Ação Precipitada Leva À Furada


"Vai, mamãe. Empurra mais alto."

"Claro, Shizu. Lá vai." Mihoshi deu um empurrão com mais força no balanço, dando um solavanco que poderia ter dado a volta na barra do brinquedo. A menina de longas tranças pretas sentada ria com vontade e alegria. A loira bronzeada sentia-se bem em estar com sua menina, mostrando ser uma mãe que toda criança deveria ter. Logo depois, sentou-se ao lado de sua filha.

"Como é, querida? Se divertindo?"

"Sim, mamãe. Com você, todo dia parece festa. E com ela também. Escuta, ela vai estar ocupada demais hoje?"

"Oh, não. Kiyone já está saindo do serviço. Vamos nos encontrar pra almoçar e depois, um sorvetinho. Que acha?"

"Legal da conta." Disse Shizu. Era uma jovem bem cheia de vida e Mihoshi pensa como lembra ela e Kiyone na infância.

Foi aí que uma senhora idosa com ares de desconfiada surgiu, visando com suspeita as duas. Ainda hesitante, chegou perto.

"Ei, por favor. Conhece essa menina?"

"Se conheço?" Questionou Mihoshi. "Sim, é minha filha Shizu. Por que pergunta?"

"Sua filha?" A pergunta da mulher soou em sua mente como um alarme as reais intenções da moça de pele bronzeada sobre a criança junto dela. "Ei, mocinha? Tudo bem com você? Sabe onde estão seus pais?"

"Senhora, eu já falei. Ela é minha filha, pois a adotei para ser da minha família e dar o amor que ela merece."

"E você pode provar isso? Como sei que diz a verdade?"

"Pra começo de conversa, dona, não tenho que te provar nada e devia pensar bem antes de dizer algo da qual poderá se arrepender. Vem, querida. Vamos almoçar, está bem?"

"Claro, mãe." Shizu tomou com carinho a mão de Mihoshi e seguiram pra fora do parque. A idosa, acreditando ter algo de errado e preferindo ignorar o conselho de Mihoshi, pegou o celular, disse algumas palavras e tratou de ir atrás das duas.


Perseguindo Mihoshi e Shizu sem ser notada, a velha mulher estava de olho em cada movimento dados pr elas, sem tirá-las de vista. Parada numa esquina de vigília pra mulher e a menina indo na direção de um carro, logo alguém veio por trás dela. Se virou e viu ser uma mulher vestida de policial.

"Oh, que susto. Se não tivesse o coração forte..."

"Desculpe, senhora. Foi quem ligou pra polícia a respeito de um...sequestro?"

"Sim, fui eu. A sequestradora está ali com a criança perto do carro verde. Diz ser mãe adotiva dela, mas pode-se ver pela cara que é uma criminosa e do tipo vulgar. Tem que salvar a menina e levar essa meliante pra cadeia. Já."

"Certo, vou cuidar disso. Fique aqui, está bem?" Deixando a idosa onde a achou, a policial de cabelo verde maior pra direita do que para esquerda andou com cautela até onde estava a suposta sequestradora.

Mihoshi ajeitava sua filha no carro quando notou uma mão pousando em seu ombro. Ao se virar, era a policial e em lugar de se apavorar ou ficar nervosa, abriu um sorriso franco.

"Kiyone, que bom que chegou."

"Oh, é você, Mihoshi. Achei que...? Ah, deve ter sido um engano. E Shizu...como vai, minha ursinha?"

A menina ficou contente quando viu a moça recém-vinda e a abraçou afetuosamente. Desde o dia em que conheceu as duas mulheres, não tinha como ficar mais feliz por ter achado uma família divertida e lhe dava o real valor como pessoa.

"Ei. Escute, policial." Falou a velha senhora quando se deparou com aquela situação. "Não vai resolver isso, não? Tem que prender essa bandida."

"Bandida? Quem você chamou de bandida?" Perguntou Kiyone, expressando certa raiva ao se deparar com a queixosa. "Como tem coragem de dizer isso dela? Devia te prender por falsa acusação."

"Mas como assim 'falsa acusação'? Não está enxergando diante de você? Ela sequestrou essa pobre menina. Tem a obrigação de prendê-la e devolver a criança pra verdadeira família."

"A senhora de novo? Eu lhe disse que ia se meter em furada se persistisse nisso, não disse?"

"Cale a boca, sua bandida." Respondeu a velha senhora bem furiosa pela presença de Mihoshi. "Não vou ficar quieta, sabendo que tem uma criminosa sequestradora de crianças solta e que a policial que devia prendê-la não passa de uma corrupta e incapaz."

"Já chega, sua bruxa." Shizu avançou por trás das duas mulheres bem brava. "Não pode falar assim das minhas duas mães." Ouvindo tal afirmação, a velha quase tombou de costas.

"Disse...suas mães?"

"Sim, disse sim. Elas são minhas mães...e um casal lindo de morrer. Não é a toa que sejam tão apaixonadas, e as amo tanto quanto elas me amam."

"Como falou? Está dizendo que elas...vocês são...?"

"Sim, exatamente. Mihoshi e eu somos as mães dela e...casadas uma com a outra. Sem dizer que nós duas somos da polícia. Ela é capitã e eu, inspetora-chefe."

"M-mas...mas...se são um casal, tudo bem, mas e ela?" Apontou pra Shizu mostrando preocupação. "Não acham que ela devia ir pra uma família mais normal? Tipo, com os verdadeiros pais dela?"

"Os pais verdadeiros? Minha senhora," Kiyone dirigiu uma olhada amarga para ela. "tem alguma ideia de quem foram os pais biológicos dela e por que de a termos adotado?" Uma resposta negativa com um balançar de cabeça.

"Então preste atenção e tomara que depois de ouvir, possa demonstrar algum bom senso e mudança de opinião." Mihoshi falou ao tomar a mão de sua companheira e da filha.


Flashback

"Era uma noite fria e com bastante nevasca na estrada onde fazíamos nossa última patrulha do dia. Como não havia emergências pra aquela hora, resolvemos encerrar nosso turno e ir para casa."

"Mas foi sem qualquer aviso que alguém surgiu beirando a estrada: era uma menina que parecia desesperada. Paramos o carro e fomos ver. Era Shizu, dizendo que ela e a mãe sofreram um acidente e tinham batido o carro. Shizu nos falou que o frio estava muito alto e chegou a queimar as roupas que levavam na bagagem, incluindo o vestido de noiva que sua mãe usaria no casamento dela. Fomos socorrê-la e graças a Deus estava respirando. Shizu não parecia bem e a cobrimos pra não se esfriar. Ficou tão apegada em nós como se fosse nossa filha."

"2 Horas depois no hospital, a mãe dela recuperou a consciência e lhe contamos o ocorrido. Em lugar de agradecer a Shizu, lhe desceu uma bronca pela perda do vestido, falando que ela tinha feito isso de propósito só para ela não se casar. Tivemos que fazer ela se desculpar e ameaçar detê-la por ser tão má com a própria filha. Parecia que tinha concordado em se desculpar, porém notamos onde existe má vontade e ela exaltava tal sentimento ruim."

"Dias depois, após muito pensar, resolvemos que era hora de termos uma criança em nossas vidas, pois já que estávamos casadas, só faltava um filho ou filha pra podermos compartilhar nosso amor e carinho. Ao chegarmos no orfanato, nos deparamos com uns moleques mexendo com uma menina numa cadeira de rodas. Pusemos eles pra correr e vimos se tratar de Shizu. A coitadinha estava bem abatida e nos contou que sua mãe a deixou lá."

"Falou que a mãe ia deixá-la no orfanato, pois não a queria como parte de sua nova vida de casada. Na real, naquele dia ela pretendia fazê-lo, mas acabou havendo o acidente. Sem pensar, a largou no orfanato depois de ter alta e nem se importou com Shizu estar passando mal, já que a hipotermia que sofreu atrofiou suas pernas e necessitava de um tratamento."

"Apesar do que passou, ela ficou feliz em nos ver e disse que éramos como a família que ela desejou ter e amar. Sem hesitação, perguntamos se ela queria ficar conosco e ela aceitou toda radiante. Quase caiu da cadeira de tanta emoção. A abraçamos e não íamos mais deixá-la sozinha."

"Contamos na delegacia sobre tê-la adotado e do tratamento que ela necessitava. Nem foi preciso pedir aumento ao nosso superior: ele e todos do departamento fizeram uma colaboração e até pediram ajuda nas redes em prol de Shizu. Em poucos dias, arrecadamos o dinheiro e fizemos o tratamento. Em um pouco mais de um mês, ela se recuperou."

"Embora tudo parecesse ser um dia de sol e arco-íris, veio uma nuvem escura querendo cobrir tudo. A mãe biológica dela voltou e a queria de volta, pois devido ao frio que sofreu, não podia ter mais filhos e seu noivo rico não ia aceitar uma mulher incapaz de gerar. Mandamos ela sumir e pedimos uma medida cautelar, evitando ela de chegar 10 metros perto de nosso anjinho. Minha vontade era de descer o braço nela, mas só a expulsamos com um esguicho d'água. Depois disso, nunca mais a vimos e nos dedicamos ao nosso trabalho na polícia e viver amorosamente uma com a outra e nossa filhinha."

Fim do flashback


"Como a senhora pôde ver, não seria correto devolver nossa esquilinha pra aquela mequetrefe que não presta pra nada. Shizu tem duas mães gentis e amáveis que lhe dão todo o respeito e afeto que merece." Concluiu Kiyone, sentindo vontade de pegar suas algemas e colocá-las naquela velha arruaceira.

"Olhe, eu peço desculpas. Não sabia que tinha se paado tudo isso na vida dessa pobrezinha. Lamento por tirar decisões apressadas e insultá-las. Devia saber que não deve-se julgar a aparência e prometo que isso não vai se repetir."

"Hmmm. O que acha, Mihoshi? Acha que ela aprendeu a lição?"

"Pode ser, Kiyone. Não estou com vontade de escrever mais nenhum relatório hoje. Passa só uma multa que por mim, fica de boa."

Vendo como sua companheira de trabalho e esposa mostrava ser sincera em sua decisão, a policial de cabelo verde escuro tirou seu talão de multas e escreveu nele, passando uma anotação para a idosa. "Tome aqui. Multa por perturbação da paz. Desta vez será só uma advertência, mas que isso não se repita."

"Nunca mais irá, eu juro. De agora em diante, só julgo baseando-me em provas reais. Portanto, se me dão licença..." Sem perder tempo, a anciã saiu depressa do local, mostrando estar em boa forma para alguém supostamente passada da idade de correr tão rápido.

"Uau. Essa saiu depressa. Será que era uma senhora de idade mesmo?"

"Quem pode dizer, minha fofura? Bem, deixa pra lá. Agora que mamãe Kiyone está aqui, vamos almoçar. Conheço um ótimo lugar no centro que servem um excelente ensopado de peixe."

"E depois do almoço, podemos tomar sorvete? Mamãe Mihoshi disse que podíamos." Shizu fitou esperançosa pra Kiyone.

"Podemos sim, gracinha. Se mamãe Mihoshi prometeu, vamos cumprir. Vamos tomar um bem grandão, com muita cauda e cobertura, como você gosta." Kiyone afagou o cabelo da filha, esta retribuindo com um grande abraço nas duas policiais que hoje formam sua família. Assim que a menina entrou no carro, Kiyone e Mihoshi abraçaram-se e se beijaram com muito amor. Shizu via tudo com muito amor no coração, agradecida pela linda família que tinha recebido.

FIM.