Longe de Hogwarts, nas férias, consegui o distanciamento necessário para pensar sobre tudo o que havia me acontecido no ano letivo passado. Toda aquela leitura sobre Magia Antiga me inspirou a formular as coisas nos seguintes termos: quem sou eu? Não pretendia responder essa questão com uma profundidade metafísica, mas ela me ajudou a voltar a raciocinar de forma mais lógica, o que era um alívio imenso.
Eu sou Hermione Granger, aluna de Hogwarts - não era essa a apresentação que melhor me definia? Eu estudo, analiso fatos, extraio conclusões lógicas. Pois bem, então seria assim que eu passaria a lidar daqui para frente com a questão Malfoy.
Eu tenho algum tipo de ligação com ele. Não vou negar, já recolhi evidências suficientes disso. É algo de ordem mágica, sobrenatural, não racional. Também já concluí isso. Mas o fato de ser irracional não significa que eu tenha que me entregar a esse sentimento.
Eu posso, por exemplo, ter uma vontade irracional de matar alguém, como sinto quando Rony quer copiar minha lição ou quando Harry se arrisca desnecessariamente. Mas isso não quer dizer que vou matá-los de fato, ou mesmo feri-los de alguma maneira (apesar de já ter socado Rony uma ou duas vezes).
O que estou querendo dizer é que o fato de um sentimento ser irracional não significa que ele possa me dominar ou não possa ser controlado - ainda que não eliminado, como parece ser o caso do Synchro.
Uma coisa pela qual eu devo me congratular é que procurei conhecer bem meu inimigo, o que é uma característica muito típica minha. Eu estudei o Synchro. Nenhum fator externo pode me obrigar a tomar uma decisão interna, o Synchro é apenas uma indicação. Astra inclinant sed non obligant.
Com isso, quero dizer que a conclusão obrigatória do Synchro não é que eu me case com Malfoy e viva feliz para sempre. Não é isso. É um sinal, alguma coisa que eu tenho que aprender sobre relacionamentos, elaborar internamente.
Além disso, há um limite que deve ser muito bem estabelecido. É impossível, por qualquer lugar que se aborde a questão, que eu tenha algum tipo de relacionamento afetivo com Draco Malfoy. Simplesmente impossível.
Primeiro, porque ele me despreza pelo que ele considera ser uma marca de inferioridade, o fato de eu ser nascida trouxa, ou sangue ruim. Depois, isso jamais seria aceito por aquela família odiosa dele, e não vejo nele a disposição suicida do Romeu de Shakespeare para ficar comigo. Ele me ignora, ou no máximo me acha impertinente, e nem o tapa na cara mudou isso.
Mas esses obstáculos, numa avaliação justa, não vinham apenas da parte de Malfoy, e eu devo ser honesta comigo. Eu não suportaria o olhar de decepção de Harry e de Rony se soubessem que eu tenho algum tipo de interesse romântico por Draco Malfoy - fico envergonhada só de pensar nisso.
O caráter de Draco é abominável, ele reúne tudo que eu detesto em uma pessoa, como esnobismo, crueldade e covardia. Portanto, nosso repúdio é mútuo, e eu posso dizer que a conclusão lógica, diante dessas evidências, é que nunca teremos nenhum tipo de relacionamento afetivo. Ponto final.
Levantados os dados preliminares do projeto, resta agora montar um procedimento. Sempre preferi ignorar as afrontas de Malfoy, e avalio que isso é bem efetivo, já que ele é movido às reações dos outros às suas provocações. Para ele, eu devo continuar essa pessoa a quem ele não atinge (reconheço que o tapa foi uma falha nesse procedimento - mas nada que eu não possa recuperar).
Mas só ignorá-lo não é o suficiente. O Synchro me sinaliza essa questão afetiva, romântica. Namorar ou me envolver com alguém, mesmo em um encontro sem compromisso, não é algo que estava nos meus planos, pois não combina com o papel de aluna exemplar com o que me identifico. Os estudos vêm sempre em primeiro lugar.
Mas suponho que, se eu ficar lutando contra isso, vou gastar mais energia do que deveria permitindo que os relacionamentos ocupem um lugar de destaque na minha vida, o que eu não pretendo. Então, pensei que eu deveria relaxar um pouco, tentar olhar isso de maneira mais leve, conversar de forma menos defensiva com algum garoto interessante, quem sabe isso não ajudaria?
A primeira pessoa que me ocorreu foi Rony. Eu nunca tive nenhum interesse romântico em relação ao Harry, não sei, ele é como um irmão. Além disso, percebi logo que Gina gostava dele e sofria por isso, pois ele desconhecia a existência dela (alguém aí se identifica?).
Já com o Rony é diferente, não sei explicar. Aquele jeito displicente dele era um pouco a antítese da minha mania de querer calcular tudo - afinal, ele é de Peixes, faz sentido pois somos complementares, segundo meus recém adquiridos conhecimentos de sinastria.
Acho que me autorizei a olhar para Rony de uma maneira diferente a partir desse dia, em que estava tentando ingenuamente resolver minha vida afetiva como um projeto científico.
O problema é que Rony era completamente alheio a tudo isso, pelo menos era o que me parecia. A simples menção de qualquer coisa relativa a relacionamentos e vida afetiva já era o suficiente para deixá-lo vermelho e incomodado, como se tivesse surpreendido seus pais se beijando, o que parecia não acreditar que fosse possível. Ele parecia ter três anos e desconhecer que existem diferenças sexuais entre homens e mulheres.
Enfim, eu não iria provocar Rony nesse sentido, nem tomaria nenhuma iniciativa. Apenas decidi estar mais aberta para ele, e ver onde isso iria dar.
Quando nos encontramos na Toca, no início do ano, fiquei observando Rony de forma diferente. Eu sempre gostei de vê-lo em casa, seu relacionamento com os irmãos e com os pais era muito amoroso, mesmo que ele parecesse não se importar com nada além de jogar ou falar de quadribol.
Eu adorava passar um tempo na Toca com os Weasley. Era tudo tão confuso, colorido e afetivo, com cheiro de cookies e barulhos de risada ao fundo, e eu pensava que era o tipo de família a que eu gostaria de pertencer.
Assim, os resultados parciais do projeto haviam me deixado satisfeita. Me sentia mais calma, mais receptiva, mais leve. Foi nessa época também que fiquei mais próxima de Gina e consegui uma interlocutora com quem compartilhar meus sentimentos. Ainda que não o fizesse de forma completamente aberta (falando sobre Malfoy, por exemplo), sentia que estava sendo honesta, dentro do que era possível para mim no momento.
Estávamos todos animados com a ida à Copa Mundial de Quadribol - pelo menos, os meninos estavam. Gina, apesar de já ter começado a jogar Quadribol por volta daquela época, estava mais interessada em trocar olhares comigo sobre Cedrico Diggory, aluno do sétimo ano que, sem sombra de dúvida, era o garoto mais bonito de Hogwarts e estava no nosso grupo, acompanhado por seu pai.
O acampamento da copa era um espetáculo de cores e sons: todos estavam muito animados, caracterizados com as cores e símbolos dos seus times. Num desses grupos, quatro garotos estavam vestidos de amarelo e preto, usando chapéus engraçados com antenas e segurando uma bandeira com o símbolo do Flemish Force da Bélgica, que era uma cruz preta sobre um fundo amarelo, com o desenho de uma abelha bem no meio.
Fiquei parada olhando o grupo ruidoso com a boca aberta, e Gina teve que me puxar para continuar andando. Eu já sabia o que ia acontecer, e estava tentando inspirar e expirar com calma para me tranquilizar, evitando que a observadora Gina notasse alguma coisa diferente em mim.
Nossos lugares eram ótimos, o Sr. Weasley ganhou ingressos especiais. Draco deveria estar por perto, não o imaginava em um lugar diferente de um camarote exclusivo. Não foi difícil localizar o cabelo platinado no meio dos outros, ainda mais em contraste com o fundo das vestes negras, quando ele veio chegando junto com os pais.
Ele se parecia muito com o pai, que era uma versão dele mais maldosa e arrogante, deixando claro em quem Draco se inspirava para ser insuportável. Ele estava entre o pai e a mãe, que vinha por último, com o ar esnobe típico da família. Achei que formavam um casal muito bonito, vestidos com roupas elegantes e que davam indícios de serem caras e exclusivas pelo tipo de tecido incomum, com um brilho diferente, suave e de caimento impecável.
Isso acentuava o contraste entre eles e nosso grupo, vestido com roupas casuais e esportivas, com os rostos pintados e paramentados com símbolos dos times. Éramos habitantes de dois planetas diferentes, cada grupo em sua nave, viajando para direções opostas da galáxia.
Seguiu-se um momento constrangedor, em que o Sr. Malfoy e o Sr. Weasley trocaram algumas palavras na frente do Sr. Fudge, Ministro da Magia. Nada além de uma formalidade forçada, enquanto nossos dois grupos se olhavam e reprovavam mutuamente, antes de nos dirigirmos aos nossos lugares.
O Sr. Malfoy não conseguiria disfarçar nem se quisesse o olhar de desprezo que me lançou. Devia saber que eu era a colega sangue ruim de Potter e Weasley, mas não disse nada. Fiz força para sustentar seu olhar, e percebi pelo canto do olho que Draco alternava o olhar entre eu e o pai. Quando o pai virou as costas e começou a caminhar para seus lugares, Draco nos lançou um último olhar de desprezo antes de se virar e segui-lo.
Os Malfoy sentaram-se na segunda fila, duas fileiras abaixo de nós e um pouco mais à direita. Eu podia ver Draco de onde estava, mas evitava olhar para ele de forma direta, e apenas o observava pelo canto dos olhos.
O espetáculo ia começar, e eu estava perplexa com a reação de Harry e Rony diante das veelas - os meninos sempre têm que ser tão patéticos? Mas elas eram realmente bonitas, e a cor dos cabelos quase brancos de tão claros me fez pensar se os Malfoy não teriam algum parentesco com veelas, ainda que distante. Estremeci ao lembrar que a verdadeira aparência de uma veela era tenebrosa e repugnante.
A entrada de Vitor Krum fez Rony esquecer sua admiração pelas veelas na mesma hora. Ele pulava como uma criança, apontando o jogador, que fazia uma volta de apresentação enquanto era ovacionado. Krum era o melhor e mais jovem jogador do time. Lembro pouco de Krum nesse momento (supostamente, deveríamos torcer pela Irlanda, não?).
Meu esforço em observar Draco sem ser notada estava consumindo toda a minha atenção no momento, mas assistir a um jogo profissional num estádio cheio é uma experiência emocionante, e logo eu estava pulando e gritando com os outros, como a adolescente de catorze anos que eu era.
A Irlanda ganhou, mesmo após Krum ter capturado o pomo dourado. Ficamos até tarde comemorando. Nem bem nos recolhemos para dormir, eu e Gina fomos acordadas pelo Sr. Weasley que, preocupado, pedia que o seguíssemos para fora e mal nos deu tempo de colocar um casaco por cima do pijama.
Um grupo de mascarados estava atacando o acampamento e incendiando barracas, e soube que eram Comensais da Morte. Eles ficaram jogando com a família trouxa do gerente do acampamento como se fossem bonecos, exibindo-os diante da multidão.
O Sr. Weasley foi ajudar o pessoal do Ministério e pediu que o esperássemos na floresta. Fomos correndo para lá, mas paramos quando ouvimos o grito de Rony, que havia tropeçado numa raiz de árvore, e ao cair se embaraçou em uma bandeira abandonada do Flemish Force que ficou para trás na correria.
Foi quando ouvimos a voz de Draco Malfoy rindo do tombo de Rony, displicentemente encostado em uma árvore e de braços cruzados, como se estivesse assistindo a uma queima de fogos.
O que aconteceu em seguida foi muito estranho. Rony retrucou Malfoy com um palavrão, e ele respondeu dizendo que Rony deveria se preocupar com que sua amiga (o que ele sublinhou de forma bastante irônica) não fosse descoberta, ao mesmo tempo em que apontava com a cabeça para mim. Eu perguntei o que ele queria dizer, e ele me respondeu que os Comensais estavam caçando trouxas, e que se eu não saísse logo, ele teria um espetáculo para se divertir em breve.
Harry e Rony saíram em minha defesa, e mais uma vez segurei Rony antes que ele partisse para cima de Malfoy quando ele me chamou de sangue ruim. Ele foi grosseiro comigo, e Harry acusou seus pais de estarem junto com os mascarados, o que não pareceu importar a ele, que continuava com o riso irônico no rosto.
Continuamos a ir para a floresta, e foi quando vimos a Marca Negra no céu, o sinal usado pelos Comensais da Morte seguidores de Voldemort.
Numa rápida sucessão de fatos, Winky, a elfo doméstica do Sr. Crouch, importante funcionário do Ministério (era o chefe do Departamento de Cooperação Internacional em Magia), foi acusada de ter conjurado a Marca Negra usando a varinha de Harry, que a havia perdido um pouco antes. O Sr. Crouch estava bastante nervoso, e chegou a acusar Harry e até eu de conjurar a marca, o que atribuí ao seu desequilíbrio emocional pelo que estava acontecendo.
Eu fiquei revoltada com a injustiça cometida contra Winky, que estava no lugar errado e na hora errada. Voltamos todos salvos para a barraca, e passamos um bom tempo discutindo o que aconteceu. O Sr. Weasley nos mandou descansar um pouco, antes de partirmos cedo por uma chave de portal.
Ninguém conseguiu dormir direito naquelas poucas horas, e fiquei tentando digerir o que aconteceu, pensando sobre quem teria sido o culpado por organizar o ataque e projetar a Marca Negra.
Mas havia mais uma coisa me preocupando que eu não conseguia entender: por que Draco Malfoy estava na entrada da floresta? Eu posso até concordar com Harry que seus pais, que eram apoiadores conhecidos de Voldemort, poderiam estar entre os mascarados, mas por que deixariam Draco para trás? Ou por que não se preocuparam em escondê-lo, enquanto estavam ocupados em sua missão terrorista?
Outra coisa que eu não entendia é que Draco, de uma forma extremamente rude… me defendeu. Tirando as expressões grosseiras e palavrões, a grande síntese do que Draco nos disse naquela noite foi: trouxas estão sendo atacados. Eles sabem que ela é nascida trouxa. Tirem ela daqui.
Eu não podia acreditar nisso, não fazia sentido. Se ele mal sabia quem eu era e se para ele eu não passava de uma sangue ruim desprezível, como poderia ter se arriscado para me alertar do perigo que eu corria? Era uma interpretação duvidosa, e eu comecei a me recriminar, agradecendo por estar escuro e ninguém poder ver o quanto eu estava envergonhada por pensar nisso.
Eu estava tão bem, tão leve e feliz, e não queria chafurdar de novo no pântano emocional Draco Malfoy. Estava decidida a permitir que meu projeto de interesse afetivo descompromissado por Rony se desenrolasse, e não iria deixar que Malfoy voltasse a me assombrar. Ainda mais com base em um delírio ridículo segundo o qual ele estaria preocupado comigo.
Mais uma vez, cheguei muito perto de saber o que estava se passando no coração de Draco. Mas não seria dessa vez, ainda, que esse segredo seria revelado.
