Os dias de embarque para Hogwarts eram sempre corridos e marcados pela ansiedade de voltar para a escola e reencontrar amigos e professores. Eu, Harry e Rony embarcamos juntos, vindos do Caldeirão Furado, em que estávamos todos hospedados - nosso reencontro começou um pouco mais cedo, e eu me sentia muito feliz de estar mais uma vez na companhia dos meus amigos.
Conseguimos uma cabine por sorte, apesar de haver um homem dormindo nela - identifiquei pela bagagem que era o professor Lupin. Tentamos conversar sem falar muito alto para não acordá-lo (o que era difícil).
Harry havia acabado de saber que a fuga de Sirius Black de Azkaban tinha alguma relação com ele, de quem poderia vir atrás, o que era aflitivo - ainda que soubéssemos que Hogwarts era o local mais seguro para Harry se proteger de um eventual ataque. Por aqueles estranhos mecanismos que só quem já foi adolescente pode entender, no entanto, Harry parecia mais preocupado com o fato de não ter autorização para ir ao povoado de Hogsmead nas visitas a que os alunos do terceiro ano em diante tinham direito.
Conversávamos sobre isso quando a bruxa com o carrinho de comida chegou. Compramos alguns lanches, e os meninos, como sempre, compraram doces. Rony não conseguia resistir aos feijõezinhos de todos os sabores - era uma espécie de jogo com a sorte, uma roleta russa, em que você poderia saborear um pudim ou uma sola de sapato. Era demais pra mim, e eu passava minha vez sempre que ele me oferecia um. Rony colocou um feijãozinho na boca, prestando atenção no sabor, e disse:
- Mel! Finalmente uma coisa gostosa, pra variar!...
Na mesma hora, nossa atenção foi desviada para os risos no corredor. Draco Malfoy, acompanhado dos seus habituais colegas brutamontes Goyle e Crabbe, apareceu na porta da cabine provocando os garotos. Ainda bem que ele percebeu logo que não estávamos sozinhos e se afastou, levando seus trasgos com ele.
Ele não me notou nem me dirigiu nenhuma palavra, o que me deixou aliviada. Reparei que ele estava mais crescido e meio diferente, mais charmoso, não sei definir bem, mas procurei não ficar prestando muita atenção nisso. Fiquei orgulhosa por manter minhas emoções equilibradas na presença dele, e pensei que as férias tinham me feito bastante bem.
O ano, no entanto, já havia começado mostrando que não seria nada calmo, muito menos equilibrado. Harry estava ainda sob o impacto da notícia sobre Sirius, e a entrada dos dementadores no nosso vagão o abalou bastante: ele desmaiou. Foi muita sorte o professor Lupin estar conosco e ter conjurado um Patrono para nos proteger daqueles seres nefastos. Tudo que eu não precisava era cair em depressão de novo, e foi assustador como a mera presença dos dementadores na cabine começou a me tragar para uma tristeza profunda.
Fiquei preocupada com a reação de Harry, eu precisava ser forte para apoiá-lo. A notícia se espalhou, e Draco não perdeu a oportunidade de zombar de Harry pelo desmaio. Pensei comigo: cara Hermione, preste bem atenção nesse momento, grave-o na sua memória - esse é o desprezível Draco Malfoy, que não merece um segundo da sua atenção. Ignore-o.
Esse era o compromisso que assumi comigo, e nada me demoveria de mantê-lo. Além disso, esse ano seriam oferecidas muitas disciplinas que eu queria cursar. Era um grande desafio em que estava me colocando, mas eu sou movida a desafios, como uma autêntica grifinória. Queria estar no meu lugar preferido, que era a carteira de aluna em Hogwarts, com toda a dedicação que isso merecia. E tinha um plano ótimo.
Lendo um artigo sobre a professora McGonagall nas férias, soube que ela usara um Vira-Tempo em seus tempos de estudante para conciliar a frequência às disciplinas e treinos de quadribol - ela havia sido jogadora em sua época de escola. Fui conversar com ela e a convenci a me emprestar seu Vira-Tempo para eu poder assistir as aulas simultaneamente.
Ela concordou, desde que fosse autorizado pelo Ministério da Magia e que eu mantivesse absoluto segredo. Ela confiou que eu teria responsabilidade para utilizar o artefato, e não se enganou. Além disso, meus motivos eram os melhores possíveis - estudar de forma disciplinada e dedicada.
Assim, pude me matricular em Aritmancia, Trato das Criaturas Mágicas, Adivinhação, Estudo das Runas Antigas, Estudo dos Trouxas, Transfiguração e Poções, tudo graças ao Vira-Tempo. Quem poderia imaginar que esse objeto teria um papel tão decisivo nesse ano conturbado (e voltaria a ser importante mais uma vez, num futuro ainda distante)?
Minhas expectativas eram as melhores, principalmente em Aritmancia e Runas Antigas, pelas quais me encantei desde o princípio. Estudava o alfabeto rúnico com afinco, principalmente a história dos símbolos e como chegaram na sua forma atual, com cerca de mil anos.
Adivinhação já não me empolgava tanto - como comentei, preferia a corrente teórica da Magia Racional, assim como a professora McGonagall, que era uma especialista no assunto, bem como na transmutação enquanto um fenômeno mágico-físico.
Para piorar, minha antipatia pela professora Trelawney foi imediata. Minha impressão é que ela dizia qualquer coisa para passar a imagem de uma grande vidente, o que certamente não era, tentando nos intimidar com aquele ar de charlatã.
Eu não conseguia disfarçar meu desagrado e ficava bufando durante a aula. Além disso, tive que aguentar os olhares irônicos de Harry e Rony quando a professora disse que os livros não ajudariam nessa aula. Como assim, livros não ajudariam? Era inadmissível.
Nosso primeiro exercício foi a leitura da borra formada pelos resíduos de folhas de chá na xícara. Neville era meu parceiro na mesinha redonda coberta com uma longa toalha de veludo em que as duplas deveriam se acomodar na sala enfumaçada em que a aula acontecia, e Harry e Rony ficaram juntos na mesinha ao lado.
A tarefa era que tomássemos o chá e virássemos a xícara emborcada no pires, o que faria com que a borra escorresse um pouco pelo fundo e pelas laterais, supostamente formando imagens que deveríamos interpretar a partir dos gráficos do livro Esclarecendo o futuro, o texto de referência para as aulas. Depois, trocaríamos de xícara, e Neville leria a minha sorte, e eu a dele.
- Ahn… pode ser um tipo de trevo… significa que você terá sorte no jogo - falei para Neville, sem muita convicção.
- Mas eu nunca jogo…
- Ou pode ser também que seja uma estrela. Ou um sapo. Ah, desisto…
- Deixa eu ver a sua. Tem alguma coisa com asas, eu acho que parece uma abelha.
Neville me mostrou a xícara, e apesar do meu ceticismo, era impressionante como a imagem sugeria uma abelha: as falhas na borra pareciam as pequenas listras no corpo do inseto, e podia-se distinguir quatro asinhas, duas de cada lado.
- Não parece? O desenho está bem legível, o que, segundo o livro, indica que é um presságio muito forte… Bem, diferente do meu… Vamos ver o que significa.
Eu já estava lendo o significado:
- Segundo o livro, a abelha é um sinal de vida em comunidade, uma indicação de cargos de gestão - eu disse.
- Quem sabe você não vai se tornar uma política no futuro? Ou Ministra da Magia? - Neville disse, bem humorado.
- Eu duvido muito.
- Ela também pode indicar infortúnios no amor… hã?... - Neville enrubesceu, não era o tipo de assunto que conversaríamos numa aula nem fora dela.
- O quê? Deixa eu ver. Céus, quanta bobagem.
O livro dizia que a abelha era um símbolo da deusa grega Deméter, uma antiga deusa feiticeira assimilada pela cultura trouxa também, e que, para aqueles a quem a abelha aparecia nas folhas de chá, o amor equivaleria a uma descida aos infernos, com muitas provações.
Puxei a xícara da mão do Neville para olhar melhor. A professora Trelawney vinha se aproximando da mesa de Harry e Rony, e após ouvi-la falar tantos absurdos e assustar Harry, a última coisa que eu queria era que ela visse a minha xícara e ficasse prevendo a minha infelicidade afetiva.
Num momento de distração da turma (quando Neville quebrou sua segunda xícara), deslizei minha xícara rapidamente para dentro da mochila, não sem antes protegê-la com um feitiço imobilizante para que o desenho não se desfizesse. À noite, no dormitório, com um controle de variáveis mais adequado, eu poderia examiná-la com a atenção apropriada.
Ainda bem que a próxima aula foi com a professora McGonagall, cuja opinião sobre Adivinhação era parecida com a minha. Ela tranquilizou Harry, dizendo que a professora Trelawney previa a morte de um novo aluno a cada ano, e que até hoje todos estavam vivos - não sem antes completar que, caso Harry morresse, ela perdoaria que ele não entregasse o dever de casa. Todos rimos e nos sentimos mais aliviados.
Após o almoço, teríamos a primeira aula com Hagrid. Apesar de estarmos no início do outono, fazia um dia ensolarado, e no caminho que levava à clareira em que a aula aconteceria fui atraída pelo som do zumbido, e percebi algumas abelhas circulando em volta das últimas flores, que pareciam não se dar conta da mudança da estação. "Abelhas, outra vez?", pensei. Por acaso, era algum tipo de perseguição?
Esta primeira aula de Hagrid seria marcante em muitos sentidos. Foi aquela em que nos apresentou aos hipogrifos, que são criaturas bastante apavorantes, pelo menos na primeira vez que encontramos uma.
A aula era junto com a turma de Sonserina e sim, Draco Malfoy estava lá, se comportando como um típico adolescente de treze anos, rindo com seus amigos e provocando as garotas da sua turma, que davam gritinhos e risadas, escondiam o rosto e voltavam a olhá-lo meio fascinadas, recomeçando o jogo. Ele agia de forma especialmente desdenhosa e desrespeitosa com Hagrid, de quem não gostava e entendia que não merecia o status de professor.
Na sua vez de lidar com o hipogrifo Bicuço Malfoy foi arrogante e displicente, desconsiderando as orientações de segurança dadas por Hagrid, e acabou sendo arranhado pela criatura - um corte feio no braço, que sangrou bastante. Fiquei preocupada com ele e também com Hagrid, pois isso poderia significar sua demissão.
Harry e Rony tinham certeza de que Malfoy iria se aproveitar do fato de ter sido ferido, exagerando na gravidade. Isso parecia bem típico dele, e estava claro para todos nós, que assistimos a cena, que Malfoy foi o culpado. Segundo Hagrid nos contou mais tarde (quando fomos visitá-lo em sua cabana para ver como ele estava após essa história toda), Malfoy estava bem, apesar de ainda estar se queixando.
Eu me senti mais tranquila, mas pensei que só ficaria aliviada de fato quando o visse novamente no salão ou nas aulas, ainda que fosse para presenciar suas habituais atitudes esnobes e grosseiras. Como eu jamais teria a coragem de visitá-lo na enfermaria, nem nenhuma justificativa convincente para isso, restava-me prestar atenção aos comentários e tentar filtrá-los, dependendo do interlocutor, para obter notícias de Draco.
Acho que este foi um dos dias mais longos que vivenciei em Hogwarts, cheio de acontecimentos e reviravoltas - sem contar que, para mim, a jornada era dupla, com todas as aulas que eu assistia com o Vira-Tempo. Foi um dia extenuante, e quando cheguei ao dormitório só pensava em me atirar na cama e apagar. Joguei a mochila sobre a escrivaninha e ouvi um tilintar de louça. Lembrei na hora da xícara de chá.
Fiquei planejando como iria fazer. Eu precisava ser discreta, todas as meninas já estavam no dormitório, e a última coisa do mundo que eu queria é que elas vissem que eu havia retirado a xícara da aula. Tive um pensamento apavorante de Parvati pegando a xícara da minha mão, e enquanto eu me atirasse para pegá-la ela a jogasse para Lilá, entre risadas excitadas, com as meninas pulando sobre as camas e fugindo de mim. Sacudi a cabeça para espantar essa terrível visão. Não, eu teria que procurar um lugar mais seguro para fazer as minhas pesquisas. Poderia ser na biblioteca, mas como eu levaria a xícara até lá? A resposta não veio - no lugar dela, o sono me venceu, e eu dormi profundamente, como se faz após os dias cheios.
