Não fui a única que não dormiu naquela noite, apesar de ter deitado assim que cheguei no quarto. Não conseguia concatenar os pensamentos, minha mente girava como se eu ainda estivesse dançando a quadrilha. Pensava em Draco, na dança, nos olhos sérios, no que ele me disse ao sair. Eu senti dor - começou como aquele afundamento no estômago, uma excitação, mas era tão forte que se tornou dor, eu não consigo descrever de outra forma.

No dia seguinte, acordei como se tivesse acabado de tomar uma poção de mandrágora e meu corpo começasse a se mover lentamente após ter ficado petrificado por algum tempo.

As conversas sobre o baile dominaram o almoço de Natal. Fiquei conversando com Gina, Lilá e Parvati daquele jeito animado que as garotas têm quando estão falando de diversão e garotos, sob os olhares tortos de Harry e Rony, que comiam em silêncio, ainda emburrados.

Falamos de tudo e todos, as meninas ainda encantadas em como eu estava bonita e claro, dançando com Krum. Eu dava vazão aos comentários. Por favor, falem de Krum, e não de Malfoy, desejava secretamente.

Por algum estranho motivo, as pessoas comentaram sobre a quadrilha de uma forma muito geral, o que me deixou aliviada. Talvez ninguém tivesse reparado que dancei com Malfoy, ou não tivesse dado muita importância.

Ou talvez a professora McGonagall tenha lançado um leve feitiço da memória em todos nós para que não ficássemos comentando como ela estava deslumbrante - certamente, seu decoro não permitiria isso.

O fato é que nós nos lembrávamos da quadrilha e comentávamos, mas de forma breve, como se cada um quisesse guardar as melhores lembranças apenas para si mesmo, ou como se tivéssemos compartilhado uma cerimônia de iniciação sobre a qual não poderíamos revelar maiores detalhes.

Procurei Draco com os olhos na mesa da Sonserina. Ele estava lá do mesmo jeito de sempre, rindo com os amigos e sussurrando algo no ouvido de Pansy, que parecia mais feliz do que nunca. Em nenhum momento ele me olhou, e eu tive certeza de que ele não iria me procurar e nem dar algum tipo de importância especial ao que aconteceu na quadrilha.

Não conseguia imaginar eu e Draco indo à Casa de Chá Madame Puddifoot em Hogsmeade num final de semana para tomar um sorvete, como um casal normal da nossa idade. Parecia errado.

A presença de Krum em pé, ao meu lado, me despertou desses pensamentos. Minhas amigas se acabavam em risadinhas mal-disfarçadas, e mesmo sem ver eu sentia o olhar de Rony, como se lançasse duas maldições Cruciatus, uma para mim e outra para Krum. Ele me convidou para dar um passeio, e aceitei.

Por onde passávamos, alguém se virava pra nos olhar ou cochichava algo. Comentei com Krum que achava que era assim que as celebridades se sentiam. Ele disse que sabia, por conta do quadribol, mas não dava importância.

Tentei entabular outros assuntos com ele; perguntei sobre o que estava pesquisando na biblioteca, e ele disse que ia lá apenas para me ver. Notei que seus interesses eram um pouco limitados. Como eu não era uma grande fã de quadribol, não restava muito sobre o que conversar. Ele ficou contando sobre sua vida em Durmstrang, eu falei sobre meus estudos.

No geral, foi isso, mas ele era uma boa pessoa, e aquela expressão meio assustadora me pareceu mais uma pintura de guerra para intimidar seus adversários. Trocamos um beijo rápido, e senti que o projeto de esquecer Draco deveria continuar, agora mais do que nunca.

Ao voltar, achei que Rony já estava um pouco melhor, pelo menos já não me olhava com raiva, ou estava disfarçando bem. Fizemos um pacto silencioso de não tocar no assunto baile. Ele e Harry queriam me contar o que descobriram sobre os gigantes, e Harry ainda tinha que se preparar para a segunda tarefa.

Já estava na hora de voltarmos aos deveres de casa, o que me aliviou profundamente. Tudo estava retornando ao normal, inclusive meu cabelo. Eu adorei o que Gina fez com ele, mas não conseguia me imaginar gastando uma hora por dia em feitiços de embelezamento, achava fútil.

No fundo, acho que eu tinha aquela ideia de que garotas inteligentes não se preocupam com a aparência. Foi gostoso me sentir admirada e invejada por conta do baile, mas, sei lá, aquilo não era eu.

Outro pensamento me assustou: ficar bonita, me assumir como uma mulher, bagunçava a organização da minha vida, e eu detestava bagunça. A beleza tinha atraído Draco na noite do baile, como se ele fosse um inseto capturado numa teia e não pudesse resistir a ser preso, e nem eu a capturá-lo.

Era uma energia poderosa. Eu já havia lido muito sobre o Sagrado Feminino, mas uma coisa era conhecer teoricamente, e outra era sentir uma excitação tão forte que doía. Eu tinha medo, muito medo desse lado, e não conseguia lidar com isso, pelo menos não agora.

Como qualquer garota da minha idade, eu tinha muito interesse em sexo. E sabia bastante, pois, diferente da maior parte das garotas da minha idade, havia lido muito sobre o assunto, de forma discreta, sempre alegando para mim mesma interesses sociológicos no tema. Obviamente, meu conhecimento teórico sobre sexo era inversamente proporcional às minhas experiências práticas.

Me lembro de um certo livro indiano com gravuras particularmente explícitas. Aquilo tudo me fascinava, mas eu corava até o último centímetro de pele ao imaginar a possibilidade de fazer algo assim com alguém. Com Rony não era nem possível formular esse pensamento, muito menos com Krum, que parecia puritano demais. Mas tremi ao constatar que era possível imaginar-me com Draco, ou pior, que desejava fazer isso com Draco.

Fiquei em pé e bati na mesa, com um barulho tão forte que assustei Lilá, que lia ao meu lado. Chega disso, Mione. Se você não sabe lidar com essa força, o melhor que tem a fazer é ser prática e se preocupar com as coisas que sabe lidar. Dito isso, peguei a pilha de livros ao lado da minha cama e fui para a biblioteca colocar as tarefas em ordem.

Me senti bem melhor voltando a mergulhar nas tarefas acadêmicas, mas sabia que isso não resolveria todos os problemas. Harry estava procrastinando a resolução da mensagem para a segunda tarefa, e isso me deixava irritada.

Rita Skeeter publicou aquele artigo abominável destratando Hagrid. Ficamos enraivecidos, sem conseguir entender como ela descobriu aquelas informações. Malfoy, é claro, estava se divertindo bastante e provocando Harry. Por isso, no dia em que encontramos com Skeeter no Três Vassouras, Harry acabou perdendo a cabeça e eu, que deveria acalmá-lo, também perdi e discutimos com a megera, defendendo nosso amigo Hagrid. Rony ficou preocupado que ela escrevesse mentiras sobre mim, do que eu desdenhei, furiosa. Fomos em seguida à cabana de Hagrid, tentar animá-lo, e encontramos Dumbledore lá, que se juntou a nós na tarefa.

Harry se arrependeu de ter deixado a solução da segunda tarefa para a última hora, e eu não deixei de lembrá-lo que eu o preveni diversas vezes quanto a isso. Na noite anterior à prova, ficamos lendo literalmente montanhas de livros procurando algum feitiço para ajudá-lo.

Estávamos assim quando Fred e Jorge vieram nos buscar, a mim e ao Rony, para ir até a sala da professora McGonagall. Essa é a minha última memória do dia: não lembro de ter andado até lá, nem de ter tomado a poção oferecida pelo professor Snape, nem tenho qualquer lembrança, mesmo que em sonhos, de ter ficado submersa no lago. Quando acordei, já estava no tablado junto com os juízes, e Madame Pomfrey me aquecia com alguns feitiços.

Harry interpretou a mensagem do ovo ao pé da letra e se esforçou para libertar também a irmã de Fleur (que havia sido desclassificada), além de libertar Rony. Harry é tão corajoso que às vezes (ou na maior parte das vezes) não pensa, ou pensa com o coração - é claro que Dumbledore não permitiria que ninguém morresse no lago. Mas, pensando bem, depois de tudo o que aconteceu, ninguém podia garantir de fato a segurança do torneio, e a intuição de Harry tinha seu fundo de verdade.

Fiquei tão preocupada com Harry que mal agradeci Krum por ter me salvado na prova. Não deixava de ser carinhoso da parte dele que eu fosse a coisa que ele mais sentiria falta, apesar de eu me esforçar para não encorajá-lo, ainda que não tivesse recusado seu convite para visitá-lo no verão (prometi pensar).

Ele me avisou que havia um besouro em meus cabelos, e eu reagi afastando-o com as mãos. Logo em seguida, me ocorreu que poderia ser uma abelha e Krum não soubesse a palavra certa, mas era um besouro, mesmo. Um besouro que se revelaria bem especial.

Na aula de Poções, uma pequena sessão de tortura me aguardava. Pansy Parkinson me mostrou uma revista que publicou uma matéria de Rita Skeeter em que eu era apresentada como uma garota volúvel, brincando com os sentimentos de Harry e Krum, além de feia e capaz de utilizar uma poção do amor para enganar os garotos. Respondi com um sorriso irônico para Pansy, procurando deixar claro que não estava incomodada com aquela bobagem.

Claro que aquilo me incomodou, mas o que me deixou intrigada foi como Skeeter descobriu que Vítor me convidou para visitá-lo no verão, assim como o detalhe embaraçoso dele ter me dito que nunca havia se sentido assim com nenhuma garota.

Rony parecia mais abalado do que eu deveria estar, afinal a notícia era sobre mim. Quando o professor Snape puxou a revista e começou a ler em voz alta e debochada, eu quis desaparecer. Nunca acreditei tanto em Harry quando ele dizia que o professor o perseguia, e tive certeza que esse ódio era tamanho que até eu tinha direito a alguns respingos, como naquele momento.

Malfoy havia se limitado a movimentar seu distintivo com o "Potter fede" durante a performance de Snape. Relembrando a cena, achei que ele estava mais calado do que seria esperado numa situação perfeita para humilhar Harry. Eu não sabia na época, mas ele acreditava que eu estava mesmo apaixonada por Harry. Como os garotos podem ser tão obtusos?

Comecei a receber cartas ameaçadoras das garotas do fã-clube de Harry. Decididamente, eu não estava me tornando popular - até um pequeno atentado com pus de bubotúbera sofri, tendo que enfaixar as mãos. Isso só me deixou com mais raiva de Skeeter, e mais decidida ainda a descobrir como ela obteve suas informações.

Essa história já estava rendendo demais, até Vítor foi perguntar para Harry se eu e ele tínhamos alguma coisa. A solução veio por uma intuição que tive a partir de um comentário de Harry, de que ela teria me grampeado, como um detetive trouxa.

O projeto sobre a libertação dos elfos não se desenvolveu bem como eu pensava, pelo menos na época, mas me ensinou muita coisa que seria importante na minha carreira no futuro. Concluí que Dobby poderia ajudar mais a libertar os elfos pelo seu exemplo de vida plena em liberdade. Eles ainda não enxergavam a própria servidão, e a consciência desse estado precisava vir antes de desejarem a liberdade.

Com a momentânea pausa no projeto dos Elfos, eu estava precisando cultivar algo que exercitasse a minha mente, pois assim não ficava pensando bobagens, e me dediquei de corpo e alma a descobrir como Skeeter estava obtendo suas informações. Quando vi Malfoy cochichando para a própria mão, entendi que ele estava envolvido no que Skeeter estava fazendo, mas ainda não sabia bem como.

Com a última reportagem publicada eu matei a charada, e descobri que ela era um animago clandestino que assumia a forma de um besouro. Apesar de ter ficado feliz em ter desmascarado e neutralizado a caluniadora, também fiquei triste em constatar que Draco Malfoy não media consequências para atacar a reputação de Harry, mesmo se para isso tivesse que usar mentiras e subterfúgios ilegais.

Mas tristeza era algo de que nenhum de nós seria poupado, a julgar pelos terríveis acontecimentos que se desenrolaram na terceira tarefa e resultaram na morte de Cedrico e na volta de Voldemort, com Harry sendo usado como uma espécie de sacrifício num ritual maligno.

Todo aquele espectro de baixezas me dava náuseas, desde a maldade inominável de Voldemort até as mesquinharias de Malfoy. Harry me disse que ele não brindou quando Dumbledore fez o discurso de homenagem a Cedrico, assim como outros alunos de Sonserina. Eu sabia que isso envolvia uma espécie de reconhecimento público do que Harry fizera, seu ato heróico ao trazer o corpo de Cedrico, e Draco nunca prestaria esse tipo de homenagem, nem que Harry tivesse salvo a sua própria vida. Era uma constatação deprimente.

Estávamos prestes a entrar nos tempos mais duros do que viria a se tornar uma guerra terrível, e eu via Draco Malfoy do lado que sempre esteve: da sua família de sangue puro, da crença na inferioridade dos nascidos trouxas, do seu ódio e desprezo aos sangues ruins… como eu. Eu não conseguia entender como ainda podia pensar nele, ter esse sentimento, essa compaixão.

Com o bom senso comprometido pelo que eu sentia em relação a ele, enxergava apenas o Malfoy que tomava decisões friamente calculadas. Eu era incapaz de ver o menino amedrontado, querendo agradar um pai frio e distante, e sendo vencido repetidas vezes por um herói que, ainda que involuntário, acabava roubando a cena e ficando com a garota no final. Pelo menos, é no que ele ingenuamente acreditava.

Eu não tinha condições de perceber. Não poderia adivinhar, nem fui capaz de interpretar os oráculos para entender sua mensagem. A professora Trelawney tinha razão, a minha mente era muito terrena.

Ao observar Malfoy gritando com Harry na cabine do trem de volta para casa, quando ele disse que os sangue ruins e amantes de trouxas seriam os primeiros a serem mortos por Voldemort e ofendeu a memória de Cedrico, eu não conseguia enxergar o menino ferido, lutando para se singularizar, para ser alguém que não viveria à sombra de Potter.

Viver à sombra de seu pai e de Voldemort também não o faria feliz, só que Draco Malfoy não tinha como saber disso, e iria demorar alguns anos para descobrir.