Queridos,

Vocês me permitem conversar com vocês por esta carta? Preciso de algo que me ajude, vocês sabem como eu gosto de escrever. Se não for assim, não vou conseguir.

Como começar? Já fiz tantas tentativas, tantas que nem tenho coragem de contar. Se fizer isso vou desanimar, e não posso, nem devo.

Acho que devo começar me desculpando. Um pouco por ter sumido e preocupado vocês, um pouco pelas ideias insensatas que atravessaram minha mente. Mas não vou me desculpar pelas decisões que tomei, e por isso conto com todo seu amor para que tentem me entender, mesmo não aceitando.

Eu sou a pessoa a quem todos recorrem quando precisam entender os fatos, que sabe encadeá-los em uma ordem lógica, desvendar os intrincados fios que os ligam e aos quais se subordinam, chegando a resultados exatos e irrefutáveis.

Mas por melhor que eu seja, não consigo usar essa qualidade para explicar o que aconteceu com a minha vida. Talvez porque não tenha muita explicação lógica, por mais que eu resista a admitir isso. É algo que precisa ser sentido.

Eu optei por abrir o meu coração para vocês e me mostrar em um nível em que não tive coragem de fazer nem para mim mesma até hoje. É um gesto desesperado, mas é o único que consigo pensar. Me desculpem se os magoo, ou se não atendo às suas expectativas. Essa sou eu, peço que compreendam. Não posso fazer diferente. Não mais.

Depois dos últimos acontecimentos, em que todos fomos novamente testados de formas que há muito tempo não experimentávamos, algo aconteceu. Um significado repentino, invasivo e irrefreável irrompeu diante dos meus olhos. De repente, tudo fez sentido, como quando descobrimos a solução de uma ilusão de ótica e nunca mais conseguimos olhar a antiga imagem da forma como a víamos antes.

Como reagir diante disso? Não sei, não consigo explicar, queria apenas que entendessem como me sinto. Será que conseguem se colocar no meu lugar? Eu, Hermione Granger, que fiz uma planilha para definir quando iria me casar, concluir meu doutorado, engravidar, me tornar Ministra da Magia? Eu fui vencida, e estou resignada a viver submissa a experiência da derrota. Estou abatida aos pés do vencedor, e nada me resta a não ser aceitar o destino.

Eu fui vencida por algo contra o que sempre lutei: contra o ambíguo, a confusão, o descontrole, a fraqueza, a submissão à paixão. Lutei com tudo que tinha ao meu alcance, como uma autêntica gifinória. Lutei, mesmo avaliando que as minhas chances eram mínimas, como a criança que está no mar e sente que não consegue encostar mais o pé no chão, ao mesmo tempo que vê a onda se avolumando lenta e inexorável na sua direção, e ainda assim se debate, luta para não ser tragada e submersa. Ela sabe que é uma questão de tempo até ser engolida, mesmo assim não quer admitir, e esses pensamentos a fazem demorar o suficiente para não conseguir mais sair e voltar para um lugar mais raso, conhecido, em que possa respirar. Quando a onda chegou foi pior do que tudo o que eu previ, do que eu achava que sabia.

Eu sabia racionalmente o que ia acontecer mas não consegui me mover, me libertar, como se estivesse presa num feitiço Petrificus Totalus, e percebi que lutar contra isso significaria a minha morte, ao mesmo tempo que me entregar traria a minha redenção. E eu já havia lutado tempo demais.

Eu fui tragada e submersa. Pensei que não fosse mais voltar. Eu desejei, me perdoem, nunca mais voltar. Sei também que nunca mais vou voltar completamente, como a pequena sereia que fez um pacto para poder andar na terra - só que no meu caso é o contrário, mergulhei no mar mais profundo, fiz um pacto de renascimento e adquiri uma natureza marinha. Agora, não sou mais capaz de andar em terra firme, preciso do oceano para continuar respirando.

Mas foi pela amizade que percebi que ainda tenho uma pequena chance de conservar um pouco do que eu possuía, se a Deusa permitir, pois aprendi que devo me submeter a ela. Se não, é mais umas das dores que terei que suportar, já que em minha vida não há margem segura em que possa aportar, nem escolha possível sem perdas e sofrimento.

Enfim, ouso, com o desespero dos desenganados, me mostrar a vocês. Não espero seu perdão, mas não há outra saída para mim a não ser buscar a sua compaixão.

Vou começar do início.

Sendo bem honesta, não posso dizer que senti algo especial quando conheci Draco Malfoy. Revendo os dados e revisitando as minhas lembranças, não encontrei nenhum indício inicial de que esse seria um encontro diferente de qualquer outro. Não senti nada além de uma certa antipatia, nem muito sutil, nem muito intensa. Descreveria como uma primeira impressão desagradável, nada mais.

À medida em que fui convivendo com ele nas aulas e presenciando sua forma arrogante de tratar as pessoas, essa antipatia foi aumentando. Draco Malfoy andava pela escola como um senhor feudal supervisionando sua propriedade, ora dando alguma ordem sobre as cavalariças, ora esbofeteando algum serviçal.

Possuía a postura ereta, caminhando com uma elegância inesperada para seus onze anos de idade, o queixo sempre acima da linha do horizonte e o olhar de desdém dos bem nascidos. Sua marca era o risinho cínico, sempre com uma piada maldosa sobre tudo, seguida da aprovação do seu cortejo - não se pode chamar Crabbe e Goyle de amigos, mais pareciam guarda-costas, como um pano de cena insosso, cinzento e bruto, colocado ali para destacar a prima-donna sob a luz principal do palco que era Draco Malfoy.

Um ingrediente que contribuiu de modo decisivo para aumentar essa antipatia foi a forma como Malfoy tratava Harry e Rony. Apesar da nossa aproximação improvável (afinal, meninas e meninos de onze anos não costumam ser melhores amigos), desde cedo nos vinculamos, ligação que se tornou a cada dia mais profunda, temperada pelos desafios que vivemos juntos.

Era óbvio que Malfoy invejava toda a atenção que Harry naturalmente recebia, com seu jeito displicente de encarar isso, afinal ele era Harry Potter, a única pessoa que havia sobrevivido a uma maldição de morte. Já Rony parecia odiá-lo, pura e simplesmente, e era difícil impedir que ele partisse para cima de Malfoy, que sabia disso e sentia um prazer especial em provocá-lo.

Assim, minha antipatia cresceu muito mais motivada por solidariedade aos meus amigos do que por algo dirigido a mim de forma mais específica, pelo menos no princípio. A bem da verdade, eu duvidava que Malfoy tivesse notado a minha existência, o que não me causava incômodo algum, muito pelo contrário.

Minha vida em Hogwarts estava bem definida: frequentar as aulas, ler todos os livros indicados e ir além, aprofundando minha aprendizagem, com uma voracidade diante da qual a estupenda biblioteca da escola poderia tremer.

Essa sempre foi a minha verdadeira natureza: a aluna aplicada e sedenta por conhecimento, querendo melhorar meu desempenho cada vez mais. Caso eu tivesse que me apresentar a alguém, diria: "Olá, Sou Hermione Granger, aluna de Hogwarts". Essa descrição breve resumia o que eu era e me satisfazia de forma completa. Ser a melhor aluna não era um papel que eu interpretava, era o que eu era, minha identidade.

Não demorou para que eu chamasse a atenção dos professores, que notavam minha inteligência e dedicação aos estudos. Nunca fui aquela aluna passiva, cujo espírito estava em algum lugar distante do corpo sentado na carteira. Eu encarava as aulas como um trabalho, como se eu e o professor fossemos co-responsáveis pelo sucesso da aprendizagem.

Sempre me preparava, conhecia o assunto e já havia lido os livros de referência antes mesmo do ano letivo começar. Era como uma coreografia bem marcada, uma espécie de pas de deux, em que eu executava meus passos com precisão enquanto era conduzida pelo professor.

Eu não percebia nenhuma inconveniência disso. Para mim, era evidente que esta deveria ser a postura de todos os alunos. Se eu tivesse que fazer uma pergunta complexa a um professor um minuto antes de terminar a aula não hesitava, mesmo sob o olhar de fúria dos demais alunos e até de Harry e Rony.

Eu não tinha dúvidas sobre quem eu era: uma aluna, stricto sensu. Estava ali para estudar e aprender, e não ia ficar apreciando os anos escolares se desenrolarem da arquibancada, como se fosse um jogo monótono. Eu estava imersa por inteiro, estava dentro. E os professores, no geral, reconheciam e aprovavam a minha postura.

Quando disse no geral, quis me referir a um caso específico: o professor Snape. Com ele, essa dança entre aluna e professor que me preenchia e aos meus interlocutores docentes não funcionava. Isso me desapontou, pois considerava Poções uma disciplina particularmente desafiadora, que eu estudava com devoção.

Snape era uma figura indevassável, mítica, uma verdadeira esfinge. Suas aulas eram motivo de pavor para muitos alunos - uma fama não desmerecida, pois era exigente até a fronteira do sadismo, equilíbrio que parecia manter sob controle de forma disciplinada. Ele costumava rechaçar as contribuições que eu fazia para a aula, ignorando intencionalmente minha mão levantada na tentativa de responder suas perguntas à classe.

Eu atribuía essa antipatia ao fato de que eu, a melhor aluna dessa e das outras disciplinas, pertencia à Grifinória. Mas isso não me intimidava. Eu não teria uma reação emotiva à Snape como Neville, que alimentava um verdadeiro pavor, com direito a pesadelos e suores frios.

Eu costumava atacar esse e os demais problemas de uma maneira racional. Fiz uma lista comparando as vantagens e desvantagens de continuar levantando a mão nas aulas de Snape, observei suas reações aos erros e (poucos) acertos dos alunos, avaliei o impacto dos alunos da Grifinória em sua aula, enumerei suas escolhas didáticas seguindo as regras da mais apurada metodologia científica.

Ele poderia tentar me ignorar, mas conhecia seu papel de professor e permanecia firme nele com uma autoridade natural - o que me deixava livre para assumir meu papel de aluna, mesmo sob seu evidente desagrado.

O tratamento científico do problema me satisfez, já que eu ainda ignorava outros motivos para Snape antipatizar comigo (como ser amiga de Harry Potter). Assim, continuava a levantar a mão bem alto a cada pergunta que Snape fazia para a sala - afinal, a coragem é uma marca de Grifinória.

As aulas de Poções também continham um outro ingrediente específico na minha rotina de aluna. Era a única que frequentávamos junto com os alunos de Sonserina, portanto, em que compartilhava a sala de aula com Draco Malfoy. Essa convivência contribuiu para aumentar aquela antipatia que, até então, crescia timidamente.

Fui tragada para dentro do jogo de provocações constantes entre Malfoy, Harry e Rony, o que era extenuante. Se meus amigos valorizassem um pouquinho o método científico e pudessem agir com o mínimo de racionalidade, veriam que reagir às provocações de Malfoy era a melhor forma de agradá-lo. Tentava convencê-los mas era inútil, então só me restava tentar evitar as brigas, sob o que se tornou uma espécie de mantra inúmeras vezes repetido: "ignore-o".

Devo confessar que a dificuldade da tarefa não se resumia apenas a conter Harry e Rony, pois às vezes eu mesma tinha vontade de quebrar um cabo de vassoura na cabeça de Malfoy. Quanto mais convivia com ele, mais o achava um menino esnobe e mimado, temperado de forma generosa pela inconsequência típica dos meninos da sua idade.

Malfoy era pouco confiável, delator em benefício próprio e especialista em ridicularizar os outros, conseguindo atingir o oponente no nervo exposto da sua vulnerabilidade. Mas o que mais me incomodava é que ele era covarde, do tipo que provoca e não assume as consequências. A covardia é, com certeza, um dos defeitos mais desprezados por nós, grifinórios.

Aquela primeira detenção que cumprimos juntos na Floresta Proibida foi bem elucidativa em relação a isso. Nessas pequenas cenas do cotidiano, Draco Malfoy ia sendo revelado para mim. Minha observação sobre ele ia se tornando mais meticulosa, e os dados confirmavam que suas histórias eram muito mais uma expressão do menino corajoso que ele desejava ser do que do menino medroso que ele realmente era.

É difícil localizar no tempo quando a nossa história foi mudando de rumo. É um processo subjetivo e intrincado, com alguns saltos sutis, outros convulsivos. Mas essa noite na Floresta Proibida, olhando retrospectivamente, foi uma espécie de iniciação, condensando alguns elementos importantes do nosso enredo compartilhado, ainda que eu não tivesse a menor consciência disso naquele momento.

Quando fomos ao encontro de Hagrid, observei que sua barba estava suja de mel. Ele lambia os dedos e tentava se limpar de forma desajeitada, passando as mãos pela lateral do casaco e na barba uma e outra vez. Eu já gostava muito de Hagrid e perdoava essas idiossincrasias tão características da sua personalidade.

O que mais ficou impregnado em mim foi o cheiro: um mel intenso, que conseguia provocar um gosto doce já no aroma, produzindo uma coceira um pouco irritante na garganta, provavelmente de alguma espécie selvagem e mágica, daquelas a que Hagrid costumava ter acesso. Mas não perguntei nada, só fui dar importância a esse detalhe muito tempo depois.

Foi na floresta que tive meu primeiro contato com Firenze. Assim como o mel, não poderia imaginar o papel que ele teria na minha vida no futuro. Foi uma noite fantástica, marcada pelo destino em um nível profundo da minha alma, e não apenas pelo nosso primeiro encontro com Voldemort.

O destino, ou Fatum, estava além dos meus conhecimentos ou interesses acadêmicos até então. Fatum é um conceito de Magia Antiga, um ramo dos estudos mágicos pelo qual eu não me interessava e nutria um certo receio não admitido - o que mudaria, mas só muito tempo depois.

Sempre me identifiquei com a Magia Racional, em que os atributos mágicos eram canalizados pelo pensamento claro e comando adequadamente expresso do conhecimento bruxo. A ideia de pensar em um destino a que fosse impossível escapar era algo inconcebível para mim, mesmo que fosse bastante madura para a minha idade.

A Mitologia Mágica Grega oferece alguns dos primeiros e mais importantes registros do Fatum, que datam de milênios: a determinação implacável, da qual não se pode fugir, a punição inescapável para os erros cometidos nesse caminho ou para a rebeldia.

O Fatum está acima das divindades e dos humanos, quer fossem bruxos ou não. É uma força com a qual não se podia negociar, e contra a qual os feitiços, por mais poderosos que fossem, nada podem fazer a não ser mitigar alguns dos seus efeitos. A Magia Antiga estuda o Fatum e o caminho para conhecê-lo, que é o oráculo. Naquele momento, tudo isso era ignorado por mim.

Nas minhas observações sobre o Fatum, uma coisa que eu pude notar é sua ironia, seu ar de troça, e talvez esse seja um dos seus aspectos mais difíceis de suportar, como se Grope estivesse se entretendo em arrancar as pernas de uma aranha do tamanho de um pomo de ouro e achando isso a coisa mais divertida do mundo.

No dia seguinte à detenção na Floresta Proibida, tudo continuava normal na aula de Poções entre eu e Draco Malfoy. Nenhum oráculo havia se revelado, nenhuma profecia havia retumbado nos céus. Apenas a tarefa na bancada de produzir uma poção contra insônia valendo dez pontos. Não posso afirmar que estivesse marcada pelo Fatum a ser a melhor aluna, mas o que aconteceu foi que consegui os dez pontos para Grifinória - não sem certa dificuldade, devo admitir.

Snape não era muito discreto em aumentar as dificuldades para mim, mas também não posso dizer que, nesse tipo de tarefa tão facilmente monitorável numa observação de dados, ele tivesse muita oportunidade de favorecer Sonserina, o que era mais provável de acontecer em episódios envolvendo punições pela indisciplina dos alunos. Provas são provas, têm critérios de avaliação mais exatos, e uma poção bem preparada é uma evidência irrefutável.

A despeito da pequena aproximação com Draco Malfoy no dia da detenção, ele continuava a ignorar minha existência de forma completa, como de costume. Mas eu não estaria sendo honesta se não contasse que já havia observado suas reações quando eu tirava a maior nota da aula. Ele procurava manter uma cara muito séria, a expressão impassível, ou então esboçava um sorrisinho de desprezo e ironia, sem conseguir disfarçar, no entanto, um rubor meio rosado na face e estreitar os lábios num risco fino, um gesto característico que eu já havia notado há algum tempo.

O que eu só descobri muito tempo depois é que ele competia secretamente comigo pelas melhores notas. Diferente de Harry e Rony, Draco sempre foi um excelente aluno - mas, comigo na turma, ele não poderia almejar nada além do segundo lugar.

Eu não tinha ideia do sofrimento que isso lhe causava - para mim, era a oportunidade de uma pequena vitória, no meu campo e com as minhas armas, contra suas atitudes esnobes - quem sabe assim ele não aprendia a ser um pouco mais humilde?

Mas Draco era mais afetado por não tirar a maior nota do que deixava transparecer, principalmente porque isso era motivo de comentários negativos de seu pai, que esperava que ele fosse o melhor aluno. Quando o pai perguntou se ele não se envergonhava de ser ultrapassado por "alguém como eu", ele se sentiu profundamente humilhado. Mas essa não seria a primeira nem a última vez que ele vivenciou o impacto do que é não estar à altura dos parâmetros de excelência exigidos de um Malfoy.

Ele me contou que costumava ter um caderninho, cuidadosamente oculto por feitiços de desilusão, em que fazia tabelas comparativas entre as notas dele e as minhas. Ele apreciava, em certa medida, o método científico, e o fato do caderninho ser algo oculto de todos permitiu que ele fosse honesto nos registros - nada de subterfúgios, trapaças ou ironias aqui, a comparação numérica era simples e exata. Para o seu desgosto, eu não era uma aluna a ser ultrapassada com facilidade.

Apesar de muitas vezes ele ter conseguido tirar notas iguais às minhas, isso não servia de consolo e, devido aos meus resultados acadêmicos, Draco Malfoy passou a nutrir uma antipatia por mim quase tão grande à que nutria por Harry pelos resultados no quadribol. Pelo menos, era assim que ele explicava, na época, o estranho efeito que eu lhe causava.

Ao contrário de Harry, eu não tinha noção de que incomodava tanto assim Draco Malfoy. Para mim, eram apenas pedrinhas que eu atirava com um feitiço estilingue no seu pedestal de jovem herdeiro de uma família bruxa tradicional.

Eu subestimava o impacto que isso tinha na sua frágil autoestima, pois contrariamente ao que ele nos queria fazer acreditar, era uma criança insegura e medrosa, que lutava com tenacidade para obter a aprovação de um pai frio e distante. A mãe o superprotegia e mimava, e na soma desses vetores opostos de afeição o resultado era zero. Nem boas referências de atuação no mundo, muito menos de continência emocional, apesar de não haver dúvidas que os pais o amassem, ainda que não conseguissem educá-lo de uma forma equilibrada.

O "fator Potter", como ele costumava chamar para si mesmo, foi algo que o marcou nessa construção de identidade, e com o qual teve que lidar sozinho, já que não tinha amigos para poder dividir esse tipo de sentimento, que mal conseguia definir para si mesmo. Acostumado desde sempre a receber todas as atenções, Draco viu esse lugar ser usurpado pelo Menino Que Sobreviveu e por sua fama.

Logo de início, também, ficou claro que ele e Harry não seriam amigos e nem ao menos próximos - amizade, para Draco Malfoy, tinha um sentido muito mais utilitário. Amigos eram pessoas com as quais se compartilhava um status semelhante e que poderiam ser mais ou menos proveitosas em algum momento. Além disso, ele não admitia se envolver em um relacionamento em que não pudesse liderar.

Para Harry e ele, portanto, o papel reservado a desempenhar foi o de inimigos, e eu logo fui incluída neste acordo tácito, dada minha proximidade com Harry Potter e meus resultados acadêmicos. Enfim, nos posicionamos, desde o princípio, em trincheiras opostas.

Independente deste e de todos os desafios que viriam depois, Hogwarts foi a experiência mais transformadora de toda a minha vida. As histórias do mundo bruxo sobre as quais eu havia lido se tornaram realidade para mim, que almejava uma vida escolar dentro de parâmetros mais ou menos normais, não no sentido dos resultados acadêmicos (estes, sempre quis que fossem extraordinários), mas no sentido das experiências. Não imaginava enfrentar aventuras como as que enfrentei com Harry e Rony na luta contra Voldemort - isso não tem nada de comum, e moldou meu caráter de forma permanente.

Mas nos meus primeiros tempos de Hogwarts esse destino ainda não havia se anunciado, e eu usufruía as delícias da vida acadêmica, e até mesmo as aventuras iniciais com Harry e Rony, sem maiores sobressaltos. A cada dia aprendia mais sobre magia, história e feitiços, e queria aprender cada vez mais.

Mas nem toda experiência acadêmica é sublime e elevada, e pude comprovar isso no dia em que aprendi uma expressão que não conhecia: "sangue-ruim".