despertei com os raios de sol atravessando as rachaduras nas janelas e emanando seu calor no meu rosto. Pisquei com força ao erguer a cabeça da superfície macia, demorando alguns segundos para me dar conta da mão repousando em meu ombro e costas, enquanto olhava ao redor, para a casa em ruínas.

Só então o lugar começou a fazer sentido para mim e me virei para fitar Jacob, adormecido no estofado puído com o rosto sereno de olhos fechados e respiração tranquila, trazendo à tona todas as lembranças da noite passada como um turbilhão em minha mente.

Eu realmente fizera tudo aquilo?

Parecia difícil acreditar, mas não pude deixar de fazê-lo, não quando encarei aqueles lábios cerrados que, horas antes, praticamente implorei para beijar — ou aquele corpo escultural, com músculos delineados que eu adoraria tocar…

Eu estava ferrada. Tão fodidamente ferrada.

— Que droga — gemi baixinho, varrendo os cabelos embaraçados com os dedos enquanto refletia sobre meus impulsos causados pelo álcool. — Que droga, que droga, Vonnie!

Jacob se moveu logo abaixo de mim, os lábios formando um biquinho tão fofo que eu sorri apenas com a ideia de me inclinar para tocá-los com os meus. Okay, pare agora. Mas seus olhos se abriram preguiçosamente e ele sorriu de lado ao me encontrar observando-o.

— Ei — ele murmurou meio grogue, sua mão deslizando pelo meu braço em uma carícia lenta. — Que bom que eu não sonhei.

— Não sei se eu chamaria de sonho acordar em uma casa abandonada no meio do nada — brinquei, arrancando-lhe uma risada baixa. — Bom dia, Sr. J.

— Ah, ele com certeza parece bom — ronronou, abraçando-me pela cintura com aquele olhar felino brilhando em seus olhos.

Quando me inclinei para deslizar a mão pelos seus cabelos claros — incapaz de controlar aquele impulso de tocá-lo —, a enorme fresta de luz do sol cruzou a sala diretamente até o meu rosto, o calor ardeu contra minha pele e eu arregalei os olhos ao me dar conta.

— Jacob — congelei, fitando-o assombrada. — Que horas são?

— Eu sei lá… — ele se sentou, esfregando os olhos enquanto enfiava a mão no bolso da calça, puxando o relógio para checar. — São… nove e…

— Ah meu Deus, Steve vai arrancar a minha cabeça! — Pulei para fora do sofá, sobressaltada. Então caminhei até o corrimão da escada para recolher as roupas secas de Jacob e atirei-as no seu peito — Vamos, vista-se! Eu preciso voltar agora.

— Merda — ele xingou baixinho, enfiando a cabeça pela regata sem se importar que estivesse do avesso. — Precisamos correr!

Durante todo o caminho de volta, tentei criar mentalmente uma desculpa para meu sumiço desavisado — e cheguei a conclusão de que era uma péssima mentirosa. Steve não me daria chances de enganá-lo, e provavelmente eu ficaria nervosa demais para fazê-lo. Mas, de uma coisa tive certeza; eu não arrastaria Jacob para a lama comigo.

— Tudo bem — disse quando finalmente paramos em frente a entrada do country club. — Você não pode entrar comigo, ninguém pode nos ver juntos.

— Acha que eu não sei? — Ele se virou, checando ao redor para ter certeza de que não havia alguém à espreita. — Escute, eu vou entrar primeiro e depois você entra…

Fechei a cara, encarando-o com indignação.

— Por que você tem que entrar primeiro? Eu vou entrar primeiro, há uma equipe inteira esperando para me estrangular lá dentro! — Argumentei, impaciente.

— Eu também tenho! Vou ter que dizer ao Sr. Esposito que uma das hóspedes me ocupou com aulas até mais tarde ontem e esperar que ele não me demita por mais um atraso.

— Bem, não é de todo uma mentira… mas, eu ainda vou primeiro.

Jacob me encarou com um olhar determinado, esperando que eu cedesse àquela discussão. Mas deve ter percebido que aquilo duraria o dia inteiro se dependesse de mim, afinal éramos dois teimosos irreparáveis.

Ele bufou, rendendo-se como um bom perdedor.

— E o que eu faço se alguém me encontrar aqui parado?

— Eu sei lá, você inventa alguma coisa ou pode se esconder nos arbustos — retruquei, sorrindo com diversão enquanto ele me fuzilava com os olhos. — Sei que vai se sair bem.

— Você me paga, Vonnie.

Xingou, dando de ombros enquanto se movia em direção aos arbustos no jardim ao redor da entrada, mas no meio do caminho, retornou correndo e agarrou-me pela cintura, beijando-me contra o muro de pedras. Sua boca parecia o sol engolindo-me em todo seu calor e eu me deixaria queimar se ele não tivesse se afastado tão rápido, deixando-me para trás para retornar à minha vida.

Alguns hóspedes lançaram olhares tortos para minha aparência desleixada e eu me esquivei da área externa onde todos tomavam café-da-manhã, mas não consegui passar despercebida quando alcancei o corredor do meu quarto.

Jane me esperava, recostada na porta do quarto com a cabeça baixa e as mãos unidas em frente ao corpo, ouvindo a enxurrada de desaforos de Steve enquanto ele se movia de um lado para o outro, soltando fumaça pelos ouvidos. Me senti culpada pela loira imediatamente, mas não tive muito tempo para remorsos quando o empresário me encontrou no fim do corredor.

— Sua irresponsável! — Ele rosnou, avançando até mim e agarrando meu braço enquanto praticamente me arrastava para o quarto. — Nós vamos ter uma conversa, não pense que você vai se safar.

Steve empurrou Jane da frente antes de me enfiar porta adentro, atirando-me como se eu não fosse mais do que a poeira debaixo de seus sapatos. Tremi quando tropecei no carpete e quase caí, reunindo forças para me virar e enfrentar a sua fúria sobre mim.

— O que você tem na cabeça, sua estúpida!? — Cuspiu, amaldiçoando-me com aqueles olhos escuros. — Eu tenho feito de tudo para fazer de você alguém importante e é assim que me retribui!? Onde você estava?

— Eu…

Pense em alguma coisa, pense agora, pense!

— Eu… — minhas próximas palavras não podiam sair menos idiotas. — Eu estava com a Srta. Rosenbluth.

Um vinco profundo surgiu entre as sobrancelhas enquanto me encarava.

— A professora de dança?

— Sim — assenti, ansiosa. — Pedi a ela que me desse aulas extras de noite porque queria avançar o processo até às gravações, mas ficamos até tarde praticando e… Bem, a Srta. Rosenbluth acabou me deixando dormir no alojamento dela.

— E por que você não voltou para o quarto depois da aula?

— Estava muito tarde, Steve. Ela apenas foi gentil…

— Quer que eu acredite nisso? Você não tem desculpa para retornar a essa hora e cancelar todos os seus compromissos!

— Eu perdi a hora! — Disparei aos berros — Sinto muito, eu irei cumprir com tudo o que perdi, mas não posso mudar o que já aconteceu.

Steve bufou, dando de ombros ao caminhar pelo quarto. Parecia muito determinado em conter os ânimos, mas eu ainda estava em choque. O moreno não costumava ser rude ou cruel, mas ali estava ele, lembrando-me de que eu ainda era o mesmo lixo encontrado na sarjeta do subúrbio de Los Angeles.

Percebi então que só o conhecera naquele momento; quando o desobedeci pela primeira vez.

— Escute aqui, Vonnie — ele se aproximou; a voz baixa e letal enquanto apontava o indicador na minha cara. — Você não vai me enganar. Vou tirar essa história a limpo e se eu descobrir que está mentindo, vai se arrepender de tentar me passar a perna, ouviu?

Seu silêncio prolongado atirou um enorme peso em minhas costas, então assenti.

— Eu não quero mais atrasos e nem desculpas vindo de você, se sente que não está evoluindo nas aulas de dança, eu mesmo posso trocar o seu professor…

— Não! — Cortei, sobressaltada. — O Sr. Jankowski é ótimo, só pensei nas aulas extras porque não tenho horas o suficiente com ele, creio que sua agenda seja muito cheia.

Ele ponderou.

— Se isso for um problema, posso pedir maior disponibilidade para ensiná-la. Apenas chega de aulas noturnas, okay? — Quando assenti, internamente animada com a ideia, ele suspirou com impaciência — Agora tire essas roupas imundas e vá para o banho. Jane vai ajudá-la a se vestir e não parecer tão miserável para as gravações.

Ordenou, então se foi para dar lugar a Jane.

Ela não fez perguntas e agradeci por isso. Me arrumou em tempo recorde e, apesar de me sentir como uma boneca enfeitada enquanto me dirigia até a locação com um discurso de desculpas à equipe pronto na cabeça, não me arrependi realmente por todo o transtorno.


Steve Harvey não brincou sobre investigar o meu atraso; na manhã seguinte, Marlena me puxou em um canto durante a aula para contar-me que me deu cobertura e eu não pude ficar mais grata ao atirar os braços em torno dela. No entanto, por mais tranquila que eu estivesse em relação a ser desmascarada, foi extremamente difícil voltar à vida normal depois da noite com Jacob.

Meu coração disparou quando passei pela porta do estúdio na manhã seguinte e o encontrei esperando, tive a impressão de que Dean me lançou um olhar conspiratório antes de seguir com Marlena, mas não me virei para ter certeza. No entanto, minha decepção foi evidente quando Jacob permaneceu distante, como em qualquer outro dia normal.

Não nos vimos ou nos falamos desde a manhã anterior e me vi questionando se o momento em que estivemos juntos fora só fruto de minha imaginação. Seus toques não foram íntimos como antes, eram apenas firmes e necessários, não trocamos muitas palavras além de comandos, perguntas e afirmações sobre a lição. Como se não bastasse, passei quase toda a aula acompanhada de Dean, agora que haviam nos introduzido como um par de verdade na dança.

— Foi muito bem hoje — ele comentou no final da aula. — Até amanhã.

E fora o máximo de intimidade que trocamos naquela manhã.

Eu pisava firme pelos corredores enquanto retornava para o quarto e bufei ao encontrar outras três alunas de Jacob no estúdio, quando retornei para buscar meus calçados de dança que havia esquecido.

Mas quando a noite caiu, fui surpreendida por mais um bilhete passando por debaixo da porta.

Cara Vonnie,

Me perdoe por ter de fingir hoje.

Gostaria de ter feito diferente, mas como disse; não podemos ser vistos juntos. Espero que possa me desculpar de alguma forma hoje, às oito. Me encontre na praia.

Ps: Prometo não lhe meter em apuros outra vez.

Atenciosamente, J.

Em trinta minutos, eu estava lá.

Jacob me recebeu com uma mão estendida e um sorriso torto antes de irmos para o fim da praia — para a parte suburbana do paraíso, segundo ele. Visitamos as pequenas barracas de comida que se estendiam pelas calçadas na margem da areia e acabamos sentados em frente ao mar depois de comprar zeppoles açucarados.

— Eu adoro doces, meu pai sempre fazia para mim antes de ir embora — comentei antes de dar uma mordida no meu segundo zeppole da noite.

— Embora?

Cessei a mastigação ao olhá-lo de canto, me dando conta de que estava falando demais outra vez. Mas a informação formigou em minha língua.

— Meu pai saiu de casa quando eu era criança; ele disse que estava indo trabalhar na bilheteria do cinema e nunca mais voltou. Quando minha mãe começou a questionar o paradeiro dele a conhecidos, ela descobriu que ele havia nos deixado para ir até Las Vegas em uma espécie de caravana de apostas com uns amigos. Ele nunca mais voltou.

Ele suspirou, balançando a cabeça.

— Ah, Vonnie. Me desculpe, eu não devia ter perguntado…

— Não, tudo bem. Acho que é a primeira vez que falo disso com alguém — confessei, encolhendo-me um pouco com a ideia de me abrir. — Na verdade, a sensação é até boa.

Jacob não me julgava. Em vez disso, seus olhos continuaram sobre mim com aquele brilho interessado.

— Conviveu muito tempo com ele?

— Não tanto quanto eu gostaria; ele se foi quando eu tinha oito anos.

— Eu sinto muito, isso é bem triste.

— Não tanto quanto foi para a minha mãe, ela bebeu muito depois disso e começou a apostar, porque isso a lembrava do meu pai. Tive que assumir as responsabilidades de casa porque ela sempre estava bêbada — funguei, encarando as ondas com um ar contemplativo. — Só então as coisas se tornaram tristes para mim.

— Quem diria que uma estrela de cinema teria um passado tão trágico — ele comentou, mas senti o quão envolvido estava enquanto virava a sua cerveja. — Você nunca para de me surpreender.

Sorri de lado, virando-me para ele com curiosidade.

— Lhe contei sobre o meu passado, agora me conte sobre o seu. Eu não sei muito sobre você.

— Bem, a minha mãe morreu quando eu tinha treze anos e acabei nas mãos do meu pai alcoólatra — ele deslizou a mão pelos cabelos sedosos, mas notei um leve vinco se formar entre as suas sobrancelhas. — Ele queria que eu me tornasse seu parceiro de copo, mas me neguei. Então, saí de casa e comecei a arranjar alguns bicos, graças a Marlena não me tornei um trombadinha.

Franzi o cenho, surpresa com a semelhança entre nossos passados. A diferença, notei com certo incômodo, era que Jacob fora mais forte do que eu para escapar da gaiola em que estava preso.

— Ainda mantém contato com ele?

— Não, ele se casou de novo há uns três anos. A nova esposa cuida bem dele e o mantém na linha, às vezes ligo para ela para saber se meu pai está vivo ou decadente, mas sabe como são as coisas. Anos de negligência causam certo…

— Rancor.

Ele assentiu, os lábios pressionados em uma linha rígida enquanto me fitava.

— Você não guarda mágoas do seu pai por tê-las abandonado?

— Não, ele correu atrás dos próprios sonhos — disse com um dar de ombros, provando mais de meu doce. — Não era sua culpa que minha mãe e eu não estivéssemos incluídas nele. Também não é minha culpa.

Um sorriso iluminou sua face quando ele se inclinou para deslizar o polegar pelo meu lábio inferior, limpando a cobertura açucarada antes de levar até a própria boca. Jacob então apontou sua cerveja para mim e encostei a minha garrafa de Coca-Cola na sua.

— Às nossas vidas ferradas — brindamos, entre risadas leves.

Naquela noite, não voltei tarde para o country club, mas desejei ter feito isso enquanto nos beijávamos em um dos becos escuros do alojamento — assim como em todas as outras noites depois disso.

Não demorou para eu concluir que estava viciada em Jacob.

Completamente viciada em seus beijos; em sua voz mansa; em suas palavras suaves e humor ácido; em suas mãos às vezes gentis, às vezes firmes; e até mesmo nas discussões bobas em que perdemos a paciência e paramos de nos falar — somente para voltar no dia seguinte, mais fortes do que antes.

Nunca íamos longe demais nas carícias e, para ser sincera, eu não tinha pressa. Começamos a ter cada vez mais horas juntos quando Steve interviu, aumentando a duração das aulas diárias depois que pedi. E passar um tempo com ele me levava a um estado de paz que não sabia se já havia sentido antes.

Jacob quase me fazia esquecer dos problemas. No entanto, novos surgiam a todo momento.

Eu não queria admitir para mim mesma que o jovem começou a assumir um protagonismo na minha vida, pois quando não estávamos juntos, Jacob ainda ocupava todos os meus pensamentos. E eu tinha tanto medo do que sentia; era intenso, esmagador e me levaria à ruína. Mas, em algum momento, já não conseguia esconder que meus sentimentos iam muito além da atração.

E, talvez porque fosse errado, escolhi me apaixonar por ele.