As férias foram estranhas. Na maior parte do tempo me senti deprimida e preocupada, e procurei me conter para não desassossegar meus pais. Fiquei atenta aos noticiários trouxas, temendo que houvesse algum ataque dos Comensais da Morte.
Dumbledore não permitiu que ninguém escrevesse para Harry, para evitar que alguma informação importante pudesse ser interceptada e comprometesse a sua segurança. Ele estava sendo vigiado pelos bruxos da Ordem da Fênix, e todo o cuidado era necessário. Não havia muitas informações sobre o que Voldemort estava fazendo, e era esperado que estivesse se organizando.
Logo fui para a sede da Ordem ficar com Rony e sua família - era o mais seguro a fazer, mas nos sentíamos mal por não poder falar com Harry. A coisa mais próxima de diversão que tivemos nas férias foi limpar (ou tentar limpar) a mansão dos Black, a sede da Ordem em que estávamos hospedados. Era uma casa secular, com uma sujeira que parecia estar lá há ainda mais tempo, cheia de quinquilharias e camadas e mais camadas de feitiços difíceis de serem removidos.
Pelo menos, isso servia de distração para minha mente, que oscilava entre a depressão e a ansiedade de forma mais ou menos rápida, dependendo do momento. Também havia começado a aprender a tricotar, pois tive a ideia de tecer gorros para os elfos domésticos, que deixaria sobre os móveis em Hogwarts. Quando eles fossem fazer a limpeza, poderiam ganhar uma peça de roupa e se libertar. Não sei se ia dar certo, mas era mais uma forma de me ocupar.
Não levei a sério a possibilidade de ir visitar Krum no verão. Seria arriscado na situação atual, além do que meio inapropriado, pois indicaria uma proximidade que não havia entre nós. Deixei claro que podíamos ser amigos e nos corresponder quando eu voltasse a Hogwarts, mas não mais que isso.
Eu me sentia esvaziada e desinteressada em relacionamentos. Pensava no ciclo de morte e renascimento das estações regidos pela deusa Deméter, e me sentia no momento mais escuro do inverno, apesar de estarmos em pleno verão.
Quando Harry veio ao nosso encontro e soubemos que foi perseguido por dementadores em seu bairro trouxa, fiquei aterrorizada. Isso dava uma ideia do tipo de movimento inesperado que poderia acontecer daqui para a frente, com o mundo bruxo invadindo o mundo trouxa, e isso não era nada auspicioso.
O Ministério da Magia optou por negar o retorno de Voldemort, tratando-o como um delírio de Harry e Dumbledore, que passou a ser desacreditado também. A imprensa estava sob censura, e o Profeta Diário empreendia uma campanha de difamação muito bem orquestrada contra Harry, apresentando-o como alguém mentiroso e irresponsável em busca de fama. A Ordem da Fênix era tudo o que tínhamos, o único foco de resistência organizado.
Harry foi convocado para depor no Ministério da Magia sobre o episódio com os dementadores e estava arriscado a ser expulso de Hogwarts. Ele deveria ir sozinho, o que me preocupava, pois já o conhecia o suficiente para saber da sua tendência a se isolar, se fechar para os amigos e tentar lidar sozinho com coisas que estavam além das suas forças.
Dumbledore esteve com ele e atuou em sua defesa, o que foi decisivo para que fosse inocentado. O velho bruxo, mesmo destituído da sua posição de bruxo chefe na Suprema Corte dos Bruxos, ainda era mais afiado que todos os conselheiros juntos. Se eles tivessem o mínimo de bom senso, saberiam que um bruxo com sua capacidade e experiência não iria arriscar sua reputação para embarcar no que tratavam como delírios de um adolescente perturbado.
No entanto, ainda que o diretor estivesse efetivamente empenhado na defesa de Harry, parecia ao mesmo tempo estar distante, pois Harry nos contou que ele nem olhou para ele durante a audiência. Os adultos tomavam cuidado ao selecionar as informações que nos contavam de forma a nos proteger, mas isso não funcionava bem e era fonte constante de conflito entre a Sra. Weasley e Sirius.
Harry queria saber mais e queria se juntar à Ordem, como todos nós. Não éramos mais crianças que poderiam ser protegidas da maldade do mundo e, a julgar pelo que já havíamos passado até ali, era incontestável que os adultos podiam nos proteger muito pouco em determinadas circunstâncias.
Assim, somava-se à atmosfera geral de medo e insegurança essa disputa velada sobre ficarmos ou não excluídos do que estava acontecendo na Ordem da Fênix e contribuir de uma maneira mais efetiva.
Harry viu Lúcio Malfoy conversando com o Ministro da Magia no dia do seu depoimento, o mesmo Lúcio Malfoy que estava no grupo de Comensais presentes à cerimônia de retorno de Voldemort no cemitério. Isso deixava claro que os Comensais da Morte influenciavam o Ministério. Por mais inaceitável que fosse, era uma prova de que não era mais possível confiar nas instituições, pois estavam corrompidas.
Minha reação involuntária e secreta, ao saber desse encontro, foi pensar em Draco. Talvez estivesse orgulhoso do pai. Como será que se sentia ao pertencer a uma família de Comensais da Morte e partilhar a intimidade com Lorde Voldemort? Era repugnante, e eu estremeci ao imaginar. Isso só fazia meu sentimento de solidão aumentar.
Nunca havia me sentido tão desconectada de Draco num nível essencial, quando uma pessoa se dá conta de que os valores principais da outra são incompatíveis com os dela, e não há manobra diplomática possível para conciliá-los. Enxergar essa verdade me entristecia, por mais contraditório que fosse.
Ficava imaginando se o Synchro teria parado de funcionar. Em breve eu saberia, pois o dia de retornar a Hogwarts estava próximo. De qualquer maneira, o quinto ano era um momento importante da vida escolar, pois prestaríamos os exames para obter os Níveis Ordinários em Magia - graças à Deusa, eu teria muito com que ocupar a minha mente.
A notícia mais alegre das minhas férias foi, sem dúvida, ter sido nomeada monitora, juntamente com Rony, por incrível que pareça. Não quero desmerecer o Rony, mas ele não era o tipo de aluno aplicado cujas qualidades justificassem uma nomeação dessas. Ele mesmo não acreditava, e apesar de dizer que era algo meio babaca e que ele não ia ficar como Percy, sua mãe estava tão orgulhosa que ele se permitiu desfrutar esse raro momento de glória, em que finalmente estava sendo escolhido para alguma coisa ao invés de Harry, que aceitou bem a situação, apesar de não parecer muito feliz com isso.
Ao embarcarmos no trem, eu e Rony fomos ao vagão dos monitores para nossa primeira reunião, em que receberíamos nossas tarefas e conheceríamos a organização da monitoria para o ano, assim como os casais de monitores das outras casas. No caminho, encontramos Thomas Fawley, agora monitor-chefe, que iria coordenar a reunião, juntamente com May Robins, sua parceira monitora-chefe. Ele seria um ótimo líder, era bonito e atencioso, e lembrava Cedrico, pensei com tristeza.
Fawley nos cumprimentou de maneira afável, e pediu que fôssemos nos juntar aos demais, enquanto ele pegava um último material. Notei que ele segurava uma pasta com um acabamento bonito de couro de dragão trabalhado nas cores da Corvinal, sua casa. Na capa, o desenho de uma abelha se destacava, num acabamento refinado.
Aquela sensação de engolimento, que não experimentava há dois meses e que imaginava ter esquecido, voltou como se a tivesse sentido ontem. Era aquele derretimento quente da garganta para baixo, como se uma corrente presa ao meu umbigo fosse puxada para trás e para baixo de forma inesperada. Faltavam alguns passos até a entrada do vagão dos monitores, e era tudo que eu tinha para prestar atenção na respiração e tentar me recompor. Agradeci pelo corredor estreito obrigar que Rony ficasse atrás de mim, assim ele não veria a minha cara de desespero.
Todos já estavam lá. Ernesto Macmillan e Ana Abbott, da Lufa-lufa, estavam sentados ao mesmo lado num dos bancos, e pelo jeito continuavam namorando. Anton Goldstein e Padma Patil, da Corvinal, estavam sentados logo em frente. Eu gostava de ambos, e achei que foram uma ótima escolha.
O mesmo não poderia ser dito do casal da Sonserina. Pansy Parkinson? Aquela mentecapta, para quem a escola não passava de um lugar para conspirar com suas amigas maldosas e correr atrás de Draco Malfoy? Aquilo teve o efeito de um tapa na cara para mim, o que fez com que eu recuperasse meu raciocínio, afinal, eu precisaria muito dele.
Confirmei, sem surpresa, que Malfoy era o outro monitor de Sonserina. Ele estava com a cabeça no colo de Pansy. Ela tinha os dedos mergulhados nos seus cabelos loiros, que pareciam quase brancos no contraste com suas vestes negras. Ele virou a cabeça em direção à porta sem levantar do colo dela quando entramos, o que fez lentamente, de forma estudada, como se quisesse nos dar tempo suficiente para admirá-lo. Com aquele sorrisinho irônico tão característico, disse:
- Ora, ora, o que temos aqui… Dumbledore pirou, olha a prova…
Rony estava silencioso, mas eu podia ouvir sua raiva borbulhando, como uma chaleira prestes a apitar. Por sorte, May Robbins nos recebeu, dizendo que a reunião já iria começar, e nos convidou a sentar. Os lugares disponíveis eram em frente a Draco e Pansy, para minha desgraça e de Rony. Draco levantou a cabeça do colo de Pansy e sentou, ajeitando a lapela do seu terno, sem tirar os olhos de Rony, que o encarava de volta.
Dei um cutucão de leve em Rony, cujo significado era "ignore-o", como eu nem precisava dizer. Dediquei minha melhor revirada de olhos para o casal e reuni todas as minhas forças para prestar atenção em Robbins, que estava distribuindo um pergaminho para cada um de nós com a pauta da reunião.
Ao abaixar os olhos para ler, não pude evitar prestar atenção nas mãos de Draco segurando o pergaminho, pois ele estava sentado logo à minha frente. Mãos finas, de pele branca e lisa, com dedos longos. Na mão esquerda, no dedo anular, um grosso anel de prata com o brasão da família Malfoy parecia uma parte natural do conjunto, como se fosse um detalhe anatômico, uma marca de nascença exótica. No dedo indicador da outra mão estava o anel com a serpente da Sonserina - alguns garotos usavam assim, pois o anel ficava mais evidente quando empunhavam a varinha.
Preciso aprender um feitiço de desilusão para não me mostrar enrubescendo, pensei. Será que isso existe? Se alguém criasse um produto assim ganharia muito dinheiro. Mesmo com o rosto queimando, arrisquei levantar os olhos para ele. A voz de Fawley ao fundo parecia mais um ruído das engrenagens do trem em movimento, e eu não distinguia nenhuma palavra.
Draco estava olhando direto para mim, parecendo apenas estar esperando o momento em que meus olhos encontrariam os seus. Estava com aquele olhar sério que eu já conhecia e que eu não poderia suportar, não tão próxima de Rony e de Pansy, era quase obsceno. Mergulhei no pergaminho como se fosse um salva-vidas, e tentei respirar de forma mais pausada, reencontrando a voz de Fawley como se ele estivesse no final de um corredor muito comprido.
Fiz uma pergunta idiota sobre horário ao Fawley só para sair do torpor, e daí para frente consegui retomar o auto-controle. A reunião durou cerca de uma hora em tempo cronológico, e consegui manter o foco no assunto, abraçando as tabelas e regulamentos como se estivesse reencontrando velhos amigos. No final, praticamente empurrei Rony para fora do vagão, tentando evitar a tradicional troca de farpas entre ele e Malfoy.
Enquanto caminhávamos no corredor estreito, procurando o vagão em que estavam Harry e Gina, pensei em Draco, ainda oculta pelas costas de Rony. Eu era muito, muito ingênua se achasse que poderia ignorá-lo, ou que o Synchro havia se cansado de me torturar. Ele estava mais bonito do que eu me lembrava, e os olhos continuavam os mesmos. Eu começava a temer aquela troca de olhares entre nós, como se fossem uma maldição imperdoável da qual eu tivesse conseguido me desviar até aqui, mas que poderia me atingir se eu não tomasse cuidado.
Uma maldição imperdoável, aliás, era o que eu gostaria de atirar em Pansy Parkinson. Vê-la morrer como o inseto na aula do pretenso professor Moody, em convulsões fatais, me traria imenso prazer. O ódio por Parkinson era mais uma coisa que eu teria que controlar, e que iria consumir a pouca energia que eu tinha disponível para isso.
Draco Malfoy não parecia nem um pouco disposto a colaborar com os meus propósitos, e fez questão de aparecer na nossa cabine para provocar Harry. Tive sangue frio suficiente para observá-lo: ele parecia interpretar um papel, como num jogo em que cada provocação bem feita rendia pontos para Sonserina. Nesses momentos, ele quase não me olhava, e nunca daquela forma. Era como se eu não estivesse presente, e mesmo quando se referia a mim, dizendo algo sobre sangue ruim ou outra cretinice, mirava algum ponto um pouco acima da minha cabeça ou no pescoço, nunca nos olhos.
Observando-o discretamente na porta da nossa cabine, foi impossível não notar como ele cresceu. Estava bem mais alto, e ultrapassava Harry e mesmo Rony. Até Crabbe e Goyle, que pareciam guarda-roupas, eram pouca coisa mais altos que ele. Estava todo de preto, com um blazer bem cortado, camisa e gravata, tudo preto. Era evidente que se tratavam de roupas finas, feitas sob medida.
Ele fazia um contraste acentuado com meus amigos, com suas camisetas despojadas e tênis sujos, dos quais não abriam mão nem mesmo quando os pés teimavam em crescer, tentando fazer com que os tênis durassem para sempre com feitiços.
Draco Malfoy, no entanto, andava entre nós, jovens com jeans, como um príncipe entre os mendigos. E parecia estar cada vez mais consciente do efeito que causava… especialmente nas garotas. Era impossível não notar os risinhos e olhares que elas trocavam entre si quando passavam por ele no corredor, nem o olhar entre invejoso e desdenhoso dos garotos.
Quando Malfoy disse que ficaria atrás de Harry como um cão de caça, gelei. Será que estava dando uma indireta sobre Sirius, e sabia algo sobre sua forma animal? Harry também ficou incomodado. Pensei que estava exagerando, mas havia parado de acreditar em coincidências faz tempo.
De qualquer modo, conviver com Malfoy havia se transformado num risco grave para Harry, já que seu pai era um Comensal da Morte, que se sentia suficientemente seguro para não ocultar esse fato. Já estava na hora de dar um jeito nesse sentimento que eu tinha por Draco e que me deixava vulnerável, o que eu não podia permitir. Só não tinha a menor ideia de como fazer isso, e já vinha tentando há anos.
Eu teria que encontrá-lo nas reuniões de monitoria com Fawley e Robins, e apesar de ser um ambiente mais controlado, já previa o quanto isso me custaria - sem contar que eu tinha sempre que ficar de olho em Rony, evitando que não avançasse em Malfoy.
Eu também imaginava que Malfoy provavelmente iria abusar dos privilégios que o cargo de monitor conferia - já no desembarque, observei que ele estava expulsando uns alunos do segundo ano da carruagem em que ele e seus amigos queriam embarcar, alegando que era uma prerrogativa de monitor. Era mais um problema: eu não poderia fingir que não via isso acontecer, e teria que levar a questão para os monitores-chefes e para a professora McGonagall, pois não poderia compactuar com esse tipo de atitude.
Para onde eu olhasse, as perspectivas eram desanimadoras, e prometi a mim mesma que não consultaria nenhum oráculo, pois não precisava das estrelas para entender que estava enrascada.
