Rony estava empenhado em descobrir com quem eu ia ao baile. Eu estava passando um pouco de mel numa torrada - no começo, eu havia parado de comer mel, mas quando percebi que não adiantava querer controlar o Synchro, deixei prá lá. Às vezes funcionava, às vezes não. Dessa vez, ouvi a voz de Malfoy rindo logo atrás de mim, dizendo "alguém convidou a sangue ruim dentuça para ir ao baile?".
Fiquei com tanta raiva que dei um golpe baixo: brinquei com o caso da doninha, que ele ainda não tinha superado. Depois, me senti mal por ter agido assim. Esse era o jogo de Malfoy, provocar sem se importar de machucar, e quando eu entrava nele era como se me tornasse submissa a ele de alguma forma, o que eu não suportava. Mas ele conseguiu me tirar do sério, e eu fiquei me recriminando por isso.
Nesse dia, aconteceu uma coisa espantosa: Rony percebeu que os meus dentes estavam diferentes. Concluí que nem tudo estava perdido, afinal. Como será que Rony ia reagir quando soubesse com quem eu ia ao baile?
Deixei os meninos brincando de batalha com bolas de neve no pátio e subi para me arrumar com Gina, não sem antes ouvir Rony perguntar mais uma vez com quem eu iria ao baile. Afinal, não se diz por aí que as pessoas só valorizam algo quando o perdem? Parecia ser esse o caso de Rony.
Três horas de preparação depois, eu e Gina descemos, prontas para o baile. Encontrei Vítor na entrada do salão, e ele me ofereceu o braço, como um cavalheiro. A professora McGonagall nos orientou a ficar junto à porta, aguardando para entrar no salão com os outros três casais de campeões.
Fiquei olhando para Harry para cumprimentá-lo, mas seu olhar me atravessou como se não me conhecesse. Será que eu estava tão diferente assim? A julgar pela expressão de Parvati, estava, sim. Finalmente, ele me reconheceu, e eu queria ter uma máquina fotográfica para registrar sua expressão: ele ficou boquiaberto, como se estivesse me vendo pela primeira vez, e eu corei.
Saímos em fila, de braços dados, em direção ao salão. Logo identifiquei o fã-clube de Vítor, pois as garotas me olhavam com desprezo e incredulidade, como se eu fosse um explosivim. Eu apenas sorria, desfrutando o momento - essa é uma daquelas experiências que transformam a vida de uma pessoa, e eu estaria mentindo se não dissesse que foi como um sonho realizado. Era o meu momento de transição, de patinho feio a cisne, de menina (ou pior, de mais um garoto da turma) a mulher. Sabia que nunca mais seria olhada da mesma forma pelas pessoas, incluindo Harry e Rony, que eu ainda não havia visto.
Pansy Parkinson não conseguiu evitar que seu queixo de buldogue caísse quando passei, admirada, e Malfoy, ao seu lado, parecia tão espantado quanto ela. Finalmente, vi Rony, que havia passado ao meu lado sem me ver (ou fingindo não me ver).
Sentei com Krum, Harry e os demais campeões e seus pares na mesa de jantar com os diretores das casas. Vítor estava animado e sorrindo (o que era surpreendente num rosto sempre tão compenetrado), e nossa conversa fluía com facilidade. Ele contava como era Durmstrang sob os olhares de censura do diretor Karkaroff, que parecia temer que ele revelasse algum segredo. Mas eu e Vítor, que até aquele momento não havíamos propriamente conversado, estávamos nos comunicando muito bem.
Após o jantar, o salão foi arrumado para o baile. Os casais dos campeões iriam abrir a primeira dança. Quando as Esquisitonas começaram a tocar uma valsa alegre e agradavelmente ritmada, eu e Vítor começamos a dançar, assim como os outros campeões. Depois, outros casais foram se juntando a nós.
Pelo que pude perceber, Harry se saiu muito bem com Parvati. Porém, ele logo deixou a pista de dança, e enquanto dancei três ou quatro músicas com Vítor, notei que ele e Rony ficaram sentados o tempo todo.
Fizemos um intervalo e Vítor foi buscar algo para bebermos. Sentei ao lado de Harry e Rony, que me olhava de maneira particularmente furiosa. Começamos a discutir, e ele falou absurdos, como que eu estava confraternizando com o inimigo ou iria passar informações sobre Harry a Vítor. Como ele podia ser tão estúpido?
Continuamos a bater boca, e eu fiquei com muita raiva dele. Não deduzi o óbvio: ele estava transtornado de ciúmes. Mas toda a raiva que eu estava dele por ter pensado em me convidar para o baile apenas como último recurso impedia que eu enxergasse muita coisa.
Decidi me afastar de Rony e Harry, que não parava de olhar Cho dançar com Cedrico com cara de enterro. Vítor estava empolgado para dançar, e eu aproveitei bastante. Quando as Esquisitonas começaram a tocar uma seleção de rocks mais vibrantes, os alunos foram se aglomerando perto do palco, todos dançando de forma despreocupada e animada.
Eu olhei para os lados, e confesso que fiquei até um pouco emocionada: alunos de todas as casas se misturavam com os alunos visitantes. Cedrico dançava sem paletó, e os cabelos de Cho balançavam soltos e um pouco desarrumados. Fred e George giravam suas parceiras numa coreografia louca, e até Crabbe e Goyle pulavam com alguns alunos de Durmstrang, como gigantes amistosos.
De vez em quando, eu procurava discretamente onde estaria Draco. Vi que dançava com Pansy no começo do baile, e depois não o vi mais - a julgar pela sua fama, devia estar dando um amasso com Pansy atrás de alguma moita lá fora.
Quando o baile acabou, à meia noite, me despedi de Vítor na beira da escada. Ele beijou a minha mão e se afastou com uma breve reverência, de forma galante. Subi meio automaticamente atrás de Harry e Rony, cada um deles sob sua própria nuvem cinza de mau humor.
Na sala comunal, Rony começou a discutir comigo de novo e eu explodi, dizendo que se ele tivesse me convidado como primeira opção nada disso teria acontecido. Ele ficou me olhando como se eu estivesse louca, e saí da sala para chorar no corredor. Gina me encontrou ali:
- Mione, o que foi? Por que você está chorando?
- Por causa do ogro do seu irmão - respondi, fungando.
- Ah, não, não admito! A rainha do baile chorando por causa daquele bobalhão? Vem, vamos voltar pro salão.
- O baile acabou, Gina…
- Não! Conseguimos mais uma hora de baile com a McGonagall! Eu vim buscar você.
- Ah, eu não sei…
Nisso, Neville apareceu:
- Gina, já vai começar!
Ao me ver, completou:
- Vamos, Mione! Vamos dançar a Quadrilha Bruxa!
Os dois ficaram puxando meus braços, um de cada lado, delicados mas decididos, e acabaram me convencendo. No salão, havia poucos alunos, os mais alegres e resistentes: Fred e Angelina dançavam, mas Jorge havia desaparecido, provavelmente estava em algum lugar num amasso com a garota da Lufa-lufa que o acompanhou no baile. Fleur e Rogério reapareceram no salão, e Cedrico e Cho dançavam numa rodinha com dois garotos de Beauxbatons e duas garotas de Corvinal. Havia ainda as irmãs Patil, decididas a aproveitar tudo aquilo que seus aborrecidos parceiros anteriores não tinham permitido.
McGonagall estava ao lado de Julian McCeilidh, o monitor chefe, e gesticulava indicando que o baile duraria uma hora e nada mais. A banda tocava um rock suave e ritmado, que alguns casais dançavam juntos, e outros grupinhos de quatro ou cinco pessoas dançavam separados. Hagrid e Madame Maxime dançavam uma música lenta que apenas eles ouviam.
Ó abelha rainha, faz de mim
Um instrumento de teu prazer
Sim, e de tua glória
Myron Wagtail cantava com os olhos fechados e a boca colada no microfone como se ele fosse feito de pele. Apenas Donaghan Tremlett o acompanhava no baixo, num ritmo lento, com uma pulsação sensual. Gina e Neville foram para a pista, me levando com eles, e começamos a dançar, os três juntos. Lino e Padma se juntaram a nós, assim como Patil e o rapaz de Durmstrang. Ficamos dançando em rodinha, envolvidos pelo ritmo da balada quente e doce.
Pois se é noite de completa escuridão
Provo do favo de teu mel
Cavo a direta claridade do céu
E agarro o sol com a mão
O ritmo se intensificou, e Myron Wagtail agora explodia em vocais guturais. O baixo era forte e ritmado. Um grupo de três ou quatro garotas de Beauxbatons dançava uma coreografia improvisada, e eram admiradas por uns garotos mais jovens da Corvinal e da Lufa-lufa, embevecidos.
É meio dia, é meia noite, é toda hora
Lambe olhos, torce cabelos
Feiticeira, vamos embora
Quando a música acabou, McCeilidh começou a pedir a quadrilha para a banda, e de forma muito gentil conduziu a professora McGonagall para o centro da pista. Ele vestia um kilt escocês e estava muito elegante. Ela estava radiante e, como típica highlander, ansiosa pela Quadrilha Bruxa. Cada um exibia a padronagem dos seus tartans, e era bonito vê-los juntos, como se fossem parceiros de dança prestes a apresentar uma coreografia ensaiada com capricho e dedicação.
Os primeiros acordes da gaita de foles soaram, fazendo uma introdução enquanto os pares tomavam seus lugares. Enfileirados, cavalheiros e damas iam se colocando frente a frente.
Eu não estava preocupada com quem ia dançar, apenas me perfilei com os demais. Cormac McLaggen estava se posicionando na minha frente, meio espantado com a própria sorte, e me olhava de boca aberta.
- McLaggen, presta atenção, esse lugar está ocupado.
Draco Malfoy apareceu por trás de McLaggen, empurrando-o decidido para o lado e ficando na minha frente. Ele se afastou, murmurando algo, e ficou logo ao lado de Malfoy, que era uma cabeça mais alto do que ele.
Observei Draco enquanto esperávamos a dança começar: seu cabelo estava um pouco desarrumado, e ele transpirava de leve. Havia tirado o paletó e estava de camisa, colete e gravata branca, amarrada de forma frouxa, e com as mangas dobradas. Ele me olhava dentro dos olhos, sem desviar, de forma séria, como se estivesse fazendo uma poção muito difícil, e do seu olhar dependesse o sucesso da preparação. Eu correspondia o olhar, igualmente séria, e lembrei dos segundos mais longos que eu já havia vivido quando nos encaramos no corredor da escola, no final do ano letivo passado.
A quadrilha começou. Damas e cavalheiros se cumprimentaram, e eu e Draco continuamos a nos encarar durante a reverência, como se estivéssemos cada um diante de um hipogrifo. No primeiro movimento, os pares deveriam juntar as mãos e girar. Depois, as damas iam se alternando com outros cavalheiros, percorrendo toda a fila, e os novos casais formados rodavam intercalados.
Eu estava ficando quase sem fôlego e ria muito. Ouvia as risadas divertidas das outras pessoas e seus gritinhos animados, e mesmo se alguém errava algum passo, ninguém parecia se importar.
Observei Draco girando com as outras damas, e ele estava sorrindo de uma forma tão descontraída como eu nunca havia presenciado. Neville parecia um dançarino muito mais gracioso quando giramos, e dançava sem se preocupar se poderia pisar nos pés das parceiras. Depois formamos quatro rodas, e dávamos alguns passos para dentro e para fora. Angelina e Fred estavam na minha roda, e todos estávamos nos divertindo muito.
Quando retornamos ao começo, o cavalheiro deveria tomar o braço da dama e girar com ela. Draco me segurou mais perto do que o necessário enquanto girávamos. Nós dois nos olhávamos, mas estávamos sorrindo agora. Ele estava tão próximo que eu pude sentir o seu perfume fresco e amadeirado, entorpecente, com as notas de cedro, sândalo e musgo sendo exaladas com o calor do seu corpo.
- Eu estou ficando tonta - falei, quase sem fôlego.
- Eu te seguro, Granger - e estreitou ainda mais o espaço entre nós.
Agora, damas e cavalheiros formaram as fileiras novamente, e os casais deveriam passar dançando entre elas, em passos salteados, de mãos dadas. Na nossa vez, Draco não seguiu o padrão e segurou minha cintura com firmeza, e atravessamos o túnel rindo e saltando. Não sei onde estava Pansy Parkinson, mas ela certamente não ia gostar de ver isso, muito menos Rony.
Terminamos em uma roda com todos de mãos dadas, Draco do meu lado esquerdo e McLaggen do direito. Gina trocou olhares comigo, sorrindo muito também, assim como Miguel Corner, ao seu lado.
Observei McGonagall do outro lado da roda, e ela parecia ter vinte anos de idade. Éramos cerca de trinta dançarinos, e todos estávamos tão felizes que eu desejei que essa noite entrasse para a história bruxa como o Baile dos Trinta Dançarinos Bem-Aventurados.
A música foi se aproximando do fim, e quando acabou eu estava emocionada, como todos ali. Continuamos de mãos dadas por alguns segundos, a energia fluindo entre nós. Depois, aplaudimos aquele momento mágico.
McGonagall saiu da formação primeiro, foi se aproximando do meio da roda e sinalizando para a banda que estava na hora de encerrar. A roda a aplaudia, enquanto ela fazia uma leve mesura, de forma divertida, apoiada na mão de McCeilidh. Alguns protestavam, outros começaram a sair da formação, brincando e conversando, todos celebrando.
Draco virou de costas para o centro da roda e se alinhou ao meu lado, tocando meu braço levemente com o dorso dos dedos. Aproximou o rosto do meu, e falou em voz baixa:
- Você está linda, Granger.
Me virei para olhá-lo. Ele caminhava em direção à saída do salão, e não olhou para trás.
Notas
Os versos citados são da música Mel, de Caetano Veloso e Waly Salomão.
Se você não conhece a música, por favor, não a escute! Ela tem um ritmo de salsa, nada a ver com o rock que eu imaginei. Se conhece, foque na letra. A letra tem uma carga forte de erotismo, e traduz bem as emoções subliminares acontecendo no salão.
