Era mais um bate-boca entre crianças - mas quem pode ser tão cruel quanto as crianças? Na hora, não entendi do que Draco Malfoy havia me xingado. Foi só depois, na cabana de Hagrid, enquanto estávamos esperando que Rony parasse de cuspir lesmas, que ele me explicou o que significava.

Hagrid se sentiu ultrajado, e me disse para não ligar para isso, tentando disfarçar que estava tremendo de indignação. Percebi que ele e Rony ficaram muito incomodados, como se uma criança falasse algo na mesa de jantar e não entendesse porque os adultos ficaram nervosos, mas percebesse que havia dito algo proibido. O sentido da expressão escapava tanto a mim quanto a Harry, já que fomos criados como trouxas, e não conhecíamos até então o significado de sangue ruim.

Com doze anos, por mais madura que eu fosse, não conseguiria entender a profundidade daquele xingamento, e tenho certeza de que Draco também não o compreendia. Só estava repetindo uma expressão habitual com a qual havia sido criado, algo que herdou junto com os preconceitos da sua família, uma expressão que tinha um efeito imediato, como um palavrão.

Ele não sabia direito como me ferir, era um aprendiz nessa estranha arte, e na hora eu não sangrei. A expressão sangue ruim ficou alojada dentro de mim como um feitiço irreversível, e foi destilando seu veneno à medida que o tempo passou.

Não era o tipo de palavra que eu encontrava nos livros didáticos ou nos de referência que costumava consultar. Na biblioteca, encontrei-a nos livros de História Bruxa que buscavam explicar as lutas pela supremacia no mundo bruxo, com o discurso de submissão dos trouxas avançando e regredindo através das épocas, como ondas em uma praia.

Eu havia estudado sobre o holocausto quando ainda estava na escola trouxa, antes de Hogwarts, e li o diário de Anne Frank. Sangue ruim era uma expressão suja, mordaz, como a palavra "judeu" cuspida por um nazista. Era a síntese de ideias supremacistas e fascistas, a melhor das sínteses, concentrada no pequeno slogan de duas palavras.

Pensando cientificamente sobre o assunto, de um ponto de vista evolutivo é praticamente impossível, ou pelo menos altamente improvável, que não haja casamentos entre os bruxos nascidos trouxas, ou sangues ruins, e os bruxos de sangue puro, descendentes de famílias tradicionais bruxas.

Na genealogia bruxa, é possível identificar os ramos "impuros" das famílias de sangue puro pelos seus descendentes que abandonam a tradição e se casam com bruxos nascidos trouxas. Com raras exceções (a família Malfoy era uma delas, integrando o grupo das vinte e oito famílias consideradas de sangue puro), os bruxos tendem a se misturar com bruxos nascidos trouxas ou mesmo com trouxas, o que, do ponto de vista genético, é o correto a ser feito.

Na prática, acabava sendo quase impossível identificar um ancestral sangue ruim muito distante, mesmo pelos mais ferrenhos defensores da ideologia do sangue puro. Muitos bruxos que compartilhavam dessas ideias se esforçavam para ocultar suas origens familiares duvidosas. É o caso do próprio Voldemort, cujo pai era trouxa.

Mas essa reflexão viria apenas mais tarde. No momento, tinha problemas mais práticos com que lidar, pois estava tentando junto com Harry e Rony descobrir sobre os ataques que estavam acontecendo em Hogwarts pelo autoproclamado herdeiro de Slytherin.

Aprendi logo que a questão do herdeiro estava ligada com os sangues ruins. Draco Malfoy não se furtava a anunciar isso com certa satisfação, dizendo que o herdeiro de Slytherin voltou para acabar com os sangues ruins. Harry tinha certeza que Draco, se não estava envolvido, ao menos sabia de algo - por isso, eu tive a ideia de usar a poção Polissuco para tentar extrair informações dele.

Numa perspectiva científica, pode-se dizer que o experimento foi bem sucedido, uma vez que eliminou algumas hipóteses. A mais ingênua delas era a de que Malfoy poderia estar articulando os ataques, no que eu nunca acreditei, pois não achava que ele teria competência para isso. Era algo maior, que envolvia um tipo de magia das trevas que nós desconhecíamos.

Paguei um preço alto para eliminar essa hipótese, tendo que passar algumas semanas na enfermaria fazendo uma lenta transição da forma felina (que eu tinha assumido involuntariamente ao misturar pelos de gato na poção Polissuco), e precisando usar todas as minhas habilidades de persuasão para convencer Madame Pomfrey de que tudo não passava de uma série de coincidências terríveis e não premeditadas.

Com tudo isso acontecendo, e depois do episódio do sangue ruim, Draco Malfoy, com quem eu costumava antipatizar em níveis suportáveis, foi promovido ao patamar de pessoa execrável na minha classificação de caráter.

Suas atitudes só faziam consolidar essa percepção dia a dia, como se ele soubesse e estivesse se esforçando para manter o posto de pessoa mais desprezível possível. Ele parecia fazer de forma intencional, sendo cada vez mais ousado na tentativa de me atingir, como quando declarou em alto e bom som para o professor Snape que ele deveria ser o diretor da escola, e que todos sangues ruins deveriam continuar a morrer, começando por mim.

Se eu soubesse o que sei hoje, ou se nós não fossemos pouco mais que duas crianças, talvez tivesse percebido que isso era uma intensificação dos sentimentos que haviam entre nós, sentimentos que foram se tornando mais envolventes e profundos, mesmo que não tivéssemos consciência deles. Entre o amor e o ódio há uma linha tênue, não é o que se costuma dizer?

Mas eu não tive muito chance de refletir sobre isso, pois fui tirada de combate de maneira literal quando fui petrificada ao ver o reflexo dos olhos do basilisco. É um período do qual não tenho nenhuma lembrança, nenhum sonho. Algo parecido com uma quase morte, ou com a Poção do Sono sem Sonhos mais potente do mundo.

Quando acordei, tudo havia se resolvido, e Harry mais uma vez havia se provado um autêntico grifinório, vencendo um desafio muito além da capacidade de um bruxo de doze anos ao matar o basilisco e atrapalhar os planos de ressurreição de Voldemort pela segunda vez.

Rony e Harry me receberam com muita alegria. Contaram-me tudo que aconteceu com todos os detalhes fascinantes. Eu fiquei muito empolgada com a vitória deles.

- E finalmente as mandrágoras ficaram prontas para a poção, para desespero de Malfoy - Harry disse, rindo.

- Como assim?

- Eu percebi que ele não se alegrou como os outros quando Dumbledore nos falou sobre as mandrágoras…

Respondi com a minha clássica revirada de olhos, que era o gesto equivalente ao lema "ignore-o".

Fui me deitar mais cedo, estava me sentindo um pouco cansada e ainda estava me recuperando dos efeitos da petrificação. A professora McGonagall conversou muito séria comigo, dizendo que eu não deveria tentar recuperar de uma vez o tempo que fiquei na enfermaria, afinal eu estava adiantada em relação ao andamento das disciplinas. Ela tinha razão, e também foi bem enfática. Resolvi respeitar esse tempo de restabelecimento. De qualquer forma, em alguns dias iríamos para casa, e eu poderia descansar o suficiente para repor as energias gastas em mais um ano em Hogwarts.

Acordei num pulo de um sonho agitado, em que se misturavam paredes pichadas com sangue, olhos amarelos num espelho, chão molhado, Gina, a espada de Gryffindor e… Draco Malfoy. O que ele havia feito para ocupar um espaço no meu sonho, disputando com o basilisco e Voldemort? Lembrei do que Harry me contou, de que Draco não parecia ter ficado alegre ao saber que a poção de mandrágora estava pronta.

Era isso, então? Draco Malfoy queria mesmo que eu morresse? Eu, que não era mais que uma colega de classe que nunca havia feito nada contra ele, com quem ele mal tinha trocado algumas poucas palavras em dois anos (apesar de algumas bastante duras)?

Isso era tão injusto! O mais provável era que ele não me enxergasse de fato, eu era só um rótulo no qual ele lia "sangue ruim", e assim pouco importava se eu estivesse viva ou morta - morta, aliás, significaria um pontinho a mais na sua contabilidade preconceituosa, e isso devia ser uma ideia agradável para ele.

Estava começando a ficar chateada de verdade, e então resolvi recorrer ao meu habitual pensamento racional para lidar com isso. Foi quando a frase se formou com uma clareza cristalina na minha mente: afinal, por que eu me importava com o que Draco Malfoy sentia em relação a mim?

A frase, mesmo sendo clara e objetiva, provocou em mim o efeito contrário: ao invés de me animar e dissipar as nuvens de pesar, ela me assustou: eu estava, de fato, me importando com o que Malfoy sentia por mim, e saber que ele preferia que estivesse petrificada ou mesmo morta me deixou arrasada, de um jeito que eu não conseguia explicar.

"É a ideologia do sangue ruim", minha mente racional dizia, "não é você. Ele mal te conhece!". Mas esse tipo de pensamento só piorava as coisas e não me consolava. Ele mal me conhece, portanto, poderia me tratar como uma formiga em que se pisa sem remorsos?

Eu me recusava a ficar pensando nisso, e como as minhas tentativas falhavam, ficava me recriminando: como você pode se interessar por um ser repulsivo como Draco Malfoy? O que diriam Harry e Rony se sequer imaginassem isso?

Comecei a ficar muito nervosa, a tremer e suar, algo que eu hoje identifico como um ataque de pânico, e estava incapaz de pensar de forma racional. Corri para a enfermaria e pedi ajuda para Madame Pomfrey, chorando. Ela ficou preocupada quando eu disse a ela que tinha sonhado com o basilisco e havia ficado com muito medo.

Passei aquela noite na enfermaria, e isso é algo que poucas pessoas souberam. Dumbledore e a professora McGonagall vieram me ver. Segundo Madame Pomfrey, eu estava com sintomas residuais do feitiço, que podem envolver sentimentos aterradores, como uma espécie de estresse pós-traumático. Eles entenderam que eu deveria ir mais cedo para casa, pois mesmo faltando apenas três dias para as aulas terminarem eu estava precisando de descanso, havia sido um ano difícil.

Tranquilizei Harry e Rony na medida do possível, dizendo que tudo o que tinha acontecido havia mexido muito comigo, mas que eu iria ficar bem. Dumbledore conseguiu uma ambulância especial com o Ministério para me levar até Londres, onde encontrei meus pais. Eu os abracei com tanta força, quase desesperada, e eles ficaram preocupadíssimos. Eu dizia que não era nada, para não se preocuparem, chorando cada vez mais. Foi uma cena terrível.

Pela primeira vez, passou pela minha cabeça como seria a minha vida sem Hogwarts, e o que aconteceria se eu não voltasse nunca mais para a escola. Felizmente, as poções curativas de Madame Pomfrey atuaram logo, ainda que eu não tenha sido completamente honesta sobre o que causara a minha crise. A poção de própolis regenerativa universal, especialmente formulada para as dores emocionais e que Madame Pomfrey sempre incluía em suas prescrições (conhecedora da alma humana como era), fez seus efeitos e em uma semana eu me sentia mais fortalecida, reconhecendo em mim a velha Hermione de sempre, racional e corajosa.

Tomei a decisão íntima de não permitir que Draco Malfoy me machucasse nunca mais, e sabia que eu era forte o suficiente para cumprir essa autodeterminação à risca.

Quem era ele de verdade e o que sentia não eram perguntas que eu iria fazer mais. Ele poderia continuar a me tratar como um rótulo o quanto quisesse, não importava. Eu não permitiria mais que ele me atingisse.

O Fatum observava minha expressão determinada, divertindo-se.