Os exames estavam chegando, e essa era a pior época do ano para mim. Para quem não me conhece, essa afirmação pode sugerir que eu não estivesse bem preparada para as provas, mas era justamente o contrário. Mesmo com tantos compromissos e estudos simultâneos, eu estava pronta para os exames e excederia todas as expectativas, como de costume. Mas essa era minha natureza de aluna perfeita. De forma justificada ou não, na época dos exames meus nervos ficavam à flor da pele.
Passava a maior parte do dia e da noite estudando para as provas, e para relaxar continuava a ler sobre Magia Antiga - por mais difícil que seja acreditar nisso, essas leituras me distraíam. Além disso, eram a saída racional que eu havia encontrado para tentar colocar alguma ordem nos meus sentimentos confusos.
Foi numa dessas pesquisas que achei um livro falando sobre o Synchro. Não havia quase nada sobre o assunto, e ponderei que deveria se tratar de algo incomum e raro. O Synchro é uma marca mágica, uma espécie de condição, algo com que a pessoa nasce, como a cor dos olhos. É uma marca de ligação, e quem tem o Synchro tem sua vida ligada a uma outra pessoa, cujo destino fica entrelaçado com o seu. Essas duas pessoas têm algo a aprender juntas, e por isso se encontram por ação do destino, mesmo sem se procurarem de forma intencional. É um laço mágico.
A ideia da casualidade significativa é a manifestação básica da marca do Synchro. É algo tão forte que até mesmo os trouxas conseguem perceber seus efeitos. O psicólogo trouxa Carl G. Jung, embora desconhecesse as raízes mágicas do Synchro, estudou sua manifestação e criou o conceito de sincronicidade.
A sincronicidade pode ser definida como uma relação de significado entre dois eventos que acontecem ao mesmo tempo, mas que não têm uma relação causal. Ele os chamava de coincidências significativas. É o que acontece quando entramos numa biblioteca e encontramos exatamente o livro sobre o assunto que procuramos sem pesquisar.
Outro exemplo são as visões de cachorros que Harry teve quando Sirius apareceu na sua vida - a capa do livro sobre presságios, a história do Sinistro, a visão de Sirius na sua forma animal no ponto de ônibus e no jardim, com Bichento. O ponto é que não é por acaso, é um sinal de um acontecimento significativo, como se o mundo real respondesse a uma disposição interna que precisa da nossa atenção.
Na tradição mágica, o Synchro sinaliza algo que deve ser considerado e interpretado, um sinal indicado pelos oráculos, que acontece num momento específico no tempo e que nada tem de aleatório. Segundo essas tradições, seguir o que esse sinal está indicando é uma das transformações mais importantes para o autoconhecimento, e também uma forma de ter respostas para as indagações, confiando no Universo para saber o que fazer.
Esse tipo de pensamento está na base da existência de qualquer oráculo: a carta, a vareta, a pedra ou as folhas de chá refletem um momento no tempo, e cabe ao leitor interpretá-lo.
A associação do Synchro com a marca de Deméter era mais uma confirmação de um relacionamento regido pelo destino. Isso me deixou apreensiva - se eu estava marcada pelo Synchro, quem era esse par que me acompanhava?
Minha intuição, por mais que eu achasse absurdo e não quisesse aceitar, me fazia pensar em Draco. Será que a minha relação com Draco era marcada pelo Synchro? Isso me atemorizava, eu não sabia direito o que pensar ou o que fazer com essa informação.
Procurei me acalmar recorrendo à voz interna, dizendo a mim mesma que eu ia conhecer melhor essas questões com o tempo, não precisava me desesperar. O tempo, aliás, foi algo que passou a primeiro plano naquele momento. Não pude deixar de pensar que foi sincrônico aprender sobre o assunto justamente na época em que o Vira-Tempo estava tendo um papel tão importante na minha vida.
Prometi a mim mesma que observaria melhor as coincidências significativas em meu dia a dia para tentar aprender como lidar com os sentimentos desafiadores que estava experimentando.
Os exames continuaram dentro do previsto. Ou quase. O professor Lupin criou uma espécie de circuito de provas, em que a última era enfrentar um bicho-papão com o feitiço Riddikulus.
Os garotos presenciaram minha reação apavorada, e contei a eles que meu bicho papão tomou a forma da professora McGonagall dizendo que eu havia tirado zero, o que aconteceu de fato e me assustou bastante.
O que não contei foi que, na visão, ela me mostrava um pergaminho com um olhar de decepção e balançava a cabeça negativamente - o pergaminho em que eu havia desenhado a xícara de chá que eu havia tirado da aula de Trelawney. Foi apavorante.
Harry e Rony acharam divertido e não desconfiaram de nada - na inocência deles, a única coisa que poderia me assustar era ser má aluna. Bem, eles não deixavam de ter razão, mas havia sentimentos que me assustavam mais e que eu não admitia nem para mim mesma. Fiquei imaginando como seria o bicho papão de Malfoy.
Finalmente, chegou o dia do último exame, Estudos dos Trouxas. Mas não foi um dia de alívio: a execução de Bicuço foi marcada para o pôr do sol. Procuramos Hagrid, mas ele nos mandou embora, não queria que estivéssemos por perto na hora. Chorei por Bicuço, por Hagrid, por toda a injustiça. E odiei Malfoy, por ser um garoto insensível e cruel.
Mas a história não acabou aí, e numa noite cheia de reviravoltas, eu e Harry conseguimos salvar Bicuço e libertar Sirius. Não vou detalhar os acontecimentos, apenas direi que foi uma das aventuras mais empolgantes que vivi - e olha que não foram poucas.
No dia seguinte, soube que Malfoy ficou enfurecido com a fuga de Bicuço, e que atribuiu a Hagrid ter enganado a ele e seu pai. Minha raiva por ele continuava, mesmo após a fuga de Bicuço. Garoto mimado. Para ele, o principal era atingir Hagrid, pouco se importando com Bicuço. Por que ele tinha que ser tão cruel?
Eu me recriminava ainda mais por tentar entender seus motivos e não conseguia encontrar uma justificativa aceitável para o seu comportamento. Secretamente, desejei que a libertação de Bicuço fosse um pedido de perdão para Draco Malfoy, ainda que ele não desejasse isso.
O final do ano letivo se aproximava, e tratei de devolver o Vira-Tempo para a professora McGonagall. Apesar de ter nos ajudado a salvar Bicuço e Sirius, eu não queria mais saber de ficar voltando no tempo para estudar mais disciplinas ao mesmo tempo, o que quase me enlouqueceu. Já havia tido a minha cota e me desgastado demais. Um pouco de juízo e equilíbrio me faria bem, afinal.
No caminho de volta, encontrei com um bando de alunos da Lufa-lufa comemorando o fim do ano, naquela alegria descontraída em que todos parecem ter sete anos de idade de novo. Pulavam e cantavam abraçados, agitando os cachecóis listrados de amarelo e preto. Achei que pareciam um bando de abelhas gigantes e abobalhadas.
Quando pensei em abelhas, lembrei do Synchro e tudo se iluminou como se um raio atravessasse a minha mente de maneira súbita e incontrolável. As abelhas sempre apareciam quando meu caminho se cruzava com o de Draco - as lembranças começaram a jorrar, desde os feijõezinhos com gosto de mel de Rony, as abelhas nas últimas flores, o cheiro de hidromel em Hagrid e o mel em sua barba, tudo se encaixava.
Senti uma sensação de calor me envolvendo da garganta até as pernas, e tinha certeza que meu rosto estava muito vermelho. Na mesma hora, pensei: aqui estou eu, aqui estão as abelhas, onde está Draco?
Como se tivesse ouvido a minha pergunta e se apressasse em respondê-la, Draco Malfoy surgiu na entrada do corredor em que eu estava parada. Quando ele me viu, também parou, a mais ou menos cinco passos de distância de mim. Por eternos dois ou três segundos não dissemos nada, só ficamos nos olhando, impassíveis. O silêncio era quebrado apenas pelos risos distantes dos alunos lá fora. Estávamos sozinhos, desatentos à regra social de falar algo, por mais aleatório que fosse, em uma situação dessas. Draco reagiu primeiro:
- Passeando sem os seus namorados, Granger?
- E você, passeando sem os seus? - Respondi, com a melhor ironia fingida possível para o momento.
O rosto dele ficou rosado, e o gesto de afinar os lábios surgiu imediatamente, combinando com seus olhos raivosos.
- Você é uma sangue ruim bem atrevida, Granger. Não pense que eu esqueci o tapa que você me deu.
- Estou morrendo de medo de você, Malfoy…
Ele se aproximou em passos rápidos, e parou a dez centímetros de mim. Meu estômago deu um salto, mas eu me mantive firme, engolindo em seco e sustentando o olhar fixo no dele. Eu senti o calor que emanava dele, seu perfume fresco e amadeirado, as inebriantes notas de cedro, sândalo e musgo. Aquilo já estava começando a me perturbar, mesmo tendo durado poucos segundos.
- Tudo bem por aqui?
A voz do professor Lupin quebrou a tensão. Automaticamente, nos afastamos, dando um passo atrás. Respondi com todo o equilíbrio que consegui reunir:
- Tudo ótimo, professor.
Draco não disse nada. Olhou para Lupin com um misto de raiva e desprezo, e foi embora pisando duro.
- Está tudo bem mesmo, Hermione? - perguntou o professor Lupin.
- Sim, foi apenas uma troca de gentilezas com Malfoy, para não perder o costume.
Consegui encontrar forças para sair dali sem demonstrar o quanto estava abalada. A descoberta de que a abelha era um símbolo do Synchro entre mim e Draco já teria me desequilibrado o suficiente sem precisar ficar a centímetros dele. Eu só queria sair de Hogwarts o mais rápido possível e não pensar mais em Draco, no Synchro e em mais nada. Quase desejei poder sair de ambulância novamente como no ano passado, só queria ficar longe de tudo… principalmente dele.
O dia de ir embora finalmente chegou, apesar de parecer demorar séculos. Estava arrumando meu malão quando encontrei a xícara de chá. Por mais que eu não quisesse pensar no assunto (pelo menos, estava me esforçando para isso), a curiosidade foi mais forte: se eu utilizasse o Synchro de forma intencional, será que funcionaria? Ou: se eu usasse uma imagem ou evocasse de alguma forma uma abelha, isso faria com que eu encontrasse Draco?
Esse tipo de hipótese não resistiria a uma revisão mínima, e nem valeria a pena ser testada diante do que eu sabia sobre o Synchro. É claro que o meu raciocínio científico falhava quando o assunto era Draco Malfoy, e resolvi fazer o teste.
Coloquei a xícara sob a capa e fui até o salão, depois dei uma volta curta no pátio. Cheguei a passar perto da entrada das masmorras. Se eu pudesse me ver de fora, raciocinando em estado normal, iria perguntar: você está verificando uma hipótese ou está procurando Draco Malfoy?
Me senti muito idiota e envergonhada. Discretamente, limpei a xícara e a deixei em um canto do salão. Mas guardei o desenho que fiz dela dentro de um livro, meio sem saber por quê.
Conclusão do estudo: o Synchro não age de forma causal, como reação a uma atitude intencional, e sim como um acontecimento significativo e inesperado. Portanto, não se pode controlá-lo (como se eu já não soubesse disso).
Dumbledore disse a Harry que deveríamos aprender, com a experiência do Vira-tempo, que as consequências dos nossos atos são muito diversas, e por isso prever o futuro é uma tarefa muito difícil. Uma conclusão sábia, apesar de profundamente irritante. Era uma lição que eu poderia dizer ter aprendido, ou pelo menos estar me esforçando bastante para aprender.
Mas chega de experimentos científicos - pelo menos por este ano letivo. Eu precisava de férias, mais merecidas do que nunca. Não apenas para descansar, mas para planejar e colocar em prática um novo projeto.
